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domingo, 31 de outubro 2004

Crônica da Campanha IX - O Planalto prefere a corja?

Deu na *Folha de São Paulo* de hoje: O Planalto e o Itamaraty estariam torcendo por Bush. É a última versão do PT light: quando pior governada a super-potência estiver, melhor para o Brasil O governo do PT acha que, num mundo unipolar, não seria conveniente a única potência ter um presidente forte, carismático e com liderança internacional efetiva. Uma grande potência e um presidente medíocre resultam numa combinação menos agressiva ao equilíbrio mundial. Deixe eu ver se eu entendi: Bush bombardeia o Afeganistão, invade o Iraque sem qualquer motivo, mata 100.000 iraquianos, dissemina o ódio anti-ocidental no mundo árabe, causa um atentado da Al-Qaeda em Madrid, destrói completamente as regulamentações que protegem o meio ambiente, enfurece a população européia, despreza as Nações Unidas, espiona os países membros do Conselho de Segurança, cospe no Protocolo de Kyoto e...... Kerry seria menos agressivo para o equilíbrio mundial? Será que o Sr. Amorim e o Sr. Lula sabem que o bombardeio da fronteira Brasil-Argentina-Paraguai foi discutido na Casa Branca depois do 11/9? Será que eles sabem onde pode estar o planeta depois de mais quatro anos de Bush? Não que eu acredite que o fraseado escolhido pela reportagem da *Folha* (só há paráfrases, não citações diretas de membros do governo Lula) seja necessariamente representativo da posição de todo o governo, mas em todo caso é a segunda vez que se noticia isso, e uma conhecedora dos corredores de Brasília me confirmou que "foi só Bush subir um pouco nas pesquisas para voltarem com a história de que Republicano é favor do livre comércio e Democrata é protecionista." 1. Se o governo brasileiro acha terá melhores condições de comércio com os EUA com Bush, ele está sendo burro e mal-informado. 2. Se o governo brasileiro acha que Bush vai ganhar, e por isso vale a pena fazer uma média-zinha antes, está sendo canalha, irresponsável, além de burro e mal-informado também. 3. Se o governo brasileiro sabe que Kerry vai ganhar e mesmo assim deixa vazar preferência por Bush, está sendo as quatro coisas acima e dando um truque bobo, que na certa sai pela culatra. Mesmo em política externa, sua área forte, o governo Lula faz bastante bobagem. Se você é assinante do UOL ou da Folha, pode conferir a horripilante notícia sobre a preferência do governo do PT, digna de Halloween, clicando aqui. Esse é o partido que eu ajudei a construir. Durma-se com um barulho desses. De volta para a campanha.

  Escrito por Idelber às 14:05 | link para este post



sábado, 30 de outubro 2004

Diário da campanha V - Atualizando a previsão

Aqui no blog ainda não deixei minha previsão, então vamos lá. Depois de revisar os números de hoje ela se mantém a mesma: No Colégio Eleitoral, Kerry 315, Bush 223. No voto popular, Kerry 51.5%, Bush 47.5%, Nader 1%. Kerry leva os três estados-pêndulo grandes, Pensilvânia, Ohio e Flórida. Bush escapa por pouco em Virgínia, mas perde também Colorado e Novo México. Quando se divulguem os resultados de Ohio na terça à noite o planeta já poderá comemorar. Contagem regressiva para o discurso de concessão da corja [link].

  Escrito por Idelber às 13:35 | link para este post




Diário da Campanha IV - Tudo pronto

Tudo pronto para a viagem para a Flórida: céu lindo e claro, anunciando o fim do reinado do tinhoso. Carro prontinho: gasosa, toneladas de material de Kerry, bananas, maçãs, iPod, laptop, romance de Dostoiévski (certeza dura até terça), fotografia dos meus filhos prá dar sorte, telefone de um monte de advogados (not taking any chances), endereço do comitê de Kerry em Pensacola. Em todo o país, os comitês de Kerry foram completamente inundados por voluntários, e têm sido inclusive incapazes de absorver a mão de obra. Pesquisas feitas à noite: Zogby, que ontem dava empate, hoje dá Kerry por 1 ponto. Há movimento. Colorado e Arkansas, estados republicanos, estão perigando ir prá Kerry também. Dos nossos estados, só Michigan é uma relativa surpresa, com um empate que na verdade nos coloca em condições de não perdê-lo, graças à nossa superioridade na boca de urna. Escrevo mais da Florida!! Temos uma Democracia e uma República para reconquistar...

  Escrito por Idelber às 11:43 | link para este post




Crônica da Campanha VIII - Aposta

O premiado jornalista Clóvis Rossi cobre a eleição para a *Folha de São Paulo*. Ontem, mencionou em seu artigo que Bush "está na frente" nas pesquisas de Ohio. Na verdade, nas 6 últimas pesquisas em Ohio Kerry lidera em 5 < http://www.nowchannel.com/state/?s=Ohio>. Rossi aceitou uma aposta: se Bush ganha em Ohio eu pago seu jantar mais caro nos EUA.

  Escrito por Idelber às 02:49 | link para este post




Crônica da Campanha VII - Apareceu Big Dog

É a grande notícia do sábado: Bill Clinton apareceu para um comício em
Novo México, estado decisivo nesta eleição.

Lembram dos tempos de Clinton? Paz, prosperidade, respeito internacional. Um presidente que fazia frases completas, não assassinava a língua inglesa cada vez que abria a boca, lia os jornais, era respeitado como líder.

E aqui fala alguém que fez *oposição *a Clinton durante a maior parte de seus dois mandatos, por vários motivos: continuação do bloqueio contra Cuba, intervenção nos Balcãs, concessões aos reacionários na questão dos planos de saúde.

Ah, éramos felizes e não sabíamos! Os anos Clinton hoje parecem um sonho: dezenas de milhões de empregos criados, leis ambientais, aumento da renda da classe média, relativa paz na cena internacional, separação de igreja e estado. Tudo destruído em quatro anos da corja.

A corja odeia Bill Clinton: superior intelectualmente, mais charmoso, mais querido, derrotou-os duas vezes. A corja gastou $70 milhões de dólares conduzindo investigações para tentar destrui-lo. Reviraram oda a sua vida. Cada transação comercial, cada transação bancária. Não acharam rigorosamente nada, a não ser que uma estagiária andava chupando sua piroca de vez em quando. Essa foi toda a base que onseguiram montar para seu grosseiro processo de impeachment.

Junto com Bill Clinton, em Novo México, falou Tereza Heinz Kerry. Mulher notável.

A presença de Clinton hoje é decisiva. Graças a ele, aqui vai outra
previsão. Bush vai perder em Arkansas também.



  Escrito por Idelber às 02:17 | link para este post




Diário da Campanha de Kerry VI - No sol da Flórida

Já estou na Flórida para um trabalho
de boca de urna que parece que será mais tenso e mais perigoso que minha
primeira experiência, a de 1982 para o PT, ainda sob ditadura. É difícil
relatar o processo de intimidação que ocorre aqui, especialmente sobre a
população negra, que apóia John Kerry em proporção quase de 9 por 1. Na
Flórida, a polícia estadual faz visitas para "checar" eleitores; o
Partido Republicano ou o governo estadual envia brutamontes para
questionar o direito de voto de eleitores democratas; listas de cidadãos
que um dia foram presos - por qualquer tipo de problema legal - são
usadas para desqualificar eleitores; cartas são enviadas aos eleitores
dizendo que mudou o lugar da votação; máquinas obsoletas e suspeitas
fazem com que o processo demore horas; 60.000 cédulas desaparecem,
curiosamente de um condado majoritariamente democrata. Vou lhes contar,
mes amis, se a ARENA tivesse feito em 1974 a metade do que faz hoje o
Partido Republicano, talvez tivesse intimidado um suficiente número de
pessoas para ganhar a eleição. Até no Brasil dos militares as eleições
se realizavam com mais privacidade e liberdade que na Flórida de Jeb
Bush. O ex Presidente Carter, que já monitorou mais de 50 eleições pelo
mundo, afirma que as condições na Flórida não apresentam os requisitos
"mínimos" de imparcialidade e liberdade. Mesmo assim, a expectativa é
que vença Kerry. Será difícil impedir que todos os eleitores enraivados
demonstrem seu desprazer com a corja.



  Escrito por Idelber às 02:04 | link para este post



sexta-feira, 29 de outubro 2004

Diário da Campanha de Kerry I

A América ferve. Há 14 anos morando aqui, nunca vi uma mobilização igual. Blogs como o Daily Kos [link]. O responsável pela fratura que talvez este país nunca consiga remendar. Muitos de nós, aqui em New Orleans, vamos sair para a Flórida para ajudar John Kerry nesse estado decisivo. Estado que é, como se sabe, governado pelo irmão do tinhoso, onde a coordenadora do processo eleitoral faz campanha para o tinhoso, e onde as práticas de intimidação e fraude são de dar inveja à burocracia mexicana. Onde os negros são sistematicamente impedidos de votar por artimanhas várias (os negros norte-americanos votam no Partido Democrata numa margem de 9 por 1). Apesar de tudo, as pesquisas mostram vitória de Kerry na Flórida, possivelmente por margem suficiente para que nenhum roubo seja possível. Mesmo depois que 60.000 cédulas eleitorais de um condado majoritamente democrata tenham desaparecido no correio mais eficiente do planeta. Curioso né? Um caixão de cédulas. O correio americano já disse que não tem nada a ver com isso Monitoro a imprensa brasileira: continuam achando que Bush vai ganhar. Não conseguem extrapolar os números distorcidos do Gallup [link] Um especialista em poesía húngara comentou o primeiro debate na /Folha de São Paulo /e nos disse que o gago Bush venceu. No dia 27/10, quando a blogosfera já sabia da vitória de Kerry no próximo dia 2, a /Folha/ nos dizia que a maioria dos "eleitores prováveis" apoiava Bush, sem atinar para o fato de que a categoria de "eleitor provável" do Gallup já foi completamente desbancada [link]. Saio para a Flórida amanhã, mas levarei a laptop e manterei o diário. Meu palpite para o Colégio Eleitoral neste momento: Kerry 315, Bush 223. Será doce ver a corja engolindo seco!

  Escrito por Idelber às 18:30 | link para este post




Contexto e Pesquisas já mostram favoritismo de Kerry

/Lidas com o contexto necessário, as pesquisas recentes já colocam John Kerry como claro favorito para vencer a disputada eleição americana/. Sabe-se que essas pesquisas abarcam os “eleitores registrados para votar” (não todos votam, é claro, já que o voto é facultativo) e os “eleitores prováveis.” Nestes, não estão representados: 1) aqueles não-registrados para votar em 2000; 2) aqueles que declaram seu celular como telefone principal. Dada a massiva campanha democrata, Kerry lidera Bush com 22 pontos entre eleitores registrados entre 2000 e 2004. Lidera 52 a 39 no eleitorado de 18 a 30 anos, de onde sai toda turma do celular não representada nas pesquisas. Bipartidistas e plebiscitárias, as eleições americanas mantém a tradição de que quase em proporção 3 por 1 os indecisos que acabam votando escolhem o oposicionista. Tudo indica que nesta eleição pode ser até mais. O */mínimo necessário/* para que um presidente americano chegue à véspera em condições de vencer tem sido, historicamente, 50% na última pesquisa. Menos que isso, sem chance. A seis dias da eleição, Reuters/Zogby, Democracy Corps, Pew Research, American Research Institute, ABC/ Washington Times, LA Times, CBS e outras pesquisas colocam a situação em estágio desesperador para Bush. As sondagens mostram oscilação negativa de Bush, a partir de um patamar que, a não ser na Gallup *uma vez*, jamais passou de 48%. Várias já mostram liderança de Kerry, o candidato cujo eleitorado já estava de cara sub-representado nas pesquisas. Espera-se um comparecimento recorde às urnas, garantia de ampliação desproporcional do voto a Kerry. Quando se diz 48 a 47, estes números se referem ao voto popular nacional, claro. Como se sabe, eles são termômetros mas não definem a eleição. Considerados os estados-pêndulo (/swing states/) que decidirão o Colégio Eleitoral, a semana decisiva começa com pesadelos para Bush. Na Pensilvânia é tal a liderança de Kerry (53-45 na Survey USA, 49-44 na Keystone) que a equipe Bush discretamente tirou comercias e funcionários de lá. Em Ohio Kerry já liderava com 2 a 5 pontos de folga no dia 26, quando se confirmou que Ralph Nader não reuniu o número de assinaturas necessárias para estar na cédula, o que pende ainda mais a balança para Kerry. Na Flórida Kerry lidera por 3% segundo o ARI e por 2% segundo a Survey USA. Se não mantiver todos os estados “vermelhos” (Republicanos) de 2000 e não ganhar *pelo menos dois* dos três estados pendulares mais importantes, Bush terá que conquistar território “azul” (Democrata) e ganhar Wisconsin e *também* Minnesota, o que parece quase impossível neste momento. Ou seja: mesmo que ganhe (ou roube) a Flórida, Bush tem que ganhar Ohio ou Pensilvânia e manter */todos /*os estados onde venceu em 2000, tarefa também difícil já que há empate ou liderança de Kerry em Colorado e Arkansas (neste graças à entrada decisiva de Bill Clinton na campanha). A uma semana do final, o campo de Bush claramente joga na defesa. Entre os blogs democratas, já há mobilização para garantir que qualquer golpismo morra na fonte. 10.000 advogados democratas espreitam, preparados. Mas pelos números tudo indica que o planeta estará em festa já na manhã do dia 3 de Novembro.

  Escrito por Idelber às 16:58 | link para este post




Diário da Campanha de Kerry III - Números, lindos números

A primeira coisa para se entender uma pesquisa de opinião numa eleição presidencial americana é a seguinte: a eleição é plebiscitária contra o ocupante do cargo. Os indecisos costumam tender para o oposicionista na proporção 3 por 1. Qualquer presidente que chegue à tentativa de reeleição com menos de 50% na última pesquisa, está frito. Em cima disso, agregue-se o fato de que nas pesquisas que enfocavam os "eleitores prováveis" não foram representados nem os eleitores registrados entre 2000 e 2004 (esmagadora maioria Democrata, graças à intensa campanha de registros para tirar Bush) nem os eleitores que declaram seu celular como telefone principal (jovens, a maioria Democrata). Dito isso, entenda-se: empate ou vantagem de um ou dois pontos de Bush nas pesquisas, se ele tem 46 ou 47 pontos, *significa na verdade dianteira de Kerry. *Por isso a corja está desesperada, já se deu conta da derrota. Os números de hoje são lindos: PITT dá empate quando ontem dava vantagem de 3 pontos de Bush; Zogby dá empate quando ontem dava vantagem de 2 pontos de Bush. Para piorar a situação do caubói, Kerry lidera com folga em Pensilvânia e com boa margem em Ohio. A vantagem de Kerry na Flórida parece suficiente para superar todas as fraudes. Um estado que se contava como certo para Bush, Colorado, parece que vai mudar de coluna. Todos os números estão disponíveis aqui [link]. Saio prá Flórida para a boca de urna mais feliz da minha vida. New Orleans prepara a festa. Até já. **

  Escrito por Idelber às 02:51 | link para este post




Diário da Campanha de Kerry II - Movimentos de supressão do voto

O Partido Republicano lidera a mais feroz campanha de supressão do voto da história desta República. Claro, até os anos 50 os cidadãos negros estavam *completamente privados do direito de votar* Aquela proibição - odiosa - era legal, e derrubá-la custou uma rebelião contra a lei. Hoje, a rebelião contra a lei a patrocinam não os que lutam por justiça, mas sim os racistas, os escrotos, os falcões, os horrorosos. Na Flórida, a polícia estadual tem feito visitas regulares a bairros pobres e negros para "checar" o passado dos eleitores. 60.00 cédulas desapareceram. Listas de ex hóspedes do sistema penitenciário - devidamente purgada de brancos e latinos pró-Bush - infringem o direito eleitoral de dezenas de milhares de negros. Máquinas que exigem 14 passos para votar para presidente são enviadas para os distritos democratas [link]. O Partido Republicano de hoje, que envergonharia Abraham Lincoln, intimida os eleitores de Ohio com exigências de que o registro esteja impresso num certo tipo de papel e dissemina boatos telefônicos e impressos sobre uma falsa mudança da localização das urnas [link]. O que acontece aqui, meus amigos, faz os capangas do PRI mexicano e do ACM baiano parecerem Fantasminha Pluft. A documentação completa do esforço de supressão eleitoral da equipe de Bush - que está consciente de que quanto mais gente aparecer para votar, maior será a vitória de Kerry - pode ser lida em Daily Kos [link].

  Escrito por Idelber às 00:37 | link para este post