Já estou na Flórida para um trabalho
de boca de urna que parece que será mais tenso e mais perigoso que minha
primeira experiência, a de 1982 para o PT, ainda sob ditadura. É difícil
relatar o processo de intimidação que ocorre aqui, especialmente sobre a
população negra, que apóia John Kerry em proporção quase de 9 por 1. Na
Flórida, a polícia estadual faz visitas para "checar" eleitores; o
Partido Republicano ou o governo estadual envia brutamontes para
questionar o direito de voto de eleitores democratas; listas de cidadãos
que um dia foram presos - por qualquer tipo de problema legal - são
usadas para desqualificar eleitores; cartas são enviadas aos eleitores
dizendo que mudou o lugar da votação; máquinas obsoletas e suspeitas
fazem com que o processo demore horas; 60.000 cédulas desaparecem,
curiosamente de um condado majoritariamente democrata. Vou lhes contar,
mes amis, se a ARENA tivesse feito em 1974 a metade do que faz hoje o
Partido Republicano, talvez tivesse intimidado um suficiente número de
pessoas para ganhar a eleição. Até no Brasil dos militares as eleições
se realizavam com mais privacidade e liberdade que na Flórida de Jeb
Bush. O ex Presidente Carter, que já monitorou mais de 50 eleições pelo
mundo, afirma que as condições na Flórida não apresentam os requisitos
"mínimos" de imparcialidade e liberdade. Mesmo assim, a expectativa é
que vença Kerry. Será difícil impedir que todos os eleitores enraivados
demonstrem seu desprazer com a corja.