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Um weblog anti-apocalíptico sobre polí­tica, música, futebol e literatura.



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terça-feira, 30 de novembro 2004

Ascensão e Morte do PT de c.d.

(digamos que c.d. é um personagem fictício que hoje tem 36 anos)

1981: aos 13, c.d. junta-se à formação do PT na sua BH natal, durante
potente greve dos professores; 1982: c.d. faz campanha de Sandra
Starling e combate o voto útil tancredista; época do lema terra trabalho liberdade; 1983: intensa mobilização do movimento secundarista de BH:
petistas punks pacifistas anarquistas contra o PC do B; fim do ano traz
os primeiros comícios do PT pelas diretas; 1984: gigantesca campanha das
diretas; c.d. se aproxima da DS, trotskista mas fortemente comprometida
com a construção do PT; 1985, terminando o 2o grau, c.d. se filia ao PT
e se converte em militante da DS; Virgílio Guimarães, então da DS, tem
grande votação para prefeito em BH; vitória em Fortaleza; 1986: c.d.
lidera a vitória petista sobre o PC do B no DA da Letras-UFMG; c.d. tem
vida leninista, 25 reuniões por semana; cresce o PT; Virgílio eleito à
constituinte; 1987: DS consegue passar no congresso do PT a
auto-definição como partido socialista; vitória de c.d. no DCE da UFMG;
numa das maiores federais do país, caía a hegemonia do PC do B sobre o
movimento estudantil; c.d. profissionaliza-se como militante; 1988:
enlouquecido de tanta reunião e militância, c.d. continua no PT mas
desliga-se formalmente da DS para terminar curso de letras; reunião
tensa e difícil na célula; 1989: volta completa à militância durante
campanha de Lula; brutal a derrota; 1990: já no exterior, c.d
mantém contato com petistas e continua considerando-se parte do partido;
pelos próximos 14 anos, passará 3-4 meses por ano no Brasil; 1991:
reuniões na CUT sobre o impeachment de Collor; 1992: c.d. participa de
corpo (no Brasil) e pela escrita (nos EUA) da campanha pelo impeachment;
vitória contra Collor; 1993-94: c.d. discorda violentamente da punição à
Luísa Erundina; participa por umas semanas na campanha fracassada de
Lula; 1995-96: c.d. vê com muita preocupação a acumulação de poder de
Dirceu no partido; Porto Alegre elege um militante da DS, Raul Pont,
como seu prefeito; 1997-98: c.d. participa menos intensamente na
campanha de Lula e envia carta protestando o "massacre promovido pela
Direção Nacional e sua cavalaria cossaca contra o PT carioca"; quando a
burocracia do PT paulista decide enfiar Garotinho goela abaixo do PT
carioca, c.d. considera a possibilidade de desfiliar-se mas não o faz;
derrota acachapante de Lula para FHC; 1999-2001: Crescente
burocratização do partido, mas c.d., morando no exterior, identifica-se
com o PT e dá palestras sobre a história singular do partido; 2002: c.d.
participa da última semana da campanha no Brasil e celebra o domingo
27/10 numa comuna operária do Chile, em meio a retratos de Salvador
Allende; grande emoção; péssimos sinais, no entanto, no que diz respeito
à vontade nítida do novo governo de agradar aos banqueiros; consolida-se
nacionalmente a sinistra figura de Delúbio; 2003: movido pela esperança
em Lula e por uma década de militância, c.d. publica na revista
progressista argentina *Punto de Vista *uma *crônica e defesa do PT*
[link] ; quando
sai o artigo de c.d. Dirceu já fez sua grosseria mor com Gabeira; c.d.
vê com horror a punição aos radicais Babá, Heloísa e Luciana; conversa
com ex companheiros, agora co-autores de *A Economia Política da
Mudança*
[link] ,
volume que desmonta as premissas da política econômica paloccista; c.d.
decide desfiliar-se, mas mesmo assim não o faz; 2004: revelação
cristalina do governo do PT como governo neoliberal, burocratizado,
perdido, incompetente e refém do calculismo de sua própria politicagem;
c.d. queima filiação, bandeiras e camisas do PT e manda o projeto de um
partido de massas, pluralista, democrático e socialista para o raio que
o parta.

Trilha sonora: Cartola, "Fita meus olhos", com Nelsinho no Trombone (1977)

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  Escrito por Idelber às 03:08 | link para este post



domingo, 28 de novembro 2004

Passeando pela blogosfera literária


Passeando pela blogosfera literária

Semana de passeios intensos pela blogosfera em português. Como na
livraria, há que se separar o joio do trigo. Links do que mais gostei
até agora:

*Revistas*

Periódico colaborativo, com novidades sobre a cena literária é o Capitu
[link] . Ver também a excelente revista
paralelos [link] . Alguns dos bons da nova geração
publicam na Patife [link] . Bela oficina coletiva de
produção poética, ficcional, ensaística e fotográfica é o Cabeza
Marginal [link] . O Portal de Literatura Blocos
tem uma muito útil Encliclopédia Virtual de Poesia Brasileira
[link] .

*Blogs de escritores*/:/

A poesia elétrica, densa, indo do haikai ao cabralino, de Ana Peluso
[link] (não perca o poema sobre o eu).

As polaroids em prosa poética, de respiração lispectoriana, de Ane
Walker [link] (não perca o “envelopes”).

A poesia rigorosa, de ourives, do já conhecido Frederico Barbosa
[link] (não perca o poema
contrastando SP e Recife a Salvador e RJ, reproduzido numa das
entrevistas).

Os flashes urbanos paradoxais, de belas aliterações, de Greta Benitez
[link] (não perca o maravilhoso poema
sobre Billie Holiday)

A poesia penetrante, erótica, humorística, instigante, de Sara Fazib
[link] (não perca também o potente relato "Um
Encontro")

Tem muito mais, mas os que eu gostei mesmo até agora são esses. E porque
a vida não é só literatura, aqui vão dois outros blogs:

Porrada pura, com bom humor e bem escrito, é o blog Catarro Verde
[link] . Blog profissional, bem-feito, de um
cinéfilo inteligente é o Por um Punhado de Pixels
[link] .

Trilha sonora: Coleman Hawkins, "Ruby My Dear", com Thelonious Monk ao
piano.

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  Escrito por Idelber às 22:26 | link para este post



sexta-feira, 26 de novembro 2004

Disco da Semana –


Disco da Semana – Fellini, /Três Lugares Diferentes/ (1987)

O tempo permitindo, quero fazer uma vez por semana uma resenha de um
disco ou livro semi-obscuro. Se um leitor deste blog no futuro for
procurar a pérola, já valeu.

O escolhido para iniciar a série é *Três Lugares Diferentes* (1987), o
terceiro e melhor disco da banda paulista Fellini.

A banda estreou com *O Adeus de Fellini* (1985)/ /e deu sequência com
*Fellini só Vive Duas Vezes* (1986). Depois da obra-prima *Três Lugares
Diferentes*, ainda fizeram *Amor Louco* (1989) antes de se separarem.
Recentemente se reuniram e fizeram *Amanhã é Tarde* (2002).Fellini é,
principalmente, Thomas Pappon e Cadão Volpatto. Pappon toca baixo,
bateria e outros. Jornalista da *Bizz* dos bons tempos. Cadão nas letras
e vocais [link] . Em
diferentes discos, assumiram a guitarra Jayr Marcos ou Tancred, a
percussão Silviano Michelino, a bateria Ricardo Salvaqui, além de Guinho
nos trompetes e Leonor no cello. Mas o núcleo é Pappon/Volpatto
[link] .

Escrever a respeito da música é como dançar a respeito da arquitetura,
disse uma vez o filósofo Elvis Costello. Descrever o som do Fellini não
é fácil. É uma banda de *samba eletrônico que cruza a MPB com o pós-punk*.

Influenciado pelo rock inglês de 79/85 (Joy Division, Echo, Durutti
Column, Gang of Four, Cure, etc.), o Fellini mantém a batida *pesada mas
soporífera* daquele rock, se inspira nas guitarras distorcidas mas
lentas, arrastadas, do Velvet Underground e demonstra familiaridade com
o trabalho de produção de Brian Eno, guru de David Bowie e bruxo da
ambient music dos anos 70. Por aí vai *O Adeus de Fellini*, gravado em
estúdio de oito canais, e *Fellini só vive duas vezes*, gravado na sala
de visitas de Pappon em quatro canais.

Com exceção de uma música, Fellini jamais teve espaço no rádio, jornais
ou televisão (só chegaram a dividir com Titãs o prêmio de disco do ano
segundo a crítica em 1986). No entanto, *fizeram a cabeça de muita
gente, incluindo Chico Science*. O Fellini é chave para entender a
revolução Mangue Beat, que aconteceu dez anos depois dos caras e a 2.000
km de distância. Por quê?

A resposta é *Três Lugares Diferentes*/,/ onde Fellini pega os
ingredientes citados, coloca um pé na MPB, desenvolve na bateria
eletrônica uns beats de samba quebrado, esquisito, em diálogo com
melodias mais pop, levadas pelo slide guitar/ /de Tancred. O trabalho do
percussionista Silvano Michelino dá corpo ao som. Sobrepõem-se letras de
um surrealismo meio humorístico e acrescentam-se belos acompanhamentos
de gaita. Uma pérola pop. De vez em quando interrupções hilárias em
alemão, português ou inglês, incluindo uma gravação do locutor de
futebol Osmar Santos tirando sarro da banda: "vamos ver aí esse samba
maluco da rapaziada do Fellini; não vende nada, o disco não tá legal,
mas tá todo mundo se divertindo".

Em “Lavorare Stanca”, o menos genial é a letra:

/Cidade / sono leve/

/Se vive tem que trabalhar / e mesmo se se sonha tem que trabalhar/

/Mil anos tem que levantar / como um sol que não consegue andar/

/Assim seus sapatos devem pelejar/

O Fellini foi pioneiro no *uso inteligente dos portastúdios de quatro
canais dos anos 80*. Foram o elo perdido entre o rock dos anos 80 e a
MPB, separação, dicotomia, que só se superaria dez anos depois com Chico
Science. A concepção e a música eram muito melhores que a grande maioria
do chamado "rock nacional". Mas infelizmente pouca gente conhece. Se vir
na loja esse vermelhinho em liquidação, pode comprar. Foi dos melhores
discos feitos no Brasil no ano em que o Leão do Norte foi campeão
brasileiro.

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  Escrito por Idelber às 16:44 | link para este post




Reflexões sobre o Conto


Reflexões sobre o Conto I

Esta reflexão sobre o conto é dedicada à minha amiga Cipy Lopes e a seus
alunos de Publicidade lá na mãe de todas as cidades brasileiras.

Os dicionários dizem: conto é uma curta narrativa de ficção em prosa.
Hoje em dia, máximo 25 páginas. Mais que isso já vira novela. Mas o que
faz um conto ser um conto?

Tomemos o menor conto do mundo, do guatemalteco Augusto Monterroso:

*Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá. *

* *

Genial? O que faz com que o texto de Monterroso seja um conto, apesar de
suas oito palavras, é a presença de *duas temporalidades*: a do cochilo
do cara e a do dinossauro ainda estando lá.

* *

O argentino Ricardo Piglia tem uma tese: *um conto sempre conta duas
histórias*. As diferentes épocas escolhem diferentes formas de
relacionar as duas histórias que contam.

Para exemplificar, uma anotação do *contista e dramaturgo russo
Tchekhov* [link] *,*
que tinha material para um relato: *um cara chega numa cidade,
instala-se num hotel, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta
ao hotel e se suicida*. Aí você tem um conto porque normal é o
cara ganhar e fazer outra coisa, ou perder e suicidar, mas *ganhar* *e
depois suicidar* é insólito. Por ser insólito, o evento dissocia as duas
histórias. Há a história da viagem/jogo e a história do suicídio. Pois
bem, o que é um conto do século XIX?

O mestre do conto do século XIX é Edgar Allan Poe, que em 1840 e poucos,
tiritando de frio na Filadélfia, pobre que só vendo, tendo que queimar a
própria escrivaninha para se aquecer, inventou nada menos que a
*narrativa policial*
[link] ,
a *narrativa de horror*
[link] e
a *ficção científica*
[link] .
Um conto do século XIX é o que lhe relata a história da viagem, mudança,
instalação no hotel, ida ao cassino, vitória e tudo mais *de tal forma a
dissociá-la completamente da outra história, a do suicídio do cara*. Há
uma história visível (a viagem) e uma história secreta (o suicídio).

O *bom* contista é o que lhe conta a história 1 sem que você suspeite a
história 2 que vai explodir no final. O *bom *leitor é aquele que
aprende as manhas dos escritores para esconder a história 2 na história
1. Esse é o jogo gato e rato da literatura do século XIX. Autores e
leitores se cansam desse jogo por volta de 1910-20, a porra toda explode
e começa-se a contar contos de maneira muito diferente.

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  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post



quinta-feira, 25 de novembro 2004

Reflexões sobre o Conto

Reflexões sobre o Conto II

O que é um conto do século XX?: É um conto em que a história 2 (a
secreta) já não está embutida invisível na história 1, já não é um
enigma que se revelará no final para arredondar a coisa bonitinho. O que
faz o escritor moderno?

*James Joyce [link] * narra a
história da viagem arrastada, sem esperança, tanto que quando chega a
história do suicídio você já nem liga que o cara está suicidando.
Destruição total do efeito catártico.

*Hemingway [link] * simplesmente não te
conta que o cara suicidou. Dá alguma pista, mas no mais conta o conto da
viagem. Em detalhes secos, onde tudo é um puro acontecer sem significar.
Você termina o relato com cara de “Que Porra é Essa?” porque não você
não entendeu que o cara suicidou. É como se não tivesse acontecido nada.

*Kafka [link] * é o mais
incrível, ele inverte a história 1 com a 2. Conta a história da morte
como se fosse o mais banal, como se fosse a descascada de uma laranja. O
horror é totalmente transferido para a história 1 – a partida para o
hotel –narrada de forma terrorífica e ameaçadora.

*Jorge Luis Borges [link] *
conta a história 1 como se ela já tivesse sido contada mil vezes. Tudo é
tirado, parodiado de algum lugar. Até que no final o sujeito encontra no
suicídio uma verdade não revelada pelos livros que tinha lido.

Há outras mil variantes, claro.

No Brasil, o mestre em contar a história 1 enquanto esconde a história 2
é *Machado de Assis*. Muitos conhecem /Dom Casmurro/ ou /Memórias
Póstumas de/ B/rás Cubas/, seus romances famosos. Mas a arte inigualável
de Machado está no conto. Para ver algumas obras-primas, é só baixar
/Papéis Avulsos/ ou /Histórias sem Data /no site da Virtual Books
[link] .

Estou preparando para breve um post com sugestões de 150 livros de
contos brasileiros. Alguns dos autores indispensáveis são,
claro, Guimarães Rosa
[link] , Clarice Lispector
[link] , Dalton Trevisan
[link] , Caio Fernando
Abreu [link] . Contista barra
pesada há 4 décadas é Rubem Fonseca
[link] . Pau puro. Entre os das
duas últimas décadas, tenho meus favoritos: João Gilberto Noll
[link] e Márcia Denser
[link] . O conto é hoje o
gênero que, em qualidade e quantidade, vai melhor das pernas no Brasil.

A melhor contística do mundo, prá mim, é a da Argentina
[link] , infelizmente pouco traduzida
por nós, que publicamos tanto lixo traduzido do inglês.

Fica prá próxima a lista dos "top 150". Boa aula pessoal.

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  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (1)



terça-feira, 23 de novembro 2004

** **Em homenagem ao


**

**Em homenagem ao Grêmio**

Quem viu, viu. Quem não viu, agora só em VTs que parecem mais lentos que
o original.

O time era Mazzaropi; Paulo Roberto, Baidek, De León e Paulo César;
China, Osvaldo (Bonamigo) e Mário Sérgio; Renato Gaúcho, Tarcísio e
Paulo César Caju (Caio).

O jogo era a final do Mundial Interclubes. Duas estocadas, PUM PUM, 2x1
nos alemães do Hamburgo e o *Grêmio era campeão do mundo de futebol*.

O ano era 1983, Brizola no leme do Rio. O Grêmio era o primeiro time
brasileiro a ser legitimamente campeão do Mundo desde a era Pelé –
*legitimamente* querendo aqui dizer sem que um juiz os levasse até lá,
expulsando meia equipe adversária.

Não que as glórias do Grêmio começassem ali, claro. Só entre as que eu
lembro, há duas saborosas para os tricolores:

*O memorável campeonato gaúcho de 1977*. O Inter era OCTAcampeão gaúcho
e Bicampeão brasileiro. Se você já passou *perto *do RS, sabe o que isso
significa. Tendo ainda um time inferior à máquina falcônica do Inter, o
Grêmio de Telê Santana e André Catimba foi à final. Venceu heroicamente,
com gol e cambalhota gigante de André, capturada numa famosa foto tomada
de baixo prá cima, no momento em que o artilheiro estava ainda a uns
dois metros do chão, despencando com a cara enlouquecida (ai, que
saudades da *Placar* dirigida por Juca Kfouri!).

*O primeiro campeonato brasileiro do Grêmio*, em 1981, derrotando outra
equipe superior à sua, calando um Morumbi lotado de são-paulinos e
surpreendendo o Brasil inteiro. O herói foi o primeiro pop star
evangélico do futebol brasileiro, Baltasar. Ali quem ainda não sabia
ficou sabendo: você pode estar jogando em casa e com dois gols de
vantagem. Se o adversário estiver vestido com aquelas listras azuis,
negras e brancas - *cuide-se*.

Em meados dos 90, era até chato assistir. O Grêmio ganhou tudo,
incluindo outra Libertadores.

Pois bem, o glorioso Grêmio está rebaixado à segunda divisão do futebol
brasileiro. À nação gremista, minha solidariedade.

Que o Tricolor de Lupicínio, Borguetinho e do meu amigo Joca esteja de
volta à Série A em 2006, porque lá é que o lugar dele. Às equipes que
ficaram na Série B, parabéns: ano que vem conhecerão o templo, o
Olímpico. Rendam seus respeitos: ali brilharam Everaldo, De León e Caju.
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  Escrito por Idelber às 00:47 | link para este post



segunda-feira, 22 de novembro 2004

A Varig e o

A Varig e o conceito de patrimônio nacional

Sabe-se que a VARIG está num buraco financeiro e que ela pediu socorro
ao BNDS. Blogueiros mor, como Marcelo Tas e Gerald Thomas, já falaram
sobre o assunto. Tas, para botar a VARIG no mesmo saco do Banco Santos
como outra empresa que quer sugar dinheiro público
[link] .
O Gerald, para defender a VARIG como patrimônio nacional que merece ser
encampado
[link] .


Adoro o Tas, mas nesta estou com Gerald e não abro.

Até que se prove: 1) que houve corrupção ou super faturamento ou mesmo
má administração na VARIG, o que nunca foi nem cogitado; 2) que o buraco
da VARIG não é muito mais produto das políticas econômicas do estado
brasileiro na última década, que criam débitos em dólares para serem
saldados com receita em reais; 3) que o buraco da VARIG é maior,
proporcionalmente, que o buraco de qualquer empresa aérea de tudo quanto
é canto, eu acho que o pedido de empréstimo da VARIG ao BNDES deve ser
tratado com MAIS, não MENOS atenção do que os outros pedidos que se
fazem lá. Salvar banco de falcatrua é outra coisa. Quem viaja por
empresas estrangeiras sabe que a VARIG é diferente. Parabéns à GOL e que
ela tenha direito a tudo também. Mas colocar VARIG e Banco Santos no
mesmo saco não dá.

É do interesse nosso ter VARIG, TAM, Gol e outras funcionando saudáveis.
Eu não quero que chegue o dia em que teremos que agüentar o padrão Delta
de qualidade toda vez que quisermos viajar de Belo Horizonte para Teresina.

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  Escrito por Idelber às 22:02 | link para este post



sábado, 20 de novembro 2004

20 de novembro: Dia


20 de novembro: Dia da Consciência Negra

Viva Zumbi dos Palmares que de 1670 a 1695 comandou a maior comunidade
livre da história da nossa pátria.

Viva Zumbi que nasceu em Palmares, e já criança, aprisionado e entregue
a soldados, rebatizado Francisco (ah, queriam transformá-lo num
Chiquinho de Assis!), *optou por voltar a Palmares e lutar com seu povo*.

Viva Zumbi, que não aceitou nenhum acordo com a opressão.

Viva Zumbi, que lutou até fim e morreu traído.

Viva Palmares, onde dezenas de milhares de negros viveram em liberdade,
duramente conquistada com o sangue de todos.

Viva Palmares, que deu as boas-vindas a todos os pretos, todos os
índios, todos os brancos pobres que se juntaram à luta.

Neste 20 de novembro, celebre Zumbi e informe-se mais um tiquinho sobre
a história do racismo e da opressão racial no nosso país.

E viva Zumbi.

E viva Pixinguinha, Amaral e Paulo César Caju. Viva Tim Maia, Elza
Soares e Mussum. Viva Ismael, Cartola e Sinhô. Viva Pelé. Viva Adão
Ventura, Cruz e Souza e Lima Barreto. Viva Luiz Melodia e Benedita. Viva
Abdias do Nascimento e viva Nei Lopes. Viva o Ministro Gilberto Gil.
Viva Edna Roland e Dona Ivone Lara. Viva Mílton Santos. Viva Glória
Maria e Heraldo Pereira. Viva Jamelão, Djavan e o paredão Dida. Viva
Jorge Aragão, Leci Brandão e Wander Lee. Viva o Mestre Negativo. Viva
Mano Brown e Negra Li. Viva Mílton Nascimento. Viva Grande Otelo. Viva
Zezé Motta e o moleque Ronaldinho Gaúcho. Viva Toni Tornado. Viva
Paulinho da Viola.

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  Escrito por Idelber às 15:08 | link para este post



quinta-feira, 18 de novembro 2004

40 dias da morte


40 dias da morte de Jacques Derrida

Faz 40 dias que Jacques Derrida morreu. Como fazer luto pelo pensador
que nos ensinou que o luto é interminável? Como fazer justiça ao
pensador que desvendou a natureza da justiça como promessa perene?

Não é hora de recordar todas as imbecilidades que foram ditas sobre ele.
De tudo foi acusado: niilista, relativista, incompreensível, frívolo,
“poético” (no mau sentido, ou seja, de “brincadeira não-filosófica” ),
alienado, irresponsável e muito mais. Não só atravessou todos os
epítetos incólume. Sem ter sido nenhuma dessas coisas, ele transformou
radicalmente a compreensão de todas elas: responsabilidade, poesia,
cognocibilidade, entre mil outras noções, já não são termos que se possa
entender ingenuamente.

Por isso é especialmente importante combater o preconceito idiota de
Derrida como filósofo “difícil” ou pior, “incompreensível” ou “cheio de
indeterminações”. Não é mais nem menos difícil que Kant, Hegel ou
Heidegger. A diferença passa por outro lugar.

Pode-se começar a ler a vasta obra de qualquer lado. Se você vem da
psicanálise, comece aqui
[link] . Se vem da
lingüïstica, pode começar aqui
[link] ou aqui
[link] . Se vem do teatro,
um bom ponto de partida é este
[link] . Se teve, em
qualquer disciplina, um encontro importante com o estruturalismo, este é
um texto chave
[link] .
Para pensar a questão do saber, e especialmente do saber universitário,
ver este texto [link] .

Vindo do humanismo, dê uma pensada nisto
[link] . Se vem
da pragmática, que tal pensar sobre isto
[link] .
Se vem da arquitetura, veja
[link] . Se vem da
literatura, as portas de entrada a Derrida são legião: por exemplo a
metáfora [link] ,
a tradução
[link] . Se
você vem do marxismo, veja como Derrida viaja daqui
[link] para este outro
lugar [link] .
Duas entradas ao último Derrida, o das reflexões sobre o perdão e a
democracia, são a entrevista sobre a Africa do Sul e o perdão
[link] e a
entrevista sobre a hospitalidade
[link] .

Para mergulhar de vez, ver, no Brasil, o belo, risomático livro de
Evando Nascimento, *Derrida e a Literatura* (Niterói: EDUFF, 1999).

Que esses textos continuem a circular e a nos habitar. Que a
mediocridade de plantão ladre cada vez mais baixo e mais moleques possam
ler Derrida em paz. E que ele descanse, porque trabalhou muito.

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  Escrito por Idelber às 22:01 | link para este post



terça-feira, 16 de novembro 2004

Lembrando Alejandra Pizarnik Ela


Lembrando Alejandra Pizarnik

Ela nasceu em Buenos Aires em 1936 e escolheu suicidar-se lá também, em
1972. Prá mim, é a maior poeta de língua castelhana da segunda metade do
século XX. Sua prosa curta é povoada de bonecas destripadas, anões
acrobatas, sonâmbulos, condessas sangrentas, máquinas de tortura.

Sua poesia é singular: sucinta, rápida, epigramática, atravessada por
silêncios e pelo fantasma da morte, Pizarnik escreve como quem
transborda enquanto emudece. Seu grande tema é o dilaceramento do
sujeito, um espedaçamento que acontece *no interior* das palavras:
Fernando Pessoa não daria conta de tantos cacos.

São de Pizarnik as frases:

*dançando como palavras na boca de um mudo. *

*escrevo como uma faca erguida na escuridão. *

*eu e a que fui nos sentamos/ no umbral da minha mirada. *

*me provo na linguagem em que comprovo o peso de meus mortos*

Vertidas por mim ao português, aqui vão algumas pérolas de Pizarnik:

De *Árbol de Diana* (1962):

6

ela se desnuda no paraíso

de sua memória

ela desconhece o feroz destino

de suas visões

ela tem medo de não saber nomear

o que não existe

13

explicar com palavras deste mundo

que partiu de mim um barco levando-me

37

mais além de qualquer zona proibida

há um espelho para nossa triste transparência

Para saber mais sobre Pizarnik, o link é este
[link] .

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segunda-feira, 15 de novembro 2004

Vozes machas e fêmeas

A pessoa do autor não coincide nunca, claro, com a voz que fala em seu
texto. Por outro lado, a não coincidência entre o gênero da pessoa e o gênero da voz textual não implica, necessariamente, que a voz masculina de uma autora ou a voz feminina de um autor sejam mais ou menos “autênticos” ou “inautênticos” de antemão.

Tudo depende.

A maioria das mulheres concorda que Chico Buarque cria uma voz de mulher extraordinariamente convincente em canções como Ana de Amsterdam ou Olhos nos Olhos.

Lygia Fagundes Telles tinha uma boa história sobre um corno. Resolveu
armar o relato em primeira pessoa, na voz de um homem. O problema é que o narrador protagonista diz coisas só verossímeis ou imagináveis na boca de mulheres, não de homens. O conto não convence o leitor masculino mais exigente (hehehehe). Mas a história é boa e se chama O Moço do Saxofone.



  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post



sábado, 13 de novembro 2004

DRUMMOND: O verbo prorrogar


DRUMMOND: O verbo prorrogar entrou em pleno vigor, e não só se
prorrogaram os mandatos como o vencimento das dívidas e dos compromissos
de toda sorte. Tudo passou a existir além do tempo estabelecido. Em
consequência não havia mais tempo.

RAUL SEIXAS: /Essa noite eu tive um sonho/ de sonhador/ Maluco que sou,
eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou / com o dia em que a Terra parou
Foi assim / No dia em que todas as pessoas / Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que fosse combinado / em todo o planeta/ Naquele dia,/

/Ninguém saiu saiu de casa / ninguém/

DRUMMOND: Então suprimiram-se os relógios, as agendas e os calendários.
Foi eliminado “o ensino de História. Para que História? Se tudo era a
mesma coisa, sem perspectiva de mudança

RAUL SEIXAS: /O empregado não saiu pro seu trabalho//

/Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
e o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar/

DRUMMOND: A duração normal da vida também foi prorrogada e, porque a
morte deixasse de existir, proclamou-se que tudo entrava no regime de
eternidade. Aí começou a chover, e a eternidade mostrou-se encharcada e
lúgubre. E o seria para sempre, mas não foi.

RAUL SEIXAS: /No dia em que a Terra parou
E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia que o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar/

DRUMMOND: Um mecânico que se entediava em demasia com a eternidade
aquática inventou um dispositivo para não se molhar. Causou a maior
admiração e começou a receber inúmeras encomendas. A chuva foi
neutralizada e, por falta de objetivo, cessou. Todas as formas de
duração infinita foram cessando igualmente.

RAUL SEIXAS: /No dia em que a Terra parou
O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
e o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
e o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar/

DRUMMOND: Certa manhã, tornou-se irrefutável que a vida voltara ao signo
do provisório e do contingente. Eram observados outra vez prazos,
limites. Tudo refloresceu. O filósofo concluiu que não se deve plagiar a
eternidade.

RAUL SEIXAS: /Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei
No dia em que a Terra parou
Eu acordei
No dia em que a Terra parou, acordei
Justamente
No dia em que a Terra parou
Eu não sonhei, acordei
No dia em que a Terra parou/

Drummond de Andrade, Carlos. “A Falsa Eternidade.” /Contos
Plausíveis/. /Poesia e Prosa/. 6^a edição. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1988. 1233-34.

Seixas, Raul. “O Dia em que a Terra Parou.” /O Dia em que a Terra
Parou/. WEA. 1978.

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quinta-feira, 11 de novembro 2004

Drummond e Raul A



Drummond e Raul

A temporalidade era a matéria fundamental, tanto de Carlos Drummond de
Andrade, como de Raul Seixas. Em ambos, o brilhantismo, que fazia com
que eles despertassem a admiração de muitos, se combinava com o
temperamento arredio, que prezava a solidão e o retiro, macambúzio, para
meditação e produção artística acerca dos enigmas do tempo.

Drummond viaja da urgência de intervenção no tempo /presente/ em /Rosa
do Povo/ (1945) à melancólica memória arquivista de /Boitempo/ (1968),
por um fio que nunca exclui a estupefação ante o inexorável da perda /no
tempo/, que aparece no poeta desde /Alguma Poesia/ (1930)/ /até /Amar se
aprende amando/ (1985).

Raul começa com um /pôr-se em dia/ com o rock americano na época dos
Panteras (1967-68) mas já estréia carreira solo com uma canção sobre
como já viveu tudo (“Ouro de Tolo”, 1973). A partir daí, dedica-se à
exploração de temporalidades paralelas como a mística de /Novo Aeon/
(1975) ou o cronista milenar, paródia radical de Nabucondonosor em /Há
Dez Mil Anos Atrás/ (1976). Já acabado, alcoolizado, emplaca um sucesso
infantil, um mergulho na temporalidade do menino: “Plunkt Plakt Zoom”
(1983).

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  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post



quarta-feira, 10 de novembro 2004

A língua inglesa sequestrada


A língua inglesa sequestrada pela direita

Quatro exemplos, entre milhares, de como a linguagem política está hoje
sequestrada pela direita nos EUA: **

* *

Tome um movimento de ruidosos defensores da idéia de que o aborto nos
EUA deve voltar a ser como ainda é no Brasil – clandestino e perigoso
para os pobres, acessível e seguro só para os ricos – e salpique-lhes
uma severa dose de retórica de cristão renascido, de preferência com o
fervor de um Batista do Sul. Crie uma campanha nacional contra o direito
das mulheres ao planejamento familiar e de intimidação dos professionais
da medicina. Chame este movimento de /PRÓ-VIDA/ (/pro-life/).

* *

Tome uma enlouquecida irresponsabilidade fiscal, traduzida em enormes
cortes e isenções de impostos para a pequena camada milionária da
população americana, a um custo de deterioração severa dos serviços do
estado. Batize esta gigantesca operação de transferência adicional de
renda dos mais pobres e da classe média na direção dos mais ricos de
ALÍVIO FISCAL (/tax relief/).

Tome um programa de pauperização, repressão e sujeição do ensino
fundamental público, que coloca todo o peso do sucesso nos ombros de
professores mal-pagos e sobre-carregados. Imponha, aos adolescentes,
padrões artificiais de conhecimento, que nem o presidente da República
ainda atingiu como adulto. Salpique-lhe vouchers de privatização sempre
que o ensino público “fracassar” ante os “/standards/.” Chame este
programa de NENHUMA CRIANÇA DEIXADA PARA TRÁS (/no child left behind/)

Tome uma tempestade de fúria ante as recentes, tímidas iniciativas de
conceder aos casais do mesmo sexo benefícios de união civil. Regue,
cultive e manipule essa fúria na forma de emendas constitucionais
docemente escritas para limitar a definição de casamento ao evento que
une um homem e uma mulher. Anexe essas propostas de emendas
constitucionais a uma cédula da eleição presidencial em alguns
estados-chave, e inicie a intensa campanha de demonização dos gays.
Batize a manipulação política desse fator e sua influência no eleitorado
como um voto pelos VALORES MORAIS (/moral values/).

*Os democratas ainda não têm resposta para a avalanche lexical da
direita. Oscilam entre a moderação e a sobre-atuação histérica do
direitismo republicano. Recusam-se a inventar outra língua para a
conversa. *

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  Escrito por Idelber às 21:36 | link para este post




Estágio 5. Aceitação. Aceitação


Estágio 5. Aceitação.

Aceitação significa que aceitamos que perdemos. Só isso. No caso de
perda aguda, significa aceitação da /realidade/ do desaparecimento do
objeto. Não significa aceitação da idéia de que a perda não significa,
ou da idéia de que ela não vá continuar significando por toda a vida.
Distinção básica: aceitar é aceitar o acontecido, *jamais aceitar que o
que está por acontecer não possa ser transformado*.

No nosso caso aqui, aceitação significa aceitação da derrota eleitoral.
Não significa que aceitamos Bush, nem nenhuma de suas políticas.
Distinção básica.

Dito isso, é afiar a lança para outras empreitadas, não sem antes dar
uma olhada nos primeiros levantamentos das fraudes ou erros eletrônicos
na eleição de 2004 (todos favorecendo Bush, claro). Ver os do *Boston
Globe* no original em inglês
[link] ou
traduzido ao português
[link] .

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  Escrito por Idelber às 19:59 | link para este post




Estágio 4. A Depressão

Estágio 4. A Depressão

A América de Bush é uma rua estreita suja e torta onde uma criança
sorridente feia e morta estende a mão.

A depressão é o estado que tenta fazer justiça à profundidade desse
poço. Mergulhar nela a fundo é momento /necessário/ de todo o processo
de aceitação.

Deixar-se atolar na depressão jamais. Mas habitar a barbárie sem
deixar-se deprimir por ela é sinal de que já se está cooptado à
mediocridade da ordem dominante.

No /Village Voice/ desta semana, Michael Feingold sobrevoa a devastação
[link] e Sarah Goodyear
implora, não emigremos
[link] !

Fecho este dia de trabalho pensando como são diferentes as condições de
luta nos EUA e no Brasil. E em como são duras as lutas nos dois lugares,
em toda sua diferença.

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  Escrito por Idelber às 03:15 | link para este post | Comentários (25)



terça-feira, 09 de novembro 2004

*Estágio 3. A Negociação*


*Estágio 3. A Negociação*

A Negociação: na situação de perda ou derrota, a negociação
(*bargaining*) emerge quando o sujeito começa a ser capaz de visualizar
algum objeto substituto para o objeto perdido. É o começo do processo de
luto propriamente dito. Pode ser também um processo de denegação
horrível, no qual a negociação nem tem tempo para acontecer, e o objeto
substituto é agarrado furiosamente, como prova de que não houve perda
nenhuma.

Na fase da negociação, o sujeito pode dá-la como terminada e cair de
volta na denegação.

Pode intercalá-la com o ódio.

Pode amadurer os frutos da futura aceitação.

Aqui nos EUA? Consolos?

1. Bush já não pode ser reeleito.
2. Um extraordinário senador negro, Barack Obama, foi eleito com
votação considerável em Illinois
3. A ala mais mobilizada do Partido Democrata, liderada por Howard
Dean, ganhou espaço no partido e construiu uma base de energia
notável.
4. Ninguém jamais se referirá a John Kerry como a Mondale (massacrado
por Reagan en 84), Dukakis (fraca performance contra Bush I em 88)
nem mesmo como a Gore (ovelha que aceitou ser roubado em 2000).
Pelo contrário: John Kerry tem o respeito de todos.

Nada disso consola muito porque a derrota foi realmente estrondosa (não
nos números, mas na frustração da expectativa).

Para ajudar a fase de negociação, o cineasta Michael Moore descreveu as
17 razões para não se cortar as veias
[link] .

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  Escrito por Idelber às 03:57 | link para este post



domingo, 07 de novembro 2004

Estágio 2. O Ódio

O ódio é aquele momento da perda em que o sujeito ainda não está na aceitação e já não está na denegação. Ao contrário da angústia, o ódio tem um objeto definido.

Aqui: ódio aos rednecks, ódio aos miseráveis de Nebraska e South Dakota que não teriam nem máquinas para colher seu tabaco e milho se não fosse pelo trabalho das duas costas, ódio à manipulação cretina da homofobia, ódio à manipulação do medo anti-árabe, ódio aos que fazem do ódio sua grande ferramenta política.

Na etapa do ódio, queremos responder sangue com sangue. À emenda
constitucional que pisoteia os gays, oponhamos uma emenda que segregue os rednecks. Aqui vão duas idéias, em inglês:

So here goes my proposed amendment to the US constitution: it will be henceforth considered a terrorist crime against the United States for any citizen to fly or display a Confederate flag in public places. Forget about amending state constitutions, that’s for sissies. We’ll win this one nationally. Organize a national plebiscite and get enough New Englanders, West Coasters, urban Midwesterners, etc. to vote for this. Campaign heavily by equating Confederate flags with racist and anti-Semitic hate literature not protected by the law. Include punishment in the amendment as well. Any citized found guilty of this terrorist crime will be sent to political reeducation for a year in one of two places of his choice: Gitmo or Castro’s Cuba. Do not torture the first pickup-truck driving, Budweiser-drinking racists that get caught flying Confederate flags. Just expose them to massive doses of Pantera,Sepultura, Ramones, Dead Kennedies, Ministry, E. Neubaten, and then send them off to Gitmo or Cuba. Let the motherfuckers choose. In Gitmo they’ll probably become Talibans; in Cuba the range of choices is still slightly wider. Regardless of what happens, when and if they come back they should be ready to stick their Confederate flags up their asses.

Second national plesbiscite for a constitutional amendment: ban the Bible from public schools. If we phrase it like that we’ll never win, of course. The amendment should determine that all schools should either be Bible-free or devote equal time and shelve space to the Christian Bible, the Hebrew Bible, and the Koran. You wanna talk sacred books, let’s talk sacred books. Punishment for transgressing this law should be a two-year-long political reeducation stay in a mostly atheistic part of the world, like Buenos Aires or Finland. Not with taxpayer’s money, mind you. Taxpayer will pay their one-way tickets. Let the motherfuckers earn their living and return tickets in the Helsinki winter. That should teach them some manners.

Suficiente. Amanhã: Estágio 3, a negociação.

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sábado, 06 de novembro 2004

*Estágio 1. A Denegação*


*Estágio 1. A Denegação*

*Nós somos uma nação de selvagens*. Foi isso que