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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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terça-feira, 30 de novembro 2004

Ascensão e Morte do PT de c.d.

(digamos que c.d. é um personagem fictício que hoje tem 36 anos)

1981: aos 13, c.d. junta-se à formação do PT na sua BH natal, durante
potente greve dos professores; 1982: c.d. faz campanha de Sandra
Starling e combate o voto útil tancredista; época do lema terra trabalho liberdade; 1983: intensa mobilização do movimento secundarista de BH:
petistas punks pacifistas anarquistas contra o PC do B; fim do ano traz
os primeiros comícios do PT pelas diretas; 1984: gigantesca campanha das
diretas; c.d. se aproxima da DS, trotskista mas fortemente comprometida
com a construção do PT; 1985, terminando o 2o grau, c.d. se filia ao PT
e se converte em militante da DS; Virgílio Guimarães, então da DS, tem
grande votação para prefeito em BH; vitória em Fortaleza; 1986: c.d.
lidera a vitória petista sobre o PC do B no DA da Letras-UFMG; c.d. tem
vida leninista, 25 reuniões por semana; cresce o PT; Virgílio eleito à
constituinte; 1987: DS consegue passar no congresso do PT a
auto-definição como partido socialista; vitória de c.d. no DCE da UFMG;
numa das maiores federais do país, caía a hegemonia do PC do B sobre o
movimento estudantil; c.d. profissionaliza-se como militante; 1988:
enlouquecido de tanta reunião e militância, c.d. continua no PT mas
desliga-se formalmente da DS para terminar curso de letras; reunião
tensa e difícil na célula; 1989: volta completa à militância durante
campanha de Lula; brutal a derrota; 1990: já no exterior, c.d
mantém contato com petistas e continua considerando-se parte do partido;
pelos próximos 14 anos, passará 3-4 meses por ano no Brasil; 1991:
reuniões na CUT sobre o impeachment de Collor; 1992: c.d. participa de
corpo (no Brasil) e pela escrita (nos EUA) da campanha pelo impeachment;
vitória contra Collor; 1993-94: c.d. discorda violentamente da punição à
Luísa Erundina; participa por umas semanas na campanha fracassada de
Lula; 1995-96: c.d. vê com muita preocupação a acumulação de poder de
Dirceu no partido; Porto Alegre elege um militante da DS, Raul Pont,
como seu prefeito; 1997-98: c.d. participa menos intensamente na
campanha de Lula e envia carta protestando o "massacre promovido pela
Direção Nacional e sua cavalaria cossaca contra o PT carioca"; quando a
burocracia do PT paulista decide enfiar Garotinho goela abaixo do PT
carioca, c.d. considera a possibilidade de desfiliar-se mas não o faz;
derrota acachapante de Lula para FHC; 1999-2001: Crescente
burocratização do partido, mas c.d., morando no exterior, identifica-se
com o PT e dá palestras sobre a história singular do partido; 2002: c.d.
participa da última semana da campanha no Brasil e celebra o domingo
27/10 numa comuna operária do Chile, em meio a retratos de Salvador
Allende; grande emoção; péssimos sinais, no entanto, no que diz respeito
à vontade nítida do novo governo de agradar aos banqueiros; consolida-se
nacionalmente a sinistra figura de Delúbio; 2003: movido pela esperança
em Lula e por uma década de militância, c.d. publica na revista
progressista argentina *Punto de Vista *uma *crônica e defesa do PT*
[link] ; quando
sai o artigo de c.d. Dirceu já fez sua grosseria mor com Gabeira; c.d.
vê com horror a punição aos radicais Babá, Heloísa e Luciana; conversa
com ex companheiros, agora co-autores de *A Economia Política da
Mudança*
[link] ,
volume que desmonta as premissas da política econômica paloccista; c.d.
decide desfiliar-se, mas mesmo assim não o faz; 2004: revelação
cristalina do governo do PT como governo neoliberal, burocratizado,
perdido, incompetente e refém do calculismo de sua própria politicagem;
c.d. queima filiação, bandeiras e camisas do PT e manda o projeto de um
partido de massas, pluralista, democrático e socialista para o raio que
o parta.

Trilha sonora: Cartola, "Fita meus olhos", com Nelsinho no Trombone (1977)

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  Escrito por Idelber às 03:08 | link para este post



domingo, 28 de novembro 2004

Passeando pela blogosfera literária


Passeando pela blogosfera literária

Semana de passeios intensos pela blogosfera em português. Como na
livraria, há que se separar o joio do trigo. Links do que mais gostei
até agora:

*Revistas*

Periódico colaborativo, com novidades sobre a cena literária é o Capitu
[link] . Ver também a excelente revista
paralelos [link] . Alguns dos bons da nova geração
publicam na Patife [link] . Bela oficina coletiva de
produção poética, ficcional, ensaística e fotográfica é o Cabeza
Marginal [link] . O Portal de Literatura Blocos
tem uma muito útil Encliclopédia Virtual de Poesia Brasileira
[link] .

*Blogs de escritores*/:/

A poesia elétrica, densa, indo do haikai ao cabralino, de Ana Peluso
[link] (não perca o poema sobre o eu).

As polaroids em prosa poética, de respiração lispectoriana, de Ane
Walker [link] (não perca o “envelopes”).

A poesia rigorosa, de ourives, do já conhecido Frederico Barbosa
[link] (não perca o poema
contrastando SP e Recife a Salvador e RJ, reproduzido numa das
entrevistas).

Os flashes urbanos paradoxais, de belas aliterações, de Greta Benitez
[link] (não perca o maravilhoso poema
sobre Billie Holiday)

A poesia penetrante, erótica, humorística, instigante, de Sara Fazib
[link] (não perca também o potente relato "Um
Encontro")

Tem muito mais, mas os que eu gostei mesmo até agora são esses. E porque
a vida não é só literatura, aqui vão dois outros blogs:

Porrada pura, com bom humor e bem escrito, é o blog Catarro Verde
[link] . Blog profissional, bem-feito, de um
cinéfilo inteligente é o Por um Punhado de Pixels
[link] .

Trilha sonora: Coleman Hawkins, "Ruby My Dear", com Thelonious Monk ao
piano.

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  Escrito por Idelber às 22:26 | link para este post



sexta-feira, 26 de novembro 2004

Disco da Semana –


Disco da Semana – Fellini, /Três Lugares Diferentes/ (1987)

O tempo permitindo, quero fazer uma vez por semana uma resenha de um
disco ou livro semi-obscuro. Se um leitor deste blog no futuro for
procurar a pérola, já valeu.

O escolhido para iniciar a série é *Três Lugares Diferentes* (1987), o
terceiro e melhor disco da banda paulista Fellini.

A banda estreou com *O Adeus de Fellini* (1985)/ /e deu sequência com
*Fellini só Vive Duas Vezes* (1986). Depois da obra-prima *Três Lugares
Diferentes*, ainda fizeram *Amor Louco* (1989) antes de se separarem.
Recentemente se reuniram e fizeram *Amanhã é Tarde* (2002).Fellini é,
principalmente, Thomas Pappon e Cadão Volpatto. Pappon toca baixo,
bateria e outros. Jornalista da *Bizz* dos bons tempos. Cadão nas letras
e vocais [link] . Em
diferentes discos, assumiram a guitarra Jayr Marcos ou Tancred, a
percussão Silviano Michelino, a bateria Ricardo Salvaqui, além de Guinho
nos trompetes e Leonor no cello. Mas o núcleo é Pappon/Volpatto
[link] .

Escrever a respeito da música é como dançar a respeito da arquitetura,
disse uma vez o filósofo Elvis Costello. Descrever o som do Fellini não
é fácil. É uma banda de *samba eletrônico que cruza a MPB com o pós-punk*.

Influenciado pelo rock inglês de 79/85 (Joy Division, Echo, Durutti
Column, Gang of Four, Cure, etc.), o Fellini mantém a batida *pesada mas
soporífera* daquele rock, se inspira nas guitarras distorcidas mas
lentas, arrastadas, do Velvet Underground e demonstra familiaridade com
o trabalho de produção de Brian Eno, guru de David Bowie e bruxo da
ambient music dos anos 70. Por aí vai *O Adeus de Fellini*, gravado em
estúdio de oito canais, e *Fellini só vive duas vezes*, gravado na sala
de visitas de Pappon em quatro canais.

Com exceção de uma música, Fellini jamais teve espaço no rádio, jornais
ou televisão (só chegaram a dividir com Titãs o prêmio de disco do ano
segundo a crítica em 1986). No entanto, *fizeram a cabeça de muita
gente, incluindo Chico Science*. O Fellini é chave para entender a
revolução Mangue Beat, que aconteceu dez anos depois dos caras e a 2.000
km de distância. Por quê?

A resposta é *Três Lugares Diferentes*/,/ onde Fellini pega os
ingredientes citados, coloca um pé na MPB, desenvolve na bateria
eletrônica uns beats de samba quebrado, esquisito, em diálogo com
melodias mais pop, levadas pelo slide guitar/ /de Tancred. O trabalho do
percussionista Silvano Michelino dá corpo ao som. Sobrepõem-se letras de
um surrealismo meio humorístico e acrescentam-se belos acompanhamentos
de gaita. Uma pérola pop. De vez em quando interrupções hilárias em
alemão, português ou inglês, incluindo uma gravação do locutor de
futebol Osmar Santos tirando sarro da banda: "vamos ver aí esse samba
maluco da rapaziada do Fellini; não vende nada, o disco não tá legal,
mas tá todo mundo se divertindo".

Em “Lavorare Stanca”, o menos genial é a letra:

/Cidade / sono leve/

/Se vive tem que trabalhar / e mesmo se se sonha tem que trabalhar/

/Mil anos tem que levantar / como um sol que não consegue andar/

/Assim seus sapatos devem pelejar/

O Fellini foi pioneiro no *uso inteligente dos portastúdios de quatro
canais dos anos 80*. Foram o elo perdido entre o rock dos anos 80 e a
MPB, separação, dicotomia, que só se superaria dez anos depois com Chico
Science. A concepção e a música eram muito melhores que a grande maioria
do chamado "rock nacional". Mas infelizmente pouca gente conhece. Se vir
na loja esse vermelhinho em liquidação, pode comprar. Foi dos melhores
discos feitos no Brasil no ano em que o Leão do Norte foi campeão
brasileiro.

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  Escrito por Idelber às 16:44 | link para este post




Reflexões sobre o Conto


Reflexões sobre o Conto I

Esta reflexão sobre o conto é dedicada à minha amiga Cipy Lopes e a seus
alunos de Publicidade lá na mãe de todas as cidades brasileiras.

Os dicionários dizem: conto é uma curta narrativa de ficção em prosa.
Hoje em dia, máximo 25 páginas. Mais que isso já vira novela. Mas o que
faz um conto ser um conto?

Tomemos o menor conto do mundo, do guatemalteco Augusto Monterroso:

*Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá. *

* *

Genial? O que faz com que o texto de Monterroso seja um conto, apesar de
suas oito palavras, é a presença de *duas temporalidades*: a do cochilo
do cara e a do dinossauro ainda estando lá.

* *

O argentino Ricardo Piglia tem uma tese: *um conto sempre conta duas
histórias*. As diferentes épocas escolhem diferentes formas de
relacionar as duas histórias que contam.

Para exemplificar, uma anotação do *contista e dramaturgo russo
Tchekhov* [link] *,*
que tinha material para um relato: *um cara chega numa cidade,
instala-se num hotel, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta
ao hotel e se suicida*. Aí você tem um conto porque normal é o
cara ganhar e fazer outra coisa, ou perder e suicidar, mas *ganhar* *e
depois suicidar* é insólito. Por ser insólito, o evento dissocia as duas
histórias. Há a história da viagem/jogo e a história do suicídio. Pois
bem, o que é um conto do século XIX?

O mestre do conto do século XIX é Edgar Allan Poe, que em 1840 e poucos,
tiritando de frio na Filadélfia, pobre que só vendo, tendo que queimar a
própria escrivaninha para se aquecer, inventou nada menos que a
*narrativa policial*
[link] ,
a *narrativa de horror*
[link] e
a *ficção científica*
[link] .
Um conto do século XIX é o que lhe relata a história da viagem, mudança,
instalação no hotel, ida ao cassino, vitória e tudo mais *de tal forma a
dissociá-la completamente da outra história, a do suicídio do cara*. Há
uma história visível (a viagem) e uma história secreta (o suicídio).

O *bom* contista é o que lhe conta a história 1 sem que você suspeite a
história 2 que vai explodir no final. O *bom *leitor é aquele que
aprende as manhas dos escritores para esconder a história 2 na história
1. Esse é o jogo gato e rato da literatura do século XIX. Autores e
leitores se cansam desse jogo por volta de 1910-20, a porra toda explode
e começa-se a contar contos de maneira muito diferente.

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  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post



quinta-feira, 25 de novembro 2004

Reflexões sobre o Conto

Reflexões sobre o Conto II

O que é um conto do século XX?: É um conto em que a história 2 (a
secreta) já não está embutida invisível na história 1, já não é um
enigma que se revelará no final para arredondar a coisa bonitinho. O que
faz o escritor moderno?

*James Joyce [link] * narra a
história da viagem arrastada, sem esperança, tanto que quando chega a
história do suicídio você já nem liga que o cara está suicidando.
Destruição total do efeito catártico.

*Hemingway [link] * simplesmente não te
conta que o cara suicidou. Dá alguma pista, mas no mais conta o conto da
viagem. Em detalhes secos, onde tudo é um puro acontecer sem significar.
Você termina o relato com cara de “Que Porra é Essa?” porque não você
não entendeu que o cara suicidou. É como se não tivesse acontecido nada.

*Kafka [link] * é o mais
incrível, ele inverte a história 1 com a 2. Conta a história da morte
como se fosse o mais banal, como se fosse a descascada de uma laranja. O
horror é totalmente transferido para a história 1 – a partida para o
hotel –narrada de forma terrorífica e ameaçadora.

*Jorge Luis Borges [link] *
conta a história 1 como se ela já tivesse sido contada mil vezes. Tudo é
tirado, parodiado de algum lugar. Até que no final o sujeito encontra no
suicídio uma verdade não revelada pelos livros que tinha lido.

Há outras mil variantes, claro.

No Brasil, o mestre em contar a história 1 enquanto esconde a história 2
é *Machado de Assis*. Muitos conhecem /Dom Casmurro/ ou /Memórias
Póstumas de/ B/rás Cubas/, seus romances famosos. Mas a arte inigualável
de Machado está no conto. Para ver algumas obras-primas, é só baixar
/Papéis Avulsos/ ou /Histórias sem Data /no site da Virtual Books
[link] .

Estou preparando para breve um post com sugestões de 150 livros de
contos brasileiros. Alguns dos autores indispensáveis são,
claro, Guimarães Rosa
[link] , Clarice Lispector
[link] , Dalton Trevisan
[link] , Caio Fernando
Abreu [link] . Contista barra
pesada há 4 décadas é Rubem Fonseca
[link] . Pau puro. Entre os das
duas últimas décadas, tenho meus favoritos: João Gilberto Noll
[link] e Márcia Denser
[link] . O conto é hoje o
gênero que, em qualidade e quantidade, vai melhor das pernas no Brasil.

A melhor contística do mundo, prá mim, é a da Argentina
[link] , infelizmente pouco traduzida
por nós, que publicamos tanto lixo traduzido do inglês.

Fica prá próxima a lista dos "top 150". Boa aula pessoal.

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  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post



terça-feira, 23 de novembro 2004

** **Em homenagem ao


**

**Em homenagem ao Grêmio**

Quem viu, viu. Quem não viu, agora só em VTs que parecem mais lentos que
o original.

O time era Mazzaropi; Paulo Roberto, Baidek, De León e Paulo César;
China, Osvaldo (Bonamigo) e Mário Sérgio; Renato Gaúcho, Tarcísio e
Paulo César Caju (Caio).

O jogo era a final do Mundial Interclubes. Duas estocadas, PUM PUM, 2x1
nos alemães do Hamburgo e o *Grêmio era campeão do mundo de futebol*.

O ano era 1983, Brizola no leme do Rio. O Grêmio era o primeiro time
brasileiro a ser legitimamente campeão do Mundo desde a era Pelé –
*legitimamente* querendo aqui dizer sem que um juiz os levasse até lá,
expulsando meia equipe adversária.

Não que as glórias do Grêmio começassem ali, claro. Só entre as que eu
lembro, há duas saborosas para os tricolores:

*O memorável campeonato gaúcho de 1977*. O Inter era OCTAcampeão gaúcho
e Bicampeão brasileiro. Se você já passou *perto *do RS, sabe o que isso
significa. Tendo ainda um time inferior à máquina falcônica do Inter, o
Grêmio de Telê Santana e André Catimba foi à final. Venceu heroicamente,
com gol e cambalhota gigante de André, capturada numa famosa foto tomada
de baixo prá cima, no momento em que o artilheiro estava ainda a uns
dois metros do chão, despencando com a cara enlouquecida (ai, que
saudades da *Placar* dirigida por Juca Kfouri!).

*O primeiro campeonato brasileiro do Grêmio*, em 1981, derrotando outra
equipe superior à sua, calando um Morumbi lotado de são-paulinos e
surpreendendo o Brasil inteiro. O herói foi o primeiro pop star
evangélico do futebol brasileiro, Baltasar. Ali quem ainda não sabia
ficou sabendo: você pode estar jogando em casa e com dois gols de
vantagem. Se o adversário estiver vestido com aquelas listras azuis,
negras e brancas - *cuide-se*.

Em meados dos 90, era até chato assistir. O Grêmio ganhou tudo,
incluindo outra Libertadores.

Pois bem, o glorioso Grêmio está rebaixado à segunda divisão do futebol
brasileiro. À nação gremista, minha solidariedade.

Que o Tricolor de Lupicínio, Borguetinho e do meu amigo Joca esteja de
volta à Série A em 2006, porque lá é que o lugar dele. Às equipes que
ficaram na Série B, parabéns: ano que vem conhecerão o templo, o
Olímpico. Rendam seus respeitos: ali brilharam Everaldo, De León e Caju.
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  Escrito por Idelber às 00:47 | link para este post



segunda-feira, 22 de novembro 2004

A Varig e o

A Varig e o conceito de patrimônio nacional

Sabe-se que a VARIG está num buraco financeiro e que ela pediu socorro
ao BNDS. Blogueiros mor, como Marcelo Tas e Gerald Thomas, já falaram
sobre o assunto. Tas, para botar a VARIG no mesmo saco do Banco Santos
como outra empresa que quer sugar dinheiro público
[link] .
O Gerald, para defender a VARIG como patrimônio nacional que merece ser
encampado
[link] .


Adoro o Tas, mas nesta estou com Gerald e não abro.

Até que se prove: 1) que houve corrupção ou super faturamento ou mesmo
má administração na VARIG, o que nunca foi nem cogitado; 2) que o buraco
da VARIG não é muito mais produto das políticas econômicas do estado
brasileiro na última década, que criam débitos em dólares para serem
saldados com receita em reais; 3) que o buraco da VARIG é maior,
proporcionalmente, que o buraco de qualquer empresa aérea de tudo quanto
é canto, eu acho que o pedido de empréstimo da VARIG ao BNDES deve ser
tratado com MAIS, não MENOS atenção do que os outros pedidos que se
fazem lá. Salvar banco de falcatrua é outra coisa. Quem viaja por
empresas estrangeiras sabe que a VARIG é diferente. Parabéns à GOL e que
ela tenha direito a tudo também. Mas colocar VARIG e Banco Santos no
mesmo saco não dá.

É do interesse nosso ter VARIG, TAM, Gol e outras funcionando saudáveis.
Eu não quero que chegue o dia em que teremos que agüentar o padrão Delta
de qualidade toda vez que quisermos viajar de Belo Horizonte para Teresina.

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  Escrito por Idelber às 22:02 | link para este post



sábado, 20 de novembro 2004

20 de novembro: Dia


20 de novembro: Dia da Consciência Negra

Viva Zumbi dos Palmares que de 1670 a 1695 comandou a maior comunidade
livre da história da nossa pátria.

Viva Zumbi que nasceu em Palmares, e já criança, aprisionado e entregue
a soldados, rebatizado Francisco (ah, queriam transformá-lo num
Chiquinho de Assis!), *optou por voltar a Palmares e lutar com seu povo*.

Viva Zumbi, que não aceitou nenhum acordo com a opressão.

Viva Zumbi, que lutou até fim e morreu traído.

Viva Palmares, onde dezenas de milhares de negros viveram em liberdade,
duramente conquistada com o sangue de todos.

Viva Palmares, que deu as boas-vindas a todos os pretos, todos os
índios, todos os brancos pobres que se juntaram à luta.

Neste 20 de novembro, celebre Zumbi e informe-se mais um tiquinho sobre
a história do racismo e da opressão racial no nosso país.

E viva Zumbi.

E viva Pixinguinha, Amaral e Paulo César Caju. Viva Tim Maia, Elza
Soares e Mussum. Viva Ismael, Cartola e Sinhô. Viva Pelé. Viva Adão
Ventura, Cruz e Souza e Lima Barreto. Viva Luiz Melodia e Benedita. Viva
Abdias do Nascimento e viva Nei Lopes. Viva o Ministro Gilberto Gil.
Viva Edna Roland e Dona Ivone Lara. Viva Mílton Santos. Viva Glória
Maria e Heraldo Pereira. Viva Jamelão, Djavan e o paredão Dida. Viva
Jorge Aragão, Leci Brandão e Wander Lee. Viva o Mestre Negativo. Viva
Mano Brown e Negra Li. Viva Mílton Nascimento. Viva Grande Otelo. Viva
Zezé Motta e o moleque Ronaldinho Gaúcho. Viva Toni Tornado. Viva
Paulinho da Viola.

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quinta-feira, 18 de novembro 2004

40 dias da morte


40 dias da morte de Jacques Derrida

Faz 40 dias que Jacques Derrida morreu. Como fazer luto pelo pensador
que nos ensinou que o luto é interminável? Como fazer justiça ao
pensador que desvendou a natureza da justiça como promessa perene?

Não é hora de recordar todas as imbecilidades que foram ditas sobre ele.
De tudo foi acusado: niilista, relativista, incompreensível, frívolo,
“poético” (no mau sentido, ou seja, de “brincadeira não-filosófica” ),
alienado, irresponsável e muito mais. Não só atravessou todos os
epítetos incólume. Sem ter sido nenhuma dessas coisas, ele transformou
radicalmente a compreensão de todas elas: responsabilidade, poesia,
cognocibilidade, entre mil outras noções, já não são termos que se possa
entender ingenuamente.

Por isso é especialmente importante combater o preconceito idiota de
Derrida como filósofo “difícil” ou pior, “incompreensível” ou “cheio de
indeterminações”. Não é mais nem menos difícil que Kant, Hegel ou
Heidegger. A diferença passa por outro lugar.

Pode-se começar a ler a vasta obra de qualquer lado. Se você vem da
psicanálise, comece aqui
[link] . Se vem da
lingüïstica, pode começar aqui
[link] ou aqui
[link] . Se vem do teatro,
um bom ponto de partida é este
[link] . Se teve, em
qualquer disciplina, um encontro importante com o estruturalismo, este é
um texto chave
[link] .
Para pensar a questão do saber, e especialmente do saber universitário,
ver este texto [link] .

Vindo do humanismo, dê uma pensada nisto
[link] . Se vem
da pragmática, que tal pensar sobre isto
[link] .
Se vem da arquitetura, veja
[link] . Se vem da
literatura, as portas de entrada a Derrida são legião: por exemplo a
metáfora [link] ,
a tradução
[link] . Se
você vem do marxismo, veja como Derrida viaja daqui
[link] para este outro
lugar [link] .
Duas entradas ao último Derrida, o das reflexões sobre o perdão e a
democracia, são a entrevista sobre a Africa do Sul e o perdão
[link] e a
entrevista sobre a hospitalidade
[link] .

Para mergulhar de vez, ver, no Brasil, o belo, risomático livro de
Evando Nascimento, *Derrida e a Literatura* (Niterói: EDUFF, 1999).

Que esses textos continuem a circular e a nos habitar. Que a
mediocridade de plantão ladre cada vez mais baixo e mais moleques possam
ler Derrida em paz. E que ele descanse, porque trabalhou muito.

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terça-feira, 16 de novembro 2004

Lembrando Alejandra Pizarnik Ela


Lembrando Alejandra Pizarnik

Ela nasceu em Buenos Aires em 1936 e escolheu suicidar-se lá também, em
1972. Prá mim, é a maior poeta de língua castelhana da segunda metade do
século XX. Sua prosa curta é povoada de bonecas destripadas, anões
acrobatas, sonâmbulos, condessas sangrentas, máquinas de tortura.

Sua poesia é singular: sucinta, rápida, epigramática, atravessada por
silêncios e pelo fantasma da morte, Pizarnik escreve como quem
transborda enquanto emudece. Seu grande tema é o dilaceramento do
sujeito, um espedaçamento que acontece *no interior* das palavras:
Fernando Pessoa não daria conta de tantos cacos.

São de Pizarnik as frases:

*dançando como palavras na boca de um mudo. *

*escrevo como uma faca erguida na escuridão. *

*eu e a que fui nos sentamos/ no umbral da minha mirada. *

*me provo na linguagem em que comprovo o peso de meus mortos*

Vertidas por mim ao português, aqui vão algumas pérolas de Pizarnik:

De *Árbol de Diana* (1962):

6

ela se desnuda no paraíso

de sua memória

ela desconhece o feroz destino

de suas visões

ela tem medo de não saber nomear

o que não existe

13

explicar com palavras deste mundo

que partiu de mim um barco levando-me

37

mais além de qualquer zona proibida

há um espelho para nossa triste transparência

Para saber mais sobre Pizarnik, o link é este
[link] .

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segunda-feira, 15 de novembro 2004

Vozes machas e fêmeas

A pessoa do autor não coincide nunca, claro, com a voz que fala em seu
texto. Por outro lado, a não coincidência entre o gênero da pessoa e o gênero da voz textual não implica, necessariamente, que a voz masculina de uma autora ou a voz feminina de um autor sejam mais ou menos “autênticos” ou “inautênticos” de antemão.

Tudo depende.

A maioria das mulheres concorda que Chico Buarque cria uma voz de mulher extraordinariamente convincente em canções como Ana de Amsterdam ou Olhos nos Olhos.

Lygia Fagundes Telles tinha uma boa história sobre um corno. Resolveu
armar o relato em primeira pessoa, na voz de um homem. O problema é que o narrador protagonista diz coisas só verossímeis ou imagináveis na boca de mulheres, não de homens. O conto não convence o leitor masculino mais exigente (hehehehe). Mas a história é boa e se chama O Moço do Saxofone.



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sábado, 13 de novembro 2004

DRUMMOND: O verbo prorrogar


DRUMMOND: O verbo prorrogar entrou em pleno vigor, e não só se
prorrogaram os mandatos como o vencimento das dívidas e dos compromissos
de toda sorte. Tudo passou a existir além do tempo estabelecido. Em
consequência não havia mais tempo.

RAUL SEIXAS: /Essa noite eu tive um sonho/ de sonhador/ Maluco que sou,
eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou / com o dia em que a Terra parou
Foi assim / No dia em que todas as pessoas / Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que fosse combinado / em todo o planeta/ Naquele dia,/

/Ninguém saiu saiu de casa / ninguém/

DRUMMOND: Então suprimiram-se os relógios, as agendas e os calendários.
Foi eliminado “o ensino de História. Para que História? Se tudo era a
mesma coisa, sem perspectiva de mudança

RAUL SEIXAS: /O empregado não saiu pro seu trabalho//

/Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão, também não tava lá
e o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar/

DRUMMOND: A duração normal da vida também foi prorrogada e, porque a
morte deixasse de existir, proclamou-se que tudo entrava no regime de
eternidade. Aí começou a chover, e a eternidade mostrou-se encharcada e
lúgubre. E o seria para sempre, mas não foi.

RAUL SEIXAS: /No dia em que a Terra parou
E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia que o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar/

DRUMMOND: Um mecânico que se entediava em demasia com a eternidade
aquática inventou um dispositivo para não se molhar. Causou a maior
admiração e começou a receber inúmeras encomendas. A chuva foi
neutralizada e, por falta de objetivo, cessou. Todas as formas de
duração infinita foram cessando igualmente.

RAUL SEIXAS: /No dia em que a Terra parou
O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
e o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
e o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar/

DRUMMOND: Certa manhã, tornou-se irrefutável que a vida voltara ao signo
do provisório e do contingente. Eram observados outra vez prazos,
limites. Tudo refloresceu. O filósofo concluiu que não se deve plagiar a
eternidade.

RAUL SEIXAS: /Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, acordei
No dia em que a Terra parou
Eu acordei
No dia em que a Terra parou, acordei
Justamente
No dia em que a Terra parou
Eu não sonhei, acordei
No dia em que a Terra parou/

Drummond de Andrade, Carlos. “A Falsa Eternidade.” /Contos
Plausíveis/. /Poesia e Prosa/. 6^a edição. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1988. 1233-34.

Seixas, Raul. “O Dia em que a Terra Parou.” /O Dia em que a Terra
Parou/. WEA. 1978.

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quinta-feira, 11 de novembro 2004

Drummond e Raul A



Drummond e Raul

A temporalidade era a matéria fundamental, tanto de Carlos Drummond de
Andrade, como de Raul Seixas. Em ambos, o brilhantismo, que fazia com
que eles despertassem a admiração de muitos, se combinava com o
temperamento arredio, que prezava a solidão e o retiro, macambúzio, para
meditação e produção artística acerca dos enigmas do tempo.

Drummond viaja da urgência de intervenção no tempo /presente/ em /Rosa
do Povo/ (1945) à melancólica memória arquivista de /Boitempo/ (1968),
por um fio que nunca exclui a estupefação ante o inexorável da perda /no
tempo/, que aparece no poeta desde /Alguma Poesia/ (1930)/ /até /Amar se
aprende amando/ (1985).

Raul começa com um /pôr-se em dia/ com o rock americano na época dos
Panteras (1967-68) mas já estréia carreira solo com uma canção sobre
como já viveu tudo (“Ouro de Tolo”, 1973). A partir daí, dedica-se à
exploração de temporalidades paralelas como a mística de /Novo Aeon/
(1975) ou o cronista milenar, paródia radical de Nabucondonosor em /Há
Dez Mil Anos Atrás/ (1976). Já acabado, alcoolizado, emplaca um sucesso
infantil, um mergulho na temporalidade do menino: “Plunkt Plakt Zoom”
(1983).

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quarta-feira, 10 de novembro 2004

A língua inglesa sequestrada


A língua inglesa sequestrada pela direita

Quatro exemplos, entre milhares, de como a linguagem política está hoje
sequestrada pela direita nos EUA: **

* *

Tome um movimento de ruidosos defensores da idéia de que o aborto nos
EUA deve voltar a ser como ainda é no Brasil – clandestino e perigoso
para os pobres, acessível e seguro só para os ricos – e salpique-lhes
uma severa dose de retórica de cristão renascido, de preferência com o
fervor de um Batista do Sul. Crie uma campanha nacional contra o direito
das mulheres ao planejamento familiar e de intimidação dos professionais
da medicina. Chame este movimento de /PRÓ-VIDA/ (/pro-life/).

* *

Tome uma enlouquecida irresponsabilidade fiscal, traduzida em enormes
cortes e isenções de impostos para a pequena camada milionária da
população americana, a um custo de deterioração severa dos serviços do
estado. Batize esta gigantesca operação de transferência adicional de
renda dos mais pobres e da classe média na direção dos mais ricos de
ALÍVIO FISCAL (/tax relief/).

Tome um programa de pauperização, repressão e sujeição do ensino
fundamental público, que coloca todo o peso do sucesso nos ombros de
professores mal-pagos e sobre-carregados. Imponha, aos adolescentes,
padrões artificiais de conhecimento, que nem o presidente da República
ainda atingiu como adulto. Salpique-lhe vouchers de privatização sempre
que o ensino público “fracassar” ante os “/standards/.” Chame este
programa de NENHUMA CRIANÇA DEIXADA PARA TRÁS (/no child left behind/)

Tome uma tempestade de fúria ante as recentes, tímidas iniciativas de
conceder aos casais do mesmo sexo benefícios de união civil. Regue,
cultive e manipule essa fúria na forma de emendas constitucionais
docemente escritas para limitar a definição de casamento ao evento que
une um homem e uma mulher. Anexe essas propostas de emendas
constitucionais a uma cédula da eleição presidencial em alguns
estados-chave, e inicie a intensa campanha de demonização dos gays.
Batize a manipulação política desse fator e sua influência no eleitorado
como um voto pelos VALORES MORAIS (/moral values/).

*Os democratas ainda não têm resposta para a avalanche lexical da
direita. Oscilam entre a moderação e a sobre-atuação histérica do
direitismo republicano. Recusam-se a inventar outra língua para a
conversa. *

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  Escrito por Idelber às 21:36 | link para este post




Estágio 5. Aceitação. Aceitação


Estágio 5. Aceitação.

Aceitação significa que aceitamos que perdemos. Só isso. No caso de
perda aguda, significa aceitação da /realidade/ do desaparecimento do
objeto. Não significa aceitação da idéia de que a perda não significa,
ou da idéia de que ela não vá continuar significando por toda a vida.
Distinção básica: aceitar é aceitar o acontecido, *jamais aceitar que o
que está por acontecer não possa ser transformado*.

No nosso caso aqui, aceitação significa aceitação da derrota eleitoral.
Não significa que aceitamos Bush, nem nenhuma de suas políticas.
Distinção básica.

Dito isso, é afiar a lança para outras empreitadas, não sem antes dar
uma olhada nos primeiros levantamentos das fraudes ou erros eletrônicos
na eleição de 2004 (todos favorecendo Bush, claro). Ver os do *Boston
Globe* no original em inglês
[link] ou
traduzido ao português
[link] .

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  Escrito por Idelber às 19:59 | link para este post




Estágio 4. A Depressão

Estágio 4. A Depressão

A América de Bush é uma rua estreita suja e torta onde uma criança
sorridente feia e morta estende a mão.

A depressão é o estado que tenta fazer justiça à profundidade desse
poço. Mergulhar nela a fundo é momento /necessário/ de todo o processo
de aceitação.

Deixar-se atolar na depressão jamais. Mas habitar a barbárie sem
deixar-se deprimir por ela é sinal de que já se está cooptado à
mediocridade da ordem dominante.

No /Village Voice/ desta semana, Michael Feingold sobrevoa a devastação
[link] e Sarah Goodyear
implora, não emigremos
[link] !

Fecho este dia de trabalho pensando como são diferentes as condições de
luta nos EUA e no Brasil. E em como são duras as lutas nos dois lugares,
em toda sua diferença.

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  Escrito por Idelber às 03:15 | link para este post



terça-feira, 09 de novembro 2004

*Estágio 3. A Negociação*


*Estágio 3. A Negociação*

A Negociação: na situação de perda ou derrota, a negociação
(*bargaining*) emerge quando o sujeito começa a ser capaz de visualizar
algum objeto substituto para o objeto perdido. É o começo do processo de
luto propriamente dito. Pode ser também um processo de denegação
horrível, no qual a negociação nem tem tempo para acontecer, e o objeto
substituto é agarrado furiosamente, como prova de que não houve perda
nenhuma.

Na fase da negociação, o sujeito pode dá-la como terminada e cair de
volta na denegação.

Pode intercalá-la com o ódio.

Pode amadurer os frutos da futura aceitação.

Aqui nos EUA? Consolos?

1. Bush já não pode ser reeleito.
2. Um extraordinário senador negro, Barack Obama, foi eleito com
votação considerável em Illinois
3. A ala mais mobilizada do Partido Democrata, liderada por Howard
Dean, ganhou espaço no partido e construiu uma base de energia
notável.
4. Ninguém jamais se referirá a John Kerry como a Mondale (massacrado
por Reagan en 84), Dukakis (fraca performance contra Bush I em 88)
nem mesmo como a Gore (ovelha que aceitou ser roubado em 2000).
Pelo contrário: John Kerry tem o respeito de todos.

Nada disso consola muito porque a derrota foi realmente estrondosa (não
nos números, mas na frustração da expectativa).

Para ajudar a fase de negociação, o cineasta Michael Moore descreveu as
17 razões para não se cortar as veias
[link] .

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  Escrito por Idelber às 03:57 | link para este post



domingo, 07 de novembro 2004

Estágio 2. O Ódio

O ódio é aquele momento da perda em que o sujeito ainda não está na aceitação e já não está na denegação. Ao contrário da angústia, o ódio tem um objeto definido.

Aqui: ódio aos rednecks, ódio aos miseráveis de Nebraska e South Dakota que não teriam nem máquinas para colher seu tabaco e milho se não fosse pelo trabalho das duas costas, ódio à manipulação cretina da homofobia, ódio à manipulação do medo anti-árabe, ódio aos que fazem do ódio sua grande ferramenta política.

Na etapa do ódio, queremos responder sangue com sangue. À emenda
constitucional que pisoteia os gays, oponhamos uma emenda que segregue os rednecks. Aqui vão duas idéias, em inglês:

So here goes my proposed amendment to the US constitution: it will be henceforth considered a terrorist crime against the United States for any citizen to fly or display a Confederate flag in public places. Forget about amending state constitutions, that’s for sissies. We’ll win this one nationally. Organize a national plebiscite and get enough New Englanders, West Coasters, urban Midwesterners, etc. to vote for this. Campaign heavily by equating Confederate flags with racist and anti-Semitic hate literature not protected by the law. Include punishment in the amendment as well. Any citized found guilty of this terrorist crime will be sent to political reeducation for a year in one of two places of his choice: Gitmo or Castro’s Cuba. Do not torture the first pickup-truck driving, Budweiser-drinking racists that get caught flying Confederate flags. Just expose them to massive doses of Pantera,Sepultura, Ramones, Dead Kennedies, Ministry, E. Neubaten, and then send them off to Gitmo or Cuba. Let the motherfuckers choose. In Gitmo they’ll probably become Talibans; in Cuba the range of choices is still slightly wider. Regardless of what happens, when and if they come back they should be ready to stick their Confederate flags up their asses.

Second national plesbiscite for a constitutional amendment: ban the Bible from public schools. If we phrase it like that we’ll never win, of course. The amendment should determine that all schools should either be Bible-free or devote equal time and shelve space to the Christian Bible, the Hebrew Bible, and the Koran. You wanna talk sacred books, let’s talk sacred books. Punishment for transgressing this law should be a two-year-long political reeducation stay in a mostly atheistic part of the world, like Buenos Aires or Finland. Not with taxpayer’s money, mind you. Taxpayer will pay their one-way tickets. Let the motherfuckers earn their living and return tickets in the Helsinki winter. That should teach them some manners.

Suficiente. Amanhã: Estágio 3, a negociação.

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  Escrito por Idelber às 19:04 | link para este post | Comentários (1)



sábado, 06 de novembro 2004

*Estágio 1. A Denegação*


*Estágio 1. A Denegação*

*Nós somos uma nação de selvagens*. Foi isso que nós decidimos na noite
do dia 02 de novembro. Seremos selvagens sedentos de sangue até que a
última criança iraquiana morra estuprada com uma bomba de gasolina.

Ah, quando chegamos aqui nessas terras, lembram, nós achávamos que os
selvagens eram os índios, vivendo quase pelados em tribos às vezes
nômades, às vezes amontoadas em tabas e cavernas asquerosas. Ah,
massacramos esses selvagens quase até o último, espezinhamo-nos,
roubamos-lhe até a última gota de dignidade e de terra e de acesso à
água. Claro, de vez em quando eles reagiam, os mastodônticos idiotas.
Mas isso só aumentava a nossa fúria e sede de sangue.

Como então, hoje também, nos grotões de Indiana, Montana, Kentucky,
assim se pronunciou o povo americano: *queremos sangue e não importa de
onde venha*. Sangue de árabes, sangue de imigrantes, sangue de negros e
pobres, sangue dos gays, sangue dos liberais almofadinhas. Estupraremos
e pisotearemos até o último desses vagabundos para que eles não nos
impeçam de propagar a liberdade, a democracia e a palavra de Deus.

No estágio da denegação (*denial* em inglês, *Verleugnung* em alemão) a
perda ainda não é processada pela consciência; a perda lhe transcende e
lhe escapa. O sujeito nega desorientadamente a perda, sem saber que ao
negar dá o primeiro passo para afirmá-la e aceitá-la.

Esse primeiro passo nem sempre leve a algum lugar, claro. Muitos
alcóolatras, obssessivos, paranóicos, assim como os familiares que os
desculpam e justificam, continuam negando, negando o que importa, a vida
toda. São os que vivem em *denegação*.

Na fase da denegação, dizemos: isto não está acontecendo (veja abaixo).

Amanhã: o ódio.

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  Escrito por Idelber às 18:58 | link para este post



sexta-feira, 05 de novembro 2004

Não, não é a


Não, não é a realidade: é só um sonho. Um arquitetado e maquiavélico
sonho ao qual se deu ares de realidade durante uns dias, por conchavo
sem-vergonha dos meios de comunicação de todo o planeta. George W. Bush
não foi reeleito presidente dos EUA. Não teremos que vê-lo e aguentá-lo
e, mais importante, não teremos que suportar as consequências dos seus
atos. Não teremos que ver seu muxoxo de sorriso maroto e a girada de
olhar que só possuem os mentirosos incuráveis. Não, não teremos que
vê-lo mais na Assembléias das Nações Unidas na qual ele cospe, nem
teremos que vê-lo na televisão, ou na capa do *New York Times*. É uma
pura bruxaria da qual ainda não emergimos. É noite de Halloween e em
dois dias John Kerry será eleito Presidente dos Estados Unidos.

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  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post




5 Estágios de Aceitação do Inaceitável


*5 Estágios de Aceitação do Inaceitável*

1. Denegação

2. Ódio

3. Negociação

4. Depressão

5. Aceitação

Enquanto que o primeiro geralmente acontece primeiro, e o último
acontece por último, os outros três elementos podem se alternar em
ordens diferentes.

Amanhã: a denegação

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  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post




O Novo Canadá


Não seria nada mal ver uma redistribuição do mapa da América do Norte
mais ou menos assim, com um Novo Canadá:

O incrível é ver que a parte saudável do país não perderia quase nada
com a secessão. Bom, nós aqui teríamos que fundar a submarina República
Independente de Nova Orleans. Provavelmente teríamos que tirar uma parte
do nosso pessoal das cidades do estado de Ohio (Cincinnati, Columbus),
tirar um pessoal de Atlanta na Georgia e de Austin no Texas. E mais um
ou outro enclave de racionalidade que existe na América dos grotões. Mas
para dizer a verdade o resto não nos faria muita falta...

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  Escrito por Idelber às 02:16 | link para este post



quinta-feira, 04 de novembro 2004

Fúria anti-gay decidiu eleição

Para John Kerry, os indicadores da semana que antecedia a
eleição pareciam positivos. As pesquisas mostravam empate técnico em
amostragens que sub-representavam o eleitorado democrata.

Sabia-se que os Democratas haviam feito a maior campanha de
registros de eleitores de sua história. Sabia-se que na eleição
presidencial americana os indecisos que terminam votando favorecem o
desafiante.

Nada daquilo estava errado. Os eleitores negros compareceram
em número *maior* que o esperado. Os indecisos terminaram escolhendo
Kerry em sua maioria.

Então de onde saíram os milhões que fizeram com que Bush vencesse o voto
popular com tal folga, se até mesmo parcelas do Partido Republicano
(“conservadores fiscais”, parte da elite militar) haviam abandonado
George Bush e apoiavam John Kerry? E de onde saíram os que decidiram o
estado chave de Ohio, se Cincinnati, Cleveland, Toledo, Columbus, Akron
e Dayton votaram em Kerry em números ainda mais altos que os esperados?

De onde saiu o “voto extra” que decidiu a eleição americana?

A eleição se decidiu na *massiva mobilização do voto rural evangélico*.
E qual foi a grande alavanca dessa mobilização, se muitos perderam
empregos durante a administração de Bush ou têm parentes e conhecidos no
lamaçal do Iraque? A mídia nos diz que a vitória de Bush veio do
eleitorado que votou nas “questões morais”, mas como esse voto decidiu a
eleição em favor do presidente mais imoral da história?

A resposta é um testemunho do momento triste que vive este país.

O comparecimento às urnas nos grotões de Ohio e de dez outros estados
foi mobilizado por campanhas de correspondência e de pregação nas
igrejas, em favor de *emendas constitucionais que proíbem a união civil
entre pessoas do mesmo sexo e limitam a noção de “casamento” ao casal
homem /mulher. *Eliminando a possibilidade de que casais gays usufruam
de herança, plano de saúde compartilhado, união civil, escreveu-se nas
constituições estaduais: *gays, vocês não existem como cidadãos*.

Na maior democracia do mundo, permite-se que isso apareça na mesma
cédula da eleição presidencial. Na de Ohio, a proibição da união civil
dos gays era Questão* *(“Issue”) Número 1.

Karl Rove, o borgiano e maquiavélico estrategista de Bush, tinha razão:
“gay-bashing” (porrada nos gays) funciona. De novo Rove criou um “wedge
issue”, uma bandeira extremista que mobiliza suficientes seguidores para
que *o extremista pareça ser o outro candidato*.

John Kerry está longe de ser um “defensor do casamento gay”. Mas para as
massas furiosas de fanáticos religiosos, isso não é suficiente. É
necessário que a constituição nos convença que os gays não existem e que
se escolha um presidente que defenda a Sagrada Família onde não há gays
nem lésbicas.

Que Iemanjá nos livre desses soldados de Deus.

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  Escrito por Idelber às 18:44 | link para este post



quarta-feira, 03 de novembro 2004

DE LUTO


Queridos 4,5 leitores deste iniciante blog:

Como ficou claro, mais uma vez este bloguista subestimou a incrível
estupidez do povo americano. Não há desculpas: Kerry foi perfeito,
tínhamos grana, tínhamos advogados prontos para as fraudes, etc. A
grande maioria dos que seguiam os números aqui concordavam com minha
previsão. Misteriosamente, as pesquisas de boca de urna nos deram
números perfeitos em todos os estados, exceto em Ohio e Flórida, estados
dominados pelos republicanos, onde se usam as fatídicas máquinas
diebold. Houve fraude? Não sei. Mas o total dos votos foi tal que não
havia, no nosso campo, ninguém disposto a questionar.

A corja, ajudada pelas emendas constitucionais contra o casamento gay,
nos massacrou nos grotões do país, e isso foi decisivo em Ohio.

New Orleans está de luto. O campus de Tulane é uma tristeza só.

Este blog vai tirar umas férias de uns dois dias e voltar com gas novo,
porque a vida continua. Que Iemanjá nos ajude a suportar essa corja mais
quatro anos.

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  Escrito por Idelber às 20:01 | link para este post




Reajustando a previsão


Obviamente a minha previsão de vitória com margem larga, ou de 315 votos
no EC, não se concretiza. Por isso eu sou crítico literário e não
cientista político ou estatístico! Não estou concedendo nada ainda, mas
estou absolutamente surpreso com o resultado da Florida. Tudo indicava
vitória de Kerry lá, mas com a diferença de 300.000 votos a favor de
Bush neste momento, parece que mesmo havendo 1 milhão de votos em
absentia para contar (e ainda votos de Miami para chegar), os Democratas
já concederam o estado.

Nas filas de votação que fecharam tarde nas zonas urbanas de Ohio reside
a decisão agora. Absolutamente agoniante o processo, e não se confirmam
as previsões mais otimistas dos Democratas. Mas se ganhamos Ohio tudo é
possível ainda. Obviamente aqui ninguém dorme.

Seria devastador para todos nós uma vitória de Bush.

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  Escrito por Idelber às 03:54 | link para este post



terça-feira, 02 de novembro 2004

Diário da Campanha XIII - Preparando a festa em New Orleans


De volta a New Orleans. Incrível experiência cívica, a de lutar voto a
voto contra a máquina da fraude na Flórida.

Os primeiros números dos estados que mais interessam, Ohio e Flórida,
confirmam meu otimismo [link]

São 9:20 horário da costa leste, 11:20 no Brasil, e meus cálculos são de
que dentro de 4 horas poderemos ter prova definitiva de que John Kerry é
o novo presidente dos Estados Unidos. Mas esperto que a imprensa
brasileira, e sem os medos da americana, o *Le Monde *já noticiou.
[link]

Agora é fiscalizar e sair pro abraço. Axé babá!

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  Escrito por Idelber às 23:23 | link para este post




Diário da Campanha XII - Números maiores que os esperados continuam chegando!!


Pausa para o café nos esforços de boca de urna aqui em Pensacola. Tudo
correndo tranquilo. Lindos, lindos números chegam de todo o país.

Os republicanos comemoraram a previsão de chuva no Meio-Oeste e na Costa
Leste, já que sua única esperança em, por exemplo, Ohio, é que o menor
número possível de gente vote, seja pela chuva, seja pela demora, seja
porque algum advogado brutamontes questionou o seu direito de votar (o
que significa uma eleição onde um lado quer que o maior número de gente
vote, e o outro lado quer o oposto? que lado você escolheria?)

Dançaram. Os primeiros números confirmam um comparecimento recorde de
73% às urnas em Ohio!!!.

Uma decisão de última hora da corte de apelações de Ohio permitirá aos
republicanos usar uma lista de 30.000 pessoas que recentemente tiveram
correspondência devolvida (maioria minorias e pobres) para questionar
seu direito de votar. A isto está reduzido o outrora glorioso partido de
Lincoln: caçar negros e pobres cujos papéis tenham alguma irregularidade
ou ambiguidade que possam ser usadas para intimidá-los. Toda a história
do sistemático boicote e ataque ao direito ao voto em Ohio está aqui
[link] .

Os relatos e números em Daily Kos [link] confirmam as
previsões que a gente vem fazendo há semanas: vitórias claras em Oregon,
Iowa, Ohio, Pensilvânia. Vitória na Flórida. A corja recebe um sonoro
*get the fuck outta there* do eleitorado.

A grande imprensa americana começa a reconhecer que talvez, bem, talvez
aquelas pesquisas que davam liderança de Bush se devem a uma
sobre-representação dos Republicanos na amostragem e uma completa não
representação dos que usam celular, que são os jovens. Como votam os
garotos que usam celular? Kerry 56, Bush 38
[link] . Será
que alguém mencionava isso quando nos dava aqueles números das
"pesquisas"? Não me lembro.

Alô, Gallup? Alô *Folha de São de Paulo*? Já receberam a notícia? Ainda
não, né?

Mais quatro horas em Pensacola, depois festa em New Orleans.

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  Escrito por Idelber às 13:15 | link para este post | Comentários (1)




Vantagem de Kerry maior que a esperada na votação antecipada da Flórida


Sabíamos que entre os eleitores que votariam antes do dia 02 de novembro
na Flórida nós teríamos ampla vantagem sobre Bush: nossa base está mais
mobilizada a votar logo, e evitar a possibilidade de fraude.

Mas ninguém esperava que *teríamos vantagem de 51 a 43 entre os votantes
antecipados da Flórida!*

Claramente, a coisa na Flórida tende para o nosso lado. Quem quiser
acompanhar a história, o link é este
[link] .

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  Escrito por Idelber às 01:03 | link para este post



segunda-feira, 01 de novembro 2004

O Planalto e a corja 2


Heads up - parabéns-ZÃO para Timothy Power, presidente da BRASA, por
lúcido artigo de hoje na *Folha*, destrinchando a lamentável tropeçada
(ética, política e estratégica) do governo Lula em acreditar que "Bush é
melhor para o Brasil", seja porque a ingenuidade de Lula o leva a crer
que vai brincar e fazer amizade com Bush, seja porque os que não
conhecem a história das últimas administrações dos EUA continuam
acreditando no velho conto de que Republicano é "a favor do comércio
livre".

Como saberão os 3,5 leitores deste humilde e iniciante blog, no domingo
eu protestei contra a suprema bobagem. Power explica porque é bobagem,
além de explicar a estirpe internacionalista da equipe de Kerry, oriunda
da de Clinton. Para assinantes da Folha ou do UOL, o link está aqui
[link] .

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  Escrito por Idelber às 23:23 | link para este post




Crônica da Campanha de Kerry XI - em Pensacola


Pensacola é uma simpática cidade litorânea no extremo noroeste da
Flórida. Foi recentemente devastada pelo furacão Ivan. Por toda cidade,
os esforços de reconstrução ainda continuam e os hotéis estão lotados
com trabalhadores e com os urubus das companhias de seguro. Ainda não
sei onde vou dormir esta noite. Vários voluntários me ofereceram seus
sofás, mas seria legal ter um quarto de hotel (se possível com
internet!) para hoje à noite. O futuro vice-presidente dos EUA, John
Edwards, chega à cidade daqui a pouco.

Tradicionalmente, a cidade vota nos republicanos. Este ano está pau a
pau. Muitos, muitos conservadores me disseram que votam Republicano
desde Nixon, mas que este ano mudaram de lado. Dubya faz Nixon parecer
um honesto e honrado estadista.

Amanhã, se possível, terei detalhes sobre como foi a boca de urna de
hoje aqui em Pensacola. Agradeço a todos os amigos aí do Brasil que
estão dando força, fazendo figuinha, promessa ao Senhor do Bomfim e
mandando emailzinho de vez em quando. No pasarán! Até a vitória. New
Orleans vai sambar.

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  Escrito por Idelber às 16:51 | link para este post




Crônica da Campanha de Kerry X - Sobre o voto "útil"


Tenho escutado aqui e no Brasil comentários sobre como "Bush e Kerry
seriam a mesma coisa" ou sobre como "pode ser que façam diferença para
os EUA, mas em política externa Kerry seria uma continuação de Bush".
Aqui nos EUA ainda há mais ou menos 1% do eleitorado que está
suficientemente desiludida com o Partido Democrata para jogar o voto
fora escolhendo Ralph Nader, candidato verde e progressista que tem uma
história respeitável na defesa do consumidor, mas que este ano se aliou
com Satanás e Belzebu para candidatar-se a qualquer custo. No processo,
perdeu boa parte de sua credibilidade.

Eu jamais preguei voto útil, muito menos condenei ninguém por escolher o
candidato que lhe parece melhor, independente das chances eleitorais.
Comecei fazendo campanha para Sandra Starling contra Tancredo Neves e
Eliseu Resende, nas eleições para o Governo de Minas em 1982.

Mas hoje, aqui neste país e neste mundo, a prioridade tem que ser
enterrar George Bush. E vou dizer uma coisa: depois de tapar o nariz
para fazer campanha para Gore/Lieberman em 2000, estou bastante
orgulhoso da chapa este ano.

John Kerry está *à esquerda de Clinton e da grande maioria do Partido
Democrata em vários temas*. Aqui vão três exemplos, com links para quem
quiser ler mais:

1. Ainda jovem, quando voltou do Vietnam, Kerry corajosamente passou a
liderar o movimento anti-guerra. Isso lhe rendeu o ódio dos belicistas
enlouquecidos (e eles existem em profusão entre os veteranos), mas o
respeito da minoria que logo logo virou maioria. Não teve medo de adotar
a posição minóritaria e lutar pelo que achava justo.

2. Recém empossado senador, ele desvendou o escândalo Irã-Contras,
referente à venda ilegal, por parte do governo Reagan, de armas para o
Irã e o uso da grana para financiar o terrorismo dos contras e o tráfico
de drogas na América Central. No processo, o recém-empossado senador
enfrentou firme um dos presidentes mais populares da história, Ronald
Reagan. A história está aqui
[link] .

3. Depois de desvendar o caso Irã-Contras, passou a desvendar o caso do
banco criminoso BCCI, através do qual várias das transações suspeitas do
escândalo Irã-Contras foram realizadas. Envolvidos no escandâlo estavam
vários magnatas texanos do petróleo, incluindo-se Bush pai. Esta
corajosa investigação lhe rendeu o ódio eterno da dinastia Bush. A
história está aqui [link] .

"Bush e Kerry dá na mesma" é história de quem quer esconder-se atrás do
conforto da indiferença ou da ignorância. O que não quer dizer que eu
esteja escrevendo um cheque em branco para a administração Kerry, ou que
não vá protestar nas ruas caso não apareça um plano claro de saída do
Iraque.

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  Escrito por Idelber às 16:13 | link para este post




PT perde em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Belém, Goiânia, Santos, Caxias e Pelotas


Uma pausa na campanha de John Kerry aqui na Flórida para comentar a
eleição no Brasil, que foi uma demonstração clara da insatisfação do
eleitorado do PT com a política econômica do governo Lula. Se não
entenderam, eu não sei o que mais será necessário para que entendam.

A única candidata importante do PT que venceu este segundo turno foi
justamente a que foi humilhada e espezinhada pela direção nacional,
Luizianne Lins em Fortaleza, olimpicamente boicotada porque a direção já
havia feito um acordo com o candidato do PC do B (sem consultar as bases
cearenses, claro). Pois bem, Luizianne enfrentou-os a todos, derrotou o
candidato do PC do B no primeiro turno, foi ao segundo, ganhou e levou.
Um voto nela era quase que um voto oposicionista, apesar de ser a
candidata do PT.

Tenho que confessar que não me importo muito com a derrota de Marta,
apesar de reconhecer que ela fez uma boa administração. Minha
indiferença não vem, claro, de nenhum dos motivos misóginos que Maria
Rita Kehl analisa bem num artigo da *Folha* de hoje.
[link] A
"arrogância" de Marta não é da minha conta quando dirigida ao
ex-marido, mas me perturba quando a leva a pisotear uma potencial aliada
como Luísa Erundina. Chapa puro-sangue? Em São Paulo? Para depois tentar
ganhar com Dirceu dizendo que Serra é mentiroso e incompetente, quando
todo mundo sabe que ele não é nem uma coisa nem outra? Milionária e
grosseira, a campanha do PT em São Paulo foi irreconhecível.

Fiquei mais triste com a derrota em Porto Alegre porque os petistas
gaúchos, sempre muito competentes, pagaram o pato do desgate nacional do
dogma monetarista-paloccista.

Minha carteirinha de filiação? Foi queimada em 1998, quando os Srs.
Dirceu e Genoíno mandaram a cavalaria cossaca ao Rio, para esmagar a
dignidade do PT carioca e empurrar-lhes Garotinho goela abaixo. Deu no
que deu. Garotinho, aliás, é o grande derrotado desta eleição. Junto com
o Komintern petista.

*Esperemos que os responsáveis pela política econômica entendam a
mensagem das urnas, antes que seja tarde.*

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  Escrito por Idelber às 15:53 | link para este post