A língua inglesa sequestrada pela direita
Quatro exemplos, entre milhares, de como a linguagem política está hoje
sequestrada pela direita nos EUA: **
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Tome um movimento de ruidosos defensores da idéia de que o aborto nos
EUA deve voltar a ser como ainda é no Brasil – clandestino e perigoso
para os pobres, acessível e seguro só para os ricos – e salpique-lhes
uma severa dose de retórica de cristão renascido, de preferência com o
fervor de um Batista do Sul. Crie uma campanha nacional contra o direito
das mulheres ao planejamento familiar e de intimidação dos professionais
da medicina. Chame este movimento de /PRÓ-VIDA/ (/pro-life/).
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Tome uma enlouquecida irresponsabilidade fiscal, traduzida em enormes
cortes e isenções de impostos para a pequena camada milionária da
população americana, a um custo de deterioração severa dos serviços do
estado. Batize esta gigantesca operação de transferência adicional de
renda dos mais pobres e da classe média na direção dos mais ricos de
ALÍVIO FISCAL (/tax relief/).
Tome um programa de pauperização, repressão e sujeição do ensino
fundamental público, que coloca todo o peso do sucesso nos ombros de
professores mal-pagos e sobre-carregados. Imponha, aos adolescentes,
padrões artificiais de conhecimento, que nem o presidente da República
ainda atingiu como adulto. Salpique-lhe vouchers de privatização sempre
que o ensino público “fracassar” ante os “/standards/.” Chame este
programa de NENHUMA CRIANÇA DEIXADA PARA TRÁS (/no child left behind/)
Tome uma tempestade de fúria ante as recentes, tímidas iniciativas de
conceder aos casais do mesmo sexo benefícios de união civil. Regue,
cultive e manipule essa fúria na forma de emendas constitucionais
docemente escritas para limitar a definição de casamento ao evento que
une um homem e uma mulher. Anexe essas propostas de emendas
constitucionais a uma cédula da eleição presidencial em alguns
estados-chave, e inicie a intensa campanha de demonização dos gays.
Batize a manipulação política desse fator e sua influência no eleitorado
como um voto pelos VALORES MORAIS (/moral values/).
*Os democratas ainda não têm resposta para a avalanche lexical da
direita. Oscilam entre a moderação e a sobre-atuação histérica do
direitismo republicano. Recusam-se a inventar outra língua para a
conversa. *
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