Reflexões sobre o Conto I
Esta reflexão sobre o conto é dedicada à minha amiga Cipy Lopes e a seus
alunos de Publicidade lá na mãe de todas as cidades brasileiras.
Os dicionários dizem: conto é uma curta narrativa de ficção em prosa.
Hoje em dia, máximo 25 páginas. Mais que isso já vira novela. Mas o que
faz um conto ser um conto?
Tomemos o menor conto do mundo, do guatemalteco Augusto Monterroso:
*Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá. *
* *
Genial? O que faz com que o texto de Monterroso seja um conto, apesar de
suas oito palavras, é a presença de *duas temporalidades*: a do cochilo
do cara e a do dinossauro ainda estando lá.
* *
O argentino Ricardo Piglia tem uma tese: *um conto sempre conta duas
histórias*. As diferentes épocas escolhem diferentes formas de
relacionar as duas histórias que contam.
Para exemplificar, uma anotação do *contista e dramaturgo russo
Tchekhov* [link] *,*
que tinha material para um relato: *um cara chega numa cidade,
instala-se num hotel, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta
ao hotel e se suicida*. Aí você tem um conto porque normal é o
cara ganhar e fazer outra coisa, ou perder e suicidar, mas *ganhar* *e
depois suicidar* é insólito. Por ser insólito, o evento dissocia as duas
histórias. Há a história da viagem/jogo e a história do suicídio. Pois
bem, o que é um conto do século XIX?
O mestre do conto do século XIX é Edgar Allan Poe, que em 1840 e poucos,
tiritando de frio na Filadélfia, pobre que só vendo, tendo que queimar a
própria escrivaninha para se aquecer, inventou nada menos que a
*narrativa policial*
[link] ,
a *narrativa de horror*
[link] e
a *ficção científica*
[link] .
Um conto do século XIX é o que lhe relata a história da viagem, mudança,
instalação no hotel, ida ao cassino, vitória e tudo mais *de tal forma a
dissociá-la completamente da outra história, a do suicídio do cara*. Há
uma história visível (a viagem) e uma história secreta (o suicídio).
O *bom* contista é o que lhe conta a história 1 sem que você suspeite a
história 2 que vai explodir no final. O *bom *leitor é aquele que
aprende as manhas dos escritores para esconder a história 2 na história
1. Esse é o jogo gato e rato da literatura do século XIX. Autores e
leitores se cansam desse jogo por volta de 1910-20, a porra toda explode
e começa-se a contar contos de maneira muito diferente.
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