Reflexões sobre o Conto II
O que é um conto do século XX?: É um conto em que a história 2 (a
secreta) já não está embutida invisível na história 1, já não é um
enigma que se revelará no final para arredondar a coisa bonitinho. O que
faz o escritor moderno?
*James Joyce [link] * narra a
história da viagem arrastada, sem esperança, tanto que quando chega a
história do suicídio você já nem liga que o cara está suicidando.
Destruição total do efeito catártico.
*Hemingway [link] * simplesmente não te
conta que o cara suicidou. Dá alguma pista, mas no mais conta o conto da
viagem. Em detalhes secos, onde tudo é um puro acontecer sem significar.
Você termina o relato com cara de “Que Porra é Essa?” porque não você
não entendeu que o cara suicidou. É como se não tivesse acontecido nada.
*Kafka [link] * é o mais
incrível, ele inverte a história 1 com a 2. Conta a história da morte
como se fosse o mais banal, como se fosse a descascada de uma laranja. O
horror é totalmente transferido para a história 1 – a partida para o
hotel –narrada de forma terrorífica e ameaçadora.
*Jorge Luis Borges [link] *
conta a história 1 como se ela já tivesse sido contada mil vezes. Tudo é
tirado, parodiado de algum lugar. Até que no final o sujeito encontra no
suicídio uma verdade não revelada pelos livros que tinha lido.
Há outras mil variantes, claro.
No Brasil, o mestre em contar a história 1 enquanto esconde a história 2
é *Machado de Assis*. Muitos conhecem /Dom Casmurro/ ou /Memórias
Póstumas de/ B/rás Cubas/, seus romances famosos. Mas a arte inigualável
de Machado está no conto. Para ver algumas obras-primas, é só baixar
/Papéis Avulsos/ ou /Histórias sem Data /no site da Virtual Books
[link] .
Estou preparando para breve um post com sugestões de 150 livros de
contos brasileiros. Alguns dos autores indispensáveis são,
claro, Guimarães Rosa
[link] , Clarice Lispector
[link] , Dalton Trevisan
[link] , Caio Fernando
Abreu [link] . Contista barra
pesada há 4 décadas é Rubem Fonseca
[link] . Pau puro. Entre os das
duas últimas décadas, tenho meus favoritos: João Gilberto Noll
[link] e Márcia Denser
[link] . O conto é hoje o
gênero que, em qualidade e quantidade, vai melhor das pernas no Brasil.
A melhor contística do mundo, prá mim, é a da Argentina
[link] , infelizmente pouco traduzida
por nós, que publicamos tanto lixo traduzido do inglês.
Fica prá próxima a lista dos "top 150". Boa aula pessoal.
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