A pessoa do autor não coincide nunca, claro, com a voz que fala em seu
texto. Por outro lado, a não coincidência entre o gênero da pessoa e o gênero da voz textual não implica, necessariamente, que a voz masculina de uma autora ou a voz feminina de um autor sejam mais ou menos “autênticos” ou “inautênticos” de antemão.
Tudo depende.
A maioria das mulheres concorda que Chico Buarque cria uma voz de mulher extraordinariamente convincente em canções como Ana de Amsterdam ou Olhos nos Olhos.
Lygia Fagundes Telles tinha uma boa história sobre um corno. Resolveu
armar o relato em primeira pessoa, na voz de um homem. O problema é que o narrador protagonista diz coisas só verossímeis ou imagináveis na boca de mulheres, não de homens. O conto não convence o leitor masculino mais exigente (hehehehe). Mas a história é boa e se chama O Moço do Saxofone.