Para John Kerry, os indicadores da semana que antecedia a
eleição pareciam positivos. As pesquisas mostravam empate técnico em
amostragens que sub-representavam o eleitorado democrata.
Sabia-se que os Democratas haviam feito a maior campanha de
registros de eleitores de sua história. Sabia-se que na eleição
presidencial americana os indecisos que terminam votando favorecem o
desafiante.
Nada daquilo estava errado. Os eleitores negros compareceram
em número *maior* que o esperado. Os indecisos terminaram escolhendo
Kerry em sua maioria.
Então de onde saíram os milhões que fizeram com que Bush vencesse o voto
popular com tal folga, se até mesmo parcelas do Partido Republicano
(“conservadores fiscais”, parte da elite militar) haviam abandonado
George Bush e apoiavam John Kerry? E de onde saíram os que decidiram o
estado chave de Ohio, se Cincinnati, Cleveland, Toledo, Columbus, Akron
e Dayton votaram em Kerry em números ainda mais altos que os esperados?
De onde saiu o “voto extra” que decidiu a eleição americana?
A eleição se decidiu na *massiva mobilização do voto rural evangélico*.
E qual foi a grande alavanca dessa mobilização, se muitos perderam
empregos durante a administração de Bush ou têm parentes e conhecidos no
lamaçal do Iraque? A mídia nos diz que a vitória de Bush veio do
eleitorado que votou nas “questões morais”, mas como esse voto decidiu a
eleição em favor do presidente mais imoral da história?
A resposta é um testemunho do momento triste que vive este país.
O comparecimento às urnas nos grotões de Ohio e de dez outros estados
foi mobilizado por campanhas de correspondência e de pregação nas
igrejas, em favor de *emendas constitucionais que proíbem a união civil
entre pessoas do mesmo sexo e limitam a noção de “casamento” ao casal
homem /mulher. *Eliminando a possibilidade de que casais gays usufruam
de herança, plano de saúde compartilhado, união civil, escreveu-se nas
constituições estaduais: *gays, vocês não existem como cidadãos*.
Na maior democracia do mundo, permite-se que isso apareça na mesma
cédula da eleição presidencial. Na de Ohio, a proibição da união civil
dos gays era Questão* *(“Issue”) Número 1.
Karl Rove, o borgiano e maquiavélico estrategista de Bush, tinha razão:
“gay-bashing” (porrada nos gays) funciona. De novo Rove criou um “wedge
issue”, uma bandeira extremista que mobiliza suficientes seguidores para
que *o extremista pareça ser o outro candidato*.
John Kerry está longe de ser um “defensor do casamento gay”. Mas para as
massas furiosas de fanáticos religiosos, isso não é suficiente. É
necessário que a constituição nos convença que os gays não existem e que
se escolha um presidente que defenda a Sagrada Família onde não há gays
nem lésbicas.
Que Iemanjá nos livre desses soldados de Deus.
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