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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 30 de dezembro 2004

Até 2005 Sob o

Até 2005

Sob o título ´Coragem é a marca de uma pensadora da modernidade´ o
ensaísta, ficcionista e poeta *Silviano Santiago*
[link] fez
um belo obituário de Susan Sontag. Para os que assinam UOL
[link] ou *Folha*
[link] , o link é *este*
[link] . Silviano
é um dos muitos mineiros dos quais eu falei *num post anterior*
[link] ,
os que reinventam o Brasil ao chegar no Rio. Introdutor do pensamento
da pós-modernidade no país, autor, entre outros, dos fabulosos
romances *Em Liberdade*
[link] ,
*Stella Manhattan*
[link]
e *Viagem ao México*
[link] ,
Silviano nos deu um susto quando sofreu um derrame. Depois retomou sua
extraordinária produtividade. Hoje mostrou de novo ser um dos
intelectuais mais atentos do país. Retrospectivamente, fez o insulto
assinado ontem por Ascher parecer ainda mais ridículo. Obrigado,
Silviano, sempre.

Ai ai ai:

Eu aceitei um gentil convite de Adhemar Altieri, editor-chefe do
portal anglófono InfoBrazil.com [link] , para
publicar um balanço destes 24 meses do governo Lula. Para o
InfoBrazil.com [link] já escreveram pesos-pesados
como Eduardo Suplicy, Delfim Netto, Dom Paulo Arns e outros, além de
um baita time de contribuidores internacionais. O InfoBrazil.com
[link] é atualizado nos fins de semana e eu
entregarei o texto no dia 7 de janeiro. Que Iemanjá me ilumine e me dê
moderação.

Créditos aos blogueiros:

Agradeço a todos os blogueiros mais antigos que fizeram que eu me
sentisse bem-vindo, seja lendo, comentando ou linkando o Biscoito,
seja trocando emails gentilmente, seja respondendo comentários meus em
outros blogs. Têm sido incrivelmente legais comigo Nemo Nox
[link] , Alexandre Cruz Almeida
[link] , Leila Couceiro
[link] , Rafael Galvão
[link] , Smart
[link] , Ane Walker
[link] , DaniCast
[link] , Alfred Neuman
[link] , Cora Rónai
[link] , Ricardo Schott
[link] , Alexandre Inagaki
[link] , Marcus Pessoa
[link] , Cláudio Costa
[link] , Pedro Dória
[link] ,
Guto [link] , Mônica
[link] , Viajandona
[link] , Fernando
[link] , Sérgio Fonseca
[link] , Felicia Luisa
[link] , Biajoni
[link] e Antônio Carlos
[link] .

Saio amanhã para um paraíso com meus filhos Alexandre e Laura e só
volto a este blog no dia 03 de janeiro. Axé babá nesse ano novo.

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  Escrito por Idelber às 22:13 | link para este post



quarta-feira, 29 de dezembro 2004

Susan Sontag (1933-2004), resquiescat

Susan Sontag (1933-2004), resquiescat in pace

Quando a pop art ainda engatinhava em reconhecimento crítico, ela
introduziu o mundo ao termo *camp* [link] . Quando a
histeria anti-comunista ainda sustentava a popularidade da guerra do
Vietnã, ela *chamou a estudantada e foi prá rua*
[link] . Ainda no mesmo 1966-67,
enquanto correntes ilustres do pensamento contemporâneo, como a
hermenêutica ou o estruturalismo, debatiam a natureza da interpretação,
ela escreveu *Against Interpretation*
[link] e liberou toda
uma geração de críticos que viriam depois. Quando as conversas sobre a
fotografia ainda se rastejavam no tema da ´realidade´, ela escreveu *On
Photography* [link] e fez disso
o estudo de uma arte. Quando os EUA chegavam, atrasados como de costume,
a pensadores do quilate de *Walter Benjamin*
[link] e *Roland Barthes*
[link] , ela explicou à gringada
porque eles eram fundamentais. Quando a doença a agarrou, ela reagiu com
literatura. Entendeu como ninguém *a ideologia que se formou em torno da
AIDS* [link] . Já com
identidade mundialmente reconhecida como ensaísta, escreveu *uma linda
história de amor*
[link] .


Um dia depois do 11/09, teve a coragem de destoar do coro dos
etnocêntricos que acham que o próprio luto é sempre mais importante e
especial que o luto alheio, e declarou na *New Yorker*
[link] , ´*covardes os terroristas não eram*´ e ´*ataque
contra a civilização não, ataque contra a única superpotência*´. Quando
Bush tinha 90% de popularidade, ela foi das poucas que levantou a voz
contra a invasão do Afganistão. Aturou o ódio da corja.

Judia, jamais deixou de protestar contra o genocídio anti-palestino nos
territórios ocupados. Mesmo assim recebeu o Jerusalem Book Award de
2001. Adorava o Brasil e *conhecia profundamente Machado de Assis*
[link] .
Veio várias vezes e sempre permaneceu alheia ao ti-ti-ti. Dava o recado
e pronto. Susan Sontag tinha, de sobra, a característica que eu mais
admiro num intelectual: estar pronto para defender uma posição
*radicalmente minoritária*.

A última vez que a vi, nas escadarias da *Columbia University*
[link] , ela surpreendeu de novo, e ao invés do
discurso anti-Bush que todos esperávamos, ofereceu um protesto em defesa
dos prisioneiros políticos de Cuba e uma alfinetada em García Márquez,
por defender alguns presos políticos* pero no otros*. Concluindo *meu
livro sobre a violência*
[link] ,
encontrei o *maravilhoso texto de Susan Sontag sobre a dor dos outros*
[link] . Corajosa e contundente
como sempre. Ela era incrivelmente sexy e muito, muito andrógina.

No dia em que ela morreu, Gerald Thomas escreveu *um lindo obituário
recordando seus encontros com ela*
[link] .
Um dia depois de sua morte, *o maior jornal do Brasil*
[link] publicou um *insulto* do Sr. Nélson
Ascher, que abusou do direito de *cuspir* na memória de uma pensadora
que ele não leu (e se leu deve ler de novo, enquanto se dedica,
esperamos, a traduzir poesia e não falar de coisas que não conhece). Não
vou nem linkar a palhaçada do Sr. Ascher. Achem se quiserem. Hoje eu
faço luto por Susan Sontag e nenhum insulto jornalístico vai
perturbá-lo. Rest in peace, Susan.

--------



  Escrito por Idelber às 19:43 | link para este post



terça-feira, 28 de dezembro 2004

Lista dos melhores livros

Lista dos melhores livros de todos os tempos

Já há alguns dias saiu o resultado da votação promovida pelo *Liberal
Libertário Libertino* [link]
dos melhores livros de ficção de todos os tempos. Este blogueiro votou e
replicou o voto *aqui neste post*
[link] .
Sobre a bagunça que é escolher os melhores de todos os tempos eu fiz,
usando o futebol e a música como exemplos, *este post aqui*
[link] .


Você pode conferir os dez mais votados *neste post do Alexandre*
[link] .


Dos dez nos quais eu votei, só não emplacaram um lugar entre os trinta
mais votados *O Homem sem Qualidades*
[link] , de Robert Musil
(previsível) e os *Contos*
[link]
de Edgar Allan Poe (indesculpável). No geral, adorei a lista, que mostra
o bom gosto do pessoal que lê o *LLL*
[link] .

Entre os mais votados que, na minha opinião, não mereceriam estar nem na
lista de presentes para aquele cunhado que você detesta, estão *O Mundo
de Sofia* (be-a-bá de filosofia com personagens), *A Revolução dos
Bichos* (Rafael Galvão *já disse tudo*
[link] )
e o *Memorial do Convento*, de Saramago (romance adorado por muita gente
boa, mas que eu terminei por puro masoquismo).

Agora, *Cem Anos de Solidão* em segundo lugar não dá. Não sei se é por
trabalhar na área de literatura hispano-americana e de ter me formado no
meio da ideologia gosmenta do realismo mágico, mas não consigo achar
graça. Já li três vezes, já dei aula sobre, etc. etc. mas prá mim depois
de duas ou três daquelas brincadeirinhas eu já estou de saco cheio. Prá
mim não é nem o maior romance colombiano de todos os tempos.

Com García Márquez ocorre comigo o mesmo que com Tom Jobim: reconheço os
méritos, a importância histórica, as inovações estilísticas,
patati-patatá, mas não me faça ouvir `Luzia´ de novo, nem ler *Cem Anos*
de novo. De García Márquez eu só gosto mesmo da novelinha *El coronel no
tiene quien le escriba* (*Ninguém escreve ao coronel*
[link] ),
delicioso relato de um aposentado que espera um papel no correio todas
as sextas-feiras.

O sobre-dimensionamento, nos EUA, da importância do realismo mágico
(confundido por tantos gringos com a totalidade da literatura
latino-americana) assim como o sobre-dimensionamento, no Brasil, da
importância da bossa nova (confundida por tantos com o ponto de partida
e ponto de chegada de tudo) causaram danos irreparáveis ao prazer que eu
consigo extrair desses produtos culturais.

Por sorte, o vencedor não foram as formigas voadoras de GG, mas *Crime e
Castigo*. No final do mês de janeiro vamos iniciar a conversa na
blogosfera sobre este romance.

Dostoiévski foi o primeiro romancista que eu descobri, ainda menino. E
ainda hoje é meu romancista favorito. Votei em *Os Irmãos Karamazov*,
mas *Crime e Castigo* está bom também. Aguardo a conversa.

--------



  Escrito por Idelber às 13:04 | link para este post



segunda-feira, 27 de dezembro 2004

....... pô Idelber você


....... pô Idelber você tinha feito resolução de não ficar falando de
política aqui no blog afinal não são literatura e música mesmo o seu
negócio e você não anda num estado de estupefação com o que foi feito de
seu ex-partido e prá piorar em fase de absoluto ceticismo quanto às
saídas políticas para as coisas mas aí vem ninguém menos que *Chico
Buarque de Hollanda*
[link] que você
adora mas que coitado como todos os apoiadores de esquerda deste governo
anda tendo que fazer malabarismos lógicos para justificar suas posições
e aí vem o Chico eu dizia e diz simplesmente ´Lula trouxe o acúmulo de
esperanças de muito tempo para um tempo em que elas não podem mais se
realizar. E aí não é culpa dele´ como não é culpa dele cara-pálida é
culpa de quem então da conjunção dos astros do time do Botafogo ou dos
herdeiros de Billy the Kid de quem é a culpa cara-pálida da promoção
desse monetarismo ortodoxo e desse messianismo auto-congratulatório como
se a eleição dele ao invés do *começo* da mudança fosse prova de que as
coisas já mudaram e que está tudo bem em Pindorama afinal até um
torneiro-mecânico pode ser presidente não é maravihoso este país e Chico
diz que ´reage´ contra as críticas ´exageradas´ a Lula mas não consegue
apontar nem um mísero avanço deste governo em nada a não ser no fato de
que um torneiro foi eleito não é maravilhoso isso e aí o Chico vai e diz
que o Lula sabe o que o ´cara do rap´ está cantando coitado do Chico não
consegue nem dar nome próprio ao ´cara do rap´ afinal ele diz que ´tenho
pouco contato com o rap. Na verdade, ouço muito pouca música. O acervo
já está completo´ então é isso aí cara-pálida o ´cara do rap´ está
dizendo algo que o Lula não pode ignorar mas os medalhões da MPB podem
afinal ´minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só
aprimorou a qualidade da sua música´ que maravilha hein só aprimorou
ninguém piorou ninguém se repetiu ninguém disse bobagem ninguém reciclou
canções fracas e o Chico coitado dando tiro prá todo lado se pergunta
´se as pessoas não querem ouvir as músicas novas dos velhos
compositores, por que vão querer ouvir as músicas novas dos novos
compositores?´ e não lhe ocorre que as músicas novas do novos podem ser
*melhores* que as músicas novas dos velhos mas isso claro é impensável
para essa turma que aprendeu a ver a música como se ela fosse uma linha
evolutiva que termina gloriosamente neles e em mais ninguém e aí chega a
parte realmente irritante da entrevista Chico diz ´vem a bossa nova, que
remodela tudo -e pronto. Se você reparar, a própria bossa nova, o quanto
é popular ainda hoje, travestida, disfarçada, transformada em
drum'n'bass´ taí não podia faltar a glorificação da bossa nova nesse
advérbio ´pronto´ já está toda a ideologia asquerosa da bossa nova como
começo e fim de tudo essa bobajada tão Copacabana de que o Brasil começa
e termina no Beco das Garrafas e que o que acontece de inovador hoje já
estava na bossa nova onde é meu deus do céu que Chico foi ver bossa
´travestida´ em drum´n´bass será que ele tem idéia tem noção de que o
´cara´ do drum´n´bass não está nem aí para a bossa nova será que ele tem
idéia do que é drum´n´bass e quais são suas influências será que ele tem
noção da presepada que é dizer isso só mesmo sem pontuação para
desconstruir essa parvoíce porque aí Molly Bloom disse yes yes I´m going
to the movies.....

--------



  Escrito por Idelber às 18:27 | link para este post




Novidades Literárias Argentinas A

Novidades Literárias Argentinas

A excelente editora *Beatriz Viterbo*
[link] , levada a cabo por um grupo de
mulheres na cidade de Rosario, Argentina, nos traz sua fornada de fim de
ano. Minhas sugestões são:

Para quem quiser mergulhar num dos mais importantes poemas argentinos,
saiu uma edição anotada de *El gualeguay
[link] *, tour de force
narrativa de Juan L. Ortiz. Gualeguay é o nome do departamento da
Província de Entre Ríos onde nasceu o poeta. O *Gualeguay* havia sido
publicado como parte da *Obra Completa* de Juan L. e sai agora em edição
anotada por Sergio Delgado para a Beatriz Viterbo. *Um dos maiores
poetas argentinos do século XX*
[link] ,
Juan L. Ortiz traduziu Ungaretti, Pound, Éluard e poetas chineses.
Lapidou, na poesia, aquela metafísica da
Argentina-lá-de-dentro-que-não-é-Buenos-Aires que seu compatriota Juan
José Saer compôs na prosa. Juan L. também é responsável por um dos
títulos de livro que eu mais adoro, *A Margem que se Abisma* (1970).
Recomendo mesmo.

Ainda não lido por este blogueiro é o novo livro de Sylvia Molloy,
*Varia Imaginación [link] *,
coleção de contos e breves relatos, também novidade lá na Beatriz
Viterbo. Sylvia Molloy é argentina, radicada em Nova York, onde leciona
na New York University. Sylvia é autora de vários livros acadêmicos e
também do importante *En breve cárcel* (1981), relato de uma mulher
anônima que se fecha num quarto para uma experiência de escrita onde não
fica pedra sobre pedra. Tenho infinita admiração por Sylvia Molloy e o
*Varia Imaginación *já está na fila.

Intitulada *El tilo [link] * é
a novidade do peça mais figuraça da literatura argentina, César Aira,
aquele-que-publica-cinco-livros-por-ano. Se nunca leu César Aira e quer
descubrir a mais maluca e insólita das obras narrativas, comece por *El
volante [link]
*ou *Dos payasos
[link] *.
Indiferente você não vai ficar.

--------



  Escrito por Idelber às 00:14 | link para este post



sábado, 25 de dezembro 2004

* Disco da Semana


* Disco da Semana - Cássia Eller, /Ao Vivo/ (1996)*

**

*Cássia Eller* [link] :
roqueira, blueseira, sambista, maldita, lésbica, atleticana. Mostrava os
peitos, coçava o saco e cuspia. Na *Playboy*, enloqueceu homens e
mulheres. Quando Cássia começou, o Brasil não sonhava em ter um casal de
lésbicas na novela das oito. Ao morrer, revolucionou a legislação sobre
a custódia de crianças no Brasil, com a vitória inédita de sua
companheira Eugênia nos tribunais, garantindo a guarda de Chicão a quem
de direito ela pertencia.

Em termos sociais, Cássia foi tão transformadora que às vezes se esquece
*de quão importante foi como cantora*
[link] . Em
recursos vocais, expressão, interpretação, repertório e tudo mais, foi
tão grande como *Elis* [link] . Amamos-na
eu, minha mãe, minha avó e minha filha. Nenhuma outra cantora atravessa
o tempo assim. Cássia deu interpretações definitivas aos dois grandes
letristas de sua época, *Cazuza* [link] e *Renato
Russo* [link] .
Sepultou a separação que existiu entre MPB e rock nos anos 80. Cássia
passava do satírico ao cômico ao trágico ao elegíaco ao carnavalesco.
Era capaz de incrível lirismo e romantismo em suas interpretações.
Voltava à sujeira punk mais radical, tranqüila.

Quem gosta de rock, confira *o Marginal*
[link]
ou *Veneno Vivo.*
[link]
Meu favorito é este *Ao Vivo*
[link] ,
acústico, com uma linda seleção de canções e o violão de Cássia em
melhor forma que nunca. O repertório vai de Caetano (´Eu sou neguinha´)
a Nando Reis/Brown/Marisa Monte (´ECT´), de Ataulfo Alves (´Na cadência
do samba´) a Renato Russo (´Por enquanto´, ´Música Urbana II´), de Raul
Seixas (´Metrô linha 743´) a Frejat e Cazuza (´Malandragem´), de Arnaldo
Antunes (´Socorro´) a João do Vale (´Coroné Antônio Bento´).

Perdi a conta de quantas vezes vi Cássia até sua morte em 2001. No seu
último show em BH, memorável, ela trouxe-nos um presente. Tirou Rita Lee
da cartola, para uma super versão de *Roqueiro brasileiro / sempre teve
cara de bandido*. Rita Lee sempre teve profundo respeito e admiração por
Cássia.

Cássia amava *o Galo* [link] sobre todas as
coisas. Adorava sair dos camarins com o manto alvinegro, gritando,
torcedora, e rindo da reação do público.

Ninguém *foi fotogênica como ela* [link] .
Ninguém inspira tantos jovens a *aprender novas cifras*
[link] . Até os acadêmicos *já perceberam
sua genialidade* [link] .
Foi a maior de sua geração, sem dúvida. Em importância cultural na
história do Brasil, só *Carmen Miranda*
[link]
se ombreia com Cássia.

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  Escrito por Idelber às 03:30 | link para este post



sexta-feira, 24 de dezembro 2004

Low Fi no Matriz

Low Fi no Matriz

O Matriz é uma daquelas casas de show que você não encontraria nunca por
sua própria conta. Fica no porão de um terminal rodoviário, em baixo
daquele que talvez seja o prédio mais famoso de BH, *o JK*
[link] , esse monumento ao fracasso
da arquitetura modernista.

Pois bem, ontem à noite eu consegui arrancar os amigos de casa prá ver o
que eu achei que seria uma festa com DJs. Chegamos lá e acabou que eu
tinha a informação *errada*. Era noite de show de uma banda chamada Low
Fi.

*Low Fi*? Que porra é essa? Descubro que é uma dissidência de uma banda
da qual eu gostava muito, o Sexo Explícito (prá quem não conhece, o Sexo
Explícito é um dos precursores do *Pato Fu*
[link] ). Começa o show e eu me encanto com a banda:
swing-samba-soul muito competente. Três caras e uma menina. Guitarra,
baixo, bateria e chocalhinho. A guitarra tem momentos que lembram (ou
será que eu já tinha bebido a quinta cerveja?) *o cavaquinho do Fred 04*
[link] .
Somos só uns 15 na platéia (numa casa de shows de cabe uns 300). Mas
está todo mundo adorando. A canção sobre a Maria Joana sacode o público.
Eu só lembro do refrão: *queimando tudo até a última ponta....*

No final, eles dizem: a saideira para que o Low Fi entre numa boa. E aí
eu me toco que aqueles não eram o Low Fi. Era a banda de abertura. Os
aplausos são enfáticos, e o vocalista, bem humorado, retruca: *son pocos
pero sinceros... *Do fundão da platéia a gente grita, nome da banda!!!
Nome da banda? Não tem nome. É Deco Lima e banda. Muito bons.

Quando entra o Low Fi o garçom já está se oferecendo prá trazer a
cerveja em pacotes, ao invés de latinha por latinha. Eu tinha gostado
tanto da primeira banda que vou com um pouco de má vontade. Mas o Low Fi
arrrebenta. Formação que eu gosto muito: guitarra, baixo, bateria e
saxofone. Som mais pesado que o da banda anterior, mas também mais
quebradão, com mais variações inesperadas. Ainda na praia samba-soul, o
trabalho lembra um pouco as bruxarias do novo mago *Max de Castro*
[link] . O vocalista é competentíssimo
saxofonista. Eu e as animadas 15 pessoas da platéia custamos a deixar os
caras irem embora. Depois do show, camarim, ti-ti-ti e coisa e tal.

Das duas cidades onde moro, Nova Orleans tem uma oferta musical
superior, em quantidade e qualidade. Agora, BH tem mais *surpresas
malucas*. Comida e *música em New Orleans*
[link] são um pouco
como, prá mim, filmes de Woody Allen. Você vai sabendo que é bom, mas
sabendo que, depois de um tempo, não vai se surpreender muito. Em *Belo
Horizonte* [link] ,
cavucando, você encontra coisas insólitas. *Low Fi*, guardem esse nome.
Quando eles forem famosos você vai poder dizer que os conhecia quando
eles davam shows prá 15 pessoas.

Feliz Solstício, todo mundo! Nesse 2005 que se avizinha, prometo mais
música, mais literatura, menos política e menos futebol. Vamos ver se
cumpro.

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  Escrito por Idelber às 13:00 | link para este post



quinta-feira, 23 de dezembro 2004

*2004 in a Nutshell*


*2004 in a Nutshell*

A Revista *Time* [link] escolheu George Bush como a
personalidade do ano, mas 60% dos *leitores da própria revista não
concordam* [link] .

No Brasil, a *Istoé* escolheu, como a personalidade do ano, José ´não
tenho nada com isso´ Dirceu, mas *ninguém entendeu*
[link] .

Na ´nova´ administração republicana, Bush já planeja uma daquelas
blitzes midiáticas contra o Social Security (Previdência Social).
Objetivo? *Privatização total*
[link] .

Nos EUA, a direita, não satisfeita em controlar o Executivo, o
Legislativo e o Judiciário, lança uma campanha para ´salvar o Natal´,
que segundo eles, *anda ´sob ataque´. *
[link]

Já vimos esse filme mil vezes e agora está rolando com a rede MSNBC: um
veículo da mídia americana que mantenha um mínimo de decência e
compromisso com o jornalismo isento é violentamente atacado por uma
blitz de direita. A campanha cresce até o ponto em que, aterrorizado
pela possibilidade de ser associado ao fantasma do ´*liberal bias*´, o
veículo em questão se transforma *em pouco mais que porta-voz da
histeria conservadora*
[link] .


Na blogosfera progressista gringa:

1. *Rude Pundit* [link] imagina o que
pensaríamos de um país muçulmano que se mobilizasse para detonar as
minorias religiosas da mesma forma como o faz agora, nos EUA, *a
histeria da direita cristã*
[link] .

2. *Michael Bérubé* [link] faz o balanço
de fim de ano de um belo blog de sátira cultural-política que começou
como hobby de um acadêmico e terminou 2004 com quase 650.000 visitas.
Recomendo *os arquivos*
[link] .

Em mais um valente passo rumo ao socialismo, o Congresso brasileiro
aprovou o projeto das Parcerias Público-Privadas, segundo as quais o
Estado ´garante´ retorno para investimentos privados, eliminando assim a
essência do capitalismo que é o risco. Como é que Lênin não pensou
nisso? O projeto é conhecido como PPP, ou *Passando a Perna na
Patuléia* [link] .

Falando sobre o episódio do afastamento dos delegados da PF que autuaram
o marqueteiro do Presidente, Guilherme Fiuza *pegou bonito*
[link] .

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  Escrito por Idelber às 11:45 | link para este post



quarta-feira, 22 de dezembro 2004

Parabéns Dr. Flávio Rolou

Parabéns Dr. Flávio

Rolou na sexta-feira passada e foi na Faculdade de Educação da UFMG. Uma
pessoa muito especial virou doutor.

Flávio Couto e Silva defendeu sua tese de doutorado intitulada *O canto
civilizador: Música como disciplina escolar nos ensinos primários e
normal de Minas Gerais durante as primeiras décadas do Século XX. *

A tese analiza o lugar da educação musical nos currículos escolares em
Minas – as aulas de canto orfeônico, por exemplo, foram poderoso
instrumento para inculcar civismo na patuléia. Villa-Lobos estava no
meio da parada.

Dr. Flávio é dessas figuras que, quem tem um blog, tem que apresentar.
Licenciado em história, mestre em música com dissertação premiada em BH
e agora doutor em educação. Líder na Coordenadoria de apoio e
assistência à pessoa deficiente do Estado de MG, exímio violonista,
cantor, escritor e compositor.

Tudo isso já seria extraordinário em qualquer circunstância, mas o caso
de Flávio tem um detalhe-zinho.

Devido ao glaucoma, desde a adolescência Flávio tem deficiência visual
de praticamente 100%.

Auto-comiseração ou baixo astral? Passam longe. Sai cedinho prá
trabalhar, volta tarde, estuda, escreve, publica, dá palestras aqui e no
exterior, encanta com o som do seu violão, compõe, toma cerveja com os
amigos e ama sua companheira Adriana. O dia do cara tem 48 horas.

Eu tenho a honra de estar na página de agradecimentos dessa tese e mais
honra ainda de ser amigo da fera há 18 anos.

*Parabéns Frajola! *


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  Escrito por Idelber às 11:22 | link para este post



terça-feira, 21 de dezembro 2004

Pisoteando o Programa do

Pisoteando o Programa do PT mais um mucadinho

*O Catarro Verde*
[link]
já protestou e eu acrescento minha voz já afônica. O Governo Lula
*pisoteia e cospe* no programa do PT mais uma vez: o Senado acaba de
aprovar a Medida Provisória 223/04 (sim, Medida Provisória, lembra? é
aquilo que a gente criticava no FHC!) que *libera o plantio da soja
transgênica*
[link] para a
safra 2005. O relator foi Delcídio Amaral (PT-MS) e o empurrão veio do
Planalto.

Lembre-se: o plantio para 2004 foi aprovado também por Medida Provisória
com a desculpa de que, como a soja transgênica já havia sido plantada,
tinha que ser regularizada. Ou seja, o crime já foi cometido, então
adeqüemos a lei a ele.

Lembre-se também que não há *nenhuma* pesquisa conclusiva que garanta
absolutamente nada sobre essa soja que chegará às nossas cozinhas já no
final do ano que vem.

O voto solitário contra a maracutaia foi da senadora *Heloísa Helena*
[link] (PSOL-AL).

E aí Ministra *Marina Silva*
[link] , vai agüentar
até quando?


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  Escrito por Idelber às 23:17 | link para este post




Passeando na blogosfera Ligado

Passeando na blogosfera


Ligado

O *Milton Ribeiro* [link] já devorou
e adorou o *Nocturno de Chile*
[link] ,
de Roberto Bolaño, recém lançado no Brasil pela Companhia das Letras. O
Bolaño, ainda meio desconhecido por aqui, era o maior prosador chileno
vivo – junto com *Diamela Eltit*
[link]
até que morreu ano passado, bastante jovem, em Barcelona. Além do
*Noturno
[link] *,
ele é autor de umas 15 outras obras. Minha favorita é *Los detectives
salvajes
[link] *,
um calhamaço de 600 páginas que brinca com os códigos do romance policial.

* *

*Diatribe anti-Papai Noel*

rolando lá na *Praia do Nélson* [link] , e está
demais. Concordo em gênero número grau: Papai Noel é como jogador de
futebol, *não deveria abrir a boca*
[link] .


Continua o mistério

das duas dezenas de visitas diárias de Montevidéu a este *Biscoito*.
Eles vêm todo dia e, bem uruguaios, não falam nada! Mas voltam. Gracias,
y hablen cuando quieran. En lunfardo también se puede.


Fazendo milagres

com o template muito pouco amigável do UOL, reorganizei os links à
esquerda. Tirei velharias da campanha de John Kerry e sites que não
visito mais. Lá em cima, incluí links a uns poucos livros e ensaios
meus. Depois, um par de links de futebol e outro par sobre política, só
prá identificar a voz de quem fala. Também organizei os links sobre a
cultura da minha segunda pátria, a Argentina. E depois, em gloriosa
ordem alfabética, os blogs que eu ando visitando quase diariamente.
Agora só falta eu criar vergonha na cara, assumir que virei blogueiro, e
passar para um servidor decente. I´m working on it, me aguardem.


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  Escrito por Idelber às 10:59 | link para este post



segunda-feira, 20 de dezembro 2004

Acabou o Futebol, volta

Acabou o Futebol, volta a Política

*Deu uma entrevista*

na *Folha de São Paulo* desta segunda-feira a maior pensadora argentina
viva, *Beatriz Sarlo [link] *. Se é
assinante do UOL, vale a pena *ler online*
[link] . Maoísta nos
anos 70, introdutora de ensaístas europeus como *Raymond Williams*
[link]
e *Pierre Bourdieu *
[link] na
Argentina, há 30 anos figura central em debates sobre cultura e
democracia na América Latina, Beatriz é uma daquelas intelectuais de
tirar o chapéu. Depois do golpe de 1976, com a vida em risco como todos
os militantes progrê da época, Beatriz decide ficar no país e fundar, em
condições de horrenda censura, a legendária revista *Punto de Vista*
[link] , que segue firme e forte até hoje. Os
brasileiros, que pena, só conhecem um livro dela, *Cenas da Vida
Pós-Moderna
[link] .
*Ela escreveu mais de 15. É daquelas que *sabem falar de Borges*
[link] , de fliperama e da
paixão das mulheres dos anos 20 pelo folhetim. Em todos os debates
políticos da Argentina desde os 70, ela tomou posição, com a coragem de
sempre. Beatriz é um de meus ídolos. Tenho vontade de traduzir e
compilar alguns ensaios de Beatriz aqui no Brasil. Foi legal vê-la na
*Folha*.

*É ou não é patético*

que o Ministro-Chefe da Casa Civil da República Federativa do Brasil dê
uma entrevista como a que deu José Dirceu *domingo na Folha*
[link] ? Para quem
não leu, José Dirceu diz, basicamente: tenho minhas opiniões sobre a
política econômica, só as ofereço quando manda o presidente, depois me
calo, e não vou falar nada para não criar problema político, porque
afinal sou do governo. Mas que fique dito que tenho minhas opiniões
sobre a política econômica, o que não me impede de dar-me muito bem com
o Ministro Palocci. Aí ele chega nas reuniões internas do PT e diz que é
preciso fortalecê-lo contra as ´outras forças´ do governo, esperando
assim arrebanhar os 30% do PT que estão insatisfeitos. Depois ele vai ao
maior jornal do país e diz, ´sou ministro-chefe mas não sou chefe de
nada. Não tenho nada com isso´.

*O PSOL conseguiu*

as 450.00 assinaturas de que necessitava para legalizar-se como partido.
Este blogueiro ofereceu a dele, mesmo não tendo absolutamente nenhum
plano de juntar-se ao partido. Heloísa Helena tem, neste momento, 3% das
intenções de voto espontâneas para presidente da República. Mesmo tendo
sido impedida pelo PT de disputar a prefeitura de Maceió.....

*Continua em estágio avançado*

a minha queima de balangandãs do PT. 23 anos de casamento, gente, não é
mole não. Camisas e bandeiras já haviam ido, mas ontem foram as agendas
e, grande avanço, o mouse pad!! Cada penduricalho que vai é uma alegria!

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  Escrito por Idelber às 22:15 | link para este post




Tarde inesquecível no Mineirão

Eu já disse isso em *outro lugar*
[link] . Se um antropólogo marciano
descesse no planeta Brasil para entender a magia do futebol – não a
fórmula nem as táticas – mas a *essência da paixão* pelo futebol, ele
poderia começar com o Flamengo no Maracanã ou o Corinthians no Morumbi.
Mas não teria o curso completo até presenciar a mais apaixonada e
mística torcida, a legião que segue o *Clube Atlético Mineiro*
[link] , a Massa do Galo.

Meninos, eu vi: *a Massa ganhou mais uma so-zin-ha*. Foi o maior público
do campeonato brasileiro de 2004. O borderô oficial foi 47.002. Mas
havia 60.000 fanáticos no Mineirão. O Galo há quatro anos não é campeão
de nada. Desde 1971 não ganha um título nacional importante. O time
estava em 20^o lugar e precisava vencer para não ser rebaixado. E a
Massa bateu o recorde de público do Campeonato. Quem explica isso?

2:40, depois de uma manhã maravilhosa com os filhos, cervejinha na mão,
vestido com o manto sagrado branco (por sugestão da leitora @lice), este
blogueiro estaciona no lugar de sempre. 2:50, cena comovente: um ônibus
de *Belém do Pará* lotado. Converso com M., uma dessas lindas morenas
jambo do norte: ´viemos empurrar o Galo´. Em 30 anos de visitas a
estádios de futebol, é a primeira vez que vejo alguém atravessar o país
para ver um jogo que não envolve um time de seu estado. 3:00, abraços
nos amigos da Galo Prates, que me mostram as novas bandeiras. Chamam-me
carinhosamente de Galo Gringo. 3:10, abraços na única torcida organizada
*musical* do futebol brasileiro, a *Galo Metal
[link] *. 3:20, tomo meu lugar
nas cadeiras numeradas, ao lado do legendário torcedor P., que lembra
que no dia 19/12/71, há exatamente 33 anos, ele presenciava no Maracanã
o primeiro título brasileiro do Galo. Digo a P. que meu filho Alexandre
também é do dia 19/12, que ele completa hoje 8 anos e que dali sairei
com ele e Laura para comemorar.

3:30, já quase não há lugares vazios no Mineirão. Uma certa tensão
percorre o estádio. Ninguém ali ignora que o São Caetano tem uma equipe
superior à nossa. Digo a P.: *o time terá que encarnar o espírito do
animal*. 3:40, lembro-me dos jogos em que a Massa lotou o estádio e teve
decepções traumáticas. 3:55, o Galo entra em campo: foguetório e o som
ensurdecedor daquele que é, do primeiro ao último verso, o hino de clube
mais cantado do mundo: *Nós somos do Clube Atlético Mineiro / jogamos
com muita raça e amor... *4:10, começa o jogo e o limitadíssimo time do
Atlético corre, mas sem muita efetividade. 4:20, bate-rebate na área do
Galo e o São Caetano por pouco não marca. 4:30, gol do Criciúma contra o
Coritiba em Santa Catarina. Com esta combinação de resultados, o Galo
está na segunda divisão. 4:35, o Galo começa a mandar no jogo. A Massa
grita e eu sinto o concreto do Mineirão *tremer*.

4:44, o menino Quirino, negro, pobre, formado em casa, como é de nossa
tradição, escapa pela direita, dá um drible no defensor do São Caetano,
e cruza. A bola vinha caindo nos pés de Alex num ângulo de quase 180^o ,
ou seja, se ele entra chutando ela vai nas arquibancadas. Por
transmissão de pensamento, os 60.000 fanáticos avisamos a Alex: mate a
bola com calma, o goleiro está caindo. Alex escuta, recebe a redonda
desajeitado na barriga, e enfia de dedão prá dentro do gol. O Mineirão
enlouquece. O excelente time do São Caetano começa a bater cabeça, errar
passes fáceis, discutir entre eles mesmos. A Massa começava a ganhar o
jogo para o seu time. 4:54, termina o primeiro tempo. P., do alto dos
seus 70 anos, verte umas lágrimas e me diz: ´é, Idelber, *baixou o
espírito do animal*´. Penso comigo o que já pensei tantas vezes: sei que
é só um jogo de futebol, mas por que, toda vez que presencio isso, eu
arrepio todo, o peito engasga, os olhos enchem d´água? Idealização de
brasileiro expatriado? Não sei, *mas é bom demais*.

5:15, o São Caetano pressiona. Mas Rodrigo escapa pelo meio, lança Alex
na direira, e de novo de dedão Alex enfia pro fundo das redes. 2 x 0
Galo. Logo depois, mais um gol, 3 x 0, e é só festa e cantoria no
Mineirão. Essa disponibilidade com que qualquer um quer abraçar qualquer
um é das coisas mais lindas do futebol.

E parabéns ao *_Santos_* [link] , que numa partida
assistida por um público em 50% inferior ao do Galo, sagrou-se campeão
brasileiro com toda justiça.

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  Escrito por Idelber às 14:32 | link para este post



domingo, 19 de dezembro 2004

*Disco da Semana –


*Disco da Semana – Ataulfo Alves, /Raízes do Samba/*

Dá para se escrever parte da história da cultura brasileira seguindo o
mineiro que se exila no Rio. Cânone da crônica brasileira: Paulo Mendes
Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade. O da
memorialística: Pedro Nava. Na música popular: Ary Barroso ou Clara
Nunes, Mílton Nascimento ou João Bosco.

Acho que na era do samba essa ilustre linhagem começa com *Ataulfo
Alves* [link] (1909-69),
filho de repentista, mineiro de Miraí cariocado cedo.

Prá mim, um gênio do ritmo, da melodia e da poesia. Além de compor e
cantar, Ataulfo tocava violão, cavaquinho e tamborim.

Em 1932-33, Ataulfo toma o samba que se renovara ali no Estácio (mais
batucado, molejado, ‘sincopado’ que o dos anos 20) e bota em marcha,
sobre aquela base rítmica, uma *fábrica de pérolas*. Ataulfo é dos
primeiros compositores *pop*, fazedores de ‘sucessos’, do Brasil. Ao
lado de Noel, ele traduz para o rádio a batuqueira do Estácio, logo
apropriada pelo branquelão Francisco Alves.

Como em Caymmi, há trechos de Ataulfo que parecem folclore. Ataulfo tem
aquela honra especial: é autor de versos que todos conhecem, até quem
nunca ouviu falar nele: ‘Laranja madura/ na beira da estrada / tá
bichada Zé / ou tem marimbondo no Pé’.

É um inventor de mulheres: Amélia, Aurora, Laura, cada uma de um jeito.

Compositor de talento refinado, ele passa do sambão à marchinha, do
samba-canção ao samba orquestrado. Seu grande parceiro nas letras foi
Mário Lago.

Falou de viver na orgia (‘Ah, seu Oscar’), de trabalhar bonitinho como
mandava Vargas (‘O Bonde de São Januário’) e fez patriotadas bélicas
(‘Brasil’), mas suas marcas registradas são:

1. o sambão de peito machucado (‘Vai, mas vai mesmo’, ‘Mais um samba
popular’, ‘Não irei lhe buscar’, ‘Você nasceu para o mal’)

2. a nostalgia interiorana, saudade em andamento lento (‘Meus tempos de
criança’)

3. a reflexão, filosófica mesmo, ou social, sobre o samba (‘Na cadência
do samba’, ´Bom crioulo´)

Prá mim, estas três vertentes se encontram na sua maior composição,
‘*Leva meu samba’*, um batucão no melhor estilo Estácio, de levada
irresistível e lindos vocais femininos dialogando com a voz de Ataulfo:
‘Leva meu samba / meu mensageiro/ este recado/ para meu amor primeiro/
Vai dizer que ela é/ a razão dos meu ais”

Com ‘Leva meu Samba’ Ataulfo estréia como cantor em 1941. E arrasa. Nos
anos 30, haviam gravado composições suas Carmen Miranda, Almirante,
Floriano Belham, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo. Continuou gravando e
até sua morte foi imprescindível. Na véspera da morte ainda pariu outra
pérola, ‘Você passa eu acho graça’. Todo mundo regravou Ataulfo, de
Clara Nunes a Cássia Eller a Itamar Assumpção. Mas recomendo mesmo esta
coletânea, porque o grande barato é Ataulfo /lui-même/.

Esta compilação da série ‘*Raízes do Samba’* reúne 20 gravações na voz
de Ataulfo, dos anos 40 aos 60. Inclui os clássicos citados aqui e muito
mais, com excelente remasterização. Imperdível.

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  Escrito por Idelber às 12:10 | link para este post



sexta-feira, 17 de dezembro 2004

*O iPod e o


*O iPod e o Aleatório*

Já há mais ou menos um ano e pouco não escuto CDs. Continuo comprando,
mas os indispensáveis vão para o iPod, os dispensáveis vão para o gélido
purgatório da torre de CDs.

O iPod é o tocador de MP3 da Apple, né? Também conversa lindamente com
PCs. Eu tenho aquele de 15 giga, 4.300 canções mais ou menos. Quando eu
comprei eu achei que era muito.

Para os fanáticos por música que vivem viajando prá lá e prá cá, como
eu, é indispensável. Até ano passado, cada vez que eu vinha ao Brasil eu
dedicava horas na arrumação da mala para escolher 100 ou 120 discos,
tirar CDs e encartes das caixas, colocá-los no guarda-CDs e ao regressar
devolvê-los às caixas. Invariavelmente, na viagem eu tinha vontade de
ouvir um CD que tinha ficado para atrás.

Quando você está online ao passar o CD para o computador e daí ao iPod,
a canção já chega ao tocador com o nome do artista, disco, etc.
(encontrados no CDDB, um banco de dados online). Não esqueça de ignorar
ou apagar a ridícula categoria de gênero sob a qual chega cada artista.

A coisa ia bem até que adquiri a caixona da Biscoito Fino com 15 CDs do
período 1902-1925 no Brasil. O iPod já estava cheio e comecei a ter que
tirar coisas para incluir os materiais da Biscoito Fino, que eu ia
precisar para dar aula este semestre - por exemplo sobre a passagem do
samba maxixado ao samba do Estácio, que eu explico com um pouquinho de
ouvido, leitura e algo de chutômetro.

Como ando em lua de mel com a música brasileira, são as músicas de
Cuba-Caribe, USA-UK, Argentina e Africa que pagam o pato (só tenho
música destas regiões; música clássica eu deixo de fora do iPod). No
momento, a coisa vai assim: Brasil 3.250 canções, USA-UK 602,
Cuba-Caribe 430 e umas cem para a Argentina e Africa. Minha coleção de
tango está sendo expulsa do iPod.

Uma das maravilhas do iPod é o ´playlist´, uma combinação de canções
agrupadas como você queira. A outra maravilha é o ´shuffle´, o gozo do
aleatório. Você pode pôr a maquininha para sortear tudo até o infinito,
sortear uma do Caetano, sortear algo dentro de uma lista.

Esses dois comandos mudaram completamente a forma como ouço música.
Ainda mais que tenho fascinação por misturega de qualquer tipo.

Para encontros românticos, minha favorita sempre foi a playlist ´vocal
feminino´, que reúne as 900 e poucas canções que tenho cantadas por
mulheres, de *Ella * [link] a *Elis*
[link] .

Até que numa experiência de uns meses atrás apareceu *PJ Harvey*
[link] esganiçando, berrando ´Happy and
Bleeding´ (sim, uma canção sobre sangramento.....). Para quem nunca
ouviu, *PJ Harvey* [link] é algo assim como
*Janis Joplin* [link] + *Nick Cave*
[link] . Maravilhoso, mas não é o que você
quer em certos momentos.

Não atrapalhou nada, e deu-se muita risada, mas valeu como aviso para
tratar as ´playlists´ do iPod com muita atenção....

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  Escrito por Idelber às 15:56 | link para este post




McCensura Eu não gosto

McCensura

Eu não gosto da comida do McDonald´s, mas sou pai de duas pessoas que
adoram, então quem sou eu para censurar: uma vez por semana a gente dá
uma passadinha lá.

Ontem o McDonald´s da Afonso Pena, BH, tinha uma novidade: McInternet!

Aproveitei que só havia mesinha livre com dois lugares, deixei Alexandre
e Laura comendo e vim dar uma olhada nos comentários do *Biscoito*,
olhar outros blogs, surfar.

Chamo o *Biscoito* e recebo a janelinha: *Acesso negado! McInternet
identificou conteúdo impróprio neste site!*

Pensei comigo: isso é que dá escrever palavrão no blog. Vou ter mais
cuidado no futuro porque não quero que ninguém fique impedido de acessar
o *Biscoito* no McDonald´s.

Aí pensei, bom, vou acessar o *Liberal Libertino Libertário*
[link] . Não entrou, mesma
janelinha. Tento o *Smart* [link] . Entra,
mas quando abro a primeira caixa de comentários, de novo a janelinha de
censura. Tento o *blog do Galvão* [link] .
Mesma McIdentificação de conteúdo impróprio.

Saio xingando, putz, será que não há um blogueiro brasileiro que tenha
conteúdo McApropriado? Como será que funcionam esses filtros hein?

Sou, como disse, pai, e as pérolas têm 8 e 5 anos. Quando vejo essas
coisas não tenho dúvida. Prefiro que não haja filtro nenhum em lugar
nenhum. Deixa a meninada achar o que der conta quando for a hora. Nada
do que está na internet deixa de existir no mundo por causa dos filtros.
Nada do que é humano me é estranho, acho que foi Nietzsche mesmo que
falou isso.

*Perguntas deliciosas*:

Alexandre, 8 anos: Bloquearam a sua blogagem, pai?

Laura, 5 anos: Já blogou hoje, pai?

Pronto, minha filha. Já bloguei.

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  Escrito por Idelber às 14:23 | link para este post



quinta-feira, 16 de dezembro 2004

Punindo as Pororocas Pátrias III

(/terceiro e último post sobre a lei 1676/1999/)

Depois de publicar o post abaixo, sobre a lei Aldo Rebelo, que quer
criminalizar as pororocas pátrias com as de outros idiomas, tive várias
surpresas agradáveis. O Nemo já havia feito um *post sobre o assunto*
[link] e o Alexandre havia
feito *outro*
[link] .
Ambos no mesmo espírito de repúdio à tutela estatal sobre a língua. Na
caixa de comentários do *post mais recente*
[link]
do Alexandre sobre isso, há uma conversa interessante também.

*Esclarecimentos*

Óbvio que como qualquer falante da língua, tenho minhas opiniões sobre
estrangeirismos particulares. A questão não é essa, e sim passar um
cheque em branco para que um Komintern decida punições aos que não se
adequarem à norma determinada. Invariavelmente, todas as vezes que o
estado se propôs regular a língua, as consequências foram nefastas e se
fizeram sentir muito além da língua.

*Exemplos práticos*

´Printar´ e ´startar´ eu acho que não sobrevivem e não precisam do
empurrãozinho do Rebelo.

´Deletar´ eu já acho bonitinho. Minha prima M., de 14 anos, me dizia
anteontem, logo depois de eu ter feito o post: ´Deletei Paulinho da
minha vida´. Eu caí na gargalhada por causa da coincidência. Expliquei a
polêmica a ela. M., inteligente que é, veio com a resposta perfeita:
´esses políticos não tem mais o que fazer não?´ ´Deletar´ eu acho que
sobrevive com lei ou sem lei. Deletar alguém não é apagar, excluir,
eliminar nem descartar. Deletar é deletar.

´Delivery´ funciona no Brasil como marca de status. Essa marca de status
associada à língua inglesa não vai acabar da noite pro dia, e muito
menos com alguma lei. Se o Sr. Aldo Rebelo quer fazer algo para
estancá-la, que tal convencer o governo do qual ele é líder a parar de
enviar quase 5% do nosso PIB aos banqueiros de língua inglesa?

Fla-Flu, Gre-Nal, Atle-Tiba, Galo x Cruzeiro são *clássicos*. Guarani
versus Ponte Preta é *derby*, a palavra que se usava no começo do
século. No entanto, a brasilidade e a comunicação em Campinas continuam
muito bem, obrigado.

*Desafio mantido*

Fica mantido o desafio: eu faço uma fogueirinha de São João com meus
diplomas de licenciatura, de mestrado e de doutorado – diplomas que não
me fazem melhor que ninguém, claro, mas que me são caros posto que
conquistados com esforço – se o Sr. Aldo Rebelo ou algum apoiador desta
lei me apontar um único lingüista com produção acadêmica que esteja
disposto a defendê-la.

*Genug!*

Prometo que é o último post sobre o assunto até que essa palhaçada vire
lei, o que, dado o calendário generoso do nosso Congresso, não poderá
acontecer antes do Carnaval. Por culpa dessa lei quase fico sem ingresso
para a partida de ludopédio entre Atlético-MG e São Caetano.

Trilha sonora: ´Samba do Approach´, Zeca Baleiro


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  Escrito por Idelber às 15:41 | link para este post



terça-feira, 14 de dezembro 2004

PPP – Policiando o


PPP – Policiando o Português da Patuléia I

O projeto de lei 1676/1999, de autoria do deputado Aldo Rebelo, do PC do
B, determina que:

Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira,
ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... será considerado lesivo
ao patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei. . . . Toda e
qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira .... ressalvados os
casos excepcionados nesta lei ... terá que ser substituída por palavra
ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90 (noventa)
dias a contar da data de registro da ocorrência.

Quem quiser ler esse cômico projeto por inteiro, pode fazê-lo *aqui*
[link] . Quem quiser acompanhar toda a
história da palhaçada, incluindo-se os pareceres favoráveis em comissões
da Câmara e Senado, pode fazê-lo *aqui*
[link] . Sim, isso
mesmo: Aldo Rebelo quer que a lei puna o uso de ´deletar´ ou ´delivery´.
Se acontecer, cadeia ou multa.

*Onde é que essa infelicidade albanesa foi buscar apoio para o seu
projeto*? Em grupos xenófobos de fascistóides da língua, como esse
inacreditável Movimento Nacional de Defesa da Língua Portuguesa, que no
*seu site* [link] nos insta a defender
a última flor do Lácio com citações de brasileiros ilustres como Albert
Camus, Delacroix e Diderot. Depois, eles dizem que expressões que nem
existem em inglês como *sauce garlic* (será que eles queriam dizer
*garlic sauce*?) ´ameaçam´ a ´existência´ da língua portuguesa!!! Alô
amigos brasileiros do exterior, alô *Leila*
[link] , *Fernando*
[link] , *Felicia*
[link] , *Sérgio*
[link] , regozijo-me informar-lhes que o *sauce
garlic *(sic)* *ainda não destruiu a língua de Camões! E não o fará,
porque o valente deputado a protege.

Ilmo. Deputado Aldo Rebelo, a *ignorância* de Vossa Excelência nesta
matéria é tão vasta, e de tão *mastodôntica* profundidade, que eu não
sei por onde começar. Será que o Sr não leu nem uma *linha* de
lingüística do século XX além da brochurinha do Stalin (sim, leitores do
*Biscoito*, Stalin escreveu um tratadinho de `lingüística´ parecido com
a lei do deputado...)? Será que o Sr já ouviu falar de sociolingüística,
filologia, história do idioma? Será que não leu o suficiente nem mesmo
para saber que a) sobre a língua viva não se legisla; b) nenhum idioma
jamais morreu por adotar palavras estrangeiras, em excesso ou não; c) a
língua portuguesa vai muito bem, obrigado, e a ´invasão´ de termos do
inglês não afeta em nada a comunicação com o ´homem simples do campo´, a
quem o Sr demagogicamente apela, sem que ele jamais lhe tenha pedido
proteção? Será que o Sr não sabe que se o Guga se tornou um tenista de
renome ´os homens simples do campo´ que se interessam pelo assunto já
aprenderam o que é um tie-break e que é assim que funciona a língua?
Será que o Sr. não sabe que a língua espanhola não perdeu nada por dizer
´off-side´ ao invés de impedimento? Será que o fascismozinho estalinóide
do Sr. não entende que é absolutamente inaceitável, além de ridículo e
improdutivo, instaurar uma ´alfândega lexical´ (termo do infeliz
deputado) para legislar sobre como vamos adotar palavras estrangeiras?
Vá burocratizar a língua lá na casa do caralho, no meu texto não. *Fuck
off*.

O deputado se apresenta como porta-voz de um ´clamor´ popular em favor
da defesa da língua portuguesa. Depois ele diz que seu projeto é apoiado
por inúmeros ´professores, linguistas, etc.´ Um dos maiores linguistas
do Brasil, meu amigo Mário Perini, já falou o necessário: ´*O projeto do
Aldo Rebelo ... não vai ter utilidade nenhuma como lei*
[link] .´ O linguista
John R. Schmitz, da UNICAMP, já desmontou toda a bobajada com *vários
textos* [link] . O linguista José
Luiz Fiorin, da USP, já demonstrou que ´*a concepção de língua sobre a
qual se apóia o projeto é equivocada. Os problemas lingüísticos que
identifica não são reais*
[link]

Eu *desafio* o deputado a apresentar o nome de *um só linguista
brasileiro*, com produção acadêmica, que seja favorável à sua
escrotíssima idéia de punir o uso de palavras estrangeiras e de criar um
Komintern da gramática.

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  Escrito por Idelber às 13:05 | link para este post




PPP – Policiando o


PPP – Policiando o Português da Patuléia II

Se essa infeliz idéia de estalinista recalcado virar lei, óbvio que é
mais uma para não ser cumprida, porque a língua não obedece burocratas
de plantão. Agora, se alguém for punido por violar esta lei, assumo aqui
o compromisso de transformar este *Biscoito* num espaço permanente de
violação e desrespeito à Lei Aldo Rebelo.

E tem mais deputado, vou gastar até minha última gota de saliva para
chamar todos blogueiros que conheço, vou lá no *Alexandre*
[link] , no *Nemo*
[link] , na *Cora* [link] , no
*Galvão* [link] , no *Marcus*
[link] , no *Smart*
[link] , aposto que muitos vão topar
chamar mais gente, e faremos uma permanente desobediência civil
lingüística. Se charmarmos o *Gerald*
[link] então, o Sr. vai ver a confusão que
nós vamos armar na cabeça do Sr.

Mande seu exército-zinho de defensores da *mediocridade monolíngüe*
tentar resolver problemas que realmente existem. Como por exemplo o uso
de vírgulas. Nunca lhe ocorreu policiar o uso de vírgulas? E a
obrigadoriedade da mesóclise, menina dos olhos de um ou dois gramáticos
bolorentos aliados ao Sr.? O sr. sabe o que é mesóclise?

Será que o Sr. tem idéia, tem noção, de que se em algum momento da
história do Latim, ou da história da vulgata, ou da história da língua
portuguesa, algum aprendiz-zinho de policial lingüístico tivesse tido a
idéia do Sr. (e tivesse tido sucesso executando-a, o que é impossivel,
claro), não *existiria nem mesmo esse tutamélico arremedo de idioleto
farrapento de língua portuguesa no qual o Sr. tenta expressar a sua
imensamente atrasada visão de mundo e de nacionalidade? *Não se atreva,
por favor, deputado, a justificar essa polícia da língua citando Machado
de Assis. Ele revirou no túmulo, eu vi. O Sr. não leu uma linha de
Machado de Assis, e se leu não entendeu. Releia `Um Homem Célebre`.

Delete esta delivery fracassada, deputado. O Sr. está se perdendo no*
chemin des écoliers*, ou seja, *yéndose por las ramas*. Que
Weltanschauung mais atrasada! ¡Qué quilombo, diputado! O Sr. merece ser
condenado a ficar o resto da sua existência lendo as obras completas de
Lukäcs em húngaro, enquanto procura galicismos num DVD de Roberto Leal.

Semana de *desobediência civil* contra a lei Aldo Rebelo, galera.
Mensagens cheias de misturas, anglicismos, hispanismos, germanismos,
galicismos e palavras estrangeiras serão especialmente bem-vindas.

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  Escrito por Idelber às 13:02 | link para este post



segunda-feira, 13 de dezembro 2004

Reze pelo Galo

*Reze pelo Galo*

Matemática do *desespero* no Campeonato Brasileiro: Grêmio e Guarani já
rebaixados. Vitória-BA, Criciúma, Botafogo, Galo e Flamengo lutando para
escapar de mais duas vagas para a degola. Os dois primeiros afogando-se
porque dependem de ganhar seus jogos e torcer por tropeços de
adversários, o Botafogo numa dificílima, porque só depende de si, mas
tem que bater o poderoso vice-líder Atlético-PR na Arena da Baixada (se
não, terá que ligar o radinho e torcer).

O Galo depende de *vencer* o São Caetano no Gigante da Pampulha neste
domingo. Se ganhar, segue na série A. Se perder ou empatar, dificilmente
escapa da Série B – o poço assustador de onde subir é muito duro.

O Galo é a maior paixão da maioria do povo pobre de Minas Gerais:
primeiro campeão da cidade (1914), primeiro e mais freqüente campeão
mineiro (38 vezes), primeiro campeão brasileiro (1971), primeiro
brasileiro a excursionar pela Europa e encantar (1950), primeiro campeão
dos campeões estaduais do Brasil (1936), primeiro e único time do mundo
a vencer a Seleção *Brasileira* de Futebol (a de Pelé em 1969), primeiro
campeão da Copa Sul-Americana Conmebol (1992), time que mais vezes
chegou às semifinais do Campeonato Brasileiro (14), único entre os
grandes times brasileiros do Sudeste a incluir negros e mulatos já na
sua *fundação* (1908).

Mais do que por todas essas coisas, o Galo é conhecido *pelo poder e
paixão da sua torcida* [link] , e pelo
seu hino, que já começa duas oitavas acima de qualquer outro hino de clube.

Claro, 70.000 fanáticos vão lotar o Mineirão este domingo, inclusive
este blogueiro. Haja coração.

Figuinha, flores para Iemanjá, velinha prá Santo Antônio, qualquer coisa
está valendo agora.

Se alguém tiver uma opinião sobre se eu devo usar a camisa No. 1
(listras brancas e negras verticais) ou a camisa No.2 (toda branca)
deixe um alô por favor.

*Série coisas horríveis do Brasil II - *Ser obrigado a ouvir o Galvão
Bueno se quiser assistir futebol ao vivo. Não que ele não seja bom
locutor. Ele o é sim. Mas qualquer monopólio é *insuportável* e gera
arrogância. Se o cara já é arrogante de entrada, a coisa fica dura de
lascar.

*Série coisas maravilhosas do Brasil II - *Poder ver a *Soninha*
esbanjar inteligência, lucidez, visão renovadora do futebol, charme e
tudo mais na televisão (ESPN Brasil). Parabéns vereadora. Gente como
você sustenta meu restinho de esperança no PT.

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  Escrito por Idelber às 13:07 | link para este post



sábado, 11 de dezembro 2004

*Disco da semana –


*Disco da semana – Sepultura, /Roots/ (1996) *

É o maior disco de heavy metal já feito no Brasil. Se você conhece
alguém que ainda acha que metal é tudo a mesma coisa, barulheira sem
sentido, dirija a atenção do seu interlocutor a este disco.

Em toda cidade brasileira a oferta de música é variada. Mas certos
movimentos, mesmo nacionais, são associados a certas cidades: o punk e o
hip hop com São Paulo, o funk e o pagode com o Rio, os blocos afro com
Salvador, o reggae com São Luís e Salvador. Belo Horizonte é a capital
latino-americana do heavy metal.

Por volta de 1985-86, Belo Horizonte – até então conhecida pela música
jazzística do Clube da Esquina ou pela viola acústica de trovadores do
interior – começou a ser sacudida por uma legião de jovens cabeludos (a
maioria de classe trabalhadora) vestindo camisetas negras. Surgiu o
primeiro selo brasileiro especializado em metal, a *Cogumelo Records*
[link] . Na época, entre as
muitas bandas, destacavam-se Overdose, Sarcófago e Sepultura.

Esta última cresceu ao ponto de fazer de seus integrantes os músicos
brasileiros de mais sucesso no exterior em todos os tempos – sim, mais
que Tom Jobim. De Jacarta na Indonésia a Oaxaca no México, se você
estiver entre jovens, pode mencionar o Sepultura.

Eles começaram com *Bestial Devastation* (1985) e *Morbid Visions*
(1986), ainda ancorados no satanismo tradicional do death metal. As
influências da banda eram Kreator, Slayer, Sodom. Em *Schizophrenia
*(1987) a banda consolida a formação que duraria dez anos: os irmãos Max
e Igor Cavalera (respectivamente, guitarra/vocal e bateria), Paulo Jr.
(baixo) e Andréas Kisser, guitarrista treinado no blues e no heavy metal
tradicional. *Beneath the Remains* (1989) levou o prêmio de disco metal
do ano na Europa. Com *Arise *(1991) chegaram a um nível de
profissionalização invejável. Em *Chaos A.D.* (1993) eles viajaram aos
*territórios ocupados da Palestina*
[link]
para gravar o vídeo de ´Territory´, que ganhou o prêmio daquele ano na
MTV e é meu clip favorito de todos os tempos. Com *Roots* (1996) eles
levam o heavy metal a outro nível de sofisticação.

Sem abandonar a pegada das guitarras e pauleira 4/4 da bateria de Igor,
eles incorporam maracatu, samba, música indígena. Viajam à reserva
Xavante, no Mato Grosso e estabelecem com eles uma relação respeituosa,
horizontal, que dura até hoje. Incorporam, no final ou no começo das
canções, cantos rituais Xavante. Trazem Carlinhos Brown e seus tambores
para dialogar polirritmicamente com a bateria de Igor. Alternam a
distorção total nas guitarras com belos violões acústicos tocados por
Andreas. Em ´Ratamahatta´ homenageiam uma galeria de anti-heróis
nacionais: Zé do Caixão, Zumbi, Lampião. Igor se consolida como um super
baterista: pegada forte e seca, contratempos surpreendentes, uso de uma
série de recursos de outros gêneros. Se você tiver paciência de ouvir o
disco todo, será premiado ao final com uma ´faixa escondida´ (´hidden
track´) de 13 minutos, soturna, estranha, enigmática, cheia de silêncios.

Oriundos de um movimento que odiava a música nacional e que se orgulhava
de ser de ´lugar nenhum´, o Sepultura primeiro conquista o planeta,
depois faz um disco reconciliando-se com suas raízes. *Roots* é uma
profunda meditação sobre o Brasil, indispensável para qualquer um que
queira entender a relação entre a música e a nacionalidade no país.

Há vinte anos atrás, no dia 04 de dezembro de 1984, o Sepultura fazia
seu primeiro show em Belo Horizonte. Neste momento, 11/12/04, eles estão
viajando de Stuttgart, na Alemanha, para Copenhague, na Dinamarca, em
outra super turnê. Congrats, folks. *You did it your own way*. I love you.

PS: se você estiver interessado em saber mais sobre o Sepultura, pode
ler o trabalho que eu apresentei no último congresso da Associação
Internacional para Estudos da Música Popular (IASMP), que ocorreu no Rio
de Janeiro. O artigo está *disponível online*
[link]

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  Escrito por Idelber às 13:59 | link para este post



sexta-feira, 10 de dezembro 2004

*Coisas maravilhosas e horríveis


*Coisas maravilhosas e horríveis do Brasil que eu já tinha esquecido*:

Plagiando descaradamente uma idéia já blogada pelo *Nemo*
[link] , vou fazer de vez em quando, ao longo destes 40
dias em que estarei em BH, minha própria listinha das coisas
maravilhosas e horríveis do Brasil que eu já tinha esquecido. Na
verdade, ´esquecido´ não é bem a palavra, porque passo tanto tempo por
ano aqui (uns 130 dias ao todo), que está tudo sempre bem presente na
memória. Mas claro que o reencontro com a coisa sempre produz impacto.

*Coisas maravilhosas*:

1. O charme incomparável da mulher que pára o carro ao lado do meu no
semáforo, baixa o vidro elétrico da janela do passageiro e, consciente
de que eu estou olhando, acende um cigarro de um jeito blasé, tira os
óculos escuros e me dá um sorriso e uma piscadela. Eta-le-lê, eis aí uma
cena impensável em gringolândia.

2. Poder ir a um restaurante e beber, comer, voltar a beber, fumar,
voltar a comer, passar para a sobremesa, voltar à cervejinha, e refazer
o percurso como eu quiser, sem que venha um garçom jogar a conta na
minha cara ou me perguntar ´Are you finished, sir´?

*Coisas horríveis*:

1. Ter que fazer baliza morro acima, na chuva, num carro 1.0 com quatro
passageiros dentro, num espaço exíguo e com um fariseu buzinando atrás
de mim. Hehehe. Leitores cariocas, paulistas, baianos: se isso é difícil
na terra de vocês, em Belo Horizonte é trinta vezes pior (sim, o
trânsito aqui é pior que o de São Paulo). Das muitas cidades que já
visitei, só Nova York, entre a 14 e a 42, tem um trânsito de horror
comparável ao de BH. Com a diferença que em BH é tudo morro, todos têm
que ir ao centro (que é um funil pensado para uma cidade de 200 mil, que
agora tem 3 milhões) e os motoristas dirigem como se estivessem fugindo
do apocalipse.

2. Ter que ouvir os intoleráveis ´só podia ser mulher´, ´só podia ser
preto´ e ´só podia ser nordestino´. O segundo insulto está ficando cada
vez menos comum (menos comum do que era, não quer dizer que tenha
desaparecido), mas o primeiro e o terceiro pululam em todas as classes
sociais. A próxima vez que eu ouvir algum dos três, sei não...

PS: A resenha discográfica desta semana vai rolar amanhã. Não é um disco
obscuro, mas é, na minha opinião, um obra-prima pouquíssimo escutada e
compreendida. Não deixem de visitar.

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  Escrito por Idelber às 18:19 | link para este post



quinta-feira, 09 de dezembro 2004

Ética da blogagem I

Ética da blogagem I

/(em duas partes, cortesia do miserável limite de caracteres por post no
UOL)/

Este *Biscoito* é calouro, mas ouvi e li o suficiente na blogosfera para
ter uma opinião sobre a ética da blogagem. Para começar, questão-zinha
terminológica: eu me filio à corrente que diferencia radicalmente a
ética da moral. Não confundir as duas coisas: a moral é um discurso
prescritivo, a ética é a formulação da relação da gente com o que a
gente faz. O que segue, então, não pretende ser receita para ninguém. É
só uma reflexão sobre a minha prática.

*Ética da divulgação*

Depois de armar o seu blog, o blogueiro iniciante sai sedento em busca
de leitores. Visite a *sala de divulgação dos blogs do UOL*
[link] e você vai ver
a solidão e miséria humanas em pessoa. É super normal querer chamar
leitores. Ninguém escreve para não ser lido. Neste *Biscoito*, de 25% a
30% dos leitores chegam via comentários que fiz em outros blogs. No
geral, tenho observado o seguinte: eu me animo a clicar na URL de alguém
que comenta em outros blogs quando o comentário me pareceu inteligente
e pertinente. Jamais cliquei na URL de alguém que visitou o blog do
outro só para dizer, ´oi gente, visitem meu blog por favor´. É
irritante, interrompe a conversa. Se você quer divulgar seu blog, eu
recomendo duas coisas: além de comentar blogs *respeitando o tema*,
mande emails *individuais. *Jamais arme uma lista de spam e saia por aí
*spamming everybody*. Se possível, envie um link específico a um post
que você acha que a pessoa vai gostar. Não há nada de mais em desejar um
leitor específico. O maior escritor uruguaio de todos os tempos,
Felisberto Hernández (ok, também tem o Onetti), escrevia para uma
leitora que ele desejava. Quando escrevi a *história da minha relação
com o PT*
[link] ,
quis muito que o Clóvis Rossi da *Folha* (que não é amigo meu) lesse o
post. Sei que o cara é ocupadíssimo, e sei que colunista da *Folha*
recebe centenas de emails por dia. Escrevi um email de duas linhas com
um link. Ele veio, leu, respondeu o email, gentil. Acho que se eu
tivesse mandado um spam para 50 pessoas, e ele no meio, ele
provavelmente não teria lido.

*Ética da linkagem*

Chego atrasado a esta discussão, mas vou dar pitaco. Houve uma conversa
entre o Alexandre, que se pauta por *linkar todos aqueles que o linkam*
[link] ,
e o Smart, que se dá o direito de *linkar somente os blogs de que gosta*
[link] . O que acho?
Estou de acordo com os dois (hehehe, sou radical de esquerda mas sou
mineiro...). Mas, agora no sério, acho que os dois estão certos.
Alexandre o faz como gesto de gentileza de um überblogueiro que sabe que
pode ajudar os que estão começando - e mesmo assim vira e mexa *leva
tamancada*
[link] .
Smart se pauta pelo princípio, super razoável, de que linkar um blog é
endossá-lo, não no sentido de que você endossa tudo o que cara diz, mas
de que de certa maneira você está irmanando-se àquele blog (o que só
aumenta minha honra de estar linkado no *Smart Shade of Blue*
[link] ). A ética deste *Biscoito*? Apesar
de ter crescido muito, meu público ainda não é suficiente para que meus
links alterem muito o fluxo de visitas de ninguém (situação diferente
tanto da de Alexandre como da de Smart, blogueiros experientes). Os
links que você vê à esquerda são blogs ou sites que eu leio e gosto.
Adoro ser linkado, mas não prometo reciprocidade. Há três semanas
revirei a blogosfera literária brasileira e conheci mais de 100
escritores de ficção e poesia. Se eu linkasse todos, não teria a
oportunidade de sugerir, com meu link, que acho *Sara Fazib*
[link] – a quem não conheço e nunca vi – uma
das maiores poetas contemporâneas brasileiras. Mas não descarto a
possibilidade de, num futuro próximo, quando as visitas diárias a este
*Biscoito* passarem dos três para os quatro dígitos (heheh, sonha
mineiro), adotar a ética do Alexandre, que é bacana e gentil – nesse
caso eu encontraria outra forma de sugerir meus endossos.

Trilha sonora: ´Particle man´, They Might be Giants

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  Escrito por Idelber às 14:06 | link para este post | Comentários (1)




Ética da blogagem II

Ética da blogagem II

*Ética da crítica*

Como crítico literário, sigo duas pautas. Jamais tomo cervejinha ou
cafezinho com autores de ficção ou poesia a não ser que: 1) eu já tenha
escrito e publicado sobre eles; OU 2) não tenha planos de jamais
fazê-lo. Uma das coisas terríveis do mundo literário jovem é que, na
ânsia normal de construir uma rede, as pessoas formam panelinhas que lhe
tiram completamente a independência de criticar. Por exemplo: depois de
escrever bastante sobre o escritor argentino Ricardo Piglia, acabei
ficando amigo do cara, porque sempre sou chamado a dar conferências
sobre ele. Quando o Ricardo começou a recauchutar textos e republicá-los
com outros títulos como se fossem textos novos, um jornal me perguntou
sobre o assunto, e eu disse: ´não acho legal essa coisa do Ricardo ficar
double-dipping´ (passar o chip duas vezes na salsa; na gíria literária,
republicar o já publicado para aumentar uma linha no currículo). Se
fosse outro escritor, eu poderia ignorar a pergunta, mas você não pode
ser economista especialista em economia brasileira e não ter uma opinião
sobre a política do Palocci. O Ricardo, que é muito elegante, aceitou a
crítica. Mas o Ricardo é considerado o maior escritor argentino vivo, e
não precisa de favores meus. No caso de um escritor iniciante, uma
palavra negativa de um crítico pode ser fatal, mesmo quando não tire
leitor nenhum da pessoa. Se, no desejo natural de construir uma rede de
apoio, você perder a liberdade de blogar como quiser, dizer o que
quiser, é o começo do fim.

*Ética da assinatura*

Este *Biscoito* é feito por alguém com nome e sobrenome, tudo às claras.
Tenho o maior respeito do mundo por quem usa pseudônimo, qualquer que
seja o motivo. Alguns dos blogs mais interessantes e subversivos da
blogosfera gringa só puderam sobreviver porque foram feitos com
pseudônimos. O blogueiro que eu mais admiro no planeta, o *Rude Pundit*
[link] , usa um pseudônimo porque ele
*detona*, pornograficamente, os donos do poder nos EUA. Se não usasse
pseudônimo, já o teriam sufocado com emails de ódio em massa ou ameaças
de morte. Agora, o que não dá é você ter um blog no seu nome, e sair por
aí usando um pseudônimo a cada hora para atacar as pessoas no blog
delas. Todo blogueiro que se preze aceita críticas de boa fé. Mas se
você gosta de polemizar, encare e se apresente, mesmo que seja com o seu
pseudônimo de todos os dias.

Para sublinhar: isto aqui é uma tentativa de formular uma ética, não uma
moral. O autor é novato na blogosfera em português, mas passou 2004
mergulhado nos blogs de língua inglesa. Lá, como cá, tem de tudo. E isto
aqui é só uma contribuição à discussão.

Trilha sonora: ´Mesa de bar´, Alcione e Ed Motta.

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  Escrito por Idelber às 13:53 | link para este post



terça-feira, 07 de dezembro 2004

Miniglossário da blogosfera progressista

Miniglossário da blogosfera progressista gringa

/(A blogosfera foi fundamental na campanha de John Kerry. Com ela,
perdemos por 2% dos votos; sem ela, a corja nos teria massacrado. Sem
estes blogs, os 56 milhões de eleitores que tentaram todo o possível
teríamos nos sentido bem mais sós)/

*DailyKos* [link] : fundado por um salvadorenho
naturalizado gringo, o *DailyKos* foi o mega-blog de mobilização dos
democratas. Continua forte. Projeto colaborativo: você visita e lê sem
se inscrever, mas inscrevendo-se você pode fazer suas próprias entradas
num diário, que podem ser linkadas internamente e selecionadas pelo Kos
para a página inicial do dia. Durante a campanha de Kerry, as visitas
diárias se contavam pelos milhões. O número de inscritos escrevendo,
pelas dezenas de milhares. Todas as informações importantes foram
trocadas lá em tempo real. Há sempre centenas de pessoas conversando
política nos /open threads/. Visite, no *Daily Kos*, a *enciclopédia
colaborativa* [link] .

*Eschaton* [link] : blog fundado pelo
economista e überblogueiro Atrios, funciona como /open threads/ de temas
lançados por ele. Respeitadíssimo site. *Atrios* é como Borges, lê
muitíssimo e escreve pouco. O trabalho do site é linkar e armar /open
threads/. Teve importante papel em vigiar as cagadas da mídia, que é
sempre pró-Bush ou está aterrorizada de medo de ser rotulada pró-liberal.

*Left Coaster* [link] e *Talk Left*
[link] : dois blogs que apresentam notícias que você
jamais verá na grande mídia americana. Todas as citações e fontes são
checadas antes da linkagem. Duas importantes fontes de notícias para os
progressistas americanos.

*Rude Pundit* [link] : blog de textos sem
caixas de comentários. Ao contrário dos que se escondem num pseudônimo
para ser hipócritas, o Rude Pundit permanece anônimo para poder
continuar fazendo o que se propõe: detonar os diretistas com uma prosa
cortante, bem escrita, informada e cheia de obscenidades deliciosas.
Blog porrada pura. Meu blogueiro favorito.

*Talkingpointsmemo* [link] : blog de Josh
Marshall, colunista político de uma série de publicações importantes.
Também um blog de textos, mais formativo e de opinião do que
propriamente de informação.

*Michael Bérubé* [link] : para mim, o mais
inteligente dos blogueiros políticos norte-americanos. Satirista mor.
Professor de estudos culturais, Bérubé milita há tempos no Partido
Democrata e foi figura chave na defesa dos progressistas nas ´guerras
culturais´ dos anos 90. Seu blog saltou de umas dezenas a umas milhares
de visitas diárias quando ele pegou seu laptop, infiltrou-se na
convenção republicana, e fez *posts satíricos legendários*
[link] .

*Wonkette* [link] : não é dos meus favoritos, mas
nenhum miniglossário estaria completo sem ela. Faz o gênero sátira
política erotizada, com constante referência à grande mídia. Foi das
blogueiras mais focalizadas pela mídia quando esta descobriu a
blogosfera. *Emerging Democratic Majority*
[link] : blog do
cientista político especializado em pesquisas Ruy Teixeira. Se você quer
uma análise detalhada das pesquisas, incluindo sua sistemática
manipulação em favor de Bush, não deixe de visitá-lo.

Leitor: quando passar, deixe aqui uma palavrinha sobre como viveu a
eleição americana, no Brasil ou onde for.


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  Escrito por Idelber às 15:35 | link para este post



segunda-feira, 06 de dezembro 2004

Agora blogando sério Já


Agora blogando sério

Já em BH e ainda com a laptop estragada, me deparo estupefato com os
números: este humilde blog há alguns dias vem tendo média de uma centena
de visitas diárias. Pouco, se comparado aos *Alexandres*
[link] , às *Coras*
[link] , aos *Nemos* [link] .
Mas uma multidão para quem começou este *Biscoito* há menos de dois
meses, como um despejo de frustrações pessoais com a cobertura da
campanha de John Kerry na imprensa brasileira. Continuem a visitar, pois
pois. O menu é política, literatura, música e um pouquinho de futebol.
Quando meu Galo voltar a ser um time decente, muito futebol.

*As dez maiores obras da literatura universal*
Está rolando até o dia 12 *lá no Alexandre*
[link] a votação dos dez
melhores livros de literatura de todos os tempos. Essa votação gerou a
idéia de um clube de leitura na blogosfera, onde discutiríamos, num dia
determinado, um grande livro. Tomara que vá prá frente. O meu voto? 1.
Dom Quixote (Cervantes), 2. Os Irmãos Karamazov (Dostoiévski), 3.
Ulisses (Joyce), 4. Em Busca do Tempo Perdido (Proust), 5. Grande
Sertão: Veredas (Guimarães Rosa), 6. Contos completos (Jorge Luis
Borges), 7. Contos completos (Edgar Allan Poe), 8. O Homem sem
Qualidades (Musil), 9. O Processo (Kafka), 10. Hamlet (Shakespeare)

*Deutsche Welle International Weblog Awards 2004
*Quem ganhou o primeiro lugar do júri popular deste concurso
internacional de blogs foi o super simpático brasileiro Nemo Nox, do
pioneiríssimo *Por um Punhado de Pixels* [link] .
Parabéns Nemo!

*Scorcese delira sobre o blues*

O canal GNT começa a exibir o documentário de Martin Scorcese sobre o
blues. Não deixe de assistir. Não porque seja bom, mas porque revela os
delírios do diretor americano. O primeiro episódio é uma pérola de
simplismo: toma um jovem músico negro do Mississippi e o leva à Africa
para ´ver´ as ´raízes´ e a ´alma´ do blues, como se a Africa tivesse
parado no tempo. Que o blues tem raízes na música pentatônica de Mali, é
fato. Que você possa chegar a uma metrópole pós-moderna africana e,
achando que está em 1750, encontrar a ´verdadeira origem do blues´ na
híbrida música de lá, é delírio. Mas as cenas de John Lee Hooker valem o
pé no saco.

*O que é um link?
*Textos sempre remeteram a outros textos desde que o mundo é mundo.
Graças à internet e ao código HTML, essa remissão hoje tem sua forma
mais acabada no link, aquela inserção do texto do outro no seu sem
citá-lo, mas convidando-o a puxar outra janelinha onde os dois textos
co-existam, como amigos. Nessa segundona braba, pratique um ato
aleatório de amizade. Linque o seu blogueiro *favorito*
[link] , ou algum que você goste *muito*
[link] .


*Próximos temas aqui no Biscoito*:

1. A ética da blogagem
2. O jornalismo e a blogosfera
3. Os melhores discos brasileiros da história
4. A blogosfera na campanha de John Kerry
5. A luta contra essas pragas que são as religiões
6. O governo brasileiro e a censura ao cinema

PS: por alguma razão, a porra do template do UOL não está me deixando
formatar, lincar, colocar negrito, etc. a não ser depois de muita luta.
Além da laptop estragada, mais essa. Tenho que me mudar para o blogspot
ou adquirir um servidor meu urgente. Sugestões?

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  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post



sexta-feira, 03 de dezembro 2004

** *New Orleans Belo

**


*New Orleans Belo Horizonte *


New Orleans, com suas ruelas antigas, casarões e sobrados, becos, clubes
de jazz, vibrante cultura negra, incomparáveis restaurantes, lago
maravilhoso, bandas de música pela rua com gente dançando atrás
(/secondlining) / e o sorriso tranquilo da maioria dos nativos da
cidade. Quem veio a este país e não passou por New Orleans, perdeu a
segunda melhor cidade.

Belo Horizonte, com seus morros, a serra em volta, as cachoeiras, a vida
noturna agitada e cheia de recovecos, a cara recatada de cidade que tem
muito mas não se oferece fácil, os milhares de bares, a música sempre
com alguma coisinha diferente na harmonia, a hospitalidade e a mistura
singular de província com metrópole. Se foi ao Brasil e não conheceu
Minas, não viu o "cimento" do país, como disse uma vez meu amigo carioca
Italo Moriconi.

O que eu sou eu devo a essas duas cidades. De lá prá cá. Chegou a hora
do lá. Contagem regressiva para abraços nos filhos: 2 dias.

*Alôs que algum dia chegarão*

Se um modesto professor universitário já recebe pilhas incontroláveis de
emails, eu imagino o que será a caixa de um colunista da *Folha de São
Paulo*. Mesmo assim, ao longo desse ano, aos meus incontáveis
comentários, reclamações, elogios e sugestões, nunca deixaram de ser
gentis e responder: Clóvis Rossi, Eliane Castanhêde, Mário Magalhães,
Soninha, Luiz Nassif, José Geraldo Couto. Muito obrigado. Eu vivo
reclamando, mas a *Folha* prá mim ainda é, me desculpem meus amigos
cariocas, o melhor jornal do Brasil. Exceto quando colocam sionistas
radicais pró-Bush para comentar eleições americanas.

*Mulher de um Homem Só*

Li o romance do überblogueiro Alexandre Cruz Almeida. Narradora mulher
muito convincente. Relato envolvente, que cria uma identificação entre o
leitor e uma protagonista que vai se transformando num farrapo humano.
Disponível para download lá no site do Alexandre o Libertino Liberal
Libertário [link] . Recomendo
mesmo.

*Novidades Literárias e Musicais na Capitu*:

Marcelino Freire resenha emocionado o que parece ser um belo disco
[link] , o primeiro solo de
Sérgio Cassiano, do Mestre Ambrósio. A julgar pela obra do grupo, deve
ser um discaço. Chegando em BH vou conferir.

Minha conterrânea e colega Maria Esther Maciel está lançando seu *O
Livro da Zenóbia* [link] ,
coleção de reflexões, relatos, prosas poéticas. Esther também é poeta,
crítica de cinema e professora do melhor curso de Letras do Brasil, o da
UFMG. Mais uma coisa prá conferir em BH. Como se faltasse!

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  Escrito por Idelber às 23:37 | link para este post




*Disco da Semana –


*Disco da Semana – Tom Zé, /Todos os Olhos/ (1973)*

* ** **Blogueiro Convidado: Christopher Dunn*

**/(esta semana a resenha fica por conta de meu brother //Christopher
Dunn/ [link] /. Diga lá Chris!)/

Batizado o “pai de invenção” pela revista *Rolling Stone*, Tom Zé é hoje
amplamente reconhecido e celebrado nacional e internacionalmente como um
grande inovador da música popular. Não foi sempre assim. Em meados dos
anos 80, depois de lançar uma série de discos brilhantes e
mal-sucedidos, Tom Zé quase chegou ao fim da linha: sem contrato para
gravar e tocando ocasionalmente em bares pequenos e nas universidades do
interior paulistano, quase largou a carreira de músico para voltar a sua
cidade natal no sertão baiano. Foi nessa época que o músico-produtor
David Byrne procurou o baiano com a proposta de lançar uma coletânea de
suas canções-ironicamente chamadas de “massive hits-- todas gravadas nos
anos 70. Lançado em 1990 pelo selo Luaka Bop, “The Best of Tom Zé foi um
sucesso crítico entre o cognoscenti musical da Europa e Estados Unidos.

Uma boa parte desta coletânea saiu do disco *Todos os olhos*, lançado em
1973 e citado pelo próprio artista como um divisor de águas na sua
carreira. Foi o disco em que ele se afastou definitivamente das paradas
de sucesso-as quais frequentava durante a época da Tropicália-- e
assumiu uma postura mais experimental. Foi o momento em que Tom Zé “caiu
no ostracismo” como ele costuma dizer. Hoje o disco talvez seja mais
conhecido pela capa: há alguns anos foi eleita por um grupo de críticos
e músicos entre as cinco melhores capas de discos brasileiros de todos
os tempos. Criada pelo poeta concreto Décio Pignatari, a capa mostra uma
imagem estranha e ambígua. O que, a primeira vista, parece um olho é uma
bola de gude montado sobre um ânus. Foi um gesto deliciosamente
subversivo para os censores no auge da repressão autorítiária da
ditadura militar.

A capa de interior contém um poema visual de Augusto de Campos “Olho por
olho” (1964), uma obra que chama atenção pela força do visual na cultura
contemporânea, algo que torna opressor no samba lento “Todos os olhos”:
de vez em quando todos os olhos se voltam para mim/ de lá de dentro da
escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói. O coro da Grupo
Capote reclama eu sou inocente; eu não sei de nada; não tenho chicote;
eu sou até fraco. Sua ambivalência em relação à posição do artista no
Brasil daquele tempo se torna mais cáustica em “Complexo de épico,” uma
crítica à seriedade na MPB: todo compositor brasileiro é um complexado.
Porque então essa mania dananda, essa preocupação de falar tão sério?

Em outras músicas Tom Zé dialoga com mais generosidade e humor com a
tradição musical. O melhor exemplo seria “Augusto, Angélica e
Consolação” um tributo ao samba paulistano de Adoniran Barbosa que
cantava a cidade suja encoberta de garoa. Na música do Tom Zé as três
avenidas famosas ganham personalidades distintas. Augusta era vaidosa e
gastava o dinheiro dele e Angélica andava com a roupa cheirando de
consultório médico. Só a Consolação, como é de esperar, veio a tirá-lo
de sua solidão. Uma vontade antropomorfista em relação a São Paulo
sobressai ainda mais em “Botaram tanta fumaça” em que a cidade está
cansada sufocada está doente tá gemendo de dor de cabeça.

Assim como todos os discos de Tom Zé encontramos também, críticas
mordazes da industria cultural e o consumo frenético na sociedade
moderna. Em “Dodó e Zezé” cria um diálogo entre um jovem que quer
entender seu mundo e um conselheiro sagaz:
-- sorrisos, crème dental e tudo, mas por que é que a felicidade anda me
bombardeando? diga Zezé.
-- é pra saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, Dodó.
Em sua homenagem melancólica a Brigitte Bardot, o artista medita sobre a
criação e consumo rápido de mitos imagéticos de cinema: A Brigitte
Bardot está se desmanchando/ e os nossos sonhos querem pedir divórcio.

Hoje aos 68 anos, Tom Zé está no auge de sua criatividade e
produtividade. Nos últimos cinco anos lançou *Com defeito de fabricação*
e *Jogos de armar*, talvez seus dois melhores discos. Mas vale a pena
ouvir sua produção dos anos 70 relançados em duas compilações da série
maravilhosa Dois Momentos produzida por Charles Gavin. Todos os olhos
aparece junto com *Se o caso é chorar* de 1972. O outro volume contém
*Estudando o samba* (1975)-o disco que primeiro chamou a atenção do
David Byrne-e o menos conhecido *Correio da Estação do Brás* (1978). São
documentos de um tempo em que o artista que embarcava corajosamente numa
adventura incerta e difícil em termos professionais, produzindo obras de
extrema beleza e inovação. As palavras de “O riso e a faca” de *Todos os
Olhos* sintetizam este momento para Tom Zé:

Fiz meu berço na viração
Eu só descanso na tempestade
Só adormeço no furacão

(/texto escrito por Christopher Dunn, ao contrário do que aparecerá dito
abaixo/)

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  Escrito por Idelber às 18:53 | link para este post



quinta-feira, 02 de dezembro 2004

Lutei por uma bandeira


Lutei por uma bandeira - agora faço luto por ela

Fiquei tão feliz com as dezenas de visitas uruguaias que até esqueci do
post de hoje, que era sobre política. O colunista e blogueiro *Pedro
Doria*
[link]
gentilmente incluiu em seu blog um link para o post *abaixo*
[link] sobre
a minha história com o PT (sim, c.d. sou eu).

Muitas das respostas à coluna de Pedro deixam claro como tanta gente
ainda está disposta a se deixar enganar. Os ataques a quem critica o
governo são tão repetitivos e pouco imaginativos que até dão dó. Vamos lá:

1. Não, nenhum de nós achava que Lula ia mudar tudo do dia prá noite.
Mas achávamos – e para isso lutamos – que *um rumo* de mudança ia
aparecer. Esse rumo não só não apareceu como *está claro que não
vai aparecer*.
2. Não, nenhum de nós achava que o governo do PT seria uma revolução
bolchevique com estatização dos meios de produção. Mas não
esperávamos que a política econômica seria regida por uma receita
FMI *mais ortodoxa que a de FHC*, nem* *que a política social
seria esse saco de esmolas tão embaraçoso que *todos *os
principais especialistas da área se demitiram.
3. Não, nenhum de nós ignora que a economia cresceu mais de 5%. Essas
são as “boas notícias”? Quando esse crescimento gerar emprego, me
avise. Por enquanto está engordando banqueiros.
4. Não, nenhum de nós achava que se iria governar o país como
anjinhos puros. Mas não esperávamos um loteamento de cargos e
tráfico de influência que de tão descarados são
até contra-produtivos: o governo hoje é refém das raposas velhas
da direita no congresso. E por sua própria culpa.
5. Aos que nos aconselham que fiquemos no PT para mudar as coisas
“por dentro”, um aviso: já não existe nenhum dentro. As reuniões
do diretório são para referendar o que mandam em Brasília.
6. Aos que fantasiam com golpe e dizem que alguém pode estar querendo
“tirar o Lula de lá”, acordem: a direita e o capital financeiro
nunca estiveram tão felizes.
7. Aos que dizem que nós só criticamos e não "apresentamos
propostas", leiam um pouquinho mais. Por exemplo, o volume *A
Economia Política da Mudança*. Não, não propomos nenhum milagre.
Mas propostas que vão além dessa covardia regada a lucros inéditos
para os banqueiros, isso nós temos sim. Estamos apresentando-as
dentro do PT há 10 anos. Fomos, paulatinamente, triturados nesses
anos. Saiu Gabeira, entrou Delúbio.

E tem idiota me escrevendo prá dizer que sou "covarde" por "ter
abandonado o barco". O barco, fariseus, vós o esmagastes.

Respeito muita gente que ainda está lá no PT, mas eu já fiz meu balanço
desse projeto. Agora é realizar o luto por ele, e ver prá onde a gente
vai com isso. Pergunta bem mais complicada, claro.

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  Escrito por Idelber às 22:20 | link para este post




*Bienvenido Uruguay* Este humilde


*Bienvenido Uruguay*

Este humilde blog ha recibido unas *docenas* de visitas de Montevideo,
Uruguay. Bienvenidos y vuelvan siempre. Aquí nos permitimos recibir
comentario en cualquier lengua, *pero muy especialmente en uruguayo.
*Amor, amor le tengo a ese país, y al mate en las paradas de colectivos,
y a la buena onda de su gente. Bienvenido Uruguay. Si alguna vez me
exiliara, allá en Montevideo sería.

*Mensagem a quem lê mas não escreve português*

**

Eu escrevo aqui só (ou quase só) em português, mas isso não se aplica
aos leitores. Aos amigos nos EUA que me dizem que lêem o blog: Comments
in English are most welcome. Comentarios en castellanos son, por
supuesto, bienvenidos. Les messages en français son bienvenus. Anzeigen
auf Deutsch sind willkommen. E em italiano eu não sei como diz, mas pode
também. Ibitssam e meus amigos falantes de árabe, bem-vindos. Viva Babel.


Blogs Amigos

Este blog é amigo de dois blogs em língua inglesa: o Rude Pundit
[link] e Michael Bérubé
[link] . Se lê inglês, não deixe de ler esses caras.

*Upgrade*

Logo logo vou poder postar todas as mensagens, mesmo as mais longas, em
Arial 10, que é esta letra grandinha mais bacaninha. Formato ainda vai
melhorar.


Contagem regressiva – 3 dias

Belo Horizonte, aqui vamos nós. Alexandre e Laura, está chegando a hora.
Começarei com frango e quiabo.

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  Escrito por Idelber às 14:58 | link para este post



quarta-feira, 01 de dezembro 2004

Seminário de música popular


Hoje eu termino aqui em Tulane meu seminário sobre a história da música
popular brasileira. 13 semanas de mergulho naquilo que nos faz mais
orgulhosos de ser brasileiros, com um grupo de 12 ou 13 estudantes de
nível de mestrado ou doutorado. Leituras mil. Tudo em português, claro.
Fizemos 5 CD’s com 110 canções do período fonográfico, desde o “Lundu do
Baiano” gravado para a Casa Edison em 1902 até “Conversa de Botas
Batidas”, pérola pop do último disco do Los Hermanos.

Aqui vai um resuminho telegráfico do que fizemos:

Semana 1: Danças de salão do século XIX (polca, schottish, mazurka,
valsa). O batuque. A controversa história do *lundu*
[link] , o
primeiro gênero afro-brasileiro.

Semana 2: O *maxixe*
[link] ,
primeiro gênero popular urbano do Brasil. Os grupos de “chorões” e a
consolidação da linguagem do choro.

Semana 3: O surgimento do *samba*
[link] . O gigante
Pixinguinha.

Semana 4: Nacionalização do samba. Debate entre as várias versões sobre
a história do samba.

Semana 5: O Universo Nordeste. O *Maracatu*
[link] ,
dança dramática afro-brasileira. A *embolada*
[link] , arte verbal
tatataravó do hip hop. O *coco*
[link] e os
outras cantorias batucadas na roda.

Semana 6: O *baião*
[link] . O
gigante Luiz Gonzaga. Dorival Caymmi e a canção praieira. O ritmo como
cerne da música brasileira. Jackson do Pandeiro.

Semana 7: A *bossa nova*
[link] e a nova
utopia de sofisticação. Os festivais e a música engajada. Surge a sigla
MPB.

Semana 8: A jovem guarda. A revolução *tropicalista*
[link] .

Semana 9: A MPB dos anos 70. Consolidação de um cânone acústico
“sofisticado”.

Semana 10: Negritude na música. *Black Rio*
[link] . O rock
nacional dos anos 80.

Semana 11: A revolução *mangue beat*
[link] .
Fim da cisão entre música jovem e música nacional. O maracatu encontra o
hip hop.

Semana 12. O heavy metal. *Sepultura*
[link] conquista o mundo. O hip hop.
Racionais MC's rapeiam contra Carandiru. O funk carioca.

Pessoal da aula, passem aqui e deixem suas experiências favoritas com a
música brasileira este semestre. Música favorita, disco favorito,
discussão favorita, etc. Leitores, deixem seu alô com uma experiência
com música também. Em breve este blog promoverá um concurso dos melhores
discos da história da MPB.

PS1: Você gosta de samba? Leu um livro de Carlos Sandroni chamado
*Feitiço Decente: Transformações do Samba no Rio de Janeiro, 1917-1933*?
Não? Então vá *ler* [link] !

PS2: Este fim de semana o blog terá seu primeiro *blogueiro convidado*.
Meu bróde véio Christopher Dunn, especialista em tropicália,
contracultura e outros babados mais, dará prosseguimento à série *Disco
da Semana*, inaugurada na sexta passada com Fellini. Chris vem aí com um
discaço e uma resenha. Não percam.

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  Escrito por Idelber às 16:27 | link para este post