*Disco da Semana – Tom Zé, /Todos os Olhos/ (1973)*
* ** **Blogueiro Convidado: Christopher Dunn*
**/(esta semana a resenha fica por conta de meu brother //Christopher
Dunn/ [link] /. Diga lá Chris!)/
Batizado o “pai de invenção” pela revista *Rolling Stone*, Tom Zé é hoje
amplamente reconhecido e celebrado nacional e internacionalmente como um
grande inovador da música popular. Não foi sempre assim. Em meados dos
anos 80, depois de lançar uma série de discos brilhantes e
mal-sucedidos, Tom Zé quase chegou ao fim da linha: sem contrato para
gravar e tocando ocasionalmente em bares pequenos e nas universidades do
interior paulistano, quase largou a carreira de músico para voltar a sua
cidade natal no sertão baiano. Foi nessa época que o músico-produtor
David Byrne procurou o baiano com a proposta de lançar uma coletânea de
suas canções-ironicamente chamadas de “massive hits-- todas gravadas nos
anos 70. Lançado em 1990 pelo selo Luaka Bop, “The Best of Tom Zé foi um
sucesso crítico entre o cognoscenti musical da Europa e Estados Unidos.
Uma boa parte desta coletânea saiu do disco *Todos os olhos*, lançado em
1973 e citado pelo próprio artista como um divisor de águas na sua
carreira. Foi o disco em que ele se afastou definitivamente das paradas
de sucesso-as quais frequentava durante a época da Tropicália-- e
assumiu uma postura mais experimental. Foi o momento em que Tom Zé “caiu
no ostracismo” como ele costuma dizer. Hoje o disco talvez seja mais
conhecido pela capa: há alguns anos foi eleita por um grupo de críticos
e músicos entre as cinco melhores capas de discos brasileiros de todos
os tempos. Criada pelo poeta concreto Décio Pignatari, a capa mostra uma
imagem estranha e ambígua. O que, a primeira vista, parece um olho é uma
bola de gude montado sobre um ânus. Foi um gesto deliciosamente
subversivo para os censores no auge da repressão autorítiária da
ditadura militar.
A capa de interior contém um poema visual de Augusto de Campos “Olho por
olho” (1964), uma obra que chama atenção pela força do visual na cultura
contemporânea, algo que torna opressor no samba lento “Todos os olhos”:
de vez em quando todos os olhos se voltam para mim/ de lá de dentro da
escuridão/ esperando e querendo que eu seja um herói. O coro da Grupo
Capote reclama eu sou inocente; eu não sei de nada; não tenho chicote;
eu sou até fraco. Sua ambivalência em relação à posição do artista no
Brasil daquele tempo se torna mais cáustica em “Complexo de épico,” uma
crítica à seriedade na MPB: todo compositor brasileiro é um complexado.
Porque então essa mania dananda, essa preocupação de falar tão sério?
Em outras músicas Tom Zé dialoga com mais generosidade e humor com a
tradição musical. O melhor exemplo seria “Augusto, Angélica e
Consolação” um tributo ao samba paulistano de Adoniran Barbosa que
cantava a cidade suja encoberta de garoa. Na música do Tom Zé as três
avenidas famosas ganham personalidades distintas. Augusta era vaidosa e
gastava o dinheiro dele e Angélica andava com a roupa cheirando de
consultório médico. Só a Consolação, como é de esperar, veio a tirá-lo
de sua solidão. Uma vontade antropomorfista em relação a São Paulo
sobressai ainda mais em “Botaram tanta fumaça” em que a cidade está
cansada sufocada está doente tá gemendo de dor de cabeça.
Assim como todos os discos de Tom Zé encontramos também, críticas
mordazes da industria cultural e o consumo frenético na sociedade
moderna. Em “Dodó e Zezé” cria um diálogo entre um jovem que quer
entender seu mundo e um conselheiro sagaz:
-- sorrisos, crème dental e tudo, mas por que é que a felicidade anda me
bombardeando? diga Zezé.
-- é pra saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, Dodó.
Em sua homenagem melancólica a Brigitte Bardot, o artista medita sobre a
criação e consumo rápido de mitos imagéticos de cinema: A Brigitte
Bardot está se desmanchando/ e os nossos sonhos querem pedir divórcio.
Hoje aos 68 anos, Tom Zé está no auge de sua criatividade e
produtividade. Nos últimos cinco anos lançou *Com defeito de fabricação*
e *Jogos de armar*, talvez seus dois melhores discos. Mas vale a pena
ouvir sua produção dos anos 70 relançados em duas compilações da série
maravilhosa Dois Momentos produzida por Charles Gavin. Todos os olhos
aparece junto com *Se o caso é chorar* de 1972. O outro volume contém
*Estudando o samba* (1975)-o disco que primeiro chamou a atenção do
David Byrne-e o menos conhecido *Correio da Estação do Brás* (1978). São
documentos de um tempo em que o artista que embarcava corajosamente numa
adventura incerta e difícil em termos professionais, produzindo obras de
extrema beleza e inovação. As palavras de “O riso e a faca” de *Todos os
Olhos* sintetizam este momento para Tom Zé:
Fiz meu berço na viração
Eu só descanso na tempestade
Só adormeço no furacão
(/texto escrito por Christopher Dunn, ao contrário do que aparecerá dito
abaixo/)
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