Ética da blogagem II
*Ética da crítica*
Como crítico literário, sigo duas pautas. Jamais tomo cervejinha ou
cafezinho com autores de ficção ou poesia a não ser que: 1) eu já tenha
escrito e publicado sobre eles; OU 2) não tenha planos de jamais
fazê-lo. Uma das coisas terríveis do mundo literário jovem é que, na
ânsia normal de construir uma rede, as pessoas formam panelinhas que lhe
tiram completamente a independência de criticar. Por exemplo: depois de
escrever bastante sobre o escritor argentino Ricardo Piglia, acabei
ficando amigo do cara, porque sempre sou chamado a dar conferências
sobre ele. Quando o Ricardo começou a recauchutar textos e republicá-los
com outros títulos como se fossem textos novos, um jornal me perguntou
sobre o assunto, e eu disse: ´não acho legal essa coisa do Ricardo ficar
double-dipping´ (passar o chip duas vezes na salsa; na gíria literária,
republicar o já publicado para aumentar uma linha no currículo). Se
fosse outro escritor, eu poderia ignorar a pergunta, mas você não pode
ser economista especialista em economia brasileira e não ter uma opinião
sobre a política do Palocci. O Ricardo, que é muito elegante, aceitou a
crítica. Mas o Ricardo é considerado o maior escritor argentino vivo, e
não precisa de favores meus. No caso de um escritor iniciante, uma
palavra negativa de um crítico pode ser fatal, mesmo quando não tire
leitor nenhum da pessoa. Se, no desejo natural de construir uma rede de
apoio, você perder a liberdade de blogar como quiser, dizer o que
quiser, é o começo do fim.
*Ética da assinatura*
Este *Biscoito* é feito por alguém com nome e sobrenome, tudo às claras.
Tenho o maior respeito do mundo por quem usa pseudônimo, qualquer que
seja o motivo. Alguns dos blogs mais interessantes e subversivos da
blogosfera gringa só puderam sobreviver porque foram feitos com
pseudônimos. O blogueiro que eu mais admiro no planeta, o *Rude Pundit*
[link] , usa um pseudônimo porque ele
*detona*, pornograficamente, os donos do poder nos EUA. Se não usasse
pseudônimo, já o teriam sufocado com emails de ódio em massa ou ameaças
de morte. Agora, o que não dá é você ter um blog no seu nome, e sair por
aí usando um pseudônimo a cada hora para atacar as pessoas no blog
delas. Todo blogueiro que se preze aceita críticas de boa fé. Mas se
você gosta de polemizar, encare e se apresente, mesmo que seja com o seu
pseudônimo de todos os dias.
Para sublinhar: isto aqui é uma tentativa de formular uma ética, não uma
moral. O autor é novato na blogosfera em português, mas passou 2004
mergulhado nos blogs de língua inglesa. Lá, como cá, tem de tudo. E isto
aqui é só uma contribuição à discussão.
Trilha sonora: ´Mesa de bar´, Alcione e Ed Motta.
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