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terça-feira, 14 de dezembro 2004

PPP – Policiando o


PPP – Policiando o Português da Patuléia I

O projeto de lei 1676/1999, de autoria do deputado Aldo Rebelo, do PC do
B, determina que:

Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira,
ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... será considerado lesivo
ao patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei. . . . Toda e
qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira .... ressalvados os
casos excepcionados nesta lei ... terá que ser substituída por palavra
ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90 (noventa)
dias a contar da data de registro da ocorrência.

Quem quiser ler esse cômico projeto por inteiro, pode fazê-lo *aqui*
[link] . Quem quiser acompanhar toda a
história da palhaçada, incluindo-se os pareceres favoráveis em comissões
da Câmara e Senado, pode fazê-lo *aqui*
[link] . Sim, isso
mesmo: Aldo Rebelo quer que a lei puna o uso de ´deletar´ ou ´delivery´.
Se acontecer, cadeia ou multa.

*Onde é que essa infelicidade albanesa foi buscar apoio para o seu
projeto*? Em grupos xenófobos de fascistóides da língua, como esse
inacreditável Movimento Nacional de Defesa da Língua Portuguesa, que no
*seu site* [link] nos insta a defender
a última flor do Lácio com citações de brasileiros ilustres como Albert
Camus, Delacroix e Diderot. Depois, eles dizem que expressões que nem
existem em inglês como *sauce garlic* (será que eles queriam dizer
*garlic sauce*?) ´ameaçam´ a ´existência´ da língua portuguesa!!! Alô
amigos brasileiros do exterior, alô *Leila*
[link] , *Fernando*
[link] , *Felicia*
[link] , *Sérgio*
[link] , regozijo-me informar-lhes que o *sauce
garlic *(sic)* *ainda não destruiu a língua de Camões! E não o fará,
porque o valente deputado a protege.

Ilmo. Deputado Aldo Rebelo, a *ignorância* de Vossa Excelência nesta
matéria é tão vasta, e de tão *mastodôntica* profundidade, que eu não
sei por onde começar. Será que o Sr não leu nem uma *linha* de
lingüística do século XX além da brochurinha do Stalin (sim, leitores do
*Biscoito*, Stalin escreveu um tratadinho de `lingüística´ parecido com
a lei do deputado...)? Será que o Sr já ouviu falar de sociolingüística,
filologia, história do idioma? Será que não leu o suficiente nem mesmo
para saber que a) sobre a língua viva não se legisla; b) nenhum idioma
jamais morreu por adotar palavras estrangeiras, em excesso ou não; c) a
língua portuguesa vai muito bem, obrigado, e a ´invasão´ de termos do
inglês não afeta em nada a comunicação com o ´homem simples do campo´, a
quem o Sr demagogicamente apela, sem que ele jamais lhe tenha pedido
proteção? Será que o Sr não sabe que se o Guga se tornou um tenista de
renome ´os homens simples do campo´ que se interessam pelo assunto já
aprenderam o que é um tie-break e que é assim que funciona a língua?
Será que o Sr. não sabe que a língua espanhola não perdeu nada por dizer
´off-side´ ao invés de impedimento? Será que o fascismozinho estalinóide
do Sr. não entende que é absolutamente inaceitável, além de ridículo e
improdutivo, instaurar uma ´alfândega lexical´ (termo do infeliz
deputado) para legislar sobre como vamos adotar palavras estrangeiras?
Vá burocratizar a língua lá na casa do caralho, no meu texto não. *Fuck
off*.

O deputado se apresenta como porta-voz de um ´clamor´ popular em favor
da defesa da língua portuguesa. Depois ele diz que seu projeto é apoiado
por inúmeros ´professores, linguistas, etc.´ Um dos maiores linguistas
do Brasil, meu amigo Mário Perini, já falou o necessário: ´*O projeto do
Aldo Rebelo ... não vai ter utilidade nenhuma como lei*
[link] .´ O linguista
John R. Schmitz, da UNICAMP, já desmontou toda a bobajada com *vários
textos* [link] . O linguista José
Luiz Fiorin, da USP, já demonstrou que ´*a concepção de língua sobre a
qual se apóia o projeto é equivocada. Os problemas lingüísticos que
identifica não são reais*
[link]

Eu *desafio* o deputado a apresentar o nome de *um só linguista
brasileiro*, com produção acadêmica, que seja favorável à sua
escrotíssima idéia de punir o uso de palavras estrangeiras e de criar um
Komintern da gramática.

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  Escrito por Idelber às 13:05 | link para este post