Meu Perfil
Um weblog anti-apocalíptico sobre polí­tica, música, futebol e literatura.



email: idelberavelar arroba gmail ponto com
Sobre o autor
 Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane
 Prêmio Itamaraty (pdf)
 The Untimely Present
 The Letter of Violence
 Alegorias da Derrota
 Ensaio sobre o PT
 Balanço Governo Lula
 Ensaio Música Mineira
 Ensaio sobre 11/09
 Entrevista no Chile
 Entrevista no Gravatá
 Ensaio sobre o Galo


Sobre ela
 Um defeito de cor
 Ao lado e à margem do que sentes por mim
 Prêmio Casa de las Américas
 Comentário de Millôr
 Comentário de Risério
 Resenha na Folha de Pernambuco
 Entrevista na Record
 Entrevista na Globo News
 Entrevista na Novae (2002)


Direto do arquivo
 Decálogo do blogueiro
 Perfil do direitista tupiniquim
 ABC das eleições americanas
 Valsa, Polca e Maxixe
 Discoteca do Mangue Beat
 Homenagem a Silviano Santiago
 A Globo e as eleições
 Katrina, em 10 datas
 On Cult studies and blogs
 Bloomsday
 Sobre o luto
 Entrevista com José M. Wisnik
 Entrevista com Martín Kohan


Histórico
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 Clube de leituras
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Visito
 Acontecimentos
 Afrodite sem Olimpo
 Afonso, o Chato
 After the Fall
 Agência Carta Maior
 Aguafuertes
 Alcinéa Cavalcante
 Alê Felix
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Amante profissional
 Ane Aguirre
 Animot
 Antônio Carlos Miguel
 Ao mirante, Nelson!
 Bala perdida
 Balípodo
 Bereteando
 Biajoni!
 Bibi's Box
 Big muff
 Blog do Alon
 Blog do Cássio
 Blog do galinho
 Blog do Juarez
 Blog do Mello
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blog dos Perrusi
 Blogafora
 blowg
 The brain eaters
 Brainstorm # 9
 Branco Leone
 Bratislava
 Bugio
 Caldos de tipos
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Caryorker
 A casa da colina
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinefilia
 Cinematógrafo
 Cintaliga
 Cocadaboa
 Conejillo de Indias
 Contra Capa
 Contraditorium
 Controvérsia
 Conversa afiada
 Cria Minha
 Cris Dias
 Crônicas perversas
 Cultura e barbárie
 Cyn City
 Cynthia Semíramis
 Uma dama não comenta
 Daniel Lopes
 De olho no fato
 De primeira
 De Rasuras
 Dez polegadas
 Diálogico
 Diário da Lulu
 Diário da Odalisca
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Diário gauche
 Diplomacia bossa nova
 Discoteca básica
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Don Quijote
 Dossiê Alex Primo
 ¡Drops da Fal!
 Duas Fridas
 É bom para quem gosta
 É por aqui que vai pra lá?
 eblog
 Ecologia Digital
 Enloucrescendo
 Enquanto seu blog não vem
 Epicaos
 EraOdito
 Escrúpulos Precários
 Eugenia in the meadow
 O eu profundo
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 A Feminista
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Fósforo
 Fina flor
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Futebol, política e cachaça
 Gabinete dentário
 Galo é amor
 Garotas que dizem ni
 Gejfin
 Gravatá
 Gravataí Merengue
 Groselha news
 Guga Alayon
 Guia de literatura
 Hedonismos
 Hermenauta
 Histórias do Brasil
 HQ e cultura
 Hunny.bunny
 Idéias mutantes
 Impedimento
 Impostor
 Imprensa Marrom
 Incautos do ontem
 Ingresia
 InternETC
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jon Kepa
 Juca Kfouri
 Juliano Rosa
 Kit Básico da Mulher Moderna
 La lectora provisoria
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 Letícia na web
 Liberal Libertário Libertino
 Limpo no lance
 Linkillo
 Lino Resende
 Lixo Tipo Especial
 Lixomania
 Lord Broken Pottery
 Luis Nassif
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 Maísa na blogosfera
 Uma Malla pelo mundo
 Marcelo Coelho
 Marconi Leal
 Marmota
 Martelada
 Meio bossa nova
 Melômano
 Meta.comunix
 Milton Ribeiro
 Mineiras, uai!
 Mino Carta: direto da Olivetti
 Mothern
 Monolingua
 Mox in the sky with diamonds
 Música popular do Brasil
 Na média
 Na prática a teoria é outra
 Nababu
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Noncapisconiente
 Nova corja
 Novo mundo
 Nóvoa em folha
 Odisséia literária
 Óleo do diabo
 Olho de boi
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 A Ostra e o vento
 Outros dias
 Overmundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Paralelos
 Parede de meia
 Pátria futebol clube
 Pecus Bilis
 Pedro Alexandre Sanches
 Pedro Dória
 O pensador selvagem
 Pensamentos esparsos
 Pensar enlouquece
 Perto do coração selvagem
 Pirão sem dono
 Poemas del alma
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Prosaico20mgs
 Puente aéreo
 Quando, onde e como
 Que cazzo
 Querido leitor
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Retrato do artista quando tolo
 Ricardo Antunes da Costa
 Río fugitivo
 Rizomas
 Roda de ciência
 Rosebud NYC
 RS urgente
 Sandino
 Seqüências parisienses
 Sergio Leo
 Serbão
 Sérgio blog 2.3
 Silenzio, no hay banda
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Soninha
 Soninha (gabinete)
 A Sopa no exílio
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 Superfície reflexiva
 Talqualmente
 Tapera
 Taxitramas
 Tentativas de mitologia
 Terapia Zero
 Tiago Dória
 Todo prosa
 Todos os fogos o fogo
 Tordesilhas
 Torero
 Torre de marfim
 Três amigos
 Tudo pode acontecer
 Tudo que é sólido se desmancha no ar
 Túlio Vianna
 Umbigo do sonho
 Ultimas de Babel
 Universo anárquico
 Vejo tudo e não morro
 Velho do farol
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 A vida em palavras
 Virunduns
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« dezembro 2004 :: Pag. Principal :: fevereiro 2005 »

segunda-feira, 31 de janeiro 2005

/Crime e Castigo/ -

/Crime e Castigo/ - parte I

Sobre o paradoxo de Dostoiévski
[link] , um reacionário ortodoxo
fanático religioso, ter sido aquele que penetrou mais fundo no ideário
do igualitarismo progressista do Século XIX, eu já fiz este post
[link] .
/Os Demônios
[link] / é o
primeiro romance moderno sobre o terrorismo. /Crime e Castigo/ é,
segundo Nietzsche [link] , a primeira cena de
realização total do niilismo, o assassinato a marretadas não-motivado. O
ato gratuito.

Por falar em Nietzsche, /Crime e Castigo/ protagoniza a mais
extraordinária das duplicações ficção-realidade de que se tem notícia:
no começo do romance, Raskolnikov tem um pesadelo (que parece ser uma
lembrança de criança) em que bêbados fazem uma pobre égua levar uma
carga impossível. Chicoteiam-na, abusam de todas formas, torturam-na até
que morre. Minucioso, Dostô descreve o suplício do animal e da criança
que acompanha, mãos dadas com pai que tenta distrai-la e levá-la para
longe (a imagem da humilhação, impotência e fraqueza paternas são
constantes em Dostoiévski). A criança abraça a égua e chora. Mais de
vinte anos depois, Nietzsche repetiria *exatamente a mesma cena *ao ver
um cavalo chicoteado em Turim, momentos de seu enlouquecimento
definitivo (do filósofo, não do cavalo).

Dostoiévski une duas pontas, o popular-folhetinesco e o filosófico, com
rara maestria. O fascínio dos escritores ‘psicológicos’ com /Crime e
Castigo/ – André Gide, Albert Camus, Lúcio Cardoso, Roberto Arlt e
tantos mais – gravitou, em boa parte, ao redor da fascinação com o ato
gratuito: o funcionamento de uma mente que justifica um ato de
assassinato de forma não utilitária; mata-se, em /Crime e Castigo/,
*porque sim*: assassinato como pura afirmação do ato de matar. O
fascínio popular do livro vem de outro lado: é um romance de desenlace.
O suspense ao redor do “vão ou não vão descobrir que Raskolnikov cometeu
um assassinato”, para quem lê pela primeira vez, é irresistível e
utiliza os recursos do melhor folhetim – a tradição decimonônica de
relato serial que culmina na telenovela globalizada. Numa época em que o
relato policial só existia como conto (Edgar Allan Poe
[link] ), Dostoiévski /inventa /o
romance policialesco com /Crime e Castigo (/1866). Não seria incorreto
dizer isso, se excetuarmos /The Woman in White
[link] /
(1860), de Wilkie Collins. Ainda faltavam vinte anos para o primeiro
romance de Holmes
[link] , e o
suspense sobre a revelação uma culpabilidade movia o desejo de uma trama
de 500 páginas. Fazia-no construindo aquele que talvez seja o personagem
mais contraditório e torturado de toda a literatura do XIX (Sobre a
popularidade do livro, é bom dizer que sempre teve grandes tiragens não
só na Rússia como em toda a Europa Ocidental. Foi lidíssimo no Brasil.
Em muitos países hispânicos, foi romance de quiosque). Em /Crime e
Castigo/, move-o o desejo de passar uma lição no niilismo racionalista:
criar um personagem verossímil como incarnação do relativismo ateu,
levá-lo às últimas consequências, relatar sua autotortura, padecer com
ele o desespero perene de que o investigador o descobrirá e finalmente
purgar-se, purificar-se com ele no momento em ele mesmo – Raskolnikov,
de “livre” vontade – decide se entregar à polícia. O apêndice, a
‘redenção’ de Raskonikov purificado na Sibéria e as dez páginas de
blá-blá-blá doutrinário, é o lixo evangelizador que Dostoiévski escolhe
anexar ao romance. Mas aquilo já não importa. O filé é tudo o que vem
antes.

Dostoiévski *quer* que vivamos a redenção, mas na literatura quanto mais
óbvio o desejo do autor mais esse desejo fracassa. Como romance de
doutrinação religiosa /Crime e Castigo/* *fracassa estrepitosamente.
Conheço dezenas de pessoas que leram o livro, ninguém aumentou um pingo
de fé por ele. Pelo contrário, muita gente com ele reforçou seu
ateísmo. Deliciamo-nos por 500 páginas *amando* o supremo pecador,
identificando-nos com ele, acompanhando-o na justificativa da eliminação
da velha usureira que explora tantos, com ele amando / compadecendo /
envergonhando-se da mãe e irmã que se humilham ante um cafajeste burguês
por pouco dinheiro, com ele desprezando Marmeladov, a suprema lama
humana. Ah, como amamos o pecado e o pecador nesse romance! E como nos
decepcionamos com o filhadaputa quando ele se entrega à polícia. Quão
diferente dos romances que depois seriam escritos do ponto de vista – já
não do nosso amado criminoso – mas do detetive, do carrasco da lei! O
relato policial cerebral apela ao nosso princípio de realidade, ao
administrador-zinho dentro de nós. Dostoiévski apela ao mais além do
princípio do prazer, à pulsação libertária, ao abismo da pulsão de
morte. No romance de Dostoiévski, o pecado que se quer redimir,
transcender e sufocar, fala com suas próprias palavras e tem voz
irresistível. É ele que sustenta a trama e a carolice do romancista.
Sinuca irresolúvel para Dostô.

Como sempre, Deus acabou sendo a pura invenção de um homem que resolveu
crer em demônios.

--------



  Escrito por Idelber às 03:27 | link para este post | Comentários (1)




*Convite à leitura de


*Convite à leitura de dois textos de Machado de Assis *

**

**

Nesta quarta, alguns alunos meus passarão por aqui para bater um papo
sobre Machado de Assis
[link] . Gostaria de
convidar outros leitores a participar (especialmente quem estiver
cansado de Dostoiévski [link] !).
Este blog já fez uma pequena experiência de ‘aula virtual’ com o pessoal
da Faculdade da Cidade lá na Bahia neste post aqui sobre o conto
[link] .
Foi muito legal.

Neste semestre um dos dois cursos que estou ditando em Tulane
[link] é sobre a contística brasileira, de Machado ao
presente.

Para este papo selecionei duas histórias – um conto e uma novela – que
podem ser lidos online: Um Homem Célebre
[link] e O Alienista
[link] . Quem puder,
leia essas mini obras-primas e passe aqui para papear.

Um Homem Célebre [link]
narra a história de Pestana, um talentoso compositor de polcas
[link] no
Rio de Janeiro de 1875. O suplício de Pestana se deve ao fato de que
ele *não* *quer *compor polcas, e sim consagrar-se no panteão da arte
erudita – o das sonatas para piano. Mas sempre que se senta ao piano,
são as polcas – e *boas* polcas – que prevalecem. Numa época em que a
polca – depois de introduzida no Rio na década de 1840 – já havia
alcançado sua popularidade máxima, Pestana bem pode ser a primeira
dramatização do conflito entre cultura erudita e cultura urbana de
massas na ficção brasileira. A narrativa, típicamente machadiana, é
cheia de ironia leve e requintada. É importante sublinhar que os títulos
das polcas de Pestana – como ‘Não Bula Comigo nhonhô’ – já indicam
traços de algo que permanecia inomeável naquele momento, por demasiado
associado à lascívia, à permissividade, à sexualidade e ao corpo negro:
sim, falamos do maxixe
[link] ,
que naquele momento vivia sua fase de constituição a partir da base
rítmica da polca. Não nomeado no conto como tal, claro, o maxixe é uma
espécie de vertiginoso fantasma que ameaça engolir Pestana, esse criador
bem brasileiro, preso entre seu desejo de universalização via cultura
erudita e a realidade sedutora – e ao mesmo tempo para ele desprezível –
da cultura popular urbana. O conto abre o leque de uma imensidão de
questões ligadas não só à hierarquia entre produções culturais, mas
também a temas como raça e nacionalidade.

O Alienista [link] é
bem mais conhecido e narra a história de Simão Bacamarte, ‘cientista’
ancorado na onda positivista, que chega a Itaguaí e dedica-se à sua
‘grande obra’, um asilo para loucos chamado Casa Verde. Sua chegada é
uma cena repetida na literatura do século XIX, na Europa e nas Américas:
a chegada do citadino à roça, legitimado por um saber ‘moderno’ mas
incapaz de ler competentemente a realidade à sua volta. Na medida em que
evolui o projeto do asilo, as teorias de Simão vão ficando mais absurdas
e a quantidade de gente definível como louca vai só aumentando, até o
hilário e irônico final, que eu não vou revelar. Há muito que se dizer
aqui sobre a história da psiquiatria, a definição do que é a loucura e o
relacionamento com ela, a relação entre ciência e poder político e
outros temas.

Pessoal da aula: passem e deixem suas observações (ou perguntas) sobre
um ou ambos textos. Pode postar em inglês, portuga ou espanhol (uma
língua de cada vez, claro). Os leitores regulares do *Biscoito* estão
convidadíssimos a participar deste papo.
--------



  Escrito por Idelber às 01:34 | link para este post



sexta-feira, 28 de janeiro 2005

*Ou o mundo se


*Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista: Entrevista com Jorge Mautner** *

**

Eu conheço Jorge Mautner [link] desde o
começo do ano 2000. Na turnê de divulgação de O Ser da Tempestade
[link] ,
Mautner esteve em Belo Horizonte e fez um memorável show no Bar da
Estação. Ao terminar o show, com o sorriso de sempre, atendeu a todos e
autografou CDs.

Fiz questão de ser o último da fila. Entreguei o meu CD. Balbuceante,
disse: "Mestre, estou tentando traduzir o /'Ereignis'/, de Heidegger
[link] (projeto desde
então abandonado). Adoraria ter um prefácio seu." Quando recebo o CD de
volta, não só a capa havia sido autografada com lindos desenhos, mas no
encarte, ao lado da letra de “Cinco Bombas Atômicas”, havia um número
que começava com 021: "Ligue prá mim, a qualquer hora. É só deixar um
recado dizendo que é o poeta mineiro." Eu jamais escrevi um verso na
vida, mas para Mautner eu era poeta. A excitação febril de ter o
telefone do mestre me fez perder o sono naquela noite.

Passaram-se anos e eu não liguei. Em 2003, meu bróde véio Christopher
Dunn
[link]
estava passando seu sabático no Rio, num AP na Visconde de Pirajá. Fazia
suas pesquisas sobre a contracultura e havia combinado um encontro com
Mautner. Depois de um show em que estávamos todos na platéia (era um
projeto experimental eletrônico-percussivo, com Marcos Suzano e outros),
saímos com ele.

Havia outras pessoas ilustres na turma, mas eu só tinha olhos e ouvidos
para Mautner. Sentamo-nos num bar em Copacabana, na beira da praia, e eu
disse: "Mestre, com certeza você não se lembra de mim, mas.... Ele me
interrompe: "Como não lembro: Heidegger nas Minas Gerais! O martelo de
Zaratustra e os tambores do candomblé!" Ele se lembrava de todo o
conteúdo de nossa conversa de três anos antes. Naquela roda, houve
vários papos, mas pouco a pouco as pessoas foram se ligando na conversa
em que eu e Jorge Mautner destrinchávamos Nietzsche
[link] , Heidegger
[link] , os
pré-socráticos
[link]
e o ‘quinto império brasileiro’. Lá pelas duas da manhã o último
sobrevivente se foi e continuamos eu e mestre Jorge, já na casa de um
amigo seu em Copacabana. No táxi rumo ao Leblon (que me deixaria em
Ipanema), menciono meu livro Alegorias da Derrota
[link] .
Descemos do táxi para que eu pudesse pegar um exemplar para Jorge. Ali
no AP, com Chris roncando no quarto, eu e Jorge conversamos até o dia
clarear. Na tarde seguinte, nos encontramos e ele já havia lido o livro.
Desde então, sempre que vou ao Rio, ligo para Mautner e bebo de sua
sabedoria infinita. Ele me atende com uma doçura cativante. Sempre nos
encontramos nos lugares mais insólitos (o último encontro foi num
McDonalds). Também já tive a honra de recebê-lo em Minas.

A entrevista que se segue foi realizada por mim e por Christopher Dunn
no apartamento de Jorge Mautner, no Leblon, Rio, em janeiro de 2004. São
13.000 palavras, quase o tamanho de um livrinho de bolso. Presentes
estávamos nós três, Nelson Jacobina, o espírito de Heráclito, o de
Zaratustra e a flecha de Oxossi. Vai com um abraço a César Rasec, que
acaba de lançar o livro *Jorge Mautner em Movimento* (Salvador: Edição
do Autor, 2004) e brindar-me com uma bela dedicatória.

Sem esquecer de depois voltar aqui para comentar, leia a entrevista
completa com Jorge Mautner [link] .

--------



  Escrito por Idelber às 21:47 | link para este post



quinta-feira, 27 de janeiro 2005

Cidades-vitrine e cidades-véu

Já há tempos eu tenho uma teoria que quero testar e agora é a hora.
Primeiro, uma coisinha sobre os gostos de quem fala. Tolstói começa Ana Karenina com aquela frase memorável: ‘Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira’. Para a minha sensibilidade, a diferença entre a cidade e o campo é a mesma, só que ao revés. Mato prá mim é tudo igual. Não importa que seja floresta, caatinga, serrado, cordilheira ou montanha. O meu desinteresse é o mesmo. Não tenho o menor saco para nada que seja natureza. Não tenho a menor vontade de conhecer o Pantanal, o Grand Canyon ou o Himalaia.

Teria o maior tesão de passar umas duas semanas em Tóquio ou em Praga, cidades que ainda não conheço.Topo qualquer parada, desde que seja na urbe.

Na minha experiência, há dois tipos de cidades: por um lado, aquelas que se oferecem para você, abraçam-no e não requerem, em absoluto, a guia de um conhecedor local. Só o desejo de entrega de quem chega. A cidade faz o resto. Nova York, Salvador, Madri, Rio de Janeiro e Buenos Aires são assim. Por outro lado, há as cidades que podem ser fascinantes, riquíssimas, múltiplas, mas cujos tesouros se escondem, seja numa imensidão, seja num desenho tortuoso, seja na pulverização. A guia de alguém que conhece torna-se imprescindível. Los Angeles, São Paulo, Belo Horizonte, Santiago do Chile e a Cidade do México são assim.

Isso não quer dizer, obviamente, que você não vá aproveitar muito mais
de Nova York se contar com um manhattanite ou de Salvador se contar com uma boa baiana de guia. Mas sim significa que se você se perder na cidade - a primeira coisa que faço quando chego a uma urbe nova é perder-me nela – a cidade mesmo assim estará ali para você. Você encontrará o fundamental. Se estiver aberto para que a cidade o abrace, ela o abraçará.

Conheço alguém que chegou a Belo Horizonte sem notícia das coisas,
zanzou da Praça da Rodoviária (teve o infortúnio de chegar de ônibus)
até a Praça Sete, daí à Praça Afonso Arinos, daí à Raul Soares e zanzou e zanzou e foi embora convencido de que BH é uma amontoeira de prédios e praças sem graça. As pérolas da intensa vida cultural da cidade estão escondidas. Claro, você pode comprar o jornal, mas mesmo assim, se não tiver um bom guia, o fundamental escapar-lhe-á entre os dedos.

Isso é impossível em Salvador. Qualquer que seja o lado que você
escolha, a essência da cidade estará ali, pronta para abraçá-lo. Mesma
coisa no Rio. Já em São Paulo, se não houver alguém que conheça bem
aquela joça prá lhe ajudar, você pode muito bem passar a experiência
mais frustrante da sua vida.

Experimente perder-se em Nova York. A surpresa inaudita, o acontecimento insólito vai aflorar. É muita densidade de opções. Sempre que vou a NYC evito os planos. Desço e começo a andar. Ë sempre o melhor caminho. Só lá para o terceiro dia eu resolvo comprar o jornal.

Experimente perder-se em Los Angeles. Você se sentirá um imigrante
pedestre miserável numa floresta de viadutos que lhe transmitem a
impressão de que não há nada mais na cidade.

Isso não quer dizer que NYC seja melhor que LA ou que o Rio seja melhor que São Paulo. Simplesmente que a exploração de cada uma requer uma arte diferente.

PS: Estou em fase final de revisão e formatação do texto da entrevista
com Jorge Mautner. Será postada logo logo.

--------



  Escrito por Idelber às 00:14 | link para este post



quarta-feira, 26 de janeiro 2005

Krewe du Vieux -



Krewe du Vieux - 2005

Das delícias do carnaval de New Orleans, o Krewe du Vieux
[link] é das minhas favoritas. O Krewe du Vieux
[link] abre a temporada de carnaval no Big Easy
com um desfile sempre satírico, tirando sarro dos políticos e, nos
últimos anos, do ensandecimento geral deste país.

O carnaval de New Orleans é organizado através de ‘sociedades’ (chamadas
‘krewes’) que desfilam pela cidade em carros alegóricos. Para um
brasileiro, não tem muita graça porque os desfiles ocorrem sem música (a
brincadeira é jogar e receber colares).

Mas o Krewe du Vieux [link] , além de ser o único
desfile genuinamente espontâneo, apropria-se da tradição das brass bands
[link]
(bandas de metais) e faz uso das fantasias mais hilárias.

Este ano eu tive hóspede. A lindeza aí da foto é Cris, que tem uma
incrível história. Tem 22 anos. Saiu de Formiga (MG) direto para Kill
Devil’s Hill, na Carolina do Norte. Sem escalas em Belo Horizonte ou
Nova York. Juro que não minto. O nome da cidade é este mesmo: Kill
Devil’s Hill. Nem queiram saber. Cris se encontra lá num esquema de
trabalho meio barra-pesada, desses nos quais a gente cai aos 22 anos.
Por sorte faltam só dois meses para que ela conclua o compromisso que
assumiu.

Convidei-a para arejar a cuca uns dias em New Orleans e ela chegou a
tempo de pegar o Krewe du Vieux [link] . Este
ano, como não poderia deixar de ser, o grande satirizado foi Bush.
Saculejamos por todo o centro histórico seguindo a Rebirth Brass Band
[link] (esse saculejo seguindo
uma banda pelas ruas é chamado de *secondlining*, verbo que só existe
aqui).

Dá prá ver o rostinho da Cris dizendo: ‘saí de Formiga para Kill Devil’s
Hill. Estou em New Orleans há três dias. A vida é bela’.

Foi uma alegria receber Cris na sua primeira visita a uma cidade. Vocês
imaginam que choque cultural e que experiência antropológica foi tudo
isso. Espero que ela tenha levado o axé do Big Easy para a jornada que
lhe espera lá nas montanhas do diabo.

Cris já está de volta na Carolina do Norte e o quarto de hóspede volta a
estar temporariamente desocupado. Esse é o quarto que meus amigos chamam
de ‘hotel Avelar’, não porque seja pago, claro, mas porque sempre há
alguém. Em New Orleans – a gente descobre isso logo que muda prá cá –
você *sempre* tem visitas. O ‘hotel Avelar’ espera para breve, se tudo
der certo, uma visita do maior blogueiro do planeta
[link] . Feliz Carnaval prá todo mundo e pro mundo
todo. Aqui já começou, Rafael [link] .

PS: Breve aqui no *Biscoito*: Uma entrevista inédita com o amigo,
mestre, guru e lenda contra-cultural Jorge Mautner
[link] . Falamos de tudo, de Lula a Heidegger
ao candomblé. Está interessantíssima a entrevista. Feita no AP de Jorge
lá no Leblon.

--------



  Escrito por Idelber às 00:56 | link para este post



terça-feira, 25 de janeiro 2005

*O Biscoito apóia: *


*O Biscoito apóia: *

1. a campanha de Paulo Eduardo Neves
[link] e outros, encampada
pelo Sovaco de Cobra [link] , de boicote
contra os CDs que incluam proteção anti-cópia. Os CDs com proteção
anti-cópia são outra estratégia das cinco megacorporações que controlam
98% do mercado de CDs do mundo para manter os preços artificialmente
altos, usando como bode expiatório a pirataria. Os CDs com proteção
anti-cópia infringem seus direitos de consumidor – não tocam em
aparelhos com tecnologia de queima de CDs, impedem-lhe até de fazer uma
coletânea para sua filha ou de proteger o disco fora de catálogo que
você carrega no carro. O Biscoito celebra as recentes vitórias jurídicas
sobre a indústria fonográfica, tal como a indenização conquistada em
primeira instância por Paulo Andrade
[link] ou a recente
decisão da corte de apelações de St. Louis que protege os usuários da
internet
[link]
do furor das gravadoras.

2. a polêmica secularista de Smart Shade of Blue
[link] em favor de uma esfera pública com
a menor interferência possível de fanatismos religiosos e legislações
sobre o útero alheio
[link] . Apesar de
suspeitar que a luta pelo direito ao aborto no Brasil ainda demorará
algum tempo para ser vitoriosa, o momento de debater é agora. O Dr.
Hélio Bicudo, de tantos serviços prestados à democracia, continua
recusando-se até mesmo a discutir o tema, como visto nesta (só
disponível para asssinantes) entrevista na Folha
[link] . O
*Biscoito* apóia a decisão da Dra. Mônica Mello de renunciar ao Conselho
Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, em protesto contra a recusa
sistemática do Dr. Bicudo em entender os direitos das mulheres como
parte integrante dos direitos humanos. Vale a pena fazer força para que
avancemos algo neste quesito. A legislação brasileira é medieval. A
blogosfera pode exercer pressão. Planejemos um esforço conjunto de
vários blogs. Se nós, residentes dos EUA, houvéssemos prestado atenção à
ascensão da direita religiosa nos anos 80, talvez poderíamos ter feito
algo para prevenir o estrago que eles realizaram.

3. a campanha de Michelle Bachelet
[link] , socialista e
ex-ministra da Defesa, à presidência do Chile. Sim, ela é chilena,
socialista e mulher, e foi a última Ministra de Defesa do governo Lagos.
Respeitadíssima. Sou amigo e admirador do anti-candidato, intelectual
barbudão e figuraça Tomás Moulián
[link] ,
mas Bachelet é a que tem condições de vencer as eleições. A direita
chilena anda desmoralizada: as pinochettes rendem-se à evidência de que
seu ditador foi não só sanguinário, mas também corrupto. Enquanto isso
outros nomes da direita – inclusive senadores –são investigados por
pedofilia. Se a concertación (o bloco que apóia Lagos) não fizer uma
grande bobagem, Bachelet será a indicada. Leitores chilenos: em
novembro, Bachelet na cabeça. É o pitaco do *Biscoito*.

*O Biscoito visita, admira e recomenda:*

o fantástico trabalho de resenhas discográficas feito por Ricardo Schott
no Discoteca Básica [link] (não percam a bela
esmiuçada do Ricardo na recente caixa de Roberto Carlos) e o belo
trabalho do Ubiratan Leal e seus colaboradores no Balípodo
[link] , com textos inteligentes sobre
futebol como estes aqui
[link] (indicação do
leitor Marcos; thanks!).

*O Biscoito saúda:*

o nascimento de Joaquin Elijah Hubbard Dunn, filho de meu brother
Christopher Dunn
[link]
e Ladee Hubbard. O mais recente new-orleaniano da turma nasceu com quase
4 quilos e é lindo. Bem-vindo ao Big Easy, Joaquin. Você vai ver que
papai mais bacana você tem. Andamos todos aqui afogando-nos na babação
do Chris.

*O Biscoito agradece:*

Este
[link] comentário
elogioso e a presença na Galeria de Honra do LLL
[link] . À galera que tem
chegado aqui via LLL [link] ,
boas vindas.

--------



  Escrito por Idelber às 23:56 | link para este post



segunda-feira, 24 de janeiro 2005

Escrita acadêmica, escrita jornalística

Escrita acadêmica, escrita jornalística e escrita blogueira

Minhas relações com as escritas que cito no título são bem diferentes.
1. Como acadêmico, sou muito bem-sucedido: publico meus livros e artigos
nas editoras e revistas que escolho. Esses textos são lidos e discutidos
na disciplina, em três línguas. 2. Como colunista de jornal, fracassei
todas as vezes que tentei. 3. Como blogueiro, estou só começando. Uma
das razões para ter um blog foi construir uma espécie de voz 2 sem
recorrer à autoridade da voz 1.

Minha disciplina – a crítica literária – tem a péssima fama de produzir
coisas incompreensíveis. Em parte a fama é justificada. Em parte é
produto da situação: num país em que pouquíssima gente lê romances, qual
a minúscula porcentagem que lerá /livros sobre romances/? Isso, claro,
vai criando um círculo pequeno, que tende a se fechar, o que diminui
ainda mais o número de gente com saco para ler. Círculo vicioso.

Para piorar, a crítica literária sofre com duas regras da escrita
acadêmica. A primeira é que tudo tem que ser demonstrado. ‘Demonstrar’
como funciona o narrador de Virginia Woolf pode ser algo extremamente
tedioso para quem lê. Falar de literatura como falamos no bar é
prazeroso, mas só pouquíssimos críticos conseguem traduzir esse prazer
na escrita acadêmica: Walter Benjamin
[link] , George Steiner
[link] , Susan Sontag
[link] , Antonio Candido
[link] , Silviano Santiago
[link] são
alguns. A outra regra é que você deve demonstrar algo novo. Se você está
relatando o achado de outra pessoa, pode estar fazendo algo muito útil –
jornalismo – mas não trabalho acadêmico (/scholarship/,
/Wissenschaft/). O número de romances e poemas que despertam interesse
nos leitores é finito, e ‘demonstrar algo novo’ sobre textos como
/Hamlet/ ou /Dom Casmurro/ é complicado. Aí os novos críticos tendem a
voltar seus olhares para coisas cada vez mais minúsculas. Há que se ter
muito peito para estrear supondo poder dizer ‘algo novo’ sobre um objeto
amplo – o ‘teatro de Shakespeare’. Daí a proliferação de teses sobre,
digamos, o uso da vírgula em Machado ou as correções de Guimarães Rosa
ao /Grande Sertão/: coisas que ninguém jamais lerá.

Ao contrário da maioria dos acadêmicos, importa-me comunicar-me com
gente fora da universidade. Acho que na maioria dos casos dos que dizem
não se importar, o que está em jogo é incompetência e medo. Quando vou
orientar uma tese de mestrado ou doutorado (e já orientei mais de 20,
todas bem terminadas), a primeira coisa que digo ao pós-graduando é: se
ao terminar você for capaz de resumir o conteúdo da tese em quatro
minutos de forma compreensível para qualquer ser humano alfabetizado de
mais de 20 anos de idade, a tese valeu. Se não conseguir isso, não vale
porra nenhuma ou não está pronta ainda.

A escrita jornalística tem outras regras, claro. Verificabilidade no
caso do repórter, uma voz particular no caso do colunista. Minhas
tentativas foram como colunista – de política e futebol. Na política
acho até que o fracasso foi justificado. Meus textos sobre política são
irados, jornal nenhum os engoliria (a Folha
[link] deve estar muito feliz de ter
rejeitado minha pretentida contribuição de 28 de outubro, que previa
grande vitória de John Kerry....). No futebol acho que não. Tirando uns
dez ou doze nomes, não acho que as colunas que se publicam sobre futebol
nos jornais sejam tão melhores assim que esta
[link] ,
esta
[link] ou
esta
[link] .
Independente disso, eu sinto em boa parte dos jornalistas uma tremenda
hostilidade a qualquer acadêmico que tente se aproximar de um jornal. É
como se dissessem: fiquem aí escrevendo para seu círculo para que a
gente possa acusá-los de só quererem escrever para seu círculo!

Essa brincadeirinha se transforma com a blogosfera. Pouquíssimos
acadêmicos já perceberam a importância dos blogs. A maioria dos
jornalistas sim. Destes, alguns estão atentos e utilizando-se dos
recursos dos blogs para melhorar seu jornalismo. Boa parte está
apavorada e em pânico com a possibilidade de perder espaço. O impacto da
blogosfera sobre as escritas acadêmica e jornalística é uma das
histórias do nosso tempo. Ainda está por ser contada.

--------



  Escrito por Idelber às 23:02 | link para este post | Comentários (1)



domingo, 23 de janeiro 2005

Disco da Semana –

Disco da Semana – Kleiton e Kledir, Millenium

/(resenha dedicada a Porto Alegre, terra de //muitos
[link] grandes
[link] escritores
[link] //)/

Há pilhas de discos novos para compartilhar, mas a resenha desta semana
será nostálgica. O *Biscoito* recomenda – até que se reeditem os discos
originais, não é BMG? - esta coletânea de Kleiton e Kledir
[link] , da Millenium, que traz 20 pérolas
desta dupla gaúcha. Em 1980, com ‘Vira Virou’ e ‘Maria Fumaça’ (/essa
Maria Fumaça é devagar quase parada / ô seu foguista bota fogo na
fogueira / que essa chaleira tem que estar até sexta-feira / na estação
de Pedro Osório sim senhor/) eles explodiram nacionalmente. Mas já
tinham história no Rio Grande como membros do Almôndegas
[link] , grupo chave na
cena pop gaúcha dos anos 70. Até o final da década, foram uma fábrica de
hits. Casaram as tradições gaúchas com o rock e a MPB. Trouxeram a
música de acordeom pampeana para o centro do pop nacional. Assinadas por
eles ou pelo talentosíssimo irmão mais novo, Vitor Ramil, as letras iam
do cômico ao romântico. Os arranjos eram ultra profissionais para a
época e aproveitavam, num formato pop, instrumentos então raramente
incorporados a ele – não só o acordeom, mas também o violino, a gaita e
o bombo legüero. Popularizaram várias expressões, ‘tri-legal’ e ‘deu prá
ti’ as mais famosas delas.

Se você fizer uma pesquisa
[link] entre os
gaúchos, outros nomes aparecerão como representativos da música da
região. No resto do Brasil Kleiton e Kledir ganhariam de goleada.
Durante toda a década de 80 – e em grande parte até hoje – eles foram o
rosto do Rio Grande do Sul na música popular brasileira. Seu grande
mérito foi criar uma dicção pop, um universo no qual mesmo um acreano
reconhecia o Rio Grande.

Seus maiores sucessos foram em gênero pop-rock, mas sempre com algum
toque ‘gaúcho’ [link] , seja
instrumental, seja na letra, seja na dicção. Também gravaram trovas,
milongas, vaneiras e [link]
xotes [link] , mas sempre com
algum toque pop, em geral no arranjo. Das melhores nesses gêneros, ver
‘Bailão’ (a sensacional história de um vexame), ‘O Analista de Bagé’
(composta a partir do sucesso do personagem de Luis Fernando Veríssimo),
“Para Pedro’ e ‘Trova’ (esta última em forma de desafio pampeano - ‘a
trova de galpão’ - e hilária em sua paródia do mito da masculinidade
gaúcha).

Se nos anos 80 você estava no Brasil e não em outro país, você se
lembrará do lirismo de ‘Nem Pensar’, ‘Fonte da Saudade’ (/esse quarto é
bem pequeno / prá te suportar / muito amor / muito veneno / prá pouco
lugar / o teu corpo é uma serpente / a me provocar / e teu beijo a agua
ardente / a me embriagar/) e ‘Paixão (/amo tua voz e tua cor / e teu
jeito de fazer amor/). Também se lembrará de “Navega Coração’, ‘Tô que
tô’ (/vem cá de qualquer maneira / balança minha roseira/) e a homenagem
a Caetano, ‘Viva’ (/viva a alegria / que somos eu e tu / e viva o rabo
do //tatu’/ [link] ). Todos
estes sucessos estão compilados aqui, além de outras menos conhecidas.
Na maioria dessas faixas, o acompanhamento é de feras: Robertinho Silva
na bateria, Wagner Tiso no piano, e por aí vai. Até Sivuca andou
passando por lá.

Kleiton e Kledir tiveram reconhecimento popular mas raramente aparecem
nas listas de quem transformou a música brasileira. Injustiça. Ninguém
fez um casamento entre música regional e formato pop com a competência
deles. Exímios melodistas, inventaram dezenas de frases musicais que
foram assoviadas em todo o Brasil. Seus arranjos ainda hoje oferecem
saídas para a incorporação do acordeão ao pop. A letras embalavam
paixões, eram inequivocamente gaúchas mas ao mesmo tempo irônicas e
distanciadas. Sem dúvida são os únicos compositores a serem gravados
tanto por Nara Leão como por Chitãozinho e Xororó.

Minha última visita a Porto Alegre foi em julho de 2004. Fiz questão de
ter o iPod sintonizado em Kleiton e Kledir quando descia para rever a
Cidade Baixa. Deu prá ti, baixo astral.

--------



  Escrito por Idelber às 20:28 | link para este post



sábado, 22 de janeiro 2005

The Torture Papers /Publicadas

The Torture Papers

/Publicadas 1.300 páginas de documentos que testemunham a evolução da
doutrina da tortura no governo Bush. /

Muito antes de Abu Ghraib, advogados e altos oficiais do governo Bush
escreveram e circularam uma série de memorandos justificando o uso da
tortura (palavra que os documentos evitam, obviamente). Outros, como o
ex-Secretário de Estado Colin Powell, tentaram conter a disseminação da
doutrina do vale-tudo, mas foram inapelavelmente derrotados.

A publicação de The Torture Papers
[link]
é uma vitória para o esforço de tornar pública a paulatina erosão das
liberdades civis nos Estados Unidos. No dia 14 de agosto de 2004, um
tribunal em Nova York ordenou
[link] ao governo a liberação de uma
série de documentos requisitados legalmente pela American Civil
Liberties Union [link] . Nutrindo-se do trabalho deste e
de outros grupos da sociedade civil, os dois organizadores acabam de
tornar públicos os memorandos que detalham a consolidação da doutrina da
tortura como instrumento legal, normal e aceito dentro do governo dos EUA.

A mais completa resenha de Torture Papers
[link]
foi publicada pelo Chronicle of Higher Education
[link] , infelizmente de acesso restrito aos assinantes.

Num memorando ao presidente Bush escrito em 25-01-2002, o conselheiro da
Casa Branca e agora advogado-geral da União Alberto Gonzales
[link] dizia
que a campanha contra o terrorismo era um ‘novo tipo de guerra’ que
tornava as convenções de Geneva ‘obsoletas’. O conselheiro do
Departamento de Defesa, John C. Yoo, em memorando do dia 9 de janeiro de
2002, dizia que ‘o próprio estatuto do Afeganistão como estado
fracassado já é suficiente para definir que os membros da milícia
Taliban não têm o direito de serem considerados prisioneiros de guerra
sob a Convenção de Geneva’. Jack L. Goldsmith, que na época trabalhava
nos Departamentos de Defesa e Justiça, escrevia que é legalmente
permissível transferir prisioneiros para outros países para interrogatório.

Desde a publicação da investigação de Seymour Hersh, Cadeia de Comando
[link] , sabe-se que o
grupo neoconservador que controla a administração Bush já buscava a
invasão [link] do
Iraque muito antes de 11 de setembro de 2001. A publicação de Torture
Papers
[link]
mostra que a justificativa da tortura veio do topo, o que enterra
qualquer teoria de que Abu Ghraib teria sido um ‘abuso’ de uns ‘poucos
soldados’.

Quem foi atrás, organizou e compilou foram Karen J. Greenberg, diretora
executiva do Center on Law and Security da New York University
[link] e Joshua L. Dratel, advogado encarregado da defesa
de um prisioneiro de Guantánamo que processa o governo americano por
abusos. Trata-se de duas pessoas corajosas, para dizer o mínimo. Já
imagino a quantidade de ameaças e ‘hate mail’ que devem estar recebendo.

A publicação acontece semanas depois que o Departamento de Justiça
voltou atrás em sua definição de tortura, que havia sido limitada a
‘atos que causam dor severa equivalente àquela associada ao colapso de
um órgão ou a morte.’ Ou seja, o Departamento de Justiça da democracia
mais antiga do mundo chegou ao ponto de dizer: ‘se não é dor equivalente
à morte ou fim de um órgão, não é tortura’. O mais clássico mecanismo
para justificar a tortura, claro, é redefinir seus limites de forma tão
absurda que qualquer abuso passa a ser aceitável.

O índice desse mapa do horror pode ser consultado online
[link] .

--------



  Escrito por Idelber às 15:24 | link para este post



quinta-feira, 20 de janeiro 2005

Como eu virei leitor

Como eu virei leitor de blogs

Como milhões de outros residentes dos EUA, eu cheguei aos blogs via
campanha de Howard Dean. Daily Kos [link] e Atrios
[link] foram nossa dieta, nosso permanente 'open
thread' e farrapozinho de esperança miserável. Com suas centenas de
milhares de visitas diárias (na casa do milhão na reta final da
eleição), mobilizaram um movimento cuja importância só agora começa a
ser compreendida. Pode se ter qualquer teoria sobre a derrota de Kerry
para Bush, menos duas: 1. de que perdemos por falta de mobilização; 2.
de que perdemos por falta de dinheiro. Esses fatores, decisivos na
derrota fraudada de 2000, não o foram este ano graças aos blogs.

Num encontro de uma força-tarefa da Modern Language Association
[link] em setembro de 2004, fico sabendo que Michael
Bérubé (amigo e antigo colega em Illinois
[link] ) tinha um blog e entrara ‘undercover’
na convenção republicana para ‘blogá-la’ (o que multiplicou o número de
visitas). São posts hilários, de voz satírica, que me ganharam para a
leitura de blogs. Na ordem: este
[link] , este
[link] , depois
este
[link] e
este [link] . Aí
descobri que havia blogs em português além de diários de adolescente ou
sites de puro jornalismo. Tal era a extensão da ignorância. Pesquisando
a história, não tardou para que eu encontrasse Por um Punhado de Pixels
[link] . Fiquei boquiaberto – tanto e tão
maravilhado com o negócio que num fim de semana de novembro li todos os
arquivos de quase 4 anos, tudo de uma vez. Terminei e havia lido um
romance, conhecido um personagem – com a diferença sensacional que no
blog a coisa continua, sabe-se que haverá um post amanhã. Falei, pô
quero mais desse negócio. Aí eu caí no Catarro Verde
[link] . Eu já era fã do Rude Pundit
[link] . Falei, putz o Sérgio faz o mesmo que
Rude mas muito melhor, com petardos de uma frase, duas frases. O fato de
que o cara assina nome e sobrenome me fez gostar mais ainda. Devorei o
Catarro, [link] a porra toda em uma só talagada.
Falei, é melhor eu me orientar nessa selva aqui. Não tardaram em pipocar
Pensar Enlouquece [link] e LLL
[link] grandes na tela. Nas
primeiras três clicadas nos links da esquerda lá no Inagaki
[link] eu comecei a ter uma dimensão do
tamanho da selva. Mas aí ignorância já havia virado vontade de entrar na
brincadeira – e aqueles links ainda hoje são um mapa prá mim. Quando
saiu o texto do Inagaki sobre a TV Pirata
[link] ,
pensei ‘porra, não tem texto sobre televisão publicado nos jornais por
aí que se compare ao desse cara.’ Tem que respeitar. Aí eu já lia o LLL
[link] diariamente –
concordando com quase nada, mas curtindo o jeitão despojado do blog – e
gostei muito do romance do Alexandre. Apareceram Smart
[link] , Nélson
[link] , Rafael [link] e
outros que se converteram em diárias, além de escritores cujo trabalho
passei a acompanhar. Falei, putz já há semanas que eu não leio nada
encapado, só telinha.

Começar a escrever um blog a sério foi uma forma de ler essas pessoas.
Com os blogs eu tenho a sensação borgeana de orgulhar-me mais dos textos
que leio do que dos que escrevo. Sensação maravilhosa, antídoto contra
as pragas da arrogância e do umbigocentrismo.

--------



  Escrito por Idelber às 21:52 | link para este post



quarta-feira, 19 de janeiro 2005

New Orleans gears up

New Orleans gears up for Historic Jazz Funeral

(/post de divulgação de evento. O *Biscoito* volta ao português amanhã/)

Fellow New Orleanians:

As John Dos Passos once famously said, we stand defeated in America
[link] .

56 million of us did all we could. We beat them 3 to 1 in our city, but
still it wasn’t enough.

This Thursday we will gather at 10 o’clock for the most important jazz
funeral [link] of our
lives. Dozens of organizations
[link] have joined us.

At Congo Square, in the shade of Louis Armstrong’s
[link] statue, we will mourn the passing
of our democracy. We will mourn for the tens of thousands killed in
Iraq, the hundreds locked up in prisons in Guantánamo and elsewhere, and
the millions deprived of citizenship in our city and all over the nation.

We will march down Rampart Street to Canal. We’ll then proceed toward
the Mississippi River along Canal, then on to North Peters and Jackson
Square, where a rally will be held and a copy of the Patriot Act will be
symbolically destroyed.

There will be live music, street theater, and a host of prominent
speakers. The Tremé Brass Band
[link] will be there and so will
our friends in the Panorama Jazz Band [link] .

Organizers are inviting all who own cameras to bring them along. In
addition to documenting the event, they help protect us from
knuckleheads and provocateurs.

This blog invites all its New Orleanian readers to take part in this
event. If you’re in New Orleans, come meet us at Congo Square, right
there where it all began. If you’re not in New Orleans, please keep us
in your thoughts.

At inauguration time, wherever you are – Brazil, Europe, US – express
your disgust somehow. Let us make this the most embarrassing
inauguration in history.

Pictures of the Jazz Funeral for Democracy
[link] will be posted on this blog
tomorrow.

--------