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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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segunda-feira, 31 de janeiro 2005

/Crime e Castigo/ -

/Crime e Castigo/ - parte I

Sobre o paradoxo de Dostoiévski
[link] , um reacionário ortodoxo
fanático religioso, ter sido aquele que penetrou mais fundo no ideário
do igualitarismo progressista do Século XIX, eu já fiz este post
[link] .
/Os Demônios
[link] / é o
primeiro romance moderno sobre o terrorismo. /Crime e Castigo/ é,
segundo Nietzsche [link] , a primeira cena de
realização total do niilismo, o assassinato a marretadas não-motivado. O
ato gratuito.

Por falar em Nietzsche, /Crime e Castigo/ protagoniza a mais
extraordinária das duplicações ficção-realidade de que se tem notícia:
no começo do romance, Raskolnikov tem um pesadelo (que parece ser uma
lembrança de criança) em que bêbados fazem uma pobre égua levar uma
carga impossível. Chicoteiam-na, abusam de todas formas, torturam-na até
que morre. Minucioso, Dostô descreve o suplício do animal e da criança
que acompanha, mãos dadas com pai que tenta distrai-la e levá-la para
longe (a imagem da humilhação, impotência e fraqueza paternas são
constantes em Dostoiévski). A criança abraça a égua e chora. Mais de
vinte anos depois, Nietzsche repetiria *exatamente a mesma cena *ao ver
um cavalo chicoteado em Turim, momentos de seu enlouquecimento
definitivo (do filósofo, não do cavalo).

Dostoiévski une duas pontas, o popular-folhetinesco e o filosófico, com
rara maestria. O fascínio dos escritores ‘psicológicos’ com /Crime e
Castigo/ – André Gide, Albert Camus, Lúcio Cardoso, Roberto Arlt e
tantos mais – gravitou, em boa parte, ao redor da fascinação com o ato
gratuito: o funcionamento de uma mente que justifica um ato de
assassinato de forma não utilitária; mata-se, em /Crime e Castigo/,
*porque sim*: assassinato como pura afirmação do ato de matar. O
fascínio popular do livro vem de outro lado: é um romance de desenlace.
O suspense ao redor do “vão ou não vão descobrir que Raskolnikov cometeu
um assassinato”, para quem lê pela primeira vez, é irresistível e
utiliza os recursos do melhor folhetim – a tradição decimonônica de
relato serial que culmina na telenovela globalizada. Numa época em que o
relato policial só existia como conto (Edgar Allan Poe
[link] ), Dostoiévski /inventa /o
romance policialesco com /Crime e Castigo (/1866). Não seria incorreto
dizer isso, se excetuarmos /The Woman in White
[link] /
(1860), de Wilkie Collins. Ainda faltavam vinte anos para o primeiro
romance de Holmes
[link] , e o
suspense sobre a revelação uma culpabilidade movia o desejo de uma trama
de 500 páginas. Fazia-no construindo aquele que talvez seja o personagem
mais contraditório e torturado de toda a literatura do XIX (Sobre a
popularidade do livro, é bom dizer que sempre teve grandes tiragens não
só na Rússia como em toda a Europa Ocidental. Foi lidíssimo no Brasil.
Em muitos países hispânicos, foi romance de quiosque). Em /Crime e
Castigo/, move-o o desejo de passar uma lição no niilismo racionalista:
criar um personagem verossímil como incarnação do relativismo ateu,
levá-lo às últimas consequências, relatar sua autotortura, padecer com
ele o desespero perene de que o investigador o descobrirá e finalmente
purgar-se, purificar-se com ele no momento em ele mesmo – Raskolnikov,
de “livre” vontade – decide se entregar à polícia. O apêndice, a
‘redenção’ de Raskonikov purificado na Sibéria e as dez páginas de
blá-blá-blá doutrinário, é o lixo evangelizador que Dostoiévski escolhe
anexar ao romance. Mas aquilo já não importa. O filé é tudo o que vem
antes.

Dostoiévski *quer* que vivamos a redenção, mas na literatura quanto mais
óbvio o desejo do autor mais esse desejo fracassa. Como romance de
doutrinação religiosa /Crime e Castigo/* *fracassa estrepitosamente.
Conheço dezenas de pessoas que leram o livro, ninguém aumentou um pingo
de fé por ele. Pelo contrário, muita gente com ele reforçou seu
ateísmo. Deliciamo-nos por 500 páginas *amando* o supremo pecador,
identificando-nos com ele, acompanhando-o na justificativa da eliminação
da velha usureira que explora tantos, com ele amando / compadecendo /
envergonhando-se da mãe e irmã que se humilham ante um cafajeste burguês
por pouco dinheiro, com ele desprezando Marmeladov, a suprema lama
humana. Ah, como amamos o pecado e o pecador nesse romance! E como nos
decepcionamos com o filhadaputa quando ele se entrega à polícia. Quão
diferente dos romances que depois seriam escritos do ponto de vista – já
não do nosso amado criminoso – mas do detetive, do carrasco da lei! O
relato policial cerebral apela ao nosso princípio de realidade, ao
administrador-zinho dentro de nós. Dostoiévski apela ao mais além do
princípio do prazer, à pulsação libertária, ao abismo da pulsão de
morte. No romance de Dostoiévski, o pecado que se quer redimir,
transcender e sufocar, fala com suas próprias palavras e tem voz
irresistível. É ele que sustenta a trama e a carolice do romancista.
Sinuca irresolúvel para Dostô.

Como sempre, Deus acabou sendo a pura invenção de um homem que resolveu
crer em demônios.

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  Escrito por Idelber às 03:27 | link para este post | Comentários (1)




*Convite à leitura de


*Convite à leitura de dois textos de Machado de Assis *

**

**

Nesta quarta, alguns alunos meus passarão por aqui para bater um papo
sobre Machado de Assis
[link] . Gostaria de
convidar outros leitores a participar (especialmente quem estiver
cansado de Dostoiévski [link] !).
Este blog já fez uma pequena experiência de ‘aula virtual’ com o pessoal
da Faculdade da Cidade lá na Bahia neste post aqui sobre o conto
[link] .
Foi muito legal.

Neste semestre um dos dois cursos que estou ditando em Tulane
[link] é sobre a contística brasileira, de Machado ao
presente.

Para este papo selecionei duas histórias – um conto e uma novela – que
podem ser lidos online: Um Homem Célebre
[link] e O Alienista
[link] . Quem puder,
leia essas mini obras-primas e passe aqui para papear.

Um Homem Célebre [link]
narra a história de Pestana, um talentoso compositor de polcas
[link] no
Rio de Janeiro de 1875. O suplício de Pestana se deve ao fato de que
ele *não* *quer *compor polcas, e sim consagrar-se no panteão da arte
erudita – o das sonatas para piano. Mas sempre que se senta ao piano,
são as polcas – e *boas* polcas – que prevalecem. Numa época em que a
polca – depois de introduzida no Rio na década de 1840 – já havia
alcançado sua popularidade máxima, Pestana bem pode ser a primeira
dramatização do conflito entre cultura erudita e cultura urbana de
massas na ficção brasileira. A narrativa, típicamente machadiana, é
cheia de ironia leve e requintada. É importante sublinhar que os títulos
das polcas de Pestana – como ‘Não Bula Comigo nhonhô’ – já indicam
traços de algo que permanecia inomeável naquele momento, por demasiado
associado à lascívia, à permissividade, à sexualidade e ao corpo negro:
sim, falamos do maxixe
[link] ,
que naquele momento vivia sua fase de constituição a partir da base
rítmica da polca. Não nomeado no conto como tal, claro, o maxixe é uma
espécie de vertiginoso fantasma que ameaça engolir Pestana, esse criador
bem brasileiro, preso entre seu desejo de universalização via cultura
erudita e a realidade sedutora – e ao mesmo tempo para ele desprezível –
da cultura popular urbana. O conto abre o leque de uma imensidão de
questões ligadas não só à hierarquia entre produções culturais, mas
também a temas como raça e nacionalidade.

O Alienista [link] é
bem mais conhecido e narra a história de Simão Bacamarte, ‘cientista’
ancorado na onda positivista, que chega a Itaguaí e dedica-se à sua
‘grande obra’, um asilo para loucos chamado Casa Verde. Sua chegada é
uma cena repetida na literatura do século XIX, na Europa e nas Américas:
a chegada do citadino à roça, legitimado por um saber ‘moderno’ mas
incapaz de ler competentemente a realidade à sua volta. Na medida em que
evolui o projeto do asilo, as teorias de Simão vão ficando mais absurdas
e a quantidade de gente definível como louca vai só aumentando, até o
hilário e irônico final, que eu não vou revelar. Há muito que se dizer
aqui sobre a história da psiquiatria, a definição do que é a loucura e o
relacionamento com ela, a relação entre ciência e poder político e
outros temas.

Pessoal da aula: passem e deixem suas observações (ou perguntas) sobre
um ou ambos textos. Pode postar em inglês, portuga ou espanhol (uma
língua de cada vez, claro). Os leitores regulares do *Biscoito* estão
convidadíssimos a participar deste papo.
--------



  Escrito por Idelber às 01:34 | link para este post



sexta-feira, 28 de janeiro 2005

*Ou o mundo se


*Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista: Entrevista com Jorge Mautner** *

**

Eu conheço Jorge Mautner [link] desde o
começo do ano 2000. Na turnê de divulgação de O Ser da Tempestade
[link] ,
Mautner esteve em Belo Horizonte e fez um memorável show no Bar da
Estação. Ao terminar o show, com o sorriso de sempre, atendeu a todos e
autografou CDs.

Fiz questão de ser o último da fila. Entreguei o meu CD. Balbuceante,
disse: "Mestre, estou tentando traduzir o /'Ereignis'/, de Heidegger
[link] (projeto desde
então abandonado). Adoraria ter um prefácio seu." Quando recebo o CD de
volta, não só a capa havia sido autografada com lindos desenhos, mas no
encarte, ao lado da letra de “Cinco Bombas Atômicas”, havia um número
que começava com 021: "Ligue prá mim, a qualquer hora. É só deixar um
recado dizendo que é o poeta mineiro." Eu jamais escrevi um verso na
vida, mas para Mautner eu era poeta. A excitação febril de ter o
telefone do mestre me fez perder o sono naquela noite.

Passaram-se anos e eu não liguei. Em 2003, meu bróde véio Christopher
Dunn
[link]
estava passando seu sabático no Rio, num AP na Visconde de Pirajá. Fazia
suas pesquisas sobre a contracultura e havia combinado um encontro com
Mautner. Depois de um show em que estávamos todos na platéia (era um
projeto experimental eletrônico-percussivo, com Marcos Suzano e outros),
saímos com ele.

Havia outras pessoas ilustres na turma, mas eu só tinha olhos e ouvidos
para Mautner. Sentamo-nos num bar em Copacabana, na beira da praia, e eu
disse: "Mestre, com certeza você não se lembra de mim, mas.... Ele me
interrompe: "Como não lembro: Heidegger nas Minas Gerais! O martelo de
Zaratustra e os tambores do candomblé!" Ele se lembrava de todo o
conteúdo de nossa conversa de três anos antes. Naquela roda, houve
vários papos, mas pouco a pouco as pessoas foram se ligando na conversa
em que eu e Jorge Mautner destrinchávamos Nietzsche
[link] , Heidegger
[link] , os
pré-socráticos
[link]
e o ‘quinto império brasileiro’. Lá pelas duas da manhã o último
sobrevivente se foi e continuamos eu e mestre Jorge, já na casa de um
amigo seu em Copacabana. No táxi rumo ao Leblon (que me deixaria em
Ipanema), menciono meu livro Alegorias da Derrota
[link] .
Descemos do táxi para que eu pudesse pegar um exemplar para Jorge. Ali
no AP, com Chris roncando no quarto, eu e Jorge conversamos até o dia
clarear. Na tarde seguinte, nos encontramos e ele já havia lido o livro.
Desde então, sempre que vou ao Rio, ligo para Mautner e bebo de sua
sabedoria infinita. Ele me atende com uma doçura cativante. Sempre nos
encontramos nos lugares mais insólitos (o último encontro foi num
McDonalds). Também já tive a honra de recebê-lo em Minas.

A entrevista que se segue foi realizada por mim e por Christopher Dunn
no apartamento de Jorge Mautner, no Leblon, Rio, em janeiro de 2004. São
13.000 palavras, quase o tamanho de um livrinho de bolso. Presentes
estávamos nós três, Nelson Jacobina, o espírito de Heráclito, o de
Zaratustra e a flecha de Oxossi. Vai com um abraço a César Rasec, que
acaba de lançar o livro *Jorge Mautner em Movimento* (Salvador: Edição
do Autor, 2004) e brindar-me com uma bela dedicatória.

Sem esquecer de depois voltar aqui para comentar, leia a entrevista
completa com Jorge Mautner [link] .

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  Escrito por Idelber às 21:47 | link para este post



quinta-feira, 27 de janeiro 2005

Cidades-vitrine e cidades-véu

Já há tempos eu tenho uma teoria que quero testar e agora é a hora.
Primeiro, uma coisinha sobre os gostos de quem fala. Tolstói começa Ana Karenina com aquela frase memorável: ‘Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira’. Para a minha sensibilidade, a diferença entre a cidade e o campo é a mesma, só que ao revés. Mato prá mim é tudo igual. Não importa que seja floresta, caatinga, serrado, cordilheira ou montanha. O meu desinteresse é o mesmo. Não tenho o menor saco para nada que seja natureza. Não tenho a menor vontade de conhecer o Pantanal, o Grand Canyon ou o Himalaia.

Teria o maior tesão de passar umas duas semanas em Tóquio ou em Praga, cidades que ainda não conheço.Topo qualquer parada, desde que seja na urbe.

Na minha experiência, há dois tipos de cidades: por um lado, aquelas que se oferecem para você, abraçam-no e não requerem, em absoluto, a guia de um conhecedor local. Só o desejo de entrega de quem chega. A cidade faz o resto. Nova York, Salvador, Madri, Rio de Janeiro e Buenos Aires são assim. Por outro lado, há as cidades que podem ser fascinantes, riquíssimas, múltiplas, mas cujos tesouros se escondem, seja numa imensidão, seja num desenho tortuoso, seja na pulverização. A guia de alguém que conhece torna-se imprescindível. Los Angeles, São Paulo, Belo Horizonte, Santiago do Chile e a Cidade do México são assim.

Isso não quer dizer, obviamente, que você não vá aproveitar muito mais
de Nova York se contar com um manhattanite ou de Salvador se contar com uma boa baiana de guia. Mas sim significa que se você se perder na cidade - a primeira coisa que faço quando chego a uma urbe nova é perder-me nela – a cidade mesmo assim estará ali para você. Você encontrará o fundamental. Se estiver aberto para que a cidade o abrace, ela o abraçará.

Conheço alguém que chegou a Belo Horizonte sem notícia das coisas,
zanzou da Praça da Rodoviária (teve o infortúnio de chegar de ônibus)
até a Praça Sete, daí à Praça Afonso Arinos, daí à Raul Soares e zanzou e zanzou e foi embora convencido de que BH é uma amontoeira de prédios e praças sem graça. As pérolas da intensa vida cultural da cidade estão escondidas. Claro, você pode comprar o jornal, mas mesmo assim, se não tiver um bom guia, o fundamental escapar-lhe-á entre os dedos.

Isso é impossível em Salvador. Qualquer que seja o lado que você
escolha, a essência da cidade estará ali, pronta para abraçá-lo. Mesma
coisa no Rio. Já em São Paulo, se não houver alguém que conheça bem
aquela joça prá lhe ajudar, você pode muito bem passar a experiência
mais frustrante da sua vida.

Experimente perder-se em Nova York. A surpresa inaudita, o acontecimento insólito vai aflorar. É muita densidade de opções. Sempre que vou a NYC evito os planos. Desço e começo a andar. Ë sempre o melhor caminho. Só lá para o terceiro dia eu resolvo comprar o jornal.

Experimente perder-se em Los Angeles. Você se sentirá um imigrante
pedestre miserável numa floresta de viadutos que lhe transmitem a
impressão de que não há nada mais na cidade.

Isso não quer dizer que NYC seja melhor que LA ou que o Rio seja melhor que São Paulo. Simplesmente que a exploração de cada uma requer uma arte diferente.

PS: Estou em fase final de revisão e formatação do texto da entrevista
com Jorge Mautner. Será postada logo logo.

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  Escrito por Idelber às 00:14 | link para este post



quarta-feira, 26 de janeiro 2005

Krewe du Vieux -


Krewe du Vieux - 2005

Das delícias do carnaval de New Orleans, o Krewe du Vieux
[link] é das minhas favoritas. O Krewe du Vieux
[link] abre a temporada de carnaval no Big Easy
com um desfile sempre satírico, tirando sarro dos políticos e, nos
últimos anos, do ensandecimento geral deste país.

O carnaval de New Orleans é organizado através de ‘sociedades’ (chamadas
‘krewes’) que desfilam pela cidade em carros alegóricos. Para um
brasileiro, não tem muita graça porque os desfiles ocorrem sem música (a
brincadeira é jogar e receber colares).

Mas o Krewe du Vieux [link] , além de ser o único
desfile genuinamente espontâneo, apropria-se da tradição das brass bands
[link]
(bandas de metais) e faz uso das fantasias mais hilárias.

Este ano eu tive hóspede. A lindeza aí da foto é Cris, que tem uma
incrível história. Tem 22 anos. Saiu de Formiga (MG) direto para Kill
Devil’s Hill, na Carolina do Norte. Sem escalas em Belo Horizonte ou
Nova York. Juro que não minto. O nome da cidade é este mesmo: Kill
Devil’s Hill. Nem queiram saber. Cris se encontra lá num esquema de
trabalho meio barra-pesada, desses nos quais a gente cai aos 22 anos.
Por sorte faltam só dois meses para que ela conclua o compromisso que
assumiu.

Convidei-a para arejar a cuca uns dias em New Orleans e ela chegou a
tempo de pegar o Krewe du Vieux [link] . Este
ano, como não poderia deixar de ser, o grande satirizado foi Bush.
Sacolejamos por todo o centro histórico seguindo a Rebirth Brass Band
[link] (esse saculejo seguindo
uma banda pelas ruas é chamado de *secondlining*, verbo que só existe
aqui).

Dá prá ver o rostinho da Cris dizendo: ‘saí de Formiga para Kill Devil’s
Hill. Estou em New Orleans há três dias. A vida é bela’.

Foi uma alegria receber Cris na sua primeira visita a uma cidade. Vocês
imaginam que choque cultural e que experiência antropológica foi tudo
isso. Espero que ela tenha levado o axé do Big Easy para a jornada que
lhe espera lá nas montanhas do diabo.

Cris já está de volta na Carolina do Norte e o quarto de hóspede volta a
estar temporariamente desocupado. Esse é o quarto que meus amigos chamam
de ‘hotel Avelar’, não porque seja pago, claro, mas porque sempre há
alguém. Em New Orleans – a gente descobre isso logo que muda prá cá –
você *sempre* tem visitas. O ‘hotel Avelar’ espera para breve, se tudo
der certo, uma visita do maior blogueiro do planeta
[link] . Feliz Carnaval prá todo mundo e pro mundo
todo. Aqui já começou, Rafael [link] .

PS: Breve aqui no *Biscoito*: Uma entrevista inédita com o amigo,
mestre, guru e lenda contra-cultural Jorge Mautner
[link] . Falamos de tudo, de Lula a Heidegger
ao candomblé. Está interessantíssima a entrevista. Feita no AP de Jorge
lá no Leblon.

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  Escrito por Idelber às 00:56 | link para este post



terça-feira, 25 de janeiro 2005

*O Biscoito apóia: *


*O Biscoito apóia: *

1. a campanha de Paulo Eduardo Neves
[link] e outros, encampada
pelo Sovaco de Cobra [link] , de boicote
contra os CDs que incluam proteção anti-cópia. Os CDs com proteção
anti-cópia são outra estratégia das cinco megacorporações que controlam
98% do mercado de CDs do mundo para manter os preços artificialmente
altos, usando como bode expiatório a pirataria. Os CDs com proteção
anti-cópia infringem seus direitos de consumidor – não tocam em
aparelhos com tecnologia de queima de CDs, impedem-lhe até de fazer uma
coletânea para sua filha ou de proteger o disco fora de catálogo que
você carrega no carro. O Biscoito celebra as recentes vitórias jurídicas
sobre a indústria fonográfica, tal como a indenização conquistada em
primeira instância por Paulo Andrade
[link] ou a recente
decisão da corte de apelações de St. Louis que protege os usuários da
internet
[link]
do furor das gravadoras.

2. a polêmica secularista de Smart Shade of Blue
[link] em favor de uma esfera pública com
a menor interferência possível de fanatismos religiosos e legislações
sobre o útero alheio
[link] . Apesar de
suspeitar que a luta pelo direito ao aborto no Brasil ainda demorará
algum tempo para ser vitoriosa, o momento de debater é agora. O Dr.
Hélio Bicudo, de tantos serviços prestados à democracia, continua
recusando-se até mesmo a discutir o tema, como visto nesta (só
disponível para asssinantes) entrevista na Folha
[link] . O
*Biscoito* apóia a decisão da Dra. Mônica Mello de renunciar ao Conselho
Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, em protesto contra a recusa
sistemática do Dr. Bicudo em entender os direitos das mulheres como
parte integrante dos direitos humanos. Vale a pena fazer força para que
avancemos algo neste quesito. A legislação brasileira é medieval. A
blogosfera pode exercer pressão. Planejemos um esforço conjunto de
vários blogs. Se nós, residentes dos EUA, houvéssemos prestado atenção à
ascensão da direita religiosa nos anos 80, talvez poderíamos ter feito
algo para prevenir o estrago que eles realizaram.

3. a campanha de Michelle Bachelet
[link] , socialista e
ex-ministra da Defesa, à presidência do Chile. Sim, ela é chilena,
socialista e mulher, e foi a última Ministra de Defesa do governo Lagos.
Respeitadíssima. Sou amigo e admirador do anti-candidato, intelectual
barbudão e figuraça Tomás Moulián
[link] ,
mas Bachelet é a que tem condições de vencer as eleições. A direita
chilena anda desmoralizada: as pinochettes rendem-se à evidência de que
seu ditador foi não só sanguinário, mas também corrupto. Enquanto isso
outros nomes da direita – inclusive senadores –são investigados por
pedofilia. Se a concertación (o bloco que apóia Lagos) não fizer uma
grande bobagem, Bachelet será a indicada. Leitores chilenos: em
novembro, Bachelet na cabeça. É o pitaco do *Biscoito*.

*O Biscoito visita, admira e recomenda:*

o fantástico trabalho de resenhas discográficas feito por Ricardo Schott
no Discoteca Básica [link] (não percam a bela
esmiuçada do Ricardo na recente caixa de Roberto Carlos) e o belo
trabalho do Ubiratan Leal e seus colaboradores no Balípodo
[link] , com textos inteligentes sobre
futebol como estes aqui
[link] (indicação do
leitor Marcos; thanks!).

*O Biscoito saúda:*

o nascimento de Joaquin Elijah Hubbard Dunn, filho de meu brother
Christopher Dunn
[link]
e Ladee Hubbard. O mais recente new-orleaniano da turma nasceu com quase
4 quilos e é lindo. Bem-vindo ao Big Easy, Joaquin. Você vai ver que
papai mais bacana você tem. Andamos todos aqui afogando-nos na babação
do Chris.

*O Biscoito agradece:*

Este
[link] comentário
elogioso e a presença na Galeria de Honra do LLL
[link] . À galera que tem
chegado aqui via LLL [link] ,
boas vindas.

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  Escrito por Idelber às 23:56 | link para este post



segunda-feira, 24 de janeiro 2005

Escrita acadêmica, escrita jornalística

Escrita acadêmica, escrita jornalística e escrita blogueira

Minhas relações com as escritas que cito no título são bem diferentes.
1. Como acadêmico, sou muito bem-sucedido: publico meus livros e artigos
nas editoras e revistas que escolho. Esses textos são lidos e discutidos
na disciplina, em três línguas. 2. Como colunista de jornal, fracassei
todas as vezes que tentei. 3. Como blogueiro, estou só começando. Uma
das razões para ter um blog foi construir uma espécie de voz 2 sem
recorrer à autoridade da voz 1.

Minha disciplina – a crítica literária – tem a péssima fama de produzir
coisas incompreensíveis. Em parte a fama é justificada. Em parte é
produto da situação: num país em que pouquíssima gente lê romances, qual
a minúscula porcentagem que lerá /livros sobre romances/? Isso, claro,
vai criando um círculo pequeno, que tende a se fechar, o que diminui
ainda mais o número de gente com saco para ler. Círculo vicioso.

Para piorar, a crítica literária sofre com duas regras da escrita
acadêmica. A primeira é que tudo tem que ser demonstrado. ‘Demonstrar’
como funciona o narrador de Virginia Woolf pode ser algo extremamente
tedioso para quem lê. Falar de literatura como falamos no bar é
prazeroso, mas só pouquíssimos críticos conseguem traduzir esse prazer
na escrita acadêmica: Walter Benjamin
[link] , George Steiner
[link] , Susan Sontag
[link] , Antonio Candido
[link] , Silviano Santiago
[link] são
alguns. A outra regra é que você deve demonstrar algo novo. Se você está
relatando o achado de outra pessoa, pode estar fazendo algo muito útil –
jornalismo – mas não trabalho acadêmico (/scholarship/,
/Wissenschaft/). O número de romances e poemas que despertam interesse
nos leitores é finito, e ‘demonstrar algo novo’ sobre textos como
/Hamlet/ ou /Dom Casmurro/ é complicado. Aí os novos críticos tendem a
voltar seus olhares para coisas cada vez mais minúsculas. Há que se ter
muito peito para estrear supondo poder dizer ‘algo novo’ sobre um objeto
amplo – o ‘teatro de Shakespeare’. Daí a proliferação de teses sobre,
digamos, o uso da vírgula em Machado ou as correções de Guimarães Rosa
ao /Grande Sertão/: coisas que ninguém jamais lerá.

Ao contrário da maioria dos acadêmicos, importa-me comunicar-me com
gente fora da universidade. Acho que na maioria dos casos dos que dizem
não se importar, o que está em jogo é incompetência e medo. Quando vou
orientar uma tese de mestrado ou doutorado (e já orientei mais de 20,
todas bem terminadas), a primeira coisa que digo ao pós-graduando é: se
ao terminar você for capaz de resumir o conteúdo da tese em quatro
minutos de forma compreensível para qualquer ser humano alfabetizado de
mais de 20 anos de idade, a tese valeu. Se não conseguir isso, não vale
porra nenhuma ou não está pronta ainda.

A escrita jornalística tem outras regras, claro. Verificabilidade no
caso do repórter, uma voz particular no caso do colunista. Minhas
tentativas foram como colunista – de política e futebol. Na política
acho até que o fracasso foi justificado. Meus textos sobre política são
irados, jornal nenhum os engoliria (a Folha
[link] deve estar muito feliz de ter
rejeitado minha pretentida contribuição de 28 de outubro, que previa
grande vitória de John Kerry....). No futebol acho que não. Tirando uns
dez ou doze nomes, não acho que as colunas que se publicam sobre futebol
nos jornais sejam tão melhores assim que esta
[link] ,
esta
[link] ou
esta
[link] .
Independente disso, eu sinto em boa parte dos jornalistas uma tremenda
hostilidade a qualquer acadêmico que tente se aproximar de um jornal. É
como se dissessem: fiquem aí escrevendo para seu círculo para que a
gente possa acusá-los de só quererem escrever para seu círculo!

Essa brincadeirinha se transforma com a blogosfera. Pouquíssimos
acadêmicos já perceberam a importância dos blogs. A maioria dos
jornalistas sim. Destes, alguns estão atentos e utilizando-se dos
recursos dos blogs para melhorar seu jornalismo. Boa parte está
apavorada e em pânico com a possibilidade de perder espaço. O impacto da
blogosfera sobre as escritas acadêmica e jornalística é uma das
histórias do nosso tempo. Ainda está por ser contada.

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  Escrito por Idelber às 23:02 | link para este post | Comentários (1)



domingo, 23 de janeiro 2005

Disco da Semana –

Disco da Semana – Kleiton e Kledir, Millenium

/(resenha dedicada a Porto Alegre, terra de //muitos
[link] grandes
[link] escritores
[link] //)/

Há pilhas de discos novos para compartilhar, mas a resenha desta semana
será nostálgica. O *Biscoito* recomenda – até que se reeditem os discos
originais, não é BMG? - esta coletânea de Kleiton e Kledir
[link] , da Millenium, que traz 20 pérolas
desta dupla gaúcha. Em 1980, com ‘Vira Virou’ e ‘Maria Fumaça’ (/essa
Maria Fumaça é devagar quase parada / ô seu foguista bota fogo na
fogueira / que essa chaleira tem que estar até sexta-feira / na estação
de Pedro Osório sim senhor/) eles explodiram nacionalmente. Mas já
tinham história no Rio Grande como membros do Almôndegas
[link] , grupo chave na
cena pop gaúcha dos anos 70. Até o final da década, foram uma fábrica de
hits. Casaram as tradições gaúchas com o rock e a MPB. Trouxeram a
música de acordeom pampeana para o centro do pop nacional. Assinadas por
eles ou pelo talentosíssimo irmão mais novo, Vitor Ramil, as letras iam
do cômico ao romântico. Os arranjos eram ultra profissionais para a
época e aproveitavam, num formato pop, instrumentos então raramente
incorporados a ele – não só o acordeom, mas também o violino, a gaita e
o bombo legüero. Popularizaram várias expressões, ‘tri-legal’ e ‘deu prá
ti’ as mais famosas delas.

Se você fizer uma pesquisa
[link] entre os
gaúchos, outros nomes aparecerão como representativos da música da
região. No resto do Brasil Kleiton e Kledir ganhariam de goleada.
Durante toda a década de 80 – e em grande parte até hoje – eles foram o
rosto do Rio Grande do Sul na música popular brasileira. Seu grande
mérito foi criar uma dicção pop, um universo no qual mesmo um acreano
reconhecia o Rio Grande.

Seus maiores sucessos foram em gênero pop-rock, mas sempre com algum
toque ‘gaúcho’ [link] , seja
instrumental, seja na letra, seja na dicção. Também gravaram trovas,
milongas, vaneiras e [link]
xotes [link] , mas sempre com
algum toque pop, em geral no arranjo. Das melhores nesses gêneros, ver
‘Bailão’ (a sensacional história de um vexame), ‘O Analista de Bagé’
(composta a partir do sucesso do personagem de Luis Fernando Veríssimo),
“Para Pedro’ e ‘Trova’ (esta última em forma de desafio pampeano - ‘a
trova de galpão’ - e hilária em sua paródia do mito da masculinidade
gaúcha).

Se nos anos 80 você estava no Brasil e não em outro país, você se
lembrará do lirismo de ‘Nem Pensar’, ‘Fonte da Saudade’ (/esse quarto é
bem pequeno / prá te suportar / muito amor / muito veneno / prá pouco
lugar / o teu corpo é uma serpente / a me provocar / e teu beijo a agua
ardente / a me embriagar/) e ‘Paixão (/amo tua voz e tua cor / e teu
jeito de fazer amor/). Também se lembrará de “Navega Coração’, ‘Tô que
tô’ (/vem cá de qualquer maneira / balança minha roseira/) e a homenagem
a Caetano, ‘Viva’ (/viva a alegria / que somos eu e tu / e viva o rabo
do //tatu’/ [link] ). Todos
estes sucessos estão compilados aqui, além de outras menos conhecidas.
Na maioria dessas faixas, o acompanhamento é de feras: Robertinho Silva
na bateria, Wagner Tiso no piano, e por aí vai. Até Sivuca andou
passando por lá.

Kleiton e Kledir tiveram reconhecimento popular mas raramente aparecem
nas listas de quem transformou a música brasileira. Injustiça. Ninguém
fez um casamento entre música regional e formato pop com a competência
deles. Exímios melodistas, inventaram dezenas de frases musicais que
foram assoviadas em todo o Brasil. Seus arranjos ainda hoje oferecem
saídas para a incorporação do acordeão ao pop. A letras embalavam
paixões, eram inequivocamente gaúchas mas ao mesmo tempo irônicas e
distanciadas. Sem dúvida são os únicos compositores a serem gravados
tanto por Nara Leão como por Chitãozinho e Xororó.

Minha última visita a Porto Alegre foi em julho de 2004. Fiz questão de
ter o iPod sintonizado em Kleiton e Kledir quando descia para rever a
Cidade Baixa. Deu prá ti, baixo astral.

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  Escrito por Idelber às 20:28 | link para este post



sábado, 22 de janeiro 2005

The Torture Papers /Publicadas

The Torture Papers

/Publicadas 1.300 páginas de documentos que testemunham a evolução da
doutrina da tortura no governo Bush. /

Muito antes de Abu Ghraib, advogados e altos oficiais do governo Bush
escreveram e circularam uma série de memorandos justificando o uso da
tortura (palavra que os documentos evitam, obviamente). Outros, como o
ex-Secretário de Estado Colin Powell, tentaram conter a disseminação da
doutrina do vale-tudo, mas foram inapelavelmente derrotados.

A publicação de The Torture Papers
[link]
é uma vitória para o esforço de tornar pública a paulatina erosão das
liberdades civis nos Estados Unidos. No dia 14 de agosto de 2004, um
tribunal em Nova York ordenou
[link] ao governo a liberação de uma
série de documentos requisitados legalmente pela American Civil
Liberties Union [link] . Nutrindo-se do trabalho deste e
de outros grupos da sociedade civil, os dois organizadores acabam de
tornar públicos os memorandos que detalham a consolidação da doutrina da
tortura como instrumento legal, normal e aceito dentro do governo dos EUA.

A mais completa resenha de Torture Papers
[link]
foi publicada pelo Chronicle of Higher Education
[link] , infelizmente de acesso restrito aos assinantes.

Num memorando ao presidente Bush escrito em 25-01-2002, o conselheiro da
Casa Branca e agora advogado-geral da União Alberto Gonzales
[link] dizia
que a campanha contra o terrorismo era um ‘novo tipo de guerra’ que
tornava as convenções de Geneva ‘obsoletas’. O conselheiro do
Departamento de Defesa, John C. Yoo, em memorando do dia 9 de janeiro de
2002, dizia que ‘o próprio estatuto do Afeganistão como estado
fracassado já é suficiente para definir que os membros da milícia
Taliban não têm o direito de serem considerados prisioneiros de guerra
sob a Convenção de Geneva’. Jack L. Goldsmith, que na época trabalhava
nos Departamentos de Defesa e Justiça, escrevia que é legalmente
permissível transferir prisioneiros para outros países para interrogatório.

Desde a publicação da investigação de Seymour Hersh, Cadeia de Comando
[link] , sabe-se que o
grupo neoconservador que controla a administração Bush já buscava a
invasão [link] do
Iraque muito antes de 11 de setembro de 2001. A publicação de Torture
Papers
[link]
mostra que a justificativa da tortura veio do topo, o que enterra
qualquer teoria de que Abu Ghraib teria sido um ‘abuso’ de uns ‘poucos
soldados’.

Quem foi atrás, organizou e compilou foram Karen J. Greenberg, diretora
executiva do Center on Law and Security da New York University
[link] e Joshua L. Dratel, advogado encarregado da defesa
de um prisioneiro de Guantánamo que processa o governo americano por
abusos. Trata-se de duas pessoas corajosas, para dizer o mínimo. Já
imagino a quantidade de ameaças e ‘hate mail’ que devem estar recebendo.

A publicação acontece semanas depois que o Departamento de Justiça
voltou atrás em sua definição de tortura, que havia sido limitada a
‘atos que causam dor severa equivalente àquela associada ao colapso de
um órgão ou a morte.’ Ou seja, o Departamento de Justiça da democracia
mais antiga do mundo chegou ao ponto de dizer: ‘se não é dor equivalente
à morte ou fim de um órgão, não é tortura’. O mais clássico mecanismo
para justificar a tortura, claro, é redefinir seus limites de forma tão
absurda que qualquer abuso passa a ser aceitável.

O índice desse mapa do horror pode ser consultado online
[link] .

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  Escrito por Idelber às 15:24 | link para este post



quinta-feira, 20 de janeiro 2005

Como eu virei leitor

Como eu virei leitor de blogs

Como milhões de outros residentes dos EUA, eu cheguei aos blogs via
campanha de Howard Dean. Daily Kos [link] e Atrios
[link] foram nossa dieta, nosso permanente 'open
thread' e farrapozinho de esperança miserável. Com suas centenas de
milhares de visitas diárias (na casa do milhão na reta final da
eleição), mobilizaram um movimento cuja importância só agora começa a
ser compreendida. Pode se ter qualquer teoria sobre a derrota de Kerry
para Bush, menos duas: 1. de que perdemos por falta de mobilização; 2.
de que perdemos por falta de dinheiro. Esses fatores, decisivos na
derrota fraudada de 2000, não o foram este ano graças aos blogs.

Num encontro de uma força-tarefa da Modern Language Association
[link] em setembro de 2004, fico sabendo que Michael
Bérubé (amigo e antigo colega em Illinois
[link] ) tinha um blog e entrara ‘undercover’
na convenção republicana para ‘blogá-la’ (o que multiplicou o número de
visitas). São posts hilários, de voz satírica, que me ganharam para a
leitura de blogs. Na ordem: este
[link] , este
[link] , depois
este
[link] e
este [link] . Aí
descobri que havia blogs em português além de diários de adolescente ou
sites de puro jornalismo. Tal era a extensão da ignorância. Pesquisando
a história, não tardou para que eu encontrasse Por um Punhado de Pixels
[link] . Fiquei boquiaberto – tanto e tão
maravilhado com o negócio que num fim de semana de novembro li todos os
arquivos de quase 4 anos, tudo de uma vez. Terminei e havia lido um
romance, conhecido um personagem – com a diferença sensacional que no
blog a coisa continua, sabe-se que haverá um post amanhã. Falei, pô
quero mais desse negócio. Aí eu caí no Catarro Verde
[link] . Eu já era fã do Rude Pundit
[link] . Falei, putz o Sérgio faz o mesmo que
Rude mas muito melhor, com petardos de uma frase, duas frases. O fato de
que o cara assina nome e sobrenome me fez gostar mais ainda. Devorei o
Catarro, [link] a porra toda em uma só talagada.
Falei, é melhor eu me orientar nessa selva aqui. Não tardaram em pipocar
Pensar Enlouquece [link] e LLL
[link] grandes na tela. Nas
primeiras três clicadas nos links da esquerda lá no Inagaki
[link] eu comecei a ter uma dimensão do
tamanho da selva. Mas aí ignorância já havia virado vontade de entrar na
brincadeira – e aqueles links ainda hoje são um mapa prá mim. Quando
saiu o texto do Inagaki sobre a TV Pirata
[link] ,
pensei ‘porra, não tem texto sobre televisão publicado nos jornais por
aí que se compare ao desse cara.’ Tem que respeitar. Aí eu já lia o LLL
[link] diariamente –
concordando com quase nada, mas curtindo o jeitão despojado do blog – e
gostei muito do romance do Alexandre. Apareceram Smart
[link] , Nélson
[link] , Rafael [link] e
outros que se converteram em diárias, além de escritores cujo trabalho
passei a acompanhar. Falei, putz já há semanas que eu não leio nada
encapado, só telinha.

Começar a escrever um blog a sério foi uma forma de ler essas pessoas.
Com os blogs eu tenho a sensação borgeana de orgulhar-me mais dos textos
que leio do que dos que escrevo. Sensação maravilhosa, antídoto contra
as pragas da arrogância e do umbigocentrismo.

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  Escrito por Idelber às 21:52 | link para este post



quarta-feira, 19 de janeiro 2005

New Orleans gears up

New Orleans gears up for Historic Jazz Funeral

(/post de divulgação de evento. O *Biscoito* volta ao português amanhã/)

Fellow New Orleanians:

As John Dos Passos once famously said, we stand defeated in America
[link] .

56 million of us did all we could. We beat them 3 to 1 in our city, but
still it wasn’t enough.

This Thursday we will gather at 10 o’clock for the most important jazz
funeral [link] of our
lives. Dozens of organizations
[link] have joined us.

At Congo Square, in the shade of Louis Armstrong’s
[link] statue, we will mourn the passing
of our democracy. We will mourn for the tens of thousands killed in
Iraq, the hundreds locked up in prisons in Guantánamo and elsewhere, and
the millions deprived of citizenship in our city and all over the nation.

We will march down Rampart Street to Canal. We’ll then proceed toward
the Mississippi River along Canal, then on to North Peters and Jackson
Square, where a rally will be held and a copy of the Patriot Act will be
symbolically destroyed.

There will be live music, street theater, and a host of prominent
speakers. The Tremé Brass Band
[link] will be there and so will
our friends in the Panorama Jazz Band [link] .

Organizers are inviting all who own cameras to bring them along. In
addition to documenting the event, they help protect us from
knuckleheads and provocateurs.

This blog invites all its New Orleanian readers to take part in this
event. If you’re in New Orleans, come meet us at Congo Square, right
there where it all began. If you’re not in New Orleans, please keep us
in your thoughts.

At inauguration time, wherever you are – Brazil, Europe, US – express
your disgust somehow. Let us make this the most embarrassing
inauguration in history.

Pictures of the Jazz Funeral for Democracy
[link] will be posted on this blog
tomorrow.

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  Escrito por Idelber às 00:52 | link para este post



terça-feira, 18 de janeiro 2005

*Sobre New Orleans II*


*Sobre New Orleans II*

A história segregacionista começa com dificuldades: New Orleans estava
cheia de negros livres e cheia também de negros donos de escravos (parte
dos ‘creole’). Por volta de 1880, quando se promulgam as leis de
segregação, proíbe-se aos negros viver do lado uptown de Canal Street e
acontece algo interessante: os ‘creole’ */tornam-se/* negros. Jamais
haviam pensado em si enquanto tais, mas viram-se vitimados e pouco a
pouco toda a população negra vai se consolidando como anglófona. Hoje o
francês não sobrevive como língua nativa de quase ninguém aqui e poucos
são os falantes de ‘cajun’ no interior.

A herança católica é forte, mas trata-se sobretudo de uma cidade que é
herética e politeísta, crente e supersticiosa, litúrgica e pagã. Até
hoje, não há nenhuma garantia *de que ela não será inundada da noite
para o dia* (e todo ano a gente passa um susto), o que talvez explique a
postura de festejo enlouquecido permanente, como se o mundo fosse sempre
acabar amanhã.

New Orleans se parece tremendamente com Salvador. O New-orleaniano
compartilha com o baiano aquilo que eu chamaria de excepcionalismo sem
arrogância. Sistematicamente faz propaganda do caráter único da sua
terra sem nunca falar mal de ninguém.

O Rafael [link] tem razão em supor que a experiência
religiosa aqui é singular. O vudú, que chega cedo (com os haitianos
pós-revolução, lá pros idos de 1810), se combina com mil outras
narrativas, inclusive católicas e angolanas. Há aqui uma inclusividade
radical que é de difícil compreensão para o estadunidense ‘típico’. As
pessoas não são uma coisa ou outra, são uma coisa *e* outra.

Também na questão racial a experiência aqui tem algo de único: ao
contrário de qualquer outra cidade estadunidense, o imigrante branco não
experimenta em New Orleans a tensão racial normal, que é de se esperar,
vinda do afro-americano, que percebe aquele imigrante como possível
competição.

O negro new-orleaniano fala com a tranqüilidade de quem está hospedando.
O que não quer dizer que a população negra não seja explorada pela
indústria do turismo e da música, ainda majoritamente controlada por
brancos.

Mas sim quer dizer que cultural e simbolicamente o povo negro está em
inequívoco controle da cidade, expresso em mil festas: além do carnaval
[link] ,
tomadas rituais das ruas e second lines
[link]
(desfiles em que a gente sai dançando atrás de uma banda de metais pela
cidade).

É a única cidade do mundo onde um policial vai te chamar de *babe*
enquanto conversa com você. Também a única, que eu saiba, onde a morte é
motivo para festa urbana: uma outra tradição de desfiles musicais pelas
ruas, o jazz funeral
[link] .

Por falar nisto, neste dia 20, na posse de Bush
[link] , New Orleans se mobilizará
para um Jazz Funeral for Democracy
[link] .

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  Escrito por Idelber às 21:51 | link para este post




*Sobre New Orleans I


*Sobre New Orleans I *

Rafael Galvão [link] levantou a bola
[link] para
um primeiro post de volta aqui em New Orleans. Rafael mencionava
interesse na questão da religiosidade afro-americana, na qual só vou
tocar de raspão. Depois pode se aprofundar mais. New Orleans é
completamente incompreensível para o paradigma branco-e-pretista com o
qual trabalha o resto dos EUA. Muito multicultural, negra, francesa,
caribenha, mulata, hispânica, católica e bruxa para caber dentro dele.

Trata-se de uma cidade negra. Eu diria, a única grande cidade negra dos
EUA. Sei que a população de Washington, DC é quase 80% negra, mas lá
trata-se de uma cidade dominada pela cultura branca. Aqui não. Os
brancos que estamos em New Orleans estamos aqui para seguir a cultura
negra e vivê-la. Os que não curtiam já foram embora para os subúrbios
nos anos 60, no processo conhecido como /white flight/. Há dois grupos
étnico-raciais que só existem aqui:

1. os ‘*cajun’*, descendentes dos colonos de Acádia, hoje Nova Escócia,
Canadá, que chegaram no século XVII. São católicos, brancos e se
estabeleceram no interior da Louisiana antes de chegar a New Orleans.
Sofreram violenta repressão por serem católicos.

2. os ‘*creole’*, que são os francófonos (brancos e negros) que
começaram a chegar no século XVIII. Já no século XIX, a população creole
é quase toda de ‘free people of color’, ou seja negros não escravos.
Parte dessa população é inclusive dona de escravos durante o XIX.

Estas duas culturas não se confundem: o zydeco
[link] , por exemplo, que é primo do
forró, é uma dança *creole*, não cajun (o correspondente cajun é uma
música à base de cordas, com rabecas e banjos, e mais parecida ao
bluegrass).

A primeira vez que o pau comeu foi franceses e índios Natchez, de 1680 e
poucos até 1731. Ali a população era umas sete mil almas mandando açúcar
e rum para a França e madeira, tijolos e carne para as Índias. Na cessão
de New Orleans para os espanhóis em 1760, pesou na decisão dos franceses
o fato de que a cidade parecia destinada a morrer: atacada por índios,
três metros abaixo do nível do mar
[link] ,
cercada por um lago imenso e um rio caudaloso
[link] , sem saída.
Até 1803 New Orleans foi espanhola, *pero no mucho*. Nos anos 1780 os
New Orleanianos (um pouco como uns Tiradentes) botaram o regente
espanhol para correr. Para onde? Para Havana, cidade que foi o grande
diálogo comercial de New Orleans durante todo o século XIX até os anos
1950. Os gringos adquirem New Orleans à preço de banana, mas em
compensação levam um montão de merdas
[link] que
depois ganhariam a eleição para George Bush
[link] .
A partir daí começa a história segregacionista.

*Foto que ilustra o post*: a tradição dos Mardi Gras Indians, através da
qual os negros honram as tribos indígenas que albergaram escravos
fugidos no século XIX. Os ‘chiefs’ de cada agremiação passam o ano
tecendo suas fantasias (chamadas ‘suits’) e saem no carnaval e em outras
datas, com um batuque de arrepiar. As fantasias concorrem entre si. A
tradição durou todo o século XX e continua forte.

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  Escrito por Idelber às 21:03 | link para este post



segunda-feira, 17 de janeiro 2005

*Fim da blogoférias* Este


*Fim da blogoférias*

Este blog não se propõe ser ´confessional´, primeiro porque há gente
[link] que faz isso melhor,
segundo porque acho que tenho mais a dizer sobre outros assuntos. Mas
compartilho uma coisa. Entrando e saindo de aviões há quase vinte anos –
qualquer merda que lhe ocorra num aeroporto, ligue para este blogueiro
porque a dita cuja já terá acontecido comigo - e sem nenhum ´medo de
andar de avião´ no sentido tradicional (morro de medo de dirigir nas
estradas brasileiras, isto sim), tendo mais milhas aéreas percorridas
que muito piloto por aí, ainda me acomete uma sensação estranhíssima,
uma angústia tremenda, nas horas que antecedem o momento de ir para o
aeroporto, especialmente em viagens longas, internacionais.

Talvez porque na minha vida estes momentos estejam associados ao
atravessar as fronteiras Brasil-EUA-Brasil e, portanto, à sempre
desconfortável (ainda que rica) posição de sujeito cindido entre duas
culturas. Ou três, considerado o fato de que nem sempre tomo o caminho
direto, mas faço um desvio pela Argentina ou pelo Chile, o estudo de
cujas literaturas é o meu ganha-pão.

Talvez seja porque esses momentos estejam sempre associados a reunir-me
com e separar-me de filhos, amigos, irmãos, pai (já morto), mãe e
companheiras.

Não sei, mas chegou ao ponto que é um filminho que eu vivo e assisto
como a gente assiste Shakespeare, sabendo o final: estágio 1, angústia,
estágio 2, euforia (o que não quer dizer alegria), estágio 3, cansaço
físico total (só a Varig e LanChile têm comida que presta), estágio 4,
preguiça de reiniciar, estágio 5, lenta recuperação. Em geral quando a
recuperação ainda não está completa chega a hora de viajar de novo.
Antes de voltar a BH em maio, estarei em pelo menos quatro lugares, Nova
Iorque [link] , Chicago [link] ,
Califórnia e New Brunswick [link] (New Jersey), por
três ou quatro dias em cada um. Isso até agora.

Nesta viagem, aconteceu merda na véspera: 48 horas antes do embarque em
New Orleans, meu laptop pifou. Não um estragozinho na parte que você
xinga (o software), mas um piripaco na parte que você chuta (o
hardware), como diz o Catarro [link] .

Estou tão escolado em desgraças que eu tinha backup de tudo, claro, da
primeira foto dos filhos até a última mísera carta de recomendação.
Chutei o balde e vim sem laptop, já que não tive saco para trazê-lo e
tentar consertá-lo aqui. Sobrevivi legal: graças à infra da(s)
família(s) e amigos, este *Biscoito* não só manteve o pique como
cresceu. Obrigado a todos – são tantos, aliás, que vão ter que aceitar o
agradecimento assim, multitudinário.

O próximo post deste *Biscoito* virá de New Orleans, depois de um bom
sanduíche de siri mole. Já estarei pilotando meu desktop-avião-a-jato,
via super banda larga de Tulane [link] . Prometo pitacos
sobre incentivo estatal à cultura, sobre a não-razão de Raskolnikov para
matar a velhinha, sobre os últimos shows de música em ´Nawlins´ e sobre
o porquê de LLL [link] ser um
de nossos principais blogs políticos – o que quer dizer que seu autor
provavelmente diz bobagem ao dizer que odeia política.

Obrigado a você que conheceu este *Biscoito* na sua mais
recente versão, a belo-horizontina. Até amanhã, direto da Crescent City,
berço do jazz e mais baiana de todas as cidades do hemisfério norte.

*Errei I*: Neste post
[link]
eu errei. A lavagem da escadaria do Senhor do Bonfim ocorre na segunda
quinta-feira de cada ano, claro, e não no dia 13 de janeiro. Obrigado à
leitora que fez a correção. *Errei II*: Ao supor que não há um único
lingüista no país apoiando a Proibição das Pororocas no Português
[link] ,
patrocinada por Aldo Rebelo. Existem pelo menos dois. No entanto,
continuo mantendo que se aparecer algum lingüista defendendo dita lei em
público, eu rasgo meus diplomas. Aposto que esses dois lingüistas jamais
encontrarão este *Biscoito* (e essa será a nossa ´*private joke*´, leitores)

--------



  Escrito por Idelber às 11:45 | link para este post



sábado, 15 de janeiro 2005

** *Com O Pé


**

*Com O Pé no Forró, de Toninho Horta *

***Flávio Couto e Silva *

/(blogueiro convidado e amigo querido/)

Fazendo um balanço dos lançamentos de 2004, pode-se dizer que uma das
maiores e mais surpreendentes alegrias musicais do ano passado foi, sem
dúvida nenhuma, o CD "Com O Pé no Forró", de Toninho Horta
[link] . O disco é uma deliciosa alquimia sonora na
qual o mineiríssimo guitarrista, que foi uma das principais cabeças
harmônicas do legendário Clube da Esquina
[link] e
frequentemente é listado entre os grandes do mundo, esbanjou todo o seu
virtuosismo, sua inventividade e bom gosto. O CD, que é uma homenagem
declarada a Luis Gonzaga
[link] , foi
idealizado e produzido pelo cearense Felipe Cordeiro
[link] , que também assina com Toninho Horta
quase todas as canções. A única exceção a essa bem sucedida parceria é a
antológica "A Vida do Viajante", de Gonzagão
[link] e Hervê
Cordovil
[link] .
Observando o título dessa canção, nota-se que a mesma não aparece por
acaso no repertório do disco. Em 93, Toninho gravou um CD denominado
"Foot on The Rod", no qual ele já sugeria as influências nordestinas
sobre a sua música. Agora, em "Com O Pé no Forró" Toninho com sua
inconfundível pegada e seus acordes-aranha, mergulhou pra valer no
espírito forrozeiro de uma sala de reboco com chão de terra batida.
Basta dizer que quem o acompanha nessa empreitada, segurando a levada do
fole, é ninguém menos do que o mestre Dominguinhos
[link] , que também solta o seu vozeirão em
duetos antológicos com o anfitrião, nos quais ambos declaram admiração e
respeito mútuos. Mas não fica por aí. Também participam dessa obra
prima, Elba Ramalho [link] , Raymundo
Fagner [link] , Miguel Cordeiro, além da
participação de feras como os também mineiros Esdras Ferreira (o Neném),
na batera, Yuri Popov, no baixo e mais um time de músicos da pesada.
Destaque para a maravilhosa voz da cantora Thaís Nara, interpretando "A
Magia do Olhar". Aliás, nesse disco, Toninho Horta também está exibindo
um ótimo desempenho vocal, bem mais maduro e equilibrado do que em
trabalhos anteriores. Quanto a sua performance guitarrística - sempre
impecável - ele apresenta nesse CD, simplesmente o apogeu de sua forma e
de seu estilo. Além de segurar a onda das guitarras e dos violões,
Toninho é responsável também por todos os arranjos e pela direção
musical do disco. O CD foi lançado pelo selo Minas Records
[link] , do
próprio Toninho Horta. Este, cansado de ver os seus discos lançados
grande parte das vezes apenas no exterior em função do reduzido mercado
brasileiro para a música instrumental, resolveu investir no seu próprio
selo, produzindo ele mesmo os seus discos e, de quebra, abrindo espaço
também para outros talentos. Recomendação: Ouça bem quietinho,
saboreando nota por nota, por que é biscoito muito fino. Mas se quiser
depois, chame o seu benzinho e caia no xote bem chamejado. Parabéns,
Toninho Horta.

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  Escrito por Idelber às 17:26 | link para este post



sexta-feira, 14 de janeiro 2005

*Eu gostaria de saber


*Eu gostaria de saber o que sabem*

o *Nemo Nox* [link] sobre cinema

a *Beatriz Sarlo* [link] sobre sociologia da arte

o *Juca Kfouri* [link] sobre os bastidores do
futebol

o *Hermano Vianna* [link]
sobre a música no Norte/Nordeste

a *Graciela Montaldo*
[link]
sobre a literatura do século XIX

a *Sara Fazib* [link] sobre a palavra exata

o *Carlos Sandroni* [link]
sobre a história do samba

o *Gerald Thomas* [link] sobre teatro

o *José Miguel Wisnik*
[link] sobre
teoria musical

o *Michael Bérubé* [link] sobre política americana

o *Mike Zwerin* [link] sobre
jazz

a *Lya Luft* [link] sobre a
respiração da frase

o *Paulo Vinícius Coelho*
[link] sobre a
história do futebol

o *Augusto de Campos* [link]
sobre línguas

o *Raúl Antelo*
[link] sobre a
cidade de Buenos Aires

o *Inagaki [link] , *o *Rafael*
[link] e o *Nélson*
[link] sobre blogagem

Será que um dia eles sonharam viver num mundo sem
especialistas?

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  Escrito por Idelber às 16:27 | link para este post



quinta-feira, 13 de janeiro 2005

*Ai que prego! *


*Ai que prego! *

Daqui a cinco dias estarei de volta ao imenso cansaço de ter acompanhar
a política americana: privatização *do Social Security*
[link] ,
um *defensor da tortura como advogado-geral da União*
[link] ,
mais *genocídio no Iraque* [link] . O
Partido Democrata continua brochando, jogando aquele vergonhoso jogo de
tentar parecer moderado para que não possa ser taxado de ´liberal´ (meu
Deus!) pelos extremistas no poder. Ah, o imenso cansaço da política.

*Descanso*

Mas como diz o cliché, há que se ver pelo lado positivo. Já não terei
que acompanhar a política brasileira. Iuuuuhuuu!! O que eu tinha a dizer
sobre o governo Lula* já está dito*
[link] .Continuo
firme e forte na minha dieta de jornais. Na última semana li 6
livros, incluindo dois romanções, e somente dois jornais (*Folha* e
*Globo* de domingo, ambos fracos, aliás). Melhor decisão da vida. É como
parar de fumar, requer esforço, mas faz muito bem à saúde.

*Via **Pedro Dória*
[link]

Blogueiros continuam sendo *despedidos dos seus trabalhos*
[link] ,
tanto que já há gente compilando *listas de companhias que os
despediram*
[link] .

*Entra-e-sai no iPod*

Já sei que quem ainda não tem vai xingar, mas eu deveria ter comprado um
iPod de 40 Giga, em vez do de 15 Giga. Acadêmico pão-duro é dose. Tentar
pôr minha coleção de CDs numa maquininha que só comporta 4400 canções
(ou 300 e poucos discos) é como tentar colocar Belo Horizonte dentro de
Sabará. Ultimos movimentos no meu iPod: saiu a *Banda do Corpo de
Bombeiros* (1905-15) e entrou *London Calling*, do *Clash*. Saiu quase
tudo do *Terror dos Facões* (Rio Grande do Sul, 1920s) e entrou *Essa
Boneca tem um Manual*, de *Vanessa da Mata* (lindo disco, presente da
leitora e amiga Cipy). Saiu *Alfredo de Angelis* (tango clássico) e
entrou *Closer*, do Joy Division. Saiu metade do CD *Francisco Alves
Seresteiro* e entrou *Max de Castro*. Por aí vai. Adoro ter caixas com
gravações pré-1930, mas ouço-as muito pouco, elas requerem outro tipo de
escuta. A música mais executada no meu iPod este ano é ´Mesa de Bar´, na
voz de Alcione e Ed Motta. A canção é o mais puro Gonzaguinha. Lembra
não? Está *neste disco aqui*
[link] .


*Laura e Alexandre*

Com o iPod, ficou resolvido que vou dar, um por um, os meus CDs aos
filhos. Alexandre, 8 anos, que é Beatlemaníaco e conhece *Revolver*,
*Rubber Soul*, *Sgt. Peppers* e *Album Branco* de cor e salteado, me
disse ´pai, eu ando interessado mesmo é em rock´. Então rock na veia
dele! Levou *Are you experienced?* de Jimi Hendrix. A Laura, 5 anos,
cujo disco favorito é o dos *Tribalistas*, levou *Verde Anil Amarelo Cor
de Rosa e Carvão*, de Marisa Monte. Laura me autoriza a dizer aqui no
blog que entre as duas canções clássicas com seu nome (a de Ataulfo
Alves e a de Braguinha), ela prefere a primeira, que tem mais ginga.

**

*Não rolou, Bahia*

Eu cheguei a reservar passagem para ir hoje à festa da lavagem da
escadaria do Senhor do Bonfim. Incontáveis vezes estive lá naquela terra
abençoada, mas nunca num 13 de janeiro. Obrigado aos amigos baianos que
chamaram, incentivaram, ofereceram colchão. Obrigado a *ela*, que fez o
convite. Foi uma decisão dura: são os últimos dias com os filhos e a
companhia deles é boa demais. Mas que um dia eu vou a essa festa, ah,
isso eu vou.

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  Escrito por Idelber às 12:38 | link para este post



quarta-feira, 12 de janeiro 2005

*Feliz Aniversário, José Reinaldo


*Feliz Aniversário, José Reinaldo de Lima *

Ontem foi aniversário de quem alegrou a minha infância e adolescência.

*José Reinaldo de Lima*
[link]
completou 48 anos.

Reinaldo foi o maior jogador da história do *Clube Atlético Mineiro*
[link] e um dos maiores centroavantes da história
do Brasil.

Ele fez 256 gols com a camisa do Galo.

Entre 1976 e 1983 nós íamos ao estádio tranqüilos, com a segurança de
que o time trituraria os adversários. Ganhamos todos os campeonatos
mineiros daquele período, exceto um. Reinaldo comandava a orquestra.

Jamais vi alguém driblar no espaço de um guardanapo, *como ele fazia*
[link] .

Com a exceção de Pelé, nenhum jogador foi tantas vezes chamado de Rei.

Se você não vê nenhuma beleza plástica no futebol, consiga um vídeo do
gol elegido como o mais bonito da história do Mineirão. Ele aconteceu no
jogo Atlético-MG 6 x 0 América-RN, pelo Campeonato Brasileiro de 1977.

Reinaldo recebe a bola na entrada da área de frente para o gol. Três
zagueiros adversários o aguardam. O goleiro olha-o fixamente. Ele gira o
tronco para a esquerda, como se fosse tentar driblar. Não toca na bola.
Os zagueiros o acompanham. Ele gira de volta no mesmo minuto e exatos
quatro seres humanos caem no chão, tortos, pela pura rapidez do
movimento-contra-movimento do seu ombro. Até aí ele não tocou na bola.
Já com o goleiro caindo, Reinaldo bate no canto e sai para o abraço.

Fez gol de tudo quanto foi jeito. Há um histórico, em 1982, em Paris,
contra o Paris Saint-Germain, em que ele dribla 7 jogadores adversários
no espaço de uns poucos metros. O último a ser driblado observa o gol e
começa a aplaudir.

Levantava o punho direito fechado nas comemorações: gesto da
Internacional Socialista, que demorou tempos para ser compreendido e
reprimido nos estádios.

Nenhum jogador brasileiro sofreu tanto com as botinadas criminosas dos
brucutus. Aos 21 anos, Reinaldo já não tinha nenhum menisco. Foi mais
punido pelos árbitros por reclamar da violência do que seus algozes por
perpetrá-la. Genocidas como Morais e Darci se cansaram de pisá-lo,
humilhados pelos seus dribles.

Mancando, com 150.000 flamenguistas chamando-o de ´bichado´, ele *calou
o Maracanã duas vezes* [link] .

No Mineirão, o coro *Rei Rei Rei / Reinaldo é nosso Rei* ecoa até hoje
sempre que ele visita o estádio.

Depois de precocemente encerrada a carreira, teve problemas com drogas e
com dinheiro. Levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.

É hoje vereador em Belo Horizonte. Onde vai, é recebido como o genuíno
*Rei* que é.

Minha adolescência não teria sido a farra que foi não fosse por ele.

Obrigado, *Rei*. Happy Birthday.

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  Escrito por Idelber às 17:02 | link para este post | Comentários (1)



terça-feira, 11 de janeiro 2005

*Tom Jobim na Era


*Tom Jobim na Era do Micro* (/cortesia do mano Alysson/)

(para melhor efeito, cantarole na
melodia)

É pau, é vírus

É o fim do programa

É um erro fatal

O começo do drama

É o turbo pascal

Diz que falta um login

Não me mostra onde é

E já trava no fim

É dois, é três, é o 486

É comando ilegal

Essa merda bloqueia

É um erro e trava

É um disco mordido

HD estragado

Ai meu Deus tô lascado

São as barras de espaço

Exibindo um borrão

É a promessa de vídeo

Escondendo um trojan

É o computador

Me fazendo de otário

Não compila o programa

Salva só o comentário

É o ping , é o pong

O meu micro me chuta

O scan não retira

O vírus filho da puta

O Windows não entra

E nem volta pro DOS

Não funciona o reset

Me detona a voz

É abort, é retry

Disco mal formatado

PC Tolls não resolve

Norton trava o teclado

É impressora sem tinta

Engolindo o papel

Meu trabalho de dias

Foi cuspido pro céu...

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  Escrito por Idelber às 15:13 | link para este post




*Erros de Português que


*Erros de Português que este Biscoito se permite: *

Uma das maravilhas de se ter um diploma em Economia deve ser poder
fechar uma discussão sobre *as prioridades sociais do governo*
[link]
com um peremptório, ´*ah mas isso os mercados não agüentariam*!´ Os
diplomas em Direito servem para muita coisa, inclusive para ameaçar.

Os reles diplomas em Letras não servem para nada tão grandioso, mas
conferem ao seu proprietário um maravilhoso privilégio: o de escrever
sem ser importunado pela polícia da gramática. Apesar de cometer
regularmente incontáveis heterodoxias morfológicas ou sintáticas, nunca
fui vítima dela, neste *Biscoito* ou em outro lugar.

Em solidariedade com todos aqueles que já foram importunados pela
polícia da gramática, preparei uma listinha dos *seis erros de português
*mais recorrentes neste *Biscoito*.

*Recusa sistemática da mesóclise*: pasmem, mas a gramática normativa
ainda nos manda usar, no futuro simples e no futuro do pretérito, o
pronome intercalado. ´Escrevê-la-ei´ e ´Quebrá-lo-ia´ são, nos dizem os
gramáticos, as únicas formas corretas. Este *Biscoito *as despreza,
junto com outros 99% dos falantes de português.

*Recusa de qualquer combinação de pronomes oblíquos: *´Eu *lha*
escreverei´ é a forma correta de contrair a frase ´Eu escreverei a carta
a ela´. Este *Biscoito* acredita que os gramáticos deveriam
simplesmente enterrar essa regra logo.

*Uso incongruente dos pronomes reto e oblíquo: *como todos os mineiros,
eu uso de forma incongruente os pronomes reto e oblíquo da
segunda/terceira pessoa. O reto é ´você´ mas o oblíquo é ´te´. ´Você
pode devolver aquele livro que eu te emprestei?´ é frase aceita no
português falado em Minas e escrito neste *Biscoito*. A diferença entre
´você´ (pronome que tem pragmática de 2ª pessoa e conjugação de ´3ª
pessoa´) e ´tu´ (pronome de ´2ª pessoa´ não utilizado em todo o Brasil),
assim como as variantes, é um dos pesadelos do falante não-nativo de
português.

*Uso liberalizado dos sufixos para formar palavras ainda não aureliadas:
*a lista de palavras ainda não aureliadas e utilizadas neste *Biscoito*
inclui: farrapento, tutamélico, fascismozinho, estalinóide, piripaco,
proustices, mastodôntica, aureliado. Não por coincidência, quase todas
aparecem em minhas diatribes contra a lei Aldo Rebelo.

*Uso regular de estrangeirismos:* assim como a maioria das crianças e
adolescentes urbanos de hoje no Brasil, o autor deste *Biscoito* usa a
palavra ´deletar´ e vai rir de orelha a orelha quando ela for
dicionarizada.

*Frases sem verbo, em forma de manchete:* sempre que o verbo parece
supérfluo, este *Biscoito* chuta o balde da obrigatoriedade de sua
presença na frase.

Este *Biscoito* se filia à *linha oswaldiana*
[link] de celebração da
contribuição milionária de todos os erros.

PS 1: *Quer curtir música de primeira*? Visite uma das melhores rádios
independentes do mundo, a nossa *wwoz.org* [link] , de New
Orleans. Programação à base de muito jazz (do dixieland ao experimental)
e vários outros ritmos de New Orleans (funk, soul, zydeco) e da diáspora
africana. Nos sábados de 14 às 16 horas (de 18 às 20, horário de
Brasília nesta época) há um programa de música brasileira. Happy listening!

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  Escrito por Idelber às 11:44 | link para este post | Comentários (1)



segunda-feira, 10 de janeiro 2005

*Dostoiévski, parte I *


*Dostoiévski, parte I *

Os romances mais famosos de *Dostoiévski*
[link] foram escritos depois de quatro anos
de trabalhos forçados na Sibéria, no começo da década de 1850. O irônico
é que a associação de Dostô com o grupo populista de Petrachévski foi
muito tênue e se resumiu a umas poucas reuniões. A inspiração do grupo
não era marxista. Vinha dos falanstérios de Fourier ou do igualitarismo
utópico de Proudhon – as duas correntes foram influentes na Rússia de
meados do XIX, através de livros como *Destinée sociale*, de Considérant.

Quando preso, Dostô não era um joão ninguém. Já era um reconhecido jovem
talento e havia publicado clássicos como *Pobre Gente* ou *O Duplo*. Mas
as oito grandes narrativas da maturidade foram escritas depois de uma
conversão ao eslavismo conservador e à igreja russa ortodoxa, durante os
quatro anos em que carregou pedras na Sibéria. Depois Dostoiévski
desenvolveria um profundo desprezo pelo liberalismo europeizante e pelos
vários socialismos e comunismos. Cultivou também uma violenta vontade de
comprendê-los - por isso seus romances estão cheios de revolucionários e
reformistas, socialistas e liberais. No *mais canônico estudo sobre a
obra de Dostoiévski*
[link] ,
o pensador russo Mikhail Bakhtin o define como romancista polifônico –
há uma tal multiplicidade de vozes em seus romances, uma tal Babel, que
narrador nenhum consegue sistematizá-los. O narrador de Dostoiévski não
se credencia com o leitor ao ponto de cancelar a credibilidade da
personagem quando esta fala por si mesma. Você se sente agarrado por
vários lados. Todos ´têm razão´. Babel é forte, mesmo que algumas
personagens representem coisas que Dostô despreza profundamente. Isso é
um romance polifônico.

O pensador alemão Nietzsche creditava Dostoiévski com a compreensão
definitiva do fenômeno do niilismo. Para Nietzsche, o niilismo não é uma
invenção moderna, mas na modernidade ele teria chegado à sua consumação
planetária. Tendo começado mesmo com Sócrates, piorado com o Crucificado
e alcançado o desastre completo na modernidade - o abismo onde dá tudo
na mesma – o niilismo recebe sua autópsia, para Nietzsche, no romance
*Os Demônios*, de Dostoiévski, a história de um grupo de jovens
revoltados e terroristas na desesperançada Rússia do século XIX. Como
dito num post anterior, se alguém na administração Bush tivesse lido e
levado a sério *Os Demônios*, nós viveríamos num planeta mais pacífico.

Para o comunista Marx, foi o monarquista conservador Balzac quem pintou
a mais perfeita imagem do movimento da luta de classes. Para o
anti-cristo Nietzsche, foi o carola Dostô quem mais fundo penetrou no
niilismo da moderna juventude atéia. Coisas da literatura.

PS 1 *por falar em niilismo*: Saiu *meu balanço dos dois anos do governo
Lula no InfoBrazil.com*
[link]
(infelizmente só está disponível em inglês). Meu agradecimento a Adhemar
Altieri pelo gentil convite e pela revisão cuidadosa do ensaio.

PS 2* por falar em niilismo*: muito obrigado ao Prof. John Schmitz da
UNICAMP por conferir detalhes da tramitação da Lei Aldo Rebelo, também
conhecida como *Proibindo as Proustices no Portuga do Povão*
[link] .
Este blogueiro está registrado no serviço do Congresso Nacional que
oferece atualização por email na tramitação de leis. A página web do ex
deputado (agora ministro) autor da lei não está atualizada. Mas que este
*Biscoito* vai gritar se a lei passar, ah, isso vai.

PS 3 *por falar em niilismo* (informação que me chega via *Smart*
[link] via *Augusto Nunes*
[link] ):
Última invenção do governo Lula: diplomata que não sabe inglês!! É mole?
Só falta agora promover o monoglota-por-convicção Itamar Franco para a
embaixada em Washington. Aí fica bonito...

PS 4: Esta semana não tem disco. Sábado volta a resenha discográfica.

Próximo post sobre Dostoiévski: A utilidade do romance *O
Idiota* para a conjuntura brasileira atual.

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  Escrito por Idelber às 15:44 | link para este post



sábado, 08 de janeiro 2005

*Discurso do Deputado John


*Discurso do Deputado John Conyers no Congresso Americano *

*6 de janeiro*

We are here today, not as partisans for one presidential candidate or
another, but because we want to do our duty under the Constitution to
protect our democracy. We are here because of the inner city voter in
Franklin County, who waited ten hours in the pouring rain, while
suburban voters in the same county had no wait because election
officials decided to reallocate voting machines from Columbus to the
suburbs.We are here because of the Hispanic voter in Hamilton County who
was directed to the wrong voting table, and had their ballot thrown out
because of a decision by the Secretary of State to throw out ballots
cast at the right polling place but the wrong precinct. We are here
because of the elderly voter in Lucas County who requested an absentee
ballot that never showed up and was refused a provisional ballot because
of another partisan decision by the Secretary of State. We are here
because of the new voter in Delaware County, whose registration form was
thrown out because it did not meet the paper weight requirements of the
same Secretary of State. We are here because of the African American
voter in Summit County, who was targeted with an unlawful voting
challenge because of her race and because she refused to answer a
certified letter from the chairman of the Republican Party.

Most of all we are here because not a single election official in Ohio
has given us any explanation for the massive and widespread
irregularities in that state: No explanation for the machines in
Mahoning County that recorded Kerry votes for Bush - No explanation for
the improper purging in Cuyahoga County - No explanation for the lock
down in Warren County - No explanation for the 99% voter turnout in
Miami County - No explanation for the machine tampering in Hocking County.

The debate we have today will not change the outcome of November's
election. We know that. But out of today's debate, I hope this Congress
will respond to our challenge: A challenge to hold true bipartisan
hearings to get to the bottom of what went wrong in Ohio and around the
Nation on election day.

A challenge to show the same concern about voter disenfranchisement in
this country that we show in Afghanistan and the Ukraine, and Iraq. A
challenge to enact real election reform; that gives all citizens the
right to a provisional ballot; that gives all voters a verifiable paper
trail; and that bans election officials from serving as campaign chairs.

The thing we should never fear in Congress is a debate, and the thing we
should never fear in a democracy is the voters. I hope that today we
have a fair debate and four years from now, we have an election all our
citizens can be proud of.

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  Escrito por Idelber às 11:58 | link para este post




*Na blogosfera* Começa no


*Na blogosfera*

Começa no dia 31 de janeiro o papo sobre Dostoiévski na blogosfera.
Respeitando o pedido do *Alexandre*
[link] , não direi nada sobre
*Crime e Castigo* até lá, mas farei um ou dois posts sobre Dostoiévski
em breve. Não há escritor com vida mais fascinante e maluca. Neste
momento estou lendo *Os Demônios* na nova (excelente) tradução de Paulo
Bezerra. Por incrível que pareça, o presidente Bush não leu os
*Demônios* nem consultou um especialista no romance antes de bombardear
o Afeganistão. *Os Demônios* narra a gênese do terrorismo em sua forma
moderna, a de explosões indiscriminadas em pontos urbanos com grande
concentração humana: fruto direto da crise do movimento anarquista
russo. Dostô, como sempre, mergulha a fundo no esterco humano.

Quando fizermos a compilação dos melhores momentos da blogosfera
brasileira, eu votarei *neste post aqui*
[link] .

Só pode ter saído muito bacana *um bebê que foi ninado ao som do Exile
on Main Street*
[link] .
É o melhor disco dos Stones, sem dúvida.

Você sabia que a união civil entre pessoas do mesmo sexo *é legal na
província de Buenos Aires*
[link] ?
E que em Buenos Aires realizou-se a segunda maior manifestação da
história *a favor da descriminalização da maconha*
[link] ?


Lá no *Burburinho* [link] há um *belo texto de
Ayrton Mugnaini Jr. sobre Noel Rosa*
[link] . Por incrível que pareça, a
bibliografia sobre Noel é bem escassa. Ainda há muito o que se dizer.
Para quem se interessa, um bom ponto de partida é o já clássico livro de
Cláudia Neiva de Matos, *Acertei no Milhar: Samba e Malandragem no Tempo
de Getúlio*
[link] .


Alguém por favor avise ao *Biajoni* [link] que
*este disco do Lyle Lovett é muito chato*
[link] !

Estará disponível hoje à noite no site *InfoBrazil.com*
[link] o meu balanço dos dois primeiros anos do governo
Lula. O texto não foi escrito sem certa dor.

Neste *post anterior*
[link] , eu
esqueci de mencionar a linkagem e/ou comentários boa praça de *André
Lopes* [link] , da poeta *Ana Peluso*
[link] e da nova amiga deste *Biscoito* em Paris,
*Sheila Leirner* [link] . Thanks!

*No papel*

Cortesia de *Paloma Vidal* [link] ,
chegou às minhas mãos o terceiro número da revista literária bilíngüe
*Grumo*, editada entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires: poemas,
entrevistas, contos e ensaios da melhor qualidade, com um trabalho
editorial impecável. O número 3 inclui um lindo conto inédito de
Silviano Santiago. Eu escreverei um ensaio para o próximo. O contato com
a *Grumo* pode ser feito via revistagrumo@hotmail.com
[link]

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  Escrito por Idelber às 10:09 | link para este post



quinta-feira, 06 de janeiro 2005

The Letter of Violence

Eu tinha três assuntos para a blogagem de hoje, mas chegou um ´pacutim´ no correio que merece prioridade. *Saiu meu segundo livro*! Woo hoo!

O segundo livro da gente é como a segunda boa trepada de um ser humano,
o segundo hit de uma banda, o segundo título de um time ainda não é um
*Galo*. A gente faz *o primeiro*
[link]
direitinho, mas só no segundo você passa da fase ´ok, fiz um legal´ para
a fase ´I can do this´. O biscoito chama-se *The Letter of Violence:
Essays on Narrative, Ethics, and Politics* e pode ser encomendado
*direto na editora Palgrave*
[link] ou
*na Amazon*
[link] .
Custa 22 mangos gringos, o que é um absurdo, eu sei.

A introdução é um comentário acerca das novas tecnologias de destruição.
O capítulo 1 debate a tortura a partir da sua representação no cinema
(por Polanski em *Death and the Maiden*
[link] ) e de um curioso dado
historiográfico levantado por pesquisadores recentes: na origem da
democracia em Atenas, o depoimento jurídico dos escravos só era
considerado verdadeiro quando extraído sob tortura. A tortura era uma
das formas de estabilizar a cambaleante distinção entre o cidadão livre
e o escravo. Aquele jamais será torturado. Este deve ser torturado para
que diga a verdade. Disso eu tiro algumas conclusões sobre tortura e
verdade, tortura e democracia.

O capítulo 2 lida com o problema da ética da interpretação a partir de
uma deliciosa historinha de Jorge Luis Borges, ´*El etnógrafo*
[link] ´.
O capítulo 3 é um estudo do tratamento da violência na obra do filósofo
francês Jacques Derrida, incluindo-se aí uma polêmica sobre a a natureza
da violência nos territórios ocupados da Palestina. O capítulo 4 é um
longo estudo sobre o romance colombiano em meio às várias guerras civis
do país no século XIX. O epílogo é uma reflexão-zinha sobre onde andam
as coisas nos EUA desde o bombardeio do Afeganistão.

Se você mora no Brasil, é leitor deste *Biscoito* e gostaria de receber
um exemplar pelo preço de autor, envie-me um email (iavelar@tulane.edu
[link] ). O preço de autor deve andar por volta dos
12 ou 13 dólares. No dia 18 eu ponho no correio. A cervejinha de
comemoração está adiada até eu terminar um texto que estou escrevendo
com muito cuidado, o balanço do governo Lula para o *InfoBrazil.com*
[link]

PS: *As maravilhas da vida de quem não lê jornal*: o *New York Times*
[link] publicou o *seu insulto anual*
[link]
contra a associação profissional à qual eu pertenço, a *Modern Language
Association* [link] (que congrega os professores
universitários de línguas e literaturas nos EUA). O *MLA*
[link] se reúne anualmente entre o Natal e o Ano Novo, em
geral com cerca de 10.000 acadêmicos. Dia 2 ou 3 de janeiro, é batata: o
*NYT* [link] publica a brincadeirinha de mau gosto de
algum jornalista que vai lá e fuça o programa em busca de dois ou três
títulos que possam ser ridicularizados quando postos fora de contexto.
Meu bróde véio *Michael Bérubé* [link]
*protestou contra a palhaçada*
[link] .
Por sorte, gente como *Michael* [link] continua
levando essa desigual e importante luta. Eu já me cansei e chutei o balde.

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  Escrito por Idelber às 18:09 | link para este post



quarta-feira, 05 de janeiro 2005

/*Night and Day*/*, de


/*Night and Day*/*, de Virginia Woolf.*

Acabei de ler um livraço.

Se você é dos leitores formados no romanção do século XIX que tentaram
Woolf via *The Waves* ou *To the Lighthouse* (ou mesmo *Orlando*) e
abandonaram o texto porque o experimentalismo incomodava, esta é a porta
de entrada a essa escritora extraordinária. *Night and Day* é o segundo
romance de Woolf e foi publicado em 1919. Mas tudo se passa como se a
Primeira Guerra ainda não houvesse ocorrido. Estamos longe do que
estavam fazendo na Europa, naquela época, Musil ou Joyce. Longe do que
faria Woolf depois. Nada de fragmentação do texto. *Night and Day* é
quase um romance vitoriano, pelo menos na superfície.

São quase 500 páginas numa compacta edição da Penguin, 34 capítulos, 5
protagonistas e uma galeria de personagens secundárias digna de novela
da Globo. O pano de fundo é a decadência da aristocracia literata (já
convertida em caricatura) e, no outro extremo social, o movimento das
suffragettes. O narrador onisciente usa com freqüência o discurso
indireto livre - ‘entra na cabeça’ dos personagens sutilmente, mas
nunca destruindo a distância temporal que o separa deles. A história
envereda por labirintos e laços múltiplos entre esses cinco personagens:
inveja, amor, infatuation, traição, voyeurismo, impostação, humilhação
social.

Katharine Hilbury é neta de um aclamado e já falecido poeta. Esvaziados
os rituais da aristocracia literária na qual nasceu, Katharine colabora
com a mãe numa obra sobre o avô que nunca chega a lugar algum. Mrs.
Hilbury é uma personagem secundária, mas comiquíssima em seu quixotismo
literário. À medida que avança o romance, a filha Katharine vai se
transformando numa personagem cada vez mais complexa – entram em cena
dois homens, Ralph Denham e William Rodney. William é um literato de
salão, sonetista de plantão, galã da mesma classe social de Katharine.
Frequenta a casa. É isso, mas não uma caricatura desprezada pelo leitor.
Tem sentimentos, eles vão se complexificando também e o narrador não o
satiriza. Ele dará algumas reviravoltas ao longo da narrativa. Ralph é o
pobretão, sem pai, arrimo de família com mãe entrevada e uma série de
irmãos. Ganha a vida labutando e chega nessa cena por acaso. Escreve
artigos para a imprensa e nas horas vagas também é poeta. Obviamente tem
com a literatura uma relação oposta à de William. Mary Datchet vem da
classe média radicalizada e participa do movimento pelos direitos
eleitorais da mulher. Mais tarde, entra em cena Cassandra Otway, prima
de Katherine, que aparece primeiro como fã do (presumimos) fútil drama
em versos inédito de William.

Resumindo um argumento que mereceria ser filmado por Almodóvar ou
transformado em novela da Globo, ocorre o seguinte: 1. as bravatas de
Rodney conquistam espaço na casa dos Hilbury. 2. Enquanto nos
familiarizamos com Mary e o movimento suffragette (descrito sem ironia,
com filigranas e diferenças entre personagens secundários), nos damos
conta de que William Rodney e Katharine Hilbury estão noivos. 3 A
personagem de Ralph vai se consolidando como identificação do leitor
masculino: autêntico mas não piegas, respeitoso mas nunca humilde, ele
vai crescendo como figura – nós, leitores, sabemos que William e
Katharine noivaram, mas ele não. 4 Acompanhando Mary em suas reuniões,
começamos a suspeitar que ela ama Ralph. 5. Vai se caracterizando um
certo egocentrismo em William Rodney e uma percepção de Katharine de que
o que os une não é amor. 6. Vai ficando claro o amor de Ralph por
Katharine. 7 Quando Ralph recebe a notícia do noivado, este já está em
crise: enquanto ele purga seus ciúmes, entra em cena Cassandra Otway,
leitora de Rodney e prima de Katherine, mais devota e mais bajuladora
(mais submissa como mulher) que Katharine. 8 Ralph se declara
inutilmente, no desespero, a Katharine e ao ser rejeitado, para piorar,
procura Mary para despejar a história – a mesma Mary que está apaixonada
por ele. 9. Pouco a pouco, vai se formando entre Ralph e Katharine um
amor estranho. Mary continua amando Ralph mas adota a linha ´mulher
compreensiva´ 10. Cassandra e William vão se apaixonando.

Essa história ainda dá mil reviravoltas e termina com a chegada do pai
de Katharine, figura masculina apagada, que se dá conta de que os casais
haviam trocado. O final é super surpreendente. O livro *pode ser lido
online* [link] .

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  Escrito por Idelber às 12:15 | link para este post




Ler mais livros e

Ler mais livros e menos jornais


Grande resolução de Ano Novo: sair da vida miserável de ser humano que
lia quatro jornais por dia (*Folha* [link] ,
*NYT* [link] , *JB* [link] ,
*Página 12* [link] ) e bisbilhotava outros 15
semanalmente. Agora é assim: os que eu lia diariamente eu vou fuçar a
cada dois dias, e os que eu bisbilhotava não vou nem olhar. Mais livros
e menos jornais será a pauta. Já devorei 7 livros neste ano novo: 2 de
poesia, 4 de narrativa (incluindo um romanção) e 1 de ensaios. Aqui vai
a fichinha de seis deles. O romanção vai no próximo post.

Caixinha-trilogia *BH a Cidade de Cada Um: *A simpática caixinha da
Conceito custa 45 mangos e traz três livros de crônicas ou contos sobre
marcos da cidade.

1. *O Estádio Independência*, do cronista esportivo Jairo Anatólio Lima:
crônicas sobre o maior estádio de Minas entre 1950 e 1965. Para quem
gosta de futebol é um prato cheio. Um certo saudosismo gratuito empana o
texto, mas há bons momentos. Como se sabe, o Estádio Independência foi
palco daquela que é considerada a maior zebra da história do futebol, a
vitória dos EUA sobre a Inglaterra na Copa de 50. O que eu não sabia era
que os ingleses haviam desprezado tanto os americanos (que vinham de
derrotas de 9 x 0 contra a Itália e 5 x 0 contra um time turco) que
ficaram jogando cricket em Nova Lima, enquanto os estadunidenses tomavam
cachacinha e Jack Daniels com os mineiros e conquistavam a torcida.
Jogaram incentivados por 22 mil pessoas, quando ainda cabia isso no
Independência. Depois do jogo, BH festejou a partida dos
ingleses. Peguei-me pensando quão inimaginável seria, hoje, os
americanos conquistarem a torcida de algum lugar do mundo.

2. *Mercado Central*, do letrista Fernando Brant: serve como um guia de
alguns dos pontos mais legendários desse labirinto animal, vegetal e
mineral que é o Mercado de Belo Horizonte. Mas como texto, achei fraco e
repetitivo.

3. *Lagoinha*, do contista Wander Piroli. De longe, o melhor dos três
livros. Piroli mistura ficcionalização, crônica memorialística e um
toquezinho de etnografia. São relatos desse bairro que foi uma mistura
de Bexiga com Lapa (boêmio mas operário) e que morre hoje na miséria,
destruído pelos viadutos do centrão de BH. Piroli constrói personagens
incríveis nessa desolação: autores de crimes passionais, prostitutas com
o último dente na boca, o escambau. *Vale a caixinha*.

4. *Poros* (1989), de Rubens Rodrigues Torres Filho. O autor é
poeta-filósofo, essa mais anti-platônica das combinações. É tradutor de
Nietzsche, Benjamin e Novalis, entre outros. Comecei a conhecer sua
obra poética por este livro e gostei muito. O livro alterna mini-poemas
e parágrafos em prosa poética. A experiência do Romantismo alemão
(pensar a linguagem como *abismo*) marca muito seus escritos.

5. *Páginas Amarelas* (1988), de João Moura Jr. Outro volume de poesia
da coleção Claro Enigma. Esse eu já gostei muito menos. Dicção mais
verborrágica e uma tentativa de humor que não funcionou comigo.

6. *Blogs: Comunicação e Escrita Intima na Internet* (2004), de Denise
Schittine. *Óia nóis* aqui como objeto de estudo! Bela dissertação de
mestrado em Comunicação, agora publicada pela Civilização Brasileira. A
autora reuniu um corpus de blogs ‘confessionais’ e armou a análise a
partir do problema do público versus o privado no blog. Toca em pontos
interessantes, como a natureza do segredo no diário íntimo e a
transformação desse segredo com a internet. Muito bom mesmo. Há lacunas,
claro, e a seleção de blogs poderia ter sido mais representativa, mas é
uma primeira espanada muito lúcida sobre o tema.

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  Escrito por Idelber às 10:30 | link para este post



segunda-feira, 03 de janeiro 2005

*Disco da Semana –


*Disco da Semana – Berimbrown (2000)*

*** *

Em Belo Horizonte é possível para a zona sul passar a vida ouvindo
música e não perceber que nas zonas leste, oeste e norte há vastos
movimentos de blackitude, um caldeirão de música popular originalíssimo.
Dada a história dos negros em Minas, diferente daquelas do Rio, Bahia ou
Maranhão, esse som pode parecer, aos ouvidos dos acostumados às músicas
baiana ou carioca, algo familiar mas estranho. É James Brown filtrado
por maculelê, congado, cucumbi, Folia de Reis e capoeira Angola.

O Bloco Afro Porto de Minas atou durante dez anos num projeto de resgate
de sons negros no Maria Goretti, na periferia leste. Daí surgiu o
*Berimbrown* [link] , uma das pontas do iceberg
da sonzeira black de Minas. Eles deram continuidade ao Bloco com o
Projeto Kilombola, que se expandiu em BH. Na época deste *potente
petardo de estréia*
[link]
o Berimbrown tinha Alexandre Cardoso nos vocais, com seu cabelão black
power e calças boca-de-sino. Ele deixou a banda, mas a base Berimbrown é
forte: Mestre Negativo (berimbau), Dudu, Marconi e Ronílson (tambores),
Marcelo (trombone), Adriano (trompete), Edson (baixo), Derico
(guitarra), Leo (bateria) e ainda o DJ a Coisa. Catapultado por *um
super show do Berimbrown* [link] com
a rainha do soul brasileiro, Sandrá de Sá, este disco independente
chegou a vender mais de seis mil cópias. Mais gente merece conhecê-lo.

A base rítmica da maioria das faixas é o melhor funk/soul à la James
Brown, mas sempre com alguma interrupção ou mescla que as torna mais
interessantes ainda. Em ´*Payback*´ (1) já se vê o uso recorrente do
berimbau nas introduções e pontes. ´*Melô do Berimbau*´ (2), um funkão
pesado, coloca qualquer assoalho para chacoalhar. Depois da conversa
entre as cordas, os metais e o berimbau, a canção conclui com um solo
deste último, acompanhado de palmas e percussão, levando um tema de
capoiera (´Paranauê paranauê Paraná´). ´*Batucada no Gueto*´ (3) é um
funk falando de congado, com refrão irresistível (´olha que bom / vamo´
é nessa/ que eu vou/ olha que bom/ tem festa /em Belô / olha que bom´).
De novo, a ponte entre A e B é uma invenção legal, um rapping que
homenageia a capoeira ao som do berimbau – ´*Tombo da Ladeira*´ (8) é
outra faixa com um rapping sobre a base do berimbau funcionando como
ponte. ´*Boa Noite*´ (4) pega um refrão de domínio popular (´Boa noite
prá quem é de boa noite / bom dia prá quem é de bom dia´) e manda ver
outro racha-assoalho. Aí interrompe-se a predominância do baixão e
metais do funk e, ao som de berimbau e percussão, ´*Nasceu prá ficar*´
(5) entoa saudações a mestres da capoeira em ritmo Angola. Uma das
pérolas é a versão de ´*Mandamentos Black*´ (7), sucesso de *Gérson King
* [link] *Combo*
[link] nos anos
70. A versão do Berimbrown tem ´quebradas´, peso, densidade e textura
que o original não tinha. É um mérito da seção rítmica e de metais da
banda. A versão é um pastiche que localiza o original no tempo (´volta´
aos anos 70, saúda Gérson), mas mantém a curiosa inversão que Gérson
impôs à retórica do black power: ´/os blacks não querem ofender a
ninguém / o que nós queremos é dançar / dançar / e curtir muito soul . .
. a cor branca, brother, é a cor da paz . . ./ ´ Movimento black power
filtrado pela cordialidade brasileira – liberação que se joga na
*música*, não na letra. ´*C´est la vie*´ (9) é uma composição bilíngüe
de Mestre Negativo sobre a negritude. ´*Congoeira*´ (13) recorda
enviados à Guerra do Paraguai, flerta com guitarras distorcidas do heavy
rock e conclui com um canto congo. ´*ABC do Riachão*´ (11) é outro funk
cujos tamborzões e guitarras lembram a revolução mangue beat. ´*Não me
tire de cena*´ (14), sem abandonar de todo o groove funk, traz um violão
mais ´mineiro´ e transições em ritmo de sambinha, com direito a
trombones. Vale a pena.

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