Como eu virei leitor de blogs
Como milhões de outros residentes dos EUA, eu cheguei aos blogs via
campanha de Howard Dean. Daily Kos [link] e Atrios
[link] foram nossa dieta, nosso permanente 'open
thread' e farrapozinho de esperança miserável. Com suas centenas de
milhares de visitas diárias (na casa do milhão na reta final da
eleição), mobilizaram um movimento cuja importância só agora começa a
ser compreendida. Pode se ter qualquer teoria sobre a derrota de Kerry
para Bush, menos duas: 1. de que perdemos por falta de mobilização; 2.
de que perdemos por falta de dinheiro. Esses fatores, decisivos na
derrota fraudada de 2000, não o foram este ano graças aos blogs.
Num encontro de uma força-tarefa da Modern Language Association
[link] em setembro de 2004, fico sabendo que Michael
Bérubé (amigo e antigo colega em Illinois
[link] ) tinha um blog e entrara ‘undercover’
na convenção republicana para ‘blogá-la’ (o que multiplicou o número de
visitas). São posts hilários, de voz satírica, que me ganharam para a
leitura de blogs. Na ordem: este
[link] , este
[link] , depois
este
[link] e
este [link] . Aí
descobri que havia blogs em português além de diários de adolescente ou
sites de puro jornalismo. Tal era a extensão da ignorância. Pesquisando
a história, não tardou para que eu encontrasse Por um Punhado de Pixels
[link] . Fiquei boquiaberto – tanto e tão
maravilhado com o negócio que num fim de semana de novembro li todos os
arquivos de quase 4 anos, tudo de uma vez. Terminei e havia lido um
romance, conhecido um personagem – com a diferença sensacional que no
blog a coisa continua, sabe-se que haverá um post amanhã. Falei, pô
quero mais desse negócio. Aí eu caí no Catarro Verde
[link] . Eu já era fã do Rude Pundit
[link] . Falei, putz o Sérgio faz o mesmo que
Rude mas muito melhor, com petardos de uma frase, duas frases. O fato de
que o cara assina nome e sobrenome me fez gostar mais ainda. Devorei o
Catarro, [link] a porra toda em uma só talagada.
Falei, é melhor eu me orientar nessa selva aqui. Não tardaram em pipocar
Pensar Enlouquece [link] e LLL
[link] grandes na tela. Nas
primeiras três clicadas nos links da esquerda lá no Inagaki
[link] eu comecei a ter uma dimensão do
tamanho da selva. Mas aí ignorância já havia virado vontade de entrar na
brincadeira – e aqueles links ainda hoje são um mapa prá mim. Quando
saiu o texto do Inagaki sobre a TV Pirata
[link] ,
pensei ‘porra, não tem texto sobre televisão publicado nos jornais por
aí que se compare ao desse cara.’ Tem que respeitar. Aí eu já lia o LLL
[link] diariamente –
concordando com quase nada, mas curtindo o jeitão despojado do blog – e
gostei muito do romance do Alexandre. Apareceram Smart
[link] , Nélson
[link] , Rafael [link] e
outros que se converteram em diárias, além de escritores cujo trabalho
passei a acompanhar. Falei, putz já há semanas que eu não leio nada
encapado, só telinha.
Começar a escrever um blog a sério foi uma forma de ler essas pessoas.
Com os blogs eu tenho a sensação borgeana de orgulhar-me mais dos textos
que leio do que dos que escrevo. Sensação maravilhosa, antídoto contra
as pragas da arrogância e do umbigocentrismo.
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