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segunda-feira, 31 de janeiro 2005

/Crime e Castigo/ -

/Crime e Castigo/ - parte I

Sobre o paradoxo de Dostoiévski
[link] , um reacionário ortodoxo
fanático religioso, ter sido aquele que penetrou mais fundo no ideário
do igualitarismo progressista do Século XIX, eu já fiz este post
[link] .
/Os Demônios
[link] / é o
primeiro romance moderno sobre o terrorismo. /Crime e Castigo/ é,
segundo Nietzsche [link] , a primeira cena de
realização total do niilismo, o assassinato a marretadas não-motivado. O
ato gratuito.

Por falar em Nietzsche, /Crime e Castigo/ protagoniza a mais
extraordinária das duplicações ficção-realidade de que se tem notícia:
no começo do romance, Raskolnikov tem um pesadelo (que parece ser uma
lembrança de criança) em que bêbados fazem uma pobre égua levar uma
carga impossível. Chicoteiam-na, abusam de todas formas, torturam-na até
que morre. Minucioso, Dostô descreve o suplício do animal e da criança
que acompanha, mãos dadas com pai que tenta distrai-la e levá-la para
longe (a imagem da humilhação, impotência e fraqueza paternas são
constantes em Dostoiévski). A criança abraça a égua e chora. Mais de
vinte anos depois, Nietzsche repetiria *exatamente a mesma cena *ao ver
um cavalo chicoteado em Turim, momentos de seu enlouquecimento
definitivo (do filósofo, não do cavalo).

Dostoiévski une duas pontas, o popular-folhetinesco e o filosófico, com
rara maestria. O fascínio dos escritores ‘psicológicos’ com /Crime e
Castigo/ – André Gide, Albert Camus, Lúcio Cardoso, Roberto Arlt e
tantos mais – gravitou, em boa parte, ao redor da fascinação com o ato
gratuito: o funcionamento de uma mente que justifica um ato de
assassinato de forma não utilitária; mata-se, em /Crime e Castigo/,
*porque sim*: assassinato como pura afirmação do ato de matar. O
fascínio popular do livro vem de outro lado: é um romance de desenlace.
O suspense ao redor do “vão ou não vão descobrir que Raskolnikov cometeu
um assassinato”, para quem lê pela primeira vez, é irresistível e
utiliza os recursos do melhor folhetim – a tradição decimonônica de
relato serial que culmina na telenovela globalizada. Numa época em que o
relato policial só existia como conto (Edgar Allan Poe
[link] ), Dostoiévski /inventa /o
romance policialesco com /Crime e Castigo (/1866). Não seria incorreto
dizer isso, se excetuarmos /The Woman in White
[link] /
(1860), de Wilkie Collins. Ainda faltavam vinte anos para o primeiro
romance de Holmes
[link] , e o
suspense sobre a revelação uma culpabilidade movia o desejo de uma trama
de 500 páginas. Fazia-no construindo aquele que talvez seja o personagem
mais contraditório e torturado de toda a literatura do XIX (Sobre a
popularidade do livro, é bom dizer que sempre teve grandes tiragens não
só na Rússia como em toda a Europa Ocidental. Foi lidíssimo no Brasil.
Em muitos países hispânicos, foi romance de quiosque). Em /Crime e
Castigo/, move-o o desejo de passar uma lição no niilismo racionalista:
criar um personagem verossímil como incarnação do relativismo ateu,
levá-lo às últimas consequências, relatar sua autotortura, padecer com
ele o desespero perene de que o investigador o descobrirá e finalmente
purgar-se, purificar-se com ele no momento em ele mesmo – Raskolnikov,
de “livre” vontade – decide se entregar à polícia. O apêndice, a
‘redenção’ de Raskonikov purificado na Sibéria e as dez páginas de
blá-blá-blá doutrinário, é o lixo evangelizador que Dostoiévski escolhe
anexar ao romance. Mas aquilo já não importa. O filé é tudo o que vem
antes.

Dostoiévski *quer* que vivamos a redenção, mas na literatura quanto mais
óbvio o desejo do autor mais esse desejo fracassa. Como romance de
doutrinação religiosa /Crime e Castigo/* *fracassa estrepitosamente.
Conheço dezenas de pessoas que leram o livro, ninguém aumentou um pingo
de fé por ele. Pelo contrário, muita gente com ele reforçou seu
ateísmo. Deliciamo-nos por 500 páginas *amando* o supremo pecador,
identificando-nos com ele, acompanhando-o na justificativa da eliminação
da velha usureira que explora tantos, com ele amando / compadecendo /
envergonhando-se da mãe e irmã que se humilham ante um cafajeste burguês
por pouco dinheiro, com ele desprezando Marmeladov, a suprema lama
humana. Ah, como amamos o pecado e o pecador nesse romance! E como nos
decepcionamos com o filhadaputa quando ele se entrega à polícia. Quão
diferente dos romances que depois seriam escritos do ponto de vista – já
não do nosso amado criminoso – mas do detetive, do carrasco da lei! O
relato policial cerebral apela ao nosso princípio de realidade, ao
administrador-zinho dentro de nós. Dostoiévski apela ao mais além do
princípio do prazer, à pulsação libertária, ao abismo da pulsão de
morte. No romance de Dostoiévski, o pecado que se quer redimir,
transcender e sufocar, fala com suas próprias palavras e tem voz
irresistível. É ele que sustenta a trama e a carolice do romancista.
Sinuca irresolúvel para Dostô.

Como sempre, Deus acabou sendo a pura invenção de um homem que resolveu
crer em demônios.

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  Escrito por Idelber às 03:27 | link para este post | Comentários (1)


Comentários

#1

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Charles Baumann em outubro 20, 2005 1:43 PM