*Disco da Semana – Berimbrown (2000)*
*** *
Em Belo Horizonte é possível para a zona sul passar a vida ouvindo
música e não perceber que nas zonas leste, oeste e norte há vastos
movimentos de blackitude, um caldeirão de música popular originalíssimo.
Dada a história dos negros em Minas, diferente daquelas do Rio, Bahia ou
Maranhão, esse som pode parecer, aos ouvidos dos acostumados às músicas
baiana ou carioca, algo familiar mas estranho. É James Brown filtrado
por maculelê, congado, cucumbi, Folia de Reis e capoeira Angola.
O Bloco Afro Porto de Minas atou durante dez anos num projeto de resgate
de sons negros no Maria Goretti, na periferia leste. Daí surgiu o
*Berimbrown* [link] , uma das pontas do iceberg
da sonzeira black de Minas. Eles deram continuidade ao Bloco com o
Projeto Kilombola, que se expandiu em BH. Na época deste *potente
petardo de estréia*
[link]
o Berimbrown tinha Alexandre Cardoso nos vocais, com seu cabelão black
power e calças boca-de-sino. Ele deixou a banda, mas a base Berimbrown é
forte: Mestre Negativo (berimbau), Dudu, Marconi e Ronílson (tambores),
Marcelo (trombone), Adriano (trompete), Edson (baixo), Derico
(guitarra), Leo (bateria) e ainda o DJ a Coisa. Catapultado por *um
super show do Berimbrown* [link] com
a rainha do soul brasileiro, Sandrá de Sá, este disco independente
chegou a vender mais de seis mil cópias. Mais gente merece conhecê-lo.
A base rítmica da maioria das faixas é o melhor funk/soul à la James
Brown, mas sempre com alguma interrupção ou mescla que as torna mais
interessantes ainda. Em ´*Payback*´ (1) já se vê o uso recorrente do
berimbau nas introduções e pontes. ´*Melô do Berimbau*´ (2), um funkão
pesado, coloca qualquer assoalho para chacoalhar. Depois da conversa
entre as cordas, os metais e o berimbau, a canção conclui com um solo
deste último, acompanhado de palmas e percussão, levando um tema de
capoiera (´Paranauê paranauê Paraná´). ´*Batucada no Gueto*´ (3) é um
funk falando de congado, com refrão irresistível (´olha que bom / vamo´
é nessa/ que eu vou/ olha que bom/ tem festa /em Belô / olha que bom´).
De novo, a ponte entre A e B é uma invenção legal, um rapping que
homenageia a capoeira ao som do berimbau – ´*Tombo da Ladeira*´ (8) é
outra faixa com um rapping sobre a base do berimbau funcionando como
ponte. ´*Boa Noite*´ (4) pega um refrão de domínio popular (´Boa noite
prá quem é de boa noite / bom dia prá quem é de bom dia´) e manda ver
outro racha-assoalho. Aí interrompe-se a predominância do baixão e
metais do funk e, ao som de berimbau e percussão, ´*Nasceu prá ficar*´
(5) entoa saudações a mestres da capoeira em ritmo Angola. Uma das
pérolas é a versão de ´*Mandamentos Black*´ (7), sucesso de *Gérson King
* [link] *Combo*
[link] nos anos
70. A versão do Berimbrown tem ´quebradas´, peso, densidade e textura
que o original não tinha. É um mérito da seção rítmica e de metais da
banda. A versão é um pastiche que localiza o original no tempo (´volta´
aos anos 70, saúda Gérson), mas mantém a curiosa inversão que Gérson
impôs à retórica do black power: ´/os blacks não querem ofender a
ninguém / o que nós queremos é dançar / dançar / e curtir muito soul . .
. a cor branca, brother, é a cor da paz . . ./ ´ Movimento black power
filtrado pela cordialidade brasileira – liberação que se joga na
*música*, não na letra. ´*C´est la vie*´ (9) é uma composição bilíngüe
de Mestre Negativo sobre a negritude. ´*Congoeira*´ (13) recorda
enviados à Guerra do Paraguai, flerta com guitarras distorcidas do heavy
rock e conclui com um canto congo. ´*ABC do Riachão*´ (11) é outro funk
cujos tamborzões e guitarras lembram a revolução mangue beat. ´*Não me
tire de cena*´ (14), sem abandonar de todo o groove funk, traz um violão
mais ´mineiro´ e transições em ritmo de sambinha, com direito a
trombones. Vale a pena.
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