Ler mais livros e menos jornais
Grande resolução de Ano Novo: sair da vida miserável de ser humano que
lia quatro jornais por dia (*Folha* [link] ,
*NYT* [link] , *JB* [link] ,
*Página 12* [link] ) e bisbilhotava outros 15
semanalmente. Agora é assim: os que eu lia diariamente eu vou fuçar a
cada dois dias, e os que eu bisbilhotava não vou nem olhar. Mais livros
e menos jornais será a pauta. Já devorei 7 livros neste ano novo: 2 de
poesia, 4 de narrativa (incluindo um romanção) e 1 de ensaios. Aqui vai
a fichinha de seis deles. O romanção vai no próximo post.
Caixinha-trilogia *BH a Cidade de Cada Um: *A simpática caixinha da
Conceito custa 45 mangos e traz três livros de crônicas ou contos sobre
marcos da cidade.
1. *O Estádio Independência*, do cronista esportivo Jairo Anatólio Lima:
crônicas sobre o maior estádio de Minas entre 1950 e 1965. Para quem
gosta de futebol é um prato cheio. Um certo saudosismo gratuito empana o
texto, mas há bons momentos. Como se sabe, o Estádio Independência foi
palco daquela que é considerada a maior zebra da história do futebol, a
vitória dos EUA sobre a Inglaterra na Copa de 50. O que eu não sabia era
que os ingleses haviam desprezado tanto os americanos (que vinham de
derrotas de 9 x 0 contra a Itália e 5 x 0 contra um time turco) que
ficaram jogando cricket em Nova Lima, enquanto os estadunidenses tomavam
cachacinha e Jack Daniels com os mineiros e conquistavam a torcida.
Jogaram incentivados por 22 mil pessoas, quando ainda cabia isso no
Independência. Depois do jogo, BH festejou a partida dos
ingleses. Peguei-me pensando quão inimaginável seria, hoje, os
americanos conquistarem a torcida de algum lugar do mundo.
2. *Mercado Central*, do letrista Fernando Brant: serve como um guia de
alguns dos pontos mais legendários desse labirinto animal, vegetal e
mineral que é o Mercado de Belo Horizonte. Mas como texto, achei fraco e
repetitivo.
3. *Lagoinha*, do contista Wander Piroli. De longe, o melhor dos três
livros. Piroli mistura ficcionalização, crônica memorialística e um
toquezinho de etnografia. São relatos desse bairro que foi uma mistura
de Bexiga com Lapa (boêmio mas operário) e que morre hoje na miséria,
destruído pelos viadutos do centrão de BH. Piroli constrói personagens
incríveis nessa desolação: autores de crimes passionais, prostitutas com
o último dente na boca, o escambau. *Vale a caixinha*.
4. *Poros* (1989), de Rubens Rodrigues Torres Filho. O autor é
poeta-filósofo, essa mais anti-platônica das combinações. É tradutor de
Nietzsche, Benjamin e Novalis, entre outros. Comecei a conhecer sua
obra poética por este livro e gostei muito. O livro alterna mini-poemas
e parágrafos em prosa poética. A experiência do Romantismo alemão
(pensar a linguagem como *abismo*) marca muito seus escritos.
5. *Páginas Amarelas* (1988), de João Moura Jr. Outro volume de poesia
da coleção Claro Enigma. Esse eu já gostei muito menos. Dicção mais
verborrágica e uma tentativa de humor que não funcionou comigo.
6. *Blogs: Comunicação e Escrita Intima na Internet* (2004), de Denise
Schittine. *Óia nóis* aqui como objeto de estudo! Bela dissertação de
mestrado em Comunicação, agora publicada pela Civilização Brasileira. A
autora reuniu um corpus de blogs ‘confessionais’ e armou a análise a
partir do problema do público versus o privado no blog. Toca em pontos
interessantes, como a natureza do segredo no diário íntimo e a
transformação desse segredo com a internet. Muito bom mesmo. Há lacunas,
claro, e a seleção de blogs poderia ter sido mais representativa, mas é
uma primeira espanada muito lúcida sobre o tema.
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