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quarta-feira, 05 de janeiro 2005

/*Night and Day*/*, de


/*Night and Day*/*, de Virginia Woolf.*

Acabei de ler um livraço.

Se você é dos leitores formados no romanção do século XIX que tentaram
Woolf via *The Waves* ou *To the Lighthouse* (ou mesmo *Orlando*) e
abandonaram o texto porque o experimentalismo incomodava, esta é a porta
de entrada a essa escritora extraordinária. *Night and Day* é o segundo
romance de Woolf e foi publicado em 1919. Mas tudo se passa como se a
Primeira Guerra ainda não houvesse ocorrido. Estamos longe do que
estavam fazendo na Europa, naquela época, Musil ou Joyce. Longe do que
faria Woolf depois. Nada de fragmentação do texto. *Night and Day* é
quase um romance vitoriano, pelo menos na superfície.

São quase 500 páginas numa compacta edição da Penguin, 34 capítulos, 5
protagonistas e uma galeria de personagens secundárias digna de novela
da Globo. O pano de fundo é a decadência da aristocracia literata (já
convertida em caricatura) e, no outro extremo social, o movimento das
suffragettes. O narrador onisciente usa com freqüência o discurso
indireto livre - ‘entra na cabeça’ dos personagens sutilmente, mas
nunca destruindo a distância temporal que o separa deles. A história
envereda por labirintos e laços múltiplos entre esses cinco personagens:
inveja, amor, infatuation, traição, voyeurismo, impostação, humilhação
social.

Katharine Hilbury é neta de um aclamado e já falecido poeta. Esvaziados
os rituais da aristocracia literária na qual nasceu, Katharine colabora
com a mãe numa obra sobre o avô que nunca chega a lugar algum. Mrs.
Hilbury é uma personagem secundária, mas comiquíssima em seu quixotismo
literário. À medida que avança o romance, a filha Katharine vai se
transformando numa personagem cada vez mais complexa – entram em cena
dois homens, Ralph Denham e William Rodney. William é um literato de
salão, sonetista de plantão, galã da mesma classe social de Katharine.
Frequenta a casa. É isso, mas não uma caricatura desprezada pelo leitor.
Tem sentimentos, eles vão se complexificando também e o narrador não o
satiriza. Ele dará algumas reviravoltas ao longo da narrativa. Ralph é o
pobretão, sem pai, arrimo de família com mãe entrevada e uma série de
irmãos. Ganha a vida labutando e chega nessa cena por acaso. Escreve
artigos para a imprensa e nas horas vagas também é poeta. Obviamente tem
com a literatura uma relação oposta à de William. Mary Datchet vem da
classe média radicalizada e participa do movimento pelos direitos
eleitorais da mulher. Mais tarde, entra em cena Cassandra Otway, prima
de Katherine, que aparece primeiro como fã do (presumimos) fútil drama
em versos inédito de William.

Resumindo um argumento que mereceria ser filmado por Almodóvar ou
transformado em novela da Globo, ocorre o seguinte: 1. as bravatas de
Rodney conquistam espaço na casa dos Hilbury. 2. Enquanto nos
familiarizamos com Mary e o movimento suffragette (descrito sem ironia,
com filigranas e diferenças entre personagens secundários), nos damos
conta de que William Rodney e Katharine Hilbury estão noivos. 3 A
personagem de Ralph vai se consolidando como identificação do leitor
masculino: autêntico mas não piegas, respeitoso mas nunca humilde, ele
vai crescendo como figura – nós, leitores, sabemos que William e
Katharine noivaram, mas ele não. 4 Acompanhando Mary em suas reuniões,
começamos a suspeitar que ela ama Ralph. 5. Vai se caracterizando um
certo egocentrismo em William Rodney e uma percepção de Katharine de que
o que os une não é amor. 6. Vai ficando claro o amor de Ralph por
Katharine. 7 Quando Ralph recebe a notícia do noivado, este já está em
crise: enquanto ele purga seus ciúmes, entra em cena Cassandra Otway,
leitora de Rodney e prima de Katherine, mais devota e mais bajuladora
(mais submissa como mulher) que Katharine. 8 Ralph se declara
inutilmente, no desespero, a Katharine e ao ser rejeitado, para piorar,
procura Mary para despejar a história – a mesma Mary que está apaixonada
por ele. 9. Pouco a pouco, vai se formando entre Ralph e Katharine um
amor estranho. Mary continua amando Ralph mas adota a linha ´mulher
compreensiva´ 10. Cassandra e William vão se apaixonando.

Essa história ainda dá mil reviravoltas e termina com a chegada do pai
de Katharine, figura masculina apagada, que se dá conta de que os casais
haviam trocado. O final é super surpreendente. O livro *pode ser lido
online* [link] .

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  Escrito por Idelber às 12:15 | link para este post