*Sobre New Orleans II*
A história segregacionista começa com dificuldades: New Orleans estava
cheia de negros livres e cheia também de negros donos de escravos (parte
dos ‘creole’). Por volta de 1880, quando se promulgam as leis de
segregação, proíbe-se aos negros viver do lado uptown de Canal Street e
acontece algo interessante: os ‘creole’ */tornam-se/* negros. Jamais
haviam pensado em si enquanto tais, mas viram-se vitimados e pouco a
pouco toda a população negra vai se consolidando como anglófona. Hoje o
francês não sobrevive como língua nativa de quase ninguém aqui e poucos
são os falantes de ‘cajun’ no interior.
A herança católica é forte, mas trata-se sobretudo de uma cidade que é
herética e politeísta, crente e supersticiosa, litúrgica e pagã. Até
hoje, não há nenhuma garantia *de que ela não será inundada da noite
para o dia* (e todo ano a gente passa um susto), o que talvez explique a
postura de festejo enlouquecido permanente, como se o mundo fosse sempre
acabar amanhã.
New Orleans se parece tremendamente com Salvador. O New-orleaniano
compartilha com o baiano aquilo que eu chamaria de excepcionalismo sem
arrogância. Sistematicamente faz propaganda do caráter único da sua
terra sem nunca falar mal de ninguém.
O Rafael [link] tem razão em supor que a experiência
religiosa aqui é singular. O vudú, que chega cedo (com os haitianos
pós-revolução, lá pros idos de 1810), se combina com mil outras
narrativas, inclusive católicas e angolanas. Há aqui uma inclusividade
radical que é de difícil compreensão para o estadunidense ‘típico’. As
pessoas não são uma coisa ou outra, são uma coisa *e* outra.
Também na questão racial a experiência aqui tem algo de único: ao
contrário de qualquer outra cidade estadunidense, o imigrante branco não
experimenta em New Orleans a tensão racial normal, que é de se esperar,
vinda do afro-americano, que percebe aquele imigrante como possível
competição.
O negro new-orleaniano fala com a tranqüilidade de quem está hospedando.
O que não quer dizer que a população negra não seja explorada pela
indústria do turismo e da música, ainda majoritamente controlada por
brancos.
Mas sim quer dizer que cultural e simbolicamente o povo negro está em
inequívoco controle da cidade, expresso em mil festas: além do carnaval
[link] ,
tomadas rituais das ruas e second lines
[link]
(desfiles em que a gente sai dançando atrás de uma banda de metais pela
cidade).
É a única cidade do mundo onde um policial vai te chamar de *babe*
enquanto conversa com você. Também a única, que eu saiba, onde a morte é
motivo para festa urbana: uma outra tradição de desfiles musicais pelas
ruas, o jazz funeral
[link] .
Por falar nisto, neste dia 20, na posse de Bush
[link] , New Orleans se mobilizará
para um Jazz Funeral for Democracy
[link] .
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