*Sobre New Orleans I *
Rafael Galvão [link] levantou a bola
[link] para
um primeiro post de volta aqui em New Orleans. Rafael mencionava
interesse na questão da religiosidade afro-americana, na qual só vou
tocar de raspão. Depois pode se aprofundar mais. New Orleans é
completamente incompreensível para o paradigma branco-e-pretista com o
qual trabalha o resto dos EUA. Muito multicultural, negra, francesa,
caribenha, mulata, hispânica, católica e bruxa para caber dentro dele.
Trata-se de uma cidade negra. Eu diria, a única grande cidade negra dos
EUA. Sei que a população de Washington, DC é quase 80% negra, mas lá
trata-se de uma cidade dominada pela cultura branca. Aqui não. Os
brancos que estamos em New Orleans estamos aqui para seguir a cultura
negra e vivê-la. Os que não curtiam já foram embora para os subúrbios
nos anos 60, no processo conhecido como /white flight/. Há dois grupos
étnico-raciais que só existem aqui:
1. os ‘*cajun’*, descendentes dos colonos de Acádia, hoje Nova Escócia,
Canadá, que chegaram no século XVII. São católicos, brancos e se
estabeleceram no interior da Louisiana antes de chegar a New Orleans.
Sofreram violenta repressão por serem católicos.
2. os ‘*creole’*, que são os francófonos (brancos e negros) que
começaram a chegar no século XVIII. Já no século XIX, a população creole
é quase toda de ‘free people of color’, ou seja negros não escravos.
Parte dessa população é inclusive dona de escravos durante o XIX.
Estas duas culturas não se confundem: o zydeco
[link] , por exemplo, que é primo do
forró, é uma dança *creole*, não cajun (o correspondente cajun é uma
música à base de cordas, com rabecas e banjos, e mais parecida ao
bluegrass).
A primeira vez que o pau comeu foi franceses e índios Natchez, de 1680 e
poucos até 1731. Ali a população era umas sete mil almas mandando açúcar
e rum para a França e madeira, tijolos e carne para as Índias. Na cessão
de New Orleans para os espanhóis em 1760, pesou na decisão dos franceses
o fato de que a cidade parecia destinada a morrer: atacada por índios,
três metros abaixo do nível do mar
[link] ,
cercada por um lago imenso e um rio caudaloso
[link] , sem saída.
Até 1803 New Orleans foi espanhola, *pero no mucho*. Nos anos 1780 os
New Orleanianos (um pouco como uns Tiradentes) botaram o regente
espanhol para correr. Para onde? Para Havana, cidade que foi o grande
diálogo comercial de New Orleans durante todo o século XIX até os anos
1950. Os gringos adquirem New Orleans à preço de banana, mas em
compensação levam um montão de merdas
[link] que
depois ganhariam a eleição para George Bush
[link] .
A partir daí começa a história segregacionista.
*Foto que ilustra o post*: a tradição dos Mardi Gras Indians, através da
qual os negros honram as tribos indígenas que albergaram escravos
fugidos no século XIX. Os ‘chiefs’ de cada agremiação passam o ano
tecendo suas fantasias (chamadas ‘suits’) e saem no carnaval e em outras
datas, com um batuque de arrepiar. As fantasias concorrem entre si. A
tradição durou todo o século XX e continua forte.
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