Convite à leitura: Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Osman Lins
O ensaísta, crítico e poeta Italo Moriconi, organizador de Os cem
melhores contos brasileiros do século
[link]
(Rio: Objectiva, 2000), notou um dado importante: “Em torno da primeira
métade do século, nossos escritores . . . escrevem numa língua que
amadureceu, está mais uniforme e representativa daquela usada no
cotidiano pelos brasileiros educados, de qualquer lugar do país” (106).
Na seleção que fiz para este post – já em cima da seleção feita pelo
Italo – deixa-se ver isso: mais além das diferenças nos relatos e nos
estilos, uma cearense, um gaúcho e um pernambucano da mesma geração
produzem literatura num *registro lingüístico *bem semelhante. Há uma
língua literária brasileira, relativamente uniforme, já constituída
nesse momento.
Estamos lendo três escritores que se firmaram como romancistas: Rachel
de Queiroz com O quinze
[link] , Érico
Veríssimo com a trilogia O tempo e o vento
[link]
e Osman Lins com o super-experimental Avalovara
[link] .
“A partida [link] ” (1957), de
Osman Lins
[link] é
uma cena, quase um não-relato, no sentido de que não acontece “nada”
realmente. Um neto tem que ir e vai. É o tipo de conto em que não faz
diferença “revelar o final”: o final vai dado de antemão. Implacável na
descrição da dor da perda da avó, da preparação ritual para o café da
manhã de despedida (com a toalha e talheres “especiais”) e da frustração
até mesmo deste último pingo de esperança, Osman Lins organiza seu ponto
de vista narrativo através da avó e assim produz a história – o relato
seria impossível, ou banal, contado do ponto de vista do neto que parte.
Em “As mãos de meu filho
[link] ” (1942), de Érico
Veríssimo [link] , Gilberto,
filho bem-sucedido de mãe trabalhadora e pai bêbado, toca Beethoven
(alguma significação especial nesse nome?) para um auditório lotado. O
narrador relata em discurso indireto livre, de “dentro” da cabeça da
mãe, toda a miséria passada e oca vaidade presente pelo filho, além da
vergonha do marido. No final, Gilberto comemora com a mãe e a platéia
enquanto o pai inútil, esmagado na sua insignificância, dá um trocado ao
porteiro para que beba um trago. O notável, claro, é a destruição
completa da figura paterna, assim como é importante sua ausência no
conto de Osman Lins.
“Tangerine-girl
[link] ” (1948), de
Rachel de Queiroz
[link] , traz as marcas dos
encontros do período emblemático da Segunda Guerra Mundial, entre um
marinheiro gringo (que, depois descobrimos, não é “um”) e a garota da
terra. Dos três contos, é o que produz ao final um evento de maior
impacto – a esmagadora decepção da garota quando descobre que “o”
marinheiro com qual se comunicara são vários, e que portanto *ele* não
existe. Estropiada, perde ali seu sonho de singularidade. Notável também
é que ninguém na turma de marinheiros que a visita parece entender nada
do que se passa com ela. Dois mundos incomunicáveis. Rachel de Queiroz
arma bem o conto: identificamo-nos com e entendemos a garota, e
desprezamos (ou pelo menos temos pena d’) os marinheiros.
Há muito que se dizer sobre esses relatos que são todos, de alguma
maneira, polaroids de desmoronamentos. Os dois primeiros são comentários
implacáveis sobre a estrutura familiar. O terceiro - eu pelo menos o
leio assim - é um baita conto sobre o desejo e a sua frustração. Mas há
outros registros por aí para lê-los. Nesta quarta estão todos convidados
a ler estes três relatos - ou qualquer um deles - e bater um papo aqui
neste blog.
PS: como sempre no blog, está liberada qualquer língua na caixa de
comentários.
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