A mato-grossense Vanessa da Mata [link] se
mudou para Uberlândia-MG aos 15 anos, antes de aterrizar em São Paulo e
conquistar o Brasil. Estreou com CD epônimo
[link] em 2002 e em 2004 lançou a
pérola que recomendo aqui, *Essa Boneca tem Manual*.
Quem já escutou sabe que a resenha está passada de hora. Quem não
escutou, antes de sair correndo para comprar, imagine: um timbre de Gal
Costa (não o arremedo de hoje mas esta
[link]
ou esta
[link] ),
só que mais lírico, com mais extensão e superior repertório; a
personalidade de Adriana Calcanhoto ou Ana Carolina na composição; o
suíngue e o talento revisionista de Marisa Monte; o físico, o gestual e
o axé de Clara Nunes; o domínio de palco de Cássia Eller. Não, não é
exagero e quem já ouviu que testemunhe.
A banda de Vanessa se ombreia com as melhores que tiveram essas
cantoras: Liminha no baixo, Guilherme Kastrup na bateria e percussão (no
primeiro disco aparece também o pandeirista-mor Marcos Suzano), Jaques
Morelembaum e por aí vai. A produção deixa o som limpinho, mas sem
perder o peso e a radicalidade dos seus momentos de experimentação. Por
cima brinca a poderosa voz de Vanessa, desfiando uma leitura feminina do
mundo nas letras. A grande referência musical de Vanessa em *Boneca* são
os violões / guitarras suingados do samba-rock do mestre Jorge Ben Jor.
Essa é a base da brincadeira toda: a eletrificação do samba levada a
cabo por Ben Jor lá pros idos de antes do golpe. Só que entra um
trabalho de percussão mais pesado e mais roqueiro que o do primeiro Ben.
E a voz de Vanessa leva o samba-rock já quarentão a ápices de lirismo,
paródia, romantismo e extensão dantes não alcançados. É o meu candidato
a disco de 2004.
*Boneca* contém uma versão experimental-clean de ‘Eu sou neguinha’ de
Caetano, um arranjo “up-tempo” de metais de Morelembaum para o clássico
infantil de Chico Buarque, “História de uma Gata”, além de 10
composições de Vanessa (5 delas em parceria com o maior produtor musical
brasileiro, Liminha). Nestas, sobre a base sambalanço entram toques de
Jovem Guarda (‘Ai ai ai”, com seus versos bem Roberto, “se você quiser
eu vou te dar um amor/ desses de cinema”) e baladas de amor nada banais,
de harmonias a la Djavan (“Ainda bem”, “Eu quero enfeitar você”, “Zé”).
Minha favorita é a super faixa que dá título ao disco: um funk com
pandeiros de sambinha, cozinha cheia de variações de tempo (baixo de
Rian Batista / bateria de Maurício Sanches) e a voz de Vanessa subindo e
descendo tranqüila, entre a brincadeira e o sério: /nos segredos dela se
aposta, viu? / nos cabelos dela não se toca, ouviu? / eles são de nuvem
ou bombril? / elas são ousados ou só seus/? Puro racha-assoalho, mas no
maior romantismo.
Vanessa da Mata já estreou no topo do topo. Maria Bethânia chamou-a de
‘novo Guimarães Rosa do Brasil’ e nomeou seu CD de 1999 com a música de
Vanessa e Chico César, “A Força que Nunca Seca”. Vanessa tem em seu
caderno mais de 250 canções. Já dividiu palco com Bethânia, Baden Powell
e Max de Castro. Na opinião de Nélson Mota, ela é a principal artista
revelada nos últimos dez anos. Não é instrumentista, mas compõe com a
tranqüilidade de quem chega para ocupar a camisa 10: é a maior cantora
brasileira que descobri desde que ouvi a atleticana que mudou o Brasil
[link] .
/PS: a resenha desta semana contou com fontes cedidas pela leitora e
amiga Cipy Lopes. /
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/PS 2: Wampum [link] promove uma eleição de melhor
escritor na blogosfera de esquerda gringa. Meu bróde véio e humorista
Michael Bérubé [link] chegou às finais. Se você
já se deliciou, via meus links, com pérolas como a sátira ao vivo
[link] da
convenção bushista ou o projeto de devolver os estados
[link]
comprados à França, passe lá e deixe seu voto
[link] . /
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