Eu adoraria ouvir opiniões sobre um caso curioso. Em dezembro, o
InfoBrazil me encomendou um balanço dos dois primeiros anos de PT no Planalto e eu escrevi um texto de críticas duras ao governo. Não foi fácil: uma coisa é criticar e expressar insatisfação para que me leiam compatriotas. Outra é descer o sarrafo no governo do seu país – governo que você apoiou e no qual você tinha esperança – em outra língua, língua do Império ainda por cima. Mas eu fui lá e escrevi o que eu achava / acho que era / é certo. Não vou repisar aquele conteúdo porque eu não tenho controle sobre como ele é lido: eu acabo agradando gente que eu não quero agradar e desagradando amigos meus que respeito, e que ainda apóiam o governo na esperança de que esta joça possa mudar de rumo.
Mas o caso que quero contar é outro. Qual não foi minha surpresa ao ver que o texto está publicado em alemão? Em dois lugares, aqui [este desde então retirado] e aqui.
Obviamente sem minha autorização. Tudo bem. Internet é isso mesmo.
Agora, vejam só o título da brincadeira: “Ein selbstverliebter Messias”, um “Messias muito apaixonado por si mesmo”, palavras que eu jamais usei para me referir ao presidente Lula. Meu artigo fala de “tendências messiânicas” do presidente, o que é bem diferente de se usar o substantivo “Messias” num título e por cima acompanhado de adjetivo horroroso.
Tá vendo? Quando a gente coloca uma coisa na internet ou circula um
manuscrito dizendo c Idelber Avelar, Não citar ou circular sem permissão do autor, neguinho às vezes acha que é viadagem, frescuragem, que é para aparecer. Não é não. É para impedir que venha um Fritz qualquer, traduza uma parte do texto, ponha um título que não tem nada a ver com o espírito de crítica política não-pessoal e não-moral do artigo, e publique a porra numa língua que você mal lê capengando, mas que conhece o suficiente para saber que certinho e completo o texto não está – e que está tabloidizado no seu título, recebido sem que o soubesse o seu autor.
Agora, faz-se o quê? Chego prá eles e digo: Que honra estar traduzido ao idioma de Goethe? Ou escrevo uma carta satírica perguntando se a língua deles é capaz de diferenciar a construção temporal “têm adotado” da condição atemporal “ser”? Peço que me expliquem qual foi o raio de palavra inglesa que eu usei que possa ser traduzida por selbstverliebter? Escrevo avisando-lhes que o Biscoito Fino e a Massa vai mudar de nome e que estou convidando-os a nomear o próximo site, já que se julgam competentes para intitular meus artigos?
Vou te contar, haja suco de maracujá para essa tal de internets.
PS 1: Nesta quarta teremos visita de meus alunos para discutir a
contística brasileira. Adorei a experiência com Machado e deixo o
convite para que todos os leitores diários se juntem a nós de novo.
Amanhã eu coloco o post com as provocações, mas para quem quiser ir
preparando-se, a conversa será sobre “Tangerine Girl [link] ”, de Rachel de Queiroz, “As Mãos do Meu Filho”, de Érico Veríssimo e “A Partida", de Osman Lins. Três miradas ácidas a figuras familiares.
*PS 2*: Morreu Arthur Miller, mestre radical do teatro. Obituário do New York Times? Nem pensar. Leia o do Rude Pundit.
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