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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 31 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça - Semana 7

WTC-smoke.jpg

(frase da semana, H.L. Mencken: I never smoked a cigarette until I was nine)

São 45 dias desde que parei de fumar.

Não posso começar esta sétima semana da fenomenologia falando de Svevo e do cigarro como metáfora da evanescência, ou da relação entre masculinidade e cigarro em Hollywood , sem mencionar um fato, que se desdobra em duas notícias: uma péssima e uma ótima.

A péssima notícia é que no último sábado, em meio a uma embriaguez que foi de única e exclusiva responsabilidade de uma certa advogada de olhos azuis que, no bar, comigo, torcia pelos vitoriosos Tar Heels da Universidade da Carolina do Norte nas semifinais do basquete universitário deste ano, eu fumei dois cigarros.

Isso foi só o começo do pecado.

Mas foi a única parte que me fez, no outro dia de manhã, sentir-me como um reles fracassado membro desta pobre raça de seres da periferia da via láctea. Desmoronei de tanto vomitar e passar mal, além de, pela primeira vez na vida, ter uma garganta inflamada não por infecção ou gripe mas por uma sujeirada cigárrica. Essa é a notícia.

A absurdamente alegre notícia é: a fumada não provocou sensação de realização de nenhum desejo assim tão transcedental. De tarde, depois dos vômitos e do almoço, eu já estava bem, sem vontade de fumar e recuperado do piripaco que o cigarro produziu em meu organismo (com a exceção da minha garganta, que gastou mais 24 horas para sarar). Vão lá seis dias sem vontade de ir atrás de cigarros.

A partir dessa experiência não há como não notar uma diferença: em todas as minhas anteriores paradas, o cigarro que acontecia no bar era encarado como uma recaída. Daí em diante era a dialética do Svevo: acreditar que você está fumando um cigarro de livre e espontânea vontade é só uma desculpa para você acender o próximo. É aquela maravilhosa frase de Jim Jarmush (traduzo): A beleza da coisa é que, agora que eu parei, eu posso fumar um cigarro porque, afinal de contas, eu parei. Quando você cai na sedução desta frase, você já voltou a fumar.

Por isso o Biscoito se mantém alerta, não comemora nada, continua lendo Svevo, está tranqüilo e muito otimista com os últimos dias. Os planos para as próximas semanas da fenomenologia da fumaça são:

1) Uma análise do porquê de a Consciência de Zeno ser o cume do romance vanguardista. A hipótese é: a fumaça é a perfeita metáfora para aquilo que os modernistas buscam, ou seja, uma imagem que represente o efêmero, o evanescente.

2) Uma análise do lugar contraditório e absurdo do cigarro no existencialismo. Ao mesmo tempo em que, em O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre usa e abusa da metáfora da “fumaça” para descrever aquilo que não tem importância, que não tem concretude, que não tem realidade, que se dissolve, ele escreve todo o raio do livro fumando um cigarro atrás do outro. Ou seja, incoerentemente teoriza o inessencial-qua-fumaça enquanto a fumaça de seus cigarros confere ao livro seu alicerce mais essencial.

3) Uma análise da relação entre o cigarro e a morte do pai na cultura moderna.

4) Uma análise da relação entre o cigarro, a independência da mulher e a figura da femme fatale na cultura do século XX.

5) Uma análise da relação entre o cigarro, o pau e o falo na cultura inagurada por Freud (entendendo-se, claro, que no freudismo pau e falo não são a mesma coisa).

6) Uma crítica do discurso religioso, catequisador, californiano sobre a saúde, que pode parecer, meus amigos ex-fumantes, ser um discurso aliado neste momento, mas não o é, como o mostra este livro.

Em outras palavras: o blogueiro vai bem. Fumou dois cigarros na celebração esportiva, mas está otimista. Mas toda vigilância é pouca. Os próximos dois meses, de transição de New Orleans a Belo Horizonte, serão decisivos. Ainda não ouso, depois de 45 dias, enunciar a frase Parei de fumar. Poderei algum dia?



  Escrito por Idelber às 22:15 | link para este post | Comentários (31)




Drops de Agradecimentos e Planos

Vejam a equipe da pesada à qual eu devo gratidão: este blog não estaria celebrando sua mudança se não fosse o trabalho monumental de Fábio Sampaio, que converteu a barafunda uólica (a expressão é do poeta Inagaki) para formato padrão Movable Type. Se estamos aqui hoje, é graças ao Fábio. Agradeço a Nemo Nox pela confecção deste layout (que eu adorei) para o Biscoito e pela ajuda no começo do processo. Sou grato também a Rafael Galvão por incontáveis instâncias de ajuda com a compra de domínio, hospedagem e perguntas eventuais sobre o MT, a Tiagón pela ajuda no começo da trombada com a barafunda uólica, a Alexandre Cruz Almeida por todo o apoio no começo e até hoje, e a Tata pela interlocução sobre cores, desenhos e muito mais. Obrigado de coração.

O Decálogo de ontem rendeu assunto: Mauro Amaral, do Carreira Solo, fez um lindo selinho, para quem quiser colocar em seus blogs. Eu já embuti, no selinho, o permalink ao decálogo. Circulem à vontade:
DECALOGO.jpg

Não passará inomeado Alexandre Lemos Avelar, 8 anos de idade, que ontem operou e pilotou a caixa de comentários de um blog pela primeira vez, sem problemas. Gostou do Movable Type. Laura, de 4 quase 5 anos, também andou lendo o blog, embora ainda não tenha pintado ainda na caixa de comentários.

Os posts mais antigos ainda não estão no formato correto (embora toda a informação esteja lá) e muitos ainda não estão catalogados nestes 8 ou 10 tópicos da esquerda. Pouco a pouco eu vou arrumando. Os comentários, bom, esses pode ser que sejam importáveis, pode ser que não. Como se lembram, o UOL tem um sistema louco, onde não se abre permalink nenhum, e os comentários estão lá num espaço-zinho virtual trancado. Há 2000 comentários lá no UOL, que eu eu adoraria trazer. Se valer a pena importar, a gente importa. Se não, paciência.

Próximos passos do blogueiro: trocar o IE pelo Firefox, fazer a licença da Creative Commons (sugestão aguda de Bibi) e comprar um microfonezinho para começar a podcast!

Um dos temas sobre os quais o Biscoito vai enfocar alguns posts nas próximas semanas é a história da Palestina desde o final da década de 1940. Por enquanto, eu queria deixar com todos os que lêem inglês esta sugestão de relato histórico sobre o assunto.



  Escrito por Idelber às 00:41 | link para este post | Comentários (33)



quarta-feira, 30 de março 2005

Decálogo dos Direitos do Blogueiro

10. Toda blogagem se dará em paz e exercitará a liberdade de expressão inerente a qualquer democracia. A blogagem estará a salvo de perseguição política, religiosa ou doutrinária de qualquer caráter. O blogueiro será livre para dizer o que lhe venha à telha, desde que, obviamente, não cometa com a linguagem crimes de calúnia ou plágio.

9. Todo blogueiro terá o direito de passar um dia sem blogar e não receber mensagens alarmistas, preocupadas ou encheção de saco. Os blogueiros serão poupados de receber emails com gritaria ou esbravejação em letras maiúsculas e, no caso de recebê-los, serão livres para exercitarem o direito de ignorá-los ou apagá-los.

8. Todas as blogueiras terão direito de blogar em próprio nome, em pseudônimo ou em heterônimo como lhes apraza, de forma exclusiva ou simultânea. Assim como todos os outros direitos nomeados aqui preferencialmente no feminino, este também se aplica, evidentemente, aos homens que possam, saibam ou ousem exercitá-lo.

7. Sendo publicitário, funcionário público, palhaço, vendedor de seguro, jogador de futebol, aeromoça, professor universitário, paquita, lixeiro ou desempregado nas horas vagas, o blogueiro tem direito de não ser importunado, agredido, chantageado ou ofendido por sua escolha ou necessidade profissional fora das horas de blogagem.

6. Todas as blogueiras terão direito de livre associação em quaisquer grupos, incluindo-se aí grupos com objetivos e programas contraditórios. Entender-se-á a blogagem sobretudo como um direito à coexistência bizarra, insólita e feliz de diferenças na internet. Na blogosfera haverá paz de se retribuir as visitas ao blogs de cada um na devida temporalidade baiana que deve reger as coisas, sem pressa, sem culpa e sem cobrança. Ao visitar o blog alheio o blogueiro também temperará o natural desejo da recíproca com semelhante tranqüilidade.

5. Toda blogueira estará livre de qualquer responsabilidade sobre afirmações feitas por outras pessoas em seu blog. Nenhuma blogueira poderá ser interpelada, processada ou censurada por ofensas ditas por outrem em seu blog. Caso alguma pessoa se sinta ofendida por algum comentário e reclame, a blogueira terá amplo tempo para decidir qual a atitude correta de anfitriã que exercita seus direitos de cidadã numa democracia onde àqueles correspondem, é claro, deveres também.

4. A todo blogueiro será garantido o direito de promover votações, concursos, citações, retrospectivas, autolinkagem ou reciclagem sem ser acusado de estar ficando sem assunto.

3. Todo blog terá liberdade absoluta de linkar, deslinkar e relinkar como lhe preze, entendendo-se que a linkagem é ato livre, unilateral e jamais significa, por si só, um endosso de conteúdo do site linkado. Todo blogueiro terá paz para ir linkando aqueles que o linkam ou não, na medida em que ele vá viciando-se em blogs.

2. Todo blogueiro terá o direito de exercitar periodicamente o direito de dizer abobrinhas sobre assuntos que não entende, de tal forma que os blogs de futebol serão apoiados quando resolvam falar de música e os blogs de economia contarão com a compreensão geral quando decidam falar sobre a composição do vinho. Mais bobagem que certas revistas semanais blog nenhum conseguirá dizer.

1. Todo blogueiro terá o direito de propor decálogos incompletos – eneálogos, na verdade – e solicitar ser completado, corrigido ou auxiliado pela caixa de comentários. Esqueci de alguma coisa? Sejam bem-vindos.



  Escrito por Idelber às 02:26 | link para este post | Comentários (72)



terça-feira, 29 de março 2005

Considerações sobre UOL, blogs e portais no dia da saída

Eu acho que eu já falei isso com vocês aqui no blog: mineiro não sai chutando a porta. Neste último post aqui queria agradecer a hospitalidade do UOL, apesar de seu enfurecedor e incompreensível verificador anti-spam. Se este blog conseguiu média de 500 comentários por mês com essas letras sob tortura, tudo indica que no novo pontocom temos condições de transformar o blog naquilo que eu gostaria mesmo: um foro de debate, discussão, democracia. Quanto ao UOL, eu continuarei pagando-lhes meus 18 reais mensais, já não para hospedar o blog, mas para acompanhar a Folha, apesar de eu estar lendo cada vez menos jornais e cada vez mais blogs. Sem querer, então, chutar a porta na saída, eu não posso me furtar uma pergunta: como é possível que o maior portal de conteúdo e acesso à Internet na América Latina possa operar hospedando milhares de blogs e ao mesmo tempo não ter a menor noção do que acontece na blogosfera brasileira de vida inteligente?

As dimensões do UOL são impressionantes:

Lançado em abril de 1996, o UOL provê acesso em mais de 2.200 localidades brasileiras e oferece também números locais de conexão em mais de 14 mil cidades no exterior. Tem hoje mais de 1,3 milhão de assinantes pagantes. Desde setembro de 1999, atua também como portal e provedor de acesso na Argentina. O UOL reúne o mais extenso conteúdo em língua portuguesa do mundo. Está organizado em 42 estações temáticas, com mais de mil diferentes canais de notícias, informação, entretenimento e serviços, somando mais de 7 milhões de páginas. Segundo o Ibope NetRatings, o UOL teve média de 7,130 milhões de visitantes únicos domiciliares mensais no Brasil em 2004, número que lhe dá a primeira posição no ranking dos maiores portais de conteúdo do país e representa cerca de 60% de alcance nesse mercado. Isso significa que de cada 10 pessoas que acessam a Internet a partir de casa, 6 visitam o UOL regularmente. Ainda segundo o Ibope, o UOL teve média mensal de 1,094 bilhão de páginas vistas em domicílios no Brasil no ano passado.

No entanto, a página de abertura dos blogs do UOL é uma seqüência de pisca-piscas adolescentes. Ficaram sem resposta todas as minhas tentativas de chamar atenção dos responsáveis pela área de blogs do UOL para alguns dos blogs de qualidade hospedados no portal, como os dos fantásticos poetas Mário Coivara ou Ana Peluso, esta recomeçando seu blog do zero depois de um trágico apagamento. Falo sem nenhum ressentimento: o Biscoito conquistou mais leitores mais rapidamente que eu jamais imaginava. Mas não deixou de me estranhar que muito depois de ser reconhecido por blogs como Por um Punhado de Pixels, Pensar Enlouquece e Liberal Libertário Libertino o Biscoito ainda não aparecia entre os top 100 blogs do UOL! Na mesma semana Alexandre Cruz Almeida havia dado uma entrevista ao Estadão dizendo que o Biscoito era um dos cinco melhores blogs em língua portuguesa. Quando lhe agradeci disse que, sem falsa modéstia, eu achava que ainda não havia chegado lá (top 15 talvez, top 5 não). Mas que algo estava errado com os motorzinhos do UOL se a gente não aparecia entre os cem melhores blogs do portal.

Ao longo da convivência, ficou óbvio para mim que o UOL entende os blogs como fofoca internética e não tem uma boa compreensão do que a blogosfera já realizou em língua portuguesa. Falta compreensão do que se poderia realizar se um portal como o UOL investisse, aperfeiçoasse, assessorasse os blogs nele hospedados, com atenção especial aos blogs de qualidade, onde há pessoas escrevendo com um pouco mais de reflexão, seja poesia, seja jornalismo, seja o que for. Parece que o UOL, mesmo sendo um gigantesco hóspede de blogs, ainda demorará um tempo para perceber o potencial da blogosfera. Fábio Sampaio, super professional responsável por minha transição ao pontocom, explica que o sistema do UOL é um desafio pela quantidade de nonsense colocado nele. Todos os profissionais que conhecem de programação parecem concordar que o sistema é um monstrengo. Falando como blogueiro, posso garantir que é das coisas menos amigáveis com o usuário que já experimentei. Os dados mostram que por mais que a blogosfera haja crescido, ainda há um descompasso: para o maior portal de internet da América Latina, os blogs ainda são uma coleção de banais confissões pisca-pisca. Poderíamos tirar deste fato algumas conclusões?

Contagem regressiva ao ponto com: UM (na manhã desta quarta-feira postaremos aqui o link à nova casa, onde estará lhes esperando um novo post).



  Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post | Comentários (4)



segunda-feira, 28 de março 2005

Prolegômenos esportivos a um post sobre duas mulheres

Eu estou preparando um post em homenagem a duas mulheres. Ainda não é este. São duas mulheres que eu aprendi a chamar pelo primeiro nome. Não é lindo isso, leitor, aprender, ao longo dos anos, a chamar alguém pelo primeiro nome? Ambas são doutoras, mas hoje para mim elas já são Cat e Beth. Dra. Cat reside em New Orleans e Dra. Beth reside em Belo Horizonte. Cat é minha advogada e Beth é minha analista (de linha freudo-lacaniana). Como é que fui mexer com advogada e com analista? Aguardem os próximos capítulos do Biscoito. Por enquanto, isto: sem mais elementos para embasar-me, eu as escolhi porque eram mulheres. E foi um sucesso.

Maravilhosa cervejada e comemoração da vitória: Quando os compatriotas brasileiros chegam aos EUA eu gosto de apresentar-lhes um evento que é genuína cultura popular estadunidense bacana – o campeonato nacional de basquete universitário, os NCAA’s . Trata-se de uma competição que tem lugar no coração das pessoas, entre as universidades nas quais elas estudaram. Sobre a escola para eu qual eu torço, cabe uma palavra. A Universidade da Carolina do Norte, pública, foi fundada em 1789. Escola de Michael Jordan, poderosa no basquete, teve no leme durante décadas Dean Smith, baixinho branquelo genial, responsável por inter-raciais sit-ins (manifestações em restaurantes) importantes na derrocada do racismo nos anos 60. A UNC é também respeitada por graduar todos os seus jogadores-alunos, sem babaquices ou falcatruas. Os torcedores da legendária UNC (que andava em baixa desde a aposentadoria de Dean) estamos comemorando a sensacional campanha deste ano. Na celebração da ida às semifinais neste domingo, o blogueiro descobriu que há uma legião de torcedores (ex-alunos) da UNC em Nova Orleans, incluindo umas belas advogadas de olhos azuis. Os NCAAs são o que a cultura esportiva dos Estados Unidos tem de melhor: mulherada ouriçada no sports bar, cervejinha gelada, high-fives. No próximo sábado tem mais. Por falar em esportes, saudações aos blogs atleticanos Martelo, Sarapalha, e Mineiras, Uai (power trio que inclui uma torcedora do ex-Ipiringa). O Biscoito decreta: a blogosfera belo-horizontina é mais atleticana que o Café Nice da Afonso Pena.

Para os leitores que chegam agora: eu escrevo sobre literatura. O primeiro livro, sobre narrativa latino-americana, pós-ditadura e luto, saiu em inglês, espanhol e no Brasil ficou assim. O segundo, sobre violência, fuçável online, é este aqui. Eu gosto de dar pitacos sobre música, já escrevi sobre a música de Minas Gerais, metálica e clubedaesquínica. Sobre política, eu digo, com revolta, isto, com paciência, isto, sem paciência, isto.

Nesta transição ao pontocom, eu devo agradecimentos a cinco seres humanos de generosidade infinita. Aos prezados e à linda, gratidão muy mucha. A casa está ficando chique que vocês nem imaginam. Aproveitem as letrinhas do sistema anti-spam do UOL enquanto é tempo. Contagem regressiva para a nova, maravilhosa casa, abençoada por cobras criadas: DOIS



  Escrito por Idelber às 01:21 | link para este post



domingo, 27 de março 2005

Alejandra Pizarnik

(traduções minhas, originais aqui)


1

Dei o salto de mim à aurora
Deixei meu corpo junto à luz
e cantei a tristeza do que nasce


6
ela se desnuda no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe

13
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

37
mais além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência

Os Trabalhos e as Noites

para reconhecer na sede meu emblema
para significar o único sonho
para não sustentar-me nunca de novo no amor

fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos
para dizer a palavra inocente.



  Escrito por Idelber às 02:07 | link para este post | Comentários (1)



sábado, 26 de março 2005

Feliz Aniversário Galo

O Clube Atlético Mineiro foi fundado, ao contrário de todos os outros grandes times do Brasil, não por desportistas de elite, mas por 22 meninos que mataram aula. Ao contrário de todos os outros grandes times do Brasil, o Galo já era, na década de 1910, um time de negros e mulatos, numa época em que o futebol brasileiro ainda era segregado. Disso nós muito nos orgulhamos.

O Galo é pioneiro em tudo:


primeiro campeão da cidade de BH (1908)
primeiro campeão do estado de MG (1915)
primeiro campeão de um torneio inter-estadual brasileiro (Campeão dos Campeões do Brasil, 1936)
primeiro time brasileiro a excursionar vitoriosamente pela Europa (1950)
primeiro e único clube de futebol do mundo a derrotar a seleção brasileira de futebol (1969)
primeiro campeão brasileiro de futebol (1971)
primeiro campeão da Copa Sul-Americana Conmebol (1992)

Parabéns ao Galo, por 97 anos de glórias. Este post será atualizado a cada 10 minutos com impressões sobre o clássico deste sábado, entre o Galo e o ex-Ipiranga, pelas semifinais do campeonato mineiro.

10 minutos de jogo: como sempre, a massa é maioria no Mineirão (mesmo pela televisão dá prá ver). O Galo já teve uma chance e Fred, do ex-Ipiranga, já recebeu amarelo por jogo violento. 12 minutos: quase gol do Galo, em finalização de Fábio Jr. 17 minutos: bate-rebate na área do ex-Ipiranga. Galo domina o jogo. Massa enlouquecida. 20 minutos: ex-Ipiranga equilibra o jogo e ganha escanteio. 26 minutos: o Galo mete uma bola na trave!! Mais um cartão amarelo para o ex-Ipiranga (Batatais). 28 minutos: Fred, do ex-Ipiranga, perde um gol na cara. Jogo sensacional no Mineirão. O ex-Ipiranga usa o toque mais miúdo, o Galo joga mais em velocidade. 32 minutos: amarelos para Fabio Jr., do Galo e Dracena, do ex-Ipiranga, por bate-boca. Jogo tenso na Pampulha. 35 minutos: sai Edson e entra o garoto Quirino no Galo. 37 minutos: falta contra o Galo, batida prá fora. Ex-Ipiranga volta a equilibrar o jogo. 39 minutos: falta contra o Galo, que começa a tomar sufoco. 46 minutos: Galo, no contra-golpe, quase marca. Empate é justo neste primeiro tempo.

Segundo tempo, 4 minutos: Zagueiro Adriano, do Galo, se machuca seriamente e sai chorando muito. Entra Henrique. 10 minutos: escanteio para o Galo. Massa em polvorosa. 13 minutos: Renato perde gol feito para o Galo. Sai Renato contundido. Galo queima a última substituição, entra Leandro Smith. Muito azar. 17 minutos: desvio na barreira e gol do ex-Ipiranga. Melda. Galo perde por 1 x 0. 23 minutos: ex-Ipiranga trunca o jogo e o Galo, sem 4 titulares, não reagiu ainda. 27 minutos: ex-Ipiranga mete bola no travessão. Jogo fica muito complicado para o Galo. 38 minutos: Galo mete bola na trave! 44 minutos: Fábio Jr. é expulso. A coisa fica muito feia. Termina o jogo, 1 x 0 ex-Ipiranga. O Galo precisa de uma vitória por 2 gols de diferença na próxima semana em Ipatinga. Não é o fim do mundo. Já saiu de buracos maiores.



  Escrito por Idelber às 12:47 | link para este post | Comentários (2)




Sobre encontros de blogueiros, subsídios, comentários e esportes

Sobre encontros de blogueiros: dezenas deixaram recados animados com possíveis encontros de blogueiros. Mantenhamos viva a idéia de vários pequenos encontros nas principais cidades brasileiras. Já de antemão, convido meus amigos blogueiros belo-horizontinos a uma cervejinha no Mercado no primeiro fim de semana de junho e os blogueiros paulistanos a uma cervejinha no domingão 19 de junho, quando estarei em Sampa caminho a Araraquara.

Sobre subsídios: como um representante da Prefeitura de Belo Horizonte abertamente nos ofereceu canais de conversação, eu gostaria de esclarecer: 1) eu moro no exterior desde 1990 e não aceito dinheiro público para qualquer tipo de evento e não preciso dele; 2) no Biscoito os blogueiros terão sempre o espaço para se organizarem e planejarem reuniões sem serem importunados por pessoas cuja especialidade é vociferar em blogs contra leis de incentivo à cultura; 3) no Biscoito qualquer representante do poder público – fazendo o seu papel de profissional – que quiser nos oferecer interlocução, ajuda ou esclarecimento sobre como algum possível evento blogueiro pode receber apoio terá a paz para fazê-lo sem ser importunado por pessoas cuja especialidade é vociferar contra as leis de incentivo à cultura. Então só para esclarecer: eu não quero subsídio nenhum. Ganho mais que suficiente. Mas o espaço do Biscoito para que vocês se organizem e apresentem o projeto à prefeitura de Belo Horizonte sem serem importunados continuará aberto. Quaisquer comentários questionando seu direito de fazê-lo, ou obstaculizando-o de qualquer forma, serão sumariamente apagados. Quem quiser vociferar contra o incentivo estatal à cultura, procure outro blog. Quem quiser discutir se ele deve ou não existir, também. Essa discussão é considerada superada pelo Biscoito, porque o blogueiro que o confecciona lê sobre política cultural há tempos e não está disposto a ter discussão tão básica como “deve ou não deve haver apoio estatal à cultura". Há outros blogs para essa discussão pedestre, que ignora o fato de que jamais houve estado digno do nome que não apoiasse ou subsidiasse, de alguma maneira, sua cultura. Discutiremos política cultural no Biscoito, mas não nesse nível.

Sobre os comentários: o apagamento de um comentário que nos atacava por conversar sobre a apresentação de um projeto a uma prefeitura me leva a divulgar-lhes umas estatísticas. O Biscoito existe mesmo desde novembro. Em quatro meses foram deixados aqui 1964 comentários e somente 4 foram apagados. Está bastante razoável. Considerando como as discussões fervem e se defendem posturas polêmicas aqui, estão todos de parabéns pela civilidade.

Sobre o critério que rege a brincadeira: dos 4 comentários apagados ao longo da história do Biscoito, um foi essa agressão recente à iniciativa coletiva, 2 continham calúnias contra mim e o outro foi por uso deselegante das maiúsculas. Das 2 calúnias, uma era a acusação de que eu teria estudado nos EUA com dinheiro público (sempre ele, habitando as fantasias dos ressentidos) e o seu autor se retratou por email. A outra era de que eu criticava o governo porque algum dia teria tentado entrar ao estado por concurso e não teria conseguido (vou lhe contar, tem louco para tudo). Acusação assim, dessas malucas, eu decidi que não aceitaria. Tem que pôr uns limites, não é, meninas? Todos os que tiveram comentários apagados aqui terminaram convertendo-se em leitores regulares, o que prova que a casa não deixa de ser hospitaleira e pedagógica :)

PS, Futebol: o Clube Atlético Mineiro celebra hoje 97 anos. Neste sábado às 16h o Galo enfrenta o ex-Ipiranga, tentando a incrível marca de cinco tamancadas consecutivas.

PS, Basquete: a única época em que o basquete toma a dianteira no meu coração é durante as finais do campeonato estadunidense universitário (nos sonolentos profissionais da NBA não vejo a menor graça). Nesta sexta à noite, a minha alma mater sobreviveu às oitavas-de-final num jogaço.

Contagem regressiva para o pontocom: TRÊS



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (1)



quarta-feira, 23 de março 2005

Como se organiza um encontro de blogueiros

A viagem para o Brasil me fez pensar na idéia de que seria bacana
participar de um ou vários encontros de blogueiros. Quem topa? Eu já
adianto: não tenho condições de organizar. Mas lanço a idéia e se alguém se dispõe a tomar a dianteira, eu ajudo.

Eu tenho alguma experiência na organização de encontros de acadêmicos
financiados por agências de fomento, mas é óbvio que essa experiência
não me serve: nenhuma dessas agências acadêmicas financiaria um encontro de blogueiros (blogueiros? o que é isso? nos diriam). Mas é claro que se pode fazer uma versão barata e light sem financiamento externo nenhum, só na base da vaquinha e dos gastos pessoais mesmo.

Por mim, o encontro seria no Rio de Janeiro, mas em Sampa também eu
estaria feliz da vida. Pode se fazer dois encontros, claro. A idéia de Biajoni é realizar um encontro de blogueiros num lugar chamado Santana do Jacaré, que fica no meu estado, em Minas Gerais, não me perguntem onde, porque o blogueiro é de BH, não vai ao mato nunca e não se interessa por lugares onde não haja pelos menos 300.000 outros seres humanos ao redor.

Mas talvez seja interessante fazer o encontro no meio do mato, quem
sabe. Eu opinava a Bia e a Rafael Galvão que devia haver acesso à internet sem fio, para que pudéssemos blogar o evento ao vivo – se não serviço “wireless”,pelo menos uma boa seleção de internets café na cidade teria que haver. Atendo-se a um modelo hollywoodiano, Bia preferia “tirar os blogs do ar” durante 3 dias, “fazer suspense” durante o encontro e voltar com novidades.

Eu acho isso abominável. Você que é blogless, leitor, não preferiria um encontro de blogueiros blogado ao vivo? Você ficaria três dias sem blog? Eu já nem me lembro de como era a vida antes de eu ler blogs todos os dias.

No caso de haver encontro, podemos fazer desde uma pequena reunião até um balacobaco coberto pela imprensa grande e alternativa , por que não?. No mínimo, pode ser um espaço para discutir questões que nos afetam a todos, blogueiros e usuarios da internet em geral. Entre os leitores que estão mexendo com blogs há mais tempo que eu, alguém sabe se já se fez algo assim no Brasil? Quem faria uma viagem de carro, ônibus ou avião para participar de um encontro de blogueiros sem temer haver *enlouquecido completamente*?

PS 1: Clico daqui, clico dacolá, chego na página do tal Sr. Olavo de
Carvalho (não, não linko não). A primeira frase do texto cometido por
esse sr. era: Repetidamente um fenômeno tem chamado a atenção de
professores estrangeiros que vêem
[sic] lecionar no Brasil: por que nossas crianças estão entre as mais inteligentes do mundo e nossos universitários entre os mais burros? Quais professores? Ele não diz. Cita alguém? Não. Alguma pesquisa? Não. Quando, onde, como? Tampouco. Quem diz que os universitários brasileiros estão ‘entre os mais burros’? Ele, porque tirou da própria cabeça. Essa criatura já deu aula em alguma universidade de primeiro, de segundo, de terceiro ou de quarto mundo que lhe desse termo de comparação para enlamear os universitários brasileiros? Não. Já escreveu alguma coisa reconhecida fora de wundergrupelhos brasileiros de seguidores de direita? Não. No entanto, o Globo empresta suas páginas para que essa anta insulte os outros a torto e a direito. Um fanático de extrema-direita que não sabe nem mesmo a diferença entre a conjugação do verbo "vir"e a do verbo "ver" se dá o direito de insultar os universitários brasileiros e declarar que Mário de Andrade foi um "importador de novidade cultural". Esse é o infeliz que uma meia dúzia na nossa blogosfera leva a sério. É a última vez que escrevo o nome desse arremedo de intelectual no meu blog. Para lúcidas desmontagens das palhaçadas desse sr., acompanhe o Smart Shade of Blue. Falemos do nosso encontro que dá mais certo.

PS 2: Contagem regressiva para o pontocom: CINCO.

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  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 22 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 6 - Esses fumantes incríveis e suas citações maravilhosas

Três citações. A primeira pró-tabagista, a segunda anti-tabagista, a
terceira aterrorizante.

Respondeu uma vez Groucho Marx, quando perguntado sobre ter que escolher entre sua esposa e o tabaco: seremos bons amigos!

Disse uma vez Arturo Toscanini: Beijei a primeira garota e fumei meu primeiro cigarro no mesmo dia. Desde então não tive tempo para
cigarros
. Esperto o Toscanini, vai dizer?

Mas a mais incrível é de Buck Henry: Eu parei de fumar há alguns anos para demonstrar minha força de vontade, protestar contra o aumento grotesco nos impostos sobre o cigarro e porque meu lábio inferior caiu. Se eu sinto falta do cigarro? Honestamente? Mais do que do lábio que caiu!

Este blogueiro completa 40 dias sem fumaça e saúda a volta do fantástico Tabagista Anônimo, link que nos chega via Cigarro e Silêncio.

Continuo lendo o extraordinário Consciência de Zeno, o romance modernista fundamental de Italo Svevo sobre o(s) último(s) cigarro(s).

É lindo demais escutar Nora Ney cantando De Cigarro em Cigarro.

PS: Acabo de confirmar passagem para terra brasilis!! Chego a Belo Horizonte dia 28 de maio. Saravá pão-de-queijo! Veja bem como são os bons fluidos em volta da gente: telefono para a American Airlines para comprar a passagem mais complicada da minha vida. Descubro que tenho direito a uma passagem grátis por milhagem. É mole? Iu-hu!!! A primeira viagem dentro do Brasil será dia 20 de junho, a Araraquara, para uma reunião de especialistas na obra de Jacques Derrida. Dizem que há blogueiros que lá irão, apimentar o encontro. Muito se pode dizer sobre a relação entre a desconstrução, o pensamento de Jacques Derrida, e a fumaça: o evanescente, o intangível, o que se queima e se mistura no ar. Já falaremos mais disso. No dia 29 de junho, festa em BH, lembrança definitiva de porque parei de fumar: sexto aniversário da mulher mais importante da minha vida, Laura.



  Escrito por Idelber às 17:21 | link para este post




Linkar também é cultura - Women's Day

Nos arquivos de Marina W – pioneira da blogosfera, é bom avisar, já que quem acaba de chegar muitas vezes não sabe – descubro que depois do 11 de setembro tanto Madonna como Woody Allen deram respostas lúcidas, tranqüilas. Parece que foi há um século e o pesadelo político só piora. Gosto de passear pelo blog de Marina W: sucinto, pungente. Foi via Marina W que cheguei nesta singeleza.

No post de 19 de março do Kit Básico da Mulher Moderna, a autópsia feminina de três figuras: o marido indiferente, a esposa frustrada, o confidente masculino internético “compreensivo”, cuja “compreensão”, claro, é só um trampolim para que ele se sinta virtuoso consigo mesmo. Eu sempre gostei de literatura erótica e sabia, quando comecei a blogar, que encontraria blogs de contística erótica. Não sabia que eles iriam ser desta qualidade.

Para quem ainda acha que Aécio Neves é um bom mocinho, a Dra. Cynthia
Semíramis tem treze links. Dra. Cynthia é, sabe-se, pesquisadora de questões relativas ao direito e à internet, e é co-autora do Manual de sobrevivência na selva de bits.


Lucia do Frankamente conta a história da sua relação com o desejo de lombada. Não resisti e, na caixa de comentários, contei a história de Adolfo Couve, grande escritor chileno que se suicidou no dia da posse de Pinochet no Senado. Couve teve seu último romance rejeitado por “falta de lombada” – só tinha 13 páginas (treze, acredita, Sheila?).

A respeito do valor da mobilização na política Monicomio colocou tantas questões que eu não teria como responder sem fazer outro longo post. Digamos que, em minha opinião, a pergunta de Mônica sobre qual é *essa tal mobilização para se cobrar do governo *deixa bem a desnudo os limites do que pode realizar agora, no Brasil, uma estratégia de bem-comportado "cobrador" do governo. Com a palavra, os defensores de tal estratégia. Sobre o voto nulo, a contribuição impagável foi a de Lucia Malla, com a história dos mosquitos de Vila Velha.

Definição feminina implacável: festa é o que acontece entre horas no espelho e aliviar os pés do sapato apertado. Roubei de Ticcia e Rô. Boa como essa, só a definição de casamento de Lucia Villa Real: Casamento é igual piscina gelada. Depois que o primeiro tonto entra, ele fica gritando para os outros: ‘pula que a água está boa!”

Na área de reflexão acadêmica brasileira sobre os blogs, são as mulheres que realizam a maioria dos trabalhos pioneiros: Suzana sobre o potencial educacional dos blogs, Elisa sobre a etnografia, digamos, dos blogs, a Isabel sobre as relações afetivas na net.

Ah! Conheça o trabalho de outras pioneiras da blogosfera nacional aqui, aqui e aqui também, viu? Pronto. Fiz o post que queria fazer em homenagem a *algumas dessas blogueiras e seus blogs maravilhosos. E pensar que, quando comecei, considerei a possibilidade de fazer o blog em inglês. Onde eu andava com a cabeça?

Contagem regressiva para o pontocom: SEIS
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  Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post



segunda-feira, 21 de março 2005

Momento confessional do blog, e respirada na discussão do voto nulo,

Se alguém me dissesse há seis meses atrás que a inteligência mais aguda que eu encontraria na blogosfera nacional seria um *publicitário governista, que além de tudo seria um baiano que escolheu morar em Sergipe, eu teria desistido da vida de blogueiro antes de iniciá-la. Mas vejam vocês quão pouco dizem os rótulos. Sobre a bela resposta que ofereceu Rafael à minha provocação sobre o voto nulo, há que se dizer mais uma coisa, não dita em meu último post: que um stalinista baiano radicado em Sergipe não pode fazer piada de barbudinhos trotskistas! Quando fala em “barbudo” será que Rafa está pensando em Trotsky, em mim ou na Heloísa Helena?

Primeiro problema: 21 de março, o blogueiro tem compromisso de estar no Brasil 25 de maio e a passagem não está comprada. Não está porque eu não sabia se o plano era voltar para dar aula em janeiro (o sabático de set-dez, além das férias de mai-ago, estão garantidos) ou se era voltar em outubro. Por que voltar em outubro se só tenho que dar aula aqui em janeiro? Porque aí eu sairia daqui de Nova Orleans em direção a Santiago, para dar o curso que me comprometi dar lá em outubro, ao invés de sair de BH. E por que teria que dar essa volta? Porque, apesar de já poder acrescentar à cidadania brasileira a americana quando quiser, já que meu green card tem mais de 5 anos, eu não posso passar mais de 6 meses fora dos EUA de uma vez, se não quiser ter que começar a contar os 5 anos para a cidadania todos do novo. Então tenho que tomar um avião em
BH, indo para Santiago via New Orleans. É mole? A passagem é New Orleans - BH (maio) – BH – Buenos Aires – (em agosto, por 5 dias) – BH - New Orleans (outubro) - Santiago –-BH – New Orleans (em janeiro). Por onde eu começo a explicar à agente de viagem o que eu preciso?

Segundo problema: Nesses oito picotados meses que estarei em BH, o plano é escrever o livro sobre música brasileira. Mas o livro que eu terei que estar escrevendo caso receba uma das bolsas que pedi é sobre coisa mais chata (ensaísmo latino-americano). As bolsas que pedi me permitiriam estar em BH sem dar aulas não só de maio até janeiro / 2006, mas até agosto / 2006 (sim, é verdade, este blogueiro começa a comer alguns filés, mas acreditem, ralei muito prá chegar neles). Como estou começando a empacotar a casa aqui em New Orleans, tenho que escolher quais livros ponho num galpão e quais empacoto para enviar ao Brasil. Minha biblioteca aqui anda por volta de 5.000 volumes. O blogueiro está em pânico. Tenho que decidir qual será a minha biblioteca do próximo ano, porque no meu AP em BH ainda quase não há livros. Estou seriamente tentado a chutar o balde com o tema enviado às agências de fomento, estocar os livros de ensaísmo hispano aqui, mandar só livros legais ao Brasil (incluindo toda a minha coleção sobre música) e, caso saia alguma das bolsas para 2006, simplesmente dizer à agência: olha, vocês demoraram três anos para financiar essa porra, quando resolveram já era tarde, agora só me interessa Jorge Ben Jor. Não escrevo o livro sobre ensaísmo hispano, escrevo o livro sobre música brazuca e ponto. Acho que já ganhei esse direito, sinceramente. Ao enviar os livros a BH será que envio dicionários ou não? Envio romances em francês ou não? Que livros de filosofia envio? Arre, odeio essas decisões.

Vencedor do sorteio da caixinha de discos: Na votação realizada aqui no Biscoito, dos melhores discos da música brasileira popular, eu prometi sortear uma caixinha de CD-Rs. Hoje coloquei os nomes dos 50 eleitores numa cartolinha e tirei. O vencedor foi o blogueiro Guto . Parabéns, Guto e confirme por favor por email qual o seu endereço postal para que eu possa lhe mandar a caixinha. Obrigado a todos os que participaram.

Fenomenologia da Fumaça, semana 6: memória ainda meio ruim, tropeços generalizados, leitura ainda fraca, mas nenhum único cigarro. Estou próximo de bater meu record.

Futebol: o grande especialista é Ubiratan, mas ele previu Santos. Este blogueiro entende 1% do que entende Bira, mas suspeitava que num campeonato de pontos corridos daria o São Paulo de Leão. Parece que acertei. O Tricolor está bem à frente a seis rodadas do final. Ano passado acertei escandalosamente em quase todos os palpites. Vamos ver este ano. Meu Galo vai muito mal. Bira, traidor, previu Cruzeiro. No Rio minha previsão ainda é Botafogo. Bira previu Vasco, que já está quase fora

Campanhas: o Biscoito apóia o fim do voto obrigatório. E lança outra campanha possível para o Brasil: não deixe o presidente falar de improviso!

Contagem regressiva para o pontocom: SETE.



  Escrito por Idelber às 13:58 | link para este post




POLÍTICA E DESENCANTO

Há 72 horas eu deixei aqui uma pergunta, não mais que uma pergunta -
acompanhada de um raciocínio no condicional em sua defesa. Era a pergunta pelo voto nulo: a besta, a chutada de balde, a mandada à merda, a “alienação” , “niilismo”. Já recebi quase uma centena de respostas. Clóvis Rossi, da Folha, me diz por email: sou contra voto nulo. Seria mais útil que os blogueiros se organizassem para criar/reformar/revolucionar um partido político e com ele disputar a eleição para mudar. Voto nulo não muda rigorosamente nada. abs. Sempre gentil é o Clóvis, mas eu lhe respondi que, depois de 22 anos de PT (9 aí realmente envolvido, 13 aqui nos EUA), eu não tenho saco, e quem entre vós já passou 20 anos construindo um partido que tenha virado o que o PT virou, ora bolas, que atire a primeira pedra. É como disse a leitora Gin , patrulhe quem quiser - não é o caso de Clóvis, claro, nem de *quase nenhum* dos leitores que se manifestaram aqui, mas o tema voto nulo ativa uma legião de patrulhadores. Eu não sei se votarei nulo em 2006, mas pedra nos que votarem este *Biscoito* não atirará. Bem vindos aqui sempre serão os discípulos de Bakunin. Há anos eu venho escrevendo sobre a necessidade de se *criar um lugar para o afeto na política* e os que se expressaram aqui simpáticos ao voto nulo manifestaram *afetividade* que está faltando, em geral, nas discussões políticas que ouço por aí. Eu acredito nos blogs como resgate dessa afetividade.

Tony Pereira passou por aqui e disse que (traduzo) é impossível saber o impacto que isso poderia ter. Essa impossibilidade de se prever o resultado do ato político é sempre chave para mim. Por isso não aceito a pergunta “o que conseguiríamos com isso?” Ora bolas, se o soubéssemos já não valeria a pena experimentá-lo. A pergunta teleológica antecipando-se à ação nunca me atraiu. Mas também tem razão Tony ao dizer que a história do abstencionismo na esquerda não nos autoriza a ser muito otimistas. Smart [link] levanta um lado interessante, o referendo e o plebiscito como instrumentos de intervenção política. Como afirmei na resposta a um leitor: este blog acredita na conjunção E, em fazer uma coisa E outra. Lançar um par de plebiscitos que confrontassem o petismo com suas traições históricas não seria má idéia. Rafael Galvão dedicou um maravilhoso post à discussão. Numa primeira versão Rafael havia sido injusto comigo, ao dizer que eu “havia pregado” voto nulo. Quando compartilhou o texto comigo por MSN, eu lhe assinalei isso e Rafael trocou o “pregar” pelo verbo justo, que era “considerar” – isto, garotos, chama-se *debater em boa fé*. O dia que eles wunderaprenderem a fazer isso eles chegarão aos calcanhares de Rafa e de Smart. Não discordo dos argumentos de Rafael contra os que “não votaram nele porque ele iria mudar tudo e agora descem o sarrafo porque ele não mudou nada”.

Mas não acho que a decepção seja uma questão de “falhas” ou “falta de
coragem” ou “de vontade” do governo - que são os três eufemismos que
usa Rafa. Para este blogueiro houve *traição profunda*. É uma diferença filosófica fundamental. Também não é correto, como diz Rafa, que Heloísa Helena tenha abandonado o time aos 5 minutos do 1º tempo – a não ser que consideremos a indicação de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central como parte da mera preliminar do jogo. Ora, quando você indica um sujeito como o presidente do BankBoston e lhe confere autonomia abençoada pelo monetarismo paloccista, bem, amigo, você está bem prá lá dos 5 minutos do *segundo* tempo, com o jogo perigosamente definindo-se em favor do time adversário, e com o seu próprio treinador mandando que você recue mais. A sequência de desastres entre Aldo e Zé
Dirceu, reconhecida pelo próprio Rafa, foi instaurada por essa dinâmica, de manter quadros históricos com a responsabilidade de justificar a traição à história. É ingenuidade crê-la mera falha técnica.

Por outro lado, Rafael tem razão ao dizer que dificilmente Lula deixará de se reeleger. Portanto, depois de 72 horas, que tal inverter o jogo? Ao invés de eu e os leitores simpáticos ao voto nulo oferecermos razões pelas quais ele pode ser relevante, que tal algum dos eleitores de Lula oferecer uma única razão, encontrável nestes últimos 27 meses, pelas quais nós devemos considerar a possibilidade de votar nele? Rafa nos pergunta o que conseguiu Heloísa Helena saindo do governo. Nós retrucamos: o que conseguiram Marina Silva e Miguel Rossetto *ficando* no governo? Será que algum dos eleitores governistas amigos nossos nos ajudará a empurrar em um centímetro a medieval discussão sobre o aborto entre essa padraiada, esses delúbios do PT? O que será que os eleitores de Lula têm a dizer às dezenas de mulheres que se manifestaram aqui ou por email com simpatia pelo voto nulo?

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  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post



sábado, 19 de março 2005

Voto Nulo, Blogagem, Mulher, Ciber-formas de Protesto

(impossibilidade, dificuldade de começar o post, teu nome é mulher: descoberta estupefata e orgulhosa de que 70% dos que escrevem neste Biscoito nas últimas semanas são do sexo feminino, que 60% dos blogs à esquerda são escritos por mulheres; no dia de intensa discussão sobre o voto nulo, primeira visita dos ¡Drops da Fal! ao Biscoito; blogueiro que se derrete de metido)

Resumamos, então: Há 24 horas o *Biscoito Fino e Massa* colocou a
pergunta sobre um possível voto nulo para presidente em 2006. Desde
então, 687 diferentes IPs estiveram aqui. 42 pessoas deixaram 47
mensagens diferentes e outras dezenas enviaram-me emails. O que estas
dezenas disseram? Nem me pergunte, amigo, há de tudo.Consideram o voto
nulo, junto com o *Biscoito*, Guto, Elisa, Púrpura, Alline, Ana Lucia, John, Tiagón, Fefê, Lilian, Silvia, Helena, outros blogueiros e leitores. Não eliminam a possibilidade de anular Cláudio Simões, Luanna, meus amigos Dr. Cláudio Costa, Milton Ribeiro e outros leitores. Resistem à idéia os blogueiros Smart, Fernando, Horvallis, o leitor Umberto. Rafael Galvão deixou claro que não a considera, e escreverá sobre o assunto. *25 leitores* se disseram já prontos para anular ou dispostos a considerar a hipótese de anular em 2006. Outros 11 leitores se manifestaram fortemente, ou ligeiramente, contrários à idéia. Outra dezena se manifestou neutramente ou sobre outras coisas. Fora tudo o que eu recebo por email. No blog de um antigo membro do PT, o voto nulo ganha de Lula 2 por 1 nem bem entrado o terceiro ano de governo. Tiremos as conclusões deste fato. Que vergonha que este seja um fato. Sinal de um profundo fracasso do governo Lula, um acomodamento seu em sua mediocridade.

80% das leitoras mulheres que se manifestaram na caixa de comentários
e/ou por email reforçam ou tendem ao voto nulo*. Será coincidência? Não sei, mas lembremos que este Biscoito já registrou, em semanas
passadas, a lambança que faz o governo do PT na área de direitos das
mulheres. O sr. mais identificado com a reflexão do PT sobre os
“direitos humanos” (Dr. Hélio Bicudo) não *aceita nem discutir *com o
maior jornal do país a questão do aborto, nem mesmo em casos extremos.
Ou seja, para a intelligentsia responsável pela compreensão jurídica do que são “direitos humanos” no governo brasileiro, os direitos das
mulheres sobre seus corpos não fazem parte da brincadeira. Aos que
apresentaram o argumento de que o voto nulo pode ser *perigoso*,
acreditem: o blogueiro está refletindo sobre isso. Há anos eu reflito
sobre a palavra *perigo*. Em alemão, por exemplo, Gefahr (perigo) tem uma relação etimológica com Erfahrung (experiência). Ou seja, só há experiência genuína se há perigo. A filosofia de Heidegger não é senão uma exploração dessa relação por dezenas de milhares de obsessivas páginas. Votar em Lula era *perigoso* em 1989, e quem me dirá que não teria sido preferível uma vitória ali, por oposição à pseudo-vitória de 2002?.

Perguntas: Sabem qual é o mínimo necessário de votos nulos para anular uma eleição? Conhece casos? Há algum candidato que faça com que você *desconsidere* o voto nulo? Quem conhece casos da esquerda brasileira ou internacional de voto nulo, e qual é o balanço que se faz deles? Não poderá o voto nulo contribuir a um rearranjo do quatro partidário, impondo um sacolejo ao PT e ao PSDB?



  Escrito por Idelber às 03:40 | link para este post | Comentários (2)



sexta-feira, 18 de março 2005

Você apoiaria uma campanha pelo voto nulo em 2006

Tanto a cientista política Lucia Hippolito como o jornalista Ricardo Noblat já notaram que:

A campanha pelo voto nulo começa a ganhar espaço na imprensa, em cartas de leitores, em e-mails de ouvintes e em movimentos de internautas.

Considerando que:

1) o voto nulo, como movimento organizado da sociedade civil, pode ser
uma forma legítima para que o eleitorado expresse seu descontentamento
com a progressiva desaparição de toda a diferença entre os projetos
políticos colocados na mesa;

2) o atual governo completa 27 meses não tendo melhorado nem um único
mísero índice social,
tendo aplicado a mesmíssima receita ortodoxa, monetarista e
concentradora de renda do governo anterior e utilizado todos os seus
métodos mais fisiológicos, inclusive com extensa evidência de acobertamento de crimes;

3) o Partido do Trabalhadores chega ao cabo de um processo de
liquidação completa de sua democracia interna;

4) o quadro partidário brasileiro mostra a consolidação de dois blocos
(PT junto com PL, PP, PC do B e PTB, do outro lado PSDB junto com PFL e PDT, com migalhas do PMDB caindo dos dois lados) *absolutament
idênticos em sua política econômica, prática política e pautas (não)éticas;

Considerando tudo isso, não espanta que vários setores da sociedade
civil e da blogosfera, incluindo o *Biscoito Fino e a Massa*, estejamos considerando participar de uma campanha cívica pelo voto nulo de protesto em 2006, não só para presidente como para os cargos
legislativos também.

Não me cobrem, por favor, que eu *saiba* de antemão o que se conseguiria com uma acachapante, escandalosa porcentagem de votos nulos em 2006. Não sei. Mas uma multidão votando nulo de forma organizada *pode produzir algum movimento.

Caso você seja contra, por favor poupe-me do cliché de que é importante votar em Lula para que a “direita” não volte ao poder. A direita está no poder. Se for criticar a iniciativa, eu sou todo ouvidos (ainda estou tomando minha decisão), mas apresente um argumento mais inteligente.

Eu confesso que morro de curiosidade: Você está também considerando a possibilidade de anular seu voto em protesto? Você participaria de uma campanha pelo voto nulo? Seria receptivo a ela?



  Escrito por Idelber às 01:12 | link para este post | Comentários (2)



quinta-feira, 17 de março 2005

Atualizadas

acadêmicas: 1) eu e mais uma turminha acabamos de fazer um livro: Ideologies of Hispanism, coleção de ensaios à qual eu contribuí um texto sobre o recrudescimento da xenofobia no esteio do 11 de setembro aqui nos EUA, e sua relação com o estado atual dos estudos latino-americanos. É realmente uma honra estar no livro com essa turma (quase todos são figuras centrais, seminais). Eu sou de longe o mais jovem. É especial estar pela primeira vez num volume
com minha ídola Sylvia Molloy. [link];


2) eu e Chris Dunn estamos organizando uma coleção de ensaios (em
inglês) sobre o tema *Música Popular Brasileira e Cidadania*, com o qual já se comprometeu boa parte da nata dos estudos acadêmicos de música brasileira popular. Os artigos já começaram a chegar (a maioria em português) e começa agora oprocesso de tradução ao inglês. Aos
colaboradores do livro que lêem o *Biscoito*, muita paciência. Uma
coleção de ensaios acadêmicos demora bem mais tempo para sair nos EUA
que no Brasil. Este blogueiro escreverá não sobre Minas, mas sobre o
primeiro e único Chico Science. Entre os textos que já nos chegaram,
está o da maravilhosa Goli Guerreiro
[link], sobre o
trabalho de Carlinhos Brown no Candeal. Chris Dunn escreverá sobre as
político-musicagens de Tom Zé. Hermano Vianna já nos enviou um trabalho
sobre o tecno-brega. Temos ensaios sobre rock, hip hop, eletrônica, MPB
e muito mais. Vocês ouvirão falar desse livro.

*políticas*, para a galera mais jovem que revisita março de 1985: a ala
“dissidente” do regime militar da qual saiu José Sarney, que comporia a
cédula com Tancredo na transição, *não teve nada que ver com a campanha
das diretas. *Foi explicitamente hostil a ela, na verdade. A ala
tancredista do PMDB tampouco moveu uma palha pela emenda Dante de
Oliveira, que Tancredo Neves sabotou, ao anticipar a negociação com a
ditadura nos bastidores, antes mesmo da votação. Parte da oposição
liberal foi arrastada de roldão à luta pelas diretas, mas a campanha foi
lançada pelo *Partido dos Trabalhadores* no final de 1983 com um comício
no Rio de Janeiro, com cuja organização *este* blogueiro contribuiu,
mesmo que durante a função ele tenha cedido aos encantos de uma baiana e
ficado na ignorância dos discursos. Em todo caso, se alguém tivesse dito
a qualquer petista em 1985, que 20 anos depois, Lula seria presidente do
Brasil, vários, muitos mesmo, entenderiam que isso era possível e se
regozijariam. Se alguém sugerisse que o principal aliado dessa
presidência no Senado Federal seria o coronel José Sarney, qualquer
petista teria reagido indignado, xingando. Aos que perderam a capacidade
de indignar-se, meus pêsames. Plínio de Arruda Sampaio e mais 108
eminentes petistas foram os últimos a anunciarem suas desfiliações,
inconformados com a sarneyzação do PT. Quanto à memória histórica, que
fique claro: Tancredo Neves *não teve nada que ver* com a campanha das
diretas. Foi arrastado a ela e negociou os bastidores da sua derrota.

*esportivas: *eu ia blogar sobre o tratamento *criminoso* que o governo
federal está dando ao futebol brasileiro – chafurdando-se na lama da
aliança com a cartolagem – mas vou esperar que gente mais preparada fale
sobre isso. Continuo acompanhando os melhores
[link] especialistas
[link]. Esta é, sem dúvida, uma área em que
houve retrocesso entre o governo FHC e o de Lula. De um homem respeitado
pelos esportistas, como Portella, passamos a um ministro que faz uma
gestão muito ruim do futebol: parece incrível, mas o homem não sabe a
diferença entre um escanteio e um arremesso lateral. Seu discurso é
pedestre, indigente. É triste, mas a cartolagem recuperou, sob Lula, um
considerável espaço em relação ao que havia perdido sob Portella.

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  Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post | Comentários (1)




Atualizadas, I, metablogueiras

metablogueiras*: 1) muito obrigado a todos os que participaram do
bate-papo sobre Clarice Lispector. Foi delicioso ver como a Mônica
[link] passou a ser um nome mencionado
em aula pelos meus alunos, que acompanharam o fio da conversa e tiraram
suas conclusões muito astutamente. Aliás, o grupo de 10 alunos que faz o
seminário de pós-graduação sobre o conto brasileiro é o *melhor grupo*
que eu já tive aqui em Tulane. Maravilha de cabeças, de astral, de
química. A aula também versou sobre Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Ivan
Angelo e Lygia Fagundes Telles.

2) é um dos blogs mais *belos* da nossa internet. É também o mais
*hospitaleiro* com seu leitor. A reconhecida crítica de arte *Sheila
Leirner* delicia o visitante com montagens anacrônicas, uma palavra
divertida e bem-humorada, e acima de tudo uma caixa de comentários onde
conversamos como se fôssemos todos velhos amigos. O *Biscoito *visita e
recomenda Quando, Onde, Como [link] a notícia e o
link da Blogosphere Foundation.
[link] Já dizia Chico Science, "me
organizando eu posso desorganizar, e eu desorganizando posso me
organizar". Blogo-organizemo-nos!

* *

*familiares*: eu tenho blogado pouco sobre meus filhos Laura e Alexandre
por desejo de respeitar sua privacidade, mas eles adoram quando blogo
sobre eles. Têm relação absolutamente tranqüila com o *lá fora*.
Curtiram muito o post sobre o Mineirão. Até riram das desgraças, sinal
de suprema sabedoria. A relação nossa é muito intensa, tanto durante os
4 meses anuais que passo no Brasil como durante os 8 meses em que a
nossa relação é telefônica ou na webcam. Apesar da distância física 2/3
do tempo, fico feliz de que eles estão se criando no Brasil e não nos
EUA. Este ano recebi prêmio maior: um sabático de maio até dezembro
(extendível até agosto/2006) para estar com eles em BH. Em meu AP já
fizeram seu quarto, e a piscina e o campinho de futebol de lá são o
nosso paraíso. De forma que em dois meses o blogueiro já está de volta
ao Brasil, para o reencontro com Alexandre e Laura, também conhecido
como *felicidade em estado puro. *

**

*calendáricas*: o *Biscoito* transmite dos próximos dois meses de Nova
Orleans – que estará no auge da sua temporada de festas (Sunday Indian
Parade, French Quarter Fest, JazzFest). No final de maio eu inicio longa
estadia em Belo Horizonte (Laura faz 6 em junho) e em agosto faço viagem
a Buenos Aires (congresso da Associação Internacional para o Estudo da
Música Popular); depois de *mi Buenos Aires querido *BH de novo e
finalmente durante todo o mês de outubro o *Biscoito *transmitirá do
outro lado da cordilheira dos Andes, de Santiago do Chile
[link],
onde eu vou ditar um curso de estética a convite daquele que é, para
mim, o maior filósofo hispano-americano, *Pablo Oyarzún* (que uma vez
ofereceu a um livro deste escriba, a título de resenha, este poema
[link]). Em
novembro e dezembro dá-lhe felicidade de novo com Alexandre e Laura em
BH (Alexandre faz 9). Dos próximos 9 meses 1 será no Chile, 2 em New
Orleans e uns 5 na gloriosa Belo Horizonte, além de 1 semana pelo menos
em Buenos Aires. Uma viagem rápida ao Rio também tem que rolar, claro.

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  Escrito por Idelber às 03:04 | link para este post | Comentários (1)




Pedido de ajuda para João Pedro de Prates Borges

João Pedro é um garoto de Viamão, grande Porto Alegre, que ontem
completou 14 meses de idade. O garoto nasceu com má formação e passa por
tratamento caro, que a família cobre com dificuldade. No momento João
Pedro está internado com pneumonia. O site mantido pela família do
garoto é este [link] e o site que tem
mais informações é este [link].
As contas bancárias para doações são: Banco do Estado do Rio Grande do
Sul - Banrisul - cod 041, Agencia 0835, Conta 39.859509.0-9 *OU* Banco
do Brasil, Agencia 1430-3, Conta 17535-8, ambas em nome de: Uliana
Prates de Prates, CPF 688.553.970-87. *Por favor, quem puder ajudar,
ajude. *Se você mora nos EUA: lembre-se de que enviar dinheiro ao Brasil
pela Western Union é mais barato do que pelo seu banco. Se você mora no
Brasil: veja por favor se pode ajudar a mobilizar canais de comunicação
com pessoas em condições de ajudar o João Pedro. Nestes momentos a
blogosfera pode fazer uma diferença. Fiquem à vontade para usar esta
caixa de comentários, *não* para elogiar nem agradecer nem falar da
saúde do garoto, por favor, mas para *dar outras idéias* de
como levantar recursos para ajudar o João Pedro, nomear figuras ou
instituições que possam ajudar, apresentar idéias *concretas* de como
podemos fazer algo mais. De momento, fica o apelo: faça uma doação se
puder às contas acima. Obrigado.

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  Escrito por Idelber às 00:29 | link para este post | Comentários (1)



quarta-feira, 16 de março 2005

Convite à leitura de Clarice Lispector

A cada 15 dias, sempre numa quarta-feira, meus alunos de pós-graduação
são convidados aqui no blog para uma discussão literária; os leitores
regulares são mais que bem-vindos no papo. Acabamos ensinando e
aprendendo todos. Hoje vamos falar de Clarice Lispector
[link](1920-77), especificamente de seu primeiro volume de contos, *Laços de Família* (1960). Proponho que leiamos Amor [link] e Uma
Galinha [link]. Também está na roda Os Laços de Família
[link].

A maior escritora brasileira do século XX, sabe-se, não é brasileira:
seu primeiro nome foi Haia (/vida/, em hebraico). Essa ucraniana-carioca lapidaria uma frase absolutamente singular na língua portuguesa, cheia de cortes abruptos e imagens estranhas: /um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. /Fica claro, mesmo para o
leitor que acaba de chegar ao relato, que se trata de um texto que
tateia, tentacular, tentando descrever uma *experiência*. Qual sua
natureza? Trata-se de experiência que se tornou automatizada, reificada:
*numbed*, diríamos ou *entumecida*, em espanhol. É aquela experiência já
invivível, de onde não se aprende nada, não saem relatos: /sua juventude
anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida . . . de manhã
acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis
empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos . . E alimentava
anonimamente a vida/. O pano de fundo é, invariavelmente, esse: o eterno
retorno do sempre-igual, a vida convertida em ditadura bruta da repetição.

* *

O que é um relato de Clarice, então? É a narração daquele fugaz momento
onde *irrompe algo *que subverte essa mesmice. É o pipocar de uma
*imagem, *um *relampejo* que atravessa o sujeito *oferecendo um
vislumbre do que seria um mundo redimido*. Isso nunca se realiza por
completo, claro, porque senão não haveria graça. É sempre um piscar, um
acontecer fugaz: relampejo puramente epifânico, mas ali, naquele
momento, como sabem as mulheres, joga-se tudo. Podemos até despencar de
volta ao reino do eternamente-idêntico no final, mas as estruturas da
experiência já terão sido abaladas.

É só isso o que ocorre no conto Amor
[link]: Ana, mãe comum e
corrente (/filhos bons . . . cresciam tomavam banho/) / /toma um bonde
rumo a Humaitá. O choque da imagem que se lhe interpõe (/o cego mascava
chicletes/) desorienta a personagem e desarma a estrutura frasal do
conto, que começa a ser narrado em discurso indireto livre e passa a
“entrar” na cabeça da personagem. Ela erra a parada de coletivo, vai
saltar no Jardim Botânico. A imagem singular do cego com chicletes
provoca uma revoltosa, um rearranjo completo na experiência: /ela
apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse .
. . a vastidão parecia acalmá-la, o silênco regulava sua respiração. Ela
adormecia dentro de si. /

O que “acontece” no conto, ao fim e ao cabo? Nada, se excetuarmos o fato
de que o cego a leva a um mundo /faiscante, sombrio, onde
vitórias-régias boiavam monstruosas/ . . . ela /amava o cego, pensou com
os olhos molhados/ já de volta à casa com a empregada, marido, filhos,
experiência que já ameaça reificar-se de novo. Na medida em que se
ajusta, fica a dúvida: /o que o cego desencadeara caberia nos seus dias?
/Para finalizar o ciclo, uma trombada no marido e o retorno a uma
normalidade que jamais será a mesma. Impactou-llhes, esse conto? Alguma
leitura alternativa ou em diálogo com a proposta aqui?

Convido-lhes também a dizerem sobre Uma Galinha
[link]: qual é a chave, o
encanto deste conto? Sem dúvida, tem que ver com a questão do ponto de
vista em que se relata a história. Exploremos isso. Por curiosidade,
será que algum dos meus amigos cinéfilos [link] pode
confirmar a informação de que a abertura de *Cidade de Deus,* o filme de
Fernando Meirelles, é inspirada nesse conto de Clarice? Não vejo como
não possa ser. Parece-me tão óbvio que custa-me crer que alguém já não
tenha o dito por escrito. De qualquer forma, fica o convite a uma
conversa sobre os dois contos.* *
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  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (2)



terça-feira, 15 de março 2005

Drops e Links

Houve uma decisão da justiça da Califórnia, nesta sexta-feira, de
muito interesse para os blogueiros atentos ao estabelecimento de
precedentes jurídicos no tratamento de questões como direito de
expressão e livre informação na internet: um blog
[link] será legalmente obrigado pela *Apple* a
revelar onde adquiriu uma informação comprovadamente verdadeira. A
justiça decidiu que a empresa pode intimar o blogueiro à justiça para
revelar a fonte de uma informação que nada tinha de espionagem, nem de
segurança nacional, nem de caluniosa. Era informação neutra, comprovada,
sobre o lançamento de um produto. Mesmo assim, o direito ao sigilo de
fonte foi violado mais uma vez. A discussão anda quente no blog de Dan
Gillmor
[link];
no Brasil Rafael Galvão
[link] e Tiagón [link] já fizeram posts esclarecendo bem o assunto. Aqui nos EUA, sabe-se, um jornalista do *New York Times* já perdeu [link] esta imunidade num caso suspeito [link].

Enquanto eu saculejava em New Orleans, meus filhos Alexandre (8) e Laura
(5) se preparavam para um super domingo com a mãe no Mineirão. Alexandre
ostentava uma série invicta: nunca ter visto o *Galo* perder na
Pampulha. Era o batismo de Laura no estádio. Pois bem, o velho freguês
América nos surrou por 1 x 0
[link].
O assento do 1º tempo foi bem de cara para o sol e o do 2º numa
arquibancada inferior de onde não se via nada. A meninada escutou
palavrões, um torcedor agrediu o juiz e todos saíram *muito* bravos.
Alexandre, que já viu algumas vitórias do *Galo* no Mineirão comigo,
disse que topa voltar, mesmo depois do desastre de ontem. Laura já
deixou claro que não quer saber mais de Mineirão. Quando conversam,
Alexandre faz o gênero PMDB de Ulysses e Tancredo. Laura faz mais o
gênero PSTU. Alexandre é mais soul, Laura é heavy.

Há polêmicas que valem a pena e outras que não valem a pena.
Discerni-las é fundamental. Por exemplo: vou debater com alguém um tema
que eu pesquiso há 20 anos e sobre o qual esse alguém “acha” algo ou têm
alguma “opinião”? Só pode levar a desgaste. Eu caço briga, mas só com
cachorro do meu tamanho ou maior. Por isso eu acho que Smart Shade of
Blue [link] tem que esquecer Olavo de
Carvalho e Michael Bérubé [link] tem que
esquecer o sr. KC. Qual a importância de Olavo de Carvalho, meu Deus do
Céu? Quem já ouviu falar desse homem fora de Pindorama? Para qual jornal
ele escreve mesmo? *Who cares*? Bola prá frente!

O pensador alemão Walter Benjamin
[link] amava a figura do
colecionista, aquele que arranca os objetos do esquecimento e resgata
coisas que de outra maneira ficariam perdidas às margens. Na selva de
esquecimento vertiginoso que é a internet, há um blog* *que se dedica a
resgatar lindas peças do lírico, do insólito, do burlesco. O *Biscoito*
visita e recomenda Bibi’s Box [link].

*Boas-vindas e toques a quem chega*: Este blog se pauta pela seguinte
ética: eu retribuo *todas *as visitas, sem exceção, e papeio com todos os comentaristas, exceto os que dizem *linka meu blog aê!* Da mesma forma como eu fazia quando tinha 5 leitores por dia, ao invés dos quase 1000 atuais, eu não peço link, não retribuo link, não dou link quando pedido. Linkagem é ato unilateral e assim deve ser. Meu blogroll é uma lista de *endossos*, não no sentido de que endosso tudo o que dizem os 83 blogs listados aqui à esquerda, mas *que endosso o ato de visitá-los*. A lista muda constantemente e, acredite, eu estou *atento* a novos blogs. Se você está iniciando seu blog, minha única recomendação é: *continue escrevendo. *Dentro das minhas limitações, eu tentarei ajudar-lhe a encontrar sua turma. Não tenha tanta pressa. Reconheça a temporalidade baiana das coisas. Este blogueiro escreveu 40 artigos acadêmicos e 2 livros lidos por 17 seres humanos e meio ao longo de 10 anos, antes de ter um blog lido por um grupo mais numeroso que a torcida do América-MG. Horácio aconselhava ao jovem escritor guardar todos os seus escritos na gaveta por dois anos antes de circulá-los, o que sugere, claro, que Horácio não se daria muito bem na era da internet.
Mas um pouquinho de paciência é sempre bom. E continuar escrevendo,
claro. Continuar visitando os blogs que você acredita serem a sua turma ajuda também. Os leitores e as conversas virão.

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  Escrito por Idelber às 01:28 | link para este post



segunda-feira, 14 de março 2005

*Secondlining* e *Blackitude* Eu

Eu ando escrachando nas afrontas ao vernáculo né? Deixa os colegas de
letras saberem. Duas palavras estrangeiras no título! Chamem o Aldo
Rebelo
[link]! O
post de hoje é para eu me lembrar de por que, quando tive a oportunidade
de trabalhar num lugar mais rico e prestigioso, eu acabei optando por
ficar aqui em Nova Orleans: *eu amo demais a cidade*. Hoje foi dia de
*secondlining*: palavra inglesa só existente como substantivo aqui em
Nova Orleans
[link],
ela designa o ato de seguir uma banda de metais, dançando pela cidade,
de tal forma que você estaciona, sai saculejando e, na hora que se
assusta, já está a 5 milhas de distância do carro, tendo que atravessar
a cidade caminhando de volta. Eu dancei milhas e milhas por esta cidade
hoje.

Durante a festa, uma reflexão: éramos, calculo, umas 600-800 pessoas (um
quarteirão e meio, sólido, de gente dançando: eu aprendi a quantificar a
densidade de pessoas nas minhas épocas de passeatas estudantis). Até
onde pude enxergar *eu era o único branco*. Não foi surpresa e não é
incomum. A cultura hegêmonica aqui é afro-atlântica e somente os brancos
que fazemos questão de acompanhar a cultura negra participamos de
*secondlinings* e dos desfiles que ocorrem em datas simbólicas como o
domingo do *Black Man of Labor*. Já são seis anos vivendo intensamente
esta cidade. Alguma única vez alguém olhou-me com cara de hostilidade ou
cara de *what’s this white boy doing here?* Jamais, nem uma única vez.
Alguma vez deixei de me sentir bem-vindo numa dessas festas? Não, nem
uma única vez.

Um de meus passatempos favoritos é levar a um *secondlining *as madames
e madamos brasileiros, de classe alta, que vira-e-mexe chegam a Nova
Orleans. Vocês sabem, madames do Morumbi ou do Leblon. Acompanham-me.
Entre assustadas, reácias e traumatizadas, protegem suas bolsas e – as
mais inteligentes, as que têm perspicácia para tanto – não se conformam
de que toda a população negra do bairro está ali na rua *sem dar a menor
bola* para elas.

Para quem ainda repete asneiras como “no Brasil não existe racismo” ou
“os próprios negros se discriminam” ou “usar camisa que diz 100% negro é
racismo invertido” (acho que li essa asneira por aí na blogosfera, nem
lembro onde), seria muito bom fazer uma observação da classe média alta
pindorâmica que vem passear aqui na Bahia gringa. O racismo tupiniquim
fica cristalinamente visível quando sai de seu campo preferencial de
jogo, que é a porta do elevador de serviço dos prédios de classe alta no
Brasil.

Fica visível porque aqui (e eu me refiro a esta *cidade*)* é outra
onda,* você é bem-vindo se entender que a cultura da cidade é afro mesmo
e, acima de tudo, se entender que a sua presença não faz a menor
diferença, nem para um lado nem para outro. A gente saculeja aqui nesta
cidade há 200 anos e não deixaremos de saculejar porque apareceu algum
sueco filmando-nos. Se for filmar e bater fotos, entenda: o objetivo
principal ali é dançar. Hoje foi dia de tomada ritual da cidade pelo
povo negro e a tarde inteira foi embalada ao som das marchas das *brass
bands. *Valeu*. *

Para ouvir a música de Nova Orleans, confira a wwoz.org
[link]. Nesta época do ano a emissora, que é comunitária,
está em campanha financeira e pode ser que esteja um pouco chata de
ouvir. Se for o caso, há boa música de Nova Orleans aqui
[link].

PS 1: Como eu faço para sair da primeira página
[link] do UOL? Não sei, já tentei. Sei que o exército
dos blogs pisca-pisca está chegando. *Leitores históricos*: mantenham o
leme desta joça!

PS 2: Notícias da transição ao pontocom: há profissionais extraordinários me auxiliando. Mas parece que este é o primeiro blog a tentar converter conteúdo do UOL para o *Moveable Type*. É possível que tenhamos que fazer toda a transferência de conteúdo manualmente, porque não parece haver tradutibilidade. O UOL parece rodar numa gerigonça de formato alheia aos outros conhecidos. Enfim, mantê-los-ei informados, mas se a esperança era uma transição de alguns dias, parece que foi para o brejo: serão algumas semanas.

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  Escrito por Idelber às 02:20 | link para este post



domingo, 13 de março 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 5

Como já sabem os que frequentam a casa há mais de uma semana, este blog é também uma operação de reflexão
[link]
sobre um vício e um instrumento de abandono dele. Na semana passada
começávamos nossa análise do grande romance moderno sobre o cigarro (e
especificamente sobre o *último* cigarro, os *vários últimos* cigarros
fumados pelo narrador): A Consciência de Zeno
[link],
de Italo Svevo. Víamos como o cigarro ali está ligado *à morte do pai*,
momento chave na vida de dois entre cada três fumantes. No romance de
Svevo o cigarro assume o caráter de metáfora, de imagem complexa da
vida. Paulatinamente recebe uma série de contraditórios atributos.
Falarei mais desse romance tão chave no alto modernismo europeu na
semana que vem, mas hoje faço um post mais confessional, porque chegou o
momento de um balanço:

Dias sem cigarro: *30*

Jarras de amendoim consumidas: *18*

Quilos de pistacchio comidos: *1.5 kg*

Caixas de Trident menta mascadas: *2,5 mega-caixas*

Caixas de chocolate Nestlé comidas: *16 caixas de 10 barras cada*

Sacos de chocolatinhos Hershey’s consumidos: *12*

Drogas ilegais consumidas: *nenhuma*

Droga farmacêutica consumida: *um analgésico duas vezes* (na época em
que a ausência da nicotina provocou dores horríveis no tecido estomacal,
como de costume na fase que começa na 2ª e termina na 3ª semana)

*Novidades incorporadas ao cardápio*:

1. mangas, uvas, pêras, ameixas, não muito presentes antes;

2. preferência pelos cozidos e pelas receitas mais molhadas (frango
ensopado em vez de assado, por exemplo);

3. substituição do suco de laranja (muito ácido) pelo suco de maçã nas
manhãs;

4. aumento do consumo de ovos;

5. freqüente acréscimo de uma refeição ao fim da noite

Favorecido por um bom metabolismo, só ganhei 0,5 kg. desde o dia do
abandono ao cigarro. O jantar de hoje (que cozinhei para uma convidada)
foi um fetuccini com brócolis e camarão. Senti nitidamente que havia
recuperado a sensibilidade ao *gosto* do brócolis. Incrível. É como
reencontrar uma velha prima que você nem sabia que era bonita. Mas nem
tudo são flores. O cérebro continua lento, disperso, incapaz de
multifuncionalidade. Ainda leio muito mal. Tarefas como pareceres ou
cartas de recomendação demoram, agora, o triplo do que demoravam antes.
Mas as dores passaram e as crises mais agudas de abstinência também.
Estou moderadamente otimista. Faltam ainda dois meses para bater meu
record. Mas o que ajuda neste momento é que eu estou piamente
convencido de que minhas tentativas anteriores de abandonar o cigarro
fracassaram porque *antes eu não tinha um blog*.

*PS de atualização, meio-dia de New Orleans*: De novo uma caixa de
comentários me comove. Muito obrigado. Este blog só tem cinco meses de
vida, mas possui os melhores leitores do mundo. Responderei os
comentários individualmente, como sempre, à noite. Saio agora para um
glorioso dia de sol na capital do jazz. A vida é bela. Axé babá. Para
quem perguntou: este blogueiro tem 1,72m e 64kg.

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  Escrito por Idelber às 03:26 | link para este post



sábado, 12 de março 2005

Resultados da Votação Discográfica

Resultados da Votação Discográfica

A Tábua de Esmeralda
[link],
de Jorge Ben Jor (1974): Primeiro lugar. *76 pontos*

* *Ele já havia blackificado
[link]
a bossa nova e eletrificado
[link] o
samba; já havia abraçado o tropicalismo
[link],
já havia celebrado a diáspora negra
[link],
mas só em 1974 Jorge Ben Jor – então Ben só – lançava o disco
[link]
que foi escolhido aqui por 50 eleitores como o melhor da música
brasileira popular. Não dá prá dizer que não está bem escolhido. Em
segundo lugar ficou Construção
[link],
de Chico Buarque (1971), com *62 pontos.*

Aqui vai a lista dos 30 primeiros colocados, com os respectivos números de pontos:

3) Elis e Tom –55; 3) Clube da Esquina – Milton Nascimento e Lô Borges
55; 5) Dois – Legião Urbana 54; 5) Tropicália ou Panis et Circenses
–54; 7) Krig-ha-Bandolo! – Raul Seixas 45; 8) Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão – Marisa Monte: 40; 9) Afrociberdélia - Chico Science e Nação Zumbi –39 (*este disco de Chico Science teve 11 menções e foi o único disco lembrado por mais de 9 pessoas*) 10) Secos & Molhados 34;
11) Transa - Caetano Veloso 33; 12) A Divina Comédia ou Ando Meio
Desligado – Mutantes 32; 13) Chico Buarque – 1978 –30; 14) Chico Buarque 1984 –26; 14) Chega de Saudade - João Gilberto –26; 16) Meus Caros Amigos – Chico Buarque –: 26; 16) África Brasil – Jorge Ben –26; 18) Fatal - Gal a Todo Vapor – Gal Costa –24; 19) Caetano Veloso 1968 –23;
20) Acabou Chorare – Novos Baianos –23; 21) Da lama ao caos – Chico
Science e Nação Zumbi –23; 22) Cartola 1976 –22; 22) Olho de Peixe –
Lenine e Marcos Suzano –: 22; 24) Novo Aeon – Raul Seixas –20; 25)
Cinema Transcendental – Caetano Veloso –18; 26) Som Pixinguinha –17; 27)
Cabeça dinossauro – Titãs – 15; 28) Álibi – Maria Bethânia – 14; 29)
Clementina e convidados –13; 30) Refavela – Gilberto Gil –12

/Dados/: Votaram 50 pessoas, exatamente. 289 títulos diferentes foram
nomeados, de Villa Lobos a Vzyadoq Moe. Se alguém quiser a lista
completa, é só me escrever. Dezenas de blogs linkaram, participaram,
fizeram posts e ajudaram a divulgar. Centenas de pessoas deixaram
pitacos aqui e milhares nos viram papear. A leitora e amiga Cipy Lopes
foi generosa com seu tempo. Recebeu, organizou e contou todos os votos;
eu só fiz a soma final. Muito obrigado a todos e especialmente a ela. Eu
quase pirei fazendo esta brincadeira, mas valeu a pena: conheci um
bocado de gente bacana, fiquei sabendo mais sobre os amigos que já
conhecia e recolhi dados valiosíssimos para trabalhos futuros sobre
música brasileira popular.

*Deixo a interpretação dos números a cargo de vocês:* Celebro a vitória
de Ben Jor, a presença de Raulzito no top 10, o record de menções de
Chico Science e, para dizer a verdade, não me conformo muito em ver
Legião Urbana no top 10 no meu próprio blog, com um disco que não está
entre os 100 melhores feitos no Brasil na década de 80. Mas enfim, vocês
escolheram, não era meu papel fraudar a eleição – eu moro em New
Orleans, não na Flórida. Além do mais, não dava para negar que o resto
está bem escolhido. Parabéns, eleitores. Já já a gente sorteia a
caixinha de CDs. O que acharam dos números e da experiência?

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sexta-feira, 11 de março 2005

Faça a sua boa ação de hoje - Explique a um professor universitário do seu bairro o que é um blog

Sobre a diferença entre as escritas acadêmica, jornalística blogueira eu escrevi um post anterior. Hoje quero me perguntar: por que os acadêmicos não entendem bem o que é um blog? Quando digo “acadêmicos”, generalizo grosseiro, claro. Aqui nos EUA há um número de blogs de especialistas acadêmicos falando como especialistas: nas ciências naturais, lutando batalhas duras contra os lunáticos criacionistas, o PZ Myers do Pharyngula; na área de política externa no Oriente Médio, o excelente Juan Cole; em psicologia e saúde, o forte blog Respectful of Otters; em teoria feminista, o Feministe, que acaba de fazer este fantástico post sobre ética da blogagem. Há muitos exemplos.

Há casos de acadêmicos que decidem não blogar como especialistas. Eu sou especialista em literatura, mas não blogo nessa condição. Se fosse fazê-lo, a primeira coisa seria tirar a caixa de comentários. Se vou dissertar sobre o papel da revista Sur na cultura literária argentina do século XX, vou pôr caixa de comentários prá quê? É pôr o texto, as pessoas lêem e pronto. É que o faz o Juan Cole. Seria para mim mais seguro, menos arriscado e muito menos divertido. A questão é que não há muita gente interessada em saber nada sobre Sur, nem sobre o romance brasileiro alegórico dos anos 70. Há uma profunda crise da crítica literária, uma tristeza na disciplina: falta rumos, interlocução com a sociedade, função social. Nada me tira da cabeça que eu pertenço à penúltima geração da disciplina. E na verdade por mim não há problema, pode morrer. Eu já escrevi meus dois livrinhos de crítica literária e estou pronto para aprender outras brincadeiras, crítica musical, crônica futebolística, ciberlibelos, blogagem enlouquecida: outras formas de experimento com a palavra mais relevantes para o nosso tempo.

Boa parte dos acadêmicos, infelizmente, internalizam o isolamento sob a forma de ultra-hermetismo, culto à dificuldade, e um* medo incrível *a um foro público, interativo, arriscado como um blog. Viajando por cidades universitárias americanas (e convivendo com estudiosos da
América Latina – a maioria gringos – há que se dizer) eu fico surpreso até hoje como a maioria não tem *noção* do que é um blog. *Não porque a figura não entenda o conceito de uma página pessoal na internet atualizada diária ou semi-diariamente, com textos, imagens e links, e dotada ou não de área de comentários para os leitores. *Os acadêmicos entendem essa definição de blog. Não é possível que um ser humano alfabetizado não a entenda. O que os acadêmicos não entendem é como alguém pode fazê-lo. Estão acostumados a preparar-se durante semanas antes de deixar que sua voz apareça em público. Movem-se ainda numa temporalidade pré-internética, mesmo quando usam a web para pesquisar. Só aceitam peregrinar pelos assuntos em que são absolutos especialistas, abandonando assim a possibilidade de falar como um bem informado não-especialista, ou seja como um zoon politikon, como um ser político.

Alguns estão sacando que têm que se mover, outros são pioneiros na invenção de um novo discurso. Depois da campanha eleitoral do ano passado nos EUA, os acadêmicos já entenderam que algo muito grandioso pode estar acontecendo por causa dos blogs. Mas como eles (nós) odeiam estar na posição do que *pede explicações, com freqüência ignoram(os) o fenômeno. Se você tiver a oportunidade, *explique a um amigo professor universitário o que é um blog*, envie-lhe um link de sua preferência, cobre-lhe interesse. Os acadêmicos estamos longe, muito longe de ser a “vanguarda” quando o assunto é blog. É importante que bons especialistas em várias disciplinas montem seus blogs em português e comecem a escrever, no pique da blogosfera, comentários bem-informados: intervenções máis ágeis do que a dos “papers” cuja preparação se arrasta por meses ou anos. Quanto mais se combinar a intervenção bem-informada do especialista com a agilidade dos blogs, melhores serão os resultados para uma série de debates públicos e para a própria democracia.

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  Escrito por Idelber às 03:02 | link para este post



quinta-feira, 10 de março 2005

DROPS

No esteio da nossa recente eleição discográfica (para a qual, aliás, aceitamos votos até hoje, quinta, à noite): a) Pedro Alexandre Sanches elege os “piores” discos (aspas indicando amor a esses piores); b) Biajoni propõe os piores dos melhores, ou seja o pior disco de Gil, o pior de Tom, etc. c) para quando tivermos tempo, eu proponho: quais artistas deveriam ter feito só uma música? E quais artistas só fizeram uma música?

2) Outro dia eu falei do vício de ler blogs. Ina, gentilmente, me enviou o link a um fantástico texto de dois anos atrás (muito superior ao meu), sobre o mesmo tema. É este super post de Alê Felix.

3) Um dos textos mais hilários de Julio Cortázar é uma divagação sobre a inevitabilidade do “querido/a” ou do “estimado/a” em espanhol da Argentina. Ou você é "querido/a" ou você é “estimado/a”. Não há outro cabeçalho. E se querido nem sempre dá, estimado es un término que rezuma indiferencia, oficina, balance anual, desalojo, ruptura de
relaciones, cuenta del gas, cuota del sastre. Usted piensa
desesperadamente en una alternativa y no la encuentra; en la Argentina somos queridos o estimados y sanseacabó
. Está na linda compilação de crônicas, microcontos e fait divers La vuelta al día en ochenta mundos. Como Cortázar em espanhol, eu também gostaria de ter uma alternativa a prezado ou caro em português (porque ‘querido’ é de uso muito maisrestrito entre nós que em espanhol, lógico). Haverá jogadas
inteligentes, fórmulas criativas para cabeçalhos que não sejam “vossa
excelência” ou “admirado”?

4) Via Nemo cheguei aqui e comprei uma camisa branca, manga longa. Na frente, I am therefore I blog (eu teria preferido I blog therefore I am, mais fiel à fórmula cartesiana original). Atrás: ask me about blogging. Supimpa. Fez sucesso. Os alunos adoraram.

5) Grande notícia do dia, e prova de que dentro em breve até em Uberaba conhecerão o Biscoito: o meu provedor, o UOL, descobriu que a gente existe e colocou-nos na primeira página. Palmas para o UOL! Como é inteligente a administração: três meses depois de ser linkado pelo maior blogueiro do mundo,meses depois de já ser frequentado por blogueiros ilustres, quatro meses depois de eu haver escrito ao próprio UOL dando detalhes sobre o trabalho feito aqui no blog e não ter recebido resposta nenhuma (vendo, enquanto isso, a abertura do UOL povoada de blogs pisca-pisca), eles põe a gente na primeira página! Too late now, folks! Embora, é lógico, seja muito bem-vindo quem chega via UOL.

6) Eu sou mineiro e nunca saio chutando a porta. Mas este blogueiro já
adquiriu e registrou domínio próprio. O blog rodará em Movable Type. O sistema de comentários não terá letrinhas verificadoras que passaram por instrumentos de tortura medieval. A página de comentários terá o formato deste blog aqui, com algumas adaptações colhidas neste blog aqui. Preservará as cores de fundo do Biscoito, que eu gosto, mas talvez não continuemos a linkar em azul. Talvez negro, como bom atleticano, eliminando assim o uso de negrito e guardando /itálicos/ para ênfase sem link? O que vocês acham?

PS: Em breve aqui no Biscoito: Como explicar a um acadêmico, em dez simples passos, o que é um blog.

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  Escrito por Idelber às 03:19 | link para este post



quarta-feira, 09 de março 2005

Eleição Discográfica - Primeiras Impressões sobre a Apuração Parcial

Claramente este blogueiro não tinha ni puta idea do pântano em que se metia com essa eleição. Computar esses votos implica não só catá-los por aí na blogosfera; implica também tabulá-los segundo dois métodos: 5 pontos por disco para os eleitores que fizeram listas sem ranking e pontuação proporcional de 1 a 10 pontos por disco para os eleitores que declararam ranking. Obviamente não estou nem perto de ter resultado de nada, mas tenho alguns números e algumas observações. Temos uns 50 eleitores até agora, metade aqui nas caixas do Biscoito e metade de blogueiros esparramados por este mundo. Mas já sei quais são os discos mais mencionados, o que não quer dizer que saibamos quais são os líderes. Os discos mais mencionados até agora são: Krig-ha-Bandolo e Elis e Tom com sete menções cada um, Afrociberdélia e Clube da Esquina com seis, Construção e Tábua de Esmeralda com cinco; Tropicália, Olho de Peixe , Acabou Chorare, Dois, Transa e Meus Caros Amigos com quatro. Uma que outra incorreção é possível nesta contagem. O ranking final ainda é nebuloso.

Eu tenho algumas observações sobre a eleição. A primeira é a óbvia: a
imensa riqueza da música brasileira, a variedade de gêneros e seleções
de que se pode armar, blá-blá-blá. Menos óbvia é a seguinte: há uma
erosão no antes intocado poder do cânone MPB-ístico como padrão de bom gosto. Há uma pugna de cânones diferentes, e isso é bom. Fizesse-se esta eleição há quinze anos e Raul Seixas jamais estaria na ponta ao lado de Tom e Elis. Os discos mais mencionados estariam, em sua grande maioria, dentro da tradição que vai de Chega de Saudade a Cinema Transcedental. Esta tradição recebeu um número considerável de votos na nossa eleição, mas não de forma tão dominante como teria recebido em outras épocas. Há votos pop, votos regionais, votos roqueiros, disseminados com uma tranquilidade que, antes, o panteão da MPB não teria permitido. Foi muito instrutivo para mim: um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre a música brasileira (sim, em inglês, por mil razões) versa sobre a constituição e a progressiva dissolução desse cânone, a partir da grande reviravolta que é a chegada de Chico Science.

Eu amo a obra de Lenine (especialmente seus discos solo). Mas jamais
imaginei que Olho de Peixe, disco seu com o mega-panderista Marcos Suzano, emplacaria um top 10 de menções, enquanto que Na Pressão e O Dia em Que Faremos Contato não foram lembrados nenhuma vez. Estou absolutamente em êxtase com a liderança de Raulzito. Estou totalmente enraivecido que ninguém votou no meu número 1, o Som Pixinguinha, tirando-o assim de vez da disputa. Realmente, desde que me envolvi com palhaçadas e clonagens, eu perdi a autoridade neste blog. Até quinta à noite eu vou catar votos. Deixando constância da ajuda da leitora Cipy, prometo-lhe mais notícias para breve.

PS: na quarta-feira que vem meus alunos de pós-graduação em contística brasileira (lindos maravilhosos que estão brindando-me um super semestre) vão discutir Laços de Família, de Clarice Lispector, aqui no blog. Taí, avisado com 7 dias de antecedência. Quem quiser participar é bem-vindo. A meninada tem adorado quando pintam os leitores do Biscoito para ajudar a destrinchar os contos.



  Escrito por Idelber às 02:43 | link para este post



terça-feira, 08 de março 2005

A puxada de tapete a Suplicy

Como sabem os que acompanham a escalada da podridão interna nos bastidores do PT, há mais de um ano parte do Komintern petista de São Paulo maquina um golpe contra Eduardo Suplicy para tirar-lhe a indicação ao senado. Os artícifes são pessoas de cuyo nombre no quiero acordarme, mas vocês já imaginam, não é, se não imaginam continuem lendo.

Pois bem, chega-me informação de uma fonte muito boa – que obviamente
não é um jornal brasileiro – dizendo que nos últimos dois ou três dias
*suspendeu-se* este plano de puxar-lhe o tapete, não porque o Komintern petista tenha ficado ético ou criado vergonha na cara do dia prá noite, mas porque receberam pesquisa interna confirmando que qualquer candidato petista ao senado que não fosse Suplicy seria *esmagado* por G. Alckmin caso este decida candidatar-se (hipótese não necessariamente provável, mas possível). Até onde eu pude averiguar, os blogs jornalísticos e as versões online dos jornais não disseram nada sobre esse recuo ainda.

Aos amigos que acham que não devemos expor a progressiva chafurdada na lama do PT, com medo de que “a direita” ganhe pontos com isso, poupem minha inteligência: o rei está nu já há bastante tempo.

Minha pergunta é: algum jornal brasileiro já noticiou a suspensão do
golpe contra Suplicy, que não era segredo e já vinha sendo noticiado há mais de ano? Alguém tem informação sobre isso? Eu tenho alguns outros lugares onde posso tentar confirmar este dado, mas senti vontade de ver se alguém entre os leitores do *Biscoito* poderia ter informações frescas sobre mais esse capítulo da completa desmoralização do partido que eu ajudei a construir.



  Escrito por Idelber às 17:59 | link para este post




É 8 de Março no meu iPod

Sou ruim com homenagens, mesmo nas datas que curto, como 20 de novembro, 8 de março e 2 de julho. Ao invés de fazer outro post incendiário em defesa do direito ao aborto – que poderia até provocar a aparição de alguém aqui falando do direito à vida nos fetos, o que nos exigiria, leitores, aquela chata operação de explicar tudo de novo – resolvi celebrar este 8 de março

compondo uma playlist de vocal feminino no meu ipod!

* *

Um iPod? O meu tem 4.300 canções, das quais 711 entraram nessa playlist. A maquininha me informa que as mulheres que emplacam mais de 10 canções no meu iPod são: Clara Nunes (primeiríssima em número de canções e de execuções), Billie Holiday, Dinah Washington, Maria Bethânia (outra que coleciono meticuloso), Elizeth Cardoso, Cassia Eller, Carmen Miranda, Zizi Possi, Laurie Anderson, Joyce, Aretha Franklin, Elis Regina, Elba Ramalho, Ella Fitzgerald, Nana Caymmi, PJ Harvey, Cesária Evora, Celia Cruz, Beth Carvalho, Clementina de Jesus, Marisa Monte, Gal Costa, Leci Brandão, Dona Ivone Lara, Rita Lee, Sarah Vaughan, Nara Leão, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina, Maria Rita, Angela Rô Rô, Zélia Duncan, Cida Moreira, Daúde, Rosa Passos, Vanessa da Mata, Leny Andrade, Anita O’Day e Emilinha Borba.

À meninada jovem que lê o Biscoito: se algum destes nomes acima não lhe soa familiar, pare de ler blogs, gugle os nomes, procure os discos e vá ouvir. Ou abra outra janela e tente baixar. Mas não deixe de ouvir.

A estas mulheres maravilhosas, metonímias de todas as outras, meus parabéns e gratidão, esta última extendida ao botãozinho shuffle do iPod: já estou saboreando o gozo de passar, aleatoriamente, de Quelé a Billy sabendo que próxima voz também será feminina.

PS: Enquanto isso, a homenagem do nosso presidente foi um ato falho
bem típico dele: pediu às mulheres que fossem "devagar com essa pressa
de poder" e não fossem "desaforadas". Lula sempre foi extremamente conservador em matérias de política familiar e nunca foi campeão de defesa dos direitos das mulheres. Mas nunca as havia insultado num 8 de março. É triste.

Trilha sonora no momento do posting: 'Papel Reclame', Clementina de
Jesus. Saravá, 8 de março.

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  Escrito por Idelber às 17:24 | link para este post




Você sabe que está viciado em blogs se você...

1. seguindo-se ao jantar e sobremesa à luz de velas, depois da primeira sessão da brincadeira, maravilhosa, com orgasmos múltiplos e
simultâneos, aproveita a ida do outro ao banheiro só prá dar uma
olhadinha na caixa de comentários
;

2. seguindo-se ao último cigarro da insônia você se levanta e bota para girar sua conexão discada para ver se aquele filho da puta teve a parsimônia de responder;

3. seguindo-se ao despertar, antes da higiene bucal, você liga a máquina, prá deixá-la esquentando e assim, quando sair do banheiro, tê-la pronta;

4. vê a notícia e pensa: o que o meu blog favorito
[link] e o blog mais fundamental
[link] e o blog mais incisivo e elegante
[link] pensariam sobre o assunto?

5. acima de tudo você sabe que está viciado se chegou ao ponto de ler diariamente 70 blogs, ser comentarista regular em mais de 35, e produzir um próprio com 3 posts diários.

Como chegam leitores novos, eu gostaria de pedir vênia aos antigos e
apresentar-me de novo: eu amo a Bahia e o Galo sobre todas as coisas. Sou professor de literatura e profundamente viciado em fumar cigarros e ler blogs. Nas últimas 4 semanas, decidi colocar o segundo vício à serviço da abolição do primeiro. Tenho tido sucesso, com a ajuda de leitores maravilhosos. No entanto, afundei-me dramaticamente no segundo vício e agora começo a lutar contra ele. Este post traz minhas resoluções para tentar controlá-lo.

Decisões tomadas hoje:

1. Sumir por uns tempos das caixas de comentários alheias. Como sabem dezenas de blogueiros, eu faço
palhaçadas no Nelson, brigo com criacionistas no Smart, encanto-me
ante as frases de Milton e os casos de Lucia e lanço palavras por todas as caixas de comentários de blogs que eu tenha gostado de visitar - são sempre sinceras, porque *se não gosto vou embora e não digo nada. Foi linda essa experiência, amigos, mas acabou. Que fique claro: leio e continuo lendo todos os 70 blogs que estão linkados aqui à esquerda, mas estou mergulhado na tentativa de controlar o vício. No momento, tenho que voltar a conseguir ler trabalhos de alunos. Amo os blogs que comento. Será difícil parar de comentar no de Michael Bérubé, onde no sábado fizemos uma fenomenologia da cerveja e nesta segunda uma homenagem às bandas que só deveriam ter gravado uma música.

2. Sumir das minhas próprias caixas de comentários. Não mais poderei registrar a chegada de cada visitante com um alô. É lindo isso, e eu o fiz durante 5 meses. Mas já não dá. Com o crescimento do blog, a caixa de comentários passa a funcionar como várias outras: são espaços onde eu vou evitar escrever. Todo mundo sabe que é bem-vindo. Trata-se de um espaço dos leitores. Usem-no. Batam papo. Vociferem. Despiroquem. Desabafem.

PS: O presentinho que eu vou sortear entre todos os que votarem na
eleição dos melhores discos da música brasileira é uma caixinha de 6
CD-Rs com 120 canções escolhidas por mim e por Cristóforo Dunn, depois de muita briga e discussão, para o nosso seminário daqui. A seleção começa com "Lundu do Baiano", primeiro fonograma gravado em Pindorama (1902) e vai até "Conversa de botas batidas" (2003), pérola pop do último disco do Los Hermanos. Se vocês acharam difícil escolher 10 discos, imaginem escolher 120 canções, debatendo o tempo todo com um caetanóide. Mando por correio prá quem ganhar o sorteio.

Então era isso: a eleição continua, o brinde era esse, eu sigo blogando mas não comentando e o vício bloguístico já tem uma coleção de sintomas. Tem alguém aí viciando em blogs? Observando a sintomatologia?



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post



domingo, 06 de março 2005

Votação – Música Brasileira

*Vote aqui ou ali embaixo
[link] ou em algum destes blogs: *

Já temos, que eu saiba, *permalinks* para os votos dos blogueiros Guto
[link], Leila
[link],
Elisa [link],
Zema
[link],
Fernando
[link],
Ana Lucia [link],
Lucia Malla
[link],
Denise [link], Alline
[link],
Iraldo [link],
Alexandre do LLL
[link],
Mônica
[link], Rafael
Galvão
[link]
Junto com o meu são *15 votos* de blogueiros, já contados e
permalinkados. Mil perdões se esqueci alguém. *Nesta* caixa de
comentários já estão o voto de Charles Perrone e o voto da primeira
leitora do *Biscoito*, a Cipy Lopes, perfazendo 17 computados até agora.

*Claro que não é necessário ser blogueiro*. Só vir a esta caixa e votar, ou à caixa do meu post anterior ou à de qualquer desses blogs aí em cima que já votaram. Proponho que a gente receba votos até *sexta-feira* desta semana. O que vocês acham? Alguns leitores me convenceram: vamos *sortear* um CD entre todos os *eleitores*, blogueiros ou não, que participam, em vez de oferecê-lo a quem fizer a lista mais popular.
Tendo tido todo este trabalho de organizar tudo, e ainda oferecendo um CD, eu imploro que me deixem indicar 11 discos, porque eu *esqueci* de um que eu considero simplesmente um dos três melhores de todos os tempos. Eu só esqueci porque sempre penso nele como *hors concours*: , *Africa Brasil*, de Jorge Ben. Se alguém tiver algo contra eu ter direito a 11 votos, com pesar no coração, *sai o disco de Caê* e entra Ben Jor em terceiro, com tudo rearranjando-se. Vocês deixam eu ter direito a 11?

O outro especialista em música brasileira na academia gringa (além de
Charles Perrone e deste humilde blogueiro), meu amigo Chris Dunn, também
virá aqui votar (é, vem cá você, *dar a cara a tapa*). Também esperamos
o voto do blogueiro-especialista em música aí no Brasil Ricardo Schott [link]. Vários outros blogueiros ficaram de votar, incluindo blogs muito lidos como o Pensar Enlouquece [link]. Já ficam dadas às boas-vindas ao pessoal que vai chegar quando Ina postar sua lista. Adorei ver essas 17 listas prá começar. Viva Babel. Votem à vontade.

*Atualização às 17:40 h de Brasília*: chamo a atenção a novos posts com votos de *blogueiros ilustres,* que acabam de fazer suas respectivas listas. Aqui vão os permalinks aos top 10 de Tiagón [link],
Pedro Alexandre Sanches [link]
e, prefaciado por palavras generosa, hiperbolicamente gentis dirigidas a mim, o top 10 do escritor Milton Ribeiro [link].


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  Escrito por Idelber às 18:56 | link para este post




Morreu Gladys Marín

O Biscoito Fino e a Massa se junta aos milhões de chilenos que hoje estão chorando a morte de Gladys Marín. Quem lê o *Biscoito* já sabe que isto estava por acontecer.


Gladys, a comunista, /la dirigenta, como le decían/. Mulher
[link] que a ditadura sempre
odiou e nunca conseguiu destruir, mulher
[link] que conheceu o
sacrifício *indizível* de separar-se dos filhos *para* salvá-los, ela
sabia levantar uma multidão só com o poder da sua voz. Eu me orgulho
*demais* de tê-la visto de perto.

Uma vez eu tive a chance, fomos oradores no mesmo colóquio: ela havia
arrancado lágrimas dos meus olhos com sua fala. Uma multidão a esperava do lado de fora. Desisti de ir atrás. Mas fiquei olhando: a aura que emanava de sua figura era poderosíssima.

O *Biscoito* celebra o fato de que *Gladys Marín* morreu rodeada do amor dos seus e do amor de tanta gente pelo mundo, enquanto que o *verme tinhoso* se arrasta desmoralizado, fingindo-se de louco para não ser preso como assassino e ladrão.

Eu dedico esta festa que estamos fazendo com a música brasileira a
*Gladys Marín*, uma das mulheres mais extraordinárias da história
recente da América Latina, e convido meus compatriotas a conhecerem um pouco sobre a vida singular, impecável de Gladys, em circunstâncias dificílimas. Evoé, Gladys, descanse em paz.
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  Escrito por Idelber às 18:51 | link para este post




Os 10 mais da música brasileira. Vote aqui

10. Caetano Veloso, *Cinema Transcendental* (1979): A dúvida foi entre este e *Transa* (1972) que, como concepção total, eu acho superior.
*Cinema * tem aquela que talvez seja a pior música de Caetano, 'Aracaju'.
Em compensação, o resto é pérola: 'Lua de São Jorge', 'Beleza Pura',
'Oração ao Tempo' , 'Elegia', 'Cajuína', 'Badauê' e o *opus magnum* de meu mestre Mautner, 'Vampiro'. Este disco foi fundamental. Numa época em que arranjos escalafobéticos eram considerados marca de sofisticação, em que Rick Wakeman era considerado boa música, Caetano fez um disco sequinho, sem produção excessiva, sem tecladagens progressivóides. Muito violão acústico e bongô. Deu o recado legal.

9. Chico Science e Nação Zumbi, *Da Lama ao Caos* (1994): Pode-se
combinar hip hop e maracatu? Música preta e música branca? Música
regional do seu bisavô com os samplers pirateados de Nova Iorque? Hoje parece óbvio que sim. Graças a este homem, o gênio, o primeiro e único.

8. *Elis e Tom* (1974). Os bossanovistas terão que se contentar com
este disco no meu top 10, que não tem *Chega de Saudade*, disco
importante mas, para mim, intragável. *Elis e Tom *é capaz de fazer
qualquer um se apaixonar pela Bossa Nova. A faixa de abertura, 'Aguas de Março' merece estar em qualquer antologia de música brasileira.

7. Raul Seixas, *Krig-ha-Bandolo!* (1973): quando vou aplicar Raul em alguém, começo com *Novo Aeon* (1975), seu disco mais místico e
bem-produzido. Mas neste estão as pérolas: 'Mosca na Sopa', 'Metamorfose Ambulante', 'Al Capone' , 'Ouro de Tolo' e uma belíssima (e pouco
conhecida) balada dylanesca de Raul em inglês, 'How could I know'

6. Dorival Caymmi, *Eu vou para maracangalha* (1957). *Canções
praieiras *(1954) e *Caymmi e o Mar* (1957) seriam bons candidatos. Mas é aqui que o Rio encontra a Bahia, e o samba come solto. É meu favorito de Caymmi. Aproveitem enquanto as edições originais ainda estão disponíveis em CD. Qualquer dia eles tiram de catálogo e colocam uma coletânea feita sem critério, com alguma bunda na capa.

5. *Chico Buarque* (1984). Chico é outro que tem vários discos
candidatos. Seu disco também epônimo de 1978 tem várias pérolas mais
conhecidas, mas meu favorito é este aqui, o Chico da volta à democracia. Destaque para 'Pelas Tabelas', 'Brejo da Cruz' e 'Vai Passar'

4. Gilberto Gil, *Refavela* (1976). Na escolha do disco de Gil não tive dúvida: esse é seu disco capital prá mim. É toda sua trajetória anterior profundamente repensada à luz da visita à Nigéria e da reflexão sobre a negritude.

3. Milton Nascimento e Lô Borges, *Clube da Esquina* (1972). Um dia
ainda escreverei um livro inteiro sobre esse disco. Dizer o quê em duas linhas? Se não o conhece, pare de ler este blog e vá consegui-lo. Sua vida jamais será a mesma.

2. *Clementina e Convidados* (1979): Clara Nunes, João Bosco, Adoniran, Martinho da Vila e outros cobras reunidos pela Quelé numa *tour de force* inesquecível.

1. *Som Pixinguinha* (1973). Prá mim é o maior disco já feito no país. Versão orquestral de 8 minutos de 'Carinhoso'. Incrível performance na flauta em 1 x 0. O 'Samba Fúnebre' com letra engajada de Vinícius. Uma revisitada inesquecível a 'Samba do Urubu'. É o Pixinga, à beira da morte, dizendo: OK, são 100 anos de música urbana popular no Brasil.
Deixa eu pegar a porra toda e sintetizá-la em 40 minutos.

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  Escrito por Idelber às 11:01 | link para este post




Fenomenologia da Fumaça - semana 4

Fenomenologia da Fumaça - semana 4. O cigarro no romance modernista
europeu, parte I

Eu fumei de 1982 a 2005. Direto, com duas ou três paradas mixurucas.
Entro agora na *quarta* semana sem cigarro. O projeto é escrever a
ruptura com a fumaça em 52 capítulos. No primeiro post eu me propus a
tarefa, no segundo eu falei do leitor do blog como superego perfeito (e das suas diferenças com os superegos da era pré-blogs) e no terceiro eu descrevi o esmigalhamento, temporário, espera-se, da minha capacidade de concentração na leitura. Neste quarto eu vou explicar o termo “fenomenologia” e falar de um romance.

Ao contrário de “objeto”, ”fenômeno” designa a coisa tal como ela
aparece para nós (*phainomena* em grego relaciona-se com o verbo
aparecer, surgir *para* alguém). A *fenomenologia* aparece como ramo da
filosofia no momento em que esta, com Kant [link], decide que não pode conhecer a coisa em si. Neste sentido Kant é o fundador da fenomenologia. Esta ganharia estatuto de investigação filósofico-científica (*wissenschaftlich*) no século XX com Husserl
[link], pensador fundamental para várias disciplinas e várias correntes filosóficas posteriores. Dizer que o objetivo aqui é uma fenomenologia da fumaça, apesar da palavra pomposa, é uma forma de *não* ser pretensioso; falarei da sociologia, da estética, da história e da química do cigarro, mas jamais como especialista. A coisa será sobretudo uma descrição do que o cigarro tem sido *prá mim* (e, é lógico, com a caixa de comentários aberta para que os leitores digam o que têm sido prá eles).

A primeira parada é um livro ápice da tradição do romance fragmentário e reflexivo do primeiro modernismo. Falo do grande romance sobre o (último) cigarro: A Consciência de Zeno [link]
(1923), de Italo Svevo [link]. O cigarro
começa a existir na Europa, claro, justamente no momento em que o
*romance de desenlace *do folhetim começa a dar lugar ao romance sem
final definido, fragmentado do primeiro modernismo. Svevo era italiano de Trieste, amigo e interlocutor de James Joyce
[link] (que foi seu professor de inglês). Com *A Consciência de Zeno* ele leva, ao lado de Robert Musil e seu Homem sem Atributos [link], o romance
europeu modernista a seu último grau de *enlouquecimento
intelectualizado*. É aquele texto espedaçado da pós-primeira guerra,
onde o narrador já não tem a pretensão de certeza sobre nada do que
narra. Para muitos leitores, Musil e Svevo são 1000 páginas de viadagem, já que suas histórias não têm telos, não se chega a lugar nenhum. É a história anti-fálica. É o meu tipo de romance favorito, junto com o romance folhetinesco do século XIX.

Sobre o que é *A Consciência de Zeno*? Bom, sobre o(s) último(s)
cigarro(s) do narrador-protagonista. Dito assim, parece uma palhaçada, claro. Não é. O gênio de Svevo foi ver a fumaça na sua analogia com a literatura moderna: ambos são desvanescentes, não levam a nenhum lado, são pura perda, ambos são produtos de um mundo que se encurta. O narrador de Svevo fuma vários últimos cigarros e cada um deles só é *fumável porque concebido enquanto último cigarro*. Taí a dialética que o não-viciado não entende, até, pelo menos, que “o não-viciado” descubra qual é o seu vício e tente largá-lo. Aí essa dinâmica fica visível:
existe um momento em que *a tentativa de parar é condição onstitutiva
da continuação do vício*. Não é o caso deste blogueiro, que agora parou *mesmo*. Mas é o caso em Svevo, que contém uma verdade profunda que *me* pertence também. Há que se compreendê-la *bem*, sob pena de voltar a fumar.

Não voltarei às primeiras páginas de Svevo, mas sua lembrança é que aos 20 anos ficou muito doente. O pai tem uma importância central na cena.
“O médico disse que devia guardar cama e abster-me absolutamente de
fumar. Lembro-me desta palavra, *absolutamente*! Feriu-me, e a
febre-deu-lhe cor . . . Quando o médico me deixou, meu pai (minha mãe
havia morrido há vários anos) com um grande charuto na boca, ficou
fazendo-me companhia por um tempo. Ao ir embora, depois de ter passado a mão suavemente por minha testa ardente, disse-me: Não fume, hein!” .
. Bastava esta frase para que eu desejasse que ele fosse embora
imediatamente, para permitir-me correr ao meu cigarro. Eu chegava
inclusive a simular dormir para que ele fosse antes . . . Esta doença me proporcionou o segundo distúrbio: *o esforço de livrar-me do primeiro*”
(Tradução minha. Edição usada: *La coscienza di Zeno*, Torino, Einaude,
1987). E o que eu e o narrador de Svevo temos em comum? Muito, assim
como o mundo pós-guerra-do-Iraque tem muito em comum com aquele descrito pelos romancistas europeus de depois da primeira guerra. Já é suficiente por hoje, mas apontemos para a semana que vem o que de importante compartilhamos eu e o narrador de Svevo: a morte do pai
[link]*.
*

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  Escrito por Idelber às 00:48 | link para este post



sexta-feira, 04 de março 2005

Morreu Rinus Michels

Morreu Rinus Michels [link], aquele que muitos consideramos o maior técnico de futebol da história. Montou uma das poucas seleções mundiais a ficarem conhecidas por um nome cinematográfico, cultural, que marcou época: Laranja Mecânica
[link]. O seu time holandês de 1974 redefiniu o sentido da expressão *massacre* no futebol: contra eles, o Brasil apelou feio. Marinho Chagas deu pontapés e Luiz Pereira foi expulso. Se você nunca viu a camisa canarinho *humilhada* em campo, pegue um vídeo desse jogo. Foi 2 x 0 prá eles, mas poderia ter sido 5.
Tudo armação de *Rinus Michels*. Seus times se organizavam em lozangos móveis, tentaculares, pelo campo. Tinham pontas e centroavantes. Foi a única vez numa Copa do Mundo em que a Seleção do Brasil foi literalmente *posta na roda*. Que descanse em paz o grande *Rinus Michels*.

Um dos melhores instituições de ensino superior dos Estados Unidos, o
Smith College [link], acabou de fazer uma excelente contratação: venceu outras duas universidades no leilão por minha ex-aluna, amiga e doutora *Ibtissam Bouachrine*. Ibtissam é dessas poliglotas que fazem os metidos a poliglota-zinhos envergonharmo-nos:
falante *nativa* de árabe e francês, seu inglês e seu espanhol são de
fluência e intonação nativas. Além disso tudo, como *medievalista*,
estuda hebraico e fala e entende italiano. Não satisfeita, lê o
*Biscoito Fino e Massa* em português. Quando a tese dela virar livro eu conto prá vocês como o argumento é o fino do fino. Evoé e parabéns a *Ibi*. I'm just so proud of you.

Nestes primeiros sessenta dias de 2005, os dois blogs que mais enviaram leitores ao *Biscoito* foram o Liberal Libertário Libertino
[link] e o Pensar Enlouquece [link]. Obrigado Alê. Obrigado Ina.

Chico Buarque de Hollanda [link] pode ter
qualquer mulher que queira no Brasil. Pegou uma casada e Contigo
[link] fotografou. Noblat
[link] visitado por gente ilustre. A história é muito boa e só não blogo sobre ela por absurdo excesso de assunto e falta de tempo. Saio em dez minutos para a night de Nova Orleans. Mas nesta hora, o *Biscoito* deseja, ao marido envolvido, consciência dos *dois postulados* básicos da psicanálise: 1) o Grande Outro, de Pinto monumental, não existe; mesmo que agora Ele lhe pareça, meu amigo, ser a própria cara do Chico, acredite, Ele não existe. 2) Se o terreno da conversa é o desejo e sua satisfação, tudo é imperfeito e fracassado.

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  Escrito por Idelber às 21:18 | link para este post




Votação musical na segunda-feira 07 de maio

Até agora eu recebi confirmação dos seguintes blogs, que vão participar fazendo posts, linkando ou simplesmente votando na eleição dos melhores discos de música popular do Brasil de todos os tempos (em ordem alfabética, que tem a vantagem de ser uma ordem sem ser uma hierarquia): Arte-Bis, Bereteando, Bibi’s Box (Bibi ainda não sabe se vai votar, mas já linkou), Discoteca Básica, Field Book (certo, Elisa?), Liberal Libertário Libertino, Uma Malla pelo Mundo, Monicomio, NCC, Número 12, Odisséia 2005, Pensar Enlouquece, Prás Cabeças, Rafael Galvão, Stuck in Sac, Tiro e Queda. Alguns blogs amigos ainda não confirmaram.

1) Por que não vale coletânea? Porque uma coletânea não é um “disco” concebido como tal pelo seu autor. Se você ama “aquele disco com os grandes sucessos do Chico”, bom, você terá que ver onde eles foram lançados e qual lançamento original continha mais pérolas de seu gosto. O lugar para se fazer isso é o CliqueMusic.

2) É só MPB ou vale rock, pop, forró? É uma eleição que inclui toda a música popular feita no Brasil, não somente o conjunto de músicas acústicas centradas na figura do cantor-compositor e designadas, a partir de 1966, pela sigla MPB. Então, toda a música popular está no páreo.

3) Por que limitar-se a 1950-2005? Porque antes de 1950 os lançamentos eram feitos em discos de 78 rpm onde circulavam só um par de canções. Não é possível comparar um 78 rpm com os discos long play que começam a circular nos anos 50.

4) Estamos escolhendo os melhores ou os mais importantes? Estamos escolhendo os melhores. Na minha opinião, por exemplo, o disco coletivo Tropicália ou Panis et Circenses (1968) é dos dez discos mais importantes da segunda metade do século. Mas eu raramente coloco-o para tocar. Não está na minha lista dos dez melhores. Gostaria de pedir aos leitores que votassem nos que acham os melhores, não nos que mais capital cultural e aura de prestígio acumularam pela história.

São claros e justos os critérios? Esqueci de alguém? Quem mais quer
brincar? Faltou alguém aí para se inscrever? Alguém quer reclamar de
algum critério? Todo mundo pronto nesta segunda então? O Biscoito Fino e a Massa oferecerá um CD de presente ao leitor que emplacar o maior número de discos no top 10.

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  Escrito por Idelber às 14:52 | link para este post




Sexo Anal

Sexo Anal

A Luiz Biajoni [link] eu agradeço a* *gentileza de enviar-me seu romance inédito *Sexo Anal*, trazendo-me assim novos leitores que chegarão ao *Biscoito* guglando essa masculina obsessão nacional. Mas como bem sabem os que buscam sexo anal [link] pelo Google, tudo é decepção e desastre nessa expectativa.

Virgínia, repórter de um grande jornal, tem uma relação anal realizada com o namorado Luiz. Conversada, boa, tranqüila, gozada. Mas as hemorróidas incomodam-na, e ela vai se consultar com Dr. Júlio. Durante a consulta, uma sensação inédita de tesão leva Virgínia a se oferecer a Júlio e a ter (e proporcionar) uma transa inesquecível. Cometendo a burrice de ser “honesta” e esperar “maturidade” do namorado, Vírginia conta o ocorrido a Luiz. Este, como típico homem, faz da dor de corno a oportunidade de pisotear-se e diminuir-se até o infinito. Faz beicinho e some. Deixa espaço para que Ana, amiga bissexual de Virgínia, chegue junto, e também para que Júlio tente reviver a experiência incrível que o deixou apaixonado por Virgínia. Enquanto Luiz se chafurda na lama, as coisas ficam interessantes no jornal: três jovens estupram e matam uma
garota, e Virgínia é designada para acompanhar o caso. Na captura de um dos assassinos, Virgínia descobre a podridão das delegacias e o machismo das redações de jornal. Escuta do criminoso, um negão, a frase fatídica:
*quero comer teu cu*. Essa frase desloca o lugar de Virgínia nas
investigações, não porque a incomode, mas porque aterroriza os *outros homens, jornalistas, delegados e carcereiros*. Presenciar a mulher branca sendo currada pelo negão, eis aí a *cena primal inomeável, traumática,* do macho tupiniquim. Biajoni
[link] habilmente manipula todos esses contraditórios sentidos que se articulam através da analidade.

As peripécias que se seguem voltam a envolver Luiz, que se torna
confidente de Luciana, filha de seu companheiro de repartição, travada por um traumático quase-estupro de infância. Enquanto isso, a confusão dá espaço a que Ana, bissexual apaixonada por Virgínia, entre em ação.
Virgínia fará várias escolhas enquanto se desvenda o crime, mas a
escolha decisiva acaba sendo a de Luiz. Com o que lidam essas escolhas?
Não é papel do resenhista estragar a brincadeira.

São 45.000 palavras de prosa ágil, impecável, sem adjetivações fáceis.
*Sexo Anal * é thrash, é heavy, é power, é pop. Seria uma ingenuidade
ver o romance de Biajoni como pornográfico. Na verdade, trata-se de um texto *pós-* ou *trans*-pornográfico. Ao se iniciar a trama a *mulher já gozou analmente*. Ora, que realização adicional de fantasia pode prometer um romance no qual, na *primeira página*, já se realizou essa *suprema fantasia masculina*, a de que ela goze levando no cu? Ao escancarar já no título, Biajoni
[link] paradoxalmente *esvazia* qualquer bobinha pretensão de excitação e voyeurismo punheteiro com o texto. Na 1ª página, *o gozo anal já rolou*. Daí prá frente, os personagens de Biajoni lidarão, mais frequentemente, com a *falta*. Descobrem-na como estrutura que organiza a experiência, depois de 100 páginas de uma narrativa sensacional, vertiginosa, violenta e lírica, misógina e feminista, global e paulista-carioca (carioca em seu cenário, paulista em sua “filosofia”). Quem acredita que os opostos não se misturam vai derrapar feio nesse romance.

Qual será a editora esperta que vai emplacar este *instantâneo clássico pop*? O livro está pronto e já tem orelha.

*PS 1*: Pelas minhas contas, já são *17 blogs* que toparam participar da eleição discográfica de segunda-feira. Que fique a critério de cada um fazer um post mandando o pessoal prá cá ou recolhendo votos em seu próprio blog. Podemos depois ajuntar tudo. Neste fim de semana eu faço um post confirmando quais são os blogs que participam da brincadeira.

* *

*PS 2*: Acabei de que descobrir que pela Amazon.com [link] você pode ler as primeiras páginas [link]
do meu novo livro, que é uma coleção de ensaios sobre a atrocidade. Dá prá ter uma idéia.

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  Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post



quinta-feira, 03 de março 2005

Feliz Aniversário, Galinho de Quintino

Feliz Aniversário, Galinho de Quintino

/(post feito a partir de lembrança do leitor Alexandre. valeu)/

Numa noite escura de 1980, eu o odiei mais que a todos os mortais. Antes e depois daquele dia, como todos os brasileiros que adoram o bom futebol, eu o amei e o respeitei como o maior camisa 10 do futebol brasileiro desde Pelé.

*Arthur Antunes Coimbra*, o Zico [link], completa 52 no dia de hoje. *Feliz **Aniversário ao Galinho*.

De seus mil feitos no Flamengo, eu me lembro de uma mesma cena repetida várias vezes. /Falta na entrada da área / adivinha quem vai bater/, como diria Jorge Ben Jor [link]: os mesmos três passos
antes do toque, a curva da bola por cima da barreira, a parede humana
torcendo os pescoços para olhar para atrás, o goleiro saltando em vão.
Vimos essa cena tantas vezes que todos os originais parecem repetições.

Ganhou tudo. Só lhe faltou a Copa do Mundo. Em 1978, menino, foi à
genocida Argentina de Videla com o tecnocrata Carlos Coutinho. Foi
pisoteado e jogou com brios, mas voltou só com o 3º lugar. Em 1982, com a maior seleção mundial [link] já feita
desde a aposentadoria do Negão, Paolo Rossi e uma fatalidade lhe tiraram o título. *Nenhum time mereceu ser campeão como aquele*, e Zico era seu maestro. Ainda sob Telê Santana, Zico teve a última chance em 1986, perdeu um pênalti e aí - *nessa sua pior hora* - mostrou sua grandeza, saiu de cabeça erguida e deu outro show de elegância.

Hoje é mais adorado - até por quem nunca o viu jogar ao vivo - do que muita gente mais recente que ergueu canecos mundiais.

Sua importância para a história recente brasileira é imensa. Foi o
primeiro jogador acompanhado em laboratório desde moleque. Fez gols
absolutamente de tudo quanto foi jeito, mas sua grande arte era ver a
jogada de antemão e colocar o colega na boca. Nunes, Tita e muitos
outros usufruiram de sua generosidade genial. É o grande responsável
pelo fato de que hoje 20% de todos os brasileiros que preferem algum
time torcem pelo Flamengo. No Nordeste ele é grande como Lampião e em
Brasília é grande como JK. É o genuíno *Rei da era pós-Pelé*.

Parabéns, Zico. Extraordinariamente neste post e somente nele,
Flamengagens serão bem-vindas na caixa de comentário. Aniversário do
Galinho a gente abre uma exceção. Aliás, por falar nisso, vocês sabiam que o Galinho já tem blog [link] ?

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  Escrito por Idelber às 15:46 | link para este post




*Proposta de Regrinhas

*Proposta de Regrinhas para a Eleição dos 15 Maiores Discos da Música
Popular Brasileira *

Como sabem, há um tempo atrás os leitores do LLL
[link] elegemos os 30 melhores livros de ficção e, sob a batuta do Alexandre
[link], fizemos um clube de leitura [link].

Há tempos quero fazer uma *eleição dos 10 ou 15 melhores discos* da
música popular brasileira, de preferência em parceiria com blogs
especializados como Sovaco de Cobra [link],
BMTH [link] e Discoteca Básica
[link]. Minha idéia é pedir ajuda aos blogs grandes na divulgação e combinar um dia de posts conjuntos, com quem queira participar, para que todos os leitores votem nos seus favoritos.
Como em qualquer eleição
[link]
deste tipo, claro, há que se ter umas regrinhas. As que eu proponho são as seguintes:

1. *Cada leitor escolheria 10 discos*, entendendo-se disco como discos originais, long play ou CD, de estúdio ou ao vivo, mas *excluídas as coletâneas*. Não entram os 78 rpm
[link],
porque não dá para comparar alhos e bugalhos. Isto limita a eleição a
digamos, 1950-2005, o que exclui figuras como Noel Rosa, que certamente emplacariam coisas em listas das melhores canções brasileiras. Mas a natureza de qualquer eleição é essa mesmo. Na lista de discos não há como ele entrar.

2. Como na brincadeira do Clube de Leitura
[link],
cada leitor tem direito a um voto em 10 discos, que recebem, o primeiro deles, 10 pontos, o segundo 9, e assim até o décimo, que recebe um ponto.

3. Poderíamos dar uns dias, digamos, até segunda-feira, para que todo
mundo prepare suas listinhas. Quem tiver dúvidas sobre qual disco tem
qual canção, quais foram os discos do artista tal, é só ir ao
CliqueMusic [link]. Ninguém precisa ser
especialista em música para votar. Vote nos discos que lhe marcaram, nos que você acha os melhores ou em qualquer combinação entre essas duas coisas.

4. Alguns dos 15 discos mais bem votados ganhariam resenha aqui no
*Biscoito*, e se os amigos blogueiros especialistas toparem, alguns
poderiam ganhar resenhas em blogs como Sovaco de Cobra
[link] e Discoteca Básica
[link]. Claro que qualquer outro blog que quisesse se juntar também seria bem-vindo.

5. Teríamos mais ou menos um retrato das preferências discográficas do público leitor dos nossos blogs.

Esta é a proposta de brincadeirinha. Alguma proposta de mudança ou
acréscimo às regras? Posso contar com vocês? Segunda-feira está bom como dia dos posts? *Quem quer brincar? *

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  Escrito por Idelber às 05:55 | link para este post




*Maquininha nova! *

*Maquininha nova! *

Lembram-se que o meu laptop tinha estragado e eu acabei indo para o
Brasil nas férias de fim de ano sem computador? Pois é, ao regressar a New Orleans, ainda passei o mês de fevereiro só na base do desktop que tenho no meu gabinete na universidade.

*Agora chegou meu brinquedinho novo!*

Este blogueiro pilota uma Toshiba Portégé M200
[link],
com um processador de 1.60 GHz, 512 de RAM, conexão sem fio à internet, drive externo que grava CDs e DVDs e *telinha que gira todo o ângulo de 180o*! Presentinho de Tulane University [link].
Realmente não dá para dizer que não sou bem tratado aqui.

O novo laptop já está a postos com todos os programas que uso mais
regularmente: Photoshop [link], Sound Forge [link], Word [link], iPod [link], Roxio [link].
Já sei que tenho que ser mais alternativo e começar a sair desses
programas do Bill Gates. Vai rolar. Mas parar de fumar, abandonar a
Microsoft e virar pontocom de uma vez não dá. Uma coisa de cada vez.

Já devidamente instalados estão minha *impressora* e meu *scanner*.
Falta só trocar de máquina fotográfica, porque minha Largan Chameleon
Mega [link] está muito baleadinha. O velho laptop Dell será consertado, levado a Belo Horizonte e "passado nos cobre", como se diz em Minas.

Como as coisas nunca são perfeitas quando o tema é tecnologia, descubro que a Toshiba Portégé M200 [link] não traz saída compatível com os cabos do iPod [link]
que eu uso para editar música no desktop, nem para o adaptador de
extremidade quadradinha que entrava no meu laptop velho, o Dell. Enfim, embora o iTunes [link] já esteja instalado no laptop, terei que continuar usando o desktop para transportar música ao iPod [link], pelo menos até descobrir qual é o novo raio de cabo que eu preciso.

Para compensar, a conexão sem fio à internet está funcionando às mil
maravilhas, tanto no gabinete como em casa. Como é que as pessoas faziam antes do *wireless internet*, hein? Desculpem, mas não dava para receber essa maquininha dos deuses, ficar blogando nela e não contar para vocês.

Próximo passo: dar tchau para este povo aqui [link], adquirir domínio próprio e iniciar o processo de mudança do *Biscoito*.

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  Escrito por Idelber às 05:52 | link para este post



quarta-feira, 02 de março 2005

Constatação e prece


Constatação e prece

Há cinco meses (quando minha dose de leitura diária passou a ser
hegemonicamente blogs) e muito especialmente há três semanas (quando
parei de fumar), venho experienciando uma paulatina (e, espera-se,
temporária) *despencada da minha capacidade de concentração e retenção
de informação na leitura*. Este blogueiro, que já teve o costume de ler
longas narrativas *em versos* durantes horas e horas a fio, encontra-se
no momento de novo tendo *sérios problemas* para preparar uma simples
aula de pós-graduação sobre Guimarães Rosa
[link] (sobre quem, diga-se, o
blogueiro escreveu tese de mestrado nas priscas eras de 1992). A sorte é
que são 10 alunos maravilhosos. *O que acontece mesmo* naquele conto /O
cavalo que bebia cerveja/
  Escrito por Idelber às 13:27 | link para este post




*Drops, Latino-Americanos*

*Drops, Latino-Americanos*

É o país mais hospitaleiro, /laidback/, /buena onda/ que eu já visitei e eles trocaram de presidente ontem. Pela primeira vez na história o Uruguay [link] não é Branco nem Colorado. Tomou posse [link] o primeiro presidente de esquerda da história da Banda Oriental, Tabaré Vázquez. O novo presidente da Assembléia Legislativa é o ex-guerrilheiro Tupamaro José Mujica. As relações com Cuba já foram normalizadas. O *Biscoito* tem leitores no Uruguay e saúda a festa de ontem [link] em Montevidéu.

Quanto Néstor Kirchner tomou posse como presidente da Argentina
[link], ninguém sabia o que ia dar. Ele era governador de um pobre estado de 200.000 habitantes, Santa Cruz. Foi eleito com 22% dos votos porque Menem não quis submeter-se a ser derrotado por ele por 80 a 20 num segundo turno. Enquanto isso, o mais popular presidente da história do Brasil era eleito com 60 e tantos% dos votos. Como primeira medida, Lula decidiu dar *mais*, não *menos*, dinheiro ao FMI do que dava FHC. Por outro lado, Kirchner gritou aos banqueiros: *pago no máximo 25 centavos por cada dólar que devo*. *E estou trucando e quero ver me fazerem pagar mais*. Foi chamado de louco, execrado como irresponsável e foi sabotado pela política externa do
Komintern petista, a aluna mais aplicada do FMI. No fim das contas a
corja de banqueiros aceitou a proposta argentina e o Citibank hoje
aconselha investimento lá, não em Pindorama. Na Folha
[link] de hoje, escreve Elio Gaspari: /A
banca aceitou os 25% porque se deu conta de que era isso ou nada. Com
seu estrabismo sartriano, Kirchner não tem medo de cara feia. Usaram-se contra ele recursos de terrorismo financeiro do Fundo Monetário Internacional, da academia bem pensante e das ekipekonomicas de todo o mundo. Kirchner prevaleceu porque a banca não trabalha para provar que está certa. O que ela quer é dinheiro."/ Hoje na Argentina, considerada antes o bicho papão da instabilidade, a economia cresce o dobro da de Pindorama e acaba de aprovar-se o *piso mínimo* de 700 mangos para professores de todo o país, o que é *o dobro* do que ganha um docente P1 do estado de MG. O presidente Kirchner provou, a meu modo de ver, que a sujeição de nossos países à ordem comercial-financeira global - e às regras desse jogo -é tal que as nossas nações hoje negociam em total
liberdade, *entendida como total liberdade para trucar*. Vão nos ameaçar com o quê? Bombardeio do Bush? *A hecatombe já aconteceu*, meus amigos.
Infelizmente o governo Lula decide renunciar à truca-bilidade, tudo para parecer bonitinho: infinita mediocridade do seu paloccismo, seu
caipirismo econômico e filosófico. Se você é assinante, leia o agudo e bem informado elogio de Gaspari a Kirchner aqui
[link]. Sou fã-zaço do Presidente Néstor Kirchner e desejo muitíssimo que certos representantes do governo Lula parem de torcer e agir contra a ousadia argentina.

O *Biscoito Fino e a Massa* não está nem se lixando para quando vai
morrer o Papa João Paulo II, mas acompanha com atenção os últimos dias da guerreira chilena e presidente do Partido Comunista do Chile Gladys Marín [link]. Grande oradora, mulher de fibra, forte, líder histórica e respeitada, vida duríssima, Gladys já agoniza
[link],
consequência do câncer no cérebro. Não verá a eleição presidencial na
qual, pelo que parece, o Chile elegerá pela primeira vez uma presidente mulher (o *Biscoito* torce pela socialista Michelle Bachelet, mas a segunda colocada, democrata-cristã, também é mulher, enquanto o processo de esfacelamento da direita chilena continua a galope). *Alegria nossa, de todos*: Gladys Marín está cercada de amores, carinhos, apoios, família reunida - e o *ditador tinhoso* desmoralizado, não só como torturador e golpista, mas também como corrupto. É de se fazer uma homenagem aqui, quando morrer *Gladys,* outra linda maravilhosa. Meu amigo, ensaísta e doutorando Felipe Victoriano toparia, com certeza, vir aqui e contar um pouco sobre ela.

Se você ama o futebol e quer entender como e por que o argentino é
*muito mais fanático* que o brasileiro, leia outro belo texto
[link] de Ubiratan Leal.

A partir do final de maio estarei em Belo Horizonte, como previsto. A
novidade é que parece que o *Biscoito* será produzido durante o mês de outubro na cidade de Santiago do Chile, onde estarei dando um curso a convite de colegas de filosofia que admiro muito
[link]. Com certeza darei uma passada em Buenos Aires.

/Son las novedades de Hispanoamérica/.

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  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post



terça-feira, 01 de março 2005

*Convite à leitura de Guimarães Rosa

Publicado em 1962, Primeiras Estórias
[link]>,
de Guimarães Rosa [link], é
ilustre: o livro é responsável por um ressurgimento, no português
brasileiro, da palavra “estória”, vocábulo de sentido intercambiável com “história” mas que, ao contrário deste, designa sempre “relato fictício, inventado”.

O relato número 6, A Terceira Margem do Rio
[link], está entre os contos mais canônicos da literatura brasileira. Em 1994 virou filme [link] de Nélson Pereira dos Santos. Já havia virado canção, numa parceria de Caetano Veloso e Mílton Nascimento, gravada por Bituca em 1990
[link]
e por Caetano em 1992 [link].


O conteúdo do relato é banal, como todos os conteúdos: um homem faz uma canoa e se exila no rio, vagando como as naves de loucos da Idade Média.
Não volta mais. O filho passa a acompanhá-lo à margem e, depois de mais de 10 anos, tenta tomar seu lugar. Recua com medo. O pai continua lá.
Fim da estória.

Narrado em primeira pessoa pelo filho, o efeito de “distância” criado
pelo texto é chave: o narrador fala do que parece não entender:/ aquilo que não havia, acontecia./ Esse efeito é reforçado pelo título
paradoxal, onde o substantivo, por definição, implode o numeral que lhe acompanha. Tudo é um pouco estranho. Naquela família,/ nossa mãe era quem regia/. Quando a canoa fica pronta, a mãe determina: /‘cê vai, ocê fique, você nunca volte’/. O filho pede, /‘Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?’/ e só a recebe a bênção. O filho entende que /‘ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio’./ O filho começa a levar comida ao pai. A mãe finge que não vê. A irmã se casa, a mãe não quer festa. Nasce o neto, levam-no ao rio e o pai / avô não aparece (se você conhece o interior do Brasil, sabe o que significa, na cultura sertaneja, um avô não aparecer para o batismo do neto!). O tempo passa e o narrador, já de cabelos brancos, propõe/ ‘Pai . . . eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!’/
O pai faz um gesto, o primeiro. O filho se arrepia e retrocede. O filho fica na dúvida: /‘sou homem, depois desse falimento?’/

O texto já foi interpretado como retrato da decadência dos laços
familiares no interior, parábola do paradoxo, instalação da castração
freudiana no sertão, inversão de papéis sexuais, crise da paternidade, alegoria da loucura, metafora de todos os lugares que não existem, imagem do desejo de escape, representação da paternidade como fardo e muito mais.

Se você é leitor do *Biscoito*, (re)leia a estória
[link] e papeie aqui com meus
alunos. Caso os alunos queiram reler e discutir Famigerado
[link] ou Famigerado [link]. Dia de Rosa no *Biscoito*.

*PS de atualização, 01h de Brasília:* Dada a brincadeira do fim de
semana com nomes próprios, identidades e vozes, eu ainda não tinha tido a oportunidade de registrar um agradecimento ao Departamento de Espanhol e Português [link] de Northwestern University [link], pelo o convite à
palestra da última sexta-feira, sobre a codificação do sentido de
nacionalidade no Mangue Beat [link].
Meu agradecimento especial a Lucille Kerr, Julio Prieto, Jorge Coronado e Yarí Pérez Marín, professores desse baita departamento. Há uns anos, o dept. de Northwestern era um deserto. Investiram e trouxeram Lucille Kerr [link]
- uma das maiores especialistas do planeta na obra de Manuel Puig
[link] - e ela trouxe, entre outros, meu amigo Julio Prieto, autor de Desencuadernados: vanguardias ex-céntricas en el Río de la Plata
[link],
Jorge Coronado, também já conhecido meu e agora Yarí Pérez Marín. O
departamento, claro, reviveu e vai de vento em popa. Havia umas 40
pessoas animadamente presentes até o fim da sessão de perguntas e
respostas, que durou um bocado. Até amigos que eu não esperava (Dr. Jan French!) apareceram para o evento. Valeu mesmo, espero que tenham
gostado. Axé babá.

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  Escrito por Idelber às 19:36 | link para este post




*Fragmentos de uma carta

*Fragmentos de uma carta aberta a Gerald Thomas sobre política cultural
e blogagem*

/Gerald dearest/: Como você sabe, eu fui ao seu blog dizer que eu achava absurda a alusão à "cultura que ele [Gilberto Gil] desmantelou dentro do Brasil".
[link] Há pelo menos três coisas a serem debatidas aqui:

1. se existia uma coisa chamada "cultura brasileira" quando Gil chegou ao MinC;

2. d'ela existir, se ela se alterou substancialmente neste prazo;

3. se essa alteração pode ser caracterizada como "desmantelamento";

/That's point number one/. Vai ser hiperbólico assim! Mas como um fã
irritado também fui dizer que havia deslinkado o seu blog, o que fiz por 24 horas, como protesto (já interrompido: viu como eu sou fácil, heheh).
Afinal de contas, atiçado pela sua afirmação, um de seus leitores fez a implícita (ou nem tanto) acusação de que Gil e Caetano foram
/responsáveis pelo suicídio de Torquato Neto/. Essa imbecilóide calúnia repousa na sua caixa de comentários [link]
sem que você tenha dito nada, Gerald. Isso não é legal. /That's freaking point number two/. Não teria sido o meu procedimento se tivesse acontecido no meu blog.

Mas aí você foi gentil e visitou o *Biscoito*, e é uma *honra*, porque eu sei que você não anda por aí comentando blogs. Eu entendo o que você quis dizer: os caminhos de financiamento ao teatro estão mais *fudidos* que nunca no MinC. /I don't doubt it, dear/. Se você diz que está, então é porque está. Entre New Orleans e BH, acompanho bem a música
brasileira, razoalvemente bem a literatura, o básico do cinema, mas
teatro realmente não dá para acompanhar. Por isso quando você diz que
toda a classe teatral acha o mesmo que você, bem, não sei, mas minha
tendência é duvidar, é me perguntar se isso realmente é verdade, se isso
inclui os mineiros Wilson Oliveira e Pedro Paulo Cava, se inclui o que
pensam os jovens dramaturgos, diretores e atores gaúchos, os novos
grupos de Curitiba, da Bahia. Não sei. Não importa. /I get the point/.
Está mal a coisa, /you're pissed off, theater can't get a break/. Os
leitores daqui sabem que minha opinião coincide
[link],
de que o governo é uma traição e uma decepção sim. Mas vociferar contra ministros como Gilberto Gil e Marina Silva, para dar dois exemplos bem diferentes, não adianta. Eles estão administrando miséria.

Mais inteligente seria ampliar o conceito de cultura brasileira para
além dessa esperança de financiamento. Outro dia vi, por exemplo, a
associação dos fotógrafos entregando documento de reivindicação ao GIl e um barbudão com a cara enraivada punha o dedo da cara do ministro, numa cena tensa. Para que isso? Mais e mais argumento corporativista.
Enquanto isso fecha-se questão *na cúpula do governo pela autonomia do Banco Central*. Ainda não combinaram com a totalidade do PT, é verdade,
mas na hora que precisarem empurrar a decisão goela abaixo do partido
eles terão os cães de guarda de sempre, os Genoínos, os Delúbios. É
preciso pensar mais alto, /set the bar higher/, lutar as batalhas que
realmente importam, Gerald.

Depois disso há a sua indignação pelo fato do MinC ter aberto pontos de
divulgação e preservação de cultura brasileira no exterior. Não está
provado, Gerald, que elas não ajudam a criar emprego no Brasil também.
Não está provado que elas não podem ser iniciativas interessantes com
repercussões internas. Eu leciono numa universidade
[link] que este ano escolheu dar a Gilberto Gil o
grau de *doutor honoris causa*. Acho justissímo e acho bacana o trabalho "apostólico", "global" de Gil como Ministro da Cultura meio embaixador.
Se isso tem feito que o MinC funcione mal é outra história. Mas num
mundo onde há tanta palhaçada [link], Gerald,
atacar o ministro Gil realmente não rankeia lá em cima nas minhas
prioridades. Não seria o caso de berrar que *a autonomia do Banco
Central ameaça estrangular o financiamento público à cultura*, ao invés
de dizer o que ministro Gil desmantelou a cultura? Se é para xingar,
vamos xingar direito. *Se é para levar ferro*, vamos pelo menos levar
ferro lutando contra nossos inimigos de verdade.

Agradeço sua visita, mas isso não é discussão que você resolva
remetendo-me ao seu currículo [link]. Por que
pressupor que o outro não conhece o seu currículo? Escrevo este post
precisamente *porque* o conheço; sei da importância de Gerald Thomas no teatro brasileiro. Eu não teria feito isto tudo aqui
[link] se não conhecesse
algo. Mas a questão é outra: você vocifera contra Gil e a cultura
*desmantelada* no Brasil e eu digo: que tal pensar a cultura fora do
paradigma do financiamento estatal ao teatro (que eu defendo, fique
dito). Que tal reformular seu conceito de cultura depois de um passeio pela blogosfera brasileira? Alguns dos pioneiros são
Nemo Nox [link],
Marina W [link],
Sérgio Faria [link],
Meg Guimarães [link],
Alexandre Inagaki [link].
Que tal sair desse *búá-buá-buá* corporativista? Nesses cinco lugares você terá idéias de como fazer um blog sem tomar uma notícia de duas linhas e vociferar contra ela.

Você não se lembra, com certeza, já que até se esqueceu de que eu
conheço seu currículo, mas na última vez que trocamos emails, na
campanha de John Kerry - ah, *esse doce sonho que compartilhamos com
outros bilhões, Gerald* - nós citávamos Nietzsche e a importância do *lá fora, *do pensamento arejado. É isso que lhe cobro. Será que os nossos mais talentosos artistas de vanguarda teatral estão condenados a isso, a vociferar contra um ministro impotente que não pode lhes financiar? É muita miséria. Se você quiser pensar juntos outras formas de inserção nesse debate, nessas lutas, aqui está o *Biscoito* à disposição. Se tiver um tempo de passar aqui de novo entre um ensaio e outro em NYC, deixe o seu alô que eu o colocarei aqui na telinha principal. Você é grande demais para caber em caixa de comentários. Se não, fica aqui o texto como semente de conversa futura com quem quiser conversar sobre esse tema. Love and axé, Idelber

*PS aos leitores*: se me lembro bem, Gerald estava em reta final de
ensaios em NYC e é possível que não possa - ou não queira - vir aqui
conversar sobre esses temas. Mas está valendo a caixa de comentários,
obviamente, para todos os leitores. É uma carta aberta.

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  Escrito por Idelber às 01:42 | link para este post