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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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quinta-feira, 31 de março 2005
Fenomenologia da Fumaça - Semana 7

(frase da semana, H.L. Mencken: I never smoked a cigarette until I was nine)
São 45 dias desde que parei de fumar.
Não posso começar esta sétima semana da fenomenologia falando de Svevo e do cigarro como metáfora da evanescência, ou da relação entre masculinidade e cigarro em Hollywood , sem mencionar um fato, que se desdobra em duas notícias: uma péssima e uma ótima.
A péssima notícia é que no último sábado, em meio a uma embriaguez que foi de única e exclusiva responsabilidade de uma certa advogada de olhos azuis que, no bar, comigo, torcia pelos vitoriosos Tar Heels da Universidade da Carolina do Norte nas semifinais do basquete universitário deste ano, eu fumei dois cigarros.
Isso foi só o começo do pecado.
Mas foi a única parte que me fez, no outro dia de manhã, sentir-me como um reles fracassado membro desta pobre raça de seres da periferia da via láctea. Desmoronei de tanto vomitar e passar mal, além de, pela primeira vez na vida, ter uma garganta inflamada não por infecção ou gripe mas por uma sujeirada cigárrica. Essa é a má notícia.
A absurdamente alegre notícia é: a fumada não provocou sensação de realização de nenhum desejo assim tão transcedental. De tarde, depois dos vômitos e do almoço, eu já estava bem, sem vontade de fumar e recuperado do piripaco que o cigarro produziu em meu organismo (com a exceção da minha garganta, que gastou mais 24 horas para sarar). Vão lá seis dias sem vontade de ir atrás de cigarros.
A partir dessa experiência não há como não notar uma diferença: em todas as minhas anteriores paradas, o cigarro que acontecia no bar era encarado como uma recaída. Daí em diante era a dialética do Svevo: acreditar que você está fumando um cigarro de livre e espontânea vontade é só uma desculpa para você acender o próximo. É aquela maravilhosa frase de Jim Jarmush (traduzo): A beleza da coisa é que, agora que eu parei, eu posso fumar um cigarro porque, afinal de contas, eu parei. Quando você cai na sedução desta frase, você já voltou a fumar.
Por isso o Biscoito se mantém alerta, não comemora nada, continua lendo Svevo, está tranqüilo e muito otimista com os últimos dias. Os planos para as próximas semanas da fenomenologia da fumaça são:
1) Uma análise do porquê de a Consciência de Zeno ser o cume do romance vanguardista. A hipótese é: a fumaça é a perfeita metáfora para aquilo que os modernistas buscam, ou seja, uma imagem que represente o efêmero, o evanescente.
2) Uma análise do lugar contraditório e absurdo do cigarro no existencialismo. Ao mesmo tempo em que, em O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre usa e abusa da metáfora da “fumaça” para descrever aquilo que não tem importância, que não tem concretude, que não tem realidade, que se dissolve, ele escreve todo o raio do livro fumando um cigarro atrás do outro. Ou seja, incoerentemente teoriza o inessencial-qua-fumaça enquanto a fumaça de seus cigarros confere ao livro seu alicerce mais essencial.
3) Uma análise da relação entre o cigarro e a morte do pai na cultura moderna.
4) Uma análise da relação entre o cigarro, a independência da mulher e a figura da femme fatale na cultura do século XX.
5) Uma análise da relação entre o cigarro, o pau e o falo na cultura inagurada por Freud (entendendo-se, claro, que no freudismo pau e falo não são a mesma coisa).
6) Uma crítica do discurso religioso, catequisador, californiano sobre a saúde, que pode parecer, meus amigos ex-fumantes, ser um discurso aliado neste momento, mas não o é, como o mostra este livro.
Em outras palavras: o blogueiro vai bem. Fumou dois cigarros na celebração esportiva, mas está otimista. Mas toda vigilância é pouca. Os próximos dois meses, de transição de New Orleans a Belo Horizonte, serão decisivos. Ainda não ouso, depois de 45 dias, enunciar a frase Parei de fumar. Poderei algum dia?
Escrito por Idelber às 22:15 | link para este post
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Drops de Agradecimentos e Planos
Vejam a equipe da pesada à qual eu devo gratidão: este blog não estaria celebrando sua mudança se não fosse o trabalho monumental de Fábio Sampaio, que converteu a barafunda uólica (a expressão é do poeta Inagaki) para formato padrão Movable Type. Se estamos aqui hoje, é graças ao Fábio. Agradeço a Nemo Nox pela confecção deste layout (que eu adorei) para o Biscoito e pela ajuda no começo do processo. Sou grato também a Rafael Galvão por incontáveis instâncias de ajuda com a compra de domínio, hospedagem e perguntas eventuais sobre o MT, a Tiagón pela ajuda no começo da trombada com a barafunda uólica, a Alexandre Cruz Almeida por todo o apoio no começo e até hoje, e a Tata pela interlocução sobre cores, desenhos e muito mais. Obrigado de coração.
O Decálogo de ontem rendeu assunto: Mauro Amaral, do Carreira Solo, fez um lindo selinho, para quem quiser colocar em seus blogs. Eu já embuti, no selinho, o permalink ao decálogo. Circulem à vontade:

Não passará inomeado Alexandre Lemos Avelar, 8 anos de idade, que ontem operou e pilotou a caixa de comentários de um blog pela primeira vez, sem problemas. Gostou do Movable Type. Laura, de 4 quase 5 anos, também andou lendo o blog, embora ainda não tenha pintado ainda na caixa de comentários.
Os posts mais antigos ainda não estão no formato correto (embora toda a informação esteja lá) e muitos ainda não estão catalogados nestes 8 ou 10 tópicos da esquerda. Pouco a pouco eu vou arrumando. Os comentários, bom, esses pode ser que sejam importáveis, pode ser que não. Como se lembram, o UOL tem um sistema louco, onde não se abre permalink nenhum, e os comentários estão lá num espaço-zinho virtual trancado. Há 2000 comentários lá no UOL, que eu eu adoraria trazer. Se valer a pena importar, a gente importa. Se não, paciência.
Próximos passos do blogueiro: trocar o IE pelo Firefox, fazer a licença da Creative Commons (sugestão aguda de Bibi) e comprar um microfonezinho para começar a podcast!
Um dos temas sobre os quais o Biscoito vai enfocar alguns posts nas próximas semanas é a história da Palestina desde o final da década de 1940. Por enquanto, eu queria deixar com todos os que lêem inglês esta sugestão de relato histórico sobre o assunto.
Escrito por Idelber às 00:41 | link para este post
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quarta-feira, 30 de março 2005
Decálogo dos Direitos do Blogueiro
10. Toda blogagem se dará em paz e exercitará a liberdade de expressão inerente a qualquer democracia. A blogagem estará a salvo de perseguição política, religiosa ou doutrinária de qualquer caráter. O blogueiro será livre para dizer o que lhe venha à telha, desde que, obviamente, não cometa com a linguagem crimes de calúnia ou plágio.
9. Todo blogueiro terá o direito de passar um dia sem blogar e não receber mensagens alarmistas, preocupadas ou encheção de saco. Os blogueiros serão poupados de receber emails com gritaria ou esbravejação em letras maiúsculas e, no caso de recebê-los, serão livres para exercitarem o direito de ignorá-los ou apagá-los.
8. Todas as blogueiras terão direito de blogar em próprio nome, em pseudônimo ou em heterônimo como lhes apraza, de forma exclusiva ou simultânea. Assim como todos os outros direitos nomeados aqui preferencialmente no feminino, este também se aplica, evidentemente, aos homens que possam, saibam ou ousem exercitá-lo.
7. Sendo publicitário, funcionário público, palhaço, vendedor de seguro, jogador de futebol, aeromoça, professor universitário, paquita, lixeiro ou desempregado nas horas vagas, o blogueiro tem direito de não ser importunado, agredido, chantageado ou ofendido por sua escolha ou necessidade profissional fora das horas de blogagem.
6. Todas as blogueiras terão direito de livre associação em quaisquer grupos, incluindo-se aí grupos com objetivos e programas contraditórios. Entender-se-á a blogagem sobretudo como um direito à coexistência bizarra, insólita e feliz de diferenças na internet. Na blogosfera haverá paz de se retribuir as visitas ao blogs de cada um na devida temporalidade baiana que deve reger as coisas, sem pressa, sem culpa e sem cobrança. Ao visitar o blog alheio o blogueiro também temperará o natural desejo da recíproca com semelhante tranqüilidade.
5. Toda blogueira estará livre de qualquer responsabilidade sobre afirmações feitas por outras pessoas em seu blog. Nenhuma blogueira poderá ser interpelada, processada ou censurada por ofensas ditas por outrem em seu blog. Caso alguma pessoa se sinta ofendida por algum comentário e reclame, a blogueira terá amplo tempo para decidir qual a atitude correta de anfitriã que exercita seus direitos de cidadã numa democracia onde àqueles correspondem, é claro, deveres também.
4. A todo blogueiro será garantido o direito de promover votações, concursos, citações, retrospectivas, autolinkagem ou reciclagem sem ser acusado de estar ficando sem assunto.
3. Todo blog terá liberdade absoluta de linkar, deslinkar e relinkar como lhe preze, entendendo-se que a linkagem é ato livre, unilateral e jamais significa, por si só, um endosso de conteúdo do site linkado. Todo blogueiro terá paz para ir linkando aqueles que o linkam ou não, na medida em que ele vá viciando-se em blogs.
2. Todo blogueiro terá o direito de exercitar periodicamente o direito de dizer abobrinhas sobre assuntos que não entende, de tal forma que os blogs de futebol serão apoiados quando resolvam falar de música e os blogs de economia contarão com a compreensão geral quando decidam falar sobre a composição do vinho. Mais bobagem que certas revistas semanais blog nenhum conseguirá dizer.
1. Todo blogueiro terá o direito de propor decálogos incompletos – eneálogos, na verdade – e solicitar ser completado, corrigido ou auxiliado pela caixa de comentários. Esqueci de alguma coisa? Sejam bem-vindos.
Escrito por Idelber às 02:26 | link para este post
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terça-feira, 29 de março 2005
Considerações sobre UOL, blogs e portais no dia da saída
Eu acho que eu já falei isso com vocês aqui no blog: mineiro não sai chutando a porta. Neste último post aqui queria agradecer a hospitalidade do UOL, apesar de seu enfurecedor e incompreensível verificador anti-spam. Se este blog conseguiu média de 500 comentários por mês com essas letras sob tortura, tudo indica que no novo pontocom temos condições de transformar o blog naquilo que eu gostaria mesmo: um foro de debate, discussão, democracia. Quanto ao UOL, eu continuarei pagando-lhes meus 18 reais mensais, já não para hospedar o blog, mas para acompanhar a Folha, apesar de eu estar lendo cada vez menos jornais e cada vez mais blogs. Sem querer, então, chutar a porta na saída, eu não posso me furtar uma pergunta: como é possível que o maior portal de conteúdo e acesso à Internet na América Latina possa operar hospedando milhares de blogs e ao mesmo tempo não ter a menor noção do que acontece na blogosfera brasileira de vida inteligente?
As dimensões do UOL são impressionantes:
Lançado em abril de 1996, o UOL provê acesso em mais de 2.200 localidades brasileiras e oferece também números locais de conexão em mais de 14 mil cidades no exterior. Tem hoje mais de 1,3 milhão de assinantes pagantes. Desde setembro de 1999, atua também como portal e provedor de acesso na Argentina. O UOL reúne o mais extenso conteúdo em língua portuguesa do mundo. Está organizado em 42 estações temáticas, com mais de mil diferentes canais de notícias, informação, entretenimento e serviços, somando mais de 7 milhões de páginas. Segundo o Ibope NetRatings, o UOL teve média de 7,130 milhões de visitantes únicos domiciliares mensais no Brasil em 2004, número que lhe dá a primeira posição no ranking dos maiores portais de conteúdo do país e representa cerca de 60% de alcance nesse mercado. Isso significa que de cada 10 pessoas que acessam a Internet a partir de casa, 6 visitam o UOL regularmente. Ainda segundo o Ibope, o UOL teve média mensal de 1,094 bilhão de páginas vistas em domicílios no Brasil no ano passado.
No entanto, a página de abertura dos blogs do UOL é uma seqüência de pisca-piscas adolescentes. Ficaram sem resposta todas as minhas tentativas de chamar atenção dos responsáveis pela área de blogs do UOL para alguns dos blogs de qualidade hospedados no portal, como os dos fantásticos poetas Mário Coivara ou Ana Peluso, esta recomeçando seu blog do zero depois de um trágico apagamento. Falo sem nenhum ressentimento: o Biscoito conquistou mais leitores mais rapidamente que eu jamais imaginava. Mas não deixou de me estranhar que muito depois de ser reconhecido por blogs como Por um Punhado de Pixels, Pensar Enlouquece e Liberal Libertário Libertino o Biscoito ainda não aparecia entre os top 100 blogs do UOL! Na mesma semana Alexandre Cruz Almeida havia dado uma entrevista ao Estadão dizendo que o Biscoito era um dos cinco melhores blogs em língua portuguesa. Quando lhe agradeci disse que, sem falsa modéstia, eu achava que ainda não havia chegado lá (top 15 talvez, top 5 não). Mas que algo estava errado com os motorzinhos do UOL se a gente não aparecia entre os cem melhores blogs do portal.
Ao longo da convivência, ficou óbvio para mim que o UOL entende os blogs como fofoca internética e não tem uma boa compreensão do que a blogosfera já realizou em língua portuguesa. Falta compreensão do que se poderia realizar se um portal como o UOL investisse, aperfeiçoasse, assessorasse os blogs nele hospedados, com atenção especial aos blogs de qualidade, onde há pessoas escrevendo com um pouco mais de reflexão, seja poesia, seja jornalismo, seja o que for. Parece que o UOL, mesmo sendo um gigantesco hóspede de blogs, ainda demorará um tempo para perceber o potencial da blogosfera. Fábio Sampaio, super professional responsável por minha transição ao pontocom, explica que o sistema do UOL é um desafio pela quantidade de nonsense colocado nele. Todos os profissionais que conhecem de programação parecem concordar que o sistema é um monstrengo. Falando como blogueiro, posso garantir que é das coisas menos amigáveis com o usuário que já experimentei. Os dados mostram que por mais que a blogosfera haja crescido, ainda há um descompasso: para o maior portal de internet da América Latina, os blogs ainda são uma coleção de banais confissões pisca-pisca. Poderíamos tirar deste fato algumas conclusões?
Contagem regressiva ao ponto com: UM (na manhã desta quarta-feira postaremos aqui o link à nova casa, onde estará lhes esperando um novo post).
Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post
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segunda-feira, 28 de março 2005
Prolegômenos esportivos a um post sobre duas mulheres
Eu estou preparando um post em homenagem a duas mulheres. Ainda não é este. São duas mulheres que eu aprendi a chamar pelo primeiro nome. Não é lindo isso, leitor, aprender, ao longo dos anos, a chamar alguém pelo primeiro nome? Ambas são doutoras, mas hoje para mim elas já são Cat e Beth. Dra. Cat reside em New Orleans e Dra. Beth reside em Belo Horizonte. Cat é minha advogada e Beth é minha analista (de linha freudo-lacaniana). Como é que fui mexer com advogada e com analista? Aguardem os próximos capítulos do Biscoito. Por enquanto, isto: sem mais elementos para embasar-me, eu as escolhi porque eram mulheres. E foi um sucesso.
Maravilhosa cervejada e comemoração da vitória: Quando os compatriotas brasileiros chegam aos EUA eu gosto de apresentar-lhes um evento que é genuína cultura popular estadunidense bacana – o campeonato nacional de basquete universitário, os NCAA’s . Trata-se de uma competição que tem lugar no coração das pessoas, entre as universidades nas quais elas estudaram. Sobre a escola para eu qual eu torço, cabe uma palavra. A Universidade da Carolina do Norte, pública, foi fundada em 1789. Escola de Michael Jordan, poderosa no basquete, teve no leme durante décadas Dean Smith, baixinho branquelo genial, responsável por inter-raciais sit-ins (manifestações em restaurantes) importantes na derrocada do racismo nos anos 60. A UNC é também respeitada por graduar todos os seus jogadores-alunos, sem babaquices ou falcatruas. Os torcedores da legendária UNC (que andava em baixa desde a aposentadoria de Dean) estamos comemorando a sensacional campanha deste ano. Na celebração da ida às semifinais neste domingo, o blogueiro descobriu que há uma legião de torcedores (ex-alunos) da UNC em Nova Orleans, incluindo umas belas advogadas de olhos azuis. Os NCAAs são o que a cultura esportiva dos Estados Unidos tem de melhor: mulherada ouriçada no sports bar, cervejinha gelada, high-fives. No próximo sábado tem mais. Por falar em esportes, saudações aos blogs atleticanos Martelo, Sarapalha, e Mineiras, Uai (power trio que inclui uma torcedora do ex-Ipiringa). O Biscoito decreta: a blogosfera belo-horizontina é mais atleticana que o Café Nice da Afonso Pena.
Para os leitores que chegam agora: eu escrevo sobre literatura. O primeiro livro, sobre narrativa latino-americana, pós-ditadura e luto, saiu em inglês, espanhol e no Brasil ficou assim. O segundo, sobre violência, fuçável online, é este aqui. Eu gosto de dar pitacos sobre música, já escrevi sobre a música de Minas Gerais, metálica e clubedaesquínica. Sobre política, eu digo, com revolta, isto, com paciência, isto, sem paciência, isto.
Nesta transição ao pontocom, eu devo agradecimentos a cinco seres humanos de generosidade infinita. Aos prezados e à linda, gratidão muy mucha. A casa está ficando chique que vocês nem imaginam. Aproveitem as letrinhas do sistema anti-spam do UOL enquanto é tempo. Contagem regressiva para a nova, maravilhosa casa, abençoada por cobras criadas: DOIS
Escrito por Idelber às 01:21 | link para este post
domingo, 27 de março 2005
Alejandra Pizarnik
(traduções minhas, originais aqui)
1
Dei o salto de mim à aurora
Deixei meu corpo junto à luz
e cantei a tristeza do que nasce
6
ela se desnuda no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
13
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
37
mais além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência
Os Trabalhos e as Noites
para reconhecer na sede meu emblema
para significar o único sonho
para não sustentar-me nunca de novo no amor
fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos
para dizer a palavra inocente.
Escrito por Idelber às 02:07 | link para este post
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sábado, 26 de março 2005
Feliz Aniversário Galo
O Clube Atlético Mineiro foi fundado, ao contrário de todos os outros grandes times do Brasil, não por desportistas de elite, mas por 22 meninos que mataram aula. Ao contrário de todos os outros grandes times do Brasil, o Galo já era, na década de 1910, um time de negros e mulatos, numa época em que o futebol brasileiro ainda era segregado. Disso nós muito nos orgulhamos.
O Galo é pioneiro em tudo:
primeiro campeão da cidade de BH (1908)
primeiro campeão do estado de MG (1915)
primeiro campeão de um torneio inter-estadual brasileiro (Campeão dos Campeões do Brasil, 1936)
primeiro time brasileiro a excursionar vitoriosamente pela Europa (1950)
primeiro e único clube de futebol do mundo a derrotar a seleção brasileira de futebol (1969)
primeiro campeão brasileiro de futebol (1971)
primeiro campeão da Copa Sul-Americana Conmebol (1992)
Parabéns ao Galo, por 97 anos de glórias. Este post será atualizado a cada 10 minutos com impressões sobre o clássico deste sábado, entre o Galo e o ex-Ipiranga, pelas semifinais do campeonato mineiro.
10 minutos de jogo: como sempre, a massa é maioria no Mineirão (mesmo pela televisão dá prá ver). O Galo já teve uma chance e Fred, do ex-Ipiranga, já recebeu amarelo por jogo violento. 12 minutos: quase gol do Galo, em finalização de Fábio Jr. 17 minutos: bate-rebate na área do ex-Ipiranga. Galo domina o jogo. Massa enlouquecida. 20 minutos: ex-Ipiranga equilibra o jogo e ganha escanteio. 26 minutos: o Galo mete uma bola na trave!! Mais um cartão amarelo para o ex-Ipiranga (Batatais). 28 minutos: Fred, do ex-Ipiranga, perde um gol na cara. Jogo sensacional no Mineirão. O ex-Ipiranga usa o toque mais miúdo, o Galo joga mais em velocidade. 32 minutos: amarelos para Fabio Jr., do Galo e Dracena, do ex-Ipiranga, por bate-boca. Jogo tenso na Pampulha. 35 minutos: sai Edson e entra o garoto Quirino no Galo. 37 minutos: falta contra o Galo, batida prá fora. Ex-Ipiranga volta a equilibrar o jogo. 39 minutos: falta contra o Galo, que começa a tomar sufoco. 46 minutos: Galo, no contra-golpe, quase marca. Empate é justo neste primeiro tempo.
Segundo tempo, 4 minutos: Zagueiro Adriano, do Galo, se machuca seriamente e sai chorando muito. Entra Henrique. 10 minutos: escanteio para o Galo. Massa em polvorosa. 13 minutos: Renato perde gol feito para o Galo. Sai Renato contundido. Galo queima a última substituição, entra Leandro Smith. Muito azar. 17 minutos: desvio na barreira e gol do ex-Ipiranga. Melda. Galo perde por 1 x 0. 23 minutos: ex-Ipiranga trunca o jogo e o Galo, sem 4 titulares, não reagiu ainda. 27 minutos: ex-Ipiranga mete bola no travessão. Jogo fica muito complicado para o Galo. 38 minutos: Galo mete bola na trave! 44 minutos: Fábio Jr. é expulso. A coisa fica muito feia. Termina o jogo, 1 x 0 ex-Ipiranga. O Galo precisa de uma vitória por 2 gols de diferença na próxima semana em Ipatinga. Não é o fim do mundo. Já saiu de buracos maiores.
Escrito por Idelber às 12:47 | link para este post
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Sobre encontros de blogueiros, subsídios, comentários e esportes
Sobre encontros de blogueiros: dezenas deixaram recados animados com possíveis encontros de blogueiros. Mantenhamos viva a idéia de vários pequenos encontros nas principais cidades brasileiras. Já de antemão, convido meus amigos blogueiros belo-horizontinos a uma cervejinha no Mercado no primeiro fim de semana de junho e os blogueiros paulistanos a uma cervejinha no domingão 19 de junho, quando estarei em Sampa caminho a Araraquara.
Sobre subsídios: como um representante da Prefeitura de Belo Horizonte abertamente nos ofereceu canais de conversação, eu gostaria de esclarecer: 1) eu moro no exterior desde 1990 e não aceito dinheiro público para qualquer tipo de evento e não preciso dele; 2) no Biscoito os blogueiros terão sempre o espaço para se organizarem e planejarem reuniões sem serem importunados por pessoas cuja especialidade é vociferar em blogs contra leis de incentivo à cultura; 3) no Biscoito qualquer representante do poder público – fazendo o seu papel de profissional – que quiser nos oferecer interlocução, ajuda ou esclarecimento sobre como algum possível evento blogueiro pode receber apoio terá a paz para fazê-lo sem ser importunado por pessoas cuja especialidade é vociferar contra as leis de incentivo à cultura. Então só para esclarecer: eu não quero subsídio nenhum. Ganho mais que suficiente. Mas o espaço do Biscoito para que vocês se organizem e apresentem o projeto à prefeitura de Belo Horizonte sem serem importunados continuará aberto. Quaisquer comentários questionando seu direito de fazê-lo, ou obstaculizando-o de qualquer forma, serão sumariamente apagados. Quem quiser vociferar contra o incentivo estatal à cultura, procure outro blog. Quem quiser discutir se ele deve ou não existir, também. Essa discussão é considerada superada pelo Biscoito, porque o blogueiro que o confecciona lê sobre política cultural há tempos e não está disposto a ter discussão tão básica como “deve ou não deve haver apoio estatal à cultura". Há outros blogs para essa discussão pedestre, que ignora o fato de que jamais houve estado digno do nome que não apoiasse ou subsidiasse, de alguma maneira, sua cultura. Discutiremos política cultural no Biscoito, mas não nesse nível.
Sobre os comentários: o apagamento de um comentário que nos atacava por conversar sobre a apresentação de um projeto a uma prefeitura me leva a divulgar-lhes umas estatísticas. O Biscoito existe mesmo desde novembro. Em quatro meses foram deixados aqui 1964 comentários e somente 4 foram apagados. Está bastante razoável. Considerando como as discussões fervem e se defendem posturas polêmicas aqui, estão todos de parabéns pela civilidade.
Sobre o critério que rege a brincadeira: dos 4 comentários apagados ao longo da história do Biscoito, um foi essa agressão recente à iniciativa coletiva, 2 continham calúnias contra mim e o outro foi por uso deselegante das maiúsculas. Das 2 calúnias, uma era a acusação de que eu teria estudado nos EUA com dinheiro público (sempre ele, habitando as fantasias dos ressentidos) e o seu autor se retratou por email. A outra era de que eu criticava o governo porque algum dia teria tentado entrar ao estado por concurso e não teria conseguido (vou lhe contar, tem louco para tudo). Acusação assim, dessas malucas, eu decidi que não aceitaria. Tem que pôr uns limites, não é, meninas? Todos os que tiveram comentários apagados aqui terminaram convertendo-se em leitores regulares, o que prova que a casa não deixa de ser hospitaleira e pedagógica :)
PS, Futebol: o Clube Atlético Mineiro celebra hoje 97 anos. Neste sábado às 16h o Galo enfrenta o ex-Ipiranga, tentando a incrível marca de cinco tamancadas consecutivas.
PS, Basquete: a única época em que o basquete toma a dianteira no meu coração é durante as finais do campeonato estadunidense universitário (nos sonolentos profissionais da NBA não vejo a menor graça). Nesta sexta à noite, a minha alma mater sobreviveu às oitavas-de-final num jogaço.
Contagem regressiva para o pontocom: TRÊS
Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post
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quarta-feira, 23 de março 2005
Como se organiza um encontro de blogueiros
A viagem para o Brasil me fez pensar na idéia de que seria bacana
participar de um ou vários encontros de blogueiros. Quem topa? Eu já
adianto: não tenho condições de organizar. Mas lanço a idéia e se alguém se dispõe a tomar a dianteira, eu ajudo.
Eu tenho alguma experiência na organização de encontros de acadêmicos
financiados por agências de fomento, mas é óbvio que essa experiência
não me serve: nenhuma dessas agências acadêmicas financiaria um encontro de blogueiros (blogueiros? o que é isso? nos diriam). Mas é claro que se pode fazer uma versão barata e light sem financiamento externo nenhum, só na base da vaquinha e dos gastos pessoais mesmo.
Por mim, o encontro seria no Rio de Janeiro, mas em Sampa também eu
estaria feliz da vida. Pode se fazer dois encontros, claro. A idéia de Biajoni é realizar um encontro de blogueiros num lugar chamado Santana do Jacaré, que fica no meu estado, em Minas Gerais, não me perguntem onde, porque o blogueiro é de BH, não vai ao mato nunca e não se interessa por lugares onde não haja pelos menos 300.000 outros seres humanos ao redor.
Mas talvez seja interessante fazer o encontro no meio do mato, quem
sabe. Eu opinava a Bia e a Rafael Galvão que devia haver acesso à internet sem fio, para que pudéssemos blogar o evento ao vivo – se não serviço “wireless”,pelo menos uma boa seleção de internets café na cidade teria que haver. Atendo-se a um modelo hollywoodiano, Bia preferia “tirar os blogs do ar” durante 3 dias, “fazer suspense” durante o encontro e voltar com novidades.
Eu acho isso abominável. Você que é blogless, leitor, não preferiria um encontro de blogueiros blogado ao vivo? Você ficaria três dias sem blog? Eu já nem me lembro de como era a vida antes de eu ler blogs todos os dias.
No caso de haver encontro, podemos fazer desde uma pequena reunião até um balacobaco coberto pela imprensa grande e alternativa , por que não?. No mínimo, pode ser um espaço para discutir questões que nos afetam a todos, blogueiros e usuarios da internet em geral. Entre os leitores que estão mexendo com blogs há mais tempo que eu, alguém sabe se já se fez algo assim no Brasil? Quem faria uma viagem de carro, ônibus ou avião para participar de um encontro de blogueiros sem temer haver *enlouquecido completamente*?
PS 1: Clico daqui, clico dacolá, chego na página do tal Sr. Olavo de
Carvalho (não, não linko não). A primeira frase do texto cometido por
esse sr. era: Repetidamente um fenômeno tem chamado a atenção de
professores estrangeiros que vêem [sic] lecionar no Brasil: por que nossas crianças estão entre as mais inteligentes do mundo e nossos universitários entre os mais burros? Quais professores? Ele não diz. Cita alguém? Não. Alguma pesquisa? Não. Quando, onde, como? Tampouco. Quem diz que os universitários brasileiros estão ‘entre os mais burros’? Ele, porque tirou da própria cabeça. Essa criatura já deu aula em alguma universidade de primeiro, de segundo, de terceiro ou de quarto mundo que lhe desse termo de comparação para enlamear os universitários brasileiros? Não. Já escreveu alguma coisa reconhecida fora de wundergrupelhos brasileiros de seguidores de direita? Não. No entanto, o Globo empresta suas páginas para que essa anta insulte os outros a torto e a direito. Um fanático de extrema-direita que não sabe nem mesmo a diferença entre a conjugação do verbo "vir"e a do verbo "ver" se dá o direito de insultar os universitários brasileiros e declarar que Mário de Andrade foi um "importador de novidade cultural". Esse é o infeliz que uma meia dúzia na nossa blogosfera leva a sério. É a última vez que escrevo o nome desse arremedo de intelectual no meu blog. Para lúcidas desmontagens das palhaçadas desse sr., acompanhe o Smart Shade of Blue. Falemos do nosso encontro que dá mais certo.
PS 2: Contagem regressiva para o pontocom: CINCO.
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Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post
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terça-feira, 22 de março 2005
Fenomenologia da Fumaça, Semana 6 - Esses fumantes incríveis e suas citações maravilhosas
Três citações. A primeira pró-tabagista, a segunda anti-tabagista, a
terceira aterrorizante.
Respondeu uma vez Groucho Marx, quando perguntado sobre ter que escolher entre sua esposa e o tabaco: seremos bons amigos!
Disse uma vez Arturo Toscanini: Beijei a primeira garota e fumei meu primeiro cigarro no mesmo dia. Desde então não tive tempo para
cigarros. Esperto o Toscanini, vai dizer?
Mas a mais incrível é de Buck Henry: Eu parei de fumar há alguns anos para demonstrar minha força de vontade, protestar contra o aumento grotesco nos impostos sobre o cigarro e porque meu lábio inferior caiu. Se eu sinto falta do cigarro? Honestamente? Mais do que do lábio que caiu!
Este blogueiro completa 40 dias sem fumaça e saúda a volta do fantástico Tabagista Anônimo, link que nos chega via Cigarro e Silêncio.
Continuo lendo o extraordinário Consciência de Zeno, o romance modernista fundamental de Italo Svevo sobre o(s) último(s) cigarro(s).
É lindo demais escutar Nora Ney cantando De Cigarro em Cigarro.
PS: Acabo de confirmar passagem para terra brasilis!! Chego a Belo Horizonte dia 28 de maio. Saravá pão-de-queijo! Veja bem como são os bons fluidos em volta da gente: telefono para a American Airlines para comprar a passagem mais complicada da minha vida. Descubro que tenho direito a uma passagem grátis por milhagem. É mole? Iu-hu!!! A primeira viagem dentro do Brasil será dia 20 de junho, a Araraquara, para uma reunião de especialistas na obra de Jacques Derrida. Dizem que há blogueiros que lá irão, apimentar o encontro. Muito se pode dizer sobre a relação entre a desconstrução, o pensamento de Jacques Derrida, e a fumaça: o evanescente, o intangível, o que se queima e se mistura no ar. Já falaremos mais disso. No dia 29 de junho, festa em BH, lembrança definitiva de porque parei de fumar: sexto aniversário da mulher mais importante da minha vida, Laura.
Escrito por Idelber às 17:21 | link para este post
Linkar também é cultura - Women's Day
Nos arquivos de Marina W – pioneira da blogosfera, é bom avisar, já que quem acaba de chegar muitas vezes não sabe – descubro que depois do 11 de setembro tanto Madonna como Woody Allen deram respostas lúcidas, tranqüilas. Parece que foi há um século e o pesadelo político só piora. Gosto de passear pelo blog de Marina W: sucinto, pungente. Foi via Marina W que cheguei nesta singeleza.
No post de 19 de março do Kit Básico da Mulher Moderna, a autópsia feminina de três figuras: o marido indiferente, a esposa frustrada, o confidente masculino internético “compreensivo”, cuja “compreensão”, claro, é só um trampolim para que ele se sinta virtuoso consigo mesmo. Eu sempre gostei de literatura erótica e sabia, quando comecei a blogar, que encontraria blogs de contística erótica. Não sabia que eles iriam ser desta qualidade.
Para quem ainda acha que Aécio Neves é um bom mocinho, a Dra. Cynthia
Semíramis tem treze links. Dra. Cynthia é, sabe-se, pesquisadora de questões relativas ao direito e à internet, e é co-autora do Manual de sobrevivência na selva de bits.
Lucia do Frankamente conta a história da sua relação com o desejo de lombada. Não resisti e, na caixa de comentários, contei a história de Adolfo Couve, grande escritor chileno que se suicidou no dia da posse de Pinochet no Senado. Couve teve seu último romance rejeitado por “falta de lombada” – só tinha 13 páginas (treze, acredita, Sheila?).
A respeito do valor da mobilização na política Monicomio colocou tantas questões que eu não teria como responder sem fazer outro longo post. Digamos que, em minha opinião, a pergunta de Mônica sobre qual é *essa tal mobilização para se cobrar do governo *deixa bem a desnudo os limites do que pode realizar agora, no Brasil, uma estratégia de bem-comportado "cobrador" do governo. Com a palavra, os defensores de tal estratégia. Sobre o voto nulo, a contribuição impagável foi a de Lucia Malla, com a história dos mosquitos de Vila Velha.
Definição feminina implacável: festa é o que acontece entre horas no espelho e aliviar os pés do sapato apertado. Roubei de Ticcia e Rô. Boa como essa, só a definição de casamento de Lucia Villa Real: Casamento é igual piscina gelada. Depois que o primeiro tonto entra, ele fica gritando para os outros: ‘pula que a água está boa!”
Na área de reflexão acadêmica brasileira sobre os blogs, são as mulheres que realizam a maioria dos trabalhos pioneiros: Suzana sobre o potencial educacional dos blogs, Elisa sobre a etnografia, digamos, dos blogs, a Isabel sobre as relações afetivas na net.
Ah! Conheça o trabalho de outras pioneiras da blogosfera nacional aqui, aqui e aqui também, viu? Pronto. Fiz o post que queria fazer em homenagem a *algumas dessas blogueiras e seus blogs maravilhosos. E pensar que, quando comecei, considerei a possibilidade de fazer o blog em inglês. Onde eu andava com a cabeça?
Contagem regressiva para o pontocom: SEIS
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Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post
segunda-feira, 21 de março 2005
Momento confessional do blog, e respirada na discussão do voto nulo,
Se alguém me dissesse há seis meses atrás que a inteligência mais aguda que eu encontraria na blogosfera nacional seria um *publicitário governista, que além de tudo seria um baiano que escolheu morar em Sergipe, eu teria desistido da vida de blogueiro antes de iniciá-la. Mas vejam vocês quão pouco dizem os rótulos. Sobre a bela resposta que ofereceu Rafael à minha provocação sobre o voto nulo, há que se dizer mais uma coisa, não dita em meu último post: que um stalinista baiano radicado em Sergipe não pode fazer piada de barbudinhos trotskistas! Quando fala em “barbudo” será que Rafa está pensando em Trotsky, em mim ou na Heloísa Helena?
Primeiro problema: 21 de março, o blogueiro tem compromisso de estar no Brasil 25 de maio e a passagem não está comprada. Não está porque eu não sabia se o plano era voltar para dar aula em janeiro (o sabático de set-dez, além das férias de mai-ago, estão garantidos) ou se era voltar em outubro. Por que voltar em outubro se só tenho que dar aula aqui em janeiro? Porque aí eu sairia daqui de Nova Orleans em direção a Santiago, para dar o curso que me comprometi dar lá em outubro, ao invés de sair de BH. E por que teria que dar essa volta? Porque, apesar de já poder acrescentar à cidadania brasileira a americana quando quiser, já que meu green card tem mais de 5 anos, eu não posso passar mais de 6 meses fora dos EUA de uma vez, se não quiser ter que começar a contar os 5 anos para a cidadania todos do novo. Então tenho que tomar um avião em
BH, indo para Santiago via New Orleans. É mole? A passagem é New Orleans - BH (maio) – BH – Buenos Aires – (em agosto, por 5 dias) – BH - New Orleans (outubro) - Santiago –-BH – New Orleans (em janeiro). Por onde eu começo a explicar à agente de viagem o que eu preciso?
Segundo problema: Nesses oito picotados meses que estarei em BH, o plano é escrever o livro sobre música brasileira. Mas o livro que eu terei que estar escrevendo caso receba uma das bolsas que pedi é sobre coisa mais chata (ensaísmo latino-americano). As bolsas que pedi me permitiriam estar em BH sem dar aulas não só de maio até janeiro / 2006, mas até agosto / 2006 (sim, é verdade, este blogueiro começa a comer alguns filés, mas acreditem, ralei muito prá chegar neles). Como estou começando a empacotar a casa aqui em New Orleans, tenho que escolher quais livros ponho num galpão e quais empacoto para enviar ao Brasil. Minha biblioteca aqui anda por volta de 5.000 volumes. O blogueiro está em pânico. Tenho que decidir qual será a minha biblioteca do próximo ano, porque no meu AP em BH ainda quase não há livros. Estou seriamente tentado a chutar o balde com o tema enviado às agências de fomento, estocar os livros de ensaísmo hispano aqui, mandar só livros legais ao Brasil (incluindo toda a minha coleção sobre música) e, caso saia alguma das bolsas para 2006, simplesmente dizer à agência: olha, vocês demoraram três anos para financiar essa porra, quando resolveram já era tarde, agora só me interessa Jorge Ben Jor. Não escrevo o livro sobre ensaísmo hispano, escrevo o livro sobre música brazuca e ponto. Acho que já ganhei esse direito, sinceramente. Ao enviar os livros a BH será que envio dicionários ou não? Envio romances em francês ou não? Que livros de filosofia envio? Arre, odeio essas decisões.
Vencedor do sorteio da caixinha de discos: Na votação realizada aqui no Biscoito, dos melhores discos da música brasileira popular, eu prometi sortear uma caixinha de CD-Rs. Hoje coloquei os nomes dos 50 eleitores numa cartolinha e tirei. O vencedor foi o blogueiro Guto . Parabéns, Guto e confirme por favor por email qual o seu endereço postal para que eu possa lhe mandar a caixinha. Obrigado a todos os que participaram.
Fenomenologia da Fumaça, semana 6: memória ainda meio ruim, tropeços generalizados, leitura ainda fraca, mas nenhum único cigarro. Estou próximo de bater meu record.
Futebol: o grande especialista é Ubiratan, mas ele previu Santos. Este blogueiro entende 1% do que entende Bira, mas suspeitava que num campeonato de pontos corridos daria o São Paulo de Leão. Parece que acertei. O Tricolor está bem à frente a seis rodadas do final. Ano passado acertei escandalosamente em quase todos os palpites. Vamos ver este ano. Meu Galo vai muito mal. Bira, traidor, previu Cruzeiro. No Rio minha previsão ainda é Botafogo. Bira previu Vasco, que já está quase fora
Campanhas: o Biscoito apóia o fim do voto obrigatório. E lança outra campanha possível para o Brasil: não deixe o presidente falar de improviso!
Contagem regressiva para o pontocom: SETE.
Escrito por Idelber às 13:58 | link para este post
POLÍTICA E DESENCANTO
Há 72 horas eu deixei aqui uma pergunta, não mais que uma pergunta -
acompanhada de um raciocínio no condicional em sua defesa. Era a pergunta pelo voto nulo: a besta, a chutada de balde, a mandada à merda, a “alienação” , “niilismo”. Já recebi quase uma centena de respostas. Clóvis Rossi, da Folha, me diz por email: sou contra voto nulo. Seria mais útil que os blogueiros se organizassem para criar/reformar/revolucionar um partido político e com ele disputar a eleição para mudar. Voto nulo não muda rigorosamente nada. abs. Sempre gentil é o Clóvis, mas eu lhe respondi que, depois de 22 anos de PT (9 aí realmente envolvido, 13 aqui nos EUA), eu não tenho saco, e quem entre vós já passou 20 anos construindo um partido que tenha virado o que o PT virou, ora bolas, que atire a primeira pedra. É como disse a leitora Gin , patrulhe quem quiser - não é o caso de Clóvis, claro, nem de *quase nenhum* dos leitores que se manifestaram aqui, mas o tema voto nulo ativa uma legião de patrulhadores. Eu não sei se votarei nulo em 2006, mas pedra nos que votarem este *Biscoito* não atirará. Bem vindos aqui sempre serão os discípulos de Bakunin. Há anos eu venho escrevendo sobre a necessidade de se *criar um lugar para o afeto na política* e os que se expressaram aqui simpáticos ao voto nulo manifestaram *afetividade* que está faltando, em geral, nas discussões políticas que ouço por aí. Eu acredito nos blogs como resgate dessa afetividade.
Tony Pereira passou por aqui e disse que (traduzo) é impossível saber o impacto que isso poderia ter. Essa impossibilidade de se prever o resultado do ato político é sempre chave para mim. Por isso não aceito a pergunta “o que conseguiríamos com isso?” Ora bolas, se o soubéssemos já não valeria a pena experimentá-lo. A pergunta teleológica antecipando-se à ação nunca me atraiu. Mas também tem razão Tony ao dizer que a história do abstencionismo na esquerda não nos autoriza a ser muito otimistas. Smart [link] levanta um lado interessante, o referendo e o plebiscito como instrumentos de intervenção política. Como afirmei na resposta a um leitor: este blog acredita na conjunção E, em fazer uma coisa E outra. Lançar um par de plebiscitos que confrontassem o petismo com suas traições históricas não seria má idéia. |