A cada 15 dias, sempre numa quarta-feira, meus alunos de pós-graduação
são convidados aqui no blog para uma discussão literária; os leitores
regulares são mais que bem-vindos no papo. Acabamos ensinando e
aprendendo todos. Hoje vamos falar de Clarice Lispector
[link](1920-77), especificamente de seu primeiro volume de contos, *Laços de Família* (1960). Proponho que leiamos Amor [link] e Uma
Galinha [link]. Também está na roda Os Laços de Família
[link].
A maior escritora brasileira do século XX, sabe-se, não é brasileira:
seu primeiro nome foi Haia (/vida/, em hebraico). Essa ucraniana-carioca lapidaria uma frase absolutamente singular na língua portuguesa, cheia de cortes abruptos e imagens estranhas: /um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. /Fica claro, mesmo para o
leitor que acaba de chegar ao relato, que se trata de um texto que
tateia, tentacular, tentando descrever uma *experiência*. Qual sua
natureza? Trata-se de experiência que se tornou automatizada, reificada:
*numbed*, diríamos ou *entumecida*, em espanhol. É aquela experiência já
invivível, de onde não se aprende nada, não saem relatos: /sua juventude
anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida . . . de manhã
acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis
empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos . . E alimentava
anonimamente a vida/. O pano de fundo é, invariavelmente, esse: o eterno
retorno do sempre-igual, a vida convertida em ditadura bruta da repetição.
* *
O que é um relato de Clarice, então? É a narração daquele fugaz momento
onde *irrompe algo *que subverte essa mesmice. É o pipocar de uma
*imagem, *um *relampejo* que atravessa o sujeito *oferecendo um
vislumbre do que seria um mundo redimido*. Isso nunca se realiza por
completo, claro, porque senão não haveria graça. É sempre um piscar, um
acontecer fugaz: relampejo puramente epifânico, mas ali, naquele
momento, como sabem as mulheres, joga-se tudo. Podemos até despencar de
volta ao reino do eternamente-idêntico no final, mas as estruturas da
experiência já terão sido abaladas.
É só isso o que ocorre no conto Amor
[link]: Ana, mãe comum e
corrente (/filhos bons . . . cresciam tomavam banho/) / /toma um bonde
rumo a Humaitá. O choque da imagem que se lhe interpõe (/o cego mascava
chicletes/) desorienta a personagem e desarma a estrutura frasal do
conto, que começa a ser narrado em discurso indireto livre e passa a
“entrar” na cabeça da personagem. Ela erra a parada de coletivo, vai
saltar no Jardim Botânico. A imagem singular do cego com chicletes
provoca uma revoltosa, um rearranjo completo na experiência: /ela
apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse .
. . a vastidão parecia acalmá-la, o silênco regulava sua respiração. Ela
adormecia dentro de si. /
O que “acontece” no conto, ao fim e ao cabo? Nada, se excetuarmos o fato
de que o cego a leva a um mundo /faiscante, sombrio, onde
vitórias-régias boiavam monstruosas/ . . . ela /amava o cego, pensou com
os olhos molhados/ já de volta à casa com a empregada, marido, filhos,
experiência que já ameaça reificar-se de novo. Na medida em que se
ajusta, fica a dúvida: /o que o cego desencadeara caberia nos seus dias?
/Para finalizar o ciclo, uma trombada no marido e o retorno a uma
normalidade que jamais será a mesma. Impactou-llhes, esse conto? Alguma
leitura alternativa ou em diálogo com a proposta aqui?
Convido-lhes também a dizerem sobre Uma Galinha
[link]: qual é a chave, o
encanto deste conto? Sem dúvida, tem que ver com a questão do ponto de
vista em que se relata a história. Exploremos isso. Por curiosidade,
será que algum dos meus amigos cinéfilos [link] pode
confirmar a informação de que a abertura de *Cidade de Deus,* o filme de
Fernando Meirelles, é inspirada nesse conto de Clarice? Não vejo como
não possa ser. Parece-me tão óbvio que custa-me crer que alguém já não
tenha o dito por escrito. De qualquer forma, fica o convite a uma
conversa sobre os dois contos.* *
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