Publicado em 1962, Primeiras Estórias
[link]>,
de Guimarães Rosa [link], é
ilustre: o livro é responsável por um ressurgimento, no português
brasileiro, da palavra “estória”, vocábulo de sentido intercambiável com “história” mas que, ao contrário deste, designa sempre “relato fictício, inventado”.
O relato número 6, A Terceira Margem do Rio
[link], está entre os contos mais canônicos da literatura brasileira. Em 1994 virou filme [link] de Nélson Pereira dos Santos. Já havia virado canção, numa parceria de Caetano Veloso e Mílton Nascimento, gravada por Bituca em 1990
[link]
e por Caetano em 1992 [link].
O conteúdo do relato é banal, como todos os conteúdos: um homem faz uma canoa e se exila no rio, vagando como as naves de loucos da Idade Média.
Não volta mais. O filho passa a acompanhá-lo à margem e, depois de mais de 10 anos, tenta tomar seu lugar. Recua com medo. O pai continua lá.
Fim da estória.
Narrado em primeira pessoa pelo filho, o efeito de “distância” criado
pelo texto é chave: o narrador fala do que parece não entender:/ aquilo que não havia, acontecia./ Esse efeito é reforçado pelo título
paradoxal, onde o substantivo, por definição, implode o numeral que lhe acompanha. Tudo é um pouco estranho. Naquela família,/ nossa mãe era quem regia/. Quando a canoa fica pronta, a mãe determina: /‘cê vai, ocê fique, você nunca volte’/. O filho pede, /‘Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?’/ e só a recebe a bênção. O filho entende que /‘ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio’./ O filho começa a levar comida ao pai. A mãe finge que não vê. A irmã se casa, a mãe não quer festa. Nasce o neto, levam-no ao rio e o pai / avô não aparece (se você conhece o interior do Brasil, sabe o que significa, na cultura sertaneja, um avô não aparecer para o batismo do neto!). O tempo passa e o narrador, já de cabelos brancos, propõe/ ‘Pai . . . eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!’/
O pai faz um gesto, o primeiro. O filho se arrepia e retrocede. O filho fica na dúvida: /‘sou homem, depois desse falimento?’/
O texto já foi interpretado como retrato da decadência dos laços
familiares no interior, parábola do paradoxo, instalação da castração
freudiana no sertão, inversão de papéis sexuais, crise da paternidade, alegoria da loucura, metafora de todos os lugares que não existem, imagem do desejo de escape, representação da paternidade como fardo e muito mais.
Se você é leitor do *Biscoito*, (re)leia a estória
[link] e papeie aqui com meus
alunos. Caso os alunos queiram reler e discutir Famigerado
[link] ou Famigerado [link]. Dia de Rosa no *Biscoito*.
*PS de atualização, 01h de Brasília:* Dada a brincadeira do fim de
semana com nomes próprios, identidades e vozes, eu ainda não tinha tido a oportunidade de registrar um agradecimento ao Departamento de Espanhol e Português [link] de Northwestern University [link], pelo o convite à
palestra da última sexta-feira, sobre a codificação do sentido de
nacionalidade no Mangue Beat [link].
Meu agradecimento especial a Lucille Kerr, Julio Prieto, Jorge Coronado e Yarí Pérez Marín, professores desse baita departamento. Há uns anos, o dept. de Northwestern era um deserto. Investiram e trouxeram Lucille Kerr [link]
- uma das maiores especialistas do planeta na obra de Manuel Puig
[link] - e ela trouxe, entre outros, meu amigo Julio Prieto, autor de Desencuadernados: vanguardias ex-céntricas en el Río de la Plata
[link],
Jorge Coronado, também já conhecido meu e agora Yarí Pérez Marín. O
departamento, claro, reviveu e vai de vento em popa. Havia umas 40
pessoas animadamente presentes até o fim da sessão de perguntas e
respostas, que durou um bocado. Até amigos que eu não esperava (Dr. Jan French!) apareceram para o evento. Valeu mesmo, espero que tenham
gostado. Axé babá.
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