Claramente este blogueiro não tinha ni puta idea do pântano em que se metia com essa eleição. Computar esses votos implica não só catá-los por aí na blogosfera; implica também tabulá-los segundo dois métodos: 5 pontos por disco para os eleitores que fizeram listas sem ranking e pontuação proporcional de 1 a 10 pontos por disco para os eleitores que declararam ranking. Obviamente não estou nem perto de ter resultado de nada, mas tenho alguns números e algumas observações. Temos uns 50 eleitores até agora, metade aqui nas caixas do Biscoito e metade de blogueiros esparramados por este mundo. Mas já sei quais são os discos mais mencionados, o que não quer dizer que saibamos quais são os líderes. Os discos mais mencionados até agora são: Krig-ha-Bandolo e Elis e Tom com sete menções cada um, Afrociberdélia e Clube da Esquina com seis, Construção e Tábua de Esmeralda com cinco; Tropicália, Olho de Peixe , Acabou Chorare, Dois, Transa e Meus Caros Amigos com quatro. Uma que outra incorreção é possível nesta contagem. O ranking final ainda é nebuloso.
Eu tenho algumas observações sobre a eleição. A primeira é a óbvia: a
imensa riqueza da música brasileira, a variedade de gêneros e seleções
de que se pode armar, blá-blá-blá. Menos óbvia é a seguinte: há uma
erosão no antes intocado poder do cânone MPB-ístico como padrão de bom gosto. Há uma pugna de cânones diferentes, e isso é bom. Fizesse-se esta eleição há quinze anos e Raul Seixas jamais estaria na ponta ao lado de Tom e Elis. Os discos mais mencionados estariam, em sua grande maioria, dentro da tradição que vai de Chega de Saudade a Cinema Transcedental. Esta tradição recebeu um número considerável de votos na nossa eleição, mas não de forma tão dominante como teria recebido em outras épocas. Há votos pop, votos regionais, votos roqueiros, disseminados com uma tranquilidade que, antes, o panteão da MPB não teria permitido. Foi muito instrutivo para mim: um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre a música brasileira (sim, em inglês, por mil razões) versa sobre a constituição e a progressiva dissolução desse cânone, a partir da grande reviravolta que é a chegada de Chico Science.
Eu amo a obra de Lenine (especialmente seus discos solo). Mas jamais
imaginei que Olho de Peixe, disco seu com o mega-panderista Marcos Suzano, emplacaria um top 10 de menções, enquanto que Na Pressão e O Dia em Que Faremos Contato não foram lembrados nenhuma vez. Estou absolutamente em êxtase com a liderança de Raulzito. Estou totalmente enraivecido que ninguém votou no meu número 1, o Som Pixinguinha, tirando-o assim de vez da disputa. Realmente, desde que me envolvi com palhaçadas e clonagens, eu perdi a autoridade neste blog. Até quinta à noite eu vou catar votos. Deixando constância da ajuda da leitora Cipy, prometo-lhe mais notícias para breve.
PS: na quarta-feira que vem meus alunos de pós-graduação em contística brasileira (lindos maravilhosos que estão brindando-me um super semestre) vão discutir Laços de Família, de Clarice Lispector, aqui no blog. Taí, avisado com 7 dias de antecedência. Quem quiser participar é bem-vindo. A meninada tem adorado quando pintam os leitores do Biscoito para ajudar a destrinchar os contos.