Há 72 horas eu deixei aqui uma pergunta, não mais que uma pergunta -
acompanhada de um raciocínio no condicional em sua defesa. Era a pergunta pelo voto nulo: a besta, a chutada de balde, a mandada à merda, a “alienação” , “niilismo”. Já recebi quase uma centena de respostas. Clóvis Rossi, da Folha, me diz por email: sou contra voto nulo. Seria mais útil que os blogueiros se organizassem para criar/reformar/revolucionar um partido político e com ele disputar a eleição para mudar. Voto nulo não muda rigorosamente nada. abs. Sempre gentil é o Clóvis, mas eu lhe respondi que, depois de 22 anos de PT (9 aí realmente envolvido, 13 aqui nos EUA), eu não tenho saco, e quem entre vós já passou 20 anos construindo um partido que tenha virado o que o PT virou, ora bolas, que atire a primeira pedra. É como disse a leitora Gin , patrulhe quem quiser - não é o caso de Clóvis, claro, nem de *quase nenhum* dos leitores que se manifestaram aqui, mas o tema voto nulo ativa uma legião de patrulhadores. Eu não sei se votarei nulo em 2006, mas pedra nos que votarem este *Biscoito* não atirará. Bem vindos aqui sempre serão os discípulos de Bakunin. Há anos eu venho escrevendo sobre a necessidade de se *criar um lugar para o afeto na política* e os que se expressaram aqui simpáticos ao voto nulo manifestaram *afetividade* que está faltando, em geral, nas discussões políticas que ouço por aí. Eu acredito nos blogs como resgate dessa afetividade.
Tony Pereira passou por aqui e disse que (traduzo) é impossível saber o impacto que isso poderia ter. Essa impossibilidade de se prever o resultado do ato político é sempre chave para mim. Por isso não aceito a pergunta “o que conseguiríamos com isso?” Ora bolas, se o soubéssemos já não valeria a pena experimentá-lo. A pergunta teleológica antecipando-se à ação nunca me atraiu. Mas também tem razão Tony ao dizer que a história do abstencionismo na esquerda não nos autoriza a ser muito otimistas. Smart [link] levanta um lado interessante, o referendo e o plebiscito como instrumentos de intervenção política. Como afirmei na resposta a um leitor: este blog acredita na conjunção E, em fazer uma coisa E outra. Lançar um par de plebiscitos que confrontassem o petismo com suas traições históricas não seria má idéia. Rafael Galvão dedicou um maravilhoso post à discussão. Numa primeira versão Rafael havia sido injusto comigo, ao dizer que eu “havia pregado” voto nulo. Quando compartilhou o texto comigo por MSN, eu lhe assinalei isso e Rafael trocou o “pregar” pelo verbo justo, que era “considerar” – isto, garotos, chama-se *debater em boa fé*. O dia que eles wunderaprenderem a fazer isso eles chegarão aos calcanhares de Rafa e de Smart. Não discordo dos argumentos de Rafael contra os que “não votaram nele porque ele iria mudar tudo e agora descem o sarrafo porque ele não mudou nada”.
Mas não acho que a decepção seja uma questão de “falhas” ou “falta de
coragem” ou “de vontade” do governo - que são os três eufemismos que
usa Rafa. Para este blogueiro houve *traição profunda*. É uma diferença filosófica fundamental. Também não é correto, como diz Rafa, que Heloísa Helena tenha abandonado o time aos 5 minutos do 1º tempo – a não ser que consideremos a indicação de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central como parte da mera preliminar do jogo. Ora, quando você indica um sujeito como o presidente do BankBoston e lhe confere autonomia abençoada pelo monetarismo paloccista, bem, amigo, você está bem prá lá dos 5 minutos do *segundo* tempo, com o jogo perigosamente definindo-se em favor do time adversário, e com o seu próprio treinador mandando que você recue mais. A sequência de desastres entre Aldo e Zé
Dirceu, reconhecida pelo próprio Rafa, foi instaurada por essa dinâmica, de manter quadros históricos com a responsabilidade de justificar a traição à história. É ingenuidade crê-la mera falha técnica.
Por outro lado, Rafael tem razão ao dizer que dificilmente Lula deixará de se reeleger. Portanto, depois de 72 horas, que tal inverter o jogo? Ao invés de eu e os leitores simpáticos ao voto nulo oferecermos razões pelas quais ele pode ser relevante, que tal algum dos eleitores de Lula oferecer uma única razão, encontrável nestes últimos 27 meses, pelas quais nós devemos considerar a possibilidade de votar nele? Rafa nos pergunta o que conseguiu Heloísa Helena saindo do governo. Nós retrucamos: o que conseguiram Marina Silva e Miguel Rossetto *ficando* no governo? Será que algum dos eleitores governistas amigos nossos nos ajudará a empurrar em um centímetro a medieval discussão sobre o aborto entre essa padraiada, esses delúbios do PT? O que será que os eleitores de Lula têm a dizer às dezenas de mulheres que se manifestaram aqui ou por email com simpatia pelo voto nulo?
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