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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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sábado, 30 de abril 2005

Jazz Fest, Escolhas

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O dia hoje está dificílimo no JazzFest. Vejam estes palcos simultâneos aqui. Do total de 12 palcos do festival, há alguns grandes e médios, ao ar livre, e algumas tendas cobertas dedicadas a gêneros específicos: blues, gospel, jazz contemporâneo, jazz tradicional (do tipo dixieland). Escolher é sempre difícil neste festival. A estratégia é alternar sol e sombra, beber bastante água, não encher a cara da cerveja quente que lhe vendem os gringos e mover-se agilmente de um palco a outro. Os shows são cronometrados com perfeição, para que ninguém perca a viagem ao palco vizinho.

Planos:

Às 11:00, estou entre o NOCCA Jazz Ensemble e o grande (em todos os sentidos) vocalista de blues Big Al Carson. Provavelmente eu veja um pouco de cada um.

Aí às 12:30 eu devo render meus respeitos à Young Tuxedo Brass Band, no Economy Hall Jazz Tent, que é uma das várias tendas dedicadas a um gênero, no caso o dixieland jazz, paixão dos velhinhos com guarda-chuvas.

Na hora do almoço, escolher alguma iguaria e partir para o primo-do-forró, o zydeco de Willis Prudhomme and the Zydeco Express. Isso rola num palco menor, chamado Fais-do-do, que é dedicado, o dia todo, às músicas de acordeão.

As 2:55 em ponto quero estar em outro palco para saculejar ao som das tubas e trumpetes dos Soul Rebels.

Pausa para outro rango – eu só como essa coisa divina que é o sanduba de siri mole em época de JazzFest.

Antes das 4 quero estar a postos para escutar uma das lendas vivas da música de New Orleans, o gigante do rhythm ‘n’ blues Allen Toussaint.

Para fechar a brincadeira, não sei se vou ver Ike Turner (que promete um show-zaço) ou o eterno punk Elvis Costello.

É a programação para este sábado. Claro que se pode mudar tudo ao sabor da hora. Pode-se resolver passar o dia numa tenda escutando gospel, por exemplo.

Registre-se que neste JazzFest já passaram por aqui – e fizeram estrondoso sucesso – o recifense e ex-integrante do Maracatu Nação Pernambuco Charles Teony e a dupla sergipana Chico Queiroga e Antônio Rogério.

Se algum dia tiver que escolher um lugar dos EUA ao qual viajar, a minha sugestão é esta: New Orleans na época de JazzFest.



  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (10)



sexta-feira, 29 de abril 2005

Vamos Culpar a Vítima?

Vejam a canalhice: o Comitê Executivo da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) reuniu-se nesta quinta e reiterou a bobajada de que tudo o que acontece no futebol deve ser julgado por tribunais desportivos. Sem nem sequer citar o argentino Desábato e o brasileiro Grafite, a vetusta instituição afirma que "Os órgãos disciplinares do esporte são os encarregados de julgar os atos que violam as regras de jogo da moral em campo, dentro das quais encontra-se o racismo". Parabéns! Julgá-los-ão quando mesmo? Obviamente é mais fácil que o Guarani do Inagaki ganhe a Libertadores da América que o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) puna algum dia um crime de racismo. Todo mundo que acompanha futebol com um mínimo de senso crítico sabe que o chavão de que nada do que ocorre dentro das quatro linhas deve ser tratado por tribunais não-desportivos só serve para perpetuar o poder da cartolagem corrupta.

O documento insultante vem assinado pela cúpula da Conmebol, incluindo-se o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, o mesmo que, depois do incidente com Grafite e Desábato, bateu no peito para dizer que racismo era inaceitável no Brasil. O link é este.

A minha pergunta é: onde está o Ministro dos Esportes agora? Onde está ele quando precisamos que diga ao sr. Ricardo Teixeira que ele está assinando na Conmebol um documento que contraria a lei brasileira, que prevê que o racismo é crime inafiançável e não é julgável por tribunal desportivo? Onde está a anta albanesa, que no dia do incidente quis ganhar pontos políticos fazendo cartinha que atacava um jogador argentino que estava atrás das grades? Onde está o pior ministro dos Esportes da história agora que a lei requer que ele contrarie seus amiguinhos da CBF? A confederação sul-americana implicitamente critica a vítima, o presidente da CBF assina embaixo e o ministro se cala, como vem se calando há tempos sempre que se trata de contrariar a cartolagem. Enquanto isso, as agressões racistas continuam acontecendo.

Não há dúvida: a gestão do futebol no governo Lula é um desastre. Todo o trabalho de José Luiz Portella foi jogado por terra.

Quanto ao clube argentino, sem dúvida o episódio baqueou os caras. Depois de perderem para o River Plate por 4 x 0 pelo Campeonato Argentino, foram ontem eliminados da Libertadores na Bolívia com gol contra de Desábato. Esse rapaz realmente entrou num período duro da vida.


Da série falaram de mim
Nos últimos dias, duas alegrias:
1. Luiz Biajoni, um dos mais talentosos escritores da nova geração, acorda com a imagem de uma faca no travesseiro, escreve uma beleza de relato e me dedica o conto. Obrigado, Bia.

2. O escritor argentino Alan Pauls – autor do melhor romance sobre o voyeurismo que conheço (El pudor del pornógrafo, 1987), autor de um dos mais inovadores romances policiais (El coloquio, 1990) desse país ríquíssimo em policiais – publicou em 2003 seu romance El pasado, um calhamaço de 550 páginas que acompanha 25 anos da vida de dois personagens. Só agora terminei de lê-lo. Eis que lá pela página 300 e poucos aparece um Idelber Avelar! É um tradutor, bizarro à beça e talvez metido em negócios escusos. Fala coisas muito insólitas ao telefone. Não dá nenhuma indicação de ser trotskista. Foi boa a experiência de ler o livro e bem estranha (mas gostosa) essa de ver-se retratado como personagem de ficção por um baita autor. Gracias, Alan.

Estamos na última semana de aulas, de defesa de teses e projetos de tese, e além de tudo semana de JazzFest em New Orleans. Emails atrasados, feedback atrasado, avaliações atrasadas, atraso é o nome do jogo. Ou seja, paciência com o blogueiro.

Curso da contística: Valeu a pena ter cancelado a última aula sobre os contistas contemporâneos publicados em livro e ter dedicado a semana a circular a alunada pelos blogs. A discussão em sala fechou com chave de ouro um semestre em que recebi um presente dos deuses: um grupo de 10 alunos inteligentíssimos, fluentes em português, com faro literário e com perfeita química uns com os outros. Baita seminário, foi esse. Na aula final, muitos contistas-blogueiros foram elogiados e nos proporcionaram momentos de bom debate. Este conto de Fal foi um dos favoritos. A meninada gosta de uma mulher que se ergue com classe nos escombros.

Aniversário-zinho: Não passará em brancas nuvens e será devidamente comemorado com lagostins e cervejinha. Há 20 anos, no dia 29 de abril de 1985, um fuleiríssimo (mas abençoado) cursinho de inglês chamado American Brazilian Center, no Baixo Belô (Rua Tupinambás), assinava minha carteira de trabalho como professor pela primeira vez. Eu tinha 16 anos na época e mal começava a dominar a língua que passava a lecionar. De la para cá não passei nem um único semestre letivo em branco. Vinte anos de magistério completados hoje! Saravá.



  Escrito por Idelber às 02:00 | link para este post | Comentários (33)



quarta-feira, 27 de abril 2005

Contos da Blogosfera

Hoje eu concluo um seminário sobre o conto brasileiro. Ao invés de fechar com o livro-guia, que tem sido Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século XX (org. Italo Moriconi), eu escolhi compartilhar com os alunos alguns blogocontos favoritos meus. Como qualquer lista, é incompleta e pessoal.

Não vamos formular teoria sobre literatura em blogs. O fenômeno é recente e é muito cedo para saber se a prática de publicar literatura em blogs alterou a forma de se escrever ficção. Pode ser que já o esteja fazendo. A diferença entre literatura e jornalismo continua sendo a mesma, independente de estar expressa em papel impresso ou na internet, claro. Mas a questão é como e por quais mecanismos a publicação online, periódica, comentada dos blogs vai mudando a cara da literatura que se escreve, ou do que se entende por literatura.

O conteúdo que é trazido para um novo meio, claro, nunca permanece o mesmo no processo. Transforma-se a si mesmo e ao meio. A tal da dialética. Não é assunto para agora. A aula, na verdade, é só um compartilhamento de links e um convite para um papo sobre esses contos:

Do Nelson Moraes eu escolhi Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN, esse clássico da blogosfera.

Sugeri que passassem no Reginaldo Siqueira e lessem pelo menos o implacável conto sobre o natal.

Indiquei o blog de Alê Felix e essa autópsia da vida blogueira, O blog começa a lhe fazer mal quando... (link que me chegou via Inagaki).

No site de Christiana Novoa, sugeri que lessem pelo menos A Luminosa Senda do Vazio Perfeito.

Sugeri com ênfase o Focando e indiquei que as duas escritoras que eu havia mais lido lá eram Fal Vitiello Azevedo e Ticcia Patricia Antoniete, mas que passeassem também.

Recomendei as crônicas da Claudia Letti e falei que visitassem os contos de Sarah Fazib.

Também passei o link do belo blog do Fabrício Carpinejar, que eu regularmente leio, mas no qual nunca comento.

Do Tiagón Casagrande, sugeri o hilário fait divers sobre o vestibular.

Da Lúcia Carvalho, sugeri as crônicas compiladas no Releituras.

Do Milton Ribeiro, essa bela reflexão sobre as marcas.

Recomendei também o coletivo Blog de Papel .

Os alunos também receberam links a contos sensacionais de Luiz Biajoni aqui, aqui, aqui , aqui e aqui.

Este é um bate-papo onde eu só iria linkar textos de ficção ou crônicas, mas não posso deixar de mencionar um belíssimo post crítico de Rafael Galvão que desmonta as barbaridades racistas ditas por certos professores.

Quem tiver tido a oportunidade de ler algum desses escritores, passe por aí para papear e dar o testemunho de leitura.



  Escrito por Idelber às 00:42 | link para este post | Comentários (48)



terça-feira, 26 de abril 2005

O Livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel

zenobia-definit.jpg

Falsas paisagens da alma, do nada inumerável

O Livro de Zenóbia é daqueles deliciosos, que brincam conscientemente com os gêneros. É um livro, acima de tudo, delicado, preciso no seu traço. São vinhetas de meia página, que vão tecendo movimentos sobre uma personagem, Zenóbia, uma espécie de filha de Zeus e da Memória encravada nas Minas Gerais. Nas palavras de sua autora, Zenóbia é uma personagem do interior, que vive as miudezas de seu cotidiano mais prosaico e busca extrair disso pequenas epifanias e assombros.

Maria Esther Maciel é parte de uma poderosa corrente de escritoras de Minas que trabalha em interseções entre a teoria literária, a psicanálise, a ficção, a poesia e o ensaísmo. O nome de Maria Esther Maciel habita uma constelação na qual têm seus lugares Lúcia Castello Branco, Ruth Silviano Brandão, Leda Maria Martins e outras – mineiras que demoliram a distinção entre o “artístico” (a “criação”) e o“acadêmico” (“a crítica”). Zenóbia, em segredo, pensou duas vezes antes de dizer para si mesma que toda perda oculta uma controversa beleza. Enquanto que em comarcas mais tradicionais, como a Universidade de São Paulo, o estudo da literatura continua respeitando a velha e segura distinção entre criação e crítica, há um bom tempo já não se separam essas coisas em Minas nem no Rio de Janeiro, especialmente entre as duas últimas gerações de escritores. Isso ocorre graças principalmente a essas mulheres e seus híbridos, experimentais, maravilhosos exercícios de escrita. Entre eles, os relatos e a poesia desta especialista em Octavio Paz e Peter Greenaway.

Não à toa Zenóbia via naquela vó adotada, que morava na casa dos fundos com três cães vira-latas, uma espécie de fada. Dela ouvia quase todos os dias, à beira da fornalha, fábulas e estórias de fantasmas. Com a alma à flor das faces, fascinada.
Herdeira de Guimarães Rosa nas operações com a linguagem, Esther tem uma frase conceitual, que tensiona a personagem e remete à melhor Clarice Lispector. Somos um haver da morte, nós e o que é nosso. Esther se apropria dos que fizeram do aforismo uma arte, Sêneca, Pascal, Nietzsche, Cioran: a brincadeira é resvalar a ficção na filosofia, o poema na prosa, a aliteração no conceito. Em meu pai não posso imaginar a carne podre. Um deus pode? Sobre isso Zenóbia se cala, apesar de saber dos vermes, da terra úmida do cemitério, dos caldos verdes da pele. O livro é apaixonante. Na medida em que se vão se tecendo as histórias dos amores, bichos de estimação, receitas, sonhos, amigas, sempre em vinhetas minimalistas, Zenóbia vai trombando contra o vazio da sua própria fala, o beco-sem-saída da própria linguagem.

Estar ou não estar com ela era a medida de seus dias, como se fora desses limites a vida fosse sombra. Mas aos poucos ele foi aprendendo que o amor também se faz de faltas e distâncias, e que há bens que nenhum mal nos pode tirar, mesmo que por um instante. O livro termina relatando "horas felizes" de Zenóbia, mas a modo de anexo, quando já concluída a história, encontram-se cadernos de Zenóbia com contos aterrorizantes.

O belo livro de Maria Esther Maciel é uma publicação da Lamparina, antenadíssima e elegante nova editora carioca, que atende neste email.

artcultura.jpg

PS: Eu contribuí um artigo para a revista ArtCultura, que dedica seu último número a um dossiê sobre a música brasileira. Aí chega a maravilha da revista no correio e o que vejo? O dossiê são puras feras no assunto: Nei Lopes (talvez o maior especialista atual sobre samba, grande sambista ele mesmo), Cláudia Neiva de Matos (autora do legendário Acertei no Milhar, um dos clássicos sobre o samba), Martha Tupinambá de Ulhôa (uma das mais importantes etnomusicólogas da América Latina), Santuza Cambraia Neves (autora de Violão Azul: Modernismo e Música Popular). O que eu fiz para estar no meio dessas cobras criadas? Não sei, há que se perguntar à generosidade dos diretores da revista, mas está lá um artigo do blogueiro, sobre música popular jovem em Belo Horizonte. Foi a notícia maravilhosa desta segunda, a chegada dessa revista no correio. Para comprar, é lá no site da ArtCultura.



  Escrito por Idelber às 02:18 | link para este post | Comentários (11)



segunda-feira, 25 de abril 2005

Corrente, sobre Livros

Recebo do grande poeta mario cezar coivara - que, como e.e.cummings, assina seu nome em minúsculas e quando poeta assina, a gente respeita - uma corrente de perguntas, que devo passar a mais três pessoas. Na verdade, eu já havia recebido essa mesma corrente da grande blogueira Bibi, mas havia sido em inglês e eu prometi a mim mesmo que, no blog, só vou postar em pindorâmico. Aí eis que me chega a coisa de novo, via o poeta.

1. Não podendo sair do fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A Ética de Espinosa. Enquanto existir esse livro a corja ainda não tomou conta de tudo. O cabra conseguiu ser excomungado pela igreja, condenado pelos rabinos, odiado por tudo quanto foi religião e poder do seu tempo. O livro é pura teorização da liberdade, da potência, do amor à vida. Sempre que se falou em queimar livros na história moderna, Espinosa esteve entre os primeiros lembrados.

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Riobaldo Tatarana. Tudo quanto é encruzilhada, o sujeito visitou. Distantes segundo e terceiro lugares: Mefistófeles e Ivan Karamazov.

3. Qual foi o último livro que compraste?

Por incrível que pareça, quase não compro livros. Ganho mais livros do que consigo ler. Com freqüência recebo pagamento em livros quando presto consultoria às editoras. Amontoam-se livros não lidos. Os poucos que compro têm que esperar tanto para serem lidos que passo a comprar cada vez menos. O último comprado foi Chain of Command: The Road from 9/11 to Abu Ghraib, de Seymour Hersh, o relato de toda a podridão do império por dentro: como inventaram as mentiras sobre o Iraque, como cuspiram na constituição, como fizeram toda a lambança.

4. Que livros estás a ler?
Tenho o não-método de ter pelo menos 20 iniciados na mesa. Concluo alguns (em geral romances) e não concluo outros (em geral os de não-ficção). No momento estão abertos sobre a mesa: El llamado de la especie, romance curtinho e enigmático do argentino Sergio Chejfec, The Clash of Fundamentalisms: Crusades, Jihads, and Modernity, estudo penetrante de Tariq Ali sobre as relações entre Ocidente e Islã e sobre onde nos deixaram quase 60 anos de sionismo e três mandatos da família Bush, O Livro de Zenóbia, ficção minimalista da escritora mineira Maria Esther Maciel (em breve resenha no Biscoito), Os Melhores Contos Brasileiros do Século XX, org. Italo Moriconi (material de ensino para mim), e A Máquina de Filmar Sonhos, maravilhoso romance inédito da escritora Christiana Nóvoa.

5. Que livros(05) levarias para uma ilha deserta?
Vou trapacear:
1. The Riverside Shakespeare (é um livro, não é? Algumas dezenas de peças, mas um livro)
2. Ulysses, de Joyce. Museo de la Novela de la Eterna, do Macedonio Fernández, também serviria, mas deste último eu já descifrei mais enigmas. Com Joyce eu poderia me entreter mais tempo.
3. Contos Completos (Jorge Luis Borges)
4. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
5. Poesia Completa (Carlos Drummond de Andrade)
Pronto, com esses cinco livros dá para começar a brincadeira. Dá até para fundar uma civilização.

6. A quem vai passar este testemunho(3 pessoas) e por que?
Aos amigos Leila, Ana Lucia e Fernando porque, como eu, são expatriados, e pode ser que essa listinha aguce boas memórias.

PS 1: A Democracia Socialista, corrente do PT na qual eu militei ao longo do anos 80, e à qual pertencem, entre outras celebridades petistas, o ministro do Desenvolvimento Agrário Miguel Rosetto e o ex prefeito de Porto Alegre Raul Pont, reuniu-se neste fim de semana e produziu um documento com fortes críticas ao governo, e aproveitou para lançar a candidatura de Pont à presidência do PT. Aí o sr. Genoíno veio dizer que as regras para o debate ainda serão definidas e o secretário-geral do PT, Silvio Ribeiro, com a sem-cerimônia que só possuem os verdadeiros burocratas, manda, na Folha , um ministro de estado calar a boca: "ministro de estado ou está de acordo com o governo ou sai." Alguém já ouviu falar em Sílvio Pereira? Alguém sabe como chegou à secretário-geral? Fiquem de olho na sujeira do jogo, especialmente se a esquerda do PT conseguir se unificar em torno de um candidato único. Eu acho melhor eu não falar nesse assunto.

PS 2: Seguindo a Convenção Inter-Americana de Caracas (1954), o Brasil concedeu asilo ao ex-presidente do Equador Lucio Gutiérrez. Sobre o Equador, diga-se: eu conheço aquilo lá. Não se parece com terra nenhuma deste mundo. Os presidentes passam de 60 a 4% de popularidade em questão de meses. Acho melhor eu me calar sobre esse assunto também. Sobre o tema, a mais lúcida foi (link para quem tem UOL) Eliane Castanhêde.

PS 3: Aliás, vamos combinar que ficaremos uma semana sem falar de política? Ando precisando fazer uma desintoxicação básica. Se eu falar de política antes da segunda que vem, vocês me enxovalhem.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (16)



domingo, 24 de abril 2005

Evoé Pixinguinha, 108 anos

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Se vivo estivesse, Alfredo da Rocha Viana Filho teria comemorado 108 anos neste sábado. Pixinguinha foi o maior gênio da história da música popular brasileira, ponto de encontro de séculos de batuque com o salão do século XIX e sintetizador do que seria toda a linguagem da música popular que o sucederia.

Sim, já existia música popular brasileira urbana antes de Pixinguinha: atendia pelo nome maldito de maxixe. Mas, escolado em todas as nuances do batuque dos terreiros e quintais, ao mesmo tempo em que também profundo conhecedor das técnicas de harmonização ocidentais, é Pixinga quem consolida o repertório do que será a base da linguagem musical popular urbana brasileira: o choro.

Realizações do gigante? Encheriam um blog. Em 1919, o Brasil conquistou o primeiro campeonato sul-americano de futebol derrotando o Uruguai nas Laranjeiras. Pixinguinha compôs um maravilhoso choro, 1 x 0, homenageando o estilo de toques laterais da seleção com rápidas subidas e descidas na escala. Até hoje busca-se um musicólogo que entenda de futebol para destrinchar a rica alegoria tecida aqui por Pixinga.

É, sem dúvida, o maior flautista da história do Brasil e o maior arranjador de sua música popular. Com o tempo, passou ao saxofone e nele também foi gigante. Pixinguinha é também um dos nossos maiores compositores populares. De 1911 a 1973, compôs choros, valsas, sambas, polcas, tangos, maxixes, marchas e até mesmo emboladas e lundus. É o autor daquela que talvez seja a canção mais amada e cantada do século no Brasil: Carinhoso. Quem já enveredou pelos mistérios do contraponto, testemunha: com a complexidade e riqueza que ele ocorre em Bach, só em Pixinga.

Na década de 1920, Pixinguinha lideraria Os Oito Batutas (com os outros três negros China, Donga e Nélson Alves e os quatro brancos Raul e Jacó Palmieri, Luis de Oliveira e José Alves) na viagem musical mais importante da época: o estrondoso sucesso em Paris e em Buenos Aires, turnê chave na luta contra o racismo. Daí para frente, sua importância passa a ser difícil de medir, posto que fundamental para simplesmente tudo o que se fez depois dele.

Em 1953, Pixinga iniciaria um longo caso de amor com o Bar do Gouveia, na Travessa do Ouvidor, centro do Rio. Em 1963 sua mesa seria oficialmente “tombada” e reservada só para o Mestre.

Para quem quiser conhecer o melhor de Pixinga ele mesmo, há que se escutar o inacreditável disco de 1971. O disco feito com Clementina também é indispensável. Para se conhecer as gravações mais antigas, há uma boa coletânea da Kuarup. A caixa Memórias Musicais da Biscoito Fino, que traz 15 CDs com materiais do começo do século (dentre os quais 3 CDs só de Pixinguinha, incluido-se a legendária viagem dos Batutas a Buenos Aires), parece que esgotou.

Um dos últimos e mais incríveis casos de Pixinguinha é relatado por Sérgio Cabral, em Pixinguinha, Vida e Obra (Lumiar, 1997). Voltando para casa tarde da noite, ele é assaltado por três ladrões, a quem passa todo o dinheiro. Um dos ladrões o reconhece: “Vixe, é o seu Pixinguinha”! Os ladrões imediatamente devolvem todo o dinheiro e se desculpam, o que move Pixinga a convidá-los:
- Vocês não querem tomar uma cervejinha não?

Acaba levando os três ladrões para sua casa, onde passam toda a madrugada na birita, concluída ao raiar do sol.

PS 1: O Biscoito envia seu axé a Nemo Nox, que já se encontra aqui nos EUA, resolvendo pendências para a sua permanência. Nemo relatou num post o seu kafkiano ingresso ao país. Enviamos os votos de que toda a papelada se resolva.

PS 2: Uma leitora pergunta sobre o "eterno feminino". O termo é antigo. Com esse nome há um lindo conto de Eva Brodhead, um belo quadro de Cézanne e muita picaretagem junguiana. Quem mais faz minha cabeça, ao dissertar sobre o feminino, é a filósofa-poeta Luce Irigaray.



  Escrito por Idelber às 05:22 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 23 de abril 2005

O que é uma mulher moderna?

Renata Maneschy, do Kit Básico da Mulher Moderna pediu a vários blogueiros uma definição de "mulher moderna". Publicou-se hoje lá no Kit a minha contribuição. O texto começa assim:

A mulher moderna sabe que a queima dos sutiãs foi necessária para libertar os biquinis e os baby-dolls, mesmo os mais cafonas. A mulher moderna sabe que sem Jane Fonda não há Madonna, sem Leila Diniz não há Xuxa.

"Mulher moderna" é aquela que vota, se divorcia, aborta legalmente (em certos países), concorre a cargos públicos, troca de profissão aos 35, refaz a vida afetiva aos 40. Por que não?

A mulher moderna aprende a lidar com a agressividade gerada no macho pelas suas conquistas. Ao mesmo tempo, aprende a lidar com as lambisgóias de 22 que já sabem usar pílula e roubar marido.

Continue a ler o meu "Mulher Moderna e o Feminino Eterno", blogado a convite do Kit Básico da Mulher Moderna.



  Escrito por Idelber às 01:08 | link para este post | Comentários (22)



sexta-feira, 22 de abril 2005

Enquete - Cotas na Universidade Pública

O post sobre a questão racial continua recebendo comentários, e como o tema está longe de esgotar-se, eu pensei em oferecer algumas das minhas razões para apoiar as cotas para afro-descendentes na universidade pública e depois propor uma votação sobre um projeto imaginário. Eu li com cuidado todos os comentários e é à luz deles que vão meus últimos pitacos e a enquete.


1. Pensar no vestibular como medidor de “mérito” é risível. Dessa joça nós conhecemos o ganhador em quase todos os casos: os que tiveram dinheiro para colégios particulares. Decidamos como sociedade se queremos continuar filtrando o acesso ao ensino superior por esse joguinho de múltipla escolha para ricos bem-treinados e, muito ocasionalmente, pobres ultra-excepcionais. Eu não sou contra a meritocracia. Eu tenho outro conceito de mérito: um negro, pobre, que chegou ao 3º ano do segundo grau em boas condições de escrita, argumentação e cultura geral pode ter, para mim, um mérito maior que um milionário da zona sul de resultado dez pontos mais alto no vestibular, mesmo que este último saiba qual é a capital da Finlândia e aquele não. Não proponho que se deixe de medir pontos. Mas há que se manejar um conceito mais amplo de mérito, onde entrem outras variáveis além do número de x's corretos numa prova. O sistema de cotas temporário pode ser um bom instrumento para a reforma desse monstro, o vestibular.

2. Os laços afetivos que as cotas tendem a promover não são os que imaginam os críticos da iniciativa. A grande maioria dos efeitos afetivos das cotas seria positiva: mais conhecimento da realidade do outro, diálogo, turmas genuinamente inter-racias – que não são lá tão comuns assim nas principais universidades brasileiras, especialmente nos cursos de elite.

3. Sim, é possível que alguém seja agredido racialmente dentro da universidade sob o pretexto das cotas, claro, embora eu creia que aconteceria menos do que imaginam alguns. É ingenuidade pressupor que essa mui esporádica e hipotética agressão possa ser causada pelas cotas. Se acontece é porque a agressão já está lá. A agressividade não pode ser atribuída às medidas paliativas dos efeitos do racismo, ela é anterior a estas. A agressividade está relacionada ao próprio racismo, não às medidas de reparação. Que a agressão aconteça (e depois possa ser conversada, punida, etc.) parece-me preferível, inclusive, a que ela continue engarrafada e fermentando. O que não se pode fazer é ficar negando o problema e pôr a culpa na febre cada vez que a enfermidade aflora. Quantos Grafites, até que todos entendam que é obsceno culpar a vítima?

4. As cotas não “tiram” vagas de ninguém: o branco que foi eliminado e perdeu a vaga porque há um sistema de cotas para favorecer negros é uma figura imaginária. Ela satisfaz uma fantasia e não existe sociologicamente, pelo menos não é deduzível a partir de nenhum estudo. Há outras garantias de que o cotista está qualificado, inclusive porque a alteração produzida pelas cotas na nota necessária para a aprovação dos não-cotistas é mínima. Em cima disso, lembremos a dimensão do abismo: na melhor universidade da América do Sul, localizada numa cidade que é pelo menos metade negra e parda, como São Paulo, praticamente não há negros. Vamos esperar até que os lentos efeitos das reformas criem chances para a população negra daqui uns quatrocentos anos?

5. Meu amigo Smart Shade of Blue mencionou a possibilidade de que os professores sejam interna ou externamente forçados a avaliar melhor os cotistas, e que isso ajudaria a explicar os bons resultados observados na UERJ. A meu ver, há que se separar duas coisas aqui: como alguém que leciona há 20 anos eu digo que sim, um aluno que teve que enfrentar muitos obstáculos para chegar até ali provavelmente contará com uma simpatia extra que é natural. Mas daí a achar que essa simpatia natural não seria monitorada pela ética da profissão que traz cada um é achar demais. Achar que externamente pode haver existido pressão que tenha feito diferença estatisticamente significativa é muito prematuro, parece-me. Como disse muito bem Cláudio Simões: Professores podem ficar com medo de reprovar alunos cotistas pra não serem acusados de racistas? Alguns podem. Os inconscientes. Os professores de verdade vão procurar fazer desses alunos bons profissionais. E acredito que muitos destes alunos serão melhores profissionais do que alunos de algumas faculdades particulares que pressionam os professores para aprovarem alunos que não estudam somente porque esses alunos pagaram. Falou bonito.

6. Não se deve opor a política de cotas à reforma do ensino fundamental, aquela é parte desta. Como veterano de muitos e velhos debates sobre a educação, sei que a reforma do ensino no Brasil é projeto para muito tempo – gerações. Dessa reforma fazem parte paliativos como o bolsa-escola, mas também medidas de reparação imediata que, inclusive, teriam um grande efeito na própria reforma do ensino básico: mais negros na universidade também significa mais crianças negras com modelos reais de sucesso no ensino fundamental. Deu para sacar a relação dialética entre uma coisa e outra? Dá para ver a importância do empurrão inicial? Dá para ver que sem um empurrão na “mão invisível” do mercado essa joça não se move? E que movê-la é uma questão urgente?

7. As cotas também são um auxílio aos brancos e às classes média e alta brasileiras: nesses anos tentando escutar relatos, eu me convenci de que o branco brasileiro conhece pouquíssimo da realidade social dos negros, do preconceito cotidiano, da violência policial, da constante pressuposição de culpa do negro até que se prove em contrário. Seria um serviço imenso ao país ter uma classe média e alta mais consciente da realidade do seu outro. O contato na universidade pode ser chave.

8. O cotista traz saberes que o aparato universitário ainda não domina e portanto ajuda transformar a própria natureza do que ali se produz e reproduz. Alguém duvida que o ensino da história do Brasil, da antropologia, ou da música popular – para tomar três exemplos óbvios – não se transformaria e se enriqueceria significativamente com uma presença mais forte da população negra? Será que nós, da universidade, estamos realmente com essa bola toda? Será que podemos prescindir desse saber que vem da experiência do outro? Será que a abertura um pouco mais generosa das portas não é do nosso próprio interesse, do interesse de disciplinas que, com freqüência, se debatem em problemas abstratos, divorciados da realidade brasileira?

9. Razão definitiva e fundamental é a que eu chamo de ética, de razão que dá sentido às outras: a “dívida histórica”. O Brasil tem uma dívida de séculos com a população negra. Sim, com toda a sua população trabalhadora. Mas faz uma grande diferença ter sido escravo e não ter sido. Faz uma grande diferença ser vítima constante de violência policial arbitrária e não sê-lo. A dívida com o negro – exacerbada pelo preconceito que, sabemos, existe – é singular, é de natureza diferente. Isto não impede que se coloquem em ação outros mecanismos de reparação dirigidos aos pobres não-negros. Simplesmente significa que a universidade de alto nível no Brasil continua a não ter nada que ver com a composição étnica do país. E que sendo a universidade um dos (parcos, sabe-se) instrumentos de ascensão social, a restituição dessa “dívida histórica” com a população negra tem que passar por uma reparação na universidade. Temporária, entende-se. Até que ela não seja mais necessária.

Votação: Eu quero saber qual a porcentagem dos comentaristas concorda comigo. Imagine um projeto de lei que garanta para negros e pardos, ou afro-descendentes, 25% das vagas das universidades públicas, porcentagem ajustável para mais ou menos segundo a demografia do estado ou da cidade. Este projeto seria entendido como uma lei temporária por, digamos, 10 ou 15 anos. Você seria contra ou favor do princípio das cotas expresso neste projeto? Discordou, não deixe de registrar. Em cima do muro, a mesma coisa. Se, depois das abstenções, 40% da caixa estiver de acordo com o princípio da reparação via cotas temporárias na universidade pública, eu já acharia que valeu a pena e que foi uma conquista. Vocês com a palavra.



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quinta-feira, 21 de abril 2005

Hora de JazzFest

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Crawfish season: Entre as muitas especialidades de Nova Orleans, está esse crustáceo, o crawfish. Estamos no auge da estação do bicho. A brasileirada de Nova Orleans fez nesta quarta seu crawfish boil – uma cozinhada num panelão, onde a gente se reúne em volta da mesa e vai descascando e comendo. A carne tem gosto de siri mole e a cara da coisa é de lagosta, só que um pouco menor (sobre o que é mesmo um crawfish e onde mais neste planeta ele existe, haveria que se consultar a Lucia Malla). Os desta quarta estavam imensos, tamanho de lagosta mesmo. O boil é comida popular, coletiva, compartilhada. É uma marca da primavera de New Orleans, essa reunião em volta da mesa ao ar livre para descascar o bicho. A anfitriã da noite foi a paraibana Suy-Anne, legendária festeira aqui no Golfo no México. Valeu.
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Na discussão sobre as ofensas racistas a Grafite (que depois se ampliou em debate sobre o racismo e sobre medidas paliativas como as cotas), este blog foi linkado em dezenas de outros blogs brasileiros. Muito obrigado. Agradeço muito em especial o link e o elogio de Cora Rónai, que literalmente dobrou o leitorado no Biscoito nesta segunda, leitorado que já havia crescido à beça nas últimas semanas. Cora move montanhas, não há dúvidas. Hiperbolizaram na generosidade Rafael Galvão e Tiagón.

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JazzFest é a outra marca da primavera em Nova Orleans: música, em tempo integral, num hipódromo, com 15 palcos simultâneos, de 11 as 20 h, quinta a domingo, duas semanas seguidas: um mega festival, de peso mesmo. Difícil pensar um gênero de música popular norte-americana que não esteja representado nele. Além disso, muita música de fora. É a única época do ano - além do aniversário dos meus filhos - que é sagrada, não se marca nada. Dentro de Tulane e do nosso departamento, é rigorosamente proibido programar defesa de tese ou qualquer coisa para a época de JazzFest. Aguardem resenhas e, quem sabe, umas fotos. Dentre as dezenas de atrações, destaca-se a reunião dos legendários Meters.


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Blogai e multiplicai, môs fios!
Diz a escritora Fal: Blogues são um excelente negócio pros solteiros (aiai, e pruns casados suicidas tb - ou não, quem sou eu pra julgar), o fato é que o que tem de nego namorando-entre-si não tá mole, cada dia um casal mais fofo se junta no virtual, no real, é um tal de templete pra cá, recado cifrado pra lá, post secreto e hermético para os não-iniciados aqui e ali, os blogues tão virando umas salas de bate-papo de namoro. O post completo é esta maravilha aqui.

Aqui no Biscoito é permitido que os comentaristas namorem entre si. Intentos de paquerar o blogueiro serão analisados caso a caso. Um texto quilométrico com pseudônimo e email falso é um péssimo começo, com certeza. Como sempre, mantém-se a regrinha de desnecessária lembrança para 99,5% dos leitores: o que eu achar abusivo aqui, por qualquer motivo, eu apago. Mensagens quilométricas são aceitas - eu optei por não estabelecer limite de caracteres - mas só sobre o tema em pauta.

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Estreou com pé direito o novo projeto coordenado pelo Nemo Nox: Casa das Mil Portas, umas maravilhas de minicontos com vários blogueiros. Vale conferir.

Tenho lido direto e já linkei: Idiossincrasia e o grande escritor Cardoso. Realmente é um vício que vai se disseminando de forma incontrolável.

O selinho gentilmente feito pelo Mauro Amaral para o Decálogo dos Direitos do Blogueiro continua circulando por aí. De novo meu muito obrigado ao Mauro e ao Nemo Nox, autor do layout deste Biscoito. DECALOGO.jpg

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Meu muito obrigado a Williams College pela hospitalidade neste domingo-segunda, especialmente à prof. Jennifer French, organizadora dos eventos. Acho que as palestras agradaram. Williamstown é bem pequeninho (fica no oeste de Massachussetts, ponta que se encontra com pontinha norte do estado de Nova Iorque), mas tem, como várias dessas cidadezinhas pequenas no nordeste dos EUA, um super college. Dado seu bom clima no verão/outono/primavera, muita gente se aposenta e vai prá lá. Os aposentados vivem da programação cultural da universidade, claro, a única que há. Pois bem, chego para dar a palestra de encerramento de um evento sobre música e, da platéia de 35 pessoas, pelo menos 25 tinham uns 70 anos ou mais! Audiência geriátrica total. Dez anos de palestragem e nunca havia visto coisa igual! Obviamente fiquei muito feliz com esse completamente inaudito e inédito público, mas acabei deixando para lá o ensaio que eu planejava ler sobre Chico Science e improvisei uma coisa mais geral. Valeu, e no final, os velhinhos já levemente saculejavam os esqueletos ao som de Rios, Pontes e Overdrives. Na segunda palestrei sobre violência para um público bem maior (uns 50), todos professores e alunos, aqueles brilhantes, estes últimos bem espertinhos. Muito bom. Só que o povoado fica a uma hora do começo do caminho para qualquer outro lugar.

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Inspirado nas Mineiras, Uai!
Custo do satélite que permite a recepção da Rede Globo de Televisão nos Estados Unidos: 250 dólares.

Custo do pacotão mensal de TV a cabo que inclui a Globo nos EUA: aproximadamente 50 dólares.

Ver o time do ex-Ipiranga adentrando o Mineirão de salto alto, achando que já era campeão e tomando uma traulitada dos meninos do vale do aço: não tem preço.

Salve o Ipatinga, campeão mineiro de 2005. Essa obviamente nós não previmos.



  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (24)



quarta-feira, 20 de abril 2005

Resenha: Friedrich Nietzsche, O Anti-Cristo (1888)

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Não devemos enfeitar nem retocar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra o homem superior, anatematizou os instintos mais profundos, destilou seus conceitos de mal, de maldade, esta última personificada a partir desses instintos. O homem forte é lá um réprobo, um “degredado entre os homens”. O cristianismo escolheu tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável é a corrupção de Pascal, que acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo! (Nietzsche, O Anti-Cristo).

O último ano produtivo da vida de Friedrich Nietzsche, 1888, foi também o seu mais despirocado. Começou o ano com a crítica radical do racismo wagneriano em O Caso de Wagner. Até o início do ano seguinte publicaria Nietzsche contra Wagner. Entre esses dois marcos escreveu, num prazo de doze meses, mais três cacetadas na filosofia ocidental: O Crepúsculo dos Ídolos, o Anti-Cristo e Ecce Homo. Depois de completar Crepúsculo dos Ídolos, ele abandonou temporariamente a idéia de fazer um livro intitulado Vontade de Potência e concentrou-se naquele que seria seu livro mais incendiário, mais enlouquecido, mais ficcional, de alguma forma: O Anti-Cristo. No prólogo, diria:

Onde quer que a vontade de poder comece a enfraquecer haverá sempre um declínio fisiológico, uma décadence. A divindade dessa décadence, sem suas virtudes e paixões masculinas, é convertida à força em um Deus dos fisiologicamente degradados, dos fracos. Obviamente, eles não se denominam “fracos”; denominam-se “os bons” . Nenhuma explicação é necessária para se entender em quais momentos da história a ficção binária de um Deus bom e um Deus mau se tornou possível pela primeira vez. O mesmo instinto que leva os inferiores a reduzir seu próprio Deus à “bondade em si” os leva a eliminar as qualidades do Deus daqueles que lhes são superiores; vingam-se demonizando o Deus de seus dominadores. – O bom Deus, assim como o Diabo – ambos são frutos da décadence. – Como podemos ser tão tolerantes com o simplismo dos teólogos cristãos, aceitando sua doutrina de que a evolução do conceito de Deus a partir do “Deus de Israel”, o Deus de um povo, ao Deus cristão, a essência de toda a bondade, significa um progresso?

É verdade que o mais importante, capital de seus livros para a história da filosofia foi a Genealogia da Moral (que mostrou que não existe moral, a não ser como historinha contada pelos vencedores da luta política). É verdade que o Zaratustra foi seu mais alegórico e metafórico livro, e quiçá o mais rico como texto. Mas o Anti-Cristo enfurece e enlouquece não só a sociedade cristã, mas toda a sociedade laica e burguesa de sua época.

A concepção cristã de Deus – Deus o como protetor dos doentes, o Deus que tece teias de aranha, o Deus na forma de espírito – é uma das concepções mais corruptas que jamais apareceram no mundo: provavelmente representa o nível mais ínfero da declinante evolução do tipo divino. Um Deus que se degenerou em uma contradição da vida. Em vez de ser sua própria glória e eterna afirmação! Nele declara-se guerra à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus transforma-se na fórmula para todas calúnias contra o “aqui e agora” e para cada mentira sobre “além”! Nele o nada é divinizado e a vontade do nada se faz sagrada!...

O livro é escandaloso porque que inverte violentamente todo o relato cristão: a dó, a piedade, a compaixão, não existem como sentimentos genuínos. São apenas ferramentas da vontade de poder do ser que se quer autorizar como bonzinho. Em outras palavras, segundo Nietzsche o cristão, mesmo em boa fé, legitima seu discurso mentirosamente, acumulando poder ao fingir renunciar a todo poder. Para Nietzsche, o cristianismo seria fundamentalmente uma negação da vida. A obra conclui com a seguinte tábua:

Lei contra o cristianismo
Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).

Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo.

Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.

Artigo Segundo
– Qualquer tipo de colaboração com um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais duros com protestantes que com católicos, e mais duros com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo você está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.

Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.

Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.

Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.

Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita das palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.

Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui.

Alguns meses depois de escrito o Anti-Cristo, Nietzsche enlouquece em Turim, abraçando um cavalo que era chicoteado na rua. Repetia, literalmente, uma cena anunciada por Dostoiévski vinte e dois anos antes em Crime e Castigo. Quinze anos depois do aparecimento de Crime e Castigo e sete anos antes do enlouquecimento de Nietzsche (e da publicação d'o Anti-Cristo), nascia o futuro Papa João XXIII.



  Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post | Comentários (26)



terça-feira, 19 de abril 2005

Blogueiro convidado: Luiz Biajoni

Hoje o Biscoito vai ser ocupado pelo maior blogueiro sem blog do mundo. Com vocês, Bia Jones.
(confira também a participação do Biajoni no Kit Básico da Mulher Moderna)

MINHA CIDADE NUMA CANÇÃO DE VIC CHESNUTT
Luiz Biajoni

A primeira vez que ouvi falar em Vic Chesnutt foi na revista Showbizz. Interessou e encomendei o CD em uma loja de Americana (SP), onde moro - era a pré-história da internet. Voltava para casa depois do trampo, com uma dor de barriga daquelas. Sonhava com um banheiro. O celular tocou e era o cara da loja, dizendo que o disco tinha chegado. A loja estava pra fechar: tinha que decidir entre agüentar um pouco e pegar o disco ou deixar para o dia seguinte. A curiosidade falou mais alto, e passei na loja. Estava verde.

Voei para casa, rasgando o celofane com os dentes. Entrei, liguei o aparelho, coloquei o disco, play, fui tirando a roupa para o banheiro, o digipack na mão... Vic iniciou "Sleeping Man", primeira faixa de "Drunk" - e eu me aliviando...

Foi tipo uma "experiência mística", manja? De cara, gostei. As próximas músicas não me chamaram muito a atenção... Mas a seqüência das faixas 5 a 7 me impressionou demais. São as faixas que mais gosto nesse disco, especialmente "Gluefoot" que passa a angústia, de forma quase telegráfica, de alguém em uma cadeira de rodas. E aqui tenho que falar um pouco sobre Chesnutt.

Ele tocava em bares em Athens, mesma cidade do pessoal do REM. Numa noite sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico - e com outras seqüelas. A recuperação foi lenta e depois de um longo tempo voltou a cantar. Foi aí que Michael Stipe conheceu e se interessou pela poesia do rapaz - vindo a produzir seu primeiro disco, "Little", gravado em 88 e lançado dois anos depois, quase todo apenas com Vic nos violões. Tristíssimo.

Em 92 o mesmo Stipe deu uma força e fizeram "West of Rome", um disco lindo, maravilhoso do começo ao fim, de uma sensibilidade única tanto nos econômicos arranjos como nas letras enigmáticas, poéticas, de imagens dignas de um Dylan. Comparado com este "West of Rome", "Drunk" (que é de 1993) parece um disco ingênuo, feito às pressas. Claro que a "mão" de Stipe deve ter influenciado bastante.

Bem, foi "Drunk" quem me despertou para esse bêbado louco numa cadeira de rodas e eu passei a comprar seus discos por causa DELE. O ano era 95 e saiu "Is The Actor Happy?". Pensei que seria uma continuação de "Drunk", mais lamentações pelo acidente, mais impossibilidade de amor, mais lirismo pop para curar feridas. Bom, tem tudo isso... Mas é um disco forte, de rock, com uma BANDA; muitas guitarras e letras bem mais trabalhadas. "Sad Peter Pan", "Free of Hope" e "Thailand" se destacam... Mas a música que ouvi por muito, muito tempo e se transformou num hino para mim foi "Onion Soup" - um derramar de frases soltas, extremamente bem costuradas, com muito humor e violões rasgados pra lá e pra cá.

Pois bem. Todos os discos de Vic até então traziam um endereço para correspondência. Um dia fiquei pensando se o compositor podia IMAGINAR ter um fã no Brasil. E escrevi para ele. Nem lembro o que escrevi, com meu parco inglês. Foi algo escrito a mão e começava com "I live in a little town called Americana, Brazil"... Nunca recebi resposta. Não no sentido convencional.

Passado um tempo, fico sabendo que Chesnutt é o novo contratado da Capitol Records. Dá aquela alegria triste de fã: era um cara que quase só eu conhecia e agora todo mundo ia conhecer, ele ia aparecer em programas de TV, ia exibir sua cadeira de rodas, iam explorar o sujeito e talvez ele até ganhasse alguns prêmios... E talvez deixe de fazer a grande arte que faz. O disco saiu, "About to Choke" e eu comprei. Tem um texto de Vic na contracapa: "This album is dedicated to all the good folks that sent me letters and never got a single response..." Ora, ora, pensei. Mas meus pêlos ouriçaram em um verso da segunda música, "New Town". Eis a tradução livre da canção, na íntegra, cortesia de Giul Francischângelis:

Cidade nova cheira a serragem
Cidade Nova, pulsam as multidões
Os gatinhos da cidade nova descobrem que pássaros arranham o chão
E até mesmo as mais solitárias velhas senhoras recebem convites sociais
Onde jantam e falam sobre seus salvadores
E o esforço da população simples para o desenvolvimento
Faz eleger um prefeito sorridente

Cidade nova, Americana (!!!)
Cidade nova, polícia inexperiente
Cidade nova, indústrias são requisitadas para empregar os moradores locais
E um bebê muito pequenino desenha um belo e limpo suspiro
Por cima do ombro de sua mãe sorridente
Ele está olhando atentamente para as maravilhas do mundo
Que se espalham até onde sua visão consegue alcançar
Mas ele irá parar de olhar quando ficar mais velho

Imagine meu susto ao ver o nome "Americana" na música! O que fiquei pensando é que Vic provavelmente tivesse reunido algumas das cartas de fãs e tivesse construído um "disco-resposta" - um caso único na história da música. Mas não sabemos se foi assim mesmo...

De qualquer maneira, essa foi a minha contribuição para o cancioneiro americano. ;>)

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"Sweet Relief" é o nome de uma fundação que grava discos e promove eventos em favor de músicos com problemas de saúde e sem condições financeiras para tratamentos. Em 96 a entidade reuniu músicos-fãs de Chesnutt para a gravação de um tributo em conjunto com a Sony. O objetivo era levantar uma grana para Chesnutt, que estava com a saúde debilitada.

Garbage, REM, Soul Asylum, Smashing Pumpkins, Sparklehorse, Índigo Girls, Cracker e Madonna são apenas alguns dos nomes que fizeram versões maravilhosas de canções de Vic.

Depois desse, comprei apenas "Merriment", disco feito com um casal de amigos, os Keneipp. Fraco, é um álbum quase alegre. Alegria não combina com o sujeito.

Sei que foi lançada uma coletânea de lados B ou algo assim, logo depois. E me espantei com a cara de um Vic barbeado, asseado, na capa de "Silver Lake", disco que esteve em todas as listas de melhores do ano em 2003. Desanimei de comprar. Mas um pouco foi por estar com as atenções em outras direções e por faltar dinheiro mesmo.

Cultura custa, enfim.

(Para neófitos que possam se interessar, recomendo essa maravilha, parceria de Vic com o Lambchop. É o disco que está na minha lista da Amazon.)



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domingo, 17 de abril 2005

O Brasil Pós-Grafite, Racismo e Cotas

grafite.jpg

Qualquer que seja sua opinião sobre a prisão do jogador argentino Leandro Desábato por ofensas racistas a Grafite, não há dúvida que o episódio muda muita coisa no Brasil. Abre-se um precedente jurídico importante. De outros blogs e da ampla discussão que aconteceu aqui nos últimos dois dias, selecionei algumas citações:

Imprensa Marrom: Os brasileiros precisam tentar - pelo menos TENTAR - entender que o futebol não é algo sagrado. É um esporte como qualquer outro, pelo menos do ponto de vista jurídico. O árbitro de futebol não é uma “autoridade” no campo; seus poderes não são similares ao do comandante de um avião, por exemplo. Por fim, o crime de injúria, qualificada por ser ofensa racial, não pode JAMAIS ser tratado por um tribunal desportivo. O texto de Gravataí Merengue é muito lúcido. Quando o assunto é futebol, trabalha-se com a noção de que as quatro linhas estão suspensas no ar, não sujeitas às regras e leis extra-campo e que o árbitro é uma autoridade inquestionável. Uma das grandes formas de reprodução do poder obsceno que mantêm as cartolagens nacional e internacional é o dogma de que as leis da sociedade civil não podem imiscuir-se no futebol. A queixa de Grafite e o acatamento desta pelo delegado ajudaram a desestabilizar um dos grandes mitos nacionais: a inviolabilidade das quatro linhas.

Blogueiro Ricardo Antunes, aqui no Biscoito: ofensas racistas já aconteceram em jogos nacionais, sem que ninguém seja denunciado. Espero então que, a partir de agora, os racistas brasileiros sejam também punidos . . . Porque é fácil jogar um argentino que ninguém conhece na cadeia. Queria ver é fazer isso com o Diego, por exemplo, que em 2002, quando defendia o Santos, ofendeu o lateral Kléber, então no Corinthians. Concordo com o Ricardo que esse evento tem o potencial de mudar o grau de tolerância com a ofensa racista por parte dos atletas negros. É importante separar as duas coisas: o fato de que provavelmente o assunto teria passado incólume se o ofensor tivesse sido brasileiro não quer dizer que a denúncia de Grafite fosse menos válida ou que a coisa tivesse sido “armada”, como ridiculamente acusou o vice-presidente do Quilmes. Agora, sem dúvida o precedente coloca as futuras denúncias em outro patamar. Se Grafite, num jogo de Libertadores da América contra o respeitado futebol argentino, tendo sido expulso da partida, teve a coragem de denunciar a ofensa à justiça, é de se esperar que futuras vítimas sintam-se muito mais respaldadas. Isso só pode ser positivo.

Blogueiro Emerson, que esteve no Morumbi, no Biscoito: Ali, na hora, não entendemos o porquê de sua expulsão mas, sei lá, intuitivamente, aplaudimos e gritamos seu nome mesmo sendo expulso. Um comportamento anormal esse, pois a torcida do São Paulo mais vaia do que aplaude. Findo o jogo, descobrimos que fizemos a coisa certa ao aplaudir o Grafite. Para quem está preocupado com os próximos jogos de brasileiros na Argentina: nada acontecerá, tirando, talvez, mais vaias e xingamentos. Concordo em gênero, número e grau. Eu já vi situações semelhantes às descritas pelo Emerson, nas quais a expulsão de um jogador por revidar ao ter sua honra atingida foi aplaudida pela torcida. Concordo com Emerson no que se refere ao jogo de Buenos Aires pelas eliminatórias: será um jogo tenso, não há dúvida. Mas quem acha que o poder público argentino estará armando ‘armadilhas’ para levar alguém preso não conhece a diferença entre a Argentina de Carlos Menem e a Argentina de Néstor Kirchner.

Blogueira Daniela Silva, no Biscoito, desmontando mais uma vez o pedestre argumento de que no Brasil não há preconceito racial, só econômico: A discriminação existente no Brasil é econômica? Tsc tsc tsc, que argumento elementar!!! Quer dizer que, se a pobreza acabasse num toque de varinha de condão o racismo iria junto? Quer dizer que negros mais abastados, de classe média não sofrem preconceito? Ah, então diga isso pro guarda que me para todo dia na porta do shopping onde fica a minha academia e pergunta pra onde eu vou(são 6 da manhã e o shopping está fechado). Engraçado é que eu estou com roupas de ginástica e ele não para nenhum dos brancos. Vai ver ele acha que alguém da minha cor não pode pagar aquela academia. Mas, perái, o preconceito não é econômico?? Como em todas as outras intervenções aqui, Daniela foi ao cerne da questão. Está mais que provado que 1) a exclusão econômica atinge desproporcionalmente a população negra; 2) que a intimidação e a violência policiais, para não ir mais longe, atingem preferencialmente a população negra; 3) que as várias formas de desigualdade social se reproduzem racialmente também. Por isso não há o menor sentido em se discutir, por exemplo, se “branquelo de merda” ou “alemão-zão de merda” seriam igualmente imputáveis como crimes racistas. Trata-se de um reductio ad absurdum. Quem arma um argumento assim não vive na realidade, vive na sua própria medrosa fantasia. Ninguém nunca foi escravo no Brasil por ser branco. Os brancos não têm que lidar cotidianamente com práticas de exclusão baseadas na cor da pele. Pelo que me lembro, não é comum em língua portuguesa agredir alguém com termos como branco sai daí ou branco, você não vale nada. Tampouco é comum que se peça a alguém que troque de elevador por ser branco. Em outras palavras, quem quer sufocar a discussão sobre o racismo criando simetrias-zinhas falsas com expressões que nunca feriram os brancos está simplesmente fugindo do assunto. Na maioria dos casos porque se sente incomodado com o tema, acha que sabe algo sobre ele, e não tem humildade de escutar as vítimas reais.

Foi o que disse brilhantemente Cláudio Simões aqui no Biscoito: Daí que achei ridículo o argumento de algumas pessoas de que o próprio nome que o jogador escolheu, Grafite, já é ofensivo. Pra mim, pouco importa se o nome tenha vindo do ato de grafitar ou da substância. Ele escolheu ou assumiu e, a partir daí, não há nenhuma intencionalidade de ofensa. Como não há ofensa quando Gilberto Gil batiza a filha de Preta, ou o cantor se chama de B-negão ou Brown. Pelo contrário, há aí uma afirmação da diferença, o que passa longe do preconceito. Em segundo lugar, a ofensa, como no caso do jogador, está na junção da palavra "negro" com a expressão claramente ofensiva: "de merda". É portanto uma ofensa com intenção racial, punida por nossas leis. O Grafite teve a coragem de denunciar e fez muito bem. Para os que experimentam cotidianamente a agressão à sua humanidade pela cor da pele, é lógico que um ataque como o que sofreu Grafite não é só a junção da palavra "negro" + a palavra "merda". A operação racista promove uma identificação entre essas duas palavras, que remete a uma história específica de escravidão, exclusão, discriminação.

Será que é tão difícil entender isso? Será que a maioria dos brancos brasileiros continuará agindo de maneira nervosa e defensiva quando o tema é discriminação racial? Será que não está faltando a humildade de sentar e escutar as vítimas um pouquinho? Parar de pressupor que se sabe o que é racismo sem nunca ter sido vítima dele? Que tal se todo mundo que argumentou aqui contra as cotas para negros nas universidades tomasse os próximos dias para conversar com um secundarista ou universitário negro sobre o assunto? Que tal se todos os que criticam a iniciativa procurassem informar-se sobre os resultados da UERJ, que mostram que os cotistas tiveram aproveitamento em média superior aos não cotistas? Que na verdade a convivência foi não só excelente como instrutiva para os não-cotistas, que insistentemente disseram que tomaram contato com realidades que não conheciam?

No momento em que a blogueira Daniela ofereceu links que levavam a estudos sobre o tema das cotas, o blogueiro Ricardo Montero – que é amigo do Biscoito – respondeu dizendo: não vou acessar seu link por já ter pesquisado o assunto quando escrevi alguns artigos para o jornal do Centro Acadêmico de Direito/USP, há uns três anos. Ora, em qualquer universidade séria, se eu disser que não vou olhar uma referência bibliográfica porque há três anos escrevi sobre o assunto, vou receber uma gargalhada na cara. Diga-se de passagem que foram nos últimos três anos que nós, apoiadores das cotas para afro-descendentes, vimos nossos argumentos repetidamente confirmados por estudos feitos tanto no Rio de Janeiro como na Bahia.

E no entanto, a atitude da grande maioria das pessoas que se propõe a combater as cotas para afro-descendentes tem sido: não ler a bibliografia disponível, bater pé em que as cotas “criariam discriminação” mesmo quando todos os estudos sugerem o contrário, insistir que “seria impossível porque brancos se aproveitariam disso” (como se tais brechas não existissem em tudo quanto é lei de reparação ou redistribuição social), argumentar que “no Brasil é impossível saber quem é realmente negro”, como se essa dúvida alguma vez existisse quando se trata de violência policial ou de uma discreta sugestão de que se use o elevador de serviço.

Em outras palavras: dizer sou contra as cotas porque sou contra o racismo é uma asneira sem tamanho, só enunciável por quem não tem idéia do que é ser vítima de racismo - eu não digo que eu a tenha, mas digo que nos últimos 20 anos tenho tentado ler um pouquinho sobre o tema e acima de tudo escutar o relato da experiência de quem é vítima. Acredite-se, igualar racismo com medida reparatória a favor de vítimas do racismo é uma triste fantasia do privilegiado que quer continuar cego ante seu privilégio. É uma operação pobre, moral e intelectualmente. Igualar 450 anos de discriminação, séculos de escravidão, constante desumanização da população negra, violência policial e elevadores de serviço, igualar tudo isso a uma medida reparatória, chamando as duas coisas de “racista”, é pura e simplesmente recusar-se a discutir a questão com um argumento de má fé.

Em suma, não tenho nada contra brancos. Inclusive, alguns dos meus melhores amigos são brancos. Não me importaria, de forma nenhuma, que minha filha se casasse com um branco. Mas acho que entre os brancos brasileiros ainda falta relaxar geral sobre o tema raça. Ele não vai desaparecer. Se quiser criticar a iniciativa das cotas, sou todo ouvidos. Agora, nesta discussão eu só presto atenção aos argumentos de quem procurou informar-se e refletir um pouquinho sobre o tema. Quando alguém que nunca foi vítima de racismo e não dá mostras de ter, sobre ele, refletido muito, vocifera que as cotas são racistas, eu só posso concluir que o tema incomoda e essa pessoa quer sufocá-lo.

Que tal se todo mundo procurasse hoje ou amanhã ouvir o depoimento de alguém que já foi vítima de racismo e ler um pouquinho sobre o assunto? E voltasse aqui para falar do tema das cotas? Não acho que todas as pessoas sensatas tenham que defender políticas estatais reparação para a população negra, como o fazemos eu e Daniela. É possível ser contra as cotas com argumentos bem-informados. Mas ainda não foi o caso de nenhum que eu tenha ouvido aqui neste Biscoito.

PS 1: Alexandre Cruz Almeida morreu e nasceu Alexandre Castro; com este nome o enfant terrible blogará e doutorar-se-á. Quem puder, que deixe lá votos de axé ao novo nome.

PS 2: Dentro de algumas horas pego o avião para Williams College para dar duas palestras, uma sobre Chico Science e outra sobre o tema da violência. Só volto na terça-feira. Nesta segunda e nesta terça haverá blogueiros convidados no Biscoito. Quem serão? Aguardem.



  Escrito por Idelber às 00:07 | link para este post | Comentários (68)



sexta-feira, 15 de abril 2005

Sobre a ofensa racista a Grafite, a prisão de Leandro Desábato, o racismo no futebol e as trapalhadas de Agnelo Queiroz

argentino-preso-2.jpg

Quilmes e São Paulo jogaram anteontem em São Paulo pela Libertadores. O jogo da Argentina havia registrado agressões racistas aos jogadores negros do São Paulo, pelas quais o clube cervejeiro argentino desculpou-se numa carta enviada ao Tricolor que, por sua vez, devolveu ao Quilmes um aceite do pedido de desculpas. Tudo isso antes da peleja de anteontem.

Aí a coisa aconteceu pela segunda vez, desta feita em território pindorâmico: Leandro Desábato xingou mais de uma vez, com epíteto racista. Grafite, que foi expulso do jogo por reagir com agressão, apresentou queixa. O delegado Dr. Nico, depois do jogo, acatou e prendeu Leandro. O argentino já passou duas noites em cana e deve ser liberado depois de fiança nesta sexta. Não se sabe quanto tempo terá que ficar em território brasileiro para trâmites legais. O crime de racismo é inafiançável no Brasil, mas Leandro foi enquadrado em crime de injúria com agravante em discriminação racial, este sim, fiançável.

O evento ocupou a página de esportes da Folha, do Globo e foi notícia no New York Times. Já é, sem dúvida, um caso que estabelece precedentes.

Como acontece sempre que uma vítima de racismo busca amparo legal, alguém tem que dizer um absurdo, e dessa vez quem se prestou a isso foi Marcelo Tas que, mal iniciado o desenrolar do episódio, falou de "tempestade em copo d'água" e decretou que acusar o argentino de racismo como se o cara fosse um Hitler, pra mim passou do ponto. A partir daí, Tas passou a ser esmigalhado pelos seus próprios leitores, por ter tão monumentalmente perdido a oportunidade de ficar calado.

Eu jogo futebol. Há uma diferença enorme entre dizer coisas como negão, maneire na caixa de ferramentas ou você quer sair na porrada, nêgo? e chegar na cara de um ser humano e dizer negro de mierda ou negrito ou negro safado, especialmente num contexto onde, na partida anterior e conforme admitido em carta de desculpas do Quilmes, já havia rolado a palavra macaco e a sugestão que se enfiasse banana em algum lugar.

Ora, meu amigo, não pode. No território da República Federativa do Brasil não pode. É lei. É lei porque ofende outro ser humano na dignidade dele. E a palavra “macaco” ou a expressão “negro de merda” só é proferida com intenção de ferir nessa dignidade. Por isso não pode.

Daí ser falsa a “explicação” de que a palavra “negro” não é “ofensiva” na Argentina. Ora, Daniel, eu falo castelhano com argentinos há 15 anos e lhe digo que não há grande diferença entre a semântica e a pragmática da palavra negro/a no castelhano de Buenos Aires e no português do Brasil. Há uma diferença na quantidade de seres humanos de raça negra e há várias diferenças culturais, com certeza. Mas não há grandes diferenças na palavra. Também no Brasil a palavra pode ter “sentido carinhoso” e também no Brasil pode ser usada “sem” conotação racial. O sentido da palavra negra é exatamente o mesmo em vou dar um sacolejo na minha nêga e em me llevo mi negra a la parranda. É a mesmíssima coisa.

Mas não foi isso que rolou no Morumbi. Ocorreu ofensa em cima de uma agressão racista que já havia rolado e sido desculpada por escrito pelo Quilmes.

Durante toda a tarde desta quinta, o Clarín fingiu não saber ou enganou-se, dizendo que Desábato havia sido preso por chamar Grafite de “negro”, manchete que foi mantida horas depois que o jogador já havia admitido haver dito muito mais. A cobertura do La Nación foi mais isenta. [Permito-me um adendo a este parágrafo às 14:30 de Brasília: é um pedido de desculpas ao meu amigo e blogueiro argentino Daniel Link que havia se referido com ironia ao argumento do cônsul argentino sobre a "inocência" do epíteto. Eu li o post de Daniel como se o dito lá fosse literal. Agradezco la corrección.].

Diz o Globo:

A versão do Grafite, que é corroborada em parte por imagens de TV, é de que o atleta argentino o chamou de filho da p..., negro de merda e negrinho. Já o jogador argentino disse que, durante a viagem, ouviu dizer que Grafite comemoraria um gol fazendo uma banana e, por isso, teria apenas mandado ele enfiar a banana - explicou o advogado do São Paulo, José Carlos Ferreira Alves.

Desábato confessou, em depoimento, ter chamado Grafite de 'negrito de mierda', confirmando também a referência à 'banana', conforme consta no boletim de ocorrência, assinado pelo jogador.

Há muitas testemunhas de como Desábato é uma pessoa super bacana. Parece que mais uma vez, ironicamente, a primeira aplicação de uma lei pega alguém de forma meio sacrificial. Mas isso não altera a justiça da aplicação da lei. Desábato foi simplesmente o primeiro a ser pêgo, porque Grafite foi lá e denunciou.

Achei que seu Nico, o delegado, agiu corretamente acatando a denúncia. Havia suficientes provas. Levaram o jogador direito, alimentaram, trouxeram policiamento para que o plantel do Quilmes saísse do Morumbi. O cônsul argentino foi à delegacia prestar assistência e fez a parte dele. Até aí tudo bem.

Aí às 17:21 o UOL noticia que a anta monumental, o ministro dos esportes que não sabe a diferença entre uma bola de gude e uma bola de basquete, o pior ministro dos esportes desde que o ministério foi inventado, o ministro dos esportes sob o qual a cartolagem corrupta recuperou todo o poder que havia perdido sob o ministro anterior, a anta albanesa divulga nota à imprensa politizando o incidente, atacando o jogador argentino que já estava sendo punido da forma legalmente cabível, e arvorando-se em paladino da causa do fim do racismo no esporte. Exatamente o que a República Federativa do Brasil não precisava neste momento: palhaçada do ministro stalinista que “comanda” o esporte sem saber o que é um centroavante. Realmente as cotas do PC do B neste governo são um desastre: um ministro da coordenação política que quer banir a palavra linkar e um ministro dos esportes que se dedica a atacar, para proveito político, um cidadão estrangeiro já preso em terrítório nacional.

Eu estava disposto a comprar briga com a imprensa argentina pela cobertura: ir lá no Clarín, especialmente, escrever cartas e tal (não vou brigar com o Olé, claro). Mas depois da palhaçada desse ministro resolvi que meu papel de cidadão brasileiro seria vir ao blog e

1) apoiar a decisão do delegado;
2) lembrar a todos que é importante observar rigorosamente os trâmites de lei e dar todas as garantias e boa vontade ao Leandro Desábato, que se arrependeu e encarou a situação com dignidade e cabeça erguida;
3) repudiar, repudiar com ênfase infinita, essa carta imbecilóide do Ministério dos Esportes, ministério que tem, deste blogueiro, nota zero pela sua performance até hoje.

Num contexto em que os incidentes racistas passam a ser mais denunciados no futebol da Europa, é certo que este caso estabelecerá precedentes. Num contexto em que o Corinthians Paulista transformou-se em Timón, o episódio acendeu a antropologia racial comparada entre os jogadores.

São 4:00 da manhã em Nova Orleans, 6:00 da manhã em Brasília. Eu sinceramente desejo que o presidente Lula escolha manter silêncio sobre esse episódio.

O papel de discussão é da imprensa, dos blogs, da sociedade civil, não dos políticos proselitistas que deveriam estar governando e não imiscuindo-se num caso que já está na justiça.

Dois lembretes: 1) quaisquer ofensas racistas aqui são apagadas (nunca aconteceu, ainda bem); 2) quaisquer ofensas ao povo argentino e à República Argentina são sumariamente apagadas também (já aconteceu uma vez, infelizmente).

Sei que esses lembretes não são necessários para 99.5% dos leitores do Biscoito, mas eles são feitos em beneficio dos outros 0.5%, porque espero uma caixa de comentários bem animada nesta sexta.

Vocês com a palavra. Debatam à vontade.



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post | Comentários (100)



quinta-feira, 14 de abril 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 8 – O Estatuto do Cigarro no Existencialismo

sartre.jpg

Balanço catastrófico da última semana:
1. Sexta à noite: 3 cigarros (culpa dos doutorandos maravilhosos de Rutgers e do prazeroso jantar .... ou seja, fora de brincadeira, culpa minha)
2. Sábado à noite: 2 cigarros (Graciela Montaldo tentou evitar)
3. Domingo: nenhum cigarro
4. Segunda: um cigarro
5. Terça: um cigarro
6. Quarta: nenhum cigarro

Estamos em meio à uma severa recaída: a operação ilusória da cabeça do viciado replica-se na repetida ilusão: vou fumar só um cigarrinho filado do amigo e amanhã não fumo mais. Justo ao terminar de ler o potente Consciência de Zeno, caí na dialética do personagem de Svevo: acreditar que se está fumando o último cigarro é um pré-requisito para fumar o próximo. O vício reproduz-se através da crença de que foi superado.

Soem as trompetas, caros Cigarro e Silêncio, Tabagista Anômimo, Quando, Onde e Como. Houve recaída no Biscoito.

Vamos exorcizar a recaída com um post sobre o cigarro na obra de Jean Paul Sartre.

Por que Sartre?

Lembrei-me dele porque 1) foi um dos filósofos mais viciadaços em cigarro; 2) deu à fumaça uma razoável importância em sua principal obra; 3) é um dos filósofos caluniados pelo sr. Olavo que – sem indicação, obviamente, de haver lido nenhum desses sessenta livros de autoria do pensador francês – dá-se o direito chamá-lo de “palhaço”, sem citar nada.

Jean Paul Sartre foi– sabe-lo-á boa parte do leitorado do Biscoito – pilar do pensamento do século XX, como romancista, dramaturgo, filósofo, cronista, crítico literário e panfletista. Sartre faz a transição entre o pensamento de Martin Heidegger (no qual ele vai buscar o postulado da primazia da existência sobre qualquer transcendência) e o humanismo pós- guerra, do qual ele mesmo é o maior representante. Sartre também é símbolo do engajamento (palavra que ele reinventou) dos intelectuais na crítica ao colonialismo. Com Huis-Clos, definiu o teatro de uma época. Com O Idiota da Família, fez (sobre Flaubert) um dos mais obsessivos estudos de um escritor jamais feitos. Com A Náusea, definiu as pautas do romance de toda uma geração francesa. E por aí vai.

Hoje estou interessado só num parágrafo de sua maior obra filosófica, L’être et le neant (O Ser e o Nada):

Na medida em que apareço a mim mesmo como criador dos objetos através da apropriação, estes objetos são eu. A caneta e o cachimbo, as roupas, a mesa, a casa são eu. A totalidade de minhas posses reflete a totalidade de meu ser. Eu sou o que tenho (Paris: Gallimard, 1943, p. 652; tradução minha).

O objetivo de Sartre aqui é criticar, claro, a identificação burguesa entre ser e ter, entre posses e existência, entre ontologia e economia. Mas o curioso é que ao dar exemplos de objetos apropriáveis, ele sempre repete o cachimbo:

O cachimbo está ali, sobre a mesa, independente, indiferente. Pego-o em minhas mãos. Sinto e contemplo para realizar a apropriação.

Por outro lado, ao cigarro, à fumaça do cigarro, Sartre recorre para exemplificar o inapropriável : ao contrário do cachimbo, o cigarro não persiste. Nada permanece uma vez cumprido o ritual do vício. A evanescência não é apropriável; ela não entra na coleção de objetos dos quais o sujeito se apropria no seu processo de constituir-se enquanto tal. O cigarro entra pela porta dos fundos da filosofia, não tem a dignidade do cachimbo, ainda que o filosófo que haja consagrado essa hierarquia tenha sido um viciadaço em cigarros. A grande contradição: Sartre não teria escrito o teba do volume se não fosse pelos trocentos cigarros que fumou no processo.

Em outras palavras, para o existencialismo o cigarro é um fantasma que não cabe na filosofia. Ao contrário do cachimbo, o cigarro não é um dado catalogável na realidade objetiva enquanto tal (ontologia) nem é objeto de relação nossa com o mundo (fenomenologia).

Nessa obra capital intitulada O Ser e o Nada, a fumaça é a única que não cabe em lugar nenhum: ela é menos que o Ser e mais que o Nada. Nem aparência nem essência. A fumaça é uma espécie de escandaloso fantasma, espectro.


PS: A blogueira Giulia está completando quatro dias sem fumar e com certeza apreciaria uma força, uma palavra amiga de quem quiser passar lá.



  Escrito por Idelber às 04:08 | link para este post | Comentários (37)



quarta-feira, 13 de abril 2005

Drops

Da-série-vai-uma-palestrinha-aí I? O blogueiro pega pela última vez um avião antes de desmontar a casa e mudar-se por um ano inteiro a Belo Horizonte. A vítima desta vez é o mui chique Williams College, em dose dupla, uma apresentação sobre a obra monumental de Chico Science e outra sobre o tema da violência e seu tratamento na literatura e na filosofia. Entro no avião domingo. Prometo desta vez não fazer beicinho de angústia no blog.

Da-série-vai-uma-palestrinha-aí II? derrida_logo.jpg

A primeira palestra do ano na pátria amada será num colóquio internacional de especialistas na obra de Jacques Derrida. O colóquio é organizado pela UNICAMP e pela UNESP e acontece em Araraquara, dos dias 20 a 22 de junho deste ano. Quem de forma mais lúcida tem escrito em língua portuguesa sobre Derrida e a experiência filosófica conhecida como desconstrução é o meu caro Evando Nascimento, que estará presente no encontro (sobre a relação entre desconstrução e literatura eu falei um pouco neste livro aqui). É provável que este blogueiro dedique sua apresentação à escrita tardia de Jacques Derrida, aquela mais dedicada a uma reflexão filosófico-política sobre as noções de justiça, de hospitalidade, de exílio. Dizem que o grande escritor e blogueiro Biajoni sairá com o seu FIAT lá de São Paulo para nos ver em Araraquara.

Da-série-linkagem: Há sete blogs argentinos linkados neste momento no Biscoito: Linkillo, de Daniel Link, Salón Mati, de Matilde Sánchez, Conejillo de Indias, de Oliverio Coelho, Rizomas, de Cosmodelia, Diario de Trabajo, de Maximiliano Crespi, Existir apenas levemente, de Xenia Norton e Ultimas de Babel, de Guillermo Piro. Não são os únicos blogs argentinos que estou lendo. São os sete que estão linkados/recomendados no meu blogroll aqui à esquerda. Agradeço ao escritor e amigo Sergio Chejfec o toque sobre os três primeiros, que me permitiram achar os outros. Algo do trabalho dos escritores Daniel Link e Matilde Sánchez eu conheço e admiro, depois posso apresentar. Daniel já fez brincadeirinha.

Da-série-caçando-bons-blogs-latino-americanos: Via Alexandre Inagaki, sempre gentil, chegam links ao excelente Elastico e o insólito Hombre que comía diccionarios. Via Alexandre Cruz Almeida chega link ao finíssimo, super-profissional blog Ecuaderno, feito por um hispano-argentino residente na Espanha (correção sobre a localização deste blog, que eu havia suposto ser equatoriano, feita às 12 de Brasília, a partir da comunicação do autor).

Da-série-fanáticos-de-extrema-direita-dedicados-a-caluniar-os-outros:
Vocês sabem quem é Dave Horowitz? Não? É um infeliz apoiador de George Bush, delirantemente pró-Israel e fanaticamente dedicado a atacar e caluniar qualquer um que se oponha à guerra de rapina do império. Pois bem, este senhor se dedica a fazer um website que inventou uma forma nova de calúnia: uma suposta rede (um "network") que une todo mundo que é contra a guerra de Bush, de Roger Ebert (o famoso crítico de cinema) e Barbara Streisend até os terroristas bin Laden e Zarqawi. Ou seja, segundo esse senhor, quem se opõe à guerra está no mesmo barco dos terroristas. Ele tenta, com calúnias, mascarar o fato óbvio de que são guerras como as de Bush que produzem terroristas como bin Laden. O Biscoito acusa: o sr. Horowitz é um caluniador. Se você lê inglês e quer ver o sr. Horowitz sendo esmigalhado por Michael Bérubé, numa das detonadas mais ferozes dos últimos tempos, clique aqui, depois aqui, logo aqui, depois e finalmente o esmagamento final, que forçou o pobre Horowitz a adulterar correspondência, está disponível acolá. Por que Michael se dedica a desmontar tantas vezes um sujeito tão mal-intencionado? Simples: porque os EUA se direitizaram tanto que extremistas como esse sr. estão conseguindo ter influência até em assembléias legislativas e no Congresso. Qual a importância de mencionar esse caluniador neo-fascista gringo aqui no Biscoito? Nenhuma, a não ser lembrar a vocês mais uma vez a direitização enlouquecida dos EUA e o nível abjeto, patético dos heroizinhos intelectuais da migalha de farrapo de pseudo-filósofo que é aquele sr. Olavo de Carvalho, que tem uma coluna no Globo. Em seu triste, infinitamente triste site, o aspirante-a-filósofo sr. Olavo dedica-se a falar de Horowitz como um dos "melhores comentaristas da imprensa conservadora". Pobre imprensa conservadora. Dr. Ho, um caluniador que qualquer dia desses acabará em sérios problemas por difamação, é um dos heróis recomendados pelo farrapozinho-de-pseudo-filósofo-de-quem-ninguém
-do-ramo-no-resto-do-planeta-nunca-ouviu-falar
. Até quando o Globo vai passar a vergonha de ter um sr. tão obviamente extremista, despreparado e picareta nas suas páginas?



  Escrito por Idelber às 02:02 | link para este post | Comentários (49)



terça-feira, 12 de abril 2005

Gosto se discute

Post-provocação com meus favoritos:

Comida: 1. indiana; 2. árabe; 3. gaúcha/pampeana; 4. caribenha (incluindo a cajun); 5. italiana

Carros: japoneses

Cinema: italiano (tem um frescor e uma leveza tão próprios, mesmo quando se trata de drama ou tragédia)

Teatro: alemão (sim, de Bertolt Brecht até Heiner Müller, é o teatro que mais me impressionou até hoje)

Conto: argentino (leitora brava, pode esbravejar: o Biscoito continua sustentando que a melhor contística do mundo se escreve em Buenos Aires)

Romance: 1. anglo-americano (a quantidade de coisas de qualidade é impressionante, mesmo que o seja também a quantidade de porcarias); 2. francês; 3. russo

Religiões: marcianas (piores que as terráqueas não podem ser)

Música: 1. brasileira; 2. estadunidense; 3. cubana (com esses três países você já tem a música que precisa para viver)

Poesia: francesa, apesar de que a maior parte do meu tempo vai para a leitura da brasileira

Televisão: nenhuma

Cervejas: 1. inglesas; 2. alemãs; 3. tchecas

Mulheres: 1. brasileiras; 2. brasileiras; 3. brasileiras

Pronto. Podem acrescentar ou quebrar o pau.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (47)



segunda-feira, 11 de abril 2005

Literatura Argentina - Biblioteca Básica

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O amigo e escritor Milton Ribeiro pediu uma lista das 10 obras “fundamentais” da literatura argentina. Com a ressalva de que daqui a 24 horas a lista poderia ser outra, eu ofereço 15, que é o mínimo ao qual eu consegui enxugá-la. É uma combinação entre textos indispensáveis e os melhores. Adoto o critério de só incluir livros publicados até 1970. Os últimos 35 anos seria outra lista, já bem mais polêmica.

1.Facundo, o civilización y barbarie (Domingo Faustino Sarmiento, 1845) – Aqui começa a brincadeira, é o livro que inventa o país. Não é literatura propriamente dita. Sarmiento, o cabeça da oposição exilada europeísta-liberal (los unitarios), escreve a biografia do caudilho Facundo, precursor do chefe populista Rosas contra cujo governo (los federales, 1829 –1853) Sarmiento arma o projeto modernizante que o levaria depois à presidência. O livro, na realidade, enlouquece e vira tudo: além de biografia de Facundo e autobiografia de Sarmiento, é geografia da pampa, coleção de mitos, naturalismo científico, libelo político, história nacional, galeria de tipos da pampa. Lê-lo é começar a entender a Argentina. Aqui se fundam as oposições chave do país: civilização x barbárie, vanguarda x populismo, ficção x realidade, liberalismo modernizante x caudilhismo populista.

2. La cautiva / El matadero (Echeverría, 1837) - também parte da turma liberal exilada, de oposição a Rosas, que funda a literatura nacional, Echeverría deixa duas obras literárias chave: La cautiva, poema narrativo que inventa a figura do “bárbaro” e El matadero, narrativa de um linchamento de um bom liberal por uma turba de federales bárbaros, sujos, popularescos. Com este último texto o liberalismo argentino antecipa o naturalismo sanguinolento do final do século e inventa a figura da massa assassina, da turba sádica.

3. Amalia (José Mármol, 1851) – última das grandes obras de oposição a Rosas, Amalia é, na minha opinião, o mais interessante romance escrito no Rio de Janeiro pré-Machado de Assis (fãs de José de Alencar, poupem este blogueiro). Ao contrário da narrativa romântica brasileira, Amalia, do exilado Marmol, não é um romance redondeado, certinho. É um enlouquecimento de 600 páginas que conta a história de dois casais de jovens liberais lutando contra o regime e tentando viver amores impossíveis. A estrutura é interessantíssima e mistura panfletos políticos, nomes reais, descrições científicas, panegíricos. A coisa não flui dialeticamente, é uma sucessão abrupta de descontinuidades. O final é doloroso, intenso, melodramático.

4. Martín Fierro (José Hernández, 1872 e 1879) – este para quem não maneja o castelhano há algum tempo é ilegível no original. Ignoro se há tradução pindorâmica. Culminação e morte do gênero da poesia gauchesca, que narra as aventuras e desventuras dos gauchos, espécie de cowboys habitantes nômades da pampa. Essa literatura emerge, claro, quando já não existem, realmente, mais gauchos na Argentina. A obra de Hernández fecha o gênero em duas partes. Em 1872 o gaucho ainda é um herói outsider, viajandão, destemido. Em 1879 já virou bonzinho funcionário estatal, incorporado como carne de canhão ao exército que lutava as guerras de fronteira para exterminar os índios.

5. Don Segundo Sombra (Ricardo Guiraldes, 1926) - Particularmente não acho interessante, mas é livro chave. Trata-se do gaucho revisitado 40 anos depois, como figura nostálgica, já sedentária e idealizada. Escrito no castelhano mais castiço de sua época.

6. Ficciones / El aleph (Jorge Luis Borges, 1944 e 1949) – Bom, sobre ele suponho que os leitores do Biscoito sabem algo. É o homem que leva a literatura ao seu grau mais alucinante de auto-consciência, de brincadeira deliberada com sua condição de artefato inventado. Mundos impossíveis e geométricos, atribuições falsas, o acaso e necessidade confundidos, o universo transformado em biblioteca. Estes são seus dois melhores livros, sem dúvida, e neles estão todos os seus grandes clássicos. É o autor que eu mais releio.

7. Los siete locos / Los lanzallamas (Roberto Arlt, 1929 e 1931) – Também de Arlt incluo dois livros porque estes dois romances são na verdade um só, o segundo continua o primeiro. Pioneiro entre os filhos de imigrantes que acederam à literatura, Arlt rompe o círculo da literatura de “patrícios” e retrata prostitutas, gigolôs, ladrões, inventores, seitas bolcheviques ou fascistas, o caralho a quatro. Sistematicamente desmonta os próprios mecanismos de prestígio da literatura. Não consigo achar um equivalente no Brasil (não, nem Lima Barreto nem João Antônio servem, porque em Arlt há uma vibração da anedota que é muito forte). Vale a pena mesmo.

8. Museo de la novela de la Eterna (Macedonio Fernández, 1967) – Publicada postumamente nesta data, mas escrita ao longo de quase cinquenta anos, o Museo é, eu insisto, um dos 20 melhores romances jamais escritos no planeta. Quem já leu sabe do que estou falando. Macedonio era um velho molambento que se mudava de pensão a pensão com seu violãozinho, largando para trás montanhas de papéis em que escrevia (sem querer publicar) o romance no qual purgava o luto pela morte da mulher Elena (a “Eterna” do título). Ele leva ao limite o gesto da vanguarda, fazendo da espera pelo romance que nunca se publicará a história mesma que se narra. O resultado são cinquenta e tantos prólogos, onde se arma uma poética invencionista, anti-naturalista do romance. Além disso, brinca-se com a espera, reflete-se sobre a escrita, a literatura e a publicação, constrói-se a figura da mulher ausente e, pouco a pouco, ao longo de centenas de páginas e dezenas de anos, chega-se ao “romance” propriamente dito, que é muito mais curto que os prólogos, e no qual os personagens não parecem seres humanos, e sim seres de papelão, como que num conto de fadas. Acredite: não há nada neste planeta que se pareça a este livro. Se eu não tivesse um trabalho, dois filhos e um blog para cuidar, eu o traduziria ao português, por puro amor à causa. É o maior piadista da literatura argentina.

9. Adán Buenosayres (Leopoldo Marechal, 1948). Este é outro que quem não maneja o espanhol teria dificuldade para ler no original. Calhamaço de 700 e tantas páginas na linha simbólica de romance-modernista saga estilo Ulysses de Joyce, escrito por um autor identificado com o peronismo e portanto atacado e ignorado pela elite intelectual de sua época, Adán Buenosayres é um mergulho nos infernos urbanos, uma peregrinação dantesca pela angústia do poeta na cidade moderna. Romance de primeira.

10. Poemas (Alfonsina Storni) – Ao contrário de outras poetas mulheres como Norah Lange, ou narradoras como as Ocampo, Storni acede à escrita marginalizada não só como mulher mas também como membro de uma classe social “não-patrícia”, “não aristocrática”. Seus poemas de amor resvalam e incorporam o feminismo e a força da sua dicção desestabiliza as convenções poéticas do momento. Ainda hoje é de minhas poetas favoritas.

11. Zama (Antonio di Benedetto, 1956) – Narra, em linguagem finíssima, a aventura de um funcionário do império espanhol que espera sua transferência de Assunção a Buenos Aires. Claro que isso é só o pretexto. Benedetto consolida uma tradição na literatura argentina que dá voltas meticulosas a pequenos fatos da experiência. É a frase mais densa e sugestiva de sua época. Vejam do que falo: Y yo así, sin unos labios para mis labios, en un país que infinidad de francesas y de rusas, que infinidad de personas en el mundo jamás oyeron mencionar; yo ahí consumido por la necesidad de amar, sin que millones y millones de mujeres y de hombres como yo pudiesen imaginar que yo vivía, que había un tal Diego de Zama, o un hombre sin nombre con unas manos poderosas para capturar la cabeza de una muchacha y modelarla hasta hacerle sangre. É o romance do exílio perpétuo, pérola de lirismo.

12. Operación Masacre ou Cuentos (Rodolfo Walsh). Com o primeiro livro Walsh funda o gênero conhecido como literatura testemunho, relatando com rara potência o massacre de militantes trabalhadores depois da derrocada do peronismo em 1956. Trata-se de um livro fundamental para a história da literatura, do jornalismo e da imprensa no país. Mas os meus favoritos são os contos, com os quais Walsh consolida a rica literatura policial da Argentina.

13. Contos (Silvina Ocampo) - fundadora da mais importante revista literária da elite argentina da primeira metade do século, Sur, amiga de Borges e peça chave na articulação do bloco literário hegemônico do seu momento, Silvina Ocampo é uma hábil manipuladora dos códigos do relato fantástico.

14. Contos, especialmente Bestiario e Final del juego (Julio Cortázar) – de Cortázar nós falamos a semana inteira, não há mais o que dizer. Alguns de seus contos tardios são chatíssimos. O livro que produziu mais impacto foi Rayuela (O Jogo de Amarelinha, 1963). Mas o que realmente ficou são esses livros de contos.

15. En estado de memoria (Tununa Mercado, 1990) Minha única exceção à regra de não incluir textos pós-1970. Em parte por que amo este livro, em parte porque tenho uma tradução inédita dele ao português que posso oferecer (com autorização da autora) para quem quiser ler. É o relato autobiográfico de uma mulher casada que se exila no México durante a ditadura e que começa, de forma ao mesmo tempo íntima e distanciada, revisitar sua trajetória, sua história política, sua relação com a análise. Texto de uma finura incomum. Quem quiser lê-lo em português, na tradução ainda inédita deste blogueiro, é só passar um email.

Pronto, taí, com a exceção de Tununa, os 15 livros fundamentais de 1837-1970 na Argentina, na minha opinião. Agora, quem serão os leitores maravilhosos e colaboradores que confirmarão, onde for, quais desses livros estão disponíveis em português? Borges, Cortázar e Arlt eu tenho certeza que estão. Tununa, di Benedetto e Macedonio eu tenho certeza que não estão. O resto é com vocês.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post | Comentários (35)



sábado, 09 de abril 2005

Post semanal de metablogagem

Eu não poderia começar o post de hoje sem dar uma satisfação a vocês que me deixaram mensagens de encorajamento no momento da angústia da preparação da palestra sobre Julio Cortázar aqui em Rutgers. A palestra correu maravilhosamente. Foi do caralho. Auditório lotadaço. Aperitivos de vídeos com a voz de Cortázar para começar. O grande Tomás Eloy Martínez recordou sua amizade com Cortázar num depoimento comovente. A palestra do blogueiro foi muito bem recebida: gerou perguntas e um debate no qual dirimiu-se completamente o medo de que minha interpretação “crítica” não fosse bem aceita num evento de “homenagem”. A galera basicamente concordou com minha leitura. A discussão continuou durante a tarde, num belo almoço.

Já fui bem tratado em vários lugares, mas este extraordinário departamento de Rutgers passou dos limites. Meu muito obrigado a Marcy Schwartz, que organizou o evento; a Tomás Eloy Martínez, a Graciela Montaldo e a Sergio Chejfec (olho neste escritor, meu caro Ina!), pela recepção amiga. Muito obrigado também a um carinhoso grupo de alunos de pós-graduação (todos do Cone Sul: chilenos ou argentinos) que me levaram para jantar. Sou muito grato a Julieta (que já passou pelo blog), Macarena, Selma, Alfredo, e o casal Felipe e Claudia (e sua filhinha Elisa, bebê tranqüilíssimo). Esta galera já tem onde dormir quando passear em Nova Orleans ou em Belo Horizonte. Eu já falei isso com vocês: se há uma coisa que mineiro não esquece é de quem o recebe bem, com hospitalidade.

Desculpem esses dois parágrafos de rasgação de seda, mas eram necessários. Eu fui tratado bem demais aqui. Na manhã deste sábado saio do hotel mas fico mais um dia em New Jersey. Passo o próximo dia e noite na casa de meus amigos argentinos Graciela e Sergio.

Comecei a achar os sinais de vida inteligente na hispanoblogosfera. É verdade que há muito pouco e que ela não se compara com a nossa. Mas hoje descobri que o editor do suplemento cultural do Página 12, meu caro Daniel Link, de nome bem apropriado, já tem o seu blog. Ainda não escrevi ao Daniel. Podem ir lá assustá-lo com uma enxurrada de visitas. Avisem que falta uma caixa de comentários. Mas o blog é bom.

Por falar em Link, sem trocadilhos, o Biscoito Fino e a Massa linkou hoje sete novos blogs: o belíssimo literário coletivo Focando, o singelo mas potente Bula Bula, o inteligente Rei Açúcar, a nossa amiga teen Menina Prodígio, a minha fiel leitora e blogueira Roberta Febran, o finíssimo Cadernos de Escritura e o sucinto mas constante Cria Minha, o primeiro blog cruzeirense linkado no Biscoito, o que prova nosso compromisso com a tolerância e com o respeito às opiniões divergentes, por mais absurdas que sejam (brincadeirinha, viu Fefê?). Por isso eu não peço nem retribuo link: mantenho o direito de linkar quando já estou lendo e recomendando.

Aqui vai um genuíno parêntesis: todos os novos links, feitos depois da mudança do UOL, aparecem normalmente aqui à esquerda, mas quando estamos dentro do permalink de um post específico, só aparecem listados os blogs já linkados na época da mudança. Alguém saberá por quê? Na certa o grande Fábio ou o grande Rafa terão a resposta, e ela será simples, mas se for muito simples, deixem na caixa de comentários que eu arrumo.

Este blogueiro chegou à preocupante situação de estar lendo 120 blogs regularmente. Se está linkado aqui à esquerda é porque eu visito, em intervalos nunca maiores que três ou quatro dias.

Um par de comentários de ontem, junto com alguns outros do passado, me provocaram a vontade de preparar e prometer para amanhã um novo post: tudo o que você sempre quis saber sobre a Argentina e não tinha blogueiro para perguntar! Se tiver curiosidades sobre história ou cultura ou política argentinas, deixe as perguntas aqui hoje. Obviamente não prometo ter resposta para tudo, mas se não tiver eu procuro. Quero contar-lhes um pouco sobre a história do peronismo, e porque eu acho o momento político argentino tão cheio de transformações reais. Prometo não fazer nenhuma comparação com um certo governo latino-americano do qual se esperava muito.

A caixa de comentários do post de ontem é das melhores da história do Biscoito. Compusemos uma verdadeira coleção de casos de blogueiros conhecendo seus ídolos: Cláudio Simões conta um insólito encontro com Caetano, Felicia narra um lindo encontro com Saramago, Leila nos dá umas das mais belas descrições do presidente Lula e Viva relata uma impressionante visita de Paulinho da Viola. Há muito mais, não deixe de conferir e acrescentar a sua também, se ainda não o fez. Valeu.

PS de atualização, 10 de abril, 19:30 de Brasília: Há uma informação desatualizada neste post, culpa do vício incontrolável por blogs, que já não me deixa tempo para ler jornais com a atenção que deveria. Meu caro Daniel Link me informa que já há nove meses ele não é o editor do caderno literário do Página 12. Minha informação estava uma gravidez atrasada! Fica o agradecimento ao Daniel e a correção.



  Escrito por Idelber às 00:41 | link para este post | Comentários (30)



quinta-feira, 07 de abril 2005

Como é conhecer um ídolo?

No jantar desta quinta-feira conheci um grande ídolo meu, um escritor que eu leio há tempos e que nunca havia conhecido pessoalmente: Tomás Eloy Martínez, na minha opinião o maior escritor latino-americano de hoje, autor de O Romance de Perón, O Cantor de Tango, Santa Evita e O Vôo da Rainha, todos disponíveis aí no Brasil. Conhecer pessoalmente um ídolo sempre é complicado, não é? Criam-se expectativas. Você fica com medo de falar bobagem ou com receio de achar a pessoa chata ou arrogante.

Estes receios caíram por terra na primeira saudação de Tomás no restaurante etíope onde jantamos. Daí prá frente foi como se fôssemos velhos amigos. Ele nos encantou com suas histórias – éramos seis, quatro anfitriões e dois convidados. Foi, como deveria ser, o centro da conversa. Contou-me que prepara um novo romance que se passa na época da ditadura argentina mas que, ao contrário de todos os outros romances sobre o tema, é narrado do ponto de vista de uma simpatizante da ditadura. Falamos das excelentes traduções dos seus romances no Brasil. Como bons argentino e brasileiro, falamos de futebol; e obviamente falamos de blogs. O pessoal da mesa se entusiasmou com essa história de blogs que, como eu já lhes disse, é meio desconhecida para os acadêmicos.

A alegria de conhecer Tomás me lembrou de todas as vezes em que conheci ídolos meus. Quando conheci a escritora argentina Tununa Mercado minha admiração por ela se multiplicou. Quando conheci Jorge Mautner tive a sensação de ter sido amigo dele desde sempre. Por outro lado, quando conheci Chico César (no JazzFest de New Orleans do ano 2000) fiquei com a péssima impressão de uma pessoa que era ao mesmo tempo arrogante e subserviente: ao mesmo tempo que nos tratava com certo descaso, pedia desculpas profusamente por não falar inglês, que é o que mais me irrita em alguns convidados latino-americanos que, afinal de contas, se estão sendo convidados, será por seu trabalho em seus países de origem, não é? Enfim, Chico César deu belos shows em New Orleans e foi profissionalíssimo, que fique claro. Mas não me encantou, digamos.

Deixo com vocês esse relato e a pergunta: você já teve alguma terrível decepção conhecendo um ídolo? Já teve a confirmação de uma admiração?

PS: Eu sei que vocês vão acabar expulsando-me deste blog se eu continuar enchendo a bola da cultura e da política argentinas, mas eu tenho que dizer isso: quanto mais eu me decepciono com o presidente Lula, mais eu admiro o presidente Kirchner. Eu evitei me pronunciar sobre o papa, porque não queria ofender os católicos num momento de luto para eles, mas aqui vai uma pergunta completamente laica: Será que é realmente necessário levar ao Vaticano uma comitiva de dezesseis pessoas que inclui rabino, mãe-de-santo, xeque de mesquita e pastor luterano (além, claro, de Severino, Calheiros e cia.), todos viajando às custas do estado?

PS 2: papeiem à vontade sobre esses temas. Quando vocês estiverem lendo este post eu já estarei dando, ou terei dado, a palestra sobre Julio Cortázar. Depois conto como foi. Obrigado, de novo, pelas lindas mensagens de ontem.



  Escrito por Idelber às 22:18 | link para este post | Comentários (37)




Palestra, Avião, Angústia

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Parte do objetivo deste blog era divulgar um pouco o que faz um professor universitário. Parte era criar um espaço onde eu pudesse falar com uma voz que não fosse a de professor universitário. Vamos ver se a gente combina essas duas coisas neste post.

Hora de entrar no avião, dar palestra: eu morro de angústia. Acho que já dei umas 300 nesta vida, mas na hora de embarcar a angústia é a mesma. Em 12 horas eu pego o avião. Sou o “keynote speaker” (palestra de encerramento, de gala) de um congresso sobre o escritor argentino Julio Cortázar em Rutgers University. Não é uma circunstância tranqüila: a platéia inclui um dos três maiores, senão o maior escritor argentino de hoje, Tomás Eloy Martínez, a crítica literária que eu mais admiro neste planeta, minha amiga argentina Graciela Montaldo e duas experientes especialistas em Cortázar, Marcy Schwartz e Diana Sorensen.

Ou seja: é o vigésimo aniversário da morte de um herói nacional argentino e uma platéia de pensadores argentinos aguarda este blogueiro brazuca, que tem que fechar a brincadeira. É para se sentir intimidado ou não é?

Considerando-se que não farei uma “homenagem” à Cortázar, mas questionarei os termos um pouco simplistas, meio lisos demais, em que ele concebeu a relação entre arte e política, não deixa de ser uma situação para se preocupar. Não vou resumir a palestra aqui, mas a apresentação será uma saculejada-zinha nos termos em que Cortázar concebeu o conteúdo “político”, “revolucionário” da sua arte, desde a época em que ele era um jovem boêmio escrevendo alegorias da invasão peronista, passando pelos contos em que o fantástico oferece uma porta emancipatória até os contos tardios, vanguardista-políticos, em que a arte engajada sempre oferece uma saída. Em todas estas fases, permanece uma posição relativamente invariável, confortável para o artista-homem. Essa posição relativamente confortável para o artista de vanguarda, construída por Cortázar nos seus contos, é o que o blogueiro pretende questionar e criticar na palestra. Quem quiser ler alguns dos contos mais célebres de Cortázar e explorar este tema, o link é este.

Digamos o seguinte: é como se um argentino especialista em samba adentrasse a UERJ ou a UFRJ para apresentar uma palestra sobre Noel Rosa a sambistas cariocas, na qual esse argentino propusesse uma leitura crítica, não celebratória, de Noel. Imaginam? Este é o contexto dessa palestra sobre Cortázar que eu tenho que dar na sexta-feira. Não deixa de ser uma situação em que há que se ter cuidado.

Nessa trajetória de 10 anos de especialista em literatura argentina, eu já me senti tenso algumas vezes. Mas sempre fui bem recebido entre os argentinos. Isso é incrível, porque eu sou brasileiro, neste período nós fomos campeões do mundo de futebol duas vezes, a literatura de ficção da Argentina está entre as mais ricas do mundo e a crítica literária deles é infinitamente mais desenvolvida que a nossa. Sim, uma vez aconteceu um barraco terrível numa palestra minha em Buenos Aires, mas os que me atacavam eram basicamente gringos e os que me defendiam eram basicamente argentinos.

Na preparação da palestra desta sexta-feira, passei por muitas horas de angústia: angústia de já não ser realmente um especialista em literatura hispano-americana (já que eu passo 60% do meu tempo lendo blogs brazucas, de forma enlouquecida e irreversível) e, acima de tudo, angústia de não querer dedicar-me à escrita acadêmica, estando já viciado em escrita blogueira.

Nesta quinta de manhã pego o avião e sei que me sentirei da mesma forma, como se a palestra não estivesse pronta, como se fosse necessário ficar mais uma noite acordado, como se o sofrimento antecipado fosse o ingresso para outro sucesso. Amanhã à noite estarei em outro hotel desconhecido, dando retoques em um texto que não sei como será recebido.

Na sexta, às 11 horas de Nova Jersey, 12 horas de Brasília, eu encaro o auditório. Se houver boa conexão no hotel nesta quinta à noite eu postarei algo para vocês, nem que seja um link, um poema, um afago ou o compartilhamento da angústia da insônia da véspera.



  Escrito por Idelber às 01:28 | link para este post | Comentários (28)



quarta-feira, 06 de abril 2005

Congratulations, Michael Bérubé

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O meu blog favorito chegou hoje à incrível marca de 1 milhão de leitores em quinze meses de existência! E não é um blog de mulher pelada, não: é pensamento crítico e, às vezes, sátira, da mais fina.

Michael Bérubé é personagem central dos chamados 'Estudos Culturais', corrente universitária à qual eu também pertenço, e que busca elaborar instrumentos de análise de formas pop (canção, cine, TV, cultura online) que mantenham tanto o compromisso político progressista como o diálogo com a filosofia européia do século XX. Ser seu colega em Illinois foi um grande aprendizado e ter mantido a amizade ao longo dos anos, outra alegria. Michael tem sido uma de nossas principais vozes nas trincheiras que tivemos que armar contra a avalanche cultural da direita nestas últimas duas décadas nos EUA. Uma dessas trincheiras é o livro reproduzido acima, Public Acess. A história dessas várias polêmicas pode ser acompanhada em alguns de seus ensaios.

Quando nasceu seu segundo filho, Jamie, diagnosticado com Síndrome de Down, Michael passou a ler tudo o que havia sobre o tema. Dentro de um par de anos, era uma das maiores autoridades do assunto e havia produzido este cativante livro, Life as we Know it,

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que conta toda sua relação com o campo dos estudos da deficiência e o seu amor por Jamie, claro. Diga-se de passagem que hoje Jamie é um feliz garotão de 6a série, queridíssimo, com rendimento fantástico na escola e planos de ser biólogo marinho.

Para comemorar esta mui especial ocasião, Michael Bérubé ofereceu de presente ao milionésimo leitor o mais recente livrinho deste escriba, The Letter of Violence. Propagandazinha de graça, hoho.

Agradeço ao Michael esse jabá e parabenizo-lhe pelo milionésimo leitor. O post desta especial ocasião foi Bérubé no melhor estilo, desmontando a mais sofisticada leitura que os conservadores conseguiram produzir do caso Schiavo. Quem quiser, pode passar lá no Michael e dar os parabéns - by the way, ele entende português.



  Escrito por Idelber às 12:56 | link para este post | Comentários (2)




"Continuidade dos Parques", de Julio Cortázar

Relato publicado no segundo volume de contos do autor, Las armas secretas (1956). O original castelhano pode ser lido aqui ou ouvido, na voz do autor, aqui.


Tradução ao português de Idelber Avelar


Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns aluguéis, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte.

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam aboninavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasso sem dó nem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Da direção oposta ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada carpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.



  Escrito por Idelber às 01:39 | link para este post | Comentários (12)



terça-feira, 05 de abril 2005

Orgiástica Comemoração Basquética

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Hoje o Biscoito não bloga sobre nada. A Carolina do Norte, minha primeira escola, é campeã nacional de basquete!

Em 1990, eu saí de BH porque uma certa universidade daqui me prometeu uma bolsa: a cidade em questão se chamava Chapel Hill. O bichinho tinha 40.000 habitantes e recebia um futuro-blogueiro que havia jurado nunca morar em nenhum lugar onde não houvesse pelo menos 500.000 seres humanos. Eu me enganei com aquele pueblo. Tinha 40.000 habitantes, mas lá havia mais fítas VHS com filmes indianos do que em todo o território brasileiro, mais restaurantes mediterrâneos que em toda Buenos Aires. Seriamente cosmopolita, o lugar. A cidade tem uma linda história: o ultra-reacionário senador republicano Jesse Helms uma vez fez campanha prometendo colocar uma "cerca" em volta da cidade. O astral é leve, progressista, hospitaleiro. Digamos o seguinte: é o que seria Curitiba se ela tivesse o tamanho de Caxambu.

Lá eu morei seis anos, fui lindamente recebido. A Universidade da Carolina do Norte é a mais antiga universidade pública dos EUA e peça chave na história da desmontagem do racismo no sul do país. O grande técnico do time de basquete durante as décadas de 1960-90, Dean Smith, é conhecido por seu papel chave nos sit-ins anti-racistas dos anos 60 (estilo: vou sentar aqui neste restaurante com meus amigos negões e quero ver quem vai deixar de nos servir, vai dizer?). Admiração, admiração infinita por Dean Smith. Em Carolina Michael Jordan aprendeu não só a ser o melhor basqueteiro do mundo, mas também a ser homem. Eu tenho orgulho de ter um mestrado em literaturas luso-brasileiras pela Universidade da Carolina do Norte (a tese foi sobre o primeiro e único Guimarães Rosa). Torço fervorosamente por eles no basquete.

Na grande finalíssima da noite de hoje contra Illinois, Carolina mostrou porque é a grande escola do basquete. O blogueiro Michael Bérubé cantou vitória para Illinois antes da hora, aceitou minha aposta e me deve uns pacotinhos de livros.

Foi memorável a festa. Para informação geral, o blogueiro não fumou nenhum cigarro.

PS futebólico 1: não percam os extraordinários textos de Ubiratan Leal sobre o esquema de Parreira, sobre o aniversário de um dos mais legendários clubes de futebol do mundo, o grande Boca Juniors e sobre o que teria sido do futebol brasileiro se não se houvessem desenvolvido os campeonatos estaduais.

PS futebólico 2: quanto ao estado das previsões do Biscoito, acertamos São Paulo e erramos Rio e Minas. Tudo indica que acertaremos Rio Grande, Goiás e Pernambuco. A final do Paraná é Atlético e Coritiba, portanto tudo pode acontecer. O Biscoito aposta no Furacão. Dando tudo certo manteremos a média do ano passado, de acertar uns 70% dos palpites.

PS futebólico 3: No quesito bibliografia acerca do futebol, não há dúvida, a Argentina nos dá de 10 x 0. Só agora começaram a sair em massa bons livros sobre o futebol em português. Sugiro três, muito em especial: sobre as falcatruas da FIFA há Como eles roubaram o jogo, de David Yollop (acerca dele ver posts do Rei Açúcar e do Ubiratan), sobre as origens do futebol no Rio , Footballmania: Uma História Social do Futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938, de Leonardo Affonso de Miranda Pereira e sobre a história das relações futebol-política Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional, de Giberto Agostinho.

PS futebólico 4: Tostão mais uma vez deu show de bola na sua coluna do domingo na Folha. Diz o mestre Tusta: houve contra o Uruguai uma seleção brasileira sem áudio e outra com áudio -a da TV Globo, que transmitiu o jogo. A seleção sem áudio, real, jogou com muita garra, marcou bem no meio-campo e na defesa, mas teve pouquíssimo brilho. Do meio-campo para a frente, ficava embolada com três duplas na faixa central (dois volantes, dois meias e dois atacantes). Ninguém atuava pelos lados . . . A seleção com áudio, a que é assimilada e repetida pela maioria das pessoas e que passa a ser a verdadeira, fez uma grande partida, além de jogar com garra. Parecia que o Brasil dominava o jogo e que as grandes chances de gol eram da seleção brasileira. Tostão diz tudo com uma classe impressionante. O que fazem a Rede Globo de Televisão e o Sr. Galvão Bueno nas transmissões de futebol da seleção brasileira é um atentado contra o público, contra o Brasil, contra a objetividade, contra o jornalismo esportivo e contra a inteligência de qualquer ser humano que saiba diferenciar um escanteio de um arremesso lateral. É uma palhaçada, pura e simplesmente. É uma questão de democracia derrubar a voz desse homem.

PS 5: Contei que nós somos campeões?



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segunda-feira, 04 de abril 2005

Caso Importante na Suprema Corte Americana envolvendo Direito Intelectual

É um caso que vai estabelecer precedentes no tratamento da lei de copyright, portanto é bom acompanhá-lo de perto: a Suprema Corte dos EUA começou a ouvir esta semana os argumentos do processo MGM versus Grokster. Mais uma vez posando de defensor dos criadores intelectuais, o cartel do entretenimento, capitaneado pela MGM, quer fazer o sofware Grokster responder pelas trocas ilegais de arquivos feitas na internet com o programa. Os advogados do Grokster argumentam – logicamente – que o programa foi desenvolvido para usos legais e que os criadores do software não tem controle sobre os usos dele feitos na internet. Impugná-lo porque há usos ilegais do mesmo seria como ter proibido a máquina de xerox quando ela foi inventada.

Há tempos a indústria do entretenimento vem tentando estrangular o compartilhamento de arquivos na internet, fazendo dele um bode expiatório para a severa crise que atravessam as indústrias discográfica e cinematográfica. Lembremos o óbvio: não há nenhuma prova de que haja uma relação causa-e-efeito entre o desenvolvimento de tecnologias de compartilhamento de arquivos online e a paulatina queda das vendas da indústria de discos e de bilheterias na indústria de filmes.

Espera-se uma decisão final no MGM v. Grokster para junho ou julho. O Biscoito, interessado em questões de copyright e direito intelectual, acompanha de perto.

PS de esporte 1: O Biscoito comemora seu primeiro acerto nas previsões para os campeonatos estaduais. Em fevereiro contrariamos os especialistas e previmos corretamente que o caneco iria para o São Paulo, que faturou ontem o título com duas rodadas de antecedência.

PS de esporte 2: O Biscoito saúda Lucia Malla e toda a torcida do Fluminense, pela bela tamancada de ontem no Flamengo. Como é linda essa camisa do Flu com listras verticais verde, grená e branca. Que os amigos flamenguistas não fiquem bravos: pelo time que tinham, sabem que chegaram longe demais.

PS de esporte 3: Eu passei pelo site Colorado Portão 8 e fiz o vestibular da história do Sport Club Internacional. Olha que chique: acertei todas as vinte perguntas, e juro que não "guglei" nenhuma.

PS de esporte 4: A TV a cabo brasileira passa o jogo final do basquete universitário estadunidense? Ele acontece na noite desta segunda, às 8:40, horário da costa americana leste, 11:40, horário de Brasília. Se for passar, eu recomendo mesmo. É muito bom.



  Escrito por Idelber às 02:30 | link para este post | Comentários (20)



domingo, 03 de abril 2005

Drops

cortazar.jpg

Este blogueiro volta à estrada: na quinta-feira pego o avião rumo a Rutgers University, estado de New Jersey, para dar uma palestra sobre Julio Cortázar. Celebram-se 20 anos da morte do grande contista argentino e Rutgers desafiou o blogueiro a dizer algo novo sobre a figura. Vocês sabem quanto já foi escrito sobre Cortázar? Uns 87 livros e 342 artigos. Com vocação irreversível para palhaço, o blogueiro aceitou o desafio de dizer algo novo sobre Cortázar, nesta sexta-feira em Rutgers. Tenho idéia de por onde começar? Ainda não. Ao longo da semana vocês compartilharão a angústia.

Basquete universitário: minha querida Universidade da Carolina do Norte massacrou nas semifinais e joga a finalíssima na segunda-feira, por coincidência contra a Universidade de Illinois, primeiro lugar onde trabalhei. Meu bróde véio e blogueiro favorito Michael Bérubé, que torce por Illinois e com quem eu trabalhei lá, encarou uma aposta na quinta e confirmou-a esta noite: se Illinois ganha a final contra Carolina, eu lhe envio a mesma compilação de 120 canções brasileiras em 6 CDs que eu sorteei aqui no Biscoito. Se Carolina ganha, eu recebo de presente exemplares autografados de Aesthetics of Cultural Studies (a nova coleção de ensaios que anfitriona Michael sobre o estudo da cultura) e Life as we Know It – a linda história da relação de Michael com Jamie, seu segundo filho, que nasceu com Síndrome de Down, e que levou o pai a ler tudo que havia sobre o assunto e a transformar-se numa das grandes autoridades do campo conhecido como "disability studies". Então está rolando a aposta. O jogo é segunda à noite e é a grande final do basquete universitário. Vai passar em algum canal da TV a cabo aí no Brasil? Se for passar é imperdível, escutem o que digo: o basquete universitário é muito mais interessante que a NBA.

Da série quando-eu-digo-no-Brasil-que-os-EUA-enlouqueceram-ninguém- acredita: como talvez nem todo mundo saiba, nos EUA as pílulas anti-concepcionais só são vendidas pelas fármacias com receitas médicas. Como talvez nem todo mundo saiba, o sistema de saúde nos EUA é controlado por meia dúzia de 2 ou 3 conglomerados de companhias de seguro. E como talvez nem todo mundo saiba, esses conglomerados funcionam em sólida aliança com a direita religiosa fanática que está no poder desde o ano 2000. Pois bem, decidiram em definitivo invadir o corpo das mulheres: um dos meus blogs feministas favoritos, o Bitch Ph.D., denuncia que até para receber a pílula você tem que agüentar, se der azar, um "farmacêutico cristão" pentelhando seu ouvido e negando-se a cumprir a lei e a entregar-lhe a porra do remédio. Para piorar o escândalo, há 11 assembléias estaduais estadunidenses debatendo a aprovação de leis que regulamentam “direitos de consciência” para que um “farmacêutico se negue a seguir a lei por motivos religiosos". Ou seja, pelo mero motivo de que sujeito tenha uma religião, ele é dispensado de lhe ceder o raio do remédio que o médico receitou, ao qual você, como mulher, tem direito constitucional. Você imagina isso? “Eu sou cristão, então não sou obrigado a lhe ceder este anti-concepcional”. Cospem no juramento hipocrático. É a paulatina queda dos EUA no fundamentalismo religioso.

Da série maravilhas que eu aprendi com Bibi’s Box: uma coleção de fotografias russas, arquivos sonoros radiofônicos e a Bíblia Gutemberg. A todos esses três sites eu cheguei via Bibi, essa maravilhosa colecionista benjaminiana da internet. Aliás, vocês sabiam que 27% dos leitores de Bibi vêm dos Estados Unidos?

Da série morro-de-raiva-vendo-futebol: Pude assistir o video-tape do nosso empate com a Província Cisplatina na quarta-feira. O blogueiro continua com sua opinião trotskista: enquanto não acabar essa punhetagem volântica do Parreira, não dá. Êta time irritante, amarrado, enjoado, desapaixonado.

O blogueiro, orgulhoso, hospedou hoje em casa uma festa do Movimento de Solidariedade à Palestina, que realizou um colóquio nacional em New Orleans neste fim de semana. Pela primeira vez desde 1988, recebo irmãos e irmãs palestinas na minha casa em celebração de solidariedade. Dei de presente a alguns deles cópias do meu último livro. Tomamos cerveja, comemos pão, humus e azeitonas palestinas. Falamos do amor à camisa da seleção brasileira nos territórios ocupados. Vocês, aí, continuem informando-se sobre a história da Palestina. O Biscoito começará a falar do tema em breve.

Não que o prêmio do iBest seja necessariamente um mapa fiel da blogosfera, claro, mas já que há uma eleição, há que se apoiar quem mais merece. O Biscoito Fino e a Massa já votou em Pensar Enlouquece para o prêmio iBest deste ano e convoca todos a que depositem seu votos.



  Escrito por Idelber às 02:57 | link para este post | Comentários (19)



sábado, 02 de abril 2005

Sobre escolher alguém por ser mulher

Eu prometi à Juliana e a outras leitoras que eu faria uma reflexão sobre porque, para mim, os blogs estão associados à constituição de uma voz feminina. No geral as mulheres têm mais talento, competência e abertura para falar da intimidade publicamente do que os homens. Isso não quer dizer, claro, que blog seja sinônimo de intimidade, mas a forma blog potencialmente abre essa janela para o íntimo.

Este ainda não é o post sobre voz feminina, mas é um prólogo a ele. É a primeira de duas historinhas que têm a ver com a questão da mulher: a história de quando eu precisei de uma advogada e a história de quando eu precisei de uma analista.

Hoje eu conto a primeira.

Eu uso as formas no feminino porque a única coisa que eu sabia sobre a advogada que eu escolheria é que seria uma mulher . A única coisa que eu sabia sobre a analista que eu escolheria (além de que seria uma freudiana) é que seria mulher. Por quê? Não sei, foram instintos que, diga-se de passagem, estavam corretos nas duas oportunidades.

Eu precisei de uma advogada em 1999, pela razão mais absurda. Eu já era professor titular em Tulane (que havia acabado de me contratar da Universidade de Illinois) e a documentação da minha residência permanente nos EUA se embananou de uma forma kafkiana.

Como Illinois havia tramitado os papéis por mim, o green card foi aprovado e enviado a minha residência no estado de Illinois, exatamente uma semana depois de que eu havia me mudado para New Orleans. O documento bateu na caixa de correios e, claro, voltou para o serviço de imigração, para quem eu havia deixado de residir em Illinois – e portanto deixado de ser dono daquele green card recebido por ser funcionário da universidade do estado. Começou aí uma história digna de uma peça do teatro do absurdo.

Lógico que isso aconteceu quando eu já estava em New Orleans, ou seja, não fiquei sabendo de nada. Eu, que já havia me acostumado a carimbar o passaporte para sair dos EUA enquanto esperava o trâmite do green card, caí no jazz e só fui pensar no assunto nas vésperas da viagem dezembrina anual ao Brasil, quando me encaminhei ao serviço de imigração para receber o bendito carimbo e fui informado de que eles haviam aberto um notice to appear in removal proceedings contra mim.

Enfim, eu era residente do país há dez anos, professor titular de uma universidade de elite, mas estava ameaçado de deportação! Claro que “removal” era nome de um processo que tinha sua origem num mal-entendido. Era simplesmente provar que eu continuava fazendo, em Tulane, exatamente o mesmo trabalho que eu fazia em Illinois, e pelo qual eu havia recebido o green card.

Mas vá você tentar explicar um mal-entendido a uma estrutura burocrática kafkiana. É daquelas situações que você olha e diz: sem advogado não dá.

O primeiro com o qual me topei foi um tipo com cara de texano, bigodón, cinturão de fivela prata, calça jeans puída, falando com um tom de quem me explicava como funciona a lei numa verdadeira democracia. O segundo foi um gordo, de terno e gravata puídos, maletinha e obsessão com o Vietnã. Nenhum deles me olhou nos olhos. Enquanto eu ouvia os caras, tive ânsias de vômito. Se você vai pedir a alguém que lhe represente, melhor que não seja uma pessoa que lhe provoque vômitos, não é?

Pensei na hora: quero uma mulher. Por quê? Não sei, mas como eu não tinha outros elementos para avaliar, eu achei: "para confiar a uma pessoa parte tão importante da minha intimidade como o direito de continuar trabalhando no lugar onde trabalho há dez anos, eu vou preferir que seja uma mulher". Foi aí que conheci Cat.

No primeiro encontro, ela me olhou nos olhos. Ponto para ela. Explicou-me o azar que havia acontecido comigo, ponderou que não havia razão para pânico, que eu era residente permanente do país e que se havia alguma coisa errada, quem tinha que provar isso eram eles. Ela garantia que conseguiria as carimbadas temporárias no passaporte para que eu pudesse continuar viajando. Tudo bem dito, sem embromação. Só depois conheci o trabalho maravilhoso de assistência a trabalhadores imigrantes pobres, refugiados (e muito especialmente refugiadas) que desenvolve a Cat aqui em New Orleans. Ela jamais fez propaganda desse trabalho.

O processo ainda se arrastou por três anos antes de resolver-se, mas em nenhum momento tive problemas para viajar ou duvidei que fosse dar certo. Várias vezes, no entanto, eu precisei de que ela me assegurasse de que tudo estava bem (depois, claro, eu morria de culpa de estar tomando tempo de alguma etíope refugiada de imolação tribal). Receber essa garantia dela era coisa bastante diferente que recebê-la de qualquer outro advogado gringo que eu tenha conhecido na vida. Tratava-de alguém que olha nos olhos. Continuamos, hoje, amigos, eu e Cat.

Comente o que quiser, da história ou de outra coisa, mas eu tenho uma curiosidade: vezes em que você escolheu uma profissional por ser mulher? Ou você é dos que acham que isso é sempre bobagem?



  Escrito por Idelber às 02:55 | link para este post | Comentários (28)