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sábado, 30 de abril 2005

Jazz Fest, Escolhas

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O dia hoje está dificílimo no JazzFest. Vejam estes palcos simultâneos aqui. Do total de 12 palcos do festival, há alguns grandes e médios, ao ar livre, e algumas tendas cobertas dedicadas a gêneros específicos: blues, gospel, jazz contemporâneo, jazz tradicional (do tipo dixieland). Escolher é sempre difícil neste festival. A estratégia é alternar sol e sombra, beber bastante água, não encher a cara da cerveja quente que lhe vendem os gringos e mover-se agilmente de um palco a outro. Os shows são cronometrados com perfeição, para que ninguém perca a viagem ao palco vizinho.

Planos:

Às 11:00, estou entre o NOCCA Jazz Ensemble e o grande (em todos os sentidos) vocalista de blues Big Al Carson. Provavelmente eu veja um pouco de cada um.

Aí às 12:30 eu devo render meus respeitos à Young Tuxedo Brass Band, no Economy Hall Jazz Tent, que é uma das várias tendas dedicadas a um gênero, no caso o dixieland jazz, paixão dos velhinhos com guarda-chuvas.

Na hora do almoço, escolher alguma iguaria e partir para o primo-do-forró, o zydeco de Willis Prudhomme and the Zydeco Express. Isso rola num palco menor, chamado Fais-do-do, que é dedicado, o dia todo, às músicas de acordeão.

As 2:55 em ponto quero estar em outro palco para saculejar ao som das tubas e trumpetes dos Soul Rebels.

Pausa para outro rango – eu só como essa coisa divina que é o sanduba de siri mole em época de JazzFest.

Antes das 4 quero estar a postos para escutar uma das lendas vivas da música de New Orleans, o gigante do rhythm ‘n’ blues Allen Toussaint.

Para fechar a brincadeira, não sei se vou ver Ike Turner (que promete um show-zaço) ou o eterno punk Elvis Costello.

É a programação para este sábado. Claro que se pode mudar tudo ao sabor da hora. Pode-se resolver passar o dia numa tenda escutando gospel, por exemplo.

Registre-se que neste JazzFest já passaram por aqui – e fizeram estrondoso sucesso – o recifense e ex-integrante do Maracatu Nação Pernambuco Charles Teony e a dupla sergipana Chico Queiroga e Antônio Rogério.

Se algum dia tiver que escolher um lugar dos EUA ao qual viajar, a minha sugestão é esta: New Orleans na época de JazzFest.



  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 29 de abril 2005

Vamos Culpar a Vítima?

Vejam a canalhice: o Comitê Executivo da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) reuniu-se nesta quinta e reiterou a bobajada de que tudo o que acontece no futebol deve ser julgado por tribunais desportivos. Sem nem sequer citar o argentino Desábato e o brasileiro Grafite, a vetusta instituição afirma que "Os órgãos disciplinares do esporte são os encarregados de julgar os atos que violam as regras de jogo da moral em campo, dentro das quais encontra-se o racismo". Parabéns! Julgá-los-ão quando mesmo? Obviamente é mais fácil que o Guarani do Inagaki ganhe a Libertadores da América que o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) puna algum dia um crime de racismo. Todo mundo que acompanha futebol com um mínimo de senso crítico sabe que o chavão de que nada do que ocorre dentro das quatro linhas deve ser tratado por tribunais não-desportivos só serve para perpetuar o poder da cartolagem corrupta.

O documento insultante vem assinado pela cúpula da Conmebol, incluindo-se o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, o mesmo que, depois do incidente com Grafite e Desábato, bateu no peito para dizer que racismo era inaceitável no Brasil. O link é este.

A minha pergunta é: onde está o Ministro dos Esportes agora? Onde está ele quando precisamos que diga ao sr. Ricardo Teixeira que ele está assinando na Conmebol um documento que contraria a lei brasileira, que prevê que o racismo é crime inafiançável e não é julgável por tribunal desportivo? Onde está a anta albanesa, que no dia do incidente quis ganhar pontos políticos fazendo cartinha que atacava um jogador argentino que estava atrás das grades? Onde está o pior ministro dos Esportes da história agora que a lei requer que ele contrarie seus amiguinhos da CBF? A confederação sul-americana implicitamente critica a vítima, o presidente da CBF assina embaixo e o ministro se cala, como vem se calando há tempos sempre que se trata de contrariar a cartolagem. Enquanto isso, as agressões racistas continuam acontecendo.

Não há dúvida: a gestão do futebol no governo Lula é um desastre. Todo o trabalho de José Luiz Portella foi jogado por terra.

Quanto ao clube argentino, sem dúvida o episódio baqueou os caras. Depois de perderem para o River Plate por 4 x 0 pelo Campeonato Argentino, foram ontem eliminados da Libertadores na Bolívia com gol contra de Desábato. Esse rapaz realmente entrou num período duro da vida.


Da série falaram de mim
Nos últimos dias, duas alegrias:
1. Luiz Biajoni, um dos mais talentosos escritores da nova geração, acorda com a imagem de uma faca no travesseiro, escreve uma beleza de relato e me dedica o conto. Obrigado, Bia.

2. O escritor argentino Alan Pauls – autor do melhor romance sobre o voyeurismo que conheço (El pudor del pornógrafo, 1987), autor de um dos mais inovadores romances policiais (El coloquio, 1990) desse país ríquíssimo em policiais – publicou em 2003 seu romance El pasado, um calhamaço de 550 páginas que acompanha 25 anos da vida de dois personagens. Só agora terminei de lê-lo. Eis que lá pela página 300 e poucos aparece um Idelber Avelar! É um tradutor, bizarro à beça e talvez metido em negócios escusos. Fala coisas muito insólitas ao telefone. Não dá nenhuma indicação de ser trotskista. Foi boa a experiência de ler o livro e bem estranha (mas gostosa) essa de ver-se retratado como personagem de ficção por um baita autor. Gracias, Alan.

Estamos na última semana de aulas, de defesa de teses e projetos de tese, e além de tudo semana de JazzFest em New Orleans. Emails atrasados, feedback atrasado, avaliações atrasadas, atraso é o nome do jogo. Ou seja, paciência com o blogueiro.

Curso da contística: Valeu a pena ter cancelado a última aula sobre os contistas contemporâneos publicados em livro e ter dedicado a semana a circular a alunada pelos blogs. A discussão em sala fechou com chave de ouro um semestre em que recebi um presente dos deuses: um grupo de 10 alunos inteligentíssimos, fluentes em português, com faro literário e com perfeita química uns com os outros. Baita seminário, foi esse. Na aula final, muitos contistas-blogueiros foram elogiados e nos proporcionaram momentos de bom debate. Este conto de Fal foi um dos favoritos. A meninada gosta de uma mulher que se ergue com classe nos escombros.

Aniversário-zinho: Não passará em brancas nuvens e será devidamente comemorado com lagostins e cervejinha. Há 20 anos, no dia 29 de abril de 1985, um fuleiríssimo (mas abençoado) cursinho de inglês chamado American Brazilian Center, no Baixo Belô (Rua Tupinambás), assinava minha carteira de trabalho como professor pela primeira vez. Eu tinha 16 anos na época e mal começava a dominar a língua que passava a lecionar. De la para cá não passei nem um único semestre letivo em branco. Vinte anos de magistério completados hoje! Saravá.



  Escrito por Idelber às 02:00 | link para este post | Comentários (36)



quarta-feira, 27 de abril 2005

Contos da Blogosfera

Hoje eu concluo um seminário sobre o conto brasileiro. Ao invés de fechar com o livro-guia, que tem sido Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século XX (org. Italo Moriconi), eu escolhi compartilhar com os alunos alguns blogocontos favoritos meus. Como qualquer lista, é incompleta e pessoal.

Não vamos formular teoria sobre literatura em blogs. O fenômeno é recente e é muito cedo para saber se a prática de publicar literatura em blogs alterou a forma de se escrever ficção. Pode ser que já o esteja fazendo. A diferença entre literatura e jornalismo continua sendo a mesma, independente de estar expressa em papel impresso ou na internet, claro. Mas a questão é como e por quais mecanismos a publicação online, periódica, comentada dos blogs vai mudando a cara da literatura que se escreve, ou do que se entende por literatura.

O conteúdo que é trazido para um novo meio, claro, nunca permanece o mesmo no processo. Transforma-se a si mesmo e ao meio. A tal da dialética. Não é assunto para agora. A aula, na verdade, é só um compartilhamento de links e um convite para um papo sobre esses contos:

Do Nelson Moraes eu escolhi Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN, esse clássico da blogosfera.

Sugeri que passassem no Reginaldo Siqueira e lessem pelo menos o implacável conto sobre o natal.

Indiquei o blog de Alê Felix e essa autópsia da vida blogueira, O blog começa a lhe fazer mal quando... (link que me chegou via Inagaki).

No site de Christiana Novoa, sugeri que lessem pelo menos A Luminosa Senda do Vazio Perfeito.

Sugeri com ênfase o Focando e indiquei que as duas escritoras que eu havia mais lido lá eram Fal Vitiello Azevedo e Ticcia Patricia Antoniete, mas que passeassem também.

Recomendei as crônicas da Claudia Letti e falei que visitassem os contos de Sarah Fazib.

Também passei o link do belo blog do Fabrício Carpinejar, que eu regularmente leio, mas no qual nunca comento.

Do Tiagón Casagrande, sugeri o hilário fait divers sobre o vestibular.

Da Lúcia Carvalho, sugeri as crônicas compiladas no Releituras.

Do Milton Ribeiro, essa bela reflexão sobre as marcas.

Recomendei também o coletivo Blog de Papel .

Os alunos também receberam links a contos sensacionais de Luiz Biajoni aqui, aqui, aqui , aqui e aqui.

Este é um bate-papo onde eu só iria linkar textos de ficção ou crônicas, mas não posso deixar de mencionar um belíssimo post crítico de Rafael Galvão que desmonta as barbaridades racistas ditas por certos professores.

Quem tiver tido a oportunidade de ler algum desses escritores, passe por aí para papear e dar o testemunho de leitura.



  Escrito por Idelber às 00:42 | link para este post | Comentários (79)



terça-feira, 26 de abril 2005

O Livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel

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Falsas paisagens da alma, do nada inumerável

O Livro de Zenóbia é daqueles deliciosos, que brincam conscientemente com os gêneros. É um livro, acima de tudo, delicado, preciso no seu traço. São vinhetas de meia página, que vão tecendo movimentos sobre uma personagem, Zenóbia, uma espécie de filha de Zeus e da Memória encravada nas Minas Gerais. Nas palavras de sua autora, Zenóbia é uma personagem do interior, que vive as miudezas de seu cotidiano mais prosaico e busca extrair disso pequenas epifanias e assombros.

Maria Esther Maciel é parte de uma poderosa corrente de escritoras de Minas que trabalha em interseções entre a teoria literária, a psicanálise, a ficção, a poesia e o ensaísmo. O nome de Maria Esther Maciel habita uma constelação na qual têm seus lugares Lúcia Castello Branco, Ruth Silviano Brandão, Leda Maria Martins e outras – mineiras que demoliram a distinção entre o “artístico” (a “criação”) e o“acadêmico” (“a crítica”). Zenóbia, em segredo, pensou duas vezes antes de dizer para si mesma que toda perda oculta uma controversa beleza. Enquanto que em comarcas mais tradicionais, como a Universidade de São Paulo, o estudo da literatura continua respeitando a velha e segura distinção entre criação e crítica, há um bom tempo já não se separam essas coisas em Minas nem no Rio de Janeiro, especialmente entre as duas últimas gerações de escritores. Isso ocorre graças principalmente a essas mulheres e seus híbridos, experimentais, maravilhosos exercícios de escrita. Entre eles, os relatos e a poesia desta especialista em Octavio Paz e Peter Greenaway.

Não à toa Zenóbia via naquela vó adotada, que morava na casa dos fundos com três cães vira-latas, uma espécie de fada. Dela ouvia quase todos os dias, à beira da fornalha, fábulas e estórias de fantasmas. Com a alma à flor das faces, fascinada.
Herdeira de Guimarães Rosa nas operações com a linguagem, Esther tem uma frase conceitual, que tensiona a personagem e remete à melhor Clarice Lispector. Somos um haver da morte, nós e o que é nosso. Esther se apropria dos que fizeram do aforismo uma arte, Sêneca, Pascal, Nietzsche, Cioran: a brincadeira é resvalar a ficção na filosofia, o poema na prosa, a aliteração no conceito. Em meu pai não posso imaginar a carne podre. Um deus pode? Sobre isso Zenóbia se cala, apesar de saber dos vermes, da terra úmida do cemitério, dos caldos verdes da pele. O livro é apaixonante. Na medida em que se vão se tecendo as histórias dos amores, bichos de estimação, receitas, sonhos, amigas, sempre em vinhetas minimalistas, Zenóbia vai trombando contra o vazio da sua própria fala, o beco-sem-saída da própria linguagem.

Estar ou não estar com ela era a medida de seus dias, como se fora desses limites a vida fosse sombra. Mas aos poucos ele foi aprendendo que o amor também se faz de faltas e distâncias, e que há bens que nenhum mal nos pode tirar, mesmo que por um instante. O livro termina relatando "horas felizes" de Zenóbia, mas a modo de anexo, quando já concluída a história, encontram-se cadernos de Zenóbia com contos aterrorizantes.

O belo livro de Maria Esther Maciel é uma publicação da Lamparina, antenadíssima e elegante nova editora carioca, que atende neste email.

artcultura.jpg

PS: Eu contribuí um artigo para a revista ArtCultura, que dedica seu último número a um dossiê sobre a música brasileira. Aí chega a maravilha da revista no correio e o que vejo? O dossiê são puras feras no assunto: Nei Lopes (talvez o maior especialista atual sobre samba, grande sambista ele mesmo), Cláudia Neiva de Matos (autora do legendário Acertei no Milhar, um dos clássicos sobre o samba), Martha Tupinambá de Ulhôa (uma das mais importantes etnomusicólogas da América Latina), Santuza Cambraia Neves (autora de Violão Azul: Modernismo e Música Popular). O que eu fiz para estar no meio dessas cobras criadas? Não sei, há que se perguntar à generosidade dos diretores da revista, mas está lá um artigo do blogueiro, sobre música popular jovem em Belo Horizonte. Foi a notícia maravilhosa desta segunda, a chegada dessa revista no correio. Para comprar, é lá no site da ArtCultura.



  Escrito por Idelber às 02:18 | link para este post | Comentários (11)



segunda-feira, 25 de abril 2005

Corrente, sobre Livros

Recebo do grande poeta mario cezar coivara - que, como e.e.cummings, assina seu nome em minúsculas e quando poeta assina, a gente respeita - uma corrente de perguntas, que devo passar a mais três pessoas. Na verdade, eu já havia recebido essa mesma corrente da grande blogueira Bibi, mas havia sido em inglês e eu prometi a mim mesmo que, no blog, só vou postar em pindorâmico. Aí eis que me chega a coisa de novo, via o poeta.

1. Não podendo sair do fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A Ética de Espinosa. Enquanto existir esse livro a corja ainda não tomou conta de tudo. O cabra conseguiu ser excomungado pela igreja, condenado pelos rabinos, odiado por tudo quanto foi religião e poder do seu tempo. O livro é pura teorização da liberdade, da potência, do amor à vida. Sempre que se falou em queimar livros na história moderna, Espinosa esteve entre os primeiros lembrados.

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Riobaldo Tatarana. Tudo quanto é encruzilhada, o sujeito visitou. Distantes segundo e terceiro lugares: Mefistófeles e Ivan Karamazov.

3. Qual foi o último livro que compraste?

Por incrível que pareça, quase não compro livros. Ganho mais livros do que consigo ler. Com freqüência recebo pagamento em livros quando presto consultoria às editoras. Amontoam-se livros não lidos. Os poucos que compro têm que esperar tanto para serem lidos que passo a comprar cada vez menos. O último comprado foi Chain of Command: The Road from 9/11 to Abu Ghraib, de Seymour Hersh, o relato de toda a podridão do império por dentro: como inventaram as mentiras sobre o Iraque, como cuspiram na constituição, como fizeram toda a lambança.

4. Que livros estás a ler?
Tenho o não-método de ter pelo menos 20 iniciados na mesa. Concluo alguns (em geral romances) e não concluo outros (em geral os de não-ficção). No momento estão abertos sobre a mesa: El llamado de la especie, romance curtinho e enigmático do argentino Sergio Chejfec, The Clash of Fundamentalisms: Crusades, Jihads, and Modernity, estudo penetrante de Tariq Ali sobre as relações entre Ocidente e Islã e sobre onde nos deixaram quase 60 anos de sionismo e três mandatos da família Bush, O Livro de Zenóbia, ficção minimalista da escritora mineira Maria Esther Maciel (em breve resenha no Biscoito), Os Melhores Contos Brasileiros do Século XX, org. Italo Moriconi (material de ensino para mim), e A Máquina de Filmar Sonhos, maravilhoso romance inédito da escritora Christiana Nóvoa.

5. Que livros(05) levarias para uma ilha deserta?
Vou trapacear:
1. The Riverside Shakespeare (é um livro, não é? Algumas dezenas de peças, mas um livro)
2. Ulysses, de Joyce. Museo de la Novela de la Eterna, do Macedonio Fernández, também serviria, mas deste último eu já descifrei mais enigmas. Com Joyce eu poderia me entreter mais tempo.
3. Contos Completos (Jorge Luis Borges)
4. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa
5. Poesia Completa (Carlos Drummond de Andrade)
Pronto, com esses cinco livros dá para começar a brincadeira. Dá até para fundar uma civilização.

6. A quem vai passar este testemunho(3 pessoas) e por que?
Aos amigos Leila, Ana Lucia e Fernando porque, como eu, são expatriados, e pode ser que essa listinha aguce boas memórias.

PS 1: A Democracia Socialista, corrente do PT na qual eu militei ao longo do anos 80, e à qual pertencem, entre outras celebridades petistas, o ministro do Desenvolvimento Agrário Miguel Rosetto e o ex prefeito de Porto Alegre Raul Pont, reuniu-se neste fim de semana e produziu um documento com fortes críticas ao governo, e aproveitou para lançar a candidatura de Pont à presidência do PT. Aí o sr. Genoíno veio dizer que as regras para o debate ainda serão definidas e o secretário-geral do PT, Silvio Ribeiro, com a sem-cerimônia que só possuem os verdadeiros burocratas, manda, na Folha , um ministro de estado calar a boca: "ministro de estado ou está de acordo com o governo ou sai." Alguém já ouviu falar em Sílvio Pereira? Alguém sabe como chegou à secretário-geral? Fiquem de olho na sujeira do jogo, especialmente se a esquerda do PT conseguir se unificar em torno de um candidato único. Eu acho melhor eu não falar nesse assunto.

PS 2: Seguindo a Convenção Inter-Americana de Caracas (1954), o Brasil concedeu asilo ao ex-presidente do Equador Lucio Gutiérrez. Sobre o Equador, diga-se: eu conheço aquilo lá. Não se parece com terra nenhuma deste mundo. Os presidentes passam de 60 a 4% de popularidade em questão de meses. Acho melhor eu me calar sobre esse assunto também. Sobre o tema, a mais lúcida foi (link para quem tem UOL) Eliane Castanhêde.

PS 3: Aliás, vamos combinar que ficaremos uma semana sem falar de política? Ando precisando fazer uma desintoxicação básica. Se eu falar de política antes da segunda que vem, vocês me enxovalhem.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (17)



domingo, 24 de abril 2005

Evoé Pixinguinha, 108 anos

pixinguinha.jpg

Se vivo estivesse, Alfredo da Rocha Viana Filho teria comemorado 108 anos neste sábado. Pixinguinha foi o maior gênio da história da música popular brasileira, ponto de encontro de séculos de batuque com o salão do século XIX e sintetizador do que seria toda a linguagem da música popular que o sucederia.

Sim, já existia música popular brasileira urbana antes de Pixinguinha: atendia pelo nome maldito de maxixe. Mas, escolado em todas as nuances do batuque dos terreiros e quintais, ao mesmo tempo em que também profundo conhecedor das técnicas de harmonização ocidentais, é Pixinga quem consolida o repertório do que será a base da linguagem musical popular urbana brasileira: o choro.

Realizações do gigante? Encheriam um blog. Em 1919, o Brasil conquistou o primeiro campeonato sul-americano de futebol derrotando o Uruguai nas Laranjeiras. Pixinguinha compôs um maravilhoso choro, 1 x 0, homenageando o estilo de toques laterais da seleção com rápidas subidas e descidas na escala. Até hoje busca-se um musicólogo que entenda de futebol para destrinchar a rica alegoria tecida aqui por Pixinga.

É, sem dúvida, o maior flautista da história do Brasil e o maior arranjador de sua música popular. Com o tempo, passou ao saxofone e nele também foi gigante. Pixinguinha é também um dos nossos maiores compositores populares. De 1911 a 1973, compôs choros, valsas, sambas, polcas, tangos, maxixes, marchas e até mesmo emboladas e lundus. É o autor daquela que talvez seja a canção mais amada e cantada do século no Brasil: Carinhoso. Quem já enveredou pelos mistérios do contraponto, testemunha: com a complexidade e riqueza que ele ocorre em Bach, só em Pixinga.

Na década de 1920, Pixinguinha lideraria Os Oito Batutas (com os outros três negros China, Donga e Nélson Alves e os quatro brancos Raul e Jacó Palmieri, Luis de Oliveira e José Alves) na viagem musical mais importante da época: o estrondoso sucesso em Paris e em Buenos Aires, turnê chave na luta contra o racismo. Daí para frente, sua importância passa a ser difícil de medir, posto que fundamental para simplesmente tudo o que se fez depois dele.

Em 1953, Pixinga iniciaria um longo caso de amor com o Bar do Gouveia, na Travessa do Ouvidor, centro do Rio. Em 1963 sua mesa seria oficialmente “tombada” e reservada só para o Mestre.

Para quem quiser conhecer o melhor de Pixinga ele mesmo, há que se escutar o inacreditável disco de 1971. O disco feito com Clementina também é indispensável. Para se conhecer as gravações mais antigas, há uma boa coletânea da Kuarup. A caixa Memórias Musicais da Biscoito Fino, que traz 15 CDs com materiais do começo do século (dentre os quais 3 CDs só de Pixinguinha, incluido-se a legendária viagem dos Batutas a Buenos Aires), parece que esgotou.

Um dos últimos e mais incríveis casos de Pixinguinha é relatado por Sérgio Cabral, em Pixinguinha, Vida e Obra (Lumiar, 1997). Voltando para casa tarde da noite, ele é assaltado por três ladrões, a quem passa todo o dinheiro. Um dos ladrões o reconhece: “Vixe, é o seu Pixinguinha”! Os ladrões imediatamente devolvem todo o dinheiro e se desculpam, o que move Pixinga a convidá-los:
- Vocês não querem tomar uma cervejinha não?

Acaba levando os três ladrões para sua casa, onde passam toda a madrugada na birita, concluída ao raiar do sol.

PS 1: O Biscoito envia seu axé a Nemo Nox, que já se encontra aqui nos EUA, resolvendo pendências para a sua permanência. Nemo relatou num post o seu kafkiano ingresso ao país. Enviamos os votos de que toda a papelada se resolva.

PS 2: Uma leitora pergunta sobre o "eterno feminino". O termo é antigo. Com esse nome há um lindo conto de Eva Brodhead, um belo quadro de Cézanne e muita picaretagem junguiana. Quem mais faz minha cabeça, ao dissertar sobre o feminino, é a filósofa-poeta Luce Irigaray.



  Escrito por Idelber às 05:22 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 23 de abril 2005

O que é uma mulher moderna?

Renata Maneschy, do Kit Básico da Mulher Moderna pediu a vários blogueiros uma definição de "mulher moderna". Publicou-se hoje lá no Kit a minha contribuição. O texto começa assim:

A mulher moderna sabe que a queima dos sutiãs foi necessária para libertar os biquinis e os baby-dolls, mesmo os mais cafonas. A mulher moderna sabe que sem Jane Fonda não há Madonna, sem Leila Diniz não há Xuxa.

"Mulher moderna" é aquela que vota, se divorcia, aborta legalmente (em certos países), concorre a cargos públicos, troca de profissão aos 35, refaz a vida afetiva aos 40. Por que não?

A mulher moderna aprende a lidar com a agressividade gerada no macho pelas suas conquistas. Ao mesmo tempo, aprende a lidar com as lambisgóias de 22 que já sabem usar pílula e roubar marido.

Continue a ler o meu "Mulher Moderna e o Feminino Eterno", blogado a convite do Kit Básico da Mulher Moderna.



  Escrito por Idelber às 01:08 | link para este post | Comentários (22)



sexta-feira, 22 de abril 2005

Enquete - Cotas na Universidade Pública

O post sobre a questão racial continua recebendo comentários, e como o tema está longe de esgotar-se, eu pensei em oferecer algumas das minhas razões para apoiar as cotas para afro-descendentes na universidade pública e depois propor uma votação sobre um projeto imaginário. Eu li com cuidado todos os comentários e é à luz deles que vão meus últimos pitacos e a enquete.


1. Pensar no vestibular como medidor de “mérito” é risível. Dessa joça nós conhecemos o ganhador em quase todos os casos: os que tiveram dinheiro para colégios particulares. Decidamos como sociedade se queremos continuar filtrando o acesso ao ensino superior por esse joguinho de múltipla escolha para ricos bem-treinados e, muito ocasionalmente, pobres ultra-excepcionais. Eu não sou contra a meritocracia. Eu tenho outro conceito de mérito: um negro, pobre, que chegou ao 3º ano do segundo grau em boas condições de escrita, argumentação e cultura geral pode ter, para mim, um mérito maior que um milionário da zona sul de resultado dez pontos mais alto no vestibular, mesmo que este último saiba qual é a capital da Finlândia e aquele não. Não proponho que se deixe de medir pontos. Mas há que se manejar um conceito mais amplo de mérito, onde entrem outras variáveis além do número de x's corretos numa prova. O sistema de cotas temporário pode ser um bom instrumento para a reforma desse monstro, o vestibular.

2. Os laços afetivos que as cotas tendem a promover não são os que imaginam os críticos da iniciativa. A grande maioria dos efeitos afetivos das cotas seria positiva: mais conhecimento da realidade do outro, diálogo, turmas genuinamente inter-racias – que não são lá tão comuns assim nas principais universidades brasileiras, especialmente nos cursos de elite.

3. Sim, é possível que alguém seja agredido racialmente dentro da universidade sob o pretexto das cotas, claro, embora eu creia que aconteceria menos do que imaginam alguns. É ingenuidade pressupor que essa mui esporádica e hipotética agressão possa ser causada pelas cotas. Se acontece é porque a agressão já está lá. A agressividade não pode ser atribuída às medidas paliativas dos efeitos do racismo, ela é anterior a estas. A agressividade está relacionada ao próprio racismo, não às medidas de reparação. Que a agressão aconteça (e depois possa ser conversada, punida, etc.) parece-me preferível, inclusive, a que ela continue engarrafada e fermentando. O que não se pode fazer é ficar negando o problema e pôr a culpa na febre cada vez que a enfermidade aflora. Quantos Grafites, até que todos entendam que é obsceno culpar a vítima?

4. As cotas não “tiram” vagas de ninguém: o branco que foi eliminado e perdeu a vaga porque há um sistema de cotas para favorecer negros é uma figura imaginária. Ela satisfaz uma fantasia e não existe sociologicamente, pelo menos não é deduzível a partir de nenhum estudo. Há outras garantias de que o cotista está qualificado, inclusive porque a alteração produzida pelas cotas na nota necessária para a aprovação dos não-cotistas é mínima. Em cima disso, lembremos a dimensão do abismo: na melhor universidade da América do Sul, localizada numa cidade que é pelo menos metade negra e parda, como São Paulo, praticamente não há negros. Vamos esperar até que os lentos efeitos das reformas criem chances para a população negra daqui uns quatrocentos anos?

5. Meu amigo Smart Shade of Blue mencionou a possibilidade de que os professores sejam interna ou externamente forçados a avaliar melhor os cotistas, e que isso ajudaria a explicar os bons resultados observados na UERJ. A meu ver, há que se separar duas coisas aqui: como alguém que leciona há 20 anos eu digo que sim, um aluno que teve que enfrentar muitos obstáculos para chegar até ali provavelmente contará com uma simpatia extra que é natural. Mas daí a achar que essa simpatia natural não seria monitorada pela ética da profissão que traz cada um é achar demais. Achar que externamente pode haver existido pressão que tenha feito diferença estatisticamente significativa é muito prematuro, parece-me. Como disse muito bem Cláudio Simões: Professores podem ficar com medo de reprovar alunos cotistas pra não serem acusados de racistas? Alguns podem. Os inconscientes. Os professores de verdade vão procurar fazer desses alunos bons profissionais. E acredito que muitos destes alunos serão melhores profissionais do que alunos de algumas faculdades particulares que pressionam os professores para aprovarem alunos que não estudam somente porque esses alunos pagaram. Falou bonito.

6. Não se deve opor a política de cotas à reforma do ensino fundamental, aquela é parte desta. Como veterano de muitos e velhos debates sobre a educação, sei que a reforma do ensino no Brasil é projeto para muito tempo – gerações. Dessa reforma fazem parte paliativos como o bolsa-escola, mas também medidas de reparação imediata que, inclusive, teriam um grande efeito na própria reforma do ensino básico: mais negros na universidade também significa mais crianças negras com modelos reais de sucesso no ensino fundamental. Deu para sacar a relação dialética entre uma coisa e outra? Dá para ver a importância do empurrão inicial? Dá para ver que sem um empurrão na “mão invisível” do mercado essa joça não se move? E que movê-la é uma questão urgente?

7. As cotas também são um auxílio aos brancos e às classes média e alta brasileiras: nesses anos tentando escutar relatos, eu me convenci de que o branco brasileiro conhece pouquíssimo da realidade social dos negros, do preconceito cotidiano, da violência policial, da constante pressuposição de culpa do negro até que se prove em contrário. Seria um serviço imenso ao país ter uma classe média e alta mais consciente da realidade do seu outro. O contato na universidade pode ser chave.

8. O cotista traz saberes que o aparato universitário ainda não domina e portanto ajuda transformar a própria natureza do que ali se produz e reproduz. Alguém duvida que o ensino da história do Brasil, da antropologia, ou da música popular – para tomar três exemplos óbvios – não se transformaria e se enriqueceria significativamente com uma presença mais forte da população negra? Será que nós, da universidade, estamos realmente com essa bola toda? Será que podemos prescindir desse saber que vem da experiência do outro? Será que a abertura um pouco mais generosa das portas não é do nosso próprio interesse, do interesse de disciplinas que, com freqüência, se debatem em problemas abstratos, divorciados da realidade brasileira?

9. Razão definitiva e fundamental é a que eu chamo de ética, de razão que dá sentido às outras: a “dívida histórica”. O Brasil tem uma dívida de séculos com a população negra. Sim, com toda a sua população trabalhadora. Mas faz uma grande diferença ter sido escravo e não ter sido. Faz uma grande diferença ser vítima constante de violência policial arbitrária e não sê-lo. A dívida com o negro – exacerbada pelo preconceito que, sabemos, existe – é singular, é de natureza diferente. Isto não impede que se coloquem em ação outros mecanismos de reparação dirigidos aos pobres não-negros. Simplesmente significa que a universidade de alto nível no Brasil continua a não ter nada que ver com a composição étnica do país. E que sendo a universidade um dos (parcos, sabe-se) instrumentos de ascensão social, a restituição dessa “dívida histórica” com a população negra tem que passar por uma reparação na universidade. Temporária, entende-se. Até que ela não seja mais necessária.

Votação: Eu quero saber qual a porcentagem dos comentaristas concorda comigo. Imagine um projeto de lei que garanta para negros e pardos, ou afro-descendentes, 25% das vagas das universidades públicas, porcentagem ajustável para mais ou menos segundo a demografia do estado ou da cidade. Este projeto seria entendido como uma lei temporária por, digamos, 10 ou 15 anos. Você seria contra ou favor do princípio das cotas expresso neste projeto? Discordou, não deixe de registrar. Em cima do muro, a mesma coisa. Se, depois das abstenções, 40% da caixa estiver de acordo com o princípio da reparação via cotas temporárias na universidade pública, eu já acharia que valeu a pena e que foi uma conquista. Vocês com a palavra.



  Escrito por Idelber às 00:43 | link para este post | Comentários (116)



quinta-feira, 21 de abril 2005

Hora de JazzFest

crawfish.jpg

Crawfish season: Entre as muitas especialidades de Nova Orleans, está esse crustáceo, o crawfish. Estamos no auge da estação do bicho. A brasileirada de Nova Orleans fez nesta quarta seu crawfish boil – uma cozinhada num panelão, onde a gente se reúne em volta da mesa e vai descascando e comendo. A carne tem gosto de siri mole e a cara da coisa é de lagosta, só que um pouco menor (sobre o que é mesmo um crawfish e onde mais neste planeta ele existe, haveria que se consultar a Lucia Malla). Os desta quarta estavam imensos, tamanho de lagosta mesmo. O boil é comida popular, coletiva, compartilhada. É uma marca da primavera de New Orleans, essa reunião em volta da mesa ao ar livre para descascar o bicho. A anfitriã da noite foi a paraibana Suy-Anne, legendária festeira aqui no Golfo no México. Valeu.
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Na discussão sobre as ofensas racistas a Grafite (que depois se ampliou em debate sobre o racismo e sobre medidas paliativas como as cotas), este blog foi linkado em dezenas de outros blogs brasileiros. Muito obrigado. Agradeço muito em especial o link e o elogio de Cora Rónai, que literalmente dobrou o leitorado no Biscoito nesta segunda, leitorado que já havia crescido à beça nas últimas semanas. Cora move montanhas, não há dúvidas. Hiperbolizaram na generosidade Rafael Galvão e Tiagón.

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JazzFest é a outra marca da primavera em Nova Orleans: música, em tempo integral, num hipódromo, com 15 palcos simultâneos, de 11 as 20 h, quinta a domingo, duas semanas seguidas: um mega festival, de peso mesmo. Difícil pensar um gênero de música popular norte-americana que não esteja representado nele. Além disso, muita música de fora. É a única época do ano - além do aniversário dos meus filhos - que é sagrada, não se marca nada. Dentro de Tulane e do nosso departamento, é rigorosamente proibido programar defesa de tese ou qualquer coisa para a época de JazzFest. Aguardem resenhas e, quem sabe, umas fotos. Dentre as dezenas de atrações, destaca-se a reunião dos legendários Meters.


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Blogai e multiplicai, môs fios!
Diz a escritora Fal: Blogues são um excelente negócio pros solteiros (aiai, e pruns casados suicidas tb - ou não, quem sou eu pra julgar), o fato é que o que tem de nego namorando-entre-si não tá mole, cada dia um casal mais fofo se junta no virtual, no real, é um tal de templete pra cá, recado cifrado pra lá, post secreto e hermético para os não-iniciados aqui e ali, os blogues tão virando umas salas de bate-papo de namoro. O post completo é esta maravilha aqui.

Aqui no Biscoito é permitido que os comentaristas namorem entre si. Intentos de paquerar o blogueiro serão analisados caso a caso. Um texto quilométrico com pseudônimo e email falso é um péssimo começo, com certeza. Como sempre, mantém-se a regrinha de desnecessária lembrança para 99,5% dos leitores: o que eu achar abusivo aqui, por qualquer motivo, eu apago. Mensagens quilométricas são aceitas - eu optei por não estabelecer limite de caracteres - mas só sobre o tema em pauta.

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Estreou com pé direito o novo projeto coordenado pelo Nemo Nox: Casa das Mil Portas, umas maravilhas de minicontos com vários blogueiros. Vale conferir.

Tenho lido direto e já linkei: Idiossincrasia e o grande escritor Cardoso. Realmente é um vício que vai se disseminando de forma incontrolável.

O selinho gentilmente feito pelo Mauro Amaral para o Decálogo dos Direitos do Blogueiro continua circulando por aí. De novo meu muito obrigado ao Mauro e ao Nemo Nox, autor do layout deste Biscoito. DECALOGO.jpg

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Meu muito obrigado a Williams College pela hospitalidade neste domingo-segunda, especialmente à prof. Jennifer French, organizadora dos eventos. Acho que as palestras agradaram. Williamstown é bem pequeninho (fica no oeste de Massachussetts, ponta que se encontra com pontinha norte do estado de Nova Iorque), mas tem, como várias dessas cidadezinhas pequenas no nordeste dos EUA, um super college. Dado seu bom clima no verão/outono/primavera, muita gente se aposenta e vai prá lá. Os aposentados vivem da programação cultural da universidade, claro, a única que há. Pois bem, chego para dar a palestra de encerramento de um evento sobre música e, da platéia de 35 pessoas, pelo menos 25 tinham uns 70 anos ou mais! Audiência geriátrica total. Dez anos de palestragem e nunca havia visto coisa igual! Obviamente fiquei muito feliz com esse completamente inaudito e inédito público, mas acabei deixando para lá o ensaio que eu planejava ler sobre Chico Science e improvisei uma coisa mais geral. Valeu, e no final, os velhinhos já levemente saculejavam os esqueletos ao som de Rios, Pontes e Overdrives. Na segunda palestrei sobre violência para um público bem maior (uns 50), todos professores e alunos, aqueles brilhantes, estes últimos bem espertinhos. Muito bom. Só que o povoado fica a uma hora do começo do caminho para qualquer outro lugar.

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Inspirado nas Mineiras, Uai!
Custo do satélite que permite a recepção da Rede Globo de Televisão nos Estados Unidos: 250 dólares.

Custo do pacotão mensal de TV a cabo que inclui a Globo nos EUA: aproximadamente 50 dólares.

Ver o time do ex-Ipiranga adentrando o Mineirão de salto alto, achando que já era campeão e tomando uma traulitada dos meninos do vale do aço: não tem preço.

Salve o Ipatinga, campeão mineiro de 2005. Essa obviamente nós não previmos.



  Escrito por Idelber às 02:35 | link para este post | Comentários (24)



quarta-feira, 20 de abril 2005

Resenha: Friedrich Nietzsche, O Anti-Cristo (1888)

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Não devemos enfeitar nem retocar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra o homem superior, anatematizou os instintos mais profundos, destilou seus conceitos de mal, de maldade, esta última personificada a partir desses instintos. O homem forte é lá um réprobo, um “degredado entre os homens”. O cristianismo escolheu tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável é a corrupção de Pascal, que acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo! (Nietzsche, O Anti-Cristo).

O último ano produtivo da vida de Friedrich Nietzsche, 1888, foi também o seu mais despirocado. Começou o ano com a crítica radical do racismo wagneriano em O