« Orgiástica Comemoração Basquética ::
Pag. Principal
:: Congratulations, Michael Bérubé »
quarta-feira, 06 de abril 2005
"Continuidade dos Parques", de Julio Cortázar
Relato publicado no segundo volume de contos do autor, Las armas secretas (1956). O original castelhano pode ser lido aqui ou ouvido, na voz do autor, aqui.
Tradução ao português de Idelber Avelar
Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns aluguéis, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte.
Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam aboninavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasso sem dó nem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.
Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Da direção oposta ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada carpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
Escrito por Idelber às 01:39 | link para este post
| Comentários (12)
#1
cronópio cronópio fama fama
smart shade of blue em abril 6, 2005 7:58 AM
Biajoni em abril 6, 2005 8:24 AM
Viva em abril 6, 2005 10:05 AM
#4
Cortázar no melhor estilo. Ligia tem um conto parecido, conhece? É bem verdade que Ligia tem contos parecidos com todo mundo, menos com ela. No conto em questão, um sujeito fica obcecado com uma tapeçaria antiga, na qual um caçador aponta a flecha para um cervo. Algo por aí.
Em tempo, avise ao pessoal que é preciso critério para se dançar trégua e catala por aí. "Cronópio Cronópio Fama Fama" é uma fala que só poderia ser pronunciada por uma Esperança, o que é uma possibilidade inaceitável.
Grande abraço.
Artemus em abril 6, 2005 12:52 PM
#5
Morro de vontade de ler Histórias de Cronópios e de Famas...
Menina-prodígio em abril 6, 2005 1:08 PM
#6
se fosse hoje em dia será que o homem ia estar no computador?
lucia carvalho em abril 6, 2005 1:38 PM
#7
Ótimo. Um círculo na trama. Quem é personagem de quem?
Reginaldo Siqueira em abril 6, 2005 2:23 PM
#8
Eis um dos meus contos prediletos do Mestre!
Inagaki em abril 6, 2005 3:49 PM
#9
Alegro-me que hajam gostado! Acho que a tradução ficou certinha, mas sempre é possível dar mais uma conferida, ela foi feita às 2 da manhã . . .
Idelber em abril 6, 2005 4:24 PM
#10
Conhecia o conto, bom reler em sua tradução.
Tânia Barros em abril 6, 2005 11:41 PM
#11
Esse conto é excelente!
Apenas uma correção... Na versão original existe apenas um parágrafo: "Já sem se olharem atados rigidamente(...)". Acredito que essa única pausa não é por acaso assim como o conto começa sem parágrafo, como uma CONTINUIDADE.
Manuela Neves em novembro 10, 2005 7:56 PM
#12
Esse conto é excelente!
Apenas uma correção... Na versão original existe apenas um parágrafo: "Já sem se olharem atados rigidamente(...)". Acredito que essa única pausa não é por acaso assim como o conto começa sem parágrafo, como uma CONTINUIDADE.
Manuela Neves em novembro 10, 2005 7:56 PM