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sexta-feira, 22 de abril 2005
Enquete - Cotas na Universidade Pública
O post sobre a questão racial continua recebendo comentários, e como o tema está longe de esgotar-se, eu pensei em oferecer algumas das minhas razões para apoiar as cotas para afro-descendentes na universidade pública e depois propor uma votação sobre um projeto imaginário. Eu li com cuidado todos os comentários e é à luz deles que vão meus últimos pitacos e a enquete.
1. Pensar no vestibular como medidor de “mérito” é risível. Dessa joça nós conhecemos o ganhador em quase todos os casos: os que tiveram dinheiro para colégios particulares. Decidamos como sociedade se queremos continuar filtrando o acesso ao ensino superior por esse joguinho de múltipla escolha para ricos bem-treinados e, muito ocasionalmente, pobres ultra-excepcionais. Eu não sou contra a meritocracia. Eu tenho outro conceito de mérito: um negro, pobre, que chegou ao 3º ano do segundo grau em boas condições de escrita, argumentação e cultura geral pode ter, para mim, um mérito maior que um milionário da zona sul de resultado dez pontos mais alto no vestibular, mesmo que este último saiba qual é a capital da Finlândia e aquele não. Não proponho que se deixe de medir pontos. Mas há que se manejar um conceito mais amplo de mérito, onde entrem outras variáveis além do número de x's corretos numa prova. O sistema de cotas temporário pode ser um bom instrumento para a reforma desse monstro, o vestibular.
2. Os laços afetivos que as cotas tendem a promover não são os que imaginam os críticos da iniciativa. A grande maioria dos efeitos afetivos das cotas seria positiva: mais conhecimento da realidade do outro, diálogo, turmas genuinamente inter-racias – que não são lá tão comuns assim nas principais universidades brasileiras, especialmente nos cursos de elite.
3. Sim, é possível que alguém seja agredido racialmente dentro da universidade sob o pretexto das cotas, claro, embora eu creia que aconteceria menos do que imaginam alguns. É ingenuidade pressupor que essa mui esporádica e hipotética agressão possa ser causada pelas cotas. Se acontece é porque a agressão já está lá. A agressividade não pode ser atribuída às medidas paliativas dos efeitos do racismo, ela é anterior a estas. A agressividade está relacionada ao próprio racismo, não às medidas de reparação. Que a agressão aconteça (e depois possa ser conversada, punida, etc.) parece-me preferível, inclusive, a que ela continue engarrafada e fermentando. O que não se pode fazer é ficar negando o problema e pôr a culpa na febre cada vez que a enfermidade aflora. Quantos Grafites, até que todos entendam que é obsceno culpar a vítima?
4. As cotas não “tiram” vagas de ninguém: o branco que foi eliminado e perdeu a vaga porque há um sistema de cotas para favorecer negros é uma figura imaginária. Ela satisfaz uma fantasia e não existe sociologicamente, pelo menos não é deduzível a partir de nenhum estudo. Há outras garantias de que o cotista está qualificado, inclusive porque a alteração produzida pelas cotas na nota necessária para a aprovação dos não-cotistas é mínima. Em cima disso, lembremos a dimensão do abismo: na melhor universidade da América do Sul, localizada numa cidade que é pelo menos metade negra e parda, como São Paulo, praticamente não há negros. Vamos esperar até que os lentos efeitos das reformas criem chances para a população negra daqui uns quatrocentos anos?
5. Meu amigo Smart Shade of Blue mencionou a possibilidade de que os professores sejam interna ou externamente forçados a avaliar melhor os cotistas, e que isso ajudaria a explicar os bons resultados observados na UERJ. A meu ver, há que se separar duas coisas aqui: como alguém que leciona há 20 anos eu digo que sim, um aluno que teve que enfrentar muitos obstáculos para chegar até ali provavelmente contará com uma simpatia extra que é natural. Mas daí a achar que essa simpatia natural não seria monitorada pela ética da profissão que traz cada um é achar demais. Achar que externamente pode haver existido pressão que tenha feito diferença estatisticamente significativa é muito prematuro, parece-me. Como disse muito bem Cláudio Simões: Professores podem ficar com medo de reprovar alunos cotistas pra não serem acusados de racistas? Alguns podem. Os inconscientes. Os professores de verdade vão procurar fazer desses alunos bons profissionais. E acredito que muitos destes alunos serão melhores profissionais do que alunos de algumas faculdades particulares que pressionam os professores para aprovarem alunos que não estudam somente porque esses alunos pagaram. Falou bonito.
6. Não se deve opor a política de cotas à reforma do ensino fundamental, aquela é parte desta. Como veterano de muitos e velhos debates sobre a educação, sei que a reforma do ensino no Brasil é projeto para muito tempo – gerações. Dessa reforma fazem parte paliativos como o bolsa-escola, mas também medidas de reparação imediata que, inclusive, teriam um grande efeito na própria reforma do ensino básico: mais negros na universidade também significa mais crianças negras com modelos reais de sucesso no ensino fundamental. Deu para sacar a relação dialética entre uma coisa e outra? Dá para ver a importância do empurrão inicial? Dá para ver que sem um empurrão na “mão invisível” do mercado essa joça não se move? E que movê-la é uma questão urgente?
7. As cotas também são um auxílio aos brancos e às classes média e alta brasileiras: nesses anos tentando escutar relatos, eu me convenci de que o branco brasileiro conhece pouquíssimo da realidade social dos negros, do preconceito cotidiano, da violência policial, da constante pressuposição de culpa do negro até que se prove em contrário. Seria um serviço imenso ao país ter uma classe média e alta mais consciente da realidade do seu outro. O contato na universidade pode ser chave.
8. O cotista traz saberes que o aparato universitário ainda não domina e portanto ajuda transformar a própria natureza do que ali se produz e reproduz. Alguém duvida que o ensino da história do Brasil, da antropologia, ou da música popular – para tomar três exemplos óbvios – não se transformaria e se enriqueceria significativamente com uma presença mais forte da população negra? Será que nós, da universidade, estamos realmente com essa bola toda? Será que podemos prescindir desse saber que vem da experiência do outro? Será que a abertura um pouco mais generosa das portas não é do nosso próprio interesse, do interesse de disciplinas que, com freqüência, se debatem em problemas abstratos, divorciados da realidade brasileira?
9. Razão definitiva e fundamental é a que eu chamo de ética, de razão que dá sentido às outras: a “dívida histórica”. O Brasil tem uma dívida de séculos com a população negra. Sim, com toda a sua população trabalhadora. Mas faz uma grande diferença ter sido escravo e não ter sido. Faz uma grande diferença ser vítima constante de violência policial arbitrária e não sê-lo. A dívida com o negro – exacerbada pelo preconceito que, sabemos, existe – é singular, é de natureza diferente. Isto não impede que se coloquem em ação outros mecanismos de reparação dirigidos aos pobres não-negros. Simplesmente significa que a universidade de alto nível no Brasil continua a não ter nada que ver com a composição étnica do país. E que sendo a universidade um dos (parcos, sabe-se) instrumentos de ascensão social, a restituição dessa “dívida histórica” com a população negra tem que passar por uma reparação na universidade. Temporária, entende-se. Até que ela não seja mais necessária.
Votação: Eu quero saber qual a porcentagem dos comentaristas concorda comigo. Imagine um projeto de lei que garanta para negros e pardos, ou afro-descendentes, 25% das vagas das universidades públicas, porcentagem ajustável para mais ou menos segundo a demografia do estado ou da cidade. Este projeto seria entendido como uma lei temporária por, digamos, 10 ou 15 anos. Você seria contra ou favor do princípio das cotas expresso neste projeto? Discordou, não deixe de registrar. Em cima do muro, a mesma coisa. Se, depois das abstenções, 40% da caixa estiver de acordo com o princípio da reparação via cotas temporárias na universidade pública, eu já acharia que valeu a pena e que foi uma conquista. Vocês com a palavra.
Escrito por Idelber às 00:43 | link para este post
| Comentários (116)
#1
Sobre as colocações
A Numero 1. Enfatizando a parte sobre qual quero opinar. foi escrito
"Mas há que se manejar um conceito mais amplo de mérito, onde entrem outras variáveis além do número de x's corretos numa prova. O sistema de cotas temporário pode ser um bom instrumento para a reforma desse monstro, o vestibular."
Eu não acho que o vestibular seja um monstro. Acho o vestibular justo. Passa quem tiver merito e não existe conexão politica que mude o resultado. Concordo com a parte de "outras variáveis". Se o concorente trabalhou meio periodo enquanto cursava o segundo grau isso ao meu ver deveria adicionar pontos a sua prova. Na minha opinião , em 100 unidades esse candidado deveria obter 20 pontos apenas por ter trabalhado durante seus estudos e depois ter passado o segundo grau. Acho racional isso pois o candidato demonstrou disciplina e organização pois soube exercer duas funcões ao mesmo tempo. Isso , pra mim, é sinal de que, por exemplo, um administrador, um contador, por merito esta encima dos candidatos que não tiveram essa experiencia.
Sobre a votação foi escrito
Votação: Eu quero saber qual a porcentagem dos comentaristas concorda comigo. Imagine um projeto de lei que garanta para negros e pardos, ou afro-descendentes, 25% das vagas das universidades públicas, porcentagem ajustável para mais ou menos segundo a demografia do estado ou da cidade. Este projeto seria entendido como uma lei temporária por, digamos, 10 ou 15 anos.
Aqui eu quero deixar uma pergunta. Vc ja viu qualquer grupo, formada por qualquer raça, formado por qualquer grupo religioso ou por qualquer nacionalidade e qualquer classe social , depois de um tempo não ver qualquer ação de discriminação positiva como o caso das cotas como um direito adquirido e não uma politica temporaria? Vc enxerga um politico , qualquer politico de qualquer partido, dando fim as cotas quando elas deveriam terminar ( 10 ou 15 anos) sem cair na tentação de as extender pois isso renderia votos?
Alexandre em abril 22, 2005 3:56 AM
#2
Nunca tive uma opinião formada sobre isso, Idelber. Sempre fui intuitivamente contra as cotas, mas sem qualquer reflexão maior. Mas você apresentou argumentos muito bons em favor delas.
Achei todos válidos, com exceção, ironicamente, do último, que você apresentou como o fundamental. Eu não gosto de usar essa palavra "dívida", pois quem iria pagar não foi quem a contraiu. O Brasil é uma abstração, o que existem são pessoas reais.
Isso não tem nada de liberalismo: é apenas a constatação de que, se todas as dívidas fossem exigíveis para sempre, o mundo seria um caos. Faço uma analogia com o direito civil, onde uma dívida deixa de ser exigível após 25 anos, ou após a morte do devedor, se ele não deixar bens que a cubram.
Entenda que não estou usando esses argumentos CONTRA as cotas, apenas dizendo que não cumprem o papel de justificá-las.
Bem, o meu voto é... a abstenção.
Eu concordo com a maioria dos seus argumentos, apenas não vejo uma grande necessidade das cotas, porque não acho que a composição étnica das universidades iria mudar tanto assim.
Você não tocou num ponto fundamental do debate, que é o da identificação de quem é negro ou pardo. Espero que você não defenda aquele odioso "tribunal racial" implantado na UnB, onde uma banca dizia, com base em fotos, se a pessoa era ou não afro-descendente.
Um dos meus avós era negro, e os demais brancos. Posso ser considerado afro-descendente. A questão é que não sou branco, mas também não sou aquele pardo "típico"; sou um moreno até clarinho. Se houvesse cotas e eu tivesse que prestar vestibular eu evidentemente me definiria como pardo, afinal é isso que eu sou, pela definição clássica.
Se a auto-definição for o critério, OK, mas eu posso garantir que, com a possível exceção dos cursos de elite, e tomando por base o meu fenótipo, aqui na Universidade Federal do Pará todos os cursos têm pelo menos esses 25% de pardos.
Aliás, foi feita uma pesquisa pela própria universidade que mostrou que a proporção de estudantes de escolas públicas em relação ao total dos que PRESTAM o vestibular é muito semelhante ao total dos que PASSAM na prova (uns 40-45% do total).
Pode haver alguma distorção aí, e não foi computada a questão racial, mas tenho pra mim que o vestibular, com todas as suas distorções e tendo em vista seu caráter impessoal, atua mais para diminuir do que para aumentar as diferenças sociais.
De qualquer forma, não vou votar CONTRA, porque poderia ser interessante como experiência. Mas tenho receio de que isso gere um acirramento de ânimos que faça aumentar, e não diminuir o racismo.
Marcus Pessoa em abril 22, 2005 4:14 AM
#3
Se todos fossem iguais à você, que maravilha viver :-) la la ri la ri la la...Eu sou 100 % a favor das cotas. Lá no blog porém, a maioria tem se mostrado contra. Estamos discutindo o projeto de estatuto racial do Paim. O problema é que a maior parte das pessoas esquece o elemento escravidão do passado dos afro-descendentes, misturando alhos com bugalhos. Queria fazer um comentário mais longo, mas não estou conseguindo comentar mesmo no blog. Beijocas para ti.
Ana Lucia em abril 22, 2005 4:21 AM
#4
Ah Idelber, queria só queria dizer que o Estatuto racial, é um projeto de lei que existe e está tramitando no congresso desde 1998. As cotas são de 20 %, não somente para universidade, mas para concursos públicos.
Beijos
Ana Lucia em abril 22, 2005 4:24 AM
#5
Desculpe a chatice e os comentários em migalhas. Respondendo ao Marcus Pessoa. Segundo o Estatuto racial o critério é realmente a auto-definição. Beijos a todos.
Ana Lucia em abril 22, 2005 4:26 AM
#6
Se faz diferença ter sido escravo, então as cotas são só para os que foram escravos? :-)
O argumento da reparação histórica é o mais fraco de todos, mas confesso que para minha discordância bastou o primeiro: o vestibular é sim um sistema meritório.
Idelber, aí na terra de Tio Sam a garantia não foi de vagas nas universidades privadas? Sou a favor de cotas nas universidades privadas: o aluno de uma PUC tem muito mais a aprender com seus colegas pretos do que um aluno de UERJ.
E só comento pq sou a favor, em princípio, das ações afirmativas.
andre lopes em abril 22, 2005 4:33 AM
#7
Tomo emprestadas as palavras iniciais do Marcus, principalmente quanto à questão da dívida. Não me sinto devedor de ninguém. Não tenho culpa de ter nascido no meio familiar que nasci e ter tido a oportunidade de estudar/comer. Conforme uma observação que fizeste a um comentário meu certa feita, penso, sim, que podemos colocar esse "E" aí. Vestibular E cotas. Só cuidando com o que disse o Alexandre: certas coisas, no Brasil, nunca são temporárias. Meu voto é a favor por uma única razão: só experimentando é que poderemos saber se vai dar certo ou não. Por fim, não é um título universitário que dá a alguém, seja de que raça for, o título de "competente". Hoje, com uma maioria de brancos universitários, temos, também, uma grande massa de incompetentes brancos trabalhando por aí, só porque passou num vestibular e conseguiu terminar uma faculdade cujo nível anda abaixo de qualquer comentário.(por fim 2: não penso que trabalhar e estudar ao mesmo tempo seja mérito. Nesse país isso é quase uma necessidade.)
Afonso em abril 22, 2005 5:57 AM
#8
Não André, não falo de escravos, falo de descendentes de escravos. A população afro-descendente do Brasil é descendente de escravos. O argumento da reparação histórica não é um argumento fraco é a razão de ser das cotas e faz parte de um movimento de pedidos de reparação que ultrapassa o contexto brasileiro.
Ana Lucia em abril 22, 2005 6:31 AM
#9
Ana Lucia, as cotas foram implatadas nos EUa para permitir o acesso a negros, índios, latinos e outras minorias que nunca foram escravizadas!
O que importa, sempre, é a desigualdade do presente.
andre lopes em abril 22, 2005 7:07 AM
#10
Nas universidades privadas: cotas pra negros, sim.
Nas universidades públicas: ENEM (reformulado e melhorado) neles. Divida-se em dois a fatia: mezzo provenientes de escolas públicas, mezzo de escolas particulares. Vá lá, que fique 20% de sobra pro vestibular.
Em tempo: isso não significa que eu acredite no sistema de cotas. Acho que é um dispositivo ineficiente, frágil e discriminatório. Mas o sistema de ingresso na universidade, hoje, leva de barbada essas três características; então que me promova alguma mudança que, de fato, tem um caráter social por detrás de si.
tiagón em abril 22, 2005 7:34 AM
#11
Conheço duas pessoas que passaram em concurso público pelo critério de cotas. Ambos passariam nos primeiros lugares, mesmo que não houvesse o sistema de cotas. Isso confirma seu argumento de que a diferença de notas é ínfima. Sou a favor das cotas.
Cláudio em abril 22, 2005 7:50 AM
#12
Ana, querida, só uma correção: a população negra no Brasil é descendente de escravizados.
Nennhum povo é escravo, mas foi escravizado. Parece um diferença mínima, mas não é. É bom lembrar que os negros foram escravizados pelos brancos e não dar a idéia de que negros e escravos são sinônimos.
Idelber, está rolando uma discussão sobre isso no blog da Ana.
O texto contra as cotas foi escrito pela Karenin e o meu texto a favor também está lá.
Abras
Daniela em abril 22, 2005 8:23 AM
#13
esqueci de votar. Todo mundo já sabe minha opinião, mas é só pra entrar na estatística.
Sou a favor, pode computar :)
Daniela em abril 22, 2005 8:24 AM
#14
Totalmente a favor del proyecto. Besos.
Julieta em abril 22, 2005 8:47 AM
#15
Como eu disse no blog da Ana Lucia, acho que o sistema de cotas é pouco e está mal endereçado. O Brasil ainda deve um ensino digno em todos os níveis, em todas os estados e em todas as áreas. Acho que seria um paliativo efêmero que esconderia a verdadeira maldade do que se fez com o pobre brasileiro, negro ou branco. Me parece que sua discussão sofre a inclusão de cotistas em áreas como Estudos Africanos ou Sociais é totalmente justa. Apesar disso, no que se refere às áreas técnicas, se a base matemática não faz parte do aluno, ele simplesmente não vai sobreviver no estudo superior, porque ele é massacrante até mesmo para quem supostamente está bem preparado. Colocar alguém despreparado ali é um insulto à quem já teve tão poucas chances na vida. Apesar do risco de chover pedra, sou contra. Não porque eu acho que seja muito, mas porque as cotas são muito pouco. Abraços.
Fernando em abril 22, 2005 9:39 AM
#16
Como as cotas são muito pouco, melhor não fazer nada. humm, faz sentido :)
Daniela em abril 22, 2005 9:41 AM
#17
Caríssimos:
Minha formação acadêmica foi num curso de elite (Medicina) na "melhor universidade do Brasil(USP)" - palavras do Idelber. Dos oitenta graduandos de minha turma havia um negro. Nas demais turmas contemporâneas à minha nenhum negro. É indiscutível a distorção em relação ao perfil racial da população. Gostaria de ressaltar este aspecto: quanto mais de 'elite' é o curso, mais branca sua composição.
Assim, acredito na ação afirmativa, com o estabelecimento de cotas raciais e também para egressos da escola pública. A maior dificuldade me parece quanto ao critério de inclusão: quem deve e quais critérios deverá utilizar para definir a 'cor' do candidato? No caso da UERJ, já citado, o primeiro colocado na classificação de cotas para o curso de Medicina tinha olhos verdes, cabelos lisos e tom de pele "moreno surfista". Lá, o próprio candidato definia a sua condição. Complicado, não?!
Roberson em abril 22, 2005 9:43 AM
#18
Idelber,
Antes de tudo, eu gostaria de dizer que o seu projeto é combater racismo com racismo. Por mais fajuto que o vestibular possa ser como método de avaliação para entrada na universidade, ele é simplesmente cego para o critério "cor de pele". O que as cotas fazem é tornar uma prova totalmente neutra nesse ponto uma prova racista, em que basta ter nascido com a pele mais escura e você ganha um handcap sobre quem não teve a felicidade de nascer. O paralelo feito SEMPRE com as universidades americanas é totalmente ridículo, porque lá existem critérios subjetivos que podiam sim prejudicar negros ou mesmo outras minorias no ingresso da faculdade. Aqui não, teve a nota mínima, passou.
Todos os problemas que você citou para que um negro não consiga uma boa formação são de cunho econômico. Da dificuldade de instrução, da necessidade de trabalho mais cedo na vida, etc. O racismo que existe no Brasil só agrava esse problema, mas está longe de ser a raiz dele. E atacar a cabeça dessa hidra, e não o coração pode sim gerar mais racismo. Enquanto o país não passar a ter uma estrutura que permita ascenção social, uma estrutura que não concentre renda na velocidade
Sinceramente? Eu, que acho racismo simplesmente imbecil, vou sim ter reservas na hora de contratar um profissional negro formado para a minha empresa. Por que? Porque eu sei que os que se formam hoje é a base de muita luta e muito mérito. Eles MERECEM chegar alto. E depois de ler sobre as notas mais baixas na universidade, nas reclamações de entidades que reclamam da dificuldade nas matérias nas faculdades, eu vou ficar como? Vou contratar o que pode ser um profissional B?
Sim, existe problema de racismo no Brasil, mas tem que se questionar se a melhor maneira de se combate-lo é criar uma cota para coitadinhos, cota para os que não conseguiram atingir a nota mínima. Chutar um aluno dentro da faculdade somente porque ele é negro. Ao invés de dar a ele a oportunidade de crescer e brigar de igual pra igual com quem efetivamente teve condições de estudar e se preparar para a universidade, basta colocar pra dentro.
É claro que o teor do projeto mudaria bastante se as cotas fossem pelo menos pra escolas públicas. Essas cotas sim, se ao menos seria um nivelamento por baixo, manteria o vestibular institucionalmente cego à cor de pele do candidato.
você acha racismo imbecil e mas "vai sim" ter reservas na hora de contratar negros? A coisa mais triste, Marcelo, é alguém que não refletiu nada sobre o próprio preconceito.
Marcelo Tavares em abril 22, 2005 9:54 AM
#19
Daniela, como vc vê, o argumento quanto à não fazer nada não faz parte do que eu falo. Sou a favor das cotas nos EUA, onde a escola pública ainda consegue produzir alunos de minorías com bagagem suficiente para se manter no alto. No Brasil, isso praticamente não existe. E pode ter certeza que o político que assinar a lei vai lavar as mãos de qualquer responsabilidade sobre a escola pública. Se aplicado, torço para que funcione, não sou contra os cotistas. Nem a favor de não fazer nada.
Fernando em abril 22, 2005 9:55 AM
#20
Fernando, escrevi sobre isso na Ana. Por isso vou apenas copiar e colar o que escrevi lá, aqui.
Os cotistas terão que fazer o vestibular. Ninguém vai dar a vaga "de graça". E eles terão que ter tido uma nota superior à nota de corte. Ou seja, só vai entrar pelas cotas o que provar que detêm os conhecimentos considerados mínimos para estar lá. E estariam todos se houvesse vagas para todos. Você sabe que muita gente bem preparada não passa no vestibular, não sabe? Isso ocorre porque não há vaga para todos, não porque os reprovados são incompetentes. Considerado isso, vamos ao copy and paste:
"Em seu texto Karenin diz que: 'além de parecer solução a um mal que deveria ser endereçado anteriormente, NÃO garante que esse indivíduo poderá transitar pelo mundo acadêmico e muito menos que chegará apto a enfrentar o mercado de trabalho'.
O vestibular mede o acúmulo de conhecimentos e não o potencial para aprender, o acúmulo de conhecimento do cotista não é maior do que o dos demais, porém seu potencial é, isso porque proporcionalmente ele enfrentou uma seleção mais rigorosa, ele superou dificuldades muito maiores para passar no vestibular mesmo com cotas. Um aluno cotista de uma universidade pública como a USP, por exemplo, é muito superior ao um aluno do mesmo curso na maioria das universidades particulares. Será que os estudantes das particulares são todos 'inaptos para transitar pelo mundo acadêmico e a enfrentar o mercado de trabalho'?"
Daniela em abril 22, 2005 10:11 AM
#21
nos EUA, onde a escola pública ainda consegue produzir alunos de minorías com bagagem suficiente para se manter no alto.
De que escola pública você está falando, Fernando? Você conhece as escolas públicas do interior do Alabama? do interior da Carolina do Norte? do Wyoming? Qual a porcentagem dos alunos de Johns Hopkins vieram da escola pública? A situação do ensino fundamental público nos EUA é calamitosa, Fernando, calamitosa. Talvez de dentro dos muros de uma universidade de primeiro nível não seja muito possível vê-lo, mas meu amigo, dê um passeio pelas escolas públicas aí de Baltimore, ou daqui de New Orleans. Esse quadro que você pinta, de um Brasil miserável e um EUA onde as coisas se resolveram, é bastante problemático.
Tenho que confessar que é a primeira vez que encontro alguém que é contra uma medida social não porque ela não seja boa, mas porque ela não seja suficiente.
Os argumentos de Marcelo Tavares eu vou ignorar, obviamente.
Idelber em abril 22, 2005 10:16 AM
#22
Marcelo Tavares, eu acho que vc não está por dentro dos projetos de reserva de vagas que estão sendo ou foram implantados nas Universidades Federais. Elas atendem negros de escola pública. Ou seja, os negros que puderam pagar escola particular, que têm uma formação semelhante à da maioria dos brancos, não entram pelas cotas.
Na Federal da Bahia a reserva de vagas é para alunos de escola pública sendo que um percentual atinge brancos e indígenas. Por razões óbvias a reserva para negros é bem maior. Leia os comentários do Cláudio Simões, ele explica tudo bem didaticamente aqui.
Daniela em abril 22, 2005 10:17 AM
#23
"O paralelo feito SEMPRE com as universidades americanas é totalmente ridículo, porque lá existem critérios subjetivos que podiam sim prejudicar negros ou mesmo outras minorias no ingresso da faculdade. Aqui não, teve a nota mínima, passou."
Teve a nota mínima passou? Faz-me rir...hohoho
A pior coisa é discutir com alguém que não tem a mínima idéia do que está falando.
Daniela em abril 22, 2005 10:21 AM
#24
Ao Marcelo, Daniela, é melhor pedir que ele volte e leia tudo de novo. Não entendeu nada.
O link já foi corrigido, Dani.
Idelber em abril 22, 2005 10:24 AM
#25
À princípio eu era contra, mas os bons argumentos aqui apresentados me fizeram pensar melhor.
E a Daniela acabou de eliminar minha maior ressalva às cotas. Se for como na Federal da Bahia, restringindo as cotas aos alunos da REDE PÚBLICA, e reservando vagas para índios e brancos, ainda que em menor quantidade, eu sou a favor.
Porque eu temia que as cotas acabassem por beneficiar os negros e pardos de classe-média, que estudaram em escolas particulares, e que, com isso, levariam vantagem sobre os que estudaram na escola pública, e não teriam a concorrência dos demais alunos.
Mas sendo assim, como a Daniela escreveu, eu apoio o projeto.
Ricardo Antunes da Costa em abril 22, 2005 10:47 AM
#26
Idelber, minha frase foi "nos EUA, onde a escola pública ainda consegue produzir alunos de minorías com bagagem suficiente". Esse "ainda" é importante porque eu nunca disse que as escolas são maravilhosas por aqui. Se vc botar o ensino público no Brasil com o dos EUA lado a lado, dá pra comparar? A porcentagem de alunos de escola pública na JHU é baixa porque é uma universidade privada, com muito mais chances de que um undergraduate tenha sido educado da mesma forma no high school. Na Universidade da Virginia, onde eu ensinei antes, era ao contrário. Inclusive, alguns dos alunos mais brilhantes e batalhadores que encontrei eram mulheres (de todas as etnías) que estudaram em escolas públicas e eram ajudadas por bolsas patrocinadas pelas Forças Armadas. Duas delas estão no Iraque, hoje. Minha posição pode parecer bizarra, mas tem base: quando morava no Rio, o problema dos assaltos nos sinais vermelhos, de noite, aumentou tremendamente. O que fizeram? Sancionaram uma lei onde todo mundo podia avançar sinal depois de uma certa hora (o que todo mundo já fazia). Ninguém pensou em botar mais polícia ou prender os ladrões. O problema educacional no Brasil é maior ainda e por demais importante para que o tratem da mesma forma. Abraços.
Fernando em abril 22, 2005 10:56 AM
#27
Sou a favor das quotas, seja em universidades públicas ou particulares, e também já disse antes que os colégios particulares também devem abrir mais espaço para bolsistas. Por todas as razões que você citou.
Quanto ao tamanho/proporção da cota, não me sinto competente em julgar. Terá que ser um estudo muito sério, reunindo legisladores, administradores de universidade, representantes das comunidades afetadas, etc. A experiência americana deve, sem sombra de dúvida, ser levada em conta, até porque já existe há muito tempo e tem resultados concretos para mostrar.
Idelber, estou contigo quanto à baixa qualidade do ensino público nos EUA. Mesmo a California, um estado mais rico que os citados por você, a coisa anda feia. Outra coisa, os negros geralmente são relegados às piores escolas, pois nos bairros pobres, as escolas são invariavelmente ruins. Mesmo as escolas públicas dependem de doações de pais e amigos, e claro que as escolas nos bairros mais abastados são privilegiadas. Sei disso porque tenho filho, amigos com filhos aqui, e uma das primeiras preocupações dos pais quando se mudam para um novo bairro, é saber como é a escola pública na qual seu filho terá que se matricular (há pouquíssimas exceções a crianças que não moram na vizinhança). Os pais de classe média e alta estão cada vez mais recorrendo a escolas particulares. Essa semana mesmo, saiu uma reportagem dizendo que no sistema da Universidade da California, o número de alunos negros admitidos está caindo (o sistema de cotas foi abolido no estado em 97), e hoje representa apenas 3.18% do total de alunos admitidos este ano.
Leila em abril 22, 2005 10:58 AM
#28
Foi bom esclarecer, Daniela, a questão de que as cotas beneficiam apenas alunos negros de escolas públicas. Eu já sabia disso, mas muita gente não sabe, e se lembra do imbroglio terrível que aconteceu no primeiro vestibular da UERJ, que juntou dois sistemas de cotas diferentes e beneficiou muitos estudantes negros de escolas particulares.
Os argumentos do Marcelo são lamentáveis, e a linguagem que usou um desrespeito.
Marcus Pessoa em abril 22, 2005 11:08 AM
#29
Sou estudante de uma faculdade particular que tem três alunos com bolsa. Eles consigaram bolsa através do programa ProUni. E posso lhe garantir que o melhor aluno é um deles. O rapaz se esforça muito, sempre nos ajuda quando estamos com dificuldade em alguma matéria e não é discriminado de forma alguma - e ele é negro.
Túlio em abril 22, 2005 11:21 AM
#30
E eu sou a favor de 25% de cotas para negros, pardos e afro-descendentes. Agora, pois antes de ler seus posts era contra.
Túlio em abril 22, 2005 11:30 AM
#31
Idelber,
mesmo temendo não estar suficientemente preparada para este debate, vou expor aqui minha opinião, mais fundamentada em minha experiência que em bibliografia.
Concordo com a política de cotas, porque considero que a universidade pública deve democratizar o conhecimento e não reservá-lo a uma elite que, a rigor, não carece de universidade pública.
Apenas lamento que o principal critério para a distribuição das cotas seja racial, já que a idéia da diferença entre as raças é, no fundo, a mãe de todo racismo.
Embora exista e resista aos tempos, infelizmente, uma grande coincidência entre negritude e pobreza, não é a melanina que prejudica o negro mas sim as condições sociais a que é submetido e, no caso das cotas, o que o prejudica é a baixíssima qualidade do ensino público atual. Essa calamidade educacional atinge também outras etnias, especialmente os nordestinos (muitas vezes bem "brancos" na cor da pele mas "quase pretos de tão pobres", como diria o Caetano) e os descendentes de índios. Acho complicado, aqui no Brasil, determinar quem é negro e quem não é, fica um critério difuso. Eu sou descendente de negros, portugueses, espanhóis e alemães. Eu sou o que? Branca, porque sou da elite. Mas se eu tivesse estudado numa bosta duma escola pública, sucateada e eternamente em greve, não teria direito à cota por ter mais baixa concentração de melanócitos que uma colega, muitas vezes minha vizinha na mesma favela? Acho que misturar conceito de "raça" com concessão de direitos não é boa idéia, dá margem a injustiças e distorções. Melhor seria usar critérios objetivos relativos às condições de estudo. Ou seja: estudou a vida toda em escola pública, tem direito à cota. Teve acesso à escola particular, ñao tem. E aí, sejam de que cor forem, os infelizes estudantes da rede pública brasileira poderiam começar a entrar nos redutos até hoje exclusivos da elite. Certamente essa medida beneficiaria um contingente maioritário de negros, mas de modo mais proporcional, beneficiando outras etnias e camadas populacionais não menos excluídas do processo.
É minha opinião, no momento. Está amparada, em parte, nos anos em que trabalhei como professora e vivi junto à comunidade do Vidigal, onde a triste realidade da favela iguala alourados, morenos, pardos e negros de todas as cores na "vala comum" da miséria, da violência e da ignorância.
Se eu tiver deixado de considerar algum dado importanto, por gentileza ponha-me a par.
Devo apenas acrescentar que, numa pergunta simples, tipo sim ou não, à política de cotas, eu votaria "sim, sou a favor das cotas", pois a medida, ainda que imperfeita, está mais próxima da justiça social do que uma universidade pública lotada de mauricinhos com carros do ano, esbanjando em luxo o que "economizam" em mensalidades.
christiana em abril 22, 2005 12:10 PM
#32
Querido Idelber,
Enquanto meu voto, preciso esclarescer que eu sou branco, americano, meio judeo, de classe media, privelegiado, demasiado educado. E ruim se reduzir assim, mas não tenho medo, nem vergonha de reconhecer que essas qualidades, além do meu humor, beleza, e carater me ganharam muitos privilegios nessa vida. Então, eu voto para cotas, mas sem duração fixo.
Uma amiga minha da Universidade de California a LA, que acaba de discontinuar as cotas nas faculdades la, me constatou que de um ano pr'o outro, terminou acabando com alunos negros. 15 anos de experiencia, e foi facilmente reversada. A mesma coisa com a pratica de transportar alunos negros para escolas melhores brancos fora do seu bairro. O "investimento possessivo dos brancos", para citar George Lipsitz, é um bicho feroz, excludente, e enraizinado e visa os melhores opções para seus filhos brancos, mesmo se inclui a monopolização de instituições publicas.
Um dos commentaristas acima falava de combater racismo com racismo que meus alunos brancos frequentemente utilizam. tipo, "qual é a problema de chamar grafiti de negra se ele é?" Cual é a diferença entre um negro e um polones? Num mundo linguistica em que "neguinho" é sininomo de "cara", essa pergunta exige reconhecer a existencia de racismo e a falta de 40 hectares e uma mula (i.e., a falta de reparação e de luto da escravizão) Infelizmente, 100 e poucos anos depois do fim da escravidão descendentes de negro por uma razão "misterioso" na maioria continuam pobres pelo mundo inteiro enquanto descendentes de italianos, judeus, e arabes (até 2001) se deram bem, se integraram, viraram brancos...
Da perspetiva americana, eu posso constatar que Brasil esta tomando um attitude talvez regionalizado bem mais progressita do que aqui, aonde as leis contra racismo estão furados. Não concheço nenhum caso de alguem preso por "hate speech" Nos EUA e procurei no internet antes de escrever esse aqui.
Aaron em abril 22, 2005 12:28 PM
#33
O Idelber arrebenta justamente porque ele traduz em palavras boa parte das coisas que eu penso e me livra do trabalho de fazê-lo. Tá de parabéns. Assino embaixo e ainda voto em Idelber pra presidente.
Rei Açúcar em abril 22, 2005 12:29 PM
Aaron em abril 22, 2005 12:35 PM
#35
Concordo com o Rei Açúcar. Quando o Idelber se pronunciou sobre o direito ao aborto, foi a mesma coisa.
Onde que a gente assina mesmo?
Grande abraço, Marcos.
marcos alexandre em abril 22, 2005 1:19 PM
#36
Tá, vocês me convenceram.
Se a Christiana, cujas restrições à proposta foram mais contundentes que as minhas, votou sim, não tem porque eu ficar em cima do muro.
Mudo o meu voto de abstenção para sim.
Marcus Pessoa em abril 22, 2005 1:59 PM
#37
Prof., Dani (minha comadre virtual) e Ana Lucia: sou totalmente contra ate o presente momento e minhas justificativas se encontram no blog da Ana.
Leitora/Fa ou Paula em abril 22, 2005 2:03 PM
#38
Olá, Idelber! Item por item, ok?
1. Vestibular é como democracia: ambos os sistemas são uma merda, com a ressalva de que as alternativas a vestibular e democracia são ainda piores.
2. Idelber, cursei universidades públicas por 13 anos, em 4 cursos diferentes. O que vi em todas as ocasiões, em um espaço de tempo que vai de 1985 a 2001, é o estabelecimento de “panelas”, em acordo com afinidades individuais. A classe é unida no primeiro ano, e depois se fragmenta. Tanto as cotas podem ajudar a promover a integração quanto a segregação dentro de uma mesma turma. Para chegar à sal conclusão, só mesmo com a observação de casos práticos.
3. Concordo com você que se houver agressividades contra os beneficiários das cotas será em decorrência de sentimentos racistas anteriores ao ingresso na universidade. Ademais, os prejudicados com as cotas não estarão no ambiente universitário, reprovados que foram no vestibular.
4. As cotas tiram as vagas de alguém, sim. Isso faz parte da essência do sistema de cotas; por que e como negar? A negação da assertiva é simplesmente absurda.
5. Não acredito que os professores tenham qualquer estímulo para avaliar os cotistas favorável ou desfavoravelmente. Acredito que as avaliações dos docentes serão justas.
6. Apenas uma reforma do ensino fundamental, fato que independe das cotas, eliminará a exclusão sem se valer de métodos duvidosos.
7. Sinceramente: a classe alta está se lixando para os menos favorecidos. Claro, falo em termos gerais, pois exceções existem. Não fosse assim e já teríamos uma distribuição de renda menos desigual.
8. Um número maior de negros na universidade poderia, sim, aumentar o enfoque na cultura negra, mas não creio que o benefício compense os malefícios do sistema de cotas.
9. Considero, para dizer o mínimo, inadequado o argumento da “dívida histórica”. Porque se os negros são credores de uma “dívida histórica”, presume-se que os brancos são os devedores. Porém, passaram-se cinco gerações desde a Abolição e, ademais e infelizmente, o passado não pode ser reescrito. Assim, devemos responsabilizar alemães nascidos no pós-guerra pelo nazismo? Ora, ora... Que raio de dívida moral é essa, genética, que passa de pai para filho? E mais: um mulato (ou toda e qualquer pessoa que não seja branco puro ou negro puro) é credor e devedor ao mesmo tempo, em um grau variável em acordo com a quantidade de melanina na pele?
10. Votação: eu sou CONTRA qualquer projeto de cotas que leve em conta critério racial. Se o projeto for baseado no critério econômico, aí sim estarei de acordo. Afinal, se os defensores de cotas vivem dizendo que a maior parte da população miserável é negra, por que não adotar o critério econômico, que não é racista, nem gera os problemas que a segregação racial proporcionada com chancela do Estado? Ou será que o não-negro pobre deve ser tratado como pária, pois não pode oferecer à sociedade nem mesmo uma cultura diferenciada, objeto de estudo de folcloristas brancos, estudados e bem-de-vida?
Ricardo Montero em abril 22, 2005 2:27 PM
#39
Prof. ja que Ana e Daniela se encontram por aqui, peco licenca pra deixar um recado as duas. Obrigada,Prof.Idelber:
"Se todos fossem iguais à você, que maravilha viver :-) la la ri la ri la la...Eu sou 100 % a favor das cotas. Lá no blog porém, a maioria tem se mostrado contra. Estamos discutindo o projeto de estatuto racial do Paim. O problema é que a maior parte das pessoas esquece o elemento escravidão do passado dos afro-descendentes, misturando alhos com bugalhos. Queria fazer um comentário mais longo, mas não estou conseguindo comentar mesmo no blog. Beijocas para ti.
Ana Lucia em abril 22, 2005 04:21 AM".
Ana,sem querer ser pe no saco, afinal nutro profunda admiracao pelo Prof. Idelber,inclusive sou sua leitora/fa, mas discordo de que a vida seria melhor se nosso pensamento se igualasse ao dele. Digo e repito, debate nao eh corrida de cavalo. Nao existe mortos e feridos. Acho que a Karenin colocou postura contraria as cotas de forma primorosa e eu ao concordar tambem sugeri. Paliativo por paliativo acho mais vantajoso e realista transpor as cotas da Universidade pro ensino fundamental e medio. Why not? Cade voc, Dani que solta sua posicao nesse espaco e ao inves de ficar pra debater se aloca em outra caixa de comentarios? E voc, Ana? Descobri que o motivo da sua imparcialidade aqui se deve a acompanhar a Dani em campanha pro-cotas em outro blog. Sei que estou incorrendo em atitude impopular tanto ao discordar e contribuir pra vida piorar...rs...como em chamar a atencao de vocs duas. To chateada, viu? Com as duas. To mesmo.
Posted by: Paula | abril 22, 2005 03:24 PM
leitora/fa ou Paula em abril 22, 2005 2:35 PM
#40
O critério é combinado Ricardo: racial e economico.
E sabe porque? Por uma razão beeeem simples. Os brancos pobres são menos pobres do que os negros pobres. De forma que, uma critério apenas econômico ainda poria os brancos pobres em vantagem em relação ao negro. Tem mais investimentos em sua própria educação e mais oportunidades.
Dessa forma, toda a boa vontade iria por água abaixo e os negros continuariam excluídos. Não dá pra se falar de um programa de cotas que não tenha um recorte racial, porque, se assim for, a universidade vai continuar branca. Ninguém aqui quer isso, né mesmo?
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