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domingo, 24 de abril 2005
Evoé Pixinguinha, 108 anos

Se vivo estivesse, Alfredo da Rocha Viana Filho teria comemorado 108 anos neste sábado. Pixinguinha foi o maior gênio da história da música popular brasileira, ponto de encontro de séculos de batuque com o salão do século XIX e sintetizador do que seria toda a linguagem da música popular que o sucederia.
Sim, já existia música popular brasileira urbana antes de Pixinguinha: atendia pelo nome maldito de maxixe. Mas, escolado em todas as nuances do batuque dos terreiros e quintais, ao mesmo tempo em que também profundo conhecedor das técnicas de harmonização ocidentais, é Pixinga quem consolida o repertório do que será a base da linguagem musical popular urbana brasileira: o choro.
Realizações do gigante? Encheriam um blog. Em 1919, o Brasil conquistou o primeiro campeonato sul-americano de futebol derrotando o Uruguai nas Laranjeiras. Pixinguinha compôs um maravilhoso choro, 1 x 0, homenageando o estilo de toques laterais da seleção com rápidas subidas e descidas na escala. Até hoje busca-se um musicólogo que entenda de futebol para destrinchar a rica alegoria tecida aqui por Pixinga.
É, sem dúvida, o maior flautista da história do Brasil e o maior arranjador de sua música popular. Com o tempo, passou ao saxofone e nele também foi gigante. Pixinguinha é também um dos nossos maiores compositores populares. De 1911 a 1973, compôs choros, valsas, sambas, polcas, tangos, maxixes, marchas e até mesmo emboladas e lundus. É o autor daquela que talvez seja a canção mais amada e cantada do século no Brasil: Carinhoso. Quem já enveredou pelos mistérios do contraponto, testemunha: com a complexidade e riqueza que ele ocorre em Bach, só em Pixinga.
Na década de 1920, Pixinguinha lideraria Os Oito Batutas (com os outros três negros China, Donga e Nélson Alves e os quatro brancos Raul e Jacó Palmieri, Luis de Oliveira e José Alves) na viagem musical mais importante da época: o estrondoso sucesso em Paris e em Buenos Aires, turnê chave na luta contra o racismo. Daí para frente, sua importância passa a ser difícil de medir, posto que fundamental para simplesmente tudo o que se fez depois dele.
Em 1953, Pixinga iniciaria um longo caso de amor com o Bar do Gouveia, na Travessa do Ouvidor, centro do Rio. Em 1963 sua mesa seria oficialmente “tombada” e reservada só para o Mestre.
Para quem quiser conhecer o melhor de Pixinga ele mesmo, há que se escutar o inacreditável disco de 1971. O disco feito com Clementina também é indispensável. Para se conhecer as gravações mais antigas, há uma boa coletânea da Kuarup. A caixa Memórias Musicais da Biscoito Fino, que traz 15 CDs com materiais do começo do século (dentre os quais 3 CDs só de Pixinguinha, incluido-se a legendária viagem dos Batutas a Buenos Aires), parece que esgotou.
Um dos últimos e mais incríveis casos de Pixinguinha é relatado por Sérgio Cabral, em Pixinguinha, Vida e Obra (Lumiar, 1997). Voltando para casa tarde da noite, ele é assaltado por três ladrões, a quem passa todo o dinheiro. Um dos ladrões o reconhece: “Vixe, é o seu Pixinguinha”! Os ladrões imediatamente devolvem todo o dinheiro e se desculpam, o que move Pixinga a convidá-los:
- Vocês não querem tomar uma cervejinha não?
Acaba levando os três ladrões para sua casa, onde passam toda a madrugada na birita, concluída ao raiar do sol.
PS 1: O Biscoito envia seu axé a Nemo Nox, que já se encontra aqui nos EUA, resolvendo pendências para a sua permanência. Nemo relatou num post o seu kafkiano ingresso ao país. Enviamos os votos de que toda a papelada se resolva.
PS 2: Uma leitora pergunta sobre o "eterno feminino". O termo é antigo. Com esse nome há um lindo conto de Eva Brodhead, um belo quadro de Cézanne e muita picaretagem junguiana. Quem mais faz minha cabeça, ao dissertar sobre o feminino, é a filósofa-poeta Luce Irigaray.
Escrito por Idelber às 05:22 | link para este post
| Comentários (14)
#1
Evoé Pixinga! Bem lembrada a associação Pixinguinha x Bach, facilmente reconhecida nos choros maravilhosos do nosso maior músico. Aqui em casa a música brasileira tem um lugar especial: os "meninos" Ângelo (22) e Leo(20), universitários, já formam um conjunto com outros colegas tocando e cantando "samba de raiz"! Temos uma coleção de discos editada pelo SESC (SP), maravilhosa, de músicas e entrevistas com os mais importantes músicos do século passado. "Os meninos" curtem também as bandas atuais, etc., mas na hora de cantar: samba!
Cláudio Costa em abril 24, 2005 6:42 AM
#2
Ontem eu fui a um show do Paulinho da Viola em homenagem ao Pixinguinha aqui na Praia de Icaraí em Niterói (ali perto do Museu do MAC, o que parece um disco voador, do Niemeyer). No caminho, dois meninos de uns 15 anos comentavam: " Vambora correndo que o Pixinguinha já deve estar começando a cantar!"
Nossa Senhora da Informação Cultural, zelai por esses pobres mancebos e diga-lhes que o Pixinguinha, infelizmente, passou dessa para melhor...
De qualquer maneira, o show foi muito bom.
Beijos.
Alline em abril 24, 2005 7:44 AM
#3
Oi... prazer visita-lo... Postei algo novo que estou apostando rendera um bom tempo de discursao e preciso da sua participacao em comentarios... desculpe o meu sumisso do mundo blogueiro prometo mais constancia. o endereco e http://www.jwellisten.blog.uol.com.br/
Jose Wellisten em abril 24, 2005 7:45 AM
#4
acordar num domingo de sol e espiar teu texto sobre o mestre pixinga. é acalorar o sangue. abraços cabra
mario cezar em abril 24, 2005 10:08 AM
#5
Legal demais, Idelber. Admiro muito esses talentos absolutos como o Pixinguinha. Gostaria de entender de teoria musical para perceber melhor o que os músicos fazem e não ficar só no gosto ou não gosto intuitivo.
Guto em abril 24, 2005 10:26 AM
#6
Olá! Não vim até aqui lhe pedir que venha visitar o meu espaço na net, porque provavelmente não lhe interessará. Vim para parabenizá-lo por seus escritos e dizer que tenho aprendido muito por aqui.
Um abraço.
Zilá em abril 24, 2005 11:32 AM
#7
Idelber, obrigada pelos links que podem me ajudar a conhecer melhor o conceito "eterno feminino". Comprei um livro de Jung recentemente por curiosidade. Não conheço praticamente nada de suas idéias, só o que o senso comum das conversas de boteco diz. Tenho a suspeita de que, realmente, a noção de arquétipo, embora tenha uma certa beleza, deve guardar em si muita picaretagem mesmo, muita viagem na maionese. Bom, só lendo o danado do Jung que está empoeirando aqui na estante faz tempo para ver o que acho.
Pretendo ler sobre o "enterno feminino" sim, e depois quero conversar a respeito com amigas que são mulheres, que gostam de ser mulheres, mas que têm uma orientação masculina na vida. Será interessante ver como interpretam o tal "ser mulher". Certamente outras interrogações virão a partir da leitura e das conversas. Mas a vida não é justamente isso? A gente pula de interrogação pra interrogação e, no meio do caminho, vai tentando construir uma certa verdade pessoal.
Beijos e, mais uma vez, obrigada pelas dicas.
Mônica em abril 24, 2005 11:39 AM
#8
Ah, sobre Pixinguinha: pena a vida humana não durar 300 anos.
Mônica em abril 24, 2005 11:40 AM
#9
Pixinguinha esta' para a musica popular brasileira assim como Louis Armstrong esta' para a americana. Ou mais importante, pois ele era um solista fenomenal e um compositor iluminado (como se nos EUA Armstrong e Ellington tivessem sido um so').Esse disco de 1971 e' realmente espetacular. Esse de 1966 com a Clementina e a Santissima Trindade (Pixinga, Joao da Baiana e Donga) tambem vale ouro. Recomendo tambem um cd ao vivo do Paulo Moura do inicio dos anos 90 onde ele faz uma releitura dos standards do "Pizindim" (eu acho que se chama "Paulo Moura e seus Batutas").
Wagner em abril 24, 2005 1:58 PM
#10
Mais um comentario que julgo pertinente. O Brasil possui uma das tres melhores musicas populares do mundo (ao lado dos EUA e de Cuba) e nada faz para preservar a sua historia. O maior virtuose do choro de todos os tempos (e um bom compositor tambem) esta' totalmente esquecido. Eu estou falando do Jacob do Bandolim. Nao existem nem mais imagens dele, havia um VT de um programa de TV dos anos 60 que estava arquivado na TVE, mas apagaram as imagens para aproveitar a fita. Enquanto isso nos EUA, qq musico obscuro de jazz foi biografado, suas gravacoes catalogadas, etc. Desde a fundacao do Institute of Jazz Studies pelo Marshall Stearns nos anos 50 preserva-se a historia do jazz. No Brasil temos gente de altissimo nivel, mas faltam recursos. O Gilberto Gil tem saido pior do que a encomenda...
Wagner em abril 24, 2005 2:14 PM
#11
Oi. Fazia tempo que não aparecia por aqui. Seus textos continuam ótimos. Por dentro e por fora. Abraços,
Pops em abril 24, 2005 8:27 PM
#12
"Se vivo estivesse, Alfredo da Rocha Viana Filho teria comemorado 108 anos neste sábado."
Bom, morto é que ele não pode comemorar.
Desculpe.
Maurício Avelar em abril 25, 2005 12:00 AM
#13
Nunca se sabe, xará. Tem gente que agüenta cada bobajada neste planeta, que eu acho que até depois de difunto, comemora.
Muito obrigado aos amigos pelos comentários. Que legal que o post sobre Pixinga agradou. O disco citado pelo Wagner, realmente extraordinário, é esta beleza aqui.
Idelber em abril 25, 2005 3:32 AM
#14
O que se falar da música brasileira??
No único país onde a guitarra mudou de nome (ah, o bom violão) e não existe técnica ou execução violonística que se compare a nossa, ainda há gênios como o nosso Pixinga que compõe as maravilhas que já se sabe!
A comparação com Bach é justíssima. Os contrapontos do mestre são perfeitos e maravilhosos tanto de se ouvir quanto de se ler!
Eu sou um grande admirador do choro e se Deus quiser ainda faço meu violãozinho "chorar" bonito! Estamos estudando pra isso!
Evoé Idelber por lembrar-nos do grande mestre Pixinga!
valeu, John. Sendo não-músico, alegro-me muito quando o que escrevo agrada a vocês. Axé.
John Coffey em abril 25, 2005 1:25 PM