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Um blog sobre política, literatura, música e futebol basquetebol. Na rede desde outubro de 2004.



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« Sobre a ofensa racista a Grafite, a prisão de Leandro Desábato, o racismo no futebol e as trapalhadas de Agnelo Queiroz :: Pag. Principal :: Blogueiro convidado: Luiz Biajoni »

domingo, 17 de abril 2005

O Brasil Pós-Grafite, Racismo e Cotas

grafite.jpg

Qualquer que seja sua opinião sobre a prisão do jogador argentino Leandro Desábato por ofensas racistas a Grafite, não há dúvida que o episódio muda muita coisa no Brasil. Abre-se um precedente jurídico importante. De outros blogs e da ampla discussão que aconteceu aqui nos últimos dois dias, selecionei algumas citações:

Imprensa Marrom: Os brasileiros precisam tentar - pelo menos TENTAR - entender que o futebol não é algo sagrado. É um esporte como qualquer outro, pelo menos do ponto de vista jurídico. O árbitro de futebol não é uma “autoridade” no campo; seus poderes não são similares ao do comandante de um avião, por exemplo. Por fim, o crime de injúria, qualificada por ser ofensa racial, não pode JAMAIS ser tratado por um tribunal desportivo. O texto de Gravataí Merengue é muito lúcido. Quando o assunto é futebol, trabalha-se com a noção de que as quatro linhas estão suspensas no ar, não sujeitas às regras e leis extra-campo e que o árbitro é uma autoridade inquestionável. Uma das grandes formas de reprodução do poder obsceno que mantêm as cartolagens nacional e internacional é o dogma de que as leis da sociedade civil não podem imiscuir-se no futebol. A queixa de Grafite e o acatamento desta pelo delegado ajudaram a desestabilizar um dos grandes mitos nacionais: a inviolabilidade das quatro linhas.

Blogueiro Ricardo Antunes, aqui no Biscoito: ofensas racistas já aconteceram em jogos nacionais, sem que ninguém seja denunciado. Espero então que, a partir de agora, os racistas brasileiros sejam também punidos . . . Porque é fácil jogar um argentino que ninguém conhece na cadeia. Queria ver é fazer isso com o Diego, por exemplo, que em 2002, quando defendia o Santos, ofendeu o lateral Kléber, então no Corinthians. Concordo com o Ricardo que esse evento tem o potencial de mudar o grau de tolerância com a ofensa racista por parte dos atletas negros. É importante separar as duas coisas: o fato de que provavelmente o assunto teria passado incólume se o ofensor tivesse sido brasileiro não quer dizer que a denúncia de Grafite fosse menos válida ou que a coisa tivesse sido “armada”, como ridiculamente acusou o vice-presidente do Quilmes. Agora, sem dúvida o precedente coloca as futuras denúncias em outro patamar. Se Grafite, num jogo de Libertadores da América contra o respeitado futebol argentino, tendo sido expulso da partida, teve a coragem de denunciar a ofensa à justiça, é de se esperar que futuras vítimas sintam-se muito mais respaldadas. Isso só pode ser positivo.

Blogueiro Emerson, que esteve no Morumbi, no Biscoito: Ali, na hora, não entendemos o porquê de sua expulsão mas, sei lá, intuitivamente, aplaudimos e gritamos seu nome mesmo sendo expulso. Um comportamento anormal esse, pois a torcida do São Paulo mais vaia do que aplaude. Findo o jogo, descobrimos que fizemos a coisa certa ao aplaudir o Grafite. Para quem está preocupado com os próximos jogos de brasileiros na Argentina: nada acontecerá, tirando, talvez, mais vaias e xingamentos. Concordo em gênero, número e grau. Eu já vi situações semelhantes às descritas pelo Emerson, nas quais a expulsão de um jogador por revidar ao ter sua honra atingida foi aplaudida pela torcida. Concordo com Emerson no que se refere ao jogo de Buenos Aires pelas eliminatórias: será um jogo tenso, não há dúvida. Mas quem acha que o poder público argentino estará armando ‘armadilhas’ para levar alguém preso não conhece a diferença entre a Argentina de Carlos Menem e a Argentina de Néstor Kirchner.

Blogueira Daniela Silva, no Biscoito, desmontando mais uma vez o pedestre argumento de que no Brasil não há preconceito racial, só econômico: A discriminação existente no Brasil é econômica? Tsc tsc tsc, que argumento elementar!!! Quer dizer que, se a pobreza acabasse num toque de varinha de condão o racismo iria junto? Quer dizer que negros mais abastados, de classe média não sofrem preconceito? Ah, então diga isso pro guarda que me para todo dia na porta do shopping onde fica a minha academia e pergunta pra onde eu vou(são 6 da manhã e o shopping está fechado). Engraçado é que eu estou com roupas de ginástica e ele não para nenhum dos brancos. Vai ver ele acha que alguém da minha cor não pode pagar aquela academia. Mas, perái, o preconceito não é econômico?? Como em todas as outras intervenções aqui, Daniela foi ao cerne da questão. Está mais que provado que 1) a exclusão econômica atinge desproporcionalmente a população negra; 2) que a intimidação e a violência policiais, para não ir mais longe, atingem preferencialmente a população negra; 3) que as várias formas de desigualdade social se reproduzem racialmente também. Por isso não há o menor sentido em se discutir, por exemplo, se “branquelo de merda” ou “alemão-zão de merda” seriam igualmente imputáveis como crimes racistas. Trata-se de um reductio ad absurdum. Quem arma um argumento assim não vive na realidade, vive na sua própria medrosa fantasia. Ninguém nunca foi escravo no Brasil por ser branco. Os brancos não têm que lidar cotidianamente com práticas de exclusão baseadas na cor da pele. Pelo que me lembro, não é comum em língua portuguesa agredir alguém com termos como branco sai daí ou branco, você não vale nada. Tampouco é comum que se peça a alguém que troque de elevador por ser branco. Em outras palavras, quem quer sufocar a discussão sobre o racismo criando simetrias-zinhas falsas com expressões que nunca feriram os brancos está simplesmente fugindo do assunto. Na maioria dos casos porque se sente incomodado com o tema, acha que sabe algo sobre ele, e não tem humildade de escutar as vítimas reais.

Foi o que disse brilhantemente Cláudio Simões aqui no Biscoito: Daí que achei ridículo o argumento de algumas pessoas de que o próprio nome que o jogador escolheu, Grafite, já é ofensivo. Pra mim, pouco importa se o nome tenha vindo do ato de grafitar ou da substância. Ele escolheu ou assumiu e, a partir daí, não há nenhuma intencionalidade de ofensa. Como não há ofensa quando Gilberto Gil batiza a filha de Preta, ou o cantor se chama de B-negão ou Brown. Pelo contrário, há aí uma afirmação da diferença, o que passa longe do preconceito. Em segundo lugar, a ofensa, como no caso do jogador, está na junção da palavra "negro" com a expressão claramente ofensiva: "de merda". É portanto uma ofensa com intenção racial, punida por nossas leis. O Grafite teve a coragem de denunciar e fez muito bem. Para os que experimentam cotidianamente a agressão à sua humanidade pela cor da pele, é lógico que um ataque como o que sofreu Grafite não é só a junção da palavra "negro" + a palavra "merda". A operação racista promove uma identificação entre essas duas palavras, que remete a uma história específica de escravidão, exclusão, discriminação.

Será que é tão difícil entender isso? Será que a maioria dos brancos brasileiros continuará agindo de maneira nervosa e defensiva quando o tema é discriminação racial? Será que não está faltando a humildade de sentar e escutar as vítimas um pouquinho? Parar de pressupor que se sabe o que é racismo sem nunca ter sido vítima dele? Que tal se todo mundo que argumentou aqui contra as cotas para negros nas universidades tomasse os próximos dias para conversar com um secundarista ou universitário negro sobre o assunto? Que tal se todos os que criticam a iniciativa procurassem informar-se sobre os resultados da UERJ, que mostram que os cotistas tiveram aproveitamento em média superior aos não cotistas? Que na verdade a convivência foi não só excelente como instrutiva para os não-cotistas, que insistentemente disseram que tomaram contato com realidades que não conheciam?

No momento em que a blogueira Daniela ofereceu links que levavam a estudos sobre o tema das cotas, o blogueiro Ricardo Montero – que é amigo do Biscoito – respondeu dizendo: não vou acessar seu link por já ter pesquisado o assunto quando escrevi alguns artigos para o jornal do Centro Acadêmico de Direito/USP, há uns três anos. Ora, em qualquer universidade séria, se eu disser que não vou olhar uma referência bibliográfica porque há três anos escrevi sobre o assunto, vou receber uma gargalhada na cara. Diga-se de passagem que foram nos últimos três anos que nós, apoiadores das cotas para afro-descendentes, vimos nossos argumentos repetidamente confirmados por estudos feitos tanto no Rio de Janeiro como na Bahia.

E no entanto, a atitude da grande maioria das pessoas que se propõe a combater as cotas para afro-descendentes tem sido: não ler a bibliografia disponível, bater pé em que as cotas “criariam discriminação” mesmo quando todos os estudos sugerem o contrário, insistir que “seria impossível porque brancos se aproveitariam disso” (como se tais brechas não existissem em tudo quanto é lei de reparação ou redistribuição social), argumentar que “no Brasil é impossível saber quem é realmente negro”, como se essa dúvida alguma vez existisse quando se trata de violência policial ou de uma discreta sugestão de que se use o elevador de serviço.

Em outras palavras: dizer sou contra as cotas porque sou contra o racismo é uma asneira sem tamanho, só enunciável por quem não tem idéia do que é ser vítima de racismo - eu não digo que eu a tenha, mas digo que nos últimos 20 anos tenho tentado ler um pouquinho sobre o tema e acima de tudo escutar o relato da experiência de quem é vítima. Acredite-se, igualar racismo com medida reparatória a favor de vítimas do racismo é uma triste fantasia do privilegiado que quer continuar cego ante seu privilégio. É uma operação pobre, moral e intelectualmente. Igualar 450 anos de discriminação, séculos de escravidão, constante desumanização da população negra, violência policial e elevadores de serviço, igualar tudo isso a uma medida reparatória, chamando as duas coisas de “racista”, é pura e simplesmente recusar-se a discutir a questão com um argumento de má fé.

Em suma, não tenho nada contra brancos. Inclusive, alguns dos meus melhores amigos são brancos. Não me importaria, de forma nenhuma, que minha filha se casasse com um branco. Mas acho que entre os brancos brasileiros ainda falta relaxar geral sobre o tema raça. Ele não vai desaparecer. Se quiser criticar a iniciativa das cotas, sou todo ouvidos. Agora, nesta discussão eu só presto atenção aos argumentos de quem procurou informar-se e refletir um pouquinho sobre o tema. Quando alguém que nunca foi vítima de racismo e não dá mostras de ter, sobre ele, refletido muito, vocifera que as cotas são racistas, eu só posso concluir que o tema incomoda e essa pessoa quer sufocá-lo.

Que tal se todo mundo procurasse hoje ou amanhã ouvir o depoimento de alguém que já foi vítima de racismo e ler um pouquinho sobre o assunto? E voltasse aqui para falar do tema das cotas? Não acho que todas as pessoas sensatas tenham que defender políticas estatais reparação para a população negra, como o fazemos eu e Daniela. É possível ser contra as cotas com argumentos bem-informados. Mas ainda não foi o caso de nenhum que eu tenha ouvido aqui neste Biscoito.

PS 1: Alexandre Cruz Almeida morreu e nasceu Alexandre Castro; com este nome o enfant terrible blogará e doutorar-se-á. Quem puder, que deixe lá votos de axé ao novo nome.

PS 2: Dentro de algumas horas pego o avião para Williams College para dar duas palestras, uma sobre Chico Science e outra sobre o tema da violência. Só volto na terça-feira. Nesta segunda e nesta terça haverá blogueiros convidados no Biscoito. Quem serão? Aguardem.



  Escrito por Idelber às 00:07 | link para este post | Comentários (68)


Comentários

#1

O projeto de lei para as federais ainda é projeto, Alexandre. As experiências já legalmente vigentes há algum tempo são no Rio de Janeiro e na Bahia (boas palavras para guglar: cotas + UERJ, UEBA, UFBA, etc.). Aqui vai um bom link:

http://www2.uerj.br/~clipping/_cotas.htm

Idelber em abril 17, 2005 2:27 AM


#2

O que não consigo entender é como tantas pessoas usaram o argumento da "inviolabilidade das quatro linhas". Ouvir o Maradona dizer asneira deste tamanho não me surpreende, mas só ele tem esse "crédito". Perfeito tocar neste argumento idiota de pessoas que dizem "mas e se fosse branco de merda, ia ofender?". É realmente opinar sobre algo que não se conhece, mostrando não ter a menor noção do que é sofrer o racismo, tentando diminuir a importância do caso.
Sobre as cotas. A princípio sou contra. Tenho minhas opiniões a respeito mas não posso deixar de aceitar o convite para rever esta posição, principalmente quando já existem dados relativos ao desempenho dos alunos cotistas. Informação valiosa!

Donizetti em abril 17, 2005 2:46 AM


#3

O assunto é polêmico e congratulo Ivelar pela oportunidade de estarmos discutindo isso aqui no blogue. Também acho que antes de emitir qualquer opinião, devamos examinar com bastante cuidado o problema.

Na minha opinião, a sociedade brasileira é violenta, desigual e injusta. Temos uma das distribuições de renda mais desiguais do mundo - e isso não é título do qual devemos nos ufanar. Acredito que o "Abolicionismo" de Nabuco deveria ser leitura obrigatória nas escolas - mais do que o bolorento "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Pois Nabuco trata das nossas chagas e feridas principais: a escravidão.
Isso dito, não acho que a solução seja importar um agenda americana. Nossa violência e nossa desigualdade não têm o timbre a dinâmica de uma sociedade americana, atemorizada pelo Jim Crow. São problemas diferentes. A própria questão da categorização não pode ser menosprezada. O conceito de afro-descendência é fraquíssimo, sobretudo num país cheio de sutilezas e nuanças, onde pessoas brancas podem ser "afro-descendentes". Tudo isso mostra a complexidade do problema.
Os nossos grandes problemas vieram de anos e anos de escravidão. Nabuco disse que a escravidão, para o bem e para o mal, havia sido a nossa única instituição verdadeira, a única força social a deixar marca indelével na nossa formação. No entanto, os males de nossa sociabilidade patriarcal concentram-se mais na forma de suas práticas sociais do que no conteúdo de um possível racismo. Em outras palavras: quando a madame pede para que Macabéa Zé-Povinho saia do elevador social, ela faz menos por racismo propriamente dito (tal madame pode ser uma juíza amulatada, por exemplo), do que por uma estratégia de distinção social típica de nossas elites patriarcais que não economizam no afinco de mostrar que cada macaco deve estar em seu galho. Quando Prudêncio, ex-escravo de Brás Cubas, foi encontrado pelo mesmo chicoteando outro escravo, não fazia outra coisa do que emular as posições de comando daquele sistema social. É esse sistema que deve ser combatido.
Nosso universo social, cheio de ambiguidades e entre-lugares, é mais sutil que o americano - onde o preto é preto, branco é branco, latino é latino. Não falo isso pra celebrar uma possível complexidade mestiça (Gilberto Freyre), mas apenas para convocar o exame da realidade na sua nervura viva, sem importar modelos prontos e travejados por uma experiência histórica outra.

José Amaro em abril 17, 2005 4:15 AM


#4

Grande José Amaro,

Que intervenção espetacular. Este blog está ficando bom mesmo. A partir do apontado por você, permito-me só fazer uma clarificação sobre minha posição: sistematicamente me oponho à importação de categorias raciais norte-americanas para a realidade brasileira. Meus colegas aqui são testemunhas de que me bato de frente contra a típica leitura americana de Gilberto Freyre e também contra a binarização paradigmática aqui nos EUA quando o tema é raça. Meu apoio às cotas vem da experiência desenvolvida no Brasil pelo movimento negro, por figuras como Abdias do Nascimento, por toda a reflexão baiana sobre a negritude. É verdade que para esse movimento algumas experiências norte-americanas foram instrutivas, mas nada nele é pura cópia.

Dito isso, insistamos: que o ataque na cena do elevador possa vir de uma mulata não elimina o seu conteúdo racista e, tipicamente, isso não acontecerá com Macabea se Macabea for branca. Que o escravo chicoteie o outro escravo só significa que a violência gerada pela escravidão pode reproduzir-se entre os negros que são suas vítimas por excelência. Essa reprodução NÃO significa que branco alguma vez tenha sido vítima de maneira análoga ou comparável.

Mesmo no Brasil - cuja fluidez das categorias racias, concordo com você, deve ser respeitada - não acho que a categoria de afro-descendência seja 'fraquíssima'. Acho que ela é uma realidade social, cultural muitíssimo real.

Ao Marcos e ao Alexandre louvo a disposição de informarem-se sobre as experiências já realizadas. Ao Alexandre deixo o lembrete de que, claro, são recentes, e portanto falar em "resultados" talvez ainda seja prematuro. Mas há indicações, indícios, sinais, de quão positiva para a sociedade elas podem ser.

Enfim, com o tom extra-enfático do post eu quis colocar a discussão neste terreno mais avançado, me parece, no qual ela está agora, não no terreno pedestre no qual as oposições à iniciativa costumam colocar-se. Ë só isso que eu queria: ninguém tem que concordar, é claro, mas tem que ter um mínimo de disposição de considerar o assunto com cuidado, sem querer descartar um assunto tão importante com uma reductio ad absurdum como as que às vezes ouvimos.

Claro que em nenhum momento nego que as políticas de reparação sejam apenas um elemento de um todo muito maior. Mas são elementos importantes e a maioria da sociedade brasileira parece estar de acordo.

Idelber em abril 17, 2005 4:51 AM


#5

Idelber,

Mixed feelings.

Primeiro: eu realmente gostaria muito de ver a metodologia dos estudos estatísticos que estão afirmando que os cotistas vão melhor que os não cotistas. O link para a entrevista do Prof. Renato dos Santos me parece mais informativo do que o outro. Ele admite que um segundo estudo, realizado a partir do índice de reprovação por notas, mostra que os cotistas vão pior que os não cotistas; os cotistas aparentemente vão melhor quando se considera também o índice de reprovação por abandono de curso _ o que seria de se esperar, pois o cotista dificilmente largará fácil a oportunidade a que teve direito.

Um outro problema que pode afetar a estatística e aparentemente não foi controlado (e eu nem imagino como fazê-lo) é o fato de que no início da experiência com cotas (que é extremamente recente) os professores estão atemorizados e têm medo de serem acusados de racismo por reprovar um cotista. Essa informação me foi passada por professores. Então há um efeito aí que pode estar mascarando a estatística; é preciso ver o que acontece quando a coisa entrar "em regime". Em particular, seria interessante ver o que vai acontecer com os cotistas quando submetidos ao "provão", ao final do curso.

Em todo o caso, me parece que a lógica interna da política de cotas é justamente a de estabelecer um critério além da meritocracia, razão pela qual as reflexões acima, ainda que instrutivas, são acessórias. E esse é justamente meu principal problema com essa política quando transplantada para o Brasil. Sempre me pareceu _ e me corrijam por favor se eu estiver errado _ que a política de cotas nos EUA visava combater uma situação em que os negros não entravam nas universidades basicamente por serem negros, não porque não conseguissem ser admitidos em exames.

Não vou dizer que no Brasil o racismo não existe. Presenciei uma vez, em um restaurante em Gramado, os funcionários saírem da cozinha para virem espiar a babá negra de uma família que almoçava. Mas tendo a concordar com o José Amaro que a coisa aqui é mais nuançada.

Em particular, tenho muito medo da "Síndrome da Solução Provisória" que aflige este país. Pois a política de cotas, que é um paliativo, pode institucionalizar-se como solução, deslocando mais uma vez o espaço da discussão realmente relevante que é a do ensino público e gratuito de qualidade em todos os níveis.

O pessoal das políticas públicas tem um termo interessante para designar certas políticas: "americanização perversa". No Brasil, quando se universaliza um serviço público, em geral a universalização vem antes da definição e implantação de critérios de qualidade. Com isso, o público de mais posses (justamente o mais vocal, com mais poder de fogo para reivindicar melhorias) foge para as alternativas privadas de maior qualidade, deixando os carentes afundarem em um círculo vicioso de má qualidade no atendimento - pouca pressão por revisão dos padrões de qualidade. Historicamente, isto aconteceu no Brasil com a educação de primeiro e segundo graus e com a Saúde. E pode muito bem chegar à Universidade.

smart shade of blue em abril 17, 2005 8:35 AM


#6

Idelber, creio que estou sendo mal interpretado quando me digo indiferente aos estudos que analisam os resultados dos que ingressaram na faculdade por meio de ações de discriminação positiva. Seguinte: é o tipo de informação que, a meu ver, nada acrescenta. O que analiso é a correção de se aprovar alguém menos preparado (sim, menos preparado, pois foi pior avaliado no vestibular) que uma outra pessoa levando-se em conta a cor da pele.
Racista, para mim, é todo aquele que faz distinção com critério racial. Pode ser uma discriminação positiva, negativa, mas é sempre uma discriminação.
Vou mais longe: essa história de cotas é uma ofensa à capacidade dos negros. É uma invenção cômoda dos que não querem atacar o problema real, que é o nosso ensino público básico e médio. Dê escola pública decente para negros, pobres, índios ou seja lá quem for e veremos todos eles bem preparados, nas melhores faculdades, podendo enfim galgar a ascensão econômica.
Os negros e os pobres precisam de oportunidades iguais, sim. Mas isso começa no pré-primário, não nas portas de uma universidade.
Por último, um esclarecimento dos mais óbvios: quando escrevi para o jornal do centro acadêmico, não fiz um estudo sociológico - mesmo porque não sou cientista social, sou advogado e cientista da computação. Ademais, não acho que os argumentos aqui apresentados pelos participantes sejam tão mais científicos que os meus, já que o que tem predominado é a paixão sobre a razão.

Ricardo Montero em abril 17, 2005 8:49 AM


#7

Tenho dúvidas quanto à efetividade das contas quando essa política não vem associada à um maciço investimento em educação fundamental (ensino fundamental + médio) e, nesse ponto, concordo com Ricardo quando ele diz "Dê escola pública decente para negros, pobres, índios ou seja lá quem for e veremos todos eles bem preparados, nas melhores faculdades, podendo enfim galgar a ascensão econômica." E acrescentaria: lutando como iguais.

A iniciativa das cotas é louvável, claro. E deve-se começar por algum lugar. Mas, por si só, não irá resolver a questão do acesso dos negros e de outras minorias (ou MAIORIA: os POBRES) às faculdades públicas e de qualidade. Em outras palavras, é preciso investimento em educação, investimento em educação, investimento em educação.

Quanto à discriminação, Idelber, se engana quem pensa que se trata apenas de racismo. Na primeira faculdade que cursei, metade da turma torcia o nariz quando dizia que morava (e ainda moro) em Belford Roxo, uma cidade na Baixada Fluminense. Lembro de uma aula (sociologia, se não me engano) que uma colega disse que era "impossível" que "um aluno de escola pública da Baixada Fluminense chegasse à uma faculdade pública, porque nunca consegueria passar no vestibular". Com a calma que consegui reunir, argumentei que, embora tenha estudado em escola particular não sou família abastada e sempre morei na Baixada Fluminense; mesmo assim estava em uma das melhores faculdades do país; e que, além disso, minha mãe, que a vida inteira estudou em escola pública, cursou Direito na UFF. Como dá pra perceber, meu sangue ferve com a discriminação econômica ou, pior, geográfica.

E, embora de pele branca (na medida em que se pode dizer que uma fluminense seja "branca"), já sofri racismo por ter tido alguns namorados negros. Desde olhares estarrecidos até "o que faz uma menina branca como você com um negão como aquele? Vai sujar seu sangue" e "tenho vários amigos negros, mas não conseguiria namorar um jamais". Quem fica estarrecida, na verdade, sou eu. Desde quando a quantidade de melanina alheia me diz algo? Sentimentos deveriam ser pautados por esse critério, por um acaso?!? E como alguém pode pensar em me censurar namorar negros? Nas entrelinhas, ouço o absurdo que negros seriam uma sub-categoria de pessoas.

Enfim, os exemplos são muitos, o tema é polêmico. É de uma felicidade muito grande você colocá-lo em debate de uma maneira tão inteligente, Idelber.

Lulu em abril 17, 2005 10:30 AM


#8

Idelber,
No caso, a segregação é correta:
Delete a Lete!

Bicu em abril 17, 2005 10:57 AM


#9

Esse post-balanço final do episódio Grafite foi brilhante. Assino embaixo 100%. Quanto ao comentário-spam aqui nessa caixa, acredito que só não foi apagado ainda porque o Idelber está viajando. Um aviso para a "Lete": mandar spam pode dar cadeia.

Leila em abril 17, 2005 12:18 PM


#10

Prontinho pessoal, o spam foi devidamente deletado, IP devidamente anotado, bola prá frente. Já conversarei com o Fábio sobre como podemos nos proteger desta praga.

Estou adorando os comentários, inclusive - ou especialmente - os que colocam discordâncias comigo. Eu sou fã da cabeça aberta e arejada de Smart Shade of Blue, apesar do desacordo. Adorei o depoimento da Lulu também e a disposição do Ricardo para ouvir nossos argumentos.

Abraços para todo mundo de Williamstown, a pontinha onde se encontram os estados de Vermont, Nova York e Massachussetts. Dentro de uma meia hora a galera daqui conhecerá o poder e a força de Chico Science.

Idelber em abril 17, 2005 1:23 PM


#11

Comentei rapidamente em seu primeiro post sobre o caso Grafite e acredito ser um aspecto pouco abordado em toda essa discussão: uma discussão "moral" sobre tolerância/intolerância. Tem um post lá no meu blog sobre isso.
Abraços.

Roberson em abril 17, 2005 2:44 PM


#12

Idelber,

Eu ainda estava me recuperando, contando os mortos e feridos e você me sai com essa!! :-)
Mas, vamos lá.

Sobre o seu post não tenho nada a dizer já que parecemos concordar em detalhes mínimos a respeito da política de cotas.

Mas eu gostaria de salientar alguns pontos ainda.

PRIMEIRO: A questão das cotas raciais, tal como estão sendo propostas, vai muito além de apenas colocar os pobres dentro da universidade. É verdade que dentre pobres negros são a maioria e também os mais pobres dentre os pobres. Isso é estatístico e facilmente comprovado por dados do IGBE, PNDU, etc, mas se o sistema de cotas tem como intuito principal incluir os que não estão incluídos, também se propõe a corrigir um erro histórico.

Após a Lei Áurea a população negra foi confinada em guetos, favelas, periferias, condenada à marginalidade, lugar onde estão até hoje .O governo “importou” brancos europeus para fazer um trabalho que os negros sabiam fazer com o claro intuito de branquear a população, dando-lhe – inclusive – diversos incentivos (Por isso que vemos comumente figuras importantes com sobrenome estrangeiro e quase não vemos negros). Ser negro no Brasil passou a ser sinônimo de algo ruim, pejorativo, depreciativo. É muito comum expressões como “trabalho de preto” ou “negro quando não suja na entrada suja na saída”. E se hoje, nós, os politicamente corretos, não as repetimos por aí, não estamos imunes a seus efeitos nefastos que ainda persiste.

Recentemente a marca de esponja de aço Assolan lançou umas campanhas aparentemente delicadas, mimosas, doces, com bebês usando perucas de bombril aparecem engatinhando. Ora, minha mãe (que é branca) acha a propaganda linda. E quem não se enternece vendo bebês rosadinhos e sorridentes tentando caminhar? Acontece que essa propaganda deprecia o povo negro quando compara o estilo black power a um cabelo de “bombril”. Sobre esse assunto Rebeca Oliveira Duarte que é advogada do Observatório Negro já se expressou e de maneira brilhante neste link : http://www.afirma.inf.br/htm/ensaios/ensaios.htm

Mas o que estou querendo dizer é que a discriminação está tão enraizada no inconsciente coletivo dessa sociedade que atitudes racistas passam completamente despercebidas.

Curiosamente uma parcela de quase 50% da população é invisível. Ser bonito é ser branco (como atestaram alguns blogueiros bem recentemente no episódio que envolveu a Miss Sergipe), quando alguém diz que um lugar ou uma festa só tem “gente bonita” está obviamente se referindo a gente de peles pálidas, olhos claros e cabelos lisos.

E é apenas por isso que os negros muitas vezes discriminam outros negros. Porque eles cresceram sendo bombardeados com a idéia de que os vencedores são todos brancos e os negros são os bandidos, os que batem na mulher e as empregadas domésticas. Por isso que muitas vezes uma pessoa amorenada chama um de pele mais escura de “macaco”. Aí reside a perversidade do racismo brasileiro: já que todos (ou quase todos) temos ascendência africana, em maior ou menor escala, quanto mais escura sua pele ou mais crespo seu cabelo mais preconceito se sofre.

As cotas chegaram para dizer que os negros não precisam sempre estar regalados ao papel da empregada, do motorista ou do bandido. Chegaram para dizer: Você pode!

É comum pais negros desestimularem seus filhos que sonham “alto demais”. Porque um preto da favela sentado nos bancos da uma universidade é “muita ousadia”. As cotas, mais do que incluir, devolveram ao povo negro o direito de sonhar.

Uma pesquisa realizada nos EUA (me desculpem a falta de referência, mas havendo necessidade posso oferecê-las) mostrou que filhos de imigrantes negros são muito melhor sucedidos na escola do que os afro-americanos. Isto demonstra que o povo negro que foi escravizado sofre muito mais do que com a pobreza. Sofre com a falta de auto-estima, de segurança, de crença em suas capacidades.

Porque o povo negro deveria se envergonhar de reivindicar políticas reparatórias? O povo judeu se envergonhou de pedir indenizações ao governo alemão? Se me roubaram durante 450 anos e agora resolvem me devolver o que roubaram sou eu a envergonhada? Ora, quem deve sentir vergonha é o ladrão!!!

SEGUNDO e concluindo: Se parece que a paixão predomina sobre a razão é porque eu estou envolvida. É muito natural que alguém não tenha sofrido racismo nunca em sua vida não consiga compreender quais são os sentimentos envolvidos. Acontece que apenas PARECE. Os motivos que me fazem ser a favor das cotas são baseados em pesquisas e em estatísticas, além do meu conhecimento empírico, e não apenas em “achismo”.

E só me resta dizer que os que defendem ações afirmativas não são contrários à melhoria do ensino fundamental e médio, muito ao contrário. Os que defendem cotas são, em geral, os que têm seus filhos na escola pública ou que estudaram lá. São, com efeito, os mais interessados em sua melhora. Acontece que imaginado que o governo resolvesse investir pesado em educação pública levaríamos décadas para sentir alguma melhora. E o que fazemos até lá? Nas palavras de Marco Frenette, jornalista, escrevendo para a Revista Caros Amigos:

“Argumentos não podem ficar migrando de uma esfera para outra. ‘Deveríamos garantir’, só que não garantimos... Maurício de Nassau morreu, Gustavo Capanema morreu, Anísio Teixeira morreu, Paulo Freire morreu, Darcy Ribeiro morreu – e muitos outros morrerão até surgir essa ‘escola pública universal’.

Portanto, acenar com um Brasil futuro para desqualificar a política de cotas é dar um golpe baixo na inteligência. Usemos de uma imagem para explicitar esse samba do crioulo doido que anda passando por debate sério. Digamos que um homem está gravemente ferido. Ele sangra muito, e pede ajuda a outro: ‘Chame um médico, rápido, senão morrerei’. O homem saudável ouve isso e, calmamente, cheio de complacência oriunda de uma visão de futuro que o faz crer superior, responde: ‘Meu caro, o Brasil tem um projeto de civilização que vingará, o mais tardar, daqui a cem anos, daí teremos médico e hospitais para todos. Faça o favor de esperar’.

O que pede por um médico representa os negros que querem soluções para suas atuais vidas, e não para as próximas reencarnações; o que substitui a urgência de um médico por um projeto futuro e desejável de justiça social representa todos os viajantes do túnel do tempo, que, sádica ou docemente, se comprazem com o vício psicológico de confundir sonho com realidade.”


Ninguém está tentando colocar a culpa nos brancos de hoje pelo que fizeram os brancos de outrora. Como o Idelber, nada tenho contra brancos, alguns de meus melhores amigos são brancos. Não se fala em culpa, se fala em responsabilidade. A responsabilidade de se construir um país mais justo, mais igual, com mais oportunidades para todos e não somente para alguns privilegiados é nossa.

Idelber, mais uma vez peço desculpas por ser incapaz de sintetizar minhas idéias em poucas linhas.

Daniela em abril 17, 2005 2:47 PM


#13

bom post do pedro dória.

Biajoni em abril 17, 2005 4:41 PM


#14

Smart, quanto ao seu primeiro ponto, acho q vale aquela maxima estatistica:
"Torture seus dados ao maximo e eles te contam alguma coisa..."

Excelente discussao, Daniela de uma clareza inacreditavel, e Idelber hosteando esse caldeirao de ideias. Fantastico, fantastico!

Lucia Malla em abril 17, 2005 7:24 PM


#15

Só uma correçãozinha Idelber: A Universidade do Estado da Bahia é UNEB e não UEBA.

Daniela em abril 17, 2005 7:58 PM


#16

Daniel..
Menos,,,menos
Vamos ser mais racionais e meenos apoaixoandos.
Seus "argumentos" são muito passionais.
Eu sempre defendi as cotas, mas leio seus "argumentos" e quase me levam a pensar o contrário.

Paulo em abril 17, 2005 9:50 PM


#17

Corrigindo comentário anterior...
Onde se lê Daniel o correto é DANIELA

Paulo em abril 17, 2005 9:53 PM


#18

"Quando alguém que nunca foi vítima de racismo e não dá mostras de ter, sobre ele, refletido muito, vocifera que as cotas são racistas, eu só posso concluir que o tema incomoda e essa pessoa quer sufocá-lo."

Puxa Idelber, conclusão apressada, creio eu.
Eu nem sou assim tão contra as cotas, mas não dá para negar que um sistema fundamentado primariamente no critério da cor/raça pode sim ser interpretada como racismo. Às avessas mas, em última análise, racismo.

"...vimos nossos argumentos repetidamente confirmados por estudos..."

Acho que precisamos de um distanciamento maior (no tempo) para que possamos avaliar o que deu certo e o que deu errado no sistema de cotas. De qualquer modo, espero que a gente não resvale para a visão simplista de que se está dando certo é porque é bom. Este tipo de raciocínio é tudo que, por exemplo, o Bush precisaria para justificar a invasão do Iraque. Não importam os "efeitos colaterais", não importa o falso motivo para a guerra. O importante é que eles fizeram até eleição... PAX AMERICANA

Mas, voltando. A se dizer que está dando certo, temos que perguntar: pra quem? Pra os diretamente beneficiados, pode-se dizer que deu certo. Mas para o cara que pontuou mais e mesmo assim ficou de fora só porque era branquinho, ou para o vizinho do cotista, tão pobre quanto, que não foi beneficiado, só porque era branquinho, garanto que deu errado.

Não sou contra ações afirmativas. Sou a favor.
Mas a ação afirmativa por excelência, no meu ponto de vista, está aí sob os nossos olhos: a bolsa-escola. A mãe recebe um valor em dinheiro para manter os filhos na escola. Desta forma, mais do que apenas tornar viável a escola, restitui um pouco de dignidade à família pobre, visto que ela mesmo decide como utilizar o dinheiro recebido. E para quem elegeu a causa dos negros para defender, este sistema, baseado na situação socio-econômica, privilegia "naturalmente" os negros, atingidos desproporcionalmente pela exclusão econômica, como você mesmo disse, e mesmo assim não é injusto com o "branquinho" despossuído e não representado politicamente por nenhum grupo de pressão organizado. (a nova minoria discriminada.)

Mas se alguém tem mesmo predileção pelo sistema de cotas, poderia, pelo menos, baseá-lo na situação socio-econômica e não a cor da pele. Indo por aí, daqui a pouco teremos até critérios científicos para medir o grau de negritude, com precisão até a quinta casa decimal e tudo regulado por lei; teremos carteira de negro, escolas públicas só para negros... Epa... Já vi este filme antes.

Finalmente, desculpe não ter citado nenhum estudo de nenhum cientista social famoso, desculpe não ter utilizado o linguajar acadêmico para expor minhas idéias. Mas elas são minhas idéias, nada preconceituosas e bastante refletidas. E eu as prezo muito.

Bear, de forma nenhuma eu estava exigindo citações de estudos famosos, meu amigo. Eu só queria dar um puxão de orelhas em quem é contra antes de ler, antes de ouvir argumentos. E pelo teor da discussão até agora parece que deu certo! O objetivo era só esse, exigir mais atenção aos argumentos. O seu ponto de vista me parece sensatíssimo, você é leitor histórico e eu jamais usaria argumento de autoridade contra meus leitores. Só quis colocar a discussão num terreno mais favorável a que se escutem os nossos argumentos, e parece que consegui: a discussão vai muito bem. Valeu, e desculpe se fui muito duro. Eu absolutamente não me referia a pessoas sensatas e de diálogo como você. Abraços, amigo.

Bear em abril 17, 2005 10:49 PM


#19

Considero excelentes os argumentos do José Amaro. Invejo, no bom sentido, o texto do Bear, que com clareza demonstra o quão apaixonada tem sido a defesa das cotas aqui nesse debate.
As cotas se constituem solução importada, totalmente inadequada para o Brasil. Já sei, já sei: somos diferentes, pois o racismo aqui é velado, é discreto, etc. Só "discrição", mesmo? Afinal, no Brasil nunca soube de uma KKK, de lei que obrigasse negros a ceder lugar em ônibus, de banheiros públicos separados, de guetos negros como o Harlem. São essas diferenças evidentes que explicam o porquê das cotas serem segregacionistas, invenção de uma sociedade segregacionista.
Lembro também que as cotas vão favorecer umas poucas centenas ou milhares de negros (estes, objeto de pesquisa; os que ficaram para trás por não serem negros, jamais serão pesquisados). Porém, a grande massa negra (ou melhor, a grande massa pobre, de todos os matizes de pele) continuará à margem de tudo, pela falta de ensino básico. Fica-se brigando por umas poucas centenas ou milhares de vagas no ensino superior, e esquece-se do analfabetismo. Isso que eu chamo de inserção social!
Por último, muito me surpreendo com os partidários de pesquisas, que insistem em avaliar em tão pouco tempo os benefícios de um sistema que de tão recente, salvo engano meu, ainda não teve tempo de levar negro algum à colação de grau. Ah, claro: avaliação dos benefícios, já que os malefícios nunca são mencionados ou avaliados.
Desculpem-me pela franqueza, mas não consigo enxergar como um sistema que cria castas – versão light e positiva do apartheid – possa ter tantos defensores.


Caro amigo Ricardo: já corrigi seu nome no texto. Desculpe o erro. O debate sobre os argumentos já virá, logo que eu terminar as palestras aqui em Williams College. Obrigado pela presença e por ajudar a esquentar a discussão.

Ricardo Montero (Montero sem I) em abril 17, 2005 11:28 PM


#20

Caro Idelber,

Deixo aqui meu testemunho pessoal. Não tenho como bater o martelo na questão de cotas, e eu sei que, em parte, é porque eu tenho uma ponta de racismo, uma herança familiar da qual não me orgulho nem um pouco e da qual tento me livrar.

Alguns são contra as cotas porque, no fundo, no fundo, percebem que estão perdendo o seu espaço. As universidades públicas, com as cotas, deixam de ser reduto do mesmos que freqüentam os shoppings centers das grandes cidades do Brasil. Um negro, ou um pobre, ou um índio, ou um grupo qualquer que é marginalizado, torna-se um incômodo tão grande quanto o moleque vendendo chiclete no farol, invadindo os nossos carros com aquela miséria toda.

Tiago Chiavegatti em abril 18, 2005 12:02 AM


#21

PRIMEIRO: Complementando a informação dada pela Daniela, a Universidade do Estado da bahia é UNEB. UEBA é o que o vestibulando, costista ou não, grita quando vê seu nome na lista de aprovados!

SEGUNDO: Idelber, obrigado pelo advérbio e pelo complemento a meu comentário. Perfeito!

Claudio Simões em abril 18, 2005 1:39 AM


#22

Bom primeiramente queria parabenizar a você idelber, pela sensatez, e imparcialidade com que tratou este assunto, pois tive a triste oportunidade de ver no blog do marcelo taz uma veemente defeza ao argentino, pior ainda uma inversão de papéis onde ele coloca o brasileiro como o responsável pelo ocorrido, desviando totalmente o foco do assunto. Bom como é de pensamento da maioria, concordo plenamente com a atitude do jogador brasileiro tal como da polícia, a entrada no gramado não foi nenhum absurdo, creio eu que absurdo maior é voCê ser ofendido pela sua cor em pleno século XXI, e não acontecr nada como foi na argentina, queria recordar um fato que mostra claramente que esse não é um fato isolado, uma vez comparado com pelé, maradona disse que não podiam compará-lo a ele pois ele disse o seguinte: "...não sou feio como esse crioulo..." isso mostra o pensamento dos arrogantes argentinos quanto a nós (claro que não a totalidade deles), e oque aconteceu foi uma lição, e um golpe nos seus egos carregados, apesar de saber que isso ainda irá se repitir espero que pelo menos diminuam esse tipo de incidentes.

Erick Allan em abril 18, 2005 2:08 AM


#23

Idelber, estou relançando a discussão sobre as cotas lá no blog, dessa vez tomo posição, e já tem comentário do ponto de vista jurídico, venha colaborar. Beijocas e boa palestra :-) Axé.

Ana Lucia em abril 18, 2005 6:27 AM


#24

Parabéns aos comentaristas que nesse fim de semana arrebentaram! E Idelber arrebente nas palestras! Ansiosa pra saber dos afortunados...rs. Grande responsa. Boa Semana a todos! Beijus, Luma

Luma em abril 18, 2005 8:09 AM


#25

Oi, Idelber!
Rapaz, muito interessante o seu blog. (SUPIMPA!) *risos*...
Bem, sou estudante de jornalismo e ex-aluno da professora Cipy. Adoro seus comentários, venho aqui sempre que posso, pois AQUELA que é apaixonada por ESCRITA, a mesma que transforma estudantes em futuros escritores, falou tanto em você que não deixo de ler o seu blog. Assim que sobrar um tempinho passa lá no Cyber Blog (www.cyber.blogse.com.br).
Até!

Admon Costa em abril 18, 2005 8:37 AM


#26

Excelente discussão a respeito deste caso (Desábato agora diz, segundo o Globo Online, que não falou nada ofensivo... No Cinzas de Batalha, coloquei link sobre as "homenagens" a Grafite que a torcida argentina fez ontem). Parabéns pelo blog, que conheci através de link no da Cora. Já incluí na minha lista de favoritos. Grande abraço, ótima semana.

Marcelo Batalha em abril 18, 2005 9:18 AM


#27

Idelber, se você acha que a Argentina de Julio Grondona é melhor do que...bem, que a Argentina de Julio Grondona de 10 anos atrás, eu acho isso uma ilusão (o mesmo vale para Ricardo Teixeira). Apesar de tudo, nós ainda estamos falando de algo que aconteceu em campo. Aparentemente, teve um comentarista de rádio de SP que chegou ao ponto de estimular a agressão física em cima dos jogadores argentinos. Por mais que eu aprecie esportes, tenho que dizer que a maioria dos torcedores organizados (e "profissionais" do meio)são umas antas falantes. Eu, francamente, estaria muito preocupado se tivesse que jogar na Argentina depois disso. Principalmente em estadios menores como o do Quilmes onde a proteção deve ser mínima.

Fernando em abril 18, 2005 9:27 AM


#28

Caro Fernando, três correções:

1) eu não disse que a Asociación Argentina de Fútbol de Gondrona de hoje é diferente da AFA de Gondrona de 10 anos atrás. Eu disse que a Argentina de Kirchner não é a Argentina de Menem.

2) Com isso eu estava respondendo ao autor do comentário de que a polícia argentina vai tentar arrumar qualquer motivo para meter preso um jogador brasileiro. Não acredito nisso. Obviamente sei que o jogo será catimbado.

3) O São Paulo já jogou no estádio do Quilmes, não voltará a jogar lá nesta competição. A discussão era sobre o jogo do Brasil com a Argentina no Monumental de Nuñez pelas eliminatórias, agora em junho.

PS: Lembre-se: 60% dos leitores do Clarín apoiaram a prisão de Desábato. Isso não mostra alguma mudança na Argentina? Abraços fraternos,

Idelber em abril 18, 2005 9:40 AM


#29

Este blog tá ficando TÃO bom que já não se pode mais endereçar um comentário somente ao Idelber e sim a todos os comentaristas.
Estou adorando a discussão, de altíssimo nível, e aprendendo muito por aqui. Confesso que até semanda passada era radicalmente contra as cotas pelos motivos que alguns já expuseram aqui de forma mais bem acabada: acho que o governo deveria, sim, investir maciçamente em um sistema de Ensino Fundamental e Médio de qualidade para todos. Assim não haveria necessidade de estabelecer cotas por raça ou poder aquisitivo. Mas estou, na medida que o tempo me permite, procurando ler os artigos indicados e me informar melhor sobre o assunto. No momento, diria que estou sem opinião formada sobre o assunto.

Viva em abril 18, 2005 9:48 AM


#30

Após a a 3a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela ONU em Durban, África do Sul, da qual o Brasil é signatário, o Brasil começou a discutir e a implementar políticas de combate à discriminação racial e de gênero. Então as cotas, que eram uma luta do movimento negro desde o início do as primeiras décadas do século XX entraram na ordem do dia.

Os negros não estam tendo acesso à Universidade. Dentre os pobres os que ingressam são majoritariamente brancos. Porque? Por que, se os negros são os mais pobres dentre os pobres, os brancos pobres ainda levam vantagens sobre os negros pobres nessa corrida pelo ingresso na universidade que está longe de ser justa. Têm mais oportunidades, melhor preparo. Dessa forma, cotas apenas sociais não resolveriam o problema da exclusão racial na universidade.

Nilma Lino Gomes, professora do Departamento de Administração Escolar da UFMG, doutora em Antropologia Social diz que "discurso do mérito acadêmico tem se instaurado entre nós como um dos argumentos para não implementarmos cotas étnicas (aliás, nunca se falou tanto em mérito acadêmico quanto agora). Porém, não podemos reduzir o acesso à universidade, sobretudo à universidade pública, a uma questão de mérito. Ninguém nega que a vida acadêmica exige determinadas competências e saberes. Isso é diferente de discursarmos friamente sobre o mérito, como se o vestibular classificatório fosse uma competição em que todos os concorrentes estão em igualdade de condições para competir. As condições de vida, as trajetórias sociais e escolares de negros e brancos não são iguais. Entrar para a universidade, sobretudo, uma universidade pública, não se reduz a uma questão de mérito. É uma questão de direito.O fato de termos, na universidade, uma maior entrada de alunos negros, pobres e oriundos de escola pública não quer dizer que teremos uma universidade de baixa qualidade e alunos com menor mérito. Sabemos que o mérito é uma construção social e acadêmica. O discurso do mérito acadêmico, tal como tem sido feito por alguns, como se este fosse algo objetivo, distancia-nos do debate sobre o direito à educação para todos os segmentos sociais e étnico/raciais do Brasil e pode reduzir uma questão tão séria como a democratização do acesso à idéia de capacidade inata, de capacidade intelectual. [...]Vale a pena perguntar: historicamente, o critério do mérito, o critério do direito e o critério do público como espaço de direitos, por acaso, têm coincidido? Ou, na verdade, eles se contrapõem e mantêm entre si uma relação de tensão? Será que é justo continuar pensando: todos têm o mesmo direito à educação, desde que a ela façam mérito? Será que no momento em que colocamos no horizonte a construção de uma universidade mais democrática o critério do mérito não terá que ser re-equacionado?"

O artigo completo em pdf está aqui

O importante é compreendermos que cotas sociais não resolvem o problema da discriminação racial porque os dois problemas não são a mesma coisa e, portanto, precisam de iniciativas distintas em busca de uma solução.

Trocando em miúdos: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa :)

Daniela em abril 18, 2005 10:51 AM


#31

Idelber: muito boa a idéia de deixar este post por um tempo maior, sem atualizar o blog: a gente vai se inteirando das opiniões de todos, dos "contraditórios", das diferenças e redescobre como, graças a Deus, a unanimidade é burra. Os tema das cotas, do racismo e da meritocracia nos atravessam a cada um de nós. Estou lendo e aprendendo.

Cláudio em abril 18, 2005 11:03 AM


#32

Grande Daniela! O Biscoito Fino e a Massa assina embaixo das observações feitas aqui pela Daniela sobre essa vaga e incerta categoria que é o "mérito", tanto mais vaga e incerta quando a questão é o vestibular e o ingresso à universidade.

Idelber em abril 18, 2005 11:06 AM


#33

Juro que agora estou concluindo :-)

1) A questão das ações afirmativas, mais do que uma luta do MN é um compromisso que o Brasil assumiu internacionalmente.

2) Citando Boaventura Sousa Santos: "as pessoas têm direito a ser iguais sempre que a diferença as tornar inferiores; contudo, têm também direito a ser diferentes sempre que a igualdade colocar em risco suas identidades"

3) Citando Leila Dupret (1998) falando sobre surdos, mas acho que o princípio se aplica aqui: "sem dúvida, a condição moral a qual estabelece que somos todos iguais perante a lei, não deve prevalecer sobre a questão ética de que somos diferentes frente a nós mesmos"

Daniela em abril 18, 2005 11:06 AM


#34

queria fazer um comentário sobre esse argumento TOSCO de que se o cara se chama "Grafite" ele não pode reclamar do preconceito alheio. será que alguém se interessou em saber como, quando e por que o cara ganhou esse apelido? imagine, por exemplo, ele pitoco, aos 7 ou 8 anos de idade, ganhando a alcunha de Grafite. será que ele teria algum modo de se defender na ocasião, se percebesse o apelido como discriminatório? mesmo que já estivesse adulto, num país que consagra o racismo a cada esquino, ele tinha defesa? e se no passado não tinha, então ele está condenado para sempre a ser sempre ofendido e não se defender nunca? ora bolas, não subestimem nossa inteligência.

pedro em abril 18, 2005 11:32 AM


#35


Idelber, pode ser que 60% dos eleitores do Clarín sejam pessoas sensatas. Assim como eu acho que a maioria da população argentina tb o seja. O problema é que o mesmo não se aplica a maioria das torcidas organizadas, sejam estas brasileiras, argentinas ou vietnamitas. Por outro lado, acho que o nosso querido Nestor tem muito pouco a ver com o que pode ou não acontecer em jogo de futebol onde é necessário apenas um grupo desvairado de trogloditas para causar um grave incidente. Jornais como o Olé, radialistas e nazistas deportivos em geral estão sempre à espera do caos pra poder dizer "mas é porque os outros provocaram". Mesmo que o São Paulo não jogue lá semana que vem, algum time brasileiro fatalmente terminará embrulhado numa situação parecida com um time de médio/pequeno porte como o Quilmes. Eu estive em vários estádios brasileiros e argentinos e vou te dizer que as "bomboneras" deles são muito mais intimidantes do que as nossas. Abraços e boa palestra.

Fernando em abril 18, 2005 11:36 AM


#36

Não adianta!
Ninguem sabe o que é racismo até ser uma vítima de racismo, ou seja: até sentir na própria pele.
Você moreno(a)de praia, sarado(a), descolado, cheio de graça...
Saia daí e venha viver o sonho de morar na Europa.
Morar mesmo... legalizado, tudo nos conformes... batalhar, descolar emprego, ir pra fila dos orgãos de trabalho, enviar 450 mil currículos, falar a língua fluentemente...
Não adianta! Quando voce abrir a boca e disser que veio do Brasil a sociedade vai te tratar como um "não-branco(a)" de merda... (porque aqui "Branco" são os nascidos aqui)
...e aí você vai ver como é que sente - não só o negro, mas o nordestino pobrezinho que vem lá do Cariri pro sul maravilha...
É...Não é facil, não!

Ines de Carvalho em abril 18, 2005 12:15 PM


#37

Eu era contra as cotas. Agora estou subindo no muro, quase chegando ao topo. Não estou ficando "tucana" assim porque não queira definir uma posição, mas porque não tenho certeza de nada. Minha posição contrária NÃO se devia ao fato de achar que negros e brancos devem ser colocados na mesma panela em termos de competição. Eu era contra por achar que não funcionaria, que era uma solução simplista para um problema que vem de longe. Existe o problema do ensino fundamental, da pobreza (que atinge na maioria, claro, os negros), enfim, a coisa é um angu de caroço. Portanto, minha posição é a famosa "não concordo nem discordo, muito pelo contrário". Por enquanto só observo.

Uma coisa eu sei: é barra para qualquer pessoa pensar que seus antepassados foram escravizados, tratados como seres humanos de tipo inferior. Deve ser barra entrar numa loja, por exemplo, e ganhar um olhar atravessado por causa da cor da pele. Não deve ser fácil ser preterido numa concorrência para um emprego só por causa de tipo de cabelo e quantidade de melanina na pele. Até uma coisa aparentemente simples como mudança no penteado é complicada: quem tem cabelo liso pode fazer uma permanente e ficar com cachinhos. Quando alguém de pele negra quer alisar o cabelo, dá-lhe crítica!

Eu fico agoniada só de pensar em tudo isso. Fico imaginando o que acontece com os que sentem essa discriminação, literalmente, na pele.

Mas é isso. Tô aqui em cima do meu murinho, pensando nisso tudo e ficando triste porque sei que os preconceitos de um modo geral estão longe de acabar. Homossexuais, negros, deficientes físicos... Não é fácil não. Eu fico triste quando vejo que já estamos em 2005 e que tudo avança tão devagar.

Só uma palavra para dizer que eu adoreieste comentário, Moniquets. É pessoal e é super honesto, autêntico. Era só isso que eu esperava com essa intervenção: que quem era contra, sem ter pensado muito, pensasse de novo e quem sabe subisse no muro. Agora, se eu consigo fazer os que estão no muro passarem para o lado de cá, aí realmente vai começar o sucesso, vai ficar bonito... Abração, I.

Mônica em abril 18, 2005 12:26 PM


#38

idelber, abaixo vou escrever algo que NÂO é um argumento contra as Quotas, mas apenas uma preocupação. Desde sempre (tendo passado por vários grupos e partidos de esqueda) eu tenho defendido a educação pública e gratuita PARA TODOS. Se as quotas forem um passo para conseguirmos isso, me parece perfeito. Mas se forem usadas (e podem ser, independente das pessoas que as defendem hoje) como um remendo para tentar calar essa parte da população que não tem acesso, então me parece um desastre.

Sempre aprendi que nada é absoluto mas relativo. Então, as quotas para mim servem para levantar a questão e mostrar a discriminação. Mas não resolvem nenhum problema e não podem ser vistos como fim em si mesmo. O objetivo final deve continuar o mesmo, educação gratuita e de qualidade para todos. Afinal, se hoje a porcentagem de pessoas que chegam à universidade é ínfima (alguns falam em 1% mas eu não tenho esses números), com as quotas o número deve aumentar em 0,00000000algumporcento. Assim, ainda muita coisa deve ser feita.

Não acho que discordamos dessa opinião.

Barbão em abril 18, 2005 1:42 PM


#39

Mérito?!
Então a Universidade deveria ser reduto de uma elite intelectual (ou seria econômica)?
O Vestibular foi uma das experiências mais ridículas da minha vida.
Acreditem, eu não passei por mérito, eu não estudei, eu não me esforcei. Não foi uma conquista heróica. Eu venci em cima da deficiência alheia. E não me orgulho disso.

Idelber, grande abraço, Marcos.

marcos alexandre em abril 18, 2005 2:03 PM


#40

Concordo com as cotas nas universidades e acho que elas devem existir também nos colégios particulares de primeiro e segundo graus. Estudei em colégios pagos no Rio de Janeiro e a proporção de negros e mulatos devia ser coisa de menos de 1%, o que não reflete absolutamente a proporção racial da população. Como é que se pode ensinar tolerância e respeito às crianças se elas não convivem com diversidade? Por que não dar a chance de crianças negras obterem bolsas para estudar nos colégios mais caros das capitais do Brasil? Por exemplo, o Santo Inácio do Rio de Janeiro fica do lado do morro Dona Marta. Por que eles não promovem um concurso junto àquela comunidade, e selecionam algumas crianças para estudar de graça lá? O Governo poderia oferecer estímulos fiscais para os colégios que oferecessem isso.

Leila em abril 18, 2005 3:06 PM


#41

Nós (as duas fridas) também escrevemos sobre os temas Grafite e cotas. Concordo plenamente com todos os seus argumentos. Principalmente sobre o fato de as pessoas terem reações tão veementes, tão bandeirosas. Mas pela primeira vez o Brasil está discutindo o assunto. Já é um primeiro passo. Espero que a estrada não seja por demais longa, nem acidentada.

http://www.duasfridas.blogger.com.br/2005_04_01_archive.html#35997157

http://www.duasfridas.blogger.com.br/2005_04_01_archive.html#36001337

http://www.duasfridas.blogger.com.br/2004_06_01_archive.html#27864866

Monix em abril 18, 2005 3:21 PM


#42

Feliz pela conexão Duas Fridas-Biscoito Fino...
Um abraço !

Fefê em abril 18, 2005 4:16 PM


#43

Excelente debate sobre um post perfeito. Mas vejam como o universo - ou sei lá o quê - é irônico. No domingo a torcida do Quilmes endossou o racismo de Desábato com faixas até mais imbecis do que o ato dele no Morumbi - uma delas dizia com todas as letras Grafite Macaco. Levaram um chocolate de 5x1! Mas ao contrário do Tas, não acredito que goleada, eliminação ou cartão vermelho seja punição adequada para qualquer tipo de racismo.

Helena P em abril 18, 2005 5:22 PM


#44

Sobre as quotas, estou com o Barbão: o problema só se resolve realmente quando a educação básica oferecida a TODOS seja de qualidade. E um outro problema que me parece sério e que não vejo ninguém discutir: por que TODOS têm que fazer universidade? Eu fiz a contragosto, o que aprendi não me serviu em nada no que faço. Acho que se tivesse feito um curso técnico dirigido à minha área teria aproveitado muito mais.

Solange em abril 18, 2005 8:16 PM


#45

Olá,

Por enquanto concordo com o Barbão. Talvez porque eu tenha estudado com vários alunos africanos e sul-americanos na faculdade, e todos os que vinham através de convênios com suas respectivas universidades não queriam nada com a hora do Brasil. Um dos melhores alunos da minha turma era um angolano retinto, simpaticíssimo e de uma gentileza ímpar, que os pacientes adoravam, e que não tinha vindo por convênio, mas feito vestibular como todos nós. E passado muito bem, obrigado. Os outros, que com certeza não tinham chegado ali por serem mais preparados, coisa que era muito clara até para os estagiários de auxiliar de enfermagem (não porque seriam "meros" estagiários de auxiliar de enfermagem, mas porque rodavam tanto pelos setores do hospital que ficavam em cada enfermaria por um período muito curto), não estudavam coisa nenhuma. Não davam as caras no hospital. Não preparavam seminários. Não faziam estágio em emergência, como todo mundo. E, é claro, bombavam continuamente. O único que se formou com a gente foi o angolano CDF. Não tem sentido entrar na discussão de que a maioria dos negros não é tão bem preparada porque comeu mal a vida inteira, e/ou porque não teve as mesmas oportunidades; todos nós sabemos que a maioria dos negros é pobre e que a maioria dos pobres é negra. Mas admitir essas pessoas menos preparadas não é, a longo prazo, não só baixar a qualidade do ensino, mas também eternizar as diferenças raciais? Perpetuar coisas do tipo, “você só está aqui porque é crioulo”? Sinceramente, acho mais difícil que alguém, branco ou não, que tenha estudado em escolas públicas a vida inteira e não tenha tido uma vida fácil venha a ter bons resultados na escola, quando comparado a outro alguém, branco ou não, que tenha tido oportunidades melhores. Sei lá. Acredito que o racismo seja realmente importante na hora de, por exemplo, arrumar emprego. Mas quando você faz vestibular, na hora de preencher a ficha tem algum campo "cor da pele" pra preencher? (não me lembro, tem tempo demais). Creio que, NO CASO ESPECÍFICO DO ACESSO AO ENSINO UNIVERSITÁRIO, a discriminação seja mais social do que racial. E é aí que concordo mais ainda com o Barbão: se todo mundo, pobre e rico (e não branco e preto), tivesse o mesmo acesso a um bom ensino básico, não haveria necessidade de criar cotas baseando-se em critérios raciais que, como já foi dito aqui, podem ser muito nebulosos, já que tudo que é brasileiro tem um pezinho na África, como é sólito dizer. Claro que nesse caso a coisa seria muito, mas muuuuito a longo prazo, e político nenhum quer se comprometer com coisas além-eleição, infelizmente. Mas não tenho certeza, ainda, de que as cotas para negros sejam um bom começo.

Vou dar então a opinião de quem está passando por uma situação análoga, embora nem de longe parecida, à de quem é negro no Brasil e quer entrar na universidade. Estou pensando seriamente em voltar a estudar, dessa vez algo que tenha a ver comigo, e notei que aqui na Itália as universidades têm cotas para estrangeiros. Não gosto da idéia e acho discriminatória, mas talvez seja só porque sei que seria perfeitamente capaz de conseguir uma vaga se tais cotas não existissem, vista a ridícula qualidade das escolas daqui, o incrível despreparo dos jovens e, por outro lado, minhas capacidades intelectuais e lingüísticas. Mas, repito, não gosto da idéia. Não preciso de cota nenhuma; sei do que sou capaz. Não sei se, sei lá, uma sudanesa que freqüentou escolas mais-ou-menos e não estudou inglês no Britannia tem a mesma opinião. Provavelmente não, se achar que sem essa ajuda jamais vai conseguir se formar. Provavelmente sim, se souber, como eu sei, que é capaz de se formar sem ajuda nenhuma. Não sei, não é simples a coisa, e é difícil se manter relamente imparcial e “impassional”.

Mas estou gostando da discussão; sinceramente, morando fora do Brasil já há um certo tempo, ando meio desinformada sobre o assunto. Só fiquei surpresa de ninguém ter comentado o que o Smart Shade of Blue falou: sobre o medo que os professores têm de serem considerados racistas se reprovarem um aluno negro que não atinja bons resultados. Não tinha pensado nesse aspecto da coisa, mas acho que é um argumento muito razoável e que não deve ser ignorado.

leticia em abril 19, 2005 2:54 AM


#46

Para mim, uma vez que existe uma rusga, entendo que é do ser humano xingar e isto dentro deste contexto é NATURAL, longe da possibilidade de ser colocado como postura racista...
Se não vejamos, pelo que se coloca não é racismo (e nem ofensa) ser chamado de "FILHO DA PU.." , mas, provavelmente se for chamado de "BRANCO, FILHO DA PU.." estarei sofrendo uma das MAIORES OFENSAS que um ser humano pode sofrer, estando ela IMPREGNADA DE RACISMO...
O fato de ter a figura de minha MÃE comparada a uma PROSTITUTA não deve ser por mim encarado como uma OFENSA GRAVE, afinal, TODOS tivemos em algum momento nossa MÃE nesta situação (POR XINGAMENTO)...
Agora, o que não PODEMOS e não DEVEMOS aceitar é que junto a esta comparação esteja um sentimento RACISTA...
Realmente, me parece uma questão RIDÍCULA, pois, apresenta um sentimento que não faz parte do consciente coletivo: "O RACISMO INTOLERÃNTE" que é INACEITÁVEL e INTOLERÁVEL, uma vez que o RACISMO, como o BAIRRISMO, como a RELIGIOSIDADE são sentimentos (estão relacionados a GOSTO e IDENTIFICAÇÃO PESSOAIS) que quando INTOLERANTES impedem que as PESSOAS vivam as suas VIDAS e possam participar da COMUNIDADE, uma vez que propcia a existência de COMUNIDADES FECHADAS, mesmo em locais públicos...
O que gostaria frisar é que a INTOLERÃNICA seja qual for sua ORIGEM (Raça, Credo, Naturalidade, Política, Opção SEXUAL) não deve ser ACEITA pela Sociedade Brasileira, pois, mesmo porque sua formação miscigenada não ADMITE que isto ocorra...
Se não vejamos:
Nos Estados Unidos ser COMUNISTA é algo INTOLERÁVEL, no Brasil é, para alguns, TOLERÁVEL e INACEITÁVEL por questão de préconceito e nem por isto deve simplesmente ser COMBATIDO, uma vez que, a INTOLERÃNICA é o real PROBLEMA...
Nos Estados Unidos NEGRO é todo aquele(a) que tem em sua árvore genealógica um ASCENDENTE NEGRO, por isso, mesmo de pele BRANCA deve sinalizar que é da RAÇA NEGRA, no Brasil existem várias NUANCES que especificam as várias possibilidades de miscigenação: MULATO, CAFUSO, MAMELUCO... Por isto entendo o conceito
AFRO-AMERICANO nos Estados Unidos e não entendo o conceito AFRA-BRASILEIRO no Brasil, afinal de contas, se o Brasileiro for descendente de Europeu NEGRO ele não deveria ser
EURO-BRASILEIRO !
Isto é, não estaríamos imputando a este Brasileiro uma Origem RACISTA !
Admitindo que TODOS os NEGROS se originaram da África e pelo mesmo raciocínio, admitindo estar no Continente Africano a origem HUMANA somos TODOS (independente de cor) AFRO-BRASILEIROS.
Será que a INTOLERÂNCIA , de alguns, pela opção sexual deva ser encarada como "racismo" ou como INTOLERÂNCIA, e pela última razão COMBATIDA ? Será que somos segregadores por fazermos piada sobre a opção sexual, mesmo tendo amigos homosexuais ? Por analogia, será que seremos racistas por fazermos pidas de NEGROS, PORTUGUESES, AMARELOS, JAPONESES, BRASILEIROS; muito embora não façamos distinção em nosso círculo de amizades ?
Afinal de contas o que se pretende discutir racismo, bairrismo, religião, opção sexual ou o PIOR dos DEFEITOS que uma Sociedade pode ter que é a INTOLERÂNCIA ??????

Plinio Marcos Moreira da Rocha em abril 19, 2005 12:04 PM


#47

Acho que esta caixa foi um dos momentos altos, e eu queria responder só duas colocações, entre muitas, a do Smart e a da Letícia.

É verdade, Smart, que um professor pode se ver *emocionalmente* levado a ter mais boa vontade com um aluno cotista, sim, acredito, por que não. É a minha experiência de 20 anos dando aula. Se há um aluno que teve que lutar mais para chegar ali, por que não medir seu rendimento em comparação com o que o resto dos seus compatriotas da mesma classe conseguiram, e por que não levar algo disso em consideração, ao invés de medi-lo necessariamente contra os que ali chegaram via berço de ouro, com professores particulares, tempo para estudar e cursinhos pagos? Não vejo por que não relativizar a nota a partir daí. Isso não significa que possa haver - em grau substantivo -pressão vinda do lado de fora, pressão social, para avaliar-se sistematicamente melhor os cotistas, e sinceramente em 15 anos de experiência ocm Affirmative Action nos EUA não acredito que isso possa ocorrer. No caso do Brasil, dizer que isso já tenha ocorrido (de forma a estatisticamente alterar qualquer panorama ou qualquer resultado) me parece prematuríssimo.

No caso da comparação entre Affirmative Action e cotas acho que tens e não tens razão. Simplificando muito, poderíamos dizer que nos EUA não era por serem negros, e sim por terem sido segregados como negros antes, na época do primário e do secundário, que eles não podiam entrar à universidade com os brancos. Mutatis mutandi toda a diferença entre os padrões racias dos dois países, não deixa de haver uma simetria.

Leticia tem total razão de que no momento específico da entrada via vestibular o processo é cego "racialmente" no sentido óbvio de que não há discriminação na correção da prova. Nem essa seria necessária. O mecanismo de exclusão racial já operou antes de que se chegasse à prova enquanto tal. Ver os textos importantes que nos chegam via Idiossincrasia um aqui e, para fechar, outro aqui e aqui.

As minhas verdadeiras 10 ou 15 razões para defender as cotas já virão num post de próxima publicação. Na verdade, eu ainda não apresentei esses argumentos, já que este post foi só para impedir que certos argumentos contra tomassem conta. Consegui o objetivo, o debate está em altíssimo nível.Continua aberto o papo.

Idelber em abril 19, 2005 10:52 PM


#48

Nobre Idelber,
se o mecanismo de exclusão racial já produziu os seus efeitos maléficos antes que o aluno chegue ao vestibular, por que só então aplicar mecanismos de correção/compensação?

Não seria menos invasivo, menos distorsivo e mais barato aplicar mecanismos preventivos ou corretivos muito antes do vestibular?

Isto me parece tão óbvio que eu chego a pensar que quando se decidiu pelas cotas estava-se pensando mais em efeitos eleitorais mais ou menos imediatos do que em uma solução real e duradoura.

Bear em abril 19, 2005 11:51 PM


#49

Bear, era isso que eu tava querendo dizer quando falei o que o Idelber comentou.

Mas realmente é cedo pra dizer qualquer coisa. Estou curiosa pra ver os resultados a longo prazo. Pode ser que eu me surpreenda e mude de idéia. Espero que sim.

leticia em abril 20, 2005 12:24 AM


#50

Caros Bear e Letícia: claro que é necessário aplicar medidas corretivas antes. Este blog, como você, Bear, sabe, sendo leitor histórico, é adepto da ética do e ... e ... e ou invés da ética do ou .... ou . Em outras palavras: nesta longa jornada dando aulas, convenci-me de que há que se fazer as duas coisas porque:

1) apesar de todos os mecanismos de exclusão que colocam o aluno pobre, e preferencialmente o negro, em situação de desvantagem na hora do vestibular, um suficiente número deles chega ali na boca da butija em condições de competir.

2) certamente não é mais barato, nobre Bear, consertar a joça toda do ensino primário (pergunte ao Cristovam, ex-ministro, ou ao Tarso, o atual) antes de que a gente possa, com um mecanismo de conserto, um mecanismo de reparação, ver pelo menos alguns alunos negros caminhando, por exemplo, pela USP, o que a gente não vê, Bear, e é foda, isso, para quem é negro, está crescendo, querendo ser professor, por exemplo, ou advogado, e precisa de um modelo, e a televisão só oferece modelos noruegueses. Será que este argumento não ecoa? Será que não dá prá ver a relação dialética entre mais negros dentro da academia, como possíveis modelos, e mais alunos negros permanecendo dentro da escola nos 1o e 2o graus? Será que não há algo de importante para ser aprendido pela população branca caso isso ocorra, caso os nossos campus não se tornem mais multi-étnicos?

3) Isso seria importante, Bear, inclusive como mecanismo redutor da violência policial, violência que tem lá seu componente racial tão frequentemente, como sabem os sociólogos.

Ainda não comecei a listar meus 15 argumentos a favor das cotas.

Idelber em abril 20, 2005 12:44 AM


#51

em primeiro lugar parabéns Idelber, por mais esse post, perfeito, você deveria dar umas aulas pro seu amigo Marcelo Tas. Mas vamos ao que interessa.

Bom tenho ouvido muitos comentários do tipo: e agora quando um time brasileiro for jogar na argentina? Quanto a essa preocupação acho sim válida, já que os argentinos realmente se mostraram revoltados pelo ocorrido, não duvido que venha haver represárias aos times brasileiros, assim como mais manifestações racistas dos argentinos, como a do jogo do quilmes no último domingo (defendida veementemente pela imprensa argentina). De qualquer forma, creio que além da esfera criminal, na esfera esportiva a um rame´dio muito bom pra esse tipo de atitude, o mesmo que provou a Inglaterra na época dos torcedores violentos, cujo o nome não me recordo. Foi bem simples, a federação européia suspendeu os times ingleses, por 1 ano, e fizeram u teste, para comprovar que a Ilnglaterra tinha conseguido controlar seus torcedores. E isso na inglaterra, apesar da prepotência argentina não creio que eles sejam estúpidos o suficiente pra continuar com essa nojeira depois de uma sansão desse tipo.

Erick Allan em abril 20, 2005 12:53 AM


#52

Eu não sou política mas, para mim, querer conseguir votos com uma medida tão polêmica/impopular como as cotas racias é dar um tiro no próprio pé. Eu arranjaria uma mais lacrimosa e com efeito mais garantido :)

Daniela em abril 20, 2005 10:47 AM


#53

Idelber, eu trabalho na UERJ e sou contra as cotas, pelo simples fato de que são um paliativo que não vai resolver qualquer problema referente ao racismo. Aliás, sem vociferações, na minha muy humilde opinião, as cotas são tão segregatórias quanto qualquer atitude racista. A cor da pele não deveria ser usada como critério para qualquer ação, pois se ela é positiva para uns, é negativa para outros. Por exemplo, eu, que sou branco, mesmo se fosse um excelente instrumentista, jamais poderia ter o prazer de tocar no bloco dos Filhos de Gandhi, exclusivo para negros. É justo? Não. Principalmente porque, se eu criar um clube exclusivo para brancos, eu posso até parar na cadeia.
As cotas podem ter a melhor das intenções em sua concepção. Mas são, por definição, racistas. Não há como fugir disso, me desculpe.

MarcosVP em abril 20, 2005 1:54 PM


#54

Letícia, eu faço parte daquela "raça ruim" que ainda acha que os fins não justificam os meios, que nem tudo é certo só porque deu certo e coisas assim.

As cotas como as temos hoje vão trazer alguns benefícios e isto pode levar muitos a concluirem que elas "deram certo". Mas eu já explorei em comentário anterior algumas distorções e injustiças inerentes às cotas por critério racial. E elas persistirão, como prejuízo, apesar dos benefícios.

Nobre e gentil Prof Idelber,
Não defendo o imobilismo e nem teria coragem de pedir aos negros que esperassem mais uma década ou uma geração inteira pela correção das terríveis injustiças. Se não houvesse alternativas melhores às cotas, eu até as admitiria mais facilmente. Mas há alternativas:

1) uma alternativa concretamente bem sucedida com resultados para curto e longo prazo e alcance social muito mais significativo(bolsa-escola).

2) uma alternativa de resultados tão imediatos quanto o atual sistema de cotas raciais (cotas baseadas na situação sócio-econômica).

Ambas passíveis de melhorias, mas certamente mais justas, sem viés discriminatório por cor, como a atual, e aplicáveis imediatamente, separadas ou em conjunto.

Bear em abril 20, 2005 6:43 PM


#55

Preocupado em não estender muito o comentário anterior, acabei esquecendo de falar do ponto 2.

Não me referia a consertar todo o sistema de ensino primário. Dizia apenas que seria mais barato aplicar correções ou compensações à discriminação racial na escola, no seu início e não na porta da Universidade.

Bear em abril 20, 2005 6:55 PM


#56

Bear, vc sabe qual o valor do benefício do bolsa escola?

E vc acha que, se um jovem está no início do ensino médio, o bolsa-escola poderia transformar a realidade dele?

Daniela em abril 20, 2005 8:45 PM


#57

Não, Daniela, não sei. Mas é um valor bem pequeno que, por si só, não muda a realidade de ninguém. Mas tem servido para manter crianças na escola e isto sim muda a realidade delas. Tanto pelo aprendizado em si, como pelo compromisso da família com a sua freqüência à escola (o que pode ser o único elo que ela mantém com a família), e pelo fato de enquanto ela está na escola, não vai estar no trabalho infantil, na mendigagem, no ócio ou no abandono.

Do ponto de vista do orçamento de uma grande cidade, o valor total dispendido com bolsa-escola, digamos, tem muito para crescer. Havendo vontade, o programa pode ser estendido, não só para mais famílias, como também para acompanhar a criança até o seu primeiro emprego ou até a universidade.

Bear em abril 20, 2005 9:18 PM


#58

Sou eu de novo.
O Bolsa-escola quando foi implantado em Brasília, beneficiava familias cuja renda fosse menor que o valor da cesta básica, que mantivessem todos os filhos de 7 a 14 anos na escola. O valor da remuneração mensal era um salário mínimo. Não sei se mudou com o governo seguinte e não sei como foi implantado em outras cidades no Brasil e no mundo.

Bear em abril 20, 2005 9:25 PM


#59

Bear, pois isso era antes. Hoje o Bolsa-escola está desaparecendo. A idéia é agregar o benefício do bolsa-escola ao bolsa-familia.

O valor do bolsa-escola é de R$15,00 por criança até 14 anos. E o bolsa família tem um valor máximo de R$95,00. Esse valor varia de família a família dependendo da quantidade de filhos e da renda. Há famílias que recebem R$45,00, outras R$ 60,00. Mas nunca mais do que R$95,00.E não há verba para aumentar os benefícios.

Sem contar que essa política para mim é mais perniciosa do que a política de cotas já que é paternalista. Com as cotas o jovem precisa fazer vestibular e depois estudar 4 anos. Sem contar também que, um jovem que passa com o auxílio das cotas na USP, por exemplo, teve um desempenho muito melhor do que o que passou, no mesmo curso, na esmagadora maioria das faculdades particulares.

Daniela em abril 21, 2005 7:27 AM


#60

Pois é. Eu defendo o bolsa-escola. Só. O bolsa-familia foi uma deturpação engendrada no governo Roriz para substituir o bolsa-escola, simplesmente porque este tinha sido implantado pelo governador anterior (oriundo da área de ensino).

O Roriz praticamente acabou com o bolsa-escola e só não o desativou completamente porque ele havia prometido durante a campanha e, contrário ao seu costume, resolveu cumprir.

Quanto a não haver verba para aumentar os benefícios, é brincadeira, não? No governo anterior tinha verba e a tendência era de aumentar.

Governar é priorizar. A terceira ponte sobre o lago será sempre lembrada como "Ponte dos Remédios". Sabe por que? Porque para construí-la, por um preço muito maior que o orçamento, até remédio básico faltou nos hospitais, causando mortes. Isto dá uma idéia das prioridades do governador.

Finalmente, sobre o melhor desempenho de um cotista. Se o mérito foi das cotas, vamos estabelecer cotas como o único sistema de entrada na universidade. Cotas para tudo e para todos.
- Desculpe a ironia. O desempenho do cara foi mérito dele, não da cota.

Bear em abril 21, 2005 12:04 PM


#61

Gostei muito do texto Idelber, já tinha visto vários links para esse texto mas ainda não tinha vindo ler por falta de tempo.

Bom, sobre as cotas nas universidades só tenho duas coisas a dizer:
- Foi magnífica a entrevista que a menina que entrou em primeiro lugar em jornalismo da UFBA deu à TV Globo, falando que ela se candidatou ao vestibular como cotista sim, porque esse é um direito civil que ela recebeu e não iria abrir mão dele, mas que ela fez questão de prestar o vestibular e estava muito orgulhosa de ter passado em primeiro lugar, assim tinha mostrado à todos que tinha capacidade de passar e não precisava do paternalismo alheio sobre sua pressuposta condição inferior por ser pobre, negra, mulher. Deu um show.
- Existe atualmente um projeto aqui em São Paulo - montado por um grupo de defesa dos direitos civis iguais para todos - onde professores voluntários auxiliam jovens pobres e negros a estudar e passar no vestibular por mérito próprio, sem ter que recorrer às cotas. Esse grupo é muito interessante, porque defende que o sistema de cotas foi criado com as melhores intenções, sim, mas o sistema de cotas não melhora o racismo que eles sentem diariamente, não, só piora, porque muitas pessoas já jogaram na cara deles: "é, você só vai poder estudar porque criaram o sistema de cotas". Tem uma professora amiga minha que participa do projeto, uma grande educadora e ela me convidou pra ir lá conhecer mais a respeito na semana que vem, eu vou me informar mais, mas a primeira vista me parece que o sistema de cotas é questionável sim.

DaniCast em abril 21, 2005 12:22 PM


#62

Aliás, Idelber, queria fazer duas sugestões de pauta para você propor a discussão por aqui: o paternalismo na cultura brasileira e o problema do machismo na cultura brasileira. Eu adoraria ler o que você teria a dizer sobre esses dois polêmicos assuntos.

DaniCast em abril 21, 2005 12:26 PM


#63

Adorei os comentários da Dani.

Também sou fã daquela velha história de não dar o peixe, mas ensinar o cara a pescar. Mas se o cara não come nada há tanto tempo que não tem forças nem pra botar a minhoca no anzol, comé que ele vai aprender a pescar?

Os argumentos pró-cota estão ficando cada vez mais interessantes e sensatos, mas tem muita água pra rolar ainda. Estou curiosíssima.

leticia em abril 21, 2005 12:48 PM


#64

O sistema de cotas é algo muito novo e é claro que passará por ajustes com o tempo. Aqui em Salvador, a UFBA implementou as cotas depois da UNEB, e eu acho que houve avanços.

A UNEB simplesmente reserva 40% das vagas para alunos pretos ou pardos oriundos de escolas públicas.

Já a UFBA amplia a cota para 43% de alunos oriundos de escola pública, sendo que, destes, pelo menos 85% deverão ser de pretos ou pardos. Caso esses 43% não sejam completos por alunos de escola pública, aí sim, poderão ser completos por alunos pretos ou pardos oriundos de escolas particulares.

Os alunos não têm apenas que ter feito o terceiro ano em escola pública, mas sim todo o ensino médio (o segundo grau) e pelo menos uma série entre a quinta e a oitava do ensino fundamental na rede pública. Isto serve pra afastar espertinhos de plantão. Pra afastá-los também, já está previsto no edital que se se descobrir que o aluno se declarou preto ou pardo ou oriundo de escola pública sem o ser, este aluno perderá automaticamente sua vaga, mesmo já tendo cursado boa parte do curso na faculdade.

Além disto, a UFBA coloca uma pequena cota (2%) para alunos que se declarem índios descendentes. E ainda coloca 2 vagas a mais em cada curso para alunos de aldeia indígena ou quilombo.

E todos esses alunos, TODOS, têm que conseguir a nota mínima pra aprovação. Isto significa que não basta ser negro, índio, pobre e que isso garante que estão na faculdade. Eles têm que estudar também pra passar! Ninguém passa sem saber nada. E o vestibular na UFBA não é um vestibular fácil.

Então, vamos pensar em alguns pontos: esse edital não contempla apenas alunos de origem negra. Contempla os de origem indígena e mais: alunos BRANCOS, mas carentes, oriundos de escolas públicas também têm o benefício.

Aí, chegamos no ponto que todo mundo toca: e o ensino básico como é que fica?

Sim, o ensino básico nas escolas públicas tem que ser melhorado! E isso é urgente. Mas melhorar o ensino é bem mais que garantir que as crianças fiquem na escola. É garantir que haja ENSINO. Nâo adianta nada essa política de aumentar a "aprovação" e os alunos chegarem ao fim do ensino médio sem saber calcular 7 x 7 e sem saber escrever nada além do próprio nome. Aqui na Bahia, isto pode ser verificado em inúmeras escolas públicas, da capital e do interior.

Não acredito que ser contra as cotas melhore o ensino básico. São lutas complementares.

É claro que, se o ensino básico for melhorado, se os alunos de escolas públicas tiverem condições de aprender, um ensino de qualidade e acesso a toda informação que os alunos mais abastados podem ter, as cotas talvez não sejam necessárias.

Mas as cotas são importantes agora porque, mesmo que o ensino público básico fosse efetivamente melhorado desde a afalbetização a partir de 2006, levaríamos quase 20 anos para as primeiras turmas chegarem ao vestibular. Teríamos pelo menos um vácuo de 20 anos em que alunos que foram alijados de seu direito a uma educação de qualidade continuariam alijados no momento de tentar uma vaga na faculdade.

Um aluno que vem de uma escola pública atualmente quase nunca tem acesso, na própria escola, a todo conteúdo programático exigido no vestibular. Justamente porque a escola pública tem privilegiado a aprovação a qualquer custo do que o ensino. Ora, um aluno desses, que tente o vestibular agora, terá que se esforçar muito mais pra aprender fora da escola (sem a ajuda dos professores) o mínimo que ele tem que aprender pra conseguir a nota mínima de aprovação na UFBA (que não é baixa). Já um aluno que venha de uma escola particular, que teve durante toda a sua formação acesso a todo o conteúdo programático, não precisará de tanto esforço extra-ecolar. Considero, portanto, justo que esse aluno, que teve que se esforçar muito mais porque a escola não lhe proporcionou uma educação de qualidade, seja beneficiado na hora de entrar numa universidade PÚBLICA.

Aí, vem a segunda questão: das vagas que a UFBA disponibiliza para alunos de rede pública, 85% são para negros - isto não é racismo?

Ora, quem conhece Salvador sabe que a maioria da nossa população é negra. Nas escolas públicas, a quase totalidade de alunos é de origem negra. Se há uma cota de vagas para alunos de escolas públicas, é natural que se mantenha, nessas vagas, uma percentagem que reflita a distribuição racial da população.

Aliás, este é um dos motivos pelos quais eu acho justo que haja uma cota para negros. Não, as cotas não servem para acabar com racismo ou qualquer preconceito. Mas servem para que essa população de origem negra, que aqui é maioria, tenha representatividade também dentro da universidade pública.

Se vc visita um hospital público, vc vê que quase todos os pacientes têm origem negra. É muito estranho que, na faculdade pública nem metade dos alunos seja de origem negra.

As cotas servem pra que a universidade pública reflita a realidade da população. Numa faculdade da região norte, em que a maior parte da população é de origem indígena, uma cota de 2% como na UFBA seria inexpressiva.

Preconceitos podem ser alimentados por causa das cotas? Podem. Mas pra quem é preconceituoso, qualquer pretexto serve. Não se pode deixar de usar uma medida que nem é de reparação, mas de equalização, somente porque os preconceituosos de sempre vão continuar preconceituosos.

Professores podem ficar com medo de reprovar alunos cotistas pra não serem acusados de racistas? Alguns podem. Os inconscientes. Os professores de verdade vão procurar fazer desses alunos bons profissionais. E acredito que muitos destes alunos serão melhores profissionais do que alunos de algumas faculdades particulares que pressionam os professores para aprovarem alunos que não estudam somente porque esses alunos PAGARAM (infelizmente, esta é uma prática que tem acontecido em várias faculdades particulares, que têm pipocado como gremlins por todo o país).

Agora, enquanto se aplicam as cotas, cabe a todos nós exigirmos um ensino básico público de qualidade. Uma coisa E outra.

Por fim, não é preciso ser negro pra perceber que alguma coisa tá, no mínimo estranha, quando uma faculdade pública não reflete a distribuição da população.

Sou branco, classe média, e sei muito bem o que é passar incólume pela polícia no Pelourinho enquanto meu amigo negro é parado, apalpado e revistado.

Claudio Simões em abril 21, 2005 4:45 PM


#65

Então Bear, apresente uma sugestão que inclua os negros agora e não daqui a 40 anos. Porque, para quem já tá na fila há 400 anos, o problema está na pasta de urgência. E alguém mandando esperar mais um dia já é abuso da paciência.

Daniela em abril 21, 2005 7:44 PM


#66

Prezados :
Considero as cotas raciais p/qualquer grupo e sob qualquer pretexto práticas tão discriminatórias e excludentes quanto a discriminação e/ou exclusão , real ou imaginária , que pretenda resolver ! Além disso , parte considerável da população declarada Branca ( IBGE )possui também ascendência ameríndia ou africana ( minoritária e remotamente ) sendo portanto também Parda ! Isso torna as cotas redundantes !!!!! ( Sobre isso acessar : www.gene.com.br ). Sou Branco e considero que respeito e/ou a solidariedade com os diferentes pressupõe iguais atitudes aos semelhantes e a nós mesmos ! A pior forma de preconceito e/ou discriminação é a que cometemos ou permitimos que se cometa contra nos mesmos .- Portanto : ABAIXO AS COTAS !!!!!!!!!!

J F em agosto 31, 2005 7:53 PM


#67

Eu acho que deveria ter figuras porue na capa esta escrito figuras sobre o negro no Brasil e e so isso

Mariana Eloisa da Silva em novembro 8, 2005 2:54 PM


#68

concordo com a atitude do Grfite em denucialo.Vamos se colocar no lugar dele?

Anonymous em novembro 16, 2005 1:43 PM