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domingo, 17 de abril 2005
O Brasil Pós-Grafite, Racismo e Cotas

Qualquer que seja sua opinião sobre a prisão do jogador argentino Leandro Desábato por ofensas racistas a Grafite, não há dúvida que o episódio muda muita coisa no Brasil. Abre-se um precedente jurídico importante. De outros blogs e da ampla discussão que aconteceu aqui nos últimos dois dias, selecionei algumas citações:
Imprensa Marrom: Os brasileiros precisam tentar - pelo menos TENTAR - entender que o futebol não é algo sagrado. É um esporte como qualquer outro, pelo menos do ponto de vista jurídico. O árbitro de futebol não é uma “autoridade” no campo; seus poderes não são similares ao do comandante de um avião, por exemplo. Por fim, o crime de injúria, qualificada por ser ofensa racial, não pode JAMAIS ser tratado por um tribunal desportivo. O texto de Gravataí Merengue é muito lúcido. Quando o assunto é futebol, trabalha-se com a noção de que as quatro linhas estão suspensas no ar, não sujeitas às regras e leis extra-campo e que o árbitro é uma autoridade inquestionável. Uma das grandes formas de reprodução do poder obsceno que mantêm as cartolagens nacional e internacional é o dogma de que as leis da sociedade civil não podem imiscuir-se no futebol. A queixa de Grafite e o acatamento desta pelo delegado ajudaram a desestabilizar um dos grandes mitos nacionais: a inviolabilidade das quatro linhas.
Blogueiro Ricardo Antunes, aqui no Biscoito: ofensas racistas já aconteceram em jogos nacionais, sem que ninguém seja denunciado. Espero então que, a partir de agora, os racistas brasileiros sejam também punidos . . . Porque é fácil jogar um argentino que ninguém conhece na cadeia. Queria ver é fazer isso com o Diego, por exemplo, que em 2002, quando defendia o Santos, ofendeu o lateral Kléber, então no Corinthians. Concordo com o Ricardo que esse evento tem o potencial de mudar o grau de tolerância com a ofensa racista por parte dos atletas negros. É importante separar as duas coisas: o fato de que provavelmente o assunto teria passado incólume se o ofensor tivesse sido brasileiro não quer dizer que a denúncia de Grafite fosse menos válida ou que a coisa tivesse sido “armada”, como ridiculamente acusou o vice-presidente do Quilmes. Agora, sem dúvida o precedente coloca as futuras denúncias em outro patamar. Se Grafite, num jogo de Libertadores da América contra o respeitado futebol argentino, tendo sido expulso da partida, teve a coragem de denunciar a ofensa à justiça, é de se esperar que futuras vítimas sintam-se muito mais respaldadas. Isso só pode ser positivo.
Blogueiro Emerson, que esteve no Morumbi, no Biscoito: Ali, na hora, não entendemos o porquê de sua expulsão mas, sei lá, intuitivamente, aplaudimos e gritamos seu nome mesmo sendo expulso. Um comportamento anormal esse, pois a torcida do São Paulo mais vaia do que aplaude. Findo o jogo, descobrimos que fizemos a coisa certa ao aplaudir o Grafite. Para quem está preocupado com os próximos jogos de brasileiros na Argentina: nada acontecerá, tirando, talvez, mais vaias e xingamentos. Concordo em gênero, número e grau. Eu já vi situações semelhantes às descritas pelo Emerson, nas quais a expulsão de um jogador por revidar ao ter sua honra atingida foi aplaudida pela torcida. Concordo com Emerson no que se refere ao jogo de Buenos Aires pelas eliminatórias: será um jogo tenso, não há dúvida. Mas quem acha que o poder público argentino estará armando ‘armadilhas’ para levar alguém preso não conhece a diferença entre a Argentina de Carlos Menem e a Argentina de Néstor Kirchner.
Blogueira Daniela Silva, no Biscoito, desmontando mais uma vez o pedestre argumento de que no Brasil não há preconceito racial, só econômico: A discriminação existente no Brasil é econômica? Tsc tsc tsc, que argumento elementar!!! Quer dizer que, se a pobreza acabasse num toque de varinha de condão o racismo iria junto? Quer dizer que negros mais abastados, de classe média não sofrem preconceito? Ah, então diga isso pro guarda que me para todo dia na porta do shopping onde fica a minha academia e pergunta pra onde eu vou(são 6 da manhã e o shopping está fechado). Engraçado é que eu estou com roupas de ginástica e ele não para nenhum dos brancos. Vai ver ele acha que alguém da minha cor não pode pagar aquela academia. Mas, perái, o preconceito não é econômico?? Como em todas as outras intervenções aqui, Daniela foi ao cerne da questão. Está mais que provado que 1) a exclusão econômica atinge desproporcionalmente a população negra; 2) que a intimidação e a violência policiais, para não ir mais longe, atingem preferencialmente a população negra; 3) que as várias formas de desigualdade social se reproduzem racialmente também. Por isso não há o menor sentido em se discutir, por exemplo, se “branquelo de merda” ou “alemão-zão de merda” seriam igualmente imputáveis como crimes racistas. Trata-se de um reductio ad absurdum. Quem arma um argumento assim não vive na realidade, vive na sua própria medrosa fantasia. Ninguém nunca foi escravo no Brasil por ser branco. Os brancos não têm que lidar cotidianamente com práticas de exclusão baseadas na cor da pele. Pelo que me lembro, não é comum em língua portuguesa agredir alguém com termos como branco sai daí ou branco, você não vale nada. Tampouco é comum que se peça a alguém que troque de elevador por ser branco. Em outras palavras, quem quer sufocar a discussão sobre o racismo criando simetrias-zinhas falsas com expressões que nunca feriram os brancos está simplesmente fugindo do assunto. Na maioria dos casos porque se sente incomodado com o tema, acha que sabe algo sobre ele, e não tem humildade de escutar as vítimas reais.
Foi o que disse brilhantemente Cláudio Simões aqui no Biscoito: Daí que achei ridículo o argumento de algumas pessoas de que o próprio nome que o jogador escolheu, Grafite, já é ofensivo. Pra mim, pouco importa se o nome tenha vindo do ato de grafitar ou da substância. Ele escolheu ou assumiu e, a partir daí, não há nenhuma intencionalidade de ofensa. Como não há ofensa quando Gilberto Gil batiza a filha de Preta, ou o cantor se chama de B-negão ou Brown. Pelo contrário, há aí uma afirmação da diferença, o que passa longe do preconceito. Em segundo lugar, a ofensa, como no caso do jogador, está na junção da palavra "negro" com a expressão claramente ofensiva: "de merda". É portanto uma ofensa com intenção racial, punida por nossas leis. O Grafite teve a coragem de denunciar e fez muito bem. Para os que experimentam cotidianamente a agressão à sua humanidade pela cor da pele, é lógico que um ataque como o que sofreu Grafite não é só a junção da palavra "negro" + a palavra "merda". A operação racista promove uma identificação entre essas duas palavras, que remete a uma história específica de escravidão, exclusão, discriminação.
Será que é tão difícil entender isso? Será que a maioria dos brancos brasileiros continuará agindo de maneira nervosa e defensiva quando o tema é discriminação racial? Será que não está faltando a humildade de sentar e escutar as vítimas um pouquinho? Parar de pressupor que se sabe o que é racismo sem nunca ter sido vítima dele? Que tal se todo mundo que argumentou aqui contra as cotas para negros nas universidades tomasse os próximos dias para conversar com um secundarista ou universitário negro sobre o assunto? Que tal se todos os que criticam a iniciativa procurassem informar-se sobre os resultados da UERJ, que mostram que os cotistas tiveram aproveitamento em média superior aos não cotistas? Que na verdade a convivência foi não só excelente como instrutiva para os não-cotistas, que insistentemente disseram que tomaram contato com realidades que não conheciam?
No momento em que a blogueira Daniela ofereceu links que levavam a estudos sobre o tema das cotas, o blogueiro Ricardo Montero – que é amigo do Biscoito – respondeu dizendo: não vou acessar seu link por já ter pesquisado o assunto quando escrevi alguns artigos para o jornal do Centro Acadêmico de Direito/USP, há uns três anos. Ora, em qualquer universidade séria, se eu disser que não vou olhar uma referência bibliográfica porque há três anos escrevi sobre o assunto, vou receber uma gargalhada na cara. Diga-se de passagem que foram nos últimos três anos que nós, apoiadores das cotas para afro-descendentes, vimos nossos argumentos repetidamente confirmados por estudos feitos tanto no Rio de Janeiro como na Bahia.
E no entanto, a atitude da grande maioria das pessoas que se propõe a combater as cotas para afro-descendentes tem sido: não ler a bibliografia disponível, bater pé em que as cotas “criariam discriminação” mesmo quando todos os estudos sugerem o contrário, insistir que “seria impossível porque brancos se aproveitariam disso” (como se tais brechas não existissem em tudo quanto é lei de reparação ou redistribuição social), argumentar que “no Brasil é impossível saber quem é realmente negro”, como se essa dúvida alguma vez existisse quando se trata de violência policial ou de uma discreta sugestão de que se use o elevador de serviço.
Em outras palavras: dizer sou contra as cotas porque sou contra o racismo é uma asneira sem tamanho, só enunciável por quem não tem idéia do que é ser vítima de racismo - eu não digo que eu a tenha, mas digo que nos últimos 20 anos tenho tentado ler um pouquinho sobre o tema e acima de tudo escutar o relato da experiência de quem é vítima. Acredite-se, igualar racismo com medida reparatória a favor de vítimas do racismo é uma triste fantasia do privilegiado que quer continuar cego ante seu privilégio. É uma operação pobre, moral e intelectualmente. Igualar 450 anos de discriminação, séculos de escravidão, constante desumanização da população negra, violência policial e elevadores de serviço, igualar tudo isso a uma medida reparatória, chamando as duas coisas de “racista”, é pura e simplesmente recusar-se a discutir a questão com um argumento de má fé.
Em suma, não tenho nada contra brancos. Inclusive, alguns dos meus melhores amigos são brancos. Não me importaria, de forma nenhuma, que minha filha se casasse com um branco. Mas acho que entre os brancos brasileiros ainda falta relaxar geral sobre o tema raça. Ele não vai desaparecer. Se quiser criticar a iniciativa das cotas, sou todo ouvidos. Agora, nesta discussão eu só presto atenção aos argumentos de quem procurou informar-se e refletir um pouquinho sobre o tema. Quando alguém que nunca foi vítima de racismo e não dá mostras de ter, sobre ele, refletido muito, vocifera que as cotas são racistas, eu só posso concluir que o tema incomoda e essa pessoa quer sufocá-lo.
Que tal se todo mundo procurasse hoje ou amanhã ouvir o depoimento de alguém que já foi vítima de racismo e ler um pouquinho sobre o assunto? E voltasse aqui para falar do tema das cotas? Não acho que todas as pessoas sensatas tenham que defender políticas estatais reparação para a população negra, como o fazemos eu e Daniela. É possível ser contra as cotas com argumentos bem-informados. Mas ainda não foi o caso de nenhum que eu tenha ouvido aqui neste Biscoito.
PS 1: Alexandre Cruz Almeida morreu e nasceu Alexandre Castro; com este nome o enfant terrible blogará e doutorar-se-á. Quem puder, que deixe lá votos de axé ao novo nome.
PS 2: Dentro de algumas horas pego o avião para Williams College para dar duas palestras, uma sobre Chico Science e outra sobre o tema da violência. Só volto na terça-feira. Nesta segunda e nesta terça haverá blogueiros convidados no Biscoito. Quem serão? Aguardem.
Escrito por Idelber às 00:07 | link para este post
| Comentários (73)
Alexandre em abril 17, 2005 2:06 AM
#2
O projeto de lei para as federais ainda é projeto, Alexandre. As experiências já legalmente vigentes há algum tempo são no Rio de Janeiro e na Bahia (boas palavras para guglar: cotas + UERJ, UEBA, UFBA, etc.). Aqui vai um bom link:
http://www2.uerj.br/~clipping/_cotas.htm
Idelber em abril 17, 2005 2:27 AM
#3
O que não consigo entender é como tantas pessoas usaram o argumento da "inviolabilidade das quatro linhas". Ouvir o Maradona dizer asneira deste tamanho não me surpreende, mas só ele tem esse "crédito". Perfeito tocar neste argumento idiota de pessoas que dizem "mas e se fosse branco de merda, ia ofender?". É realmente opinar sobre algo que não se conhece, mostrando não ter a menor noção do que é sofrer o racismo, tentando diminuir a importância do caso.
Sobre as cotas. A princípio sou contra. Tenho minhas opiniões a respeito mas não posso deixar de aceitar o convite para rever esta posição, principalmente quando já existem dados relativos ao desempenho dos alunos cotistas. Informação valiosa!
Donizetti em abril 17, 2005 2:46 AM
#4
Donizetti,
Maradona quando foi preso em seu apartamento em buenos Aires consumindo cocaina nos anos 90 e reagiu assim quando um policial, ao o levar para a viatura lhe perguntou " vc não tem vergonha? vc é um idolo e faz essas coisas, que exemplo vc acha que os jovens levarão disso". Maradona respondeu " Eu não sou exemplo, como pode um asno ser exemplo? eu nem terminei o primario, não sirvo de exemplo pra ninguem".
Eu não vejo as cotas com bom olhos. Olhando para a frase de maradona percebo que ele não se ve com bons olhos apesar de ser brilhante como futebolista. Acho que a maradona lhe faltou confiança , logo o que uma instrução solida te proporciona e que mesmo vc chegando a ser o melhor em sua profisão durante uma epoca como maradona foi, isso não necesariamente te proporcionara amor proprio.
Eu acho que esse amor proprio vem dos pais e do ambiente. Temos + influencia sobre o ambiente do que sobre os pais.
Por isso acho que o foco deve ser sobre o ensino primario e secundario e não sobre o universitario. Então a pergunta ao meu ver é como dar acesso ( eu prefiro bolsas garantidas a todos que PASSAREM o segundo grau para fazer um cursinho que em seu historico tenha entre seus alunos um media encima dos 50% que passaram o vestibular). O dinheiro existe, so gostaria de que as pessoas parassem de culpar os juros exorbitantes sobre nossa divida ( que fomos nós que contraimos) e olhasem + para o desperdicio que pagamos para manter nosso estado ( logo para manter ele foi a razão que nos metimos a contrair emprestimos e nos endividar, e ainda é assim até hoje).
As cotas não necesariamente seriam uma ma ideia creio. + por um tempo estipulado como 10 anos SEM extensão pois então nosso politicos vão começar a apontar a uma maior porcentagem de alunos carente EXTREMANTE esforçados se graduando da universidade e seguirão ignorando a raiz do problema, o ensino primario e secundario. De qualquer forma acho que nesse post se discutem as cotas então vou procurar pesquisar os resultados de onde elas foram implantadas.
Alexandre em abril 17, 2005 3:39 AM
#5
O assunto é polêmico e congratulo Ivelar pela oportunidade de estarmos discutindo isso aqui no blogue. Também acho que antes de emitir qualquer opinião, devamos examinar com bastante cuidado o problema.
Na minha opinião, a sociedade brasileira é violenta, desigual e injusta. Temos uma das distribuições de renda mais desiguais do mundo - e isso não é título do qual devemos nos ufanar. Acredito que o "Abolicionismo" de Nabuco deveria ser leitura obrigatória nas escolas - mais do que o bolorento "Os Sertões" de Euclides da Cunha. Pois Nabuco trata das nossas chagas e feridas principais: a escravidão.
Isso dito, não acho que a solução seja importar um agenda americana. Nossa violência e nossa desigualdade não têm o timbre a dinâmica de uma sociedade americana, atemorizada pelo Jim Crow. São problemas diferentes. A própria questão da categorização não pode ser menosprezada. O conceito de afro-descendência é fraquíssimo, sobretudo num país cheio de sutilezas e nuanças, onde pessoas brancas podem ser "afro-descendentes". Tudo isso mostra a complexidade do problema.
Os nossos grandes problemas vieram de anos e anos de escravidão. Nabuco disse que a escravidão, para o bem e para o mal, havia sido a nossa única instituição verdadeira, a única força social a deixar marca indelével na nossa formação. No entanto, os males de nossa sociabilidade patriarcal concentram-se mais na forma de suas práticas sociais do que no conteúdo de um possível racismo. Em outras palavras: quando a madame pede para que Macabéa Zé-Povinho saia do elevador social, ela faz menos por racismo propriamente dito (tal madame pode ser uma juíza amulatada, por exemplo), do que por uma estratégia de distinção social típica de nossas elites patriarcais que não economizam no afinco de mostrar que cada macaco deve estar em seu galho. Quando Prudêncio, ex-escravo de Brás Cubas, foi encontrado pelo mesmo chicoteando outro escravo, não fazia outra coisa do que emular as posições de comando daquele sistema social. É esse sistema que deve ser combatido.
Nosso universo social, cheio de ambiguidades e entre-lugares, é mais sutil que o americano - onde o preto é preto, branco é branco, latino é latino. Não falo isso pra celebrar uma possível complexidade mestiça (Gilberto Freyre), mas apenas para convocar o exame da realidade na sua nervura viva, sem importar modelos prontos e travejados por uma experiência histórica outra.
José Amaro em abril 17, 2005 4:15 AM
#6
Grande José Amaro,
Que intervenção espetacular. Este blog está ficando bom mesmo. A partir do apontado por você, permito-me só fazer uma clarificação sobre minha posição: sistematicamente me oponho à importação de categorias raciais norte-americanas para a realidade brasileira. Meus colegas aqui são testemunhas de que me bato de frente contra a típica leitura americana de Gilberto Freyre e também contra a binarização paradigmática aqui nos EUA quando o tema é raça. Meu apoio às cotas vem da experiência desenvolvida no Brasil pelo movimento negro, por figuras como Abdias do Nascimento, por toda a reflexão baiana sobre a negritude. É verdade que para esse movimento algumas experiências norte-americanas foram instrutivas, mas nada nele é pura cópia.
Dito isso, insistamos: que o ataque na cena do elevador possa vir de uma mulata não elimina o seu conteúdo racista e, tipicamente, isso não acontecerá com Macabea se Macabea for branca. Que o escravo chicoteie o outro escravo só significa que a violência gerada pela escravidão pode reproduzir-se entre os negros que são suas vítimas por excelência. Essa reprodução NÃO significa que branco alguma vez tenha sido vítima de maneira análoga ou comparável.
Mesmo no Brasil - cuja fluidez das categorias racias, concordo com você, deve ser respeitada - não acho que a categoria de afro-descendência seja 'fraquíssima'. Acho que ela é uma realidade social, cultural muitíssimo real.
Ao Marcos e ao Alexandre louvo a disposição de informarem-se sobre as experiências já realizadas. Ao Alexandre deixo o lembrete de que, claro, são recentes, e portanto falar em "resultados" talvez ainda seja prematuro. Mas há indicações, indícios, sinais, de quão positiva para a sociedade elas podem ser.
Enfim, com o tom extra-enfático do post eu quis colocar a discussão neste terreno mais avançado, me parece, no qual ela está agora, não no terreno pedestre no qual as oposições à iniciativa costumam colocar-se. Ë só isso que eu queria: ninguém tem que concordar, é claro, mas tem que ter um mínimo de disposição de considerar o assunto com cuidado, sem querer descartar um assunto tão importante com uma reductio ad absurdum como as que às vezes ouvimos.
Claro que em nenhum momento nego que as políticas de reparação sejam apenas um elemento de um todo muito maior. Mas são elementos importantes e a maioria da sociedade brasileira parece estar de acordo.
Idelber em abril 17, 2005 4:51 AM
#7
Idelber,
Mixed feelings.
Primeiro: eu realmente gostaria muito de ver a metodologia dos estudos estatísticos que estão afirmando que os cotistas vão melhor que os não cotistas. O link para a entrevista do Prof. Renato dos Santos me parece mais informativo do que o outro. Ele admite que um segundo estudo, realizado a partir do índice de reprovação por notas, mostra que os cotistas vão pior que os não cotistas; os cotistas aparentemente vão melhor quando se considera também o índice de reprovação por abandono de curso _ o que seria de se esperar, pois o cotista dificilmente largará fácil a oportunidade a que teve direito.
Um outro problema que pode afetar a estatística e aparentemente não foi controlado (e eu nem imagino como fazê-lo) é o fato de que no início da experiência com cotas (que é extremamente recente) os professores estão atemorizados e têm medo de serem acusados de racismo por reprovar um cotista. Essa informação me foi passada por professores. Então há um efeito aí que pode estar mascarando a estatística; é preciso ver o que acontece quando a coisa entrar "em regime". Em particular, seria interessante ver o que vai acontecer com os cotistas quando submetidos ao "provão", ao final do curso.
Em todo o caso, me parece que a lógica interna da política de cotas é justamente a de estabelecer um critério além da meritocracia, razão pela qual as reflexões acima, ainda que instrutivas, são acessórias. E esse é justamente meu principal problema com essa política quando transplantada para o Brasil. Sempre me pareceu _ e me corrijam por favor se eu estiver errado _ que a política de cotas nos EUA visava combater uma situação em que os negros não entravam nas universidades basicamente por serem negros, não porque não conseguissem ser admitidos em exames.
Não vou dizer que no Brasil o racismo não existe. Presenciei uma vez, em um restaurante em Gramado, os funcionários saírem da cozinha para virem espiar a babá negra de uma família que almoçava. Mas tendo a concordar com o José Amaro que a coisa aqui é mais nuançada.
Em particular, tenho muito medo da "Síndrome da Solução Provisória" que aflige este país. Pois a política de cotas, que é um paliativo, pode institucionalizar-se como solução, deslocando mais uma vez o espaço da discussão realmente relevante que é a do ensino público e gratuito de qualidade em todos os níveis.
O pessoal das políticas públicas tem um termo interessante para designar certas políticas: "americanização perversa". No Brasil, quando se universaliza um serviço público, em geral a universalização vem antes da definição e implantação de critérios de qualidade. Com isso, o público de mais posses (justamente o mais vocal, com mais poder de fogo para reivindicar melhorias) foge para as alternativas privadas de maior qualidade, deixando os carentes afundarem em um círculo vicioso de má qualidade no atendimento - pouca pressão por revisão dos padrões de qualidade. Historicamente, isto aconteceu no Brasil com a educação de primeiro e segundo graus e com a Saúde. E pode muito bem chegar à Universidade.
smart shade of blue em abril 17, 2005 8:35 AM
#8
Idelber, creio que estou sendo mal interpretado quando me digo indiferente aos estudos que analisam os resultados dos que ingressaram na faculdade por meio de ações de discriminação positiva. Seguinte: é o tipo de informação que, a meu ver, nada acrescenta. O que analiso é a correção de se aprovar alguém menos preparado (sim, menos preparado, pois foi pior avaliado no vestibular) que uma outra pessoa levando-se em conta a cor da pele.
Racista, para mim, é todo aquele que faz distinção com critério racial. Pode ser uma discriminação positiva, negativa, mas é sempre uma discriminação.
Vou mais longe: essa história de cotas é uma ofensa à capacidade dos negros. É uma invenção cômoda dos que não querem atacar o problema real, que é o nosso ensino público básico e médio. Dê escola pública decente para negros, pobres, índios ou seja lá quem for e veremos todos eles bem preparados, nas melhores faculdades, podendo enfim galgar a ascensão econômica.
Os negros e os pobres precisam de oportunidades iguais, sim. Mas isso começa no pré-primário, não nas portas de uma universidade.
Por último, um esclarecimento dos mais óbvios: quando escrevi para o jornal do centro acadêmico, não fiz um estudo sociológico - mesmo porque não sou cientista social, sou advogado e cientista da computação. Ademais, não acho que os argumentos aqui apresentados pelos participantes sejam tão mais científicos que os meus, já que o que tem predominado é a paixão sobre a razão.
Ricardo Montero em abril 17, 2005 8:49 AM
#9
Tenho dúvidas quanto à efetividade das contas quando essa política não vem associada à um maciço investimento em educação fundamental (ensino fundamental + médio) e, nesse ponto, concordo com Ricardo quando ele diz "Dê escola pública decente para negros, pobres, índios ou seja lá quem for e veremos todos eles bem preparados, nas melhores faculdades, podendo enfim galgar a ascensão econômica." E acrescentaria: lutando como iguais.
A iniciativa das cotas é louvável, claro. E deve-se começar por algum lugar. Mas, por si só, não irá resolver a questão do acesso dos negros e de outras minorias (ou MAIORIA: os POBRES) às faculdades públicas e de qualidade. Em outras palavras, é preciso investimento em educação, investimento em educação, investimento em educação.
Quanto à discriminação, Idelber, se engana quem pensa que se trata apenas de racismo. Na primeira faculdade que cursei, metade da turma torcia o nariz quando dizia que morava (e ainda moro) em Belford Roxo, uma cidade na Baixada Fluminense. Lembro de uma aula (sociologia, se não me engano) que uma colega disse que era "impossível" que "um aluno de escola pública da Baixada Fluminense chegasse à uma faculdade pública, porque nunca consegueria passar no vestibular". Com a calma que consegui reunir, argumentei que, embora tenha estudado em escola particular não sou família abastada e sempre morei na Baixada Fluminense; mesmo assim estava em uma das melhores faculdades do país; e que, além disso, minha mãe, que a vida inteira estudou em escola pública, cursou Direito na UFF. Como dá pra perceber, meu sangue ferve com a discriminação econômica ou, pior, geográfica.
E, embora de pele branca (na medida em que se pode dizer que uma fluminense seja "branca"), já sofri racismo por ter tido alguns namorados negros. Desde olhares estarrecidos até "o que faz uma menina branca como você com um negão como aquele? Vai sujar seu sangue" e "tenho vários amigos negros, mas não conseguiria namorar um jamais". Quem fica estarrecida, na verdade, sou eu. Desde quando a quantidade de melanina alheia me diz algo? Sentimentos deveriam ser pautados por esse critério, por um acaso?!? E como alguém pode pensar em me censurar namorar negros? Nas entrelinhas, ouço o absurdo que negros seriam uma sub-categoria de pessoas.
Enfim, os exemplos são muitos, o tema é polêmico. É de uma felicidade muito grande você colocá-lo em debate de uma maneira tão inteligente, Idelber.
Lulu em abril 17, 2005 10:30 AM
#10
Idelber,
No caso, a segregação é correta:
Delete a Lete!
Bicu em abril 17, 2005 10:57 AM
#11
Esse post-balanço final do episódio Grafite foi brilhante. Assino embaixo 100%. Quanto ao comentário-spam aqui nessa caixa, acredito que só não foi apagado ainda porque o Idelber está viajando. Um aviso para a "Lete": mandar spam pode dar cadeia.
Leila em abril 17, 2005 12:18 PM
#12
Prontinho pessoal, o spam foi devidamente deletado, IP devidamente anotado, bola prá frente. Já conversarei com o Fábio sobre como podemos nos proteger desta praga.
Estou adorando os comentários, inclusive - ou especialmente - os que colocam discordâncias comigo. Eu sou fã da cabeça aberta e arejada de Smart Shade of Blue, apesar do desacordo. Adorei o depoimento da Lulu também e a disposição do Ricardo para ouvir nossos argumentos.
Abraços para todo mundo de Williamstown, a pontinha onde se encontram os estados de Vermont, Nova York e Massachussetts. Dentro de uma meia hora a galera daqui conhecerá o poder e a força de Chico Science.
Idelber em abril 17, 2005 1:23 PM
#13
Comentei rapidamente em seu primeiro post sobre o caso Grafite e acredito ser um aspecto pouco abordado em toda essa discussão: uma discussão "moral" sobre tolerância/intolerância. Tem um post lá no meu blog sobre isso.
Abraços.
Roberson em abril 17, 2005 2:44 PM
#14
Idelber,
Eu ainda estava me recuperando, contando os mortos e feridos e você me sai com essa!! :-)
Mas, vamos lá.
Sobre o seu post não tenho nada a dizer já que parecemos concordar em detalhes mínimos a respeito da política de cotas.
Mas eu gostaria de salientar alguns pontos ainda.
PRIMEIRO: A questão das cotas raciais, tal como estão sendo propostas, vai muito além de apenas colocar os pobres dentro da universidade. É verdade que dentre pobres negros são a maioria e também os mais pobres dentre os pobres. Isso é estatístico e facilmente comprovado por dados do IGBE, PNDU, etc, mas se o sistema de cotas tem como intuito principal incluir os que não estão incluídos, também se propõe a corrigir um erro histórico.
Após a Lei Áurea a população negra foi confinada em guetos, favelas, periferias, condenada à marginalidade, lugar onde estão até hoje .O governo “importou” brancos europeus para fazer um trabalho que os negros sabiam fazer com o claro intuito de branquear a população, dando-lhe – inclusive – diversos incentivos (Por isso que vemos comumente figuras importantes com sobrenome estrangeiro e quase não vemos negros). Ser negro no Brasil passou a ser sinônimo de algo ruim, pejorativo, depreciativo. É muito comum expressões como “trabalho de preto” ou “negro quando não suja na entrada suja na saída”. E se hoje, nós, os politicamente corretos, não as repetimos por aí, não estamos imunes a seus efeitos nefastos que ainda persiste.
Recentemente a marca de esponja de aço Assolan lançou umas campanhas aparentemente delicadas, mimosas, doces, com bebês usando perucas de bombril aparecem engatinhando. Ora, minha mãe (que é branca) acha a propaganda linda. E quem não se enternece vendo bebês rosadinhos e sorridentes tentando caminhar? Acontece que essa propaganda deprecia o povo negro quando compara o estilo black power a um cabelo de “bombril”. Sobre esse assunto Rebeca Oliveira Duarte que é advogada do Observatório Negro já se expressou e de maneira brilhante neste link : http://www.afirma.inf.br/htm/ensaios/ensaios.htm
Mas o que estou querendo dizer é que a discriminação está tão enraizada no inconsciente coletivo dessa sociedade que atitudes racistas passam completamente despercebidas.
Curiosamente uma parcela de quase 50% da população é invisível. Ser bonito é ser branco (como atestaram alguns blogueiros bem recentemente no episódio que envolveu a Miss Sergipe), quando alguém diz que um lugar ou uma festa só tem “gente bonita” está obviamente se referindo a gente de peles pálidas, olhos claros e cabelos lisos.
E é apenas por isso que os negros muitas vezes discriminam outros negros. Porque eles cresceram sendo bombardeados com a idéia de que os vencedores são todos brancos e os negros são os bandidos, os que batem na mulher e as empregadas domésticas. Por isso que muitas vezes uma pessoa amorenada chama um de pele mais escura de “macaco”. Aí reside a perversidade do racismo brasileiro: já que todos (ou quase todos) temos ascendência africana, em maior ou menor escala, quanto mais escura sua pele ou mais crespo seu cabelo mais preconceito se sofre.
As cotas chegaram para dizer que os negros não precisam sempre estar regalados ao papel da empregada, do motorista ou do bandido. Chegaram para dizer: Você pode!
É comum pais negros desestimularem seus filhos que sonham “alto demais”. Porque um preto da favela sentado nos bancos da uma universidade é “muita ousadia”. As cotas, mais do que incluir, devolveram ao povo negro o direito de sonhar.
Uma pesquisa realizada nos EUA (me desculpem a falta de referência, mas havendo necessidade posso oferecê-las) mostrou que filhos de imigrantes negros são muito melhor sucedidos na escola do que os afro-americanos. Isto demonstra que o povo negro que foi escravizado sofre muito mais do que com a pobreza. Sofre com a falta de auto-estima, de segurança, de crença em suas capacidades.
Porque o povo negro deveria se envergonhar de reivindicar políticas reparatórias? O povo judeu se envergonhou de pedir indenizações ao governo alemão? Se me roubaram durante 450 anos e agora resolvem me devolver o que roubaram sou eu a envergonhada? Ora, quem deve sentir vergonha é o ladrão!!!
SEGUNDO e concluindo: Se parece que a paixão predomina sobre a razão é porque eu estou envolvida. É muito natural que alguém não tenha sofrido racismo nunca em sua vida não consiga compreender quais são os sentimentos envolvidos. Acontece que apenas PARECE. Os motivos que me fazem ser a favor das cotas são baseados em pesquisas e em estatísticas, além do meu conhecimento empírico, e não apenas em “achismo”.
E só me resta dizer que os que defendem ações afirmativas não são contrários à melhoria do ensino fundamental e médio, muito ao contrário. Os que defendem cotas são, em geral, os que têm seus filhos na escola pública ou que estudaram lá. São, com efeito, os mais interessados em sua melhora. Acontece que imaginado que o governo resolvesse investir pesado em educação pública levaríamos décadas para sentir alguma melhora. E o que fazemos até lá? Nas palavras de Marco Frenette, jornalista, escrevendo para a Revista Caros Amigos:
“Argumentos não podem ficar migrando de uma esfera para outra. ‘Deveríamos garantir’, só que não garantimos... Maurício de Nassau morreu, Gustavo Capanema morreu, Anísio Teixeira morreu, Paulo Freire morreu, Darcy Ribeiro morreu – e muitos outros morrerão até surgir essa ‘escola pública universal’.
Portanto, acenar com um Brasil futuro para desqualificar a política de cotas é dar um golpe baixo na inteligência. Usemos de uma imagem para explicitar esse samba do crioulo doido que anda passando por debate sério. Digamos que um homem está gravemente ferido. Ele sangra muito, e pede ajuda a outro: ‘Chame um médico, rápido, senão morrerei’. O homem saudável ouve isso e, calmamente, cheio de complacência oriunda de uma visão de futuro que o faz crer superior, responde: ‘Meu caro, o Brasil tem um projeto de civilização que vingará, o mais tardar, daqui a cem anos, daí teremos médico e hospitais para todos. Faça o favor de esperar’.
O que pede por um médico representa os negros que querem soluções para suas atuais vidas, e não para as próximas reencarnações; o que substitui a urgência de um médico por um projeto futuro e desejável de justiça social representa todos os viajantes do túnel do tempo, que, sádica ou docemente, se comprazem com o vício psicológico de confundir sonho com realidade.”
Ninguém está tentando colocar a culpa nos brancos de hoje pelo que fizeram os brancos de outrora. Como o Idelber, nada tenho contra brancos, alguns de meus melhores amigos são brancos. Não se fala em culpa, se fala em responsabilidade. A responsabilidade de se construir um país mais justo, mais igual, com mais oportunidades para todos e não somente para alguns privilegiados é nossa.
Idelber, mais uma vez peço desculpas por ser incapaz de sintetizar minhas idéias em poucas linhas.
Daniela em abril 17, 2005 2:47 PM
Biajoni em abril 17, 2005 4:41 PM
#16
Smart, quanto ao seu primeiro ponto, acho q vale aquela maxima estatistica:
"Torture seus dados ao maximo e eles te contam alguma coisa..."
Excelente discussao, Daniela de uma clareza inacreditavel, e Idelber hosteando esse caldeirao de ideias. Fantastico, fantastico!
Lucia Malla em abril 17, 2005 7:24 PM
#17
Só uma correçãozinha Idelber: A Universidade do Estado da Bahia é UNEB e não UEBA.
Daniela em abril 17, 2005 7:58 PM
#18
Daniel..
Menos,,,menos
Vamos ser mais racionais e meenos apoaixoandos.
Seus "argumentos" são muito passionais.
Eu sempre defendi as cotas, mas leio seus "argumentos" e quase me levam a pensar o contrário.
Paulo em abril 17, 2005 9:50 PM
#19
Corrigindo comentário anterior...
Onde se lê Daniel o correto é DANIELA
Paulo em abril 17, 2005 9:53 PM
#20
"Quando alguém que nunca foi vítima de racismo e não dá mostras de ter, sobre ele, refletido muito, vocifera que as cotas são racistas, eu só posso concluir que o tema incomoda e essa pessoa quer sufocá-lo."
Puxa Idelber, conclusão apressada, creio eu.
Eu nem sou assim tão contra as cotas, mas não dá para negar que um sistema fundamentado primariamente no critério da cor/raça pode sim ser interpretada como racismo. Às avessas mas, em última análise, racismo.
"...vimos nossos argumentos repetidamente confirmados por estudos..."
Acho que precisamos de um distanciamento maior (no tempo) para que possamos avaliar o que deu certo e o que deu errado no sistema de cotas. De qualquer modo, espero que a gente não resvale para a visão simplista de que se está dando certo é porque é bom. Este tipo de raciocínio é tudo que, por exemplo, o Bush precisaria para justificar a invasão do Iraque. Não importam os "efeitos colaterais", não importa o falso motivo para a guerra. O importante é que eles fizeram até eleição... PAX AMERICANA
Mas, voltando. A se dizer que está dando certo, temos que perguntar: pra quem? Pra os diretamente beneficiados, pode-se dizer que deu certo. Mas para o cara que pontuou mais e mesmo assim ficou de fora só porque era branquinho, ou para o vizinho do cotista, tão pobre quanto, que não foi beneficiado, só porque era branquinho, garanto que deu errado.
Não sou contra ações afirmativas. Sou a favor.
Mas a ação afirmativa por excelência, no meu ponto de vista, está aí sob os nossos olhos: a bolsa-escola. A mãe recebe um valor em dinheiro para manter os filhos na escola. Desta forma, mais do que apenas tornar viável a escola, restitui um pouco de dignidade à família pobre, visto que ela mesmo decide como utilizar o dinheiro recebido. E para quem elegeu a causa dos negros para defender, este sistema, baseado na situação socio-econômica, privilegia "naturalmente" os negros, atingidos desproporcionalmente pela exclusão econômica, como você mesmo disse, e mesmo assim não é injusto com o "branquinho" despossuído e não representado politicamente por nenhum grupo de pressão organizado. (a nova minoria discriminada.)
Mas se alguém tem mesmo predileção pelo sistema de cotas, poderia, pelo menos, baseá-lo na situação socio-econômica e não a cor da pele. Indo por aí, daqui a pouco teremos até critérios científicos para medir o grau de negritude, com precisão até a quinta casa decimal e tudo regulado por lei; teremos carteira de negro, escolas públicas só para negros... Epa... Já vi este filme antes.
Finalmente, desculpe não ter citado nenhum estudo de nenhum cientista social famoso, desculpe não ter utilizado o linguajar acadêmico para expor minhas idéias. Mas elas são minhas idéias, nada preconceituosas e bastante refletidas. E eu as prezo muito.
Bear, de forma nenhuma eu estava exigindo citações de estudos famosos, meu amigo. Eu só queria dar um puxão de orelhas em quem é contra antes de ler, antes de ouvir argumentos. E pelo teor da discussão até agora parece que deu certo! O objetivo era só esse, exigir mais atenção aos argumentos. O seu ponto de vista me parece sensatíssimo, você é leitor histórico e eu jamais usaria argumento de autoridade contra meus leitores. Só quis colocar a discussão num terreno mais favorável a que se escutem os nossos argumentos, e parece que consegui: a discussão vai muito bem. Valeu, e desculpe se fui muito duro. Eu absolutamente não me referia a pessoas sensatas e de diálogo como você. Abraços, amigo.
Bear em abril 17, 2005 10:49 PM
#21
Considero excelentes os argumentos do José Amaro. Invejo, no bom sentido, o texto do Bear, que com clareza demonstra o quão apaixonada tem sido a defesa das cotas aqui nesse debate.
As cotas se constituem solução importada, totalmente inadequada para o Brasil. Já sei, já sei: somos diferentes, pois o racismo aqui é velado, é discreto, etc. Só "discrição", mesmo? Afinal, no Brasil nunca soube de uma KKK, de lei que obrigasse negros a ceder lugar em ônibus, de banheiros públicos separados, de guetos negros como o Harlem. São essas diferenças evidentes que explicam o porquê das cotas serem segregacionistas, invenção de uma sociedade segregacionista.
Lembro também que as cotas vão favorecer umas poucas centenas ou milhares de negros (estes, objeto de pesquisa; os que ficaram para trás por não serem negros, jamais serão pesquisados). Porém, a grande massa negra (ou melhor, a grande massa pobre, de todos os matizes de pele) continuará à margem de tudo, pela falta de ensino básico. Fica-se brigando por umas poucas centenas ou milhares de vagas no ensino superior, e esquece-se do analfabetismo. Isso que eu chamo de inserção social!
Por último, muito me surpreendo com os partidários de pesquisas, que insistem em avaliar em tão pouco tempo os benefícios de um sistema que de tão recente, salvo engano meu, ainda não teve tempo de levar negro algum à colação de grau. Ah, claro: avaliação dos benefícios, já que os malefícios nunca são mencionados ou avaliados.
Desculpem-me pela franqueza, mas não consigo enxergar como um sistema que cria castas – versão light e positiva do apartheid – possa ter tantos defensores.
Caro amigo Ricardo: já corrigi seu nome no texto. Desculpe o erro. O debate sobre os argumentos já virá, logo que eu terminar as palestras aqui em Williams College. Obrigado pela presença e por ajudar a esquentar a discussão.
Ricardo Montero (Montero sem I) em abril 17, 2005 11:28 PM
#22
Caro Idelber,
Deixo aqui meu testemunho pessoal. Não tenho como bater o martelo na questão de cotas, e eu sei que, em parte, é porque eu tenho uma ponta de racismo, uma herança familiar da qual não me orgulho nem um pouco e da qual tento me livrar.
Alguns são contra as cotas porque, no fundo, no fundo, percebem que estão perdendo o seu espaço. As universidades públicas, com as cotas, deixam de ser reduto do mesmos que freqüentam os shoppings centers das grandes cidades do Brasil. Um negro, ou um pobre, ou um índio, ou um grupo qualquer que é marginalizado, torna-se um incômodo tão grande quanto o moleque vendendo chiclete no farol, invadindo os nossos carros com aquela miséria toda.
Tiago Chiavegatti em abril 18, 2005 12:02 AM
Alexandre em abril 18, 2005 1:01 AM
#24
PRIMEIRO: Complementando a informação dada pela Daniela, a Universidade do Estado da bahia é UNEB. UEBA é o que o vestibulando, costista ou não, grita quando vê seu nome na lista de aprovados!
SEGUNDO: Idelber, obrigado pelo advérbio e pelo complemento a meu comentário. Perfeito!
Claudio Simões em abril 18, 2005 1:39 AM
#25
Jun 17th 2004
From The Economist print edition
Affirmative Action Around the World: An Empirical Study
By Thomas Sowell
Yale University Press; 256 pages; $28
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Affirmative Action is Dead; Long Live Affirmative Action
By Faye J. Crosby
Yale University Press; 352 pages; $30
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HERE are two books on “affirmative action” from the same publisher. One is by a black man, the other by a white woman. Thomas Sowell's “Affirmative Action Around the World” is a delight: terse, well argued and utterly convincing. The best one can say about Faye Crosby's “Affirmative Action is Dead; Long Live Affirmative Action” is that it is less badly written than the average academic tome.
Mr Sowell takes the reader on a fascinating tour of the ways in which the preferential treatment of chosen groups has been applied in India, Malaysia, Nigeria, Sri Lanka and the United States. Some groups singled out for a leg-up are minorities whose members have suffered discrimination in the past, such as American blacks or India's untouchables. To atone for the injustices inflicted on their forefathers, these groups have been granted favours, such as preferential access to universities or jobs. Other groups favoured in similar ways have never been discriminated against, but nonetheless do worse at school and in business than their neighbours. Examples include Malays in Malaysia, who earn less and learn less than their Chinese compatriots, and the Sinhalese in Sri Lanka, who have long lagged behind the Tamils.
Mr Sowell's insight is that regardless of the supposed moral basis for preferential policies, the results are often remarkably similar. Though such policies are supposed to help the poor, their beneficiaries tend to be quite well-off. The truly poor rarely apply to enter university or bid for public-works contracts, and so cannot take advantage of quotas. The better-off quickly learn how to play the system.
Once affirmative-action policies are instituted, their proponents tend to credit them with all subsequent advances by the intended beneficiaries. Mr Sowell shows that this is bunk. Malays, for example, have done better in Singapore, where they do not receive preferences, than in Malaysia, where they do. And in America, black