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quarta-feira, 20 de abril 2005
Resenha: Friedrich Nietzsche, O Anti-Cristo (1888)

Não devemos enfeitar nem retocar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra o homem superior, anatematizou os instintos mais profundos, destilou seus conceitos de mal, de maldade, esta última personificada a partir desses instintos. O homem forte é lá um réprobo, um “degredado entre os homens”. O cristianismo escolheu tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável é a corrupção de Pascal, que acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo! (Nietzsche, O Anti-Cristo).
O último ano produtivo da vida de Friedrich Nietzsche, 1888, foi também o seu mais despirocado. Começou o ano com a crítica radical do racismo wagneriano em O Caso de Wagner. Até o início do ano seguinte publicaria Nietzsche contra Wagner. Entre esses dois marcos escreveu, num prazo de doze meses, mais três cacetadas na filosofia ocidental: O Crepúsculo dos Ídolos, o Anti-Cristo e Ecce Homo. Depois de completar Crepúsculo dos Ídolos, ele abandonou temporariamente a idéia de fazer um livro intitulado Vontade de Potência e concentrou-se naquele que seria seu livro mais incendiário, mais enlouquecido, mais ficcional, de alguma forma: O Anti-Cristo. No prólogo, diria:
Onde quer que a vontade de poder comece a enfraquecer haverá sempre um declínio fisiológico, uma décadence. A divindade dessa décadence, sem suas virtudes e paixões masculinas, é convertida à força em um Deus dos fisiologicamente degradados, dos fracos. Obviamente, eles não se denominam “fracos”; denominam-se “os bons” . Nenhuma explicação é necessária para se entender em quais momentos da história a ficção binária de um Deus bom e um Deus mau se tornou possível pela primeira vez. O mesmo instinto que leva os inferiores a reduzir seu próprio Deus à “bondade em si” os leva a eliminar as qualidades do Deus daqueles que lhes são superiores; vingam-se demonizando o Deus de seus dominadores. – O bom Deus, assim como o Diabo – ambos são frutos da décadence. – Como podemos ser tão tolerantes com o simplismo dos teólogos cristãos, aceitando sua doutrina de que a evolução do conceito de Deus a partir do “Deus de Israel”, o Deus de um povo, ao Deus cristão, a essência de toda a bondade, significa um progresso?
É verdade que o mais importante, capital de seus livros para a história da filosofia foi a Genealogia da Moral (que mostrou que não existe moral, a não ser como historinha contada pelos vencedores da luta política). É verdade que o Zaratustra foi seu mais alegórico e metafórico livro, e quiçá o mais rico como texto. Mas o Anti-Cristo enfurece e enlouquece não só a sociedade cristã, mas toda a sociedade laica e burguesa de sua época.
A concepção cristã de Deus – Deus o como protetor dos doentes, o Deus que tece teias de aranha, o Deus na forma de espírito – é uma das concepções mais corruptas que jamais apareceram no mundo: provavelmente representa o nível mais ínfero da declinante evolução do tipo divino. Um Deus que se degenerou em uma contradição da vida. Em vez de ser sua própria glória e eterna afirmação! Nele declara-se guerra à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus transforma-se na fórmula para todas calúnias contra o “aqui e agora” e para cada mentira sobre “além”! Nele o nada é divinizado e a vontade do nada se faz sagrada!...
O livro é escandaloso porque que inverte violentamente todo o relato cristão: a dó, a piedade, a compaixão, não existem como sentimentos genuínos. São apenas ferramentas da vontade de poder do ser que se quer autorizar como bonzinho. Em outras palavras, segundo Nietzsche o cristão, mesmo em boa fé, legitima seu discurso mentirosamente, acumulando poder ao fingir renunciar a todo poder. Para Nietzsche, o cristianismo seria fundamentalmente uma negação da vida. A obra conclui com a seguinte tábua:
Lei contra o cristianismo
Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).
Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo.
Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.
Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração com um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais duros com protestantes que com católicos, e mais duros com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo você está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.
Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.
Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.
Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.
Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita das palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.
Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui.
Alguns meses depois de escrito o Anti-Cristo, Nietzsche enlouquece em Turim, abraçando um cavalo que era chicoteado na rua. Repetia, literalmente, uma cena anunciada por Dostoiévski vinte e dois anos antes em Crime e Castigo. Quinze anos depois do aparecimento de Crime e Castigo e sete anos antes do enlouquecimento de Nietzsche (e da publicação d'o Anti-Cristo), nascia o futuro Papa João XXIII.
Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post
| Comentários (26)
#1
Quando fiz Filosofia na UFMG, andei estudando e lendo o Fritz. Na época, não me impressionou muito, talvez o achasse mais pitoresco que profundo. Na medida em que fui "crescendo" e me afastando das marcas profundas do Colégio do Caraça - educado por padres lazaristas - minha sensibilidade ao que Nietzsche dizia foi ficando maior. É difícil separar o homem de sua obra (embora pense que a obra supere o homem), e vejo quanta reflexão importante e fundamental o N. fez. Sua racionalidade radical é simultaneament causa e efeito de seu desespero.
Quanto à fé em um deus (qualquer), aí não há racionalidade possível, por mais que Sto. Tomás de Aquino tenha tentado e alguns filósofos mais "modenos" também (Pierre Chardin). Na atualidade, não tenho lido nada de teologia, então, não sei a quantas andam as coisas.
Cláudio em abril 20, 2005 5:21 AM
#2
Uau. Que que te deu hoje, Idelber ??? :)
smart shade of blue em abril 20, 2005 5:43 AM
#3
"El ateísmo y el secularismo deshumanizante -dice Joseph Ratzinger- son las plagas de nuestro tiempo". Gracias, muchas gracias Idelber, por traer a Nietzsche.
Julieta em abril 20, 2005 8:10 AM
#4
Mais adequado, impossível. Melhor, impossível. Salve, grande Idelber. Que este texto seja a pá de cal em duas semanas de vela e incenso. Eu não aguentava mais essa história de papa. E, fiel a Nietzsche, comemoro a escolha de um bulldog de sacristia para o papado. Assim eles caminham mais rapidamente para o deserto de serpentes.
Pena que eu não lembro mais literalmente a frase de Voltaire: "Eu acredito que o homem só será inteiramente livre quando o último padre for enforcado nas tripas do último rei."
Artemus em abril 20, 2005 8:38 AM
#5
Lembrei de um episódio de Kids in the Hall em que descobrem a prova de que Deus existe - no caso, o seu cadáver. Aí o padre (com a cara de pau do Dave Foley) vai para a tevê e diz:
- We have some good news... and we have some bad news.
tiagón em abril 20, 2005 9:29 AM
#6
Nietzche foi antidemocrático também, se opunha a organização do Estado. Tem uma frase "O que quiseres, queira-o de tal maneira que também queira o seu eterno retorne", que diz apenas: Não se disperdisse querendo qualquer coisa, deseje apenas aquilo que você pode desejar eternamente. Complicado? Complicado é saber o que queremos eternamente.
Bom dia! Beijus, Luma
Luma em abril 20, 2005 9:44 AM
#7
Bem oportuna a resenha. E excelente, parabéns.
Beijos.
christiana em abril 20, 2005 10:35 AM
#8
Nietzsche foi um pensador fundamental da civilização, pois questionou os conceitos de dogma, de verdade última, de Deus.
Que ainda exista gente no século 21 com um mínimo de estudo pensando como Ratzinger, realmente blows my mind.
Leila em abril 20, 2005 10:57 AM
#9
Prof. posso dar uma contribuicao ao Biscoito? Desde ontem to me sentindo barata de Kafka...rs...o papa alemao, os dezoito anos da unica filha da Denise (Sindrome de Estocolmo), a lembranca da minha mae. Sei que misturar tanto assunto parece samba de crioulo doido (depois do caso "Grafite" peco licenca a Daniela minha amiga pra fazer mencao que pode parecer jocosa, mas tambem eh muito respeitosa). Bom, vou colocar os "comments". Acho que contribuo com outro angulo da questao. Vai dizer?
1º Comment do dia - INDIGNADA COM O NOVO PAPA.
"O que escrever a respeito do leitor historico de "Mein Kampf"? Tenho sobrenome e avo alemao. Vivi metaforicamente em campo de concentracao, fui conduzida contra minha vontade aos preceitos do III Reich, meu fisico eh ariano ate o ultimo fio de cabelo e minha educacao foi lapidada em colegio de freiras germanicas. Esse ultimo quesito talvez seja o mais fdp*(rs). Minha rebeldia na epoca foi ficar em recuperacao no aprendizado da lingua, que dizem alguns eh otimo pra domar cachorro...rs...bom, respeito a pessoa de Bento 16. Imagino que nao deva ser facil ter nascido na decada de 20(1927) do seculo passado. Claro que a epoca supracitada e condicoes peculiares marcaram sua expressao, postura, conduta. So que a gente observa mil resquicios ao se deparar com tanto equivoco cometido pelo mesmo. Alguem ai eh se opoe a minha afirmacao? O bom velhinho eh datado, mofado, medieval. Sua "carreira" teve como marco nao a conquista do papado, mas a direcao do ex-tribunal de Inquisicao, que escolhia baseado em premissas preconceituosas daquela epoca quem ardia na fogueira, quem nao. Ate hoje eh assim. Aqui mesmo na blogosfera se ve gente se comportando com arroubos e vaidade e cinismo. Pois bem, o mundo ta mudando, lentinho, mais ta. E a resposta do "Quarto Poder" (desculpem se nao sei mensurar a importancia numerica da Igreja Catolica) foi colocar no lugar de John Paul II, um carinha de quinta categoria, que acha que mulher nos dias de hoje so tem como opcao ainda o fogao, que preservativo da inferno, que a Primeira Emenda eh uma maneira de incentivar "solamente" debates difamatorios, que "veado" saiu da prancheta de Walt Disney e se chama Bambi. Ah, me poupem! Claro que faco um esforco descomunal pra nao atrelar minha fe a nenhuma edificacao (leia-se Igreja S.A), mas quem consegue ser livre de ritos, passagens, obssessoes? Quem nao tem no fundinho uma "culpinha judaico-crista" que atire a primeira pedra. So lamento ja estar sentido tao cedo a falta do pap pop, que foi omisso em algumas questoes, mas tinha carisma e boa vontade com os que lhe recorriam e que teve a grata tarefa de presentear os polacos com auto-estima, satisfacao. Ou alguem discorda que a Polonia desempenhou por muito tempo a funcao de fosso alemao? John Paul II veio na epoca certa: pro seu povo e quica pro nosso. Que descanse em paz e que o novo tenha juizo e um pouco de compaixao para com aqueles que sao providos de carne, osso e coracao!
Beijao
PS: Aviso aos catolicos & cia estou aberta a tijoladas, criticas e histeria, mas assim como apanho, bato."
Escrito por Barata de Kafka ou Paula em abril 20, 2005 10:15 AM _______________________________________
2º Comment do dia - DIVAGANDO SOBRE A OPINIAO DA LEILA (Stuck), LEITORA HISTORICA DO BISCOITO.
"Leila, eu iria ficar com vergonha se fosse escolhida pra um cargo, qualquer cargo e meus eleitores fossem um monte de "punheteiros" gaga. Ok, confesso que o paragragro acima maculou as regras da escrita elegante e claro que nao me refiro a todos, sempre tem gente decente, com boa vontade e que se propoe a fazer escolhas sensatas. Tem na vida, deve ter no Vaticano...rs... em tempo gostei da recepcao gelida do povo alemao que literalmente c* e andou pra eleicao. E nao podia ser diferente mesmo. Pouca coisa consegue tirar aquele povo da rotina...rs...
Beijao!"
Escrito por Barata de Kafka ou Paula em abril 20, 2005 10:53 AM
3º Comment do dia - GOD BLESS BIA!
"Vida longa Bia! Ja ouvi tantas descricoes a respeito das delicias e dores de se ter um pequeno mamifero pra chamar de seu, tem gente como a famosa atriz e atual cronista da revista Epoca que toma/tomou (no caso dela) ate daime pra abrir as comportas de femea parideira, tem gente que adota, gente que implanta...rs...mas enfim, se ate Jack N. (o ator hollywoodiano) famoso por farras, bebidas e mulheres (nao nessa ordem claro!) acha que: "crianca eh a unica coisa positiva da natureza" quem sou eu pra nao suspirar.
Nao fui agraciada com um rebento, talvez trilhe na vida como Bras Cubas que nao deixou a nenhum pimpolho seu " o legado de nossa miseria"...rs...talvez faca como Geena Davis e perto dos 50 tenha gemeos. Vai saber? So acho que filho eh a chance que a vida nos da de recontarmos nossa estoria. A segunda chance. A redencao. Claro que tem os famosos vasos que nem mesmo com o mais delicados dos arranjos fica bonito, mas desses a gente espera dias melhores, poe agua, duas pitadas de acucar, deixa na sombra...rs... Pois bem, acho que filho pode ser freio, anseio, esteio, devaneio, uma porrada de coisas, mas tenho certeza que nos tira do pedestal, nos poe normal, nem acima do mal, nem do bem, gente de pele, osso, desejo, erro, acerto. Filho talvez ate nos coloque em sintonia forte com aquela frase otima do poeta americano Walt W. "sou imenso, contraditorio, carrego multidoes dentro de mim".
Posso quem sabe um dia tirar a prova.
Parabens, Bia!
Beijao!
PS: ainda me sentindo barata."
Posted by: Barata de Kafka ou Paula at abril 20, 2005 11:35 AM
4º Comment do dia - RESPONDENDO A MAE DA BIA, DENISE (Sindrome) OUTRA LEITORA HISTORICA.
"Ah, voc acha? Acho que vaidosa vou ser, assim como voc...rs...Olha, minha mae nao tinha vocacao nenhuma. Era linda, inteligente, pianista com recital apresentado em Buenos Aires, Montevideu. Um belo dia largou filhos, marido e se mandou 4 anos pro mundo. Nao sei o que fez, nem permito que minha imaginacao insinue qualquer coisa. Morreu nova, num domingo de Pascoa. Minha madrasta veio prestar a ultima homenagem de braco dado com meu irmao. Eram amigas. Minha mae morreu em hospital psiquiatrico, sem oxigenio. Foi nos ultimos dias obrigada a passar apartamentos, terrenos, dinheiro pros meus avos. Sim, eu tenho avos bandidos. Acho que esse privilegio ninguem me tira. Me sinto orfa nesse quesito. Tem inquerito policial rolando, acoes no ambito civil, tocadas pelo meu irmao. Eu nao assinei procuracao, peticao, nao quero porra nenhuma. Nenhum centavo. Sera que sou ex-advogada, ex-membro da OAB mais boazinha que conheco? Nao. Minha mae morreu sem seguro saude, roubada. Tinha dinheiro e gorda pensao mensal, mas um fdp* como curador - meu avo, sr. seu pai. Fiquei sabendo de tudo 3 dias antes do Dia D, fiz escandalo, chorei, quis internar em hospital particular, nao deu. Durante muitos anos nao falei da minha mae pros amigos e ela foi um hiato na minha adolescencia. Foi internada a primeira vez quando fiz 15 anos. Passei a data chorando. Passava boa parte do tempo tentando provar a todos e a mim mesma que nao tinha herdado os devaneios maternos. Minha familia (os dois lados) se assemelham em muito com a de Thomas Mann...rs...nascer em berco germanico eh carmico. Pois bem. Esse comportamento politicamente correto me levou ao hospital, quase ao necroterio. Depois disso? Dei banana pra muita gente boa, hoje vou ajustando as coisas aqui, ali. Nao me cobro tanto. Me dou ate o direito de ser anonima...rs...e nao abro mao da liberdade conquista. Afinal se der na telha, me permito ate passar a mao na bunda do guarda.
Beijao!
PS: dispenso qualquer "Freud" de botequim que caia na vala comum e me acuse de medrosa no projeto "Kids".
Escrito por Barata de Kafka ou Paula em abril 20, 2005 12:13 PM ______________
Prof. depois dessa mereco um "Biscoito" com cha!
Leitora/Fa em abril 20, 2005 12:33 PM
#10
Heil Idelberger!
Grande post, fantastico, oportuno, tecnico e lucido. Bem, chega de elogios. Me parece que voce tinha ainda mais a dizer e usou esse recurso. Li muita coisa de Nietzche mas o Anti-Cristo nao. Vou conferir. Nada mais up to date. Sugiro um ciclo com tambem os humanistas, os iluministas, Marx, Kant, Heidegger. Por favor nao vamos esquecer de Spinoza, Bergson e Freud. Pelo amor de deus, vamos falar muito de Darwin, Sartre e porque nao Platao, Socrates ou mesmo Epicuro. Vamos falar de tudo menos de pastor alemào, por favor. Por sinal, lendo Umberto Eco por esses dias, ele falava exatamente da Sao Tomas de Aquino e a Summa Theologiae. Em resumo, os dogmas e doutrinas da igreja de hoje sao muito mais duras e inflexiveis que aquelas do seculo 12. Faz pensar. Meu blog nao tem vocaçao para estes debates, Idelber, salve-me. No que eu puder, estamos ai.
Flavio Prada em abril 20, 2005 1:19 PM
#11
Existe um comentário sobre esse livro de Nietzsche que achei bastante interessante, postado no Fórum de Discussão Consciência. A matéria é assinada por um tal de Hírum Nólis. Peço desculpas aos colegas, mas vou fazer a colagem do texto aqui, na íntegra.
Olá a todos! Li em algum lugar alguém citar "O Anticristo" de Friedrich W. Nietzsche. Acho esse livro bastante interessante; concordo efusivamente com parte dele e discordo completamente em outra.
Minha concordância é referente às críticas levantadas contra a hipocrisia praticadas por MUITAS (não disse TODAS) ordens e de muitos que se declaram devotos de uma afirmação cristã, ou depositárias de entendimento cristão perfeito ou garantidor de "salvação". Nietzsche é bastante perspicaz em capturar a soberba travestida em humildade, o cultivo de maneiras que nada são do que expressão da corrupção de coração, a covardia latente, a maquinação de mesquinharias de poder e manipulação, valendo-se tais corruptos do véu de "virtude".
Noutra parte Nietzsche chega a ser um completo obtuso quando se dispõe a analisar a escritura bíblica e faz comentários sobre religião. Um exemplo está no princípio do cap. 20 de seu livro:
"Em minha condenação do cristianismo, espero, firmemente, não cometer injustiça contra uma religião afim com um número de crentes ainda maior: refiro-me ao budismo. Ambas devem ser classificadas entre as religiões niilistas - ambas são religiões da decadência - mas se distinguem uma da outra em um ponto muito importante."
Essa atribuição de niilismo ao Budismo é erro muito comum que os ocidentais alheios ao seu verdadeiro entedimento são prolíficos em anunciar. O atual Dalai Lama e Daisetz Teitaro Suzuki já abordaram as armadilhas pelos quais são enlaçados os ocidentais ao afirmarem niilismo no budismo.
Outro erro grosseiro cometido por Nietzsche é quando aborda o ensino do apóstolo Paulo e o vê como apóstolo exato da ordem "religiosa" que se formou no decorrer do tempo e fermentador dos dogmas estabelecidos. Nietzsche faz uma leitura literal dos escritos, e para quem tem formação intelectual como ele e à crítica ao qual se propõe, é quase imperdoável o erro que comete. Interpreta de forma literal os evangelhos bíblicos, usando às vezes de cinismo na sua discordância. Admira um Jesus humano, tudo é humano, tudo é histórico, e por esse caminho faz leituras de Paulo, e erra estupidamente. Opõe Paulo ao Jesus humano e histórico que o filósofo extrai. Mel Gibson, que se revelou um obtuso fundamentalista, agradece.
Vejamos alguns trechos do próprio apóstolo Paulo para demonstrar o equívoco de Nietzsche.
I- Paulo demonstra inequivocamente que seus escritos não tratam de relações sociais entre seres humanos, mas um tratado psicológico:
"I Coríntios 5:9 'Eu vos escrevi em minha carta que não tivésseis relações com devassos. Não me referia, de modo geral, aos devassos deste mundo ou aos avarentos ou aos ladrões ou a devassos, pois então teríeis que sair deste mundo.'"
É necessário fazer aqui uma advertência. Os termos "homem", "mulher", ou de referência a animais, plantas expressas na Bíblia não podem ser identificados literalmente, como se os livros bíblicos tratassem das coisas ocorridas ou por acontecer neste mundo geológico. Paulo refuta esse modo de proceder, demonstrando sempre uma abordagem psicológica, assim como quando o faz com o "boi" e várias outros temas que constam do que se convenciona chamar de Antigo Testamento, uma arbitrariedade enganadora.
São João da Cruz, que foi consagrado Doutor da Igreja Católica Romana em 1926, nos trechos que já pude ler, passa ao largo das convenções dogmáticas, e adentrado no caminho místico, interpreta-os psicologicamente, tanto os livros antigos como os de Paulo. Pertence ele à ala esotérica; a corrente predominante na Igreja política e histórica é a eXotérica, que não exige um atributo especial nem transformações, basta-lhe a "fé" comum, coisa do qual Nietzsche abominava, e que lhe dou razão. Entretanto Nietzsche olvidou da compreensão esotérica em sua crítica.
II - Fim dos tempos, fim do mundo
Não se tratando as escrituras de tratados geológicos, ou meramente de relações sociais, não se é de estranhar a seguinte afirmação de Paulo:
"I Coríntios 10:11 'Estas coisas lhes aconteceram para servir de exemplo e foram escritas para a nossa instrução, nós que fomos atingidos pelo fim dos tempos'.
III - A Bíblia utiliza-se de linguagem alegórica, afirmação de Paulo:
"Gálatas 4:21 a 26 'Dizei-me, vós que quereis estar debaixo da Lei, não ouvis vós a Lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da serva e outro da livre. Mas o da serva nasceu segundo a carne; o da livre, em virtude da promessa. Isto foi dito em alegoria. Elas com efeito, são as duas alianças; uma, a do monte Sinai, gerando para a escravidão: é Agar (porque o Sinai está na Arábia), e ela corresponde à Jerusalém de agora, que de fato é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém do alto é livre e esta é nossa mãe,...'"
No sentido esotérico, a Jerusalém do alto, ou celestial, designa a Sabedoria transcendental. A Lei acima referida é a Torá. O "Amor" e "Sabedoria" da tradição semítica (judaísmo e cristianismo dos apóstolos), corresponde no Budismo à "Karuna" e "Prajna".
Sendo a Bíblia um escrito esotérico, de linguagem alegórica, exige uma especial atenção também nos nomes que figuram como personagens. Em muitas Bíblias traduzidas perde-se a possibilidade de captar os sentidos figurados em nomes, que é de importância capital para um verdadeiro entendimento, além de que há muitas distorções e inserções que a língua original não expressou.
"Jesus", segundo André Chouraqui - Matyah (O Evangelho Segundo Mateus), deriva de: "Iéshoua', diminutivo de Iéhoshoua', IHVH, significa Yah salvará. O mesmo nome foi transcrito, ao mesmo tempo, como Josué, sucessor de Moshè (moisés), e como Jesus. Como os chiados e os guturais não existem em grego, Iéshoua' tornou-se, Iesou, de onde deriva Jesus. A volta à pronúncia autêntica deste nome lhe restitui aqui sua significação hebraica, anunciadora da salvação."
IV - Deus, o que seja, sem se atentar para a interessante doutrina de Pai, Filho e Espírito Santo, que são convenções surpreendentes para expressar os diversos ângulos de abordagem do Infinito em sua perene transformação, da criatura senciente que experimenta identificação no Criador, e desses entendimentos, Paulo faz uma afirmação, em Atos dos Apóstolos, cap. 17:24 a 28, transcritpo por Lucas, o evangelista. Dá-se em Atenas, onde o apóstolo, abandonando por pouco, mas não de todo, a linguagem figurada e as fórmulas apostólicas, retrata um entendimento do que seja Deus aos atenienses, no centro do Areópago.
"O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, o Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos humanas. Também não é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, ele que a todos dá vida, respiração e tudo o mais. De um só (*) fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra, fixando os tempos anteriormente determinados e os limites do seu habitat. Tudo isto para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: 'Porque somos também de sua raça.'"
(*) Algumas bíblias traduzem por "Por um só homem" ou algo assemelhado, em vez de por "Por um só", mas o fazem sem a permissão do grego, língua-matriz. É uma tradução espúria. São fundamentalistas de imposição do dogma de Adão como o primeiro ser humano. Uso da Bíblia de Jerusalém aqui, o melhor que encontrei, mas ridícula e completamente tendenciosa em algumas anotações.
Entretanto, a Bíblia de Jerusalém é ousada na tradução dos seguintes trechos de Isaías, 45:5-7, no que é acompanhada por "New American Standard Bible - NASB" no mesmo sentido:
"Eu sou Iahweh, e não há nenhum outro, fora de mim não há Deus. Embora não me conheças, eu te cinjo, a fim de que se saiba desde o nascente do sol até o poente que, fora de mim, não há ninguém: eu sou Iahweh e não há nenhum outro! Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isso. (meus grifos)
Bom, enchi muita ligüiça por ora, acho...
Um abraço a todos!!!
Um comentário bem diferente do que a gente costuma ver, sem dúvida. Dá para se ver que existem diversos ângulos de leitura de assuntos controversos. Se a opinião acima for coerente, o que vemos como Cristianismo aí na praça seria um grande engodo.
Tiago Santos em abril 20, 2005 1:32 PM
#12
Acho fraco o comentário, Tiago.
1) Nietzsche era classicista treinadíssimo (seu primeiro livro foi sobre O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, na Grécia clássica), leu os evangelhos no original grego e pode-se "discordar" da leitura nietzscheana, mas sugerir que ele não "entendeu" Paulo é ridículo.
2) segundo a definição nietzscheana de niilismo - derrota dos valores altos da vida, queda no poço da pulsão de nada, de nirvana, de paraíso - o budismo é tão niilista como o cristianismo, sim. Todas as religiões que prometem um "mais além" o são. Pode-se discordar, mas sugerir que Nietzsche não sabia do que falava ao falar de budismo ou dos evangelhos é uma bobagem.
Idelber em abril 20, 2005 1:49 PM
#13
Eu sou cristã e não poderia discordar mais de Nietzsche. O seu texto, entretanto, está primoroso.
Daniela em abril 20, 2005 2:13 PM
#14
Vim outra hora aqui sem muito tempo para ler/comentar. Confesso que fiquei doid's e fumada com um comentário feito, mas tudo bem. Deve ser o cansaço. Graças a "Deus" AMANHÃ É FERIADO! Voltando ao assunto senão vou ser delatada. Sob o meu ponto de vista João XXIII foi o melhor papa e João Paulo II, atrassou um pouco a vida dos católicos. A História contará.
Concordo com Nietzsche quando não aceita esse Deus bíblico. Esse Deus, não é o meu, o meu é mais bondoso. Esse Deus Bíblico é egoísta e mau. A fé pode mover montanhas(?)...Boa noite, Luma
Luma em abril 20, 2005 5:34 PM
Luma em abril 20, 2005 7:48 PM
#16
Nunca consegui passar das 20 primeiras páginas dos Nietzsches que tínhamos em casa quando eu era garota, mas, caramba, depois deste teu oportuníssimo post, vou correndo procurar o bom velhinho na livraria mais próxima. Ecce homo! Um beijo grande procê, querido.
Cora, esse é um livrinho fininho, que se lê como um panfleto alucinado, é muito forte e muito apropriado para os nossos tempos, eu acho que você vai gostar sim :) Um beijo, querida.
Cora em abril 21, 2005 12:21 AM
#17
Caro Idelber, é muito bom falar com você. Vejo que há a pergunta a se fazer, que é: Nietszche, ao fazer leitura de Paulo, empregou interpretação literal, conforme aponta o texto crítico? Eu já li o Anticristo, e estava revendo tempos atrás. Para mim, ele emprega esse tipo de abordagem. Cabe, ou deve-se, interpretar alegoricamente os textos de Paulo? Se isso é possível, como afirma o texto, que diferenças de sentido podemos obter?
Eu não tenho vínculo com a religião manifesta, mas ultimamente me interessei por ler algo a respeito, e percebo afinidade com o apontamento do texto retrotranscrito. Eu também entendo que se deve interpretar alegoricamente os textos de Paulo. Naquilo que pude ler (tenho preguiça pra caramba!), observei uma curiosidade a respeito em outro apóstolo: Pedro, na sua segunda epístola bíblica, adverte para se precaver contra a erronia na interpretação de textos paulinos.
2 Pedro, cap. 3, vv. 15 a 16. "Considerai a longanimidade de nosso Senhor como a nossa salvação, conforme também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada. Isto mesmo faz ele em todas as cartas, ao falar nelas desse tema. É verdade que em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras, para a própria perdição."
O filósofo Ken Wilber discrimina dois conceitos - religião restrita e religião profunda. O ser humano é dotado de psique sujeito a vários estágios de desenvolvimento, hierárquicos. Em escala crescente verticalmente, Ken Wilber estabelece assim a estrutura básica da consciência:
1) sensório físico;
2) fantástico-emocional
3) mente representacional
4) operacional concreto
5) formal-reflexivo
6) visão lógica
7) psíquico
8) sutil
9) causal
10) não-dual
Os estágios 7 a 10 compreendem a faixa transpessoal, e conforme Wilber, poucas pessoas - homens e mulheres - atingiram esse estágio na nossa história.
Em "Uma Teoria de Tudo", Wilber entende que
"A religião restrita é, num certo sentido, simplesmente a visão de mundo de qualquer estágio de desenvolvimento. Existe uma religião púrpura, uma religião vermelha, uma religião azul, uma religião laranja, uma religião verde e assim por diante. A religião restrita tenta oferecer sentido e consolo ao eu, em qualquer nível. (A religião profunda, por outro lado, tenta mudar os níveis conjuntamente levando o eu – temporária e permanentemente – aos reinos psíquico, sutil, causal e não-dual. Essa é a diferença entre a religião legítima e a autêntica, como descrito em “Um Deus Social”.)[As cores mencionadas por Wilber são da Dinâmica em Espiral, um sistema de desenvolvimento humano, de Cowan e Beck]
“Estamos nos referindo à religião restrita quando dizemos que alguém adotou uma religião ou acredita em alguma coisa “religiosamente” – a crença não precisa ser religiosa em seu conteúdo, mas simplesmente ser abraçada com fervor.” ...
Citando exemplos de religião restrita:
”a religião púrpura inclui algumas formas de vodu e a crença em palavras mágicas. A religião vermelha é uma religião de crenças míticas arquetípicas, com ênfase no poder mágico de figuras arquetípicas (Moisés dividiu o mar Vermelho, Cristo nasceu de uma virgem, Lao-Tsé tinha 900 anos de idade quando nasceu, etc.). A religião azul é a religião da lei e da ordem, de uma estrutura de afiliação mítica que une pessoas por meio da obediência a uma grande Ordem ou Outro; ela é autoritária, rigidamente hierárquica e usa a culpa como arma de controle social (Os Dez Mandamentos, os Anacletos de Confúcio, grande parte do Alcorão, etc.) mas ela estende seus cuidados a todos os que aceitam as crenças míticas (enquanto todos os outros que não as aceitam são condenadas ao fogo eterno).
A religião laranja é a religião do positivismo e do materialismo científico; seus seguidores acreditam nessa visão de mundo tão religiosamente quanto qualquer fundamentalista e têm seus próprios inquisidores céticos, que ridicularizam e atacam as visões de mundo de qualquer outro nível... ... Mas a religião laranja também é o começo da crença na igualdade de direitos para os indivíduos, independentemente da raça, da cor, do credo ou do sexo. A religião verde vai além e defende a gentileza e a solicitude a todas as almas e sensibilidade com relação a todos os habitantes da Terra (muito embora ela se transforme em algo muito pernicioso – o “malvado meme verde” – para aqueles que não compartilham sua crença nas idéias politicamente corretas).
A religião de segunda ordem é a religião do holismo, da unidade cósmica e do padrão universal. ... Indo além até mesmo dessa ‘crença’ integral na unidade cósmica, a religião psíquica é a ‘experiência verdadeira’ dessa unidade cósmica (um tipo de misticismo da natureza). A religião sutil é uma experiência direta da Base divina dessa ordem cósmica (misticismo da divindade). E a religião causal é uma experiência direta da natureza radicalmente infinita e inqualificável dessa Base (misticismo sem forma).
A religião restrita constitui-se simplesmente de crenças, práticas, costumes, experiências e tradições que auxiliam o indivíduo a traduzir a abraçar a visão de mundo de qualquer onda; enquanto a religião profunda envolve práticas, técnicas e tradições que ajudam o indivíduo a se transformar e a atingir as ondas transracionais e transpessoais (a psíquica, a sutil, a causal e a não-dual; por qualquer outro nome, alma e espírito).”
Voltando ao Pedro, como ele mesmo advertiu, as Escrituras se prestam a “perdição”, por conta de ignorantes e vacilantes. O “fim dos tempos” testemunhado por Paulo, conforme trecho do texto anterior, não é erro de tipografia. Conforme minhas próprias interrogações, Paulo assevera doutra forma essa passagem. Foi dito naquele texto que a “Jerusalém do alto” significa Sabedoria Transcendental. No polêmico Apocalipse de João, após toda a narrativa das tribulações, vê-se, no cap. 21, “um céu novo e uma nova terra”, e também a descida da “Jerusalém do alto”. Ora, essa mesma Jerusalém já é vivenciado como “mãe” pelo Paulo, citado no cap. 4 de Gálatas, conforme consta do texto anterior. Que bom sabermos que “o fim dos tempos” não é um evento histórico de realização positiva exterior.
É interessante observar como os antigos não visavam a “Crucificação de Cristo” como um fato histórico, um acontecimento a ser lastimado, vivenciado por um ser humano e necessitar recriminar quem quer que fosse. Esse simbolismo tem passagem explicativa surpreendente na Epístola de Barnabé, na parte doutrinária, composto provavelmente no séc. II e reencontrado no séc. XIX. Com a descoberta de parte de muitos documentos antigos, pode-se reconstituir um pouco do entendimento daquela época, muito diferente dos dogmas que, hoje, são muito criticados.
É bastante válida e útil a distinção e estudos feitos por Ken Wilber. Os antigos apóstolos visavam a prática da “religião profunda”, e o que vemos hoje, infelizmente, é a vivência na prática do cidadão comum da “religião restrita”. Em seu derredor, essa é a prática que se lhe dispõe, e na história até se lhe obrigou/obriga esse adestramento.
Eu não posso deixar de ter admiração pela grande riqueza que se entranha na alma de todo ser humano, seja Hitler ou Gandhi, mas que, infelizmente, somente poucos hoje têm trazido à luz, vivenciado e gozado as altas esferas do espírito humano.
Não há para mim, ou não deveria haver, na minha percepção íntima, cristão ou muçulmano no sentido comum; pode o ser humano se arrogar os signos, sem entender, entretanto, os símbolos. Pronunciar o nome de Jesus (também denominado Emanuel – Deus conosco), é traduzir na vida diária a vivência da alma na Unidade do Ser. Não é uma “religião” no sentido comum, mas o ser humano liberto para o seu Eu Transcendental – Cristo/Linguagem ocidental, ou Buda/Atman/Linguagem Oriental. Diz-se, por isso, ser preferível que se arranque o olho que ofende e entre com um só no Reino. É orientação para se evitar a dualidade/cisão intelectiva que predomina no senso comum e alçar-se para a Unidade. A dualidade “ofende” a nossa verdadeira natureza, que é divina. A dualidade impede o homem da tranqüilidade profunda, da verdadeira liberdade, do vivenciamento da potência do divino. Como disse Paulo, em Efésios, cap. 4, vv. 4 e 5: “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por meio de todos e em todos.”
No “findar do mundo” e em conseqüência a “vinda do Filho do Homem”, diz-se que “estarão dois homens no campo”, “um é tomado e outro é deixado”. Significa isso que, aquilo que sempre houve, mas permanecia encoberto – Eu transcendental, só esse permanece para deleite da alma e tem sua natureza desvelada e, o outro, a trave que nos cega, é destituído da governança – ego relativo. É o ocaso da Dualidade. Coisas de transformação da consciência!
A Bíblia é extremamente rica e têm muitas coisas não apreendidas por conta do seu estilo hermético. Suspeito, para não dizer que tenho certeza, que em quase todas as coisas a ciência ainda engatinha. A Psicologia do Desenvolvimento é muito recente. Noutra parte que toca os segredos bíblicos, relativa à funcionalidade da parte inconsciente, a ciência é às vezes ridicularizada e intimidada de se debruçar.
É certo que o estilo bíblico e alcorânico permitiu/permite margens para os maiores abusos, catástrofes e licenciosidades, isso por conta da própria onda de consciência que lida com o assunto, temperado, não poucas vezes, com malícia de perversidade. Se os autores bíblicos soubessem no que seus manuscritos redundariam nesses últimos milênios! Quando a humanidade superará isso e poderá extrair a verdadeira sabedoria dos antigos, decifrá-la no seu verdadeiro contexto, e impedir que resulte mais sofrimentos humanos, culpas neuróticas, liberando o homem para a manifestação plena do divino que encerra em si? E superar naquilo que a evolução incorpora?
Nietszche tem parte da razão em sua crítica, visou efetivamente a “religião restrita”, que abarca particularmente quase toda a comunidade, mas não compreendeu a “religião profunda”, embora ele tenha uma importância grandiosa no pensamento humano. Tem minha profunda estima pessoal.
Sorry a todos pelo meu destemperamento. Que trem descarrilou aqui!
Tiago Santos em abril 21, 2005 12:40 AM
#18
"Sempre há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura."
E eu digo: há um pouco dos 3 em mim.
Lou Salomé em abril 21, 2005 12:48 AM
#19
1- O que gosto em Nietzsche é que ele apresenta a necessidade do homem, em sua busca ética, estar sobre o domínio de si próprio, impulsionando afirmativamente (é ele quem fala sobre encontros positivos e negativos, não? Ou era Espinoza?) sua potência de agir. Mas para dizer a verdade, tenho uma certa resistência a lê-lo; do que li, fiz por obrigação e sem prazer.
2- Seu post me fez lembrar um professor maravilhoso que tive, Gilvan Folgel: na universidade havia um certo "ciúme" ou briga por espeço entre os "lógicos" e os demais. Pois o Gilvan conseguia, digamos assim, "pairar acima do bem e do mal":) Foi ele quem teve a iniciativa por exemplo de discutir "Crime e castigo" num Clube de Leituras informal, pelo simples prazer de ler e trocar idéias, sem valer notas ou qualquer critéio de aprovação para a faculdade. Foi com ele tb. que tive aulas maravilhosas sobre Heidegger: ele trazia Guimarães Rosa para destrinchrmos o Ser e o Tempo.
3- Na verdade, fujo do assunto seu post, pois agora estava pensando sobre a a Uni aqui e a do brasil: preciso dizer que na verdade estamos muito bem em termos de recursos humanos; pena que nos faltem tantos recursos materiais como os que eu encontro aqui na Áustria. Não sei se onde vc leciona é assim, pode ser tb minha culpa por ainda estar na superfície das coisas aqui (literalmente boiando), mas sinto falta do pensamento crítico e original nos meus novos professores. A exceção até agora, é um professor mexicano, Garcia Alvarez, os outros se limitam a"ditar matéria". Que coisa, ne´?
Felicia em abril 22, 2005 4:32 AM
#20
Salve, Idelber! Que blog excelente você tem! Descobri você pelo Milton Ribeiro, e estou fascinada pela qualidade do conteúdo dos posts. Volto, com certeza. O assunto me interessa. Abraço grande.
adelaide em abril 23, 2005 9:51 PM
#21
Nunca consegui "engolir" ou melhor, "digerir" esse tal de Nietzsche. Apesar dele ser um dos "ídolos" dos ateístas e muderninhos, acho ele pedante...chato...metido a ser dono da verdade...Trocando em miúdos, o homem era um verdadeiro pé-no-saco. Posso estar sendo injuta e talvez grande parte dessa má impressão contra o filósofo se deva ao fato de que o primeiro livro dele que me caiu nas mãos para ler foi Ecce Homo. Achei o livro um tédio, com todas aquelas afirmações sobre ele e seus escritos serem isso ou aquilo...Confesso que não consegui passar da página 43 (e olhe que eu sou pessoa de não abandonar leituras pela metade). Eu tinha 17 anos e já naquela época pensei: "Putz, esse cara é louco, um megalomaníaco. Não dá...!" Um pouco frustrada em meus desejos, encostei o livro e nunca mais tive vontade de lê-lo. Tipos como Nietzche não me "descem pelo esôfago", nem mesmo em forma de boa literatura..." :)
Depois soube que no fim de sua vida o cara pirou da batatinha e quase fez amor (em plena rua) com um cavalo que estava sendo chicoteado.
Acho lindo uma pessoa se comover com o sofrimento dos animais, mas fico pensando se ele não deve ter imaginado em seus delírios que o bicho era uma das mulheres que conhecia. Afinal um homem que escreveu em uma de suas obras o seguinte ditado: "Se você vai procurar mulheres, não esqueça o chicote", certamente não regulava muito bem da cachola. Sei que como todo "maluquinho" ele era um contestador, um provocador mor, mas se acreditava realmente que as mulheres deveriam ser tratadas a base de chicotadas, bem que mereceu beijar um cavalo na boca...
amei o comentário! volte mais vezes .
LOKa em abril 24, 2005 3:45 PM
#22
Olá!
Somos um espaço virtual dedicado à promoção da cultura brasileira e estímulo ao pensamento crítico entre os jovens que acessam nosso site. Estamos sempre em contato com novos colaboradores afim de reunir cada vez mais conteúdo dentro do conceito do site. Se estiverem interessados em participar, poderíamos criar uma coluna dentro da parte de literatura com o nome do blog de vocês, e dentro das matérias colocaríamos um link para puxar até esta página. Atualmente temos uma média mensal de 5000 acessos e contamos com quase 30 colaboradores do Brasil inteiro.
Esperamos retorno!
Parabéns pelo blog, muito bom!
Leo Almeida
e EQUIPE ELETROLITERÁRIA
ELETROLITERÁRIA em maio 3, 2005 11:07 PM
#23
acredito que Nietzsche chegou conclusão que o cristianismo era apenas uma farça, dado o fato que a propria hgistoria demonstrou que toda sua teologia ficava apenas no discurso e não na prática, teologia sem pratica é discurso falso, daí ele afirmar que o ultimo cristão morreu na cruz, pois se analisarmos perceberemos que será difícil alguém de fato praticar tudo aquilo que Jesus praticou, temos que ser coerentes com nós mesmos
Oseias Silva em maio 4, 2005 1:55 PM
#24
Gostaria de saber mais sobre essa arte que tanto me fascina...
Marcelo em maio 12, 2005 10:08 PM
#25
Para mim ler Nietzsche é se despojar de preconceitos, é le-lo e rele-lo, refletindo sobre cada palavra dita por ele no auge de seu talento como escritor que sabe o que quer passar e não teme opiniões feitas por pessoas que não conseguiram se libertar de visões restritas de um mundo que tenta a todo momento nos asfixiar com tamanho domínio sobre nossos próprios pensamentos e opiniões.
Viver é se desvincular da dominação tirânica de quem se recusa a pensar.
Mariana Morais em setembro 27, 2005 11:58 AM
#26
Eu acho que o LULA é o anti CRISTO,Na bíblia diz que a verá 10 pontas e 1 dela será menor que as outras.Na bíblia pontas significa reis e nos dia de hoje presidente está em Daniel
Jack Smith em outubro 28, 2005 1:36 PM