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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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terça-feira, 31 de maio 2005

Drops

1. Já é oficial, então posso anunciar: o 6º Salão do Livro de BH, que acontece de 11 a 21 de agosto deste ano, incluirá no dia 12, sexta-feira, uma mesa sobre blogs e literatura (não, não será aquele velho papo de se blog é literatura, não). O Salão, junto com o Biscoito, estenderá o tapete vermelho para receber dois paulistanos muito especiais: Alexandre Inagaki e Fal Azevedo comporão comigo essa mesa no evento. Promete-se transmissão ao vivo e outros babados. Dizem que um certo grande pandeirista aparecerá. Quem é de BH está intimado a aparecer. Quem não é daqui e quiser visitar, é ótima época. Vem Afonso Avila, vem Silviano Santiago, vem Millôr Fernandes, vem muita gente boa.

2. Da série livros maravilhosos que me esperavam aqui em BH: obrigado ao poeta mario cezar coivara pelos dois volumes, coivara e maturi. Poeta extraordinário mesmo, que eu admiro e desde sempre linko no Biscoito. Em maturi, diz coivara:

porque não descansarei
enquanto a doutrina da água
não entregar o prefácio do beijo

Missiva recebida com gratidão, poeta. Em breve, resenha mais detida da poesia de coivara. Enquanto isso, visitem o blog.

b. obrigado à caraqueña Prof. Teresa Cabañas por um livro precioso, A Poética da Inversão: representação e simulacro na poesia concreta (Goiânia, 2000). Desde o ano em que o Coritiba foi campeão brasileiro, a Prof. Teresa é nossa co-cidadã aqui na pátria amada. Pós-graduou-se na Unicamp e hoje é professora da Federal de Sergipe. Honra-nos, estudando e lecionando a nossa literatura. Obrigado pelo livro, Teresa.

c. De Victoria Howitz, da Fundación Antorcha, República Argentina, eu agradeço esse livro alucinante que é a Antologia Bilíngüe Puentes / Pontes (Fondo de Cultura Económica, 2003), de poesia brasileira e argentina contemporânea. Não dá para começar a descrever esse livro. Comprem! 20 brasileiros e 20 argentinos, todos em ambas as línguas. Do Brasil, feras como Cacaso, Ana Cristina César, Leminski, Wally Salomão. Da Argentina feríssimas como Perlongher e Pizarnik. Imperdível. Obrigado, Victoria.

d. falando de Argentina, chegam à BH os livros do visitadíssimo Daniel Link. Linkillo é o blog não-brasileiro que mais manda leitores ao Biscoito. Thanks, bro.

e. de Michael Bérubé chega o pagamento da aposta do torneio universitário de basquete. Maravilhoso livro de Michael sobre a experiência com Jamie, seu filho que tem síndrome de down, e uma bela antologia de ensaios sobre estudos culturais. Thanks for being gracious in defeat, bro.

3. Ajude o Mauro Amaral, gente finíssima do Carreira Solo e designer do selinho do Decálogo dos Direitos do Blogueiro, a ganhar um iPod. É só cadastrar-se nesta promoção do Buscapé.

4. Reforma Universitária: O intenso calendário com meus filhos e com o trabalho acadêmico ainda não me permitiu ler muito mais além do próprio texto do projeto de Reforma Universitária. Ainda há algumas leituras que quero fazer. Mas sabem? eu sou muito amigo e velho compadre de uma das pessoas mais top no referente à educação superior no Brasil hoje, a Reitora da UFMG, Presidente do Conselho de Reitores do Brasil (e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Lula) Dra. Ana Lúcia Gazzolla. Ainda não procurei Ana Lúcia por puro respeito ao alucinante horário que ela tem hoje (que inclui regulares aparições no Jornal Nacional, reuniões com o Ministro, e tal). Mas até papear com Ana Lúcia não emitirei opinião sobre a Reforma. Ela tem suas razões para ser contra as cotas, eu tenho minhas razões para ser a favor; e quero escutá-la. Mas pelo que li da Reforma, até agora, ela me parece epidérmica. Nada ali é ruim necessariamente, mas nada altera muita coisa. É uma primeira impressão.

5. Nesta quarta-feira, a partir das 8:30, no Glutões (da Cidade Nova, rua Júlio Otaviano 500 e pouco), vamos nos reunir para a cervejada o Biscoito, o NCC e Monicomio e amigos. Estão convidados todos os blogueiros de Belo Horizonte, viu? Se algum louco quiser dirigir um FIAT de Sampa até aqui para nos ver, maravilha.

6. Patrocinado pela Funarte e pela Petrobrás é o Projeto Pixinguinha, que passeia pelo Brasil divulgando a obra do Maior de Todos com três grandes instrumentistas: Antúlio Madureira, Lia de Itamaracá e Roberto Mendes. A brincadeira viaja pelo Brasil mas começa hoje, em BH, às 21 no Teatro Alterosa. Quem sabe a gente atrasa a cerveja um pouquinho?

7. Está cancelada até segunda ordem a Fenomenologia da Fumaça. Cansei de escrever toda semana sobre isso. Ando segurando a onda razoavelmente bem.

8. Está impagável o post do Cardoso sobre o Miss Universo. Êta blog bom.

9. Neste fim de semana assisti seis partidas do Campeonato Brasileiro. Estou horrorizado. Equipes medíocres, violentas, sem criatividade no meio-de-campo, funcionando na base do chutão e do chuveirinho, inúmeros passes errados, arbitragens horrendas, tudo sem inspiração. Enquanto isso, claro, Ronaldinho Gaúcho e Kaká encantam a Europa.

10. Depois de uns 22 anos lendo a Folha, o meu jornal diário passou a ser o Globo. É uma decisão que vem amadurecendo já há umas semanas. Isso não quer dizer que eu deixe de olhar a Folha (ou o NYT ou o Página 12). Mas o meu jornal de todo dia passou a ser o Globo. Estou curtindo a variada.


PS pós-cervejada: Foi deliciosa a reunião de blogueiros de BH. Batemos papo como se fôssemos velhos amigos. O relato e as fotos do encontro estão lá no Prás Cabeças.



  Escrito por Idelber às 22:13 | link para este post | Comentários (32)



segunda-feira, 30 de maio 2005

Belo Horizonte

Eu tenho por Belo Horizonte esse amor cheio de idealizações que é próprio dos expatriados. É curioso chegar aqui anualmente e renovar esse amor com rituais que beiram o patético: ir à Praça da Liberdade comer uma coxinha de galinha com guaraná; ir ao Mineirão ver um jogo (não, eu não fui ver o vexame do Galo ontem; preferi passar o dia com meus filhos, decisão muito sábia); ir ao Santa Tereza e redescobrir que ainda há lugares onde as pessoas passam 8 horas numa mesa de bar, bebendo e cantando até o amanhecer. É difícil explicar como é, para um expatriado, descobrir o que já se sabe, ver o velho com olhos de novidade. Estar de volta no Brasil, estar de volta em Minas.

É curioso porque, analisando-se friamente, Belo Horizonte não é uma cidade das mais fascinantes. Não tem praias e hospeda a população mais obcecada com praia que há no mundo. Você quer falar de praia, tecer teorias sobre a praia, chame um mineiro. Você escutará as teorias mais insólitas.

Bonita a cidade não é, com certeza. Porto Alegre, por exemplo, é muito mais chamativa plasticamente. O trânsito de Belo Horizonte é o pior que eu conheço, e olha que eu já viajei por este mundo (sempre que digo isso, meus amigos paulistanos exibem o comprimento dos seus engarrafamentos e o tempo que passam no trânsito; em números absolutos, eles têm razão, mas acreditem: São Paulo não chega aos pés de BH em caos por centímetro quadrado).

BH é um arraial planejado para existir dentro de uma avenida circular, a Contorno. A cidade se espraiou loucamente em todas as direções e transbordou a Contorno por dezenas de quilômetros, mas continua existindo como se fosse o velho arraial. Enquanto que é perfeitamente possível, por exemplo, viver em Copacabana de forma relativamente auto-suficiente, em BH todos os cinemas, teatros, repartições públicas e tudo o mais continuam localizados dentro da Contorno. Todo mundo tem que ir ao centro por algum motivo. O centro é um aglomerado de ruas estreitas, planejadas para abrigar o movimento de uma população de, no máximo, uns 200.000. O resultado é que 3 milhões de pessoas vivem aqui em convergência permanente em direção a um espaço onde elas não cabem. Dirigir no centro de BH é das experiências mais enlouquecedoras que pode passar um ser humano.

De onde vem, então, o fascínio? BH combina, de forma singular, o cosmopolitismo e o provincianismo. Cosmopolita, cheia de opções culturais, BH mantém algo do velho Curral d’el Rey: os mineiros dão informação, por exemplo, como se ainda estivessem no arraial. Tudo é logo ali. Tudo tem uma certa intimidade que não noto nem mesmo em cidades menores, como Curitiba ou Fortaleza.

O salto cultural dado pela cidade nos últimos anos foi impressionante. Eu sou muito crítico do governo federal, mas há que se reconhecer que as sucessivas prefeituras petistas belo-horizontinas (em coalizão com o PSB e o PC do B) têm sido notáveis. BH é hoje a capital internacional do teatro de bonecos. É conhecida mundialmente pelos seus eventos de teatro de rua. Acontecimentos como o Salão do Livro e o Comida de Buteco continuam atraindo multidões anualmente. A cena musical continua tão rica como sempre foi, mas muito mais estruturada e com melhores canais de comunicação com a população. À pilhagem das igrejas evangélicas sobre os cinemas seguiu-se uma proliferação de cineclubes que fazem que a oferta de cinema hoje seja ainda melhor do que era quando a cidade possuía suas salas de cinema clássicas. Os bairros periféricos fervilham de atividades culturais inovadoras.

Há tempos escrevi um post, ainda no velho UOL, que diferenciava cidades-véu de cidades-vitrine, cidades que o abraçam quando você chega e cidades que exigem um guia. BH pertence a esta última categoria. Chegar aqui e zanzar ao léu, como é possível zanzar em NYC ou no Rio, é decepção na certa. A cidade não se oferece a você e não o seduz, como Salvador. Você tem que seduzi-la.

Tudo aqui é cheio de recovecos. As pérolas estão escondidas. Mais ou menos como na psicologia do mineiro, a melhor parte é a que se esconde atrás do véu e que só se descobre com o tempo.

É muito intensa a experiência de renovar esse laço com a cidade.



  Escrito por Idelber às 01:00 | link para este post | Comentários (38)



sexta-feira, 27 de maio 2005

Seleção Brasileira x Clubes

A partir de qual jogo os confrontos da seleção de futebol contra clubes brasileiros passam a ser proibidos, ou pelo menos fortemente desaconselhados pela antiga Confederação Brasileira de Desportos? Quando e onde ocorreu esse histórico embate? Qual foi o resultado final e qual dos gols dessa partida foi anotado em situação irregular? Se alguém souber a escalação das duas equipes, claro, aí fica mais bonito ainda.



  Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post | Comentários (16)




Baião e Bossa Nova, gêneros mineiros

gonzaga.jpg

Há um estranho e bairrista professor que defende a insólita tese de que a bossa nova na verdade não nasceu no Rio e que o baião não nasceu nem no Nordeste nem no Mangue carioca. Ambos são, na verdade, gêneros cujos momentos fundamentais de constituição acontecem em Minas Gerais. Tirando seu exagero, por que não seria incorreto dizer que o nascimento da bossa nova e do baião passam por Minas Gerais, apesar de que isso quase nunca se menciona? Quando e como passam esses gêneros por Minas nos momentos imediatamente anteriores ao seus nascimentos?



  Escrito por Idelber às 03:58 | link para este post | Comentários (12)




Seleção mineira dos últimos 30 anos

Dida, Nelinho, Vantuir, Luisinho e Paulo Roberto; Cerezzo, Palhinha e Paulo Isidoro; Ronaldinho, Reinaldo e Éder.

Discordâncias?



  Escrito por Idelber às 03:56 | link para este post | Comentários (11)




Um jogador do Bahia que cometeu suicídio

Um jogador do Bahia uma vez cometeu suicídio depois de um clássico contra o Vitória, por um motivo relacionado a algo ocorrido na partida. Quando aconteceu esse jogo e o que ocorreu nele que levou esse jogador a suicidar-se? É das histórias mais insólitas que eu já ouvi sobre o futebol brasileiro.



  Escrito por Idelber às 03:55 | link para este post | Comentários (4)




Exercício de memória política no condicional

lula-comicio.jpg

Como sabe quem lê este blog, seu autor foi militante do PT durante muito tempo e lamenta muito que Lula não tenha sido eleito em 1989, na eleição em que Fernando Collor de Mello, com inestimável ajuda extra-campo, ganhou a parada. Naquele momento o PT previa posição dura contra o sistema financeiro internacional, pesada taxação do capital especulativo e outros elementos de um programa bem mais radical que o de hoje. O que teria sido do Brasil se Lula , não em 2002 ou 1998 ou 1994, mas em 1989? Caos? A mesma coisa? Algo muito mais interessante? O mundo seria hoje o mesmo?



  Escrito por Idelber às 03:51 | link para este post | Comentários (7)




Filósofo esloveno Slavoj Žižek sobre o ciúme

“Mesmo que as alegações do marido ciumento – de que a sua mulher anda indo para a cama com outros homens – sejam completamente verdadeiras, isso não muda nada no fato de que o seu ciúme é uma estrutura patológica. O ciúme é paranóico e patológico independentemente da veracidade da suspeita, eis aí um dos ensinamentos da psicanálise de Jacques Lacan”.

(Slavoj Žižek)



  Escrito por Idelber às 03:46 | link para este post | Comentários (3)




Animais na Seleção Canarinho

bicho.jpg


Já vestiram a camisa da seleção brasileira, desde as priscas eras, pelo menos 14 jogadores conhecidos por apelidos que são nomes de bichos. Quais são eles e em que época jogaram pela seleção?



  Escrito por Idelber às 03:44 | link para este post | Comentários (13)




Quem Disse?

1. “Treino é treino, jogo é jogo”.
2. “Não me venha com a problemática que eu não tenho a solucionática”.
3. “O pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”.
4. “Quem tem que correr é a bola”.
5. “Já acabou? Que campeonato curtinho essa tal de Copa do Mundo!”


(a frase número cinco não é uma citação exata, mas é uma reconstrução bem aproximada, feita de memória)



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (5)




Seleção gaúcha dos últimos 30 anos

Manga, Arce, Figueroa, Anchieta e Paulo Roberto; Batista, Falcão e Paulo César Caju; Ronaldinho Gaúcho, Dadá Maravilha e Mario Sérgio.

Discordâncias?



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (9)




Galo x Corinthians

galo1.jpg

Eu não sei onde vocês vão estar no domingo às 15 horas, mas eu estarei na Churrascaria Farroupilha, na subida da Abraão Caram, entrada do Mineirão. Atleticanos da Sagrada Família, da Zona Leste e amigos da Galo Metal - confirmada a esquentada dos tamborins para o jogo contra o Curíntia.

Aproveitando a ocasião, fica a pergunta:

Qual foi o primeiro jogo entre Galo x Corinthians? Quando e onde aconteceu? Que ocasião ele marcava, ou seja, por que esse jogo é especial? Qual foi o placar final? Vamos ver quem aparece com as respostas e alguns detalhes sobre esse jogo histórico.



  Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post | Comentários (2)



quinta-feira, 26 de maio 2005

A mais nova crise do governo Lula

O governo Lula enfrentou nesses últimos dias mais uma crise de gerenciamento político no parlamento. Depois de um flagrante envolvendo Maurício Marinho, indicado do PTB de Roberto Jefferson para os Correios, a oposição – previsivelmente – passou a levantar a bandeira de uma CPI para apurar as denúncias. A forma como a direção petista lidou com o problema foi um festival de bateção de cabeças.

Eu não tomo a existência dos Waldomiros Diniz e dos Maurícios Marinho como prova de que “político é tudo igual” e que “o PT é igual aos outros”. Não necessariamente. O que se espera de um governo não é que jamais haja um caso de corrupção no primeiro, segundo ou terceiro escalões. O que se espera é que, uma vez substanciada uma denúncia, a apuração seja feita. Se a oposição se apóia num "denuncismo", a melhor maneira de combatê-lo é efetivamente investigar as denúncias reais (e neste caso havia muito mais que uma denúncia: havia provas).

Se o PT tivesse tomado a iniciativa da CPI ou da apuração, ele teria esvaziado a iniciativa da oposição, e de quebra teria se fortalecido para as negociações com o PTB dentro da base do governo. Escolheu o caminho que era, ao mesmo tempo, o menos ético e o mais burro. A direção petista tem usado o argumento de que a oposição quer desestabilizar o governo – o que não deixa de ser verdade – para implementar um projeto autocrático de partido. Justificam absolutamente tudo com o fantasma da volta da direita. Justificam, inclusive, a adoção de métodos que já não os diferenciam da direita.

Depois da aprovação da CPI, ontem no congresso nacional – para a qual contribuíram suas assinaturas 19 deputados petistas e um senador, Eduardo Suplicy – o PT já fala em punição dos rebeldes. Ou seja, o partido que até pouco era considerado o repositório ético da política brasileira pensa em punir parlamentares porque eles apoiaram uma proposta de CPI para apurar uma comprovada cena de propina no governo. Parece inacreditável. O PT no qual eu militei ao longo da década de 80 teria se envergonhado dos episódios desta semana. A Folha de hoje noticia:

A cúpula do PT decidiu que tratará os deputados federais que mantiveram a assinatura no pedido de criação da CPI dos Correios como "bancada paralela", dando início a um processo de punição que pode resultar num novo expurgo de rebeldes do partido. Segundo a direção petista, 8 dos 19 petistas que aderiram acabaram recuando. Sobraram 11, número considerado alto -mais de 10% da bancada de 91 deputados.
Em relação ao senador Eduardo Suplicy (SP), que anunciou que assinaria o pedido de CPI depois de a bancada ter decidido em reunião de manhã que não endossaria a investigação, a cúpula do governo espera que ele desista de concorrer a senador pelo PT. (...) Os 11 deputados que mantiveram o apoio serão internamente responsabilizados pela cúpula do PT como os principais responsáveis pelo fracasso do esforço para retirar as assinaturas. O governo avalia que foi mais ou menos esse o número de assinaturas que não conseguiu reverter.

A política econômica conservadora e o gerenciamento político autoritário e autocrático são minhas duas críticas recorrentes ao governo. No episódio da tentativa de abafa da CPI dos correios, esse gerenciamento político equivocado chegou a um cúmulo de ruptura com os princípios históricos do PT.

Ao tentar construir a base de sustentação do governo no parlamento, o PT em nenhum momento jogou com o notável mandato popular que Lula recebeu em outubro de 2002. Ao buscar maioria a qualquer custo, acharam que estavam entregando os anéis e, quando se deram conta, os dois braços já haviam ido. No início do mandato, a coalizão PT-PL poderia ter construído um marco bastante sólido de governabilidade, mesmo considerando o fato de que só possui 100 e poucos deputados. Como? Usando politicamente o mandato popular para pressionar o Congresso, para colocar os deputados mais fisiológicos na posição de ter que ceder e votar os projetos de interesse do governo, sob pena de ser execrados pela população e perder a boquinha na próxima eleição. Quando nós, na época na esquerda do PT, falamos da importância de partir do imenso apoio a e admiração por Lula entre a população para negociar no congresso, a tropa de choque delúbica-genoínica se recusou a conversar e veio nos dar aulas de "realismo". "Ingênuos! Não sabem que é necessário negociar? Não sabem que o mundo é mais complicado que os sonhos de vocês?", eram e são as caricaturas usadas para desqualificar as críticas à grotesca política parlamentar adotada pela administração Lula. Fizeram os acordos mais espúrios sem consultar o partido. Começaram a falar em "ala progressista" do PP, "ala progressista" do PTB, e outras asneiras. Viraram escravos da sua própria falta de princípios, reféns de raposas políticas que não têm 5% da representatividade de Lula. Afinal, nesse jogo, os ACMs e Jeffersons da vida são muito mais espertos que os Genoínos. Esse é mais um episódio que demonstra que a direção do PT deveria pensar nas críticas que ela vem recebendo dentro do partido. É a culminação do que poderíamos chamar o “hegemonismo” da direção do PT: conquistar maioria a qualquer custo, bombardeando e alijando, no processo, os “ingênuos” e “idealistas” que se atrevem a protestar.



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quarta-feira, 25 de maio 2005

Drops, Viagem

A angústia do itinerante diante da mala: Neste sábado eu já estarei na capital mundial do buteco. Tudo prontinho: laptop, drive, impressora portátil, máquina fotográfica novinha (thanks for the tip, Rafa) e iPods lotados de música – um de 15GB com brasileira e um de 20 GB com EUA, Reino Unido, Cuba, Argentina e Africa, que é até onde chega minha coleção (não, eu não ouço música alemã do século XIX). As prateleiras derridiana e musical da minha biblioteca já estão voando rumo a BH (falo sobre Jacques Derrida em Araraquara em junho e sobre Chico Science em Buenos Aires em agosto, então tive que mandar caixa de livros, porque, bem, perguntem se eu já rascunhei uma linha dessas palestras...). O embarque é sexta, e infelizmente o caminho desta vez é pela mais detestável cidade norte-americana: Miami. Por sorte são só três horas naquele buraco daquele aeroporto. Êta cidade baixo astral.

Por falar em iPod: o papa do neo-jornalismo blogueiro, David Gillmor, andou opinando que o iPod tende a ser substituído pelos telefones/agendas eletrônicas que também tocam mp3. A galera gritou. Eu também achei meio furado.

Um dos blogs que mais tenho lido nos últimos dias é o Marketing Hacker, do pioneiro Hernani Dimantas – que eu, na minha ignorância, ainda não havia conhecido (obrigado, escritora e leitora anônima). Como eu, Hernani é influenciado por Gilles Deleuze- filósofo das multiplicidades, do movimento, das revoluções moleculares, pensador da intensidade e da alegria. Se tivesse vivido mais uns anos, Deleuze teria se ligado no fenômeno dos blogs. A blogosfera é, de alguma maneira, a realização de sua filosofia. Infinitas e descentradas redes, onde qualquer ponto pode se conectar com qualquer outro a qualquer momento: rizomas.

Excelente notícia musical chega via BMTH : a coleção Revivendo lança um resgate do repertório do Terror dos Facões. O Terror dos Facões é um marco da música brasileira e principal grupo instrumental gaúcho de começos do século – suas gravações para a Casa Edison são de 1913 (‘Facões” era gíria da época para “músicos ruins”). Fundado pelo genial Octávio Dutra – especialista em todos os instrumentos de cordas dedilhadas – o Terror dos Facões foi disponibilizado recentemente em CD na caixa "Memórias Musicais" da Biscoito Fino, mas esta já se encontra esgotada. O cromatismo e o diálogo complexo entre flautas e cordas são marcas registradas das polcas, valsas, maxixes e schottishes do Terror dos Facões. Vale uma conferida. As gravações de 1913 me assombraram.

Tarde especial em Tulane: Há alguns anos, numa visita a Santiago do Chile, conheci um jovem ensaísta genial e convidei-o a que viesse fazer doutorado conosco. Em 2000 ele chegou a Tulane. Seu nome é Felipe Victoriano. Grande conhecedor não só de literatura, mas também de futebol, ele já blogou aqui no Biscoito. Pois bem, Felipe hoje defendeu sua brilhante tese sobre a literatura, a mídia e o cinema dos anos de chumbo da ditadura chilena. A tese de Felipe é comovente quando trata dos desaparecidos, ou do espinhoso problema da testemunha. O que é, realmente, testemunhar uma atrocidade? A tese responde lindamente a essa pergunta. E Felipe sabe do que fala: Gilberto Victoriano Veloso, seu pai, foi assassinado pela ditadura militar de Pinochet em 1985. Como toda grande obra, a tese de Felipe traz, cifrada, uma reflexão sobre a biografia do autor. Eu já orientei umas vinte teses de Ph.D., mas nenhuma me encheu de orgulho e alegria como esta. O sucesso de Felipe é o presente que me faltava antes de embarcar para BH.

O post de hoje é uma homenagem a Felipe e é dedicado, in memoriam, a don Gilberto Victoriano Veloso, por si nos da el tiempo.



  Escrito por Idelber às 02:30 | link para este post | Comentários (22)



terça-feira, 24 de maio 2005

A Metafísica do Pênalti Perdido

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Conversando com Rafael Galvão sobre futebol e literatura outro dia, não coincidíamos na apreciação do escritor austríaco Peter Handke. Eu gosto, Rafa acha um saco. Mas concordávamos que o sujeito não entende de futebol. Só alguém que não entende do assunto pode escrever um romance chamado A Angústia do Goleiro diante do Pênalti. Ora, qualquer criança sabe que se há alguma angústia, ela é do batedor. O goleiro só tem a ganhar. O post de hoje é uma reflexão sobre essa estranha expressão, perder um pênalti.

Para perder-se alguma coisa, supõe-se que nós a tenhamos. Mas quem tem o pênalti, desde o momento em que ele é marcado, é o goleiro. O goleiro é o dono do pênalti, mas só o cobrador pode perdê-lo. Perder o que não se tem, eis aí a tragédia do pênalti para o batedor. Quem já amou sabe do que falo. A partir do momento da marcação, o atacante recebe um presente de grego, um presente ao qual ele só pode, na melhor das hipóteses, fazer jus: confirmar o que todos esperam e fazer o gol. Ele só pode, se convertê-lo, ficar quites. Se não convertê-lo, estará em débito com o presente recebido, terá se mostrado indigno de recebê-lo: um mau recebedor de presentes, um ingrato. Não há angústia do goleiro na cobrança do pênalti. A verdadeira angústia é a do batedor: a angústia dos que só têm a perder.

Quem se lembra dos pênaltis convertidos? Ninguém. Só os pênaltis perdidos têm morada na memória. Quantos gols de pênalti terá feito o Zico? Dezenas muitas. Mas todos se lembram do pênalti perdido em 1986, contra a França. Convertido, aquele pênalti teria levado o Brasil às semifinais da Copa do Mundo. Não há jogador mais amado pelos atleticanos que Toninho Cerezzo, mas a memória mais marcante desse que tanto ganhou nunca deixou de ser o pênalti chutado quase nas arquibancadas na decisão de 1977, no fatídico 05 de março de 1978, de tão triste memória para todos nós que achamos que o futebol e o jiu-jitsu devem continuar sendo dois esportes diferentes.

Os italianos, coitados, são especialistas em reminiscências de penalidades máximas. Lembram-se de serem eliminados nos pênaltis das copas de 90, 98 e, claro, de Baresi, herói e grande craque da decisão de 94, zagueiraço que anulou Romário e Bebeto durante 120 minutos, chutando para o espaço, ironicamente, o pênalti que começou a entregar o tetracampeonato ao modesto escrete feijão-com-arroz de Parreira.

Dos pênaltis convertidos só nos lembramos por coisas alheias ao pênalti mesmo, como o milésimo gol de Pelé. Até nisso o pênalti foi irônico: aquele que marcou gol de tudo quanto foi jeito, de letra, de cabeça subindo na testada, de cabeça mergulhando no peixinho, de costas, por cobertura, de voleio, de bicicleta, de meio-voleio, espírita, de placa, além de quase todas as combinações possíveis entre eles, o gênio que fez mil duzentos e tantos desse momento único que não conhece nenhum outro esporte, pois ele, o Rei maior, teve que se resignar a marcar o milésimo de pênalti, arrastado, chorado, com o goleiro Andrada quase pegando a bola pelo rabo, quase humilhando o Rei ali na boca da butija, com o teatrão todo preparado já para a festa do seu gol mil. A bola entrou e o Rei escapou por pouco, como escapou tantas vezes, mas não eludiu o gostinho amargo de que o milzão foi feito ali, na obrigação protocolar do penal.

Pois bem, dos pênaltis convertidos eu só me lembro, sempre, desse do Pelé. Dos perdidos, não saem da minha memória o do Zico, durante o jogo com a França em 1986 (e também as cobranças desperdiçadas por Sócrates e Júlio César na disputa de penais), o de Cerezzo em 1978 e o de Edmundo, pelo Vasco, na decisão do campeonato mundial da FIFA contra o Corinthians em 2000.

Dia de exercício de memória futebolística no Biscoito. O tema é pênaltis perdidos. Vocês com a palavra.



  Escrito por Idelber às 00:49 | link para este post | Comentários (28)



segunda-feira, 23 de maio 2005

Glossário de Epítetos

Li num livro de Roland Barthes – já não me lembro qual – uma frase que me marcou: o que põe fim a uma discussão não é o surgimento da verdade, mas a maior força de uma linguagem sobre a outra. Que uma discussão raramente se encerre com uma chegada consensual à “verdade” não quer dizer que as polêmicas não valham a pena ou que não tenham relação com alguma verdade a surgir no futuro.

Não costumo confiar nas pessoas que enchem o peito para dizer que “não participam” de polêmicas porque nestas o que estaria em jogo seria “o ego”. Ora, que o ego está sempre em jogo todos sabemos, mas quer algo mais ególatra que dizer que não se rebaixa ao nível de polemizar?

Melhor é ser pragmático e escolher as polêmicas nas quais vale a pena participar. Não acho que tenha sido um exercício vão, por exemplo, debater as cotas aqui neste blog. No entanto, há algumas palavras que, quando lançadas como epítetos, têm o poder de me fazer tomar uma certa preguiça da discussão em curso. Aqui vão três delas.

Niilista. O Biscoito sugere uma pauta: quando alguém acusar alguém de niilista, fique do lado do acusado. Só rotula alguém de niilista quem não sabe o que a palavra significa. No contexto onde ela foi cunhada – a filosofia de Nietzsche – “niilismo” é um processo epocal, não individual, de queda na auto-comiseração e na piedade: uma derrota dos valores “altos”, que para Nietzsche são a força, a potência, a afirmação da vida. Trata-se do relato de uma história que vai de Sócrates ao Cristianismo, e com o qual pode-se estar de acordo ou não. Mas xingar alguém de niilista não faz o menor sentido, embora “niilista” seja o epíteto preferido com que os fanáticos religiosos rotulam aqueles que questionam os seus valores. "Niilista" é como as ligas de defesa da moral rotulam, por exemplo, o heavy metal, que é um gênero musical que de niilista não tem nada. Estás sugerindo que meu Deus não é o único e universal, começo e fim de tudo? Estás sugerindo que meus dogmas são questionáveis? É porque não acreditas em valor nenhum, és um ... niilista!

Elitista: A essa palavra eu simplesmente não presto atenção a não ser como sintoma. Não é que não existam elitistas. Existem, claro, os que acham que sua condição social ou intelectual lhes dá o monópolio da verdade. Mas o mal que fazem esses é infinitamente menor do que o mal que fazem os que gritam elitismo! todas as vezes que sua ignorância é ameaçada. Tomemos o governo Lula. Você mostra por A + B que a política econômica do governo é idêntica à do anterior, mostra que não se avançou nada no social, mostra que a gerência política é autoritária e, para piorar, incompetente. A tropa de choque do governo, incapaz de apresentar um número sequer que desminta o dito, contra-ataca com a acusação de “elitismo”. Assim, implicitamente tratam o presidente de forma paternalista. Não é que não existam ataques deploráveis ao presidente por causa de sua origem social ou supostos “erros” gramaticais. Existem. Mas muito mais daninha ao país tem sido a desqualificação, com o epíteto de “elitista”, dos que apresentam números e argumentos críticos. O dia que me mostrarem que as críticas preconceituosas estão impedindo o governo de fazer algo, junto-me a eles. Até agora, parece-me tarefa mais urgente despertar do seu sono dogmático os que se aliam à tropa de choque sem um argumento sequer: você apresentou todos esses números, todos esses fatos e dados, todo esse embasamento para a crítica, ora, você é um .... elitista!

Relativista. Outro termo descritivo que, quando usado como epíteto, sugere que a discussão está deixando de valer a pena. “Relativista” é o epíteto favorito de quem acha que todo questionamento dos valores pretensamente absolutos é uma celebração de que tudo dá na mesma. Na crítica literária, quando se começou a revisar o cânone dos autores considerados “essenciais” para que se incluíssem mais negros, mais mulheres, mais autores das classes populares, enfrentamos uma saraivada: ah, esses bárbaros relativistas que querem igualar Shakespeare aos seus autores que só estão aqui por causa das cotas. Não adiantava explicar que não era isso, porque a histeria "anti-relativista" não argumentava em boa fé. Até hoje, vira e mexe, está lá o fantasma do relativismo, brandido como comedor de criancinhas. Outro princípio, então: alguém acusou alguém de “relativismo”, olhe primeiro o absolutismo do acusador.

Numa próxima oportunidade, mais três verbetes do glossário de epítetos.

E a você, Smart, quais epítetos lhe tiram do sério?

PS: O presidente Lula está na Coréia, participando de um Fórum da ONU sobre Governância. A nossa blogueira cientista, a feríssima e finíssima Lucia Malla blogará o evento em tempo real a partir das 9 da noite de hoje, segunda-feira. O Biscoito enfaticamente recomenda várias visitas ao Uma Malla pelo Mundo nos próximos dias. Parabéns e boa sorte, Lu!



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domingo, 22 de maio 2005

Jornais, suplementos literários e culturais

Perguntar não ofende: quantas entrevistas o Caderno Mais! da Folha de São Paulo ainda fará com o antropólogo Lévi-Strauss antes de deixar que a figura morra em paz? Só nos últimos anos foram umas três, que repetem a mesma cantilena sobre o Brasil, a antropologia, a USP e os índios nambiquara. Nada contra o homem, mas ninguém agüenta mais.

Eu não sei se alguém compartilha minha impressão, mas eu sinto um grande cansaço nos suplementos culturais/ literários dos jornais brasileiros. A Folha aposta na recliclagem de pensadores "prestigiosos" da Europa e dos EUA (Peter Burke, Slavoj Zizek, Jacques Rancière) e traduz longos textos dessas figuras, que só costumam interessar às pessoas que não precisam da Folha para encontrá-los, ou seja, gente capaz de lê-los no original. Em outras palavras: o Mais! é redudante para uns poucos ao mesmo tempo que chatíssimo e desinteressante para a maioria. Consegue não agradar quase ninguém: nem é fino e nem atinge a massa.

Eu acho que o suplemento literário de um jornal deve ser uma coisa ágil.

Já a proposta do Idéias, do Jornal do Brasil, é outra: fazer do suplemento cultural um caderno de resenhas e notícias sobre o mundo literário. É informativo e não deixa de ser ágil, mas excetuando-se um texto de Beatriz Resende aqui ou acolá, o caderno tem pouquíssima substância.

Talvez eu deva começar a ler o Prosa e Verso, d'O Globo, que eu reconheço que há tempos não leio.

Mas que a Folha deveria renovar esse bolorento Mais!, ah, isso deveria.

PS: não deixem de conferir esta entrevista com o Presidente Kirchner.



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sábado, 21 de maio 2005

Links

Alguns links para vocês:

Assombrosa entrevista com um dos principais jornalistas investigativos do Brasil, Cláudio Tognolli, que conta tudo, desde o preço de tabela para se livrar alguém de um flagrante por maconha no Rio ou em São Paulo até a história de como foi espancado no Haiti.

Boa novidade: a TV Record foi condenada na justiça por alguns de seus muitos insultos contra as religiões afro-brasileiras. Mestre Nei Lopes tem a história aqui e aqui.

Belo texto do Marcos VP sobre o rádio, veículo que mais cresceu nos últimos anos nos EUA.

Muito lúcidas observações de Julio Daio Borges sobre alguns dos melhores blogs do Brasil.

Continua o debate lá no Túlio sobre o direito das empresas lerem o conteúdo dos emails enviados pelos funcionários. Todos os argumentos apresentados em favor dessa prática até agora me parecem fracos. Pode-se perfeitamente monitorar o uso do email com a proibição de certo tipo de attachment, ou com a limitação das mensagens a um certo tamanho, ou medidas semelhantes. Ler conteúdo do email dos outros me parece violação pura e simples de direito constitucional à privacidade. O que é freqüentemente esquecido nessas discussões é que a esmagadora maioria dos usos a que se prestam essas leis, uma vez aprovadas, são usos relacionados à censura política, à chantagem, à intimidação. Essa história de que precisam ler email de funcionário para ver se eles estão trocando foto de mulher pelada na hora do expediente é conversa para boi dormir.

Luma deixou no post de ontem ótimas dicas de convívio eletrônico: alguns parentes e amigos meus fariam bem em visitar aquelas dicas. Eu tenho parentes e amigos íntimos que até hoje enviam spam. Eu já tive um parente que me enviou, como spam, um texto meu com nome de outrém: não é o cúmulo da vergonha? Enviar ao próprio autor o seu texto reprocessado como lixo eletrônico com nome falso. Parentes e amigos queridos: não enviem spam. Não passem para frente o lixo que recebam pela internet. Ninguém que eu conheça que trabalhe online o tempo todo e com um volume grande de emails, ninguém mesmo, gosta de receber joguinho, filminho, animação-zinha, corrente-zinha ou piadinha por email. Os que trabalhamos com email o tempo todo abominamos isso. Parece incrível, mas com o filtro de Tulane eu praticamente estou à salvo do spam - exceto aquele enviado por parentes e amigos bem próximos. Com o tempo que você forwardeia lixo você pode escrever um email pessoal, Fulano, pensei em você, abraço. Será motivo de alegria para quem receba, de uma forma que o lixo em forma de corrente jamais será.

Lá na imprensa argentina andam dizendo que o Pasarella vai processar o goleiro Fábio Costa porque este o teria chamado de "lobo em pele de cordeiro". O blogueiro Guillermo Piro se pergunta: e se tivesse sido "filho da puta"?

Sabe-se que o Irã é um dos países que têm a blogosfera mais ativa. Vale a pena acompanhar este blog coletivo criado a propósito da eleição presidencial que se avizinha.

Enquanto isso, o pântano do império só piora.



  Escrito por Idelber às 03:13 | link para este post | Comentários (6)



sexta-feira, 20 de maio 2005

Links, Email, Viagens

1. Sobre a aniversariante: meus parabéns e muitas felicidades à amiga e conterrânea Mônica. Feliz Aniversário!

2. Uma decisão judicial do TST garantiu à HSBC Seguros o direito de manter a demissão por justa causa de um funcionário que teve sua correspondência eletrônica violada pela empresa. Ou seja, estabeleceu-se um precedente perigoso de violação de privacidade com sanção legal. O Prof. Túlio Vianna conta a história. Aos amigos que acreditam que é justificada essa decisão, há que se recordar uma diferença importante: a conta de email que usa o indivíduo pode ser cedida pela empresa, mas o conteúdo escrito pertence ao indivíduo que escreve e ao destinatário. Se é necessário controlar o abuso pessoal de contas de email profissionais, lembre-se que é perfeitamente possível fazê-lo sem ler conteúdo, como diz o Túlio. Note-se também que sempre que se impõem essas leis, elas terminam invariavelmente sendo usadas para a censura, a chantagem e a intimidação.

3. Eu aderi à campanha contra os CDs anti-cópia. O CD anti-cópia é uma artimanha da indústria fonográfica que viola seus direitos de consumidor, ao impedir até mesmo que você duplique o CD que comprou para, por exemplo, ouvi-lo no carro. Aqui está o selinho da campanha, que eu peguei no Sovaco de Cobra:

anticopia.gif

4. Por falar em selinhos, Gejfin fez o selinho da campanha contra os Garotinhos.

5. Das maravilhas de se ter um blog. Uma pesquisadora de música colonial achou meu ensaio sobre a música popular mineira do Clube da Esquina ao heavy metal e enviou-me um email. Essa pesquisadora, que prefere permanecer anônima, dizia no seu email:

Às vezes fico realmente fascinada com o ótimo nível que alguns blogs têm atingido, o que me faz discordar da velha maldição chinesa e agradecer por viverem tempos tão interessantes. O seu ensaio a que refiro é o "De Mílton ao Metal: Política e Música em Minas", que encontrei "googleando", pesquisando sobre música mineira. Na verdade estava procurando por música mineira do período colonial, a música sacra, sobre a qual estou pesquisando para o próximo livro. Apenas comecei a ler seu artigo e achei que não me interessava. Continuei lendo um pouco mais e comecei a traçar paralelos. Se cabíveis, não sei, mas na época me pareceram muito lógicos. A certa altura você diz: "Do Clube da Esquina ao Sepultura, cifram-senão só relações entre tradições mineiras e códigos da música ocidental, mas também duas formas distintas de vincular a música com a cidadania" E eu anotei que talvez na música colonial também podemos traçar esse mesmo paralelo: música e cidadania. Pois, o que faziam os compositores e músicos mulatos do Setecentos? Buscavam exercer a sua cidadania – mesmo sem o saber, em alguns casos - em um regime escravocrata que os excluiria, de uma forma um pouco mais branda do que no resto do país, por várias razões, se não aceitasse a "necessidade" da sua arte. A música sacra/clássica, de altíssimo nível, era a música popular da época, feita por e para satisfazer as massas, mesmo que não assuma isso. Mais palavras suas: "Em quatro obras-primas lançadas nos anos 70 (Clube da Esquina, Minas, Gerais, Clube da Esquina II), Mílton sintetizaria a toada mineira, a bossa nova, o jazz pós-bop, o rock pós-Beatles, o canto gregoriano, ritmos folclóricos como a Folia deReis e gêneros hispano-americanos como o bolero e a nueva trova." -Tínhamos também essa "salada", com músicos que se valiam de todas as referências que chegavam até eles, amalgamando e criando algo novo e surpreendente, não apenas para o Brasil (...) Sei que pode ser uma ligação um pouco forçada, pelas diferentes condições sociais e políticas das épocas em questão, mas... E olha isso: "O dado é importante porque nos anos 70 a música de Mílton - com a rica textura de suas melodias, a alternância inaudita de contraltos e sopranos de sua voz, a melancólica e corrosiva poesiade Brant, Bastos ou Borges - havia sido referência obrigatória para a MPB "de oposição". Melancolia, poesia, etc., estava tudo lá. Não é nada novo, o Clube da Esquina poderia muito bem ser comparado a uma das muitas irmandades do período colonial, principalmente à de Santa Cecília que, em Minas, teve que mudar os seus centenários estatutos para aceitar os nossos músicos pobre e mulatos. São coisas que me arrepiam! Mudanças que se fizeram por e pela arte, em uma sociedade caótica em várias sentidos. A música sacra mineira daquela época também era de "oposição", se não na "composição", mas na sua essênciae no seu valor, no que ela tinha de desafiante. E provavelmente teria dado em uma nova "Coração de Estudante", um hino à nova república, mineira ou brasileira, a depender do sucesso da Inconfidência.

É uma das maravilhas da internet: em outras épocas, eu continuaria meu trabalho sobre música contemporânea e ela seguiria o dela sobre música colonial sem que jamais nos encontrássemos. Pelo blog, eu tive a sorte de que ela me achasse. Conterrânea, obrigado pelos maravilhosos emails.

6. O pau continua comendo no post sobre o melhor time do Brasil na era pós-Pelé.

7. A frase do dia vem do meu amigo argentino Federico Galende, e já foi compartilhada com os camaradas do blogleft: "Quando insistem com você que apóie algo intolerável para que a direita não volte, pode saber que é porque ela já está no poder". Dizer que há que se aceitar isso ou aquilo para que a direita não volte é, no meu modo de ver, um dos tics que definem a . . . direita!

8. Para ilustrar o ponto anterior: Quem lê os jornais já viu, mas não custa repetir aqui o incrível diálogo entre dois parlamentares petistas anteontem. A minha fonte é a Folha. Aloizio Mercadante (SP) diz: "a crise política é um complô das elites para desestabilizar o governo Lula". Lúcido, o petista Delcídio Amaral (MS) retruca: "ô Mercadante, a elite somos nós".

9. Sobre a CPI dos Correios eu não falo, mas perguntar não ofende: o que fazia o Secretário de Finanças do PT, Delúbio Soares, na reunião da bancada petista no Congresso que debatia a CPI? Desde quando tesoureiro de partido participa de reunião da bancada?

10. Durante mais uma semana, este Biscoito denunciará a confusão de estar sendo produzido em meio a caixas de mudança. Dentro de oito dias, o blog começa a transmitir direto de Belo Horizonte, que será sua morada pelos próximos oito meses, com a exceção do mês de outubro, durante o qual o Biscoito transmitirá direto de Santiago, Chile. Por falar em viagens, qual seria um bom momento para visitar vocês aí em Porto Alegre, hein? Saudade do churrasco.



  Escrito por Idelber às 03:27 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 19 de maio 2005

Parlamentar Escocês George Galloway Detona Mentirada Norte-Americana sobre Iraque nas Barbas do Senado

galloway.jpg

(Loucos para encontrar algo para defenestrar Kofi Annan da ONU, os EUA acusaram o parlamentar britânico anti-guerra George Galloway de receber dinheiro de Saddam Hussein irregulamente no programa Petróleo-por-Comida - que é a atual cortina de fumaça usada nos EUA para desviar atenção da mentirada e do lamaçal do Iraque. Ao intimar Galloway a depor ao comitê que "investiga" o Petróleo-por-Comida, o senado gringo não imaginava que o valente deputado escocês passaria ao ataque e os esmagaria dentro da sua própria casa. Foi um grande dia para a verdade. O que se segue é boa parte do depoimento de Galloway ontem ao senado norte-americano. Tradução e negritos são responsabilidade minha. Original aqui e vídeo aqui; boa matéria aqui; enquanto lêem, imaginem a corja engolindo seco).

DEPOIMENTO AO SENADO AMERICANO - GEORGE GALLOWAY

Senador, não sou nem nunca fui comerciante de petróleo nem nunca ninguém o foi em meu nome. Nunca vi um barril de petróleo, ou fui dono de um, ou comprei ou vendi um - nem ninguém nunca o fez em meu nome.

Bem, eu sei que os padrões se deterioraram um pouco em Washington nos últimos anos, mas para um advogado o sr. é notavelmente descompromissado com qualquer idéia de justiça. Estou aqui hoje porque na semana passada o sr. já me julgou culpado. O sr. difamou meu nome pelo mundo sem ter me feito uma única pergunta, sem ter me contactado, sem ter escrito ou telefonado, sem fazer qualquer esforço para contactar-me. E o sr. chama isso de justiça.

Agora quero lidar com as páginas que me dizem respeito nesse dossiê e apontar as áreas onde há - sejamos caridosos e digamos, erros. Aí quero colocá-lo no contexto em que acredito que tenha que estar. Na primeira página do seu documento sobre mim o sr. afirma que eu tive "muitos encontros" com Saddam Hussein. Isso é falso.

Eu tive dois encontros com Saddam Hussein, um em 1994 e outro em agosto de 2002. Nenhuma esticada da língua inglesa pode caracterizar isso como "muitos encontros". Na realidade, eu encontrei Saddam Hussein exatamente o mesmo número de vezes que Donald Rumsfeld o encontrou. A diferença é que Donald Rumsfeld encontrou-o para vender-lhe armas e dar-lhe mapas para melhor direcionar aquelas armas.

Eu o encontrei para tentar trazer um fim às sanções, ao sofrimento e a guerra, e na segunda ocasião encontrei-o para tentar persuadi-lo a que deixasse o Dr. Hans Blix e os inspetores de armas da ONU entrar de volta ao país - um uso bem melhor dos encontros com Saddam Hussein do que o seu secretário de estado fez dos dele.

Eu era opositor de Saddam Hussein quando os governos britânico e americanos estavam vendendo-lhe armas e gás. Eu participava nos protestos em frente à embaixada iraquiana enquanto autoridades britânicas e americanas entravam para fazer comércio.

O sr. verá nas atas parlamentares, Hansard, de 15 de março de 1990 em adiante, volumosas provas de que tenho um histórico de oposição a Saddam Hussein muito melhor do que o sr. ou qualquer outro membro dos governo americano ou britânico. O sr. diz nesse documento, o sr. cita uma fonte, tem a cara-de-pau (gall, literalmente a bílis) de citar uma fonte, sem jamais ter me perguntado se a alegação dessa fonte é verdadeira, de que eu sou dono de uma empresa que teve lucros substanciais comerciando petróleo iraquiano.

Senador, eu não sou dono de nenhuma companhia, além de uma pequena companhia cujo único objetivo é receber a renda dos meus ganhos como jornalista do meu empregador, a Associated Newspapers de Londres. Eu não sou dono de empresa que tenha comerciado petróleo iraquiano. E não é da conta do sr. traficar uma citação completamente não fundamentada e falsa, sugerindo o oposto.

Então, o sr. não tem nada sobre mim, senador, exceto meu nome numa lista de nomes do Iraque, muitos dos quais foram colocados na lista depois da instalação do seu governo-marionete em Bagdá. Se o sr. tivesse contra mim quaisquer das cartas que tinha contra Zhirinovsky, ou mesmo Pasqua, elas teriam aparecido no seu show de slides para o seu comitê aqui hoje.

O sr. tem meu nome numa lista fornecida ao sr. pela investigação de Duelfer, fornecida a ele pelo ladrão de bancos e fraudador condenado Ahmed Chalabi, que muitas pessoas no seu país agora percebem, para crédito delas, que cumpriu um papel decisivo em levar o seu país ao desastre no Iraque.
(....)

Enquanto estamos no assunto, quem é essa autoridade iraquiana com o qual o sr. conversou ontem? Não acha que eu tenho o direito de saber? Não acha que o comitê e o público tem o direito de saber quem é realmente essa autoridade iraquiana entrevistada ontem que o sr. cita contra mim?

Bem, um dos erros mais sérios que o sr. fez nesse conjunto de documentos é, para ser franco, uma torpeza de garoto de escola que tornam ridículos todos os seus esforços. O sr. afirma na página 19, não uma mas duas vezes, que os documentos que aos quais o sr. se refere cobrem um período diferente dos documentos do Daily Telegraph, que foram tema de uma ação de calúnia vencida por mim na High Court da Inglaterra no fim do ano passado.

O sr. afirma que o artigo do Daily Telegraph citava documentos de 1992 e 1993 e que o sr. lida com documentos de 2001. Senador, os documentos do Daily Telegraph têm a data idêntica aos documentos com os quais lida o sr. Nenhum dos dos documentos do Daily Telegraph lida com o período de 1992, 1993. Eu não havia posto pé no Iraque até 1993 - nunca na vida. Não poderia haver documentos relacionados a questões do Petróleo-por-Comida em 1992, 1993, porque tal programa não existia na época. E mesmo assim o sr. alocou toda uma seção desse documento, dizendo que os seus documentos eram de uma era diferente daqueles do Daily Telegraph, quando o contrário é verdadeiro.
(...)

Senador, eu dei meu coração e alma para opor as políticas que o sr. promoveu. Dei o sangue de minha vida política para tentar parar a matança de iraquianos pelas sanções, elas, que mataram um milhão de pessoas, a maioria delas crianças, a maioria dessas mortas antes de que soubessem que eram iraquianas, mas mortas por nenhuma razão exceto a de ser iraquianas com o azar de ter nascido naquele momento. Dei o coração e alma para impedir que vocês cometessem o desastre que cometeram ao invadir o Iraque. E eu disse ao mundo que o argumento de vocês para a guerra era um bando de mentiras.

Eu disse ao mundo que o Iraque, ao contrário das suas alegações, não tinha armas de destruição em massa. Eu disse ao mundo, ao contrário de suas alegações, que o Iraque não tinha nenhuma relação com a Al-Qaeda. Eu disse ao mundo, ao contrário das suas alegações, que o Iraque não tinha nenhuma relação com a atrocidade do 11/09. Eu disse ao mundo, ao contrário das suas alegações, que o povo iraquiano resistiria uma invasão americana e britânica de seu país e que a queda de Bagdá não seria o começo do fim, mas seria o fim do começo.

Senador, em tudo o que eu disse sobre o Iraque, eu estava certo e o sr. estava errado e 100.000 pessoas pagaram com suas vidas; 1600 deles soldados americanos enviados à sua morte por um bando de mentiras. 15000 feridos, muitos deles desabilitados para sempre, por causa de um bando de mentiras.
(...)

Se o sr. houvesse ouvido a mim e ao movimento anti-guerra da Grã-Bretanha, não estaríamos nesse desastre em que estamos hoje. Senador, essa é a mãe de todas as cortinas de fumaça. O sr. está tentando desviar atenção dos crimes que o sr. apoiou, do roubo de bilhões de dólares da riqueza iraquiana.



  Escrito por Idelber às 01:44 | link para este post | Comentários (30)



quarta-feira, 18 de maio 2005

Uma Enquete sobre o Futebol na Era Pós-Pelé

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O maior lateral-esquerdo da história do futebol, o homem que só vestiu a camisa do seu amado Botafogo durante toda a vida, o homem sem cuja malandragem o Brasil jamais teria conquistado o bicampeonato no Chile, Nilton Santos completou oitenta anos anteontem. Evoé, Enciclopédia. Eu já tive a honra de conversar com esse gigante.

Estreou na seleção brasileira em 1949, foi reserva em 1950 (muitos dizem que, se ele houvesse jogado, aquele gol do Uruguai não teria saído nunca...), titular em 1954, campeão em 1958, bicampeão aos 37 em 1962. Jogou 85 partidas com a camisa canarinho. Suas histórias do Botafogo com Garrincha e João Saldanha de técnico são das coisas mais saborosas do folclore do futebol brasileiro. Quem quiser beber dessa fonte inesgotável de sabedoria, aproveite enquanto é tempo. O homem mora no Rio e passeia no calçadão.

Em homenagem a Nílton Santos, aqui vai uma pequena pesquisa:

Qual o melhor time de futebol do Brasil depois da era Pelé? Falo do melhor, do que jogou melhor futebol, não necessariamente do mais vitorioso.

1. O Internacional de Falcão e Figueroa (1975-76)
2. O Fluminense de Paulo César Caju e Marinho Chagas (1976)
3. O Atlético-MG de Reinaldo e Cerezzo (1977-82)
4. O Flamengo de Zico e Júnior (1980-82)
5. O São Paulo de Telê e Raí (1991-92)
6. O Palmeiras de Rivaldo e Roberto Carlos (1993-94)
7. O Grêmio de Felipão e Paulo Nunes (1995-97)
8. O Corinthians de Marcelinho e Vampeta (1998-99)
9. O Santos de Diego e Robinho (2002-04)


Ganha quem escolher a resposta certa. Heheh. Brincadeirinha, é para discutir à vontade mesmo.



  Escrito por Idelber às 01:24 | link para este post | Comentários (61)



terça-feira, 17 de maio 2005

Os Garotinhos e a Justiça

Todos já sabem mas não custa recapitular: na sexta-feira a juíza Denise Appolinária dos Reis Oliveira, da 76ª Zona Eleitoral de Campos (RJ) declarou inelegíveis por 3 anos o casal Garotinho, por abuso de poder político e compra de votos. O casal atacou a juíza abusando da palavra "terrorismo" e tentando desqualificá-la. A Associação dos Magistrados defendeu a Dra. Denise e cabe agora ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) confirmar ou não o seu veredito.

Não opino sobre os particulares da política fluminense. Mas sempre achei o casal Garotinho representantes do que há de mais atrasado na política: populismo do mais descarado, demagógico e vazio.

Na minha opinião, um dos momentos decisivos da ruptura do PT com alguns de seus princípios fundadores ocorreu em 1998. A convenção do PT-RJ (realizada na UERJ, como bem lembrou outro dia o Pedro Dória) optou pela candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do estado. Iludidos pela necessidade da aliança com um Brizola que já era um zero à esquerda, a Executiva Nacional do partido interviu no PT-RJ para obrigar os petistas fluminenses a coligarem-se com Garotinho. A cavalaria cossaca dos Delúbios e Genoínos esmagou o PT fluminense e o desastre foi o que se viu. A cúpula do PT tem, então, sua parcela de culpa na ascensão dos Garotinhos, porque falta de aviso dos petistas cariocas não houve. Eles foram literalmente triturados e silenciados.

Mas o que importa é que agora está dada a oportunidade de ver o casal Garotinho inelegível e alijado do acesso ao aparato estatal, que é a grande fonte de suas negociatas. Nesses momentos, eu sempre me lembro da organização da sociedade civil antes do impeachment de Collor. Nunca se sabe se qualquer mobilização será necessária ou possível, ou se fará qualquer diferença, mas nessas horas sempre acho que é possível fazer algo: a caixa de comentários d'O Biscoito está à disposição dos que queiram opinar sobre o caso. Por mim, nós já começaríamos a fazer pressão internética em defesa da decisão da dra. Denise e em defesa da apuração detalhada das atividades dos Garotinhos. Sempre é bom ficar de olho, porque quanto mais pública for a coisa, pior para eles.

Morro de curiosidade: alguma viv'alma que lê este blog discorda do dito acima sobre a recente decisão judicial? Alguém apóia os Garotinhos? À esmagadora maioria que sei que concorda comigo no que se refere a esse casal, eu perguntaria quem estaria disposto a mobilizar-se para defender o cumprimento dessa decisão da justiça.



  Escrito por Idelber às 01:59 | link para este post | Comentários (43)



segunda-feira, 16 de maio 2005

Nascer para o Futebol

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Há algo mais intolerável que a pergunta qual a graça de ver 22 homens correndo atrás de uma bola? Parte da minoria que não ama o futebol expressa aí seu ressentimento e desconforto com nosso gozo. Claro, para essa pergunta não há resposta, a não ser a de Louis Armstrong sobre qual é a graça do jazz: Man, if you gotta ask, you'll never know. Se você tem que perguntar, não vai saber nunca.

Quando lhe perguntavam pelo amor ao futebol, lembrava-se da primeira vez. Naquela tarde havia 103.000 pessoas no segundo maior estádio coberto do mundo, como gostavam de dizer. Apesar de criança, fanático por futebol, ele sabia que o momento era especial: poucas vezes vira-se uma máquina que jogasse por música como aquela. Tinha o maior centroavante da sua época, o gênio desengonçado, o neguinho endiabrado, o goleiro de Deus. Um dos reservas desse time foi titular da seleção brasileira. Franzinos, magrinhos, talentosíssimos, eles jogavam juntos desde o infantil. Atuaram 20 vezes, com 17 vitórias e 3 empates. Chegavam ao último jogo invictos, com dez pontos a mais que o visitante. A final do campeonato parecia uma mera formalidade.

Entra com o tio e a imensidão do estádio lhe afeta no pescoço. Como abarcar tudo aquilo? Diz a frase que anos depois seu filho diria no mar: vem me ajudar a olhar.

Naquela tarde o gênio centroavante não entraria em campo. Como é comum no país do futebol, ele havia sido esmigalhado pelas chuteiras dos brucutus e depois expulso de campo por reclamação.

Circula a notícia de que o neguinho endiabrado ficará no banco. Perplexidade na torcida. Por quê? O adversário é limitado mas forte, pegador e disciplinado. Há uma diferença de uns 10cm e uns 10kg por jogador entre as duas equipes.

O primeiro tempo é muito violento. No gramado molhado, as divididas são na sola e os anfitriões franzinos levam a pior. Tentam tocar a bola, mas o gol não sai. O volante brutamontes do adversário pisoteia o armador da equipe, que sai arrastando-se.

No segundo tempo, melhoram, com a entrada do neguinho que devia ter começado jogando. O time cria várias chances. O grande ponta-esquerda que seria campeão nacional no ano seguinte perde um gol feito. O jogo termina 0 x 0. Nos 30 minutos da prorrogação o time continua atacando. A legião fanática grita. O gol não sai e o até então único invicto dos Campeonatos Brasileiros terá que confirmar o seu título nos pênaltis.

Seu grande goleiro defende as duas primeiras cobranças mas, provocados pelo goleiro adversário, três companheiros seus perdem pênaltis. A equipe visitante brutamontes ergue a taça. Concluía-se a mais injusta final da história.

Os meninos, canelas esfoladas, sangrando, retiram-se abraçados, de cabeça erguida, chorando, numa cena entre patética e trágica. Os 103.000 fanáticos demoram longos minutos para levantar-se. Pouco a pouco, vão se unindo num aplauso, não entusiasmado mas firme, convicto. O garoto pensa, caralho, 1950 no Maracanã deve ter sido assim. A saída da multidão tarda horas, num ritual que, durante os quase 30 anos subseguintes nos estádios, ele jamais veria de novo: 100 mil pessoas levantando-se em silêncio e movendo-se de maneira irritantemente lenta, como se esperassem com sua lentidão reverter o tempo.

A primeira ida ao estádio do garoto havia sido a derrota mais traumática da história do seu clube.

Essa é a diferença entre o fã e o não-fã: para o fã, uma tragédia assim sela e consolida o amor ao clube. O não-fã não entende como. O garoto que teve seu batismo num estádio não teve dúvidas, ali no chororô, de que a mosca havia picado e que ele voltaria muitas vezes. Depois de algum tempo ele teceria a estranha teoria de que a Copa do Mundo perdida pelo Brasil quatro anos depois tinha sua raiz naquela derrota do seu time. Mas essa teoria é para outro momento.

Essa foi a primeira visita daquele garoto a um estádio de futebol. Alguém tem histórias de quando visitou um estádio pela primeira vez? E alguém vai adivinhar quem são os jogadores aos quais se alude em negrito no post?

PS: Muito obrigado ao Mestre Gravatá pela entrevista. Aos que chegam via Globo, boas vindas.



  Escrito por Idelber às 03:23 | link para este post | Comentários (27)



domingo, 15 de maio 2005

Nova Investigação de Verbitsky. Perfil de Niemeyer no NYT

Horacio Verbitsky talvez seja o mais respeitado jornalista investigativo da Argentina. Conhecido pelo seu trabalho de documentação dos crimes da ditadura militar e da cumplicidade da igreja com ela, neste domingo Verbitsky marcou outro gol de placa: revelações documentadas de recebimento ilegal de dinheiro pela cúpula católica durante o menemismo.

"Na minha cabeça, a música de Tom é uma casa desenhada pelo Oscar" é a frase de Chico Buarque de Hollanda incluída no extenso retrato de Oscar Niemeyer feito pelo New York Times Magazine. Não sou fã de auditório de Nieyemer; gosto de algumas obras, de outras menos. Talvez por não ter tido tempo de explorar a cidade direito, nunca me senti muito acolhido no espaço urbano de Brasília. Agora, dá ou não dá um gostinho ver a direita tupiniquim morrer de despeito e engolir Niemeyer festejado no New York Times com direito a slideshow?

Matthew Felling, Diretor do Center for Media and Public Affairs, de Washington, D.C. opina: "Os blogs são a razão principal pela qual o jornalismo anda limpando a casa hoje em dia". Via o excelente blog português Ponto Media.

Pesquisa recente calcula que 30% dos americanos já lêem blogs. Achei o número meio alto. Aliás 30% dos americanos lendo qualquer coisa parece-me um número exagerado.

Sim, o grande sambista Nei Lopes já tem blog. Visitei Nei e segui os fantásticos links desse post do Sovaco de Cobra sobre a cantora brasileira Elsie Houston. O Zé Carlos realmente faz um gol atrás do outro.

O que está acontecendo com o Galo, hein?



  Escrito por Idelber às 02:14 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 14 de maio 2005

Drops, Links e Minicontos

O gentilíssimo Luiz Gravatá, d’O Globo, me entrevistou. Dizem as más línguas que a entrevista sai na sua coluna de segunda-feira, com foto e tudo. A quem puder guardar um exemplar d’O Globo de segunda para mim aí em Belo Horizonte, eu fico agradecido. Foi fantástica a experiência. Êta baiano fino!

Por falar em Belo Horizonte, parabéns às Motherns pelo sucesso no lançamento do livro Mothern: Manual da Mãe Moderna, tanto em BH como no Rio de Janeiro.

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Maravilhas que eu acho no Boing Boing: Uma versão do antigo jogo “Banco Imobiliário” para blogueiros. Bibi também gostou. Aliás vocês sabiam que o Boing Boing fatura quarenta mil dólares por mês? Parece inacreditável, né?

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O leitor Penalva relata que meu texto sobre o Galo voltou a ser atribuído a Armando Nogueira, desta vez no programa de esportes da TV Alterosa, filiada belo-horizontina do SBT. Qual era mesmo a diferença entre blogs e grande imprensa? Nos blogs escreve-se sem verificabilidade e na imprensa as informações são checadas, não é isso que com freqüência se diz por aí? Um jornalista que se preze jamais repetiria o conteúdo de um spam sem conferir a informação, não é mesmo?


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No post de ontem sobre as versões musicais o Biscoito recebeu fantásticos comentários. Vale a pena conferir as preferências de todos. Parei para contar qual era a canção da qual eu possuia mais versões no meu iPod e, por conta de uma pessoa muito especial, acabou sendo o clássico soul “Ain’t no sunshine”, de Bill Withers, que tenho na versão dele e nas de: Barry White, Bob Marley, DJ Envy, Eva Cassidy, Jackson Five, Neville Brothers e Sting. A do Sting é a pior, sem dúvida. Minha favorita é a dos Nevilles, que tem um super arranjo para metais.

Aliás, se você tem um iPod, faça o seguinte: copie este disco de Nana Caymmi. Aí vá no “Extras”, selecione “Alarm Clock”, escolha o horário que você quer acordar no dia seguinte. Ligue o iPod na caixa de som. Desperte ao som de "Acalanto" de Nana Caymmi. Você se renovará como se tivesse passado por dois anos de psicanálise. Você se levantará acreditando na paz no Oriente Médio.

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Está no ar a nova fornalha de minicontos d’A Casa das Mil Portas. Agradeço a Nemo Nox pelo convite e pela inclusão dos meus textículos. Como a idéia lá é ler aleatoriamente, como numa roleta russa, coloco aqui os meus para quem quiser dar uma olhada. Comentem, inventem outros. Os que eu cometi foram esses:


Tocou e se deslocou. Recebeu, driblou, limpou e bateu. Na trave.


Ao despertar, Monterroso e a garrafa pareciam estar ali.


Quando clicou “enviar” o arrependimento já havia chegado.


“Água fervendo,” lembrou, já na porta. “Foi Deus?”


Ao adentrar o recinto, já encontrou a morte ali.


Quando voltou do cinema, a família ainda agonizava.


“Engolir, eu não engulo”, disse antes de engasgar.



  Escrito por Idelber às 02:56 | link para este post | Comentários (16)



sexta-feira, 13 de maio 2005

Versões

O Cardoso fez um post relatando um recente assassinato eletrônico sofrido por Lupicínio Rodrigues, o que me fez pensar de novo no tema das versões.

Como sabem todos os fanáticos por música popular, uma versão tem que manter algo de fidelidade ao original e algo de singular, dela própria. Como se medem essas coisas é um babado bastante variável segundo o gosto, mas as duas coisas são imprescindíveis.

Para levantar uma bola sobre versões na música popular, aqui vão alguns prêmios:

1.Versão-esse-é-o-suingue-espírito-do-original: O super sincopado violão de Gilberto Gil revisitando Com que Roupa, de Noel Rosa.

2.Versão-como-matar-o-suingue-espírito-original: No mesmo disco da anterior, a whiskada voz de Tom Jobim arranha e torna bem mellow "Três Apitos", de Noel Rosa. Justamente o que Noel não teria feito.

3. Versão-como-unir-dois-gêneros-numa-canção: Cássia Eller bluesificando Na cadência do samba, de Ataulfo Alves.

4.Versão-pindorâmica-mais-fera-de-canção-gringa: Milton Nascimento cantando Norwegian Wood, dos Beatles.

5.Versão-de-canção-dos-Beatles-superior-à-original: Aretha Franklin cantando "Eleanor Rigby".

6.Versão-de-fazer-autor-revirar-no-túmulo: Ivan Lins jazzificando Noel com sonzinho clean e bem-comportado. Êta disquinho completamente desprovido de espírito noélico.

7.Versão-que-mais-bafafá-causou-na-MPB: Caetano cantando Carolina, de Chico Buarque. Como julgar se um tom é irônico?

8.Versão-que-mais-balangandãs-acrescenta-ao-original-sem-traí-lo: Zizi Possi cantando A Paz, de Gilberto Gil sobre percussão de Marcus Suzano e cordas de Lui Coimbra.

9.Versão-que-mais-tensão-dramática-acrescenta-ao-original: Cida Moreira cantando A Terceira Margem do Rio, de Caetano e Milton. É uma opereta pop. Ela própria ao piano, sax de Gil Reyes, baixo e violão Omar Campos e Percussão de Caíto Marcondes. Infinitamente superior à versão de Caetano.

10.Letra-em-português-mais-ordinária: “Erva Venenosa”, versão dos Golden Boys para Poison Ivy, de M.Stoller e J.Leiber. Sem comentários.

PS: Já há gente reclamando como é que o Brasil ousa reunir-se com países árabes, como é que o Brasil assina uma declaração criticando Israel por repetidamente violar resoluções das Nações Unidas, como é possível que o Brasil não seja bem obediente aos EUA? Sobre a reunião de Brasília fizeram posts o Pedro Alexandre Sanches e o André Kenji. Alguém, fonte mal informada ou de má fé, claro, disse ao Pedro Dória que "não se vê o atual governo israelense incentivando a política de colonos" e parece que ele acreditou. Ai ai.

Fiquemos na música hoje. Alguma outra versão para esses prêmios dados aqui? Ou novos prêmios?



  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (33)



quinta-feira, 12 de maio 2005

Outra Adivinhação - Desafio sobre o Futebol Brasileiro

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A adivinhação de hoje é para os amantes do futebol.

1. Qual foi o grande clube do futebol brasileiro que eliminou sua execrável prática de não ter jogadores negros no seu plantel ao contratar um craque do rival?

Em que ano aconteceu isso?

Qual era esse grande craque?

Depois que terminarem, brinquemos com mais duas perguntas:

2. Qual título conquistado por um grande time é considerado um marco na incorporação do jogador negro aos clubes de futebol de elite no Brasil?

3. Qual grande craque negro brasileiro declarou sou campeão do mundo mas ainda sou barrado nas boates da zona sul?



  Escrito por Idelber às 02:13 | link para este post | Comentários (20)



quarta-feira, 11 de maio 2005

Brincadeirinha de Adivinhação

Um doce para quem acertar primeiro: Qual foi o disco mais vendido da década de 1960? E na de 1980? E na de 1990? E quantos milhões de cópias vendeu cada um desses três discos?



  Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post | Comentários (56)




Blogueiro Convidado, Felipe Victoriano. Futebol e Ditadura Militar no Chile

(é um orgulho meu ser amigo e orientador de Felipe Victoriano, que vira doutor no próximo dia 24. Felipe é um dos maiores ensaístas chilenos da sua geração, autor de uma tese de mestrado sobre os desaparecidos e de uma série de textos críticos sobre literatura. Convidei-o a que hoje nos contasse uma história: a da conversão do Estádio Nacional do Chile em campo de concentração. Essa história se mistura com a da partida de futebol fictícia que o Chile disputou contra a União Soviética depois do golpe militar e que classificou o Chile para a Copa de 1974. Se for um esforço ler em espanhol, vale a pena. O tema hoje é futebol e sangue. Com a palavra, Felipe Victoriano) .

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Para recuperar la historia que une al Estadio Nacional de Chile a la dictadura de Pinochet, será necesario rescatar un episodio que, según el escritor Eduardo Galeano, se conserva como “el partido más patético de la historia del fútbol”. Dos semanas después del golpe de estado en Chile, el 26 de septiembre de 1973, se jugó el partido de ida por un cupo al mundial de fútbol de Alemania, el mundial del 74’, entre la selección chilena y la selección de la Unión Soviética, en el estadio Lenin de Moscú. El partido de vuelta estaba programado para el 21 de noviembre, y se jugaría en El Estadio Nacional, por entonces, campo de concentración y tortura de la junta golpista.

El encuentro de ida no fue televisado, y según trascendió, concluyó con un histórico empate a cero, ante aproximadamente 60 mil personas, y respecto del cual se harían célebres los talentos defensivos de Quintano y Elías Figueroa. Sin embargo, la clasificación al mundial dependía del partido en Santiago. El presidente de la federación de fútbol soviética, Valentín Granatkin, había manifestado su rechazo a jugar el partido de vuelta en El Estadio Nacional. La decisión final provino del Kremlin. De acuerdo al libro de Gilberto Agostino, Vencer ou Morrer. Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional, el centralismo de Moscú operaba con estrictos cálculos de Estado, los cuales diseñaban el comportamiento deportivo de sus selecciones. Habría que recordar que, por aquel entonces, el Dínamo de Kiev ganó el campeonato nacional, desplazando así a los equipos de la capital, de tradición eslava. El festejo en Ucrania fue censurado, temiendo se produjera una efervescencia incontrolable de sentimientos nacionales. Tal vez, entre los jerarcas, se comentaban los sucesos de 1942, cuando el Dínamo de Kiev venció a una selección de Hitler, en plena ocupación alemana: Los once fueron fusilados con las camisetas puestas, en lo alto de un barranco, cuando terminó el partido.

Sin embargo, las razones de no presentarse a jugar, aparecerán oficialmente el 2 de noviembre de 1973, difundidas por la agencia UPI: por consideraciones morales los deportistas soviéticos no pueden en este momento jugar en el estadio de Santiago, salpicado con la sangre de los patriotas chilenos (…) La Unión Soviética formula una resuelta protesta y declara que en las condiciones actuales, cuando la Federación Mundial de Fútbol, obrando contra los dictados del sentido común, permite que los reaccionarios chilenos le lleven de la mano, tiene que negarse a participar en el partido de eliminación en territorio chileno y responsabiliza por el hecho a la administración de la FIFA. La URRS no jugaría el partido de vuelta, menos en El Estadio Nacional. En términos formales, esto significaba que Chile clasificaba al mundial de fútbol por “secretaría": la Unión Soviética no pisaría El Estadio Nacional, salpicado con sangre, permitiendo así la victoria del elenco chileno por falta de rival.

Sin embargo, un detalle importantísimo en este contexto, sería la mención que el comunicado soviético hace de la FIFA. Tendría expresa relación con una comitiva, liderada por un suizo y un brasileño, que arribaron a Chile en su representación el 24 de octubre, y con manifiesta intención de garantizar El Estadio Nacional como escenario viable para una eliminatoria. Estuvieron 48 horas, dentro de las cuales se reunieron con el ministro de defensa de facto, almirante Patricio Carvajal, y visitaron el estadio, en cuyos recintos permanecían aún cerca de 7 mil personas detenidas por los militares y sus organismos de inteligencia. Jorge Iturriaga, en un valiosísimo artículo dedicado a conservar la memoria de estos hechos, resume así la presencia de la FIFA a los días de instaurada una de las dictaduras más feroces del Cono Sur: Para cerrar su visita al país, los emisarios ofrecieron una conferencia de prensa con el ministro de defensa (…) a quien le regalaron un prendedor de corbata y unas colleras de oro con el sello de FIFA. ‘El informe que elevaremos a nuestras autoridades será el reflejo de lo que vimos: tranquilidad total’. El brasileño tranquilizó a los dirigentes chilenos: ‘No se inquieten por la campaña periodística internacional contra Chile. A Brasil le sucedió lo mismo. Pero luego pasará’.

Pasó en Brasil, cuando Emilio Garrastazu Médici capitalizó el triunfo de la selección de Pelé en el mundial de México, en 1970. En dicha oportunidad, el propio dictador impuso a su tirador preferido, Dario, en clara desavenencia con el entonces entrenador de la escuadra brasilera, João Saldanha. Se temía –recuerda Agostino- que el entrenador llegara a México con una lista de presos políticos en el bolso, y, en entrevista colectiva, delante de los micrófonos y cámaras de todo el mundo, denunciara las violaciones a los derechos humanos que venían ocurriendo en Brasil.

Se haría célebre, sin embargo, la frase de Saldanha, o presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time, costándole el puesto algunos días antes de que saliera la selección a México. Sucedió, ciertamente en Argentina, 8 años después. Una vez el Papa enviara su bendición, al son de una marcha militar, el general Videla condecoró a Havelange en la ceremonia de la inauguración, en el Estadio Monumental de Buenos Aires. A unos pasos de allí, estaba en pleno funcionamiento el Auschwitz argentino, el centro de tormento y exterminio de la Escuela de Mecánica de la Armada.

Han pasado treinta años de los “incidentes” que llevaron a Chile, recién iniciada la dictadura, al mundial de fútbol de 1974. Sin embargo, lo que vuelve citable esta historia radica en el hecho de que, mientras la presencia de la escuadra soviética fuera descartada con anticipación, dejando con ello la clasificación en el bolsillo, el encuentro de vuelta en El Estadio Nacional se jugó de igual manera aquel 21 de noviembre de 1973.

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Las razones por las cuales se jugó el partido de vuelta con la “URSS” en El Estadio Nacional, pueden resultarnos, ahora, anecdóticas. Jorge Iturriaga nos revela que acudieron sólo 11 mil espectadores ese domingo de septiembre. La selección chilena vistió de rojo, con una formación compuesta por los mundialistas Quintano y Figueroa, Reinoso, Valdés y el gran Carlos Caszely. La parodia fue completa: el orfeón de carabineros tocó el himno nacional, izándose la bandera chilena. Un árbitro hizo sonar el silbato y dos jugadores chilenos salieron en busca del ‘arco soviético’. Trotando, sin rivales enfrente, pasándose la pelota entre ellos, los chilenos llegaron a un arco vacío. A un metro de la línea de gol, Chamaco Valdés convierte un tanto ficticio.

Ese gol ficticio, le deba la clasificación a Chile al mundial de Alemania de 1974, constituyendo el triunfo deportivo más importante iniciada la dictadura. Sin embargo, la puesta en escena de ese gol ficticio necesitó devolver El Estadio Nacional a una significación que había perdido. En efecto, mientras la Asociación Chilena de Fútbol (ACF) organizaba aquel patético encuentro en El Estadio Nacional miles de chilenos permanecían prisioneros, sufriendo los nuevos procedimientos de la política represiva impuesta por los militares. Tal vez, esto último venga expresado de modo siniestro por las palabras de un miembro del Comité Ejecutivo de la FIFA, ante la negativa soviética de pisar el Estadio Nacional: Si Granatkin dice que el Estadio Nacional está ocupado con detenidos, yo saco una carta en la cual el Gobierno de Chile asegura que varios días antes del 21 de noviembre dicho escenario estará a disposición del fútbol.

El Estadio Nacional, el recinto deportivo más grande de Chile, se convirtió tempranamente el día del golpe en el lugar de la imaginación concentracionaria de la dictadura. Dicha imaginación había calculado el número de “enemigos” con relación a la capacidad de público que El Estadio Nacional poseía (80.000 espectadores), convirtiéndolo aquel 11 de septiembre en el campo de concentración más grande en la historia del país.

En esa oportunidad, para cerrar la "gloriosa" jornada de clasificación al mundial, fue invitado el Santos de Brasil, sin Pelé: Chile 0 Santos 5. En el mundial de Alemania del 74’ Chile no ganará ni un sólo partido.



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terça-feira, 10 de maio 2005

Notas de leitura

1. Se você conhece algum corno na região metropolitana de São Paulo cuja esposa possa ter usado o pseudônimo de Verônica para fornicar com este depravado, favor avisar à Tradição, Família e Propriedade. É o LLL de volta a seus dias de glória.

2. O gente finíssima, adorado Luiz Gravatá, chegou bem à gringolândia e se encontra num congresso em São Francisco.

3. Alexandre Inagaki, o maior hub da blogosfera brasileira, ponto de convergência de tanta história, está de template novo inagurado com um post para fechar o meme dos livros.

4. Marmota fez um belo post, e eu dei um pitaco, sobre a relativa ausência de blogs brasileiros que façam o trabalho de imprensa independente.

5. O infindável forno de crônicas de Lucia Carvalho desta vez nos presenteou com uma investigação dos mistérios do entupimento.

6. Aderi aos RSS feeds: já estou cadastrado com mais de 120 feeds, inclusive de uma série de blogs gringos que eu não lia mais. Para quem não sabe, o RSS é Real Simple Syndication, uma “assinatura eletrônica” que agrega para você, num mesmo site, os posts de todos os blogs que assinar. É só abrir uma conta na bloglines e acrescentar o código RSS que você encontrará na maioria dos blogs. O do Biscoito é este aqui. Modéstia às favas, a lista dos que assinam os feeds do Biscoito é de respeito.

7. Na blogosfera feminista gringa: há um debate interessante sobre blogrolls. Shelley do Burningbird e a Lauren do Feministe apagaram os seus (e ao invés deles simplesmente tornaram públicos os seus RSS feeds, como faz, por exemplo, a Bibi). Elas o fizeram em parte para carregar mais rápido mas em parte para acabar com a perene angústia de saber se falta linkar alguém, se alguém está se sentindo excluído por não ter sido linkado e tudo o mais. Bitch Ph.D. discorda e lembra como é importante o blogroll dos blogs maiores para o fluxo de visitas dos menores. Como a Bitch Ph.D., eu acho que jamais abriria mão do meu blogroll. E faço questão de linkar os blogs "menores" dos quais eu gosto. Às vezes demora, mas faz-se.

8. Viagens: queridos amigos porteños, estarei em Buenos Aires de 23 a 27 de agosto para o congresso do ramo latino-americano da IASPM, Associação Internacional para o Estudo da Música Popular. A IASPM é uma organização mundial que existe desde 1980 e reúne musicólogos, historiadores, sociólogos e quem mais seja que se dedique ao estudo da música popular. Tive a honra de falar numa das plenárias do seu congresso do ano passado, no Rio de Janeiro. Agora é Buenos Aires.

9. Uma das maiores escritoras argentinas vivas, Tununa Mercado, amiga querida com a qual eu não falava há anos, guglou o seu nome. Caiu no Biscoito. Gostou e deixou recado. Bendita blogosfera.

10. Parece que o 6º Salão do Livro de Minas Gerais, a realizar-se este ano de 11 a 21 de agosto, incluirá um evento sobre a blogosfera. Mais notícias em breve.

11. Cardoso inaugurou seu blog no UOL. O homem agora tem dois blogs. Axé babá a esse grande escritor na nova casa.

12. Hoje eu começo a fazer uma das coisas mais tristes que pode fazer um ser humano. Encaixotar seus livros.

13. Eu recebi uma cartinha comovedora de um ser humano de 17 anos de idade. Dizia mais ou menos: "Professor, eu li seus textos sobre política, estou indignado com a injustiça no mundo, quero encontrar formas de participar e lutar. O que devo fazer?"

Às vezes, na internet, a gente recebe perguntas cuja resposta é de uma responsabilidade assustadora.



  Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 09 de maio 2005

Por que os gringos não gostam de futebol

(esta crônica é conhecida só dos primeiríssimos leitores do Biscoito, pois ela esteve publicada na última página da velha casa. Aparece aqui recauchutada e com novos links)

Do Japão ao Paraguai, da Tailândia à Espanha, dos territórios ocupados da Palestina à Africa do Sul, o futebol reina inconteste como o favorito da esmagadora maioria. O belo filme A Copa, do cineasta Khyentse Norbu, mostra a deliciosa saga de um grupo de monges budistas tibetanos durante a copa de 1998, proibidos de assistir os jogos pelo monge-mor. No meio da tentativa comovente de alugar uma televisão e ver a final entre Brasil e França, o adolescente aprendiz de monge apostava: Ronaldo vai arrebentar. . .. Acertou, claro, mas com quatro anos de atraso.. O futebol é o mais próximo que o século XX chegou à unanimidade total no esporte.

Mas nos EUA, como esporte de massas, o futebol não emplaca mesmo. Pergunte a qualquer gringo por que ele não consegue se apaixonar pelo futebol. A resposta é a mesma: not enough scoring (não há gols suficientes). O americano acha impossível suportar um jogo de noventa minutos que termine 0 x 0 ou 1 x 0. Preferiria assistir Jorge Kajuru e Eurico Miranda numa pelada de solteiros e casados que terminasse 8 x 7 do que se deliciar com 1 x 0 antológicos como Brasil x Inglaterra da Copa de 70 ou Cruzeiro e Inter na final do Brasileirão de 75.

Continuo achando falsa essa explicação que eles mesmos encontram para o seu desgosto com o esporte. Não é raro encontrar um gringo deliciando-se com um jogo de futebol americano que dura quase quatro horas e termina 10 x 7, o equivalente a uma modorrenta vitória de um e meio gols contra um. O “gol” do futebol americano, o 'touchdown', a entrada de um jogador com a posse de bola na “zona final” do adversário, vale 7 pontos(6 + ponto extra chutado). Quando a equipe não consegue avançar a bola até a zona final, mas é detida num ponto próximo dessa zona (você “detém” uma equipe quando impede que ela ande 10 jardas em 4 tentativas), essa equipe recebe o prêmio de chutar o projétil com o objetivo de enviá-lo acima daquela trave de cabeça para baixo. Quando o bicudão é alto o suficiente, o prêmio são 3 pontos. Ou seja: um 10 x 7 significa que uma equipe marcou um gol, a outra marcou outro e uma delas recebeu, uma vez, o prêmio de consolação do bicudão dos 3 pontos – que nem é comemorado direito, a não ser quando é no último segundo e decide a sorte de um jogo.

Isso depois de quatro horas de peleja, aproximadamente 250 saídas de bola, das quais numas 230 a bola não anda mais que um metro, dezenas de paralisações para comercias ou, se você estiver no estádio, 2 horas de garotas dançando ao som de “We will rock you”, do Queen. Depois eles não entendem porque ficam barrigudos.

O problema do gringo com o futebol não é, portanto, a falta de scoring. Há que se ver, nos esportes mais populares dos EUA (beisebol, futebol americano, basquete), o que eles têm em comum, por oposição ao futebol. Tomemos o basquete. Se uma equipe tiver maior porcentagem de aproveitamento de arremessos, menos perdas de posse de bola, mais rebotes e mais conversões na linha de lance livre, essa equipe ganhou. É impossível que não ganhe. A matemática e a estatística dizem a verdade do jogo. Trata-se, como no futebol americano, de um jogo gerencial, que é radiografável na frieza do quadro estatístico.

A imprevisibilidade do lance que pode decidir uma partida se limita, no basquete, aos jogos que são pau-a-pau até o fim. Impossível que uma equipe seja dominada por 48 minutos em todos os quesitos listados e ganhe o jogo num lance de sorte.

Qualquer criança brasileira sabe que isso não se aplica ao futebol. Digamos que ontem jogaram Flamengo x Palmeiras no Maracanã. O Flamengo teve 65% da posse de bola, ¾ no campo do Palmeiras. O Flamengo teve 15 escanteios, o Palmeiras um. O Flamengo chutou a gol 18 vezes, o Palmeiras duas. O Flamengo foi à linha de fundo 12 vezes, o Palmeiras nenhuma. O Flamengo teve dois pênaltis a seu favor, o Palmeiras nenhum. Diagnóstico: O Urubu massacrou o Verdão no Maraca. Diz algo sobre o resultado do jogo este diagnóstico? De forma nenhuma. O jogo pode muito bem ter terminado 2 x 0 para o Palmeiras. Qualquer torcedor brasileiro se lembrará de um dia em que seu time foi vítima de uma dessas.

Eis aí o fascínio do futebol. O futebol é um esporte fatalista, reácio a qualquer previsibilidade. E não há característica da ideologia dominante nos EUA, nem a arrogância, nem a ingenuidade auto-centrada, nem a crença na própria bondade, que seja mais típicamente americana que o horror à imprevisibilidade, ao estalar incalculável do acontecimento. O americano típico é aquele que, ao descobrir que a mulher está grávida, afoga a alegria da promessa de nova vida no cálculo da poupança para a futura universidade do filho. No ataque às torres em 2001, até mais comum que o lamento pelas mortes ou o xingatório patriótico de brutamontes ferido, foi a pergunta indignada: Como não conseguimos prever isso?

Como no futebol a contabilidade e o cálculo não dizem nada da verdade do jogo, como o futebol é por definição imatematizável, como ele premia o acontecimento singular, único, e não a matemática gerencial do basquete ou do beisebol, o gringo não consegue apreciá-lo. Mesmo que o jogo termine 5 x 4.

PS sobre mais um caso para o folclore deste blog
: quando amigos torcedores e parentes seus começam a lhe enviar spams com um texto seu assinado por outro, é porque a coisa está grave. Não me importa muito, mas o texto que está circulando por email entre torcedores do Atlético-MG, essa crônica de amor ao Galo, foi escrita por mim e não por Armando Nogueira. Claro que Mestre Armando na certa não tem nada a ver com a confusão. Algum doido foi ao meu site, não viu meu nome, achou que o texto tinha cara de Armando Nogueira e botou para circular como spam com o nome dele. E está circulando à beça com a informação errada, embora o equívoco não deixe de honrar-me. Ah, essa internets!



  Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post | Comentários (21)



domingo, 08 de maio 2005

Mais Dois Palestinos Assassinados

Na quinta-feira a Folha referiu-se a eles como "mais dois palestinos". Seus nomes eram Jamal Jaber, 15 anos de idade e Uday Mofeed, 14 anos de idade: assassinados pelas forças de ocupação israelenses em Beit Liqya, quando protestavam contra o muro do Apartheid. Os disparos foram a uma distância curtíssima. A ambulância que os levou, sangrando, a Ramallah, provavelmente teria chegado ao hospital a tempo se as forças de ocupação o houvessem permitido.



  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 07 de maio 2005

Sobre Gênero e Polêmicas

Aconteceram três coisas interessantes sobre as quais eu adoraria papear com quem quisesse discutir, desde que a gente mantivesse a discussão em termos anônimos, porque realmente o que importa é a substância e não os sujeitos. Uma coincidência curiosa ocorreu neste fim de semana em todos os três listserves dos que eu participo.

O que é um listserve? É uma lista de email envolvendo gente que pensa de uma certa maneira. Quando emplaca, é uma arma potente. Quando não emplaca, não emplaca. Nunca se sabe se um listserve vai emplacar ou não, por isso é bom estar lá, disposto.

Eu participo de três listserves: um em pindorâmico, de blogueiros de esquerda, um em castelhano, sobre estudos culturais, outro em inglês, sobre política. Por uma incrível coincidência, todos estes listserves cairam em simultâneas polêmicas.

Por incrivel coincidência, todas as três polêmicas envolviam um homem e uma mulher.

Por mais insólita coincidência, tratavam-se de homens que admiro muito por sua inteligência.

Por mais singular ainda coincidência, eu observei a polêmica desenrolar-se estatelado quanto ao que na minha opinião era uma sucessão de grosserias cometidas pelos homens contra as mulheres. Eu escolhi não me manifestar, em parte por falta de tempo e saco, mas ao longo das três polêmicas, reforçou-se minha convicção de que a cegueira masculina é infinita. Nos três casos chamou-me a atenção que vira e mexe, quando há uma polêmica, os homens insistam em tratar os argumentos apresentados pelas mulheres ironicamente, mesmo quando estejam "dialogando" com eles. Por uma incrível coincidência, em todas as três polêmicas a coisa ultrapassou os níveis do suportável no momento que os homens começaram a apresentar suas credenciais. Todas as três discussões encerraram-se - pelo que me parece - no mesmo momento de apresentação das credenciais masculinas.

Pode ser que seja impressão minha. Pode ser que eu esteja viajando. Mas a minha aposta é que ainda falta muito para que a homaiada aprenda a escutar. São três polêmicas que funcionaram como material de observação: nos três casos eu era completamente indiferente à substância mesma do argumento, mas nos três casos tive a sensação de que a escuta masculina ainda está bastante atrofiada. Há uma simetria e um respeito básico na discussão que ainda está por se conquistar. Talvez seja impressão minha.



  Escrito por Idelber às 03:33 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 06 de maio 2005

A Música de Max de Castro

max-de-castro.jpg

Max de Castro chega com a tranqüilidade dos que sabem o que falam. Feliz será o dia, ele diz, em que eu entre numa loja americana e encontre Samba Raro não na seção de ‘World Music’ mas ao lado de gente que eu admiro como Prince and Stevie Wonder." Só fala assim quem sabe o que faz.

A Time Magazine já o chamou de “maior talento musical brasileiro das últimas três décadas”. Ele é adorado por todo mundo, dos colecionadores de vinil aos garotos de 17 anos da cena drum’n’bass. Depois de meros três discos solo, Max de Castro é ponto de convergência de toda a conversa entre o funk, o soul, o rhythm’n’blues (a black music em geral) e o que há de mais suingado na música popular do Brasil, de Jorge Ben Jor a Wilson Simonal. Músico, cantor e arranjador de vastos recursos, Max é também um elo entre a black MPB e o multifacetado movimento da música eletrônica.

A carreira da fera começa ao ser apresentado à música pelo pai Wilson Simonal. Em 1992 se junta à Confraria, banda de Pedro Camargo Mariano e João Marcello Boscoli. Depois do sucesso da banda em festivais, Max de Castro passa a ser arranjador de vários músicos, antes de participar do projeto Artistas Reunidos em 1998 com Jairzinho Oliveira, Daniel Carlomagno, Luciana Mello, Pedro Camargo Mariano, e Wilson Simoninha. Em 2000 lança Samba Raro, disco de síntese entre bossa nova, eletrônica e black music, mas fundamentalmente, uma estréia de muita personalidade: o disco é todo escrito, cantado e tocado pelo próprio Max. Em 2002 saiu este que é o meu favorito, Orchestra Klaxon, nomeado a partir da revista modernista paulistana de 1922. Desde então, Max já fez o terceiro.

Orchestra Klaxon abre com um arranjo de metais que persegue um tema ao longo da escala e anuncia a segunda faixa, "A História da Morena que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval", um soul quebradão que conta a história de uma passista que “funkeou” demais no carnaval, perdeu a cadência e custou à sua escola a vitória, uma alegoria de todo o disco, do encontro iluminado que narra o disco. Na letra de Erasmo Carlos:

/ não sabia o samba enredo / mas sorrir sabia até de cor / . . ./ sob o olhar dos refletores / sem pudor se imaginava / num imenso baile funk / só que era carnaval /

refrão: quando mais amor ela funkeava / a galera ensandecida queria mais / a morena ensandeceu a bateria / e a cadência foi ficando prá trás [bis]

tamborins em desencontro / enquanto o surdo atravessava / foram-se os pontos da escola / no quesito de harmonia / pois até o mestre-sala e a comissão de frente / se renderam ao pobres passos que a morena introduzia / momentaneamente cega pelos flashs da ilusão / mais um corpo de passistas para a fama debutou / nem pensou quando falava numa rede de TV / que foi por causa dela que a escola não ganhou.

Narrando a humilhação última para uma sambista, custar a vitória à sua escola, a canção de Max/Erasmo cria uma poderosa personagem que revira o carnaval: a galera ensandecida pedia mais e ali onde se esperava o samba miudinho entra uma quebradeira funk. Fazendo sucesso, o pior é isso. O limite entre o brasileiro e o gringo, o batuquê e o black music, esses limites todos se despedaçam. O mais lindo dessa faixa é que ela narra essa história desse “funkeamento” de uma personagem sambista numa canção de dicção funk que vai se amolejando, como se quisesse virar samba.

Orchestra Klaxon conta esse despedaçamento em várias outras formas: num sambinha clássico com iluminado trabalho de tamborim em “Calaram a Voz do Morro”, um soul mais suingado (com belíssimo bongô-zinho) em “Acapulco daqui a pouco”, outras conversas entre a bossa e o soul, que é realmente a praia de Max.

Há uma explosão de novas estéticas black na música brasileira, de Max de Castro aos mineiros do Berimbrown à paulista Paula Lima (que canta uma bela faixa anti-racista com Max em Orchestra Klaxon: "O Nêgo do Cabelo Bom").

Max traz algo que os meus favoritos da nova geração compartilham: uma verdadeira paixão por estudar a história da música brasileira, citá-la, incorporá-la. Veja-se, neste disco, a faixa “O Petit Comitê na Casa da Tia Ciata”, alusão à legendária casa onde nasceu o samba na sua forma moderna, urbana.

No dia 09 de março Max de Castro visitou o Biscoito Fino e a Massa e participou da nossa eleição dos melhores discos brasileiros de todos os tempos. Deixou-nos o seguinte presente em forma de lista, os seus favoritos:

1-Villa-Lobos Bachianas Brasileiras(2,5,1&9) Orchestre National DeLa Radiodiffusion Française Conducted By The Composer 2-The composer of desafinado plays… Tom Jobim 3-The Maestro Moacir Santos 4-Hermeto(1973) Hermeto Pascoal 5-S'imbora Wilson Simonal 6-Maria Fumaça Banda Black Rio 7-Força Bruta Jorge Ben 8-É Samba Novo Edison Machado 9-Os Afrosambas Baden Powel e Vinícius De Morais 10-Quem é quem João Donato 11-Lobo Edu Lobo 12-Beto Guedes,Danilo Caymmi,Novelli,Toninho Horta 13-Robson Jorge & Lincon Olivetti 14-Racional 1 & 2 Tim Maia 15-Nara(1963) Nara Leão

Esta resenha é dedicada a esse grande artista, enviando-lhe axé para a turnê européia que começa este mês na Ucrânia. E também é dedicada a todos os que defendem o direito de que se elogie outro ser humano de forma gratuita e incondicional, porque sim, porque faz bem reconhecer o talento, faz bem valorizar quem trabalha legal. Parabéns, Max de Castro.

PS: A indústria fonográfica continua processando garotos por troca de MP3. A diferença é que agora os garotos estão se organizando.

PS 2: Biajoni pede para avisar que hoje à noite tem pizza a partir das oito no Canto da Madalena aí em Sampa.



  Escrito por Idelber às 04:00 | link para este post | Comentários (16)



quinta-feira, 05 de maio 2005

Fragmentos de uma conversa com Leila Couceiro sobre a Esquerda

Sei que minha amiga Leila Couceiro não se importará que eu reproduza aqui no Biscoito a interação que tivemos ontem no blogleft, já que afinal o intercâmbio só envolveu uma rápida troca de idéias. Dei uma desenvolvida melhor na resposta à pergunta que Leila me colocava ontem. Dizia ela:

Uma comentarista no meu blog lembrou que, enquanto a
direita americana considera Chomsky um radical
incendiário, em seus tempos de universidade de
Jornalismo nos anos 80 a galera de esquerda o
detestava, e usava a onomatopéia "chomsky, chomsky",
para denotar um hipopótamo chafurdando na lama. E
enquanto no Brasil já dizem que Lula é de direita, nos
EUA, John Kerry, capitalista típico que até votou a
favor da guerra no Iraque, é pintado como left-wing.

De qualquer forma, sinto no Brasil uma vergonha grande
das pessoas de assumirem ou como direita ou como
esquerda. Todo mundo é de centro.

Nos EUA, tanto os progressistas quanto os
conservadores não sentem o menor pudor de declarar que
são ou direita ou de esquerda. Mesmo os que, no
Brasil, seriam considerados de centro.

Idelber, você que já mora aqui nos EUA há mais tempo,
poderia dar uma explicação para isso?


Leila, não sei se eu compartilharia uma parte da sua análise. Nos EUA a palavra left-wing, para designar uma posição política realmente assumível na arena pública, já desapareceu há bastante tempo. Ninguém aqui se diz de esquerda, nem Jesse Jackson. Nesse aspecto é no Brasil, não nos EUA, que as pessoas sentem-se à vontade para designar-se como de esquerda. Até José Genoíno e Palocci se dizem de esquerda no Brasil. No Brasil não há absolutamente nenhum problema em se dizer: 'sou de esquerda'. Na verdade, é a posição dominante.

Bem diferente em gringolândia. Nos EUA o que há 25 anos era considerado direita (digamos, as posições associadas com o reaganismo) hoje são consideradas 'centro'. Por quê? Porque a extrema direita religiosa e armamentista tomou conta do discurso político e empurrou o eixo cada vez mais para o lado deles. Gente que é completamente extremista (o vice-presidente Cheney, por exemplo) é hoje a face aceitável da polis. Se há trinta anos, ‘socialista' já era um xingamento que designava um perigoso radical, hoje em dia é a palavra 'liberal' que nomeia o suposto "extremista". Ou seja, até a palavra "liberal" já virou xingamento contra a esquerda nos EUA, tal a dominação que mantém a direita sobre os sentidos das palavras no jogo político. Veja como John Kerry fugiu do rótulo de 'liberal' como o diabo da cruz. Não vejo saída para essa avalanche lingüística da direita fora de uma quebra do sistema bi-partidário. Enquanto os democratas tiverem que parecer moderados dentro de um sistema bi-partidário a coisa está na mão da direita.

O fundamental da oposição entre direita e esquerda é que a própria dicotomia repousa sobre o fato de que a direita não se apresenta enquanto tal. O dia em que ela se apresentar como direita, os termos em que o jogo político esteve colocado até agora desmoronam. Em outras palavras: a vitória da esquerda no debate político só ocorrerá quando a direita se apresentar como direita. Aí sim, a esquerda terá imposto os termos da brincadeira. Quando isso vai acontecer? Nunca, claro. O que não quer dizer que não devamos trabalhar para que um dia aconteça.

Acho que o fenômeno que você nota é outro, Leila. O fenômeno que você nota é que nos EUA os dois campos estão mais claros. O governo é tão extremista que fica bastante fácil diferenciar progressistas de conservadores. Nos EUA ‘liberais’ são os que defendem o direito ao aborto, política externa mais multilateral, controle do porte de armas, respeito aos direitos gay, etc. No Brasil a divisória entre esquerda e direita é mais complicada porque temos um governo de esquerda implementando políticas econômicas associadas com a direita. Sendo um governo de esquerda, ele sofre ataques da direita (do PFL, por exemplo) mesmo tendo aplicado a mesma política que o pefelê aplicou. Por outro lado, há inúmeros ataques vindos da esquerda: PSOL, PSTU, independentes, a metade impotente do próprio governo, todos os já desiludidos, etc. Como o governo que define o eixo do político é um governo com credenciais de esquerda aplicando políticas de direita e sendo atacado dos dois lados (criando-se portanto um efeito de 'centralização" deste governo), a coisa toda fica menos nítida ainda. Note-se que não faço juízo de valor, estou só descrevendo o quadro. Ninguém discordaria da afirmação de que "de esquerda" essa política econômica não é. Senão o FMI não a estaria elogiando.

Como disse Caetano, no EUA branco é branco, preto é preto, e a mulata não é a tal. No Brasil a indefinição é a lei. Não é vergonha de definir o que é isto ou aquilo. É uma outra interação do mapa político com o sentido que as palavras carregam. Como Caetano, eu curto mais essa indefinição pindorâmica. Acho um pouco chata a previsibilidade que as palavras têm no jogo político norte-americano.

PS 1 O Galo venceu e está nas quartas de finais da Copa do Brasil e o próximo adversário é o Ceará. Como esperado, derrotamos o Ituano no Mineirão por 3 x 1. Que nenhum camarada atleticano conte vantagem antes de que cheguemos às finais desta joça que, lembre-se, é a única brincadeirinha do futebol nacional que o Galo jamais ganhou. Se passar pelo Ceará o Galo deve jogar semifinais no Mineirão em 01 de junho, e aí com certeza o Biscoito transmitiria de lá naquela noite. Mas primeiro tem que despachar o Ceará.

PS 2 Soltei um leve veneno a um comentarista deste belo post do Roberson.

PS 3: Eu gosto dela.

PS 4: De alguma forma em diálogo com este post sobre rótulos políticos, o post de hoje do Inagaki está armado a partir das recentes trombadas Brasil-Argentina, nessa relação que se anunciava como tão promissora depois das eleições de Lula e Kirchner.



  Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 04 de maio 2005

Blog, Cidadania

Caso de um blog como exercício anônimo de cidadania: Foi a Lucia Malla quem foi lá e fez o post sobre um importantíssimo caso noticiado pelo Times: no laborátorio nuclear Alamos, nos EUA, um blog coletivo serviu como fomento de uma rebelião contra um chefe e como forma de exercício de cidadania, anônima ainda por cima, já que se tratava de cientistas, gente escolada em andar por aí sem deixar cookies. Formou-se debate, exerceu-se cidadania, via blog. Leia o belo post de Lucia Malla.

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Caso curioso envolvendo propriedade intelectual:

Biscoito Fino e Massa 1 x 1 Alemães ladrões de textos

Volto a contar o caso porque contei faz muito e porque há novidades. O InfoBrazil encomenda e eu faço um texto sobre o governo Lula. O texto é traduzido parcialmente, em dois lugares, ao alemão sem o meu conhecimento e sem o conhecimento do pessoal do InfoBrazil. Além de traduzir recortado e sem minha autorização ou a dos anfitriões originais do texto, os caras-de-pau dos alemães – provavelmente pensando o que pensou Rod Stewart de Jorge Ben, ou seja, deste cabra paraíba podemos roubar porque não vai inteirar-se – metem-lhe o titulo “Ein selbstverliebter Messias”, um “Messias muito apaixonado por si mesmo”, palavras que eu jamais usei para referir-me ao Presidente Lula. Enfiaram palavras num texto assinado por mim, simplesmente. Claro, não imaginavam que eu lesse a língua. Ainda na casa antiga, no UOL, eu berrei aqui no blog e mandei email enraivecido para as duas instituições. Fim do capítulo 1.

O email dizia basicamente: já vi que vocês fizeram isto, traduzam a porra toda com o título certo ou tirem-na do ar. A Freitag imediatemente tirou o texto do ar, escreveu desculpando-se e explicou que estavam acostumados a reproduzir artigos da Zmag (sem explicar porque o fizeram parcialmente e com título adulterado no meu caso). A Zmag havia surrupiado o InfoBrazil mas pelo menos mantido o texto intacto. Muito bem. O pessoal desta universidade, além de surrupiar o texto, não se dignou a responder o email. Ou seja, agiram de forma lamentável. Não vou fazer nada agora, mas não elimino a possibilidade de fazê-lo no futuro. Por enquanto, fique dito: a Universität Kassel rouba e deturpa textos de maneira grosseira para suas publicações. Fim do capítulo 2.

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Por falar em cidadania: liberdade, expressão, comunicação e blogoseira são os eixos do manifesto escrito pelo pessoal do Verbeat. O portal abriga belos blogs como os de Milton Ribeiro, Gejfin, Tiagón, Olivia e vários outros blogs bacanas que ainda não explorei. O Biscoito vai colaborar produzindo a versão castelhana do texto, que já está quase pronta.

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Ainda no campo blogs-cidadania: depois um começo meio atropelado como "blog-prog", que incluiu certa confusão e a patética aparição de um coitado de um espião que se desmoralizou completamente como um pobre infeliz, está funcionando muito bem o listserve de blogueiros de esquerda. Se você é blogueiro e se identifica políticamente como de esquerda, entre em contato.


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. . . o estudo mostrou que 16% (uma de cada 6 pessoas) da população dos EUA já lê blogs. É possível que algumas pessoas estejam lendo blogs sem percebê-lo
. A história inteira, em inglês, aqui.

Nos últimos seis meses aqui em gringolândia, o leitorado dos jornais caiu em 1,9%.


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Estarei mesmo em Sampa no fim de semana de 17-20 de junho, rumo a um congresso internacional em Araraquara. Passagem confirmada. Vários amigos blogueiros paulistanos já foram contactados para pelo menos um encontro no sábado dia 18. Vou usar o blog para armar essa pizza também. Dizem até que é possível que eu entreviste admiradas escritoras.



  Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 03 de maio 2005

Previsões para o Campeonato Brasileiro

O especalista é Ubiratan Leal, que já fez suas previsões. Mas como este Biscoito acertou metade de seus pitacos para os estaduais (acertei RS, PR, SP, BA), aqui vão os palpites para o Brasileirão.

1. O Fortaleza não será rebaixado. Levará algumas tamancadas fora de casa mas acumulará pontos suficientes no Castelão para permanecer na primeirona. Eu torço por isso. Torço pela volta de pelo menos um clube baiano à primeira divisão.

2. Já existe jogador carioca anunciando que com as vitórias nas duas primeiras rodadas o futebol do Rio renasceu. Bobagem. Só o Fluminense tem alguma chance de ir à Libertadores. Flamengo, Vasco e Botafogo lutarão na parte de baixo da tabela e se brincarem encaram degola. Triste decadência daquela que Jorge Ben cantou como ‘a capital do futebol’.

3. Internacional, Cruzeiro e Atlético-PR foram alardeados por setores da imprensa como os únicos não-paulistas com chances de abocanhar o título. Acho que os três têm condições de brigar por vagas nos torneios latino-americanos, mas nenhum deles leva o caneco. Acho que falta banco a essas três equipes.

4. Meus favoritos para o rebaixamento: Juventude e Paraná Clube. Muita gente comemoraria se o primeiro caísse: ninguém merece jogar na serra gaúcha no inverno, não é mesmo? O Paraná Clube deve cair porque o PR está um pouco sobre-representado no Brasileirão (3 times, enquanto Bahia e Pernambuco estão fora) e também porque o clube possui o uniforme mais feio do Brasil. Eu também não me importaria que o Brasiliense voltasse à segundona. Time meio antipático. E não há nenhuma grande necessidade de que o DF tenha representação na primeira divisão.

5. Claro que o estado das coisas no campeonato muda no meio do ano, quando os times brasileiros são acossados pela grana européia, os jogadores mais talentosos e promissores vão embora e reiniciamos o anual encontro com a sina e miséria do nosso futebol, apesar da riqueza de talentos.

6. Quem será o campeão? Um dos seguintes cinco times: São Paulo, Santos, São Caetano, Palmeiras ou Atlético-MG. Aposto nos quatro primeiros porque o futebol de São Paulo continua bem superior ao do resto do Brasil. Não aposto no Corinthians porque não acredito que a linha de contratações imposta pela MSI no clube leve a qualquer lugar. Não deixo de apostar no Galo porque, ora bolas, é o meu time.

7. Por falar em Galo, o Tristão tem razão: faltam ao Atlético quatro zagueiros. Dois titulares e dois reservas. Lamento se houver algum parente ou amigo do Adriano lendo o Biscoito em BH, mas quem convenceu aquele rapaz de que ele podia jogar futebol não tinha nada na cabeça. Com 36 anos e 2 décadas de Carltons e Marlboros nos pulmões eu jogo mais que ele. Pelo menos uma testada na bola para dentro do meu próprio gol, aos 46 do 2º tempo, com meu time ganhando de 3 x 2 e quebrando um tabu de 35 anos, um gol contra maldito desses, eu garanto que eu não faria. Esse rapaz já fez sérios danos ao meu coração ao tentar sair jogando com a bola. Se a diretoria conseguir entregar um ou dois bons zagueiros ao Tite, prestem atenção no Galo.

8. Não seria legal se mais gente contribuísse com a Wikipedia em português? Eu fui lá ontem e acrescentei algumas frases ao verbete sobre o Galo. Ficou bacaninha.

9. Blogosfera de Minas Gerais, que tal irmos todos ao Mineirão no dia 29 de maio ver Clube Atlético Mineiro x Selección Argentina del Corinthians? Eu estarei com lá com certeza. Quem sabe a gente não faz um podcast com o Mineirão lotado? Como eu amo a primeira pisada no Mineirão depois de regressar do exterior. Há 15 anos é um vício.

Vai uma aposta aí?



  Escrito por Idelber às 04:26 | link para este post | Comentários (39)



segunda-feira, 02 de maio 2005

Balanço do Jazz Fest 2005

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Um balanço do JazzFest 2005 daria um livro, mas aqui vai um resumo telegráfico do dia de encerramento.

Dia de sol, 27 graus centígrados, céu azul, sol brilhando. A bela programação dos 12 palcos deste domingo era esta. Demorei um pouco para tomar café e sair. Acabei perdendo o show das 11, dos Revealers, que são uma excelente banda de reggae de New Orleans.

11:45. Já com os Revealers fechando o show deles, chego e trombo com uma turistada barriguda do Texas e tento ser gentil e dar informação (não, eu não tenho preconceito contra texanos, apesar do que eles fizeram com este planeta):

Hipódromo: nos dois extremos há os palcos maiores, Acura e Sprint, onde mega-artistas de todos os gêneros se apresentam. Entre eles, de um lado há Congo Square, palco médio, mas com espaço imenso para a platéia (ali toca-se música afro-atlântica de vários lugares) e atrás dele, Fais-do-do, palco menor, ainda ao ar livre, onde se toca música de acordeão. Entre esses e a outra extremidade, a das barraquinhas de comida, há duas fileiras de tendas fechadas: blues, gospel e WWOZ (jazz experimental) de um lado, e do outro lado uma tenda de jazz dixieland (de velhos dançando de guarda-chuvinha) e um palco menor de músicas folclóricas. Ao fundo, um pavilhão com ar condicionado, dois andares e outro palco médio. Keep your schedules with you, move around, and have fun, turistada.

É a geografia do JazzFest.

Foi a primeira e única informação que dei no dia, a esses barrigudos do Texas.

12:00. Acompanhei um pouco do batuquê e das belas fantasias dos Mardi Gras Indians.

12:20. Primeiro petardo do dia. Jazz Tent: show do Naked on the Floor. Parei lá por acaso. Não conhecia esse novo projeto envolvendo James Singleton, um dois maiores, senão o maior baixista acústico de New Orleans e Tim Green, um dos maiores saxofonistas da cidade (acredite, ser isso é muitíssimo, é como ser o melhor pandeirista do Rio de Janeiro ou o melhor contista de Buenos Aires). Jonathan Freilich na guitarra, poderoso trombone de Rick Trolsen e bateria cacetada de Mark Diflorio. Havia tecladista convidado. Alucinei.

Em que consistia, Pedrão? Brincadeiras dissonânticas de jazz de vanguarda de longa tradição aqui, mas acrescidas de toque especial: cozinha que vai ficando cada vez mais quebradona, afro-atlântica, ao longo do show. Seção rítmica quase de um funk. Singleton sincopa no baixão e faz caretas incríveis. Trombone comendo. Palmas em ritmo de clave (2/3) da platéia. O público da recatada, circunspecta e vanguardista WWOZ tent não chega a levantar para dançar (como um dia fez com Hermeto Paschoal) mas quase isso. Excelente começo de último dia de JazzFest.


Rango rápido a caminho de Congo Square: fantástico sanduba de siri mole. Cervejinha.

1:20. Pego em Congo Square o final do show de Euricka, cantora também neworleaniana que vai do soul ao hip hop. Momento bonito: sua filhinha de 4 /5 anos vem dançar no palco e mostra o remelexo de blackitude que alguns brancos brasileiros até possuem, mas que em branco gringo eu nunca vi. A música não é nada do outro mundo, mas a banda é competente e o show é bem produzido.

Já no final do show do Euricka, jovens branquelos de blusas negras de mangas compridas (pessoal de fora de New Orleans, com certeza, espécie de rockeiro gótico depois da chuva) me oferece o tapinha! Dou-lhes um sorriso, digo que passou minha época, fico de frente para eles e de costas para o palco até que terminem, fazendo a parede-zinha básica e zarpo para Fais-do-do, com vontade de conferir a banda cajun.

1:50. Segundo petardo. A Jambalaya Cajun Band é excelente. Na platéia, os pares de bailarinos dão show de bola.

(Pausa de utilidade pública: se você lê o Biscoito e até hoje confunde Cajun com Creole, música cajun com zydeco, está na hora de acabar a confusão. Cajun vem de Acadians, canadenses francófonos que se fixam na Louisiana no século XVIII; é música de branco, de cigano, com rabeca ou violino (fiddle) e parentesco rítmico com músicas de salão européias como a polca. Pode entrar acordeão, mas a brincadeira é puxada pelas cordas. Zydeco é primo do forró, música necessariamente de acordeão, moderna, de base rítmica afro-atlântica, difusão massiva, já até com um toque de rhythm’n’blues na sua constituição. São tradições que não têm nada a ver, a não ser, claro, o fato de que se encontraram neste bendito estado da Louisiana)


2:15. A idéia era ficar em Fais-do-do e esperar a banda de zydeco, mas volto a Congo Square por pura curiosidade pelo nome do artista: Michael Franti e Spearhead. Terceiro petardo. A música é somente um soul ou baladas rock competentes, boas letras, um Lenny Kravitz melhorado (inclusive fisicamente), mas assombra-me a comunicação do cara com o público. Homem realmente carismático, põe uma enorme multidão (Congo Square estava lotada) para bater palmas e marcar ritmo.

Conta de sua visita a Bagdá, protesta contra a guerra, emociona o público. Dedica uma canção a todas as vítimas da guerra, o que nos EUA – onde só se fala dos gringos mortos – é sempre um gesto bonito. Não chega a me emocionar, mas fico fã do cara. Mulherada, guardem o nome: Michael Franti, vocês vão gostar. Tem presença.

2:45. Distraio-me tanto no show do cara que saio atrasado para a tenda de gospel, onde vai cantar Aaron Neville, superstar e membro da mais ilustre família musical de New Orleans.

Antes de Aaron, pausa para o segundo rango. Sabendo que é minha antepenúltima refeição do JazzFest 2005, hesito bastante entre o sanduba cubano, o bolinho de lagostim e o prato africano com frango no espeto, espinafre e banana assada. Termino não optando por nenhum deles: vence o franguinho ensopado jamaicano. Bem apimentado. Maravilha.

Cervejinha.

Chego à tenda quando Aaron já está cantando. Profundo respeito na platéia. Tenda lotadaça. Se naquela tenda cabem umas 700 pessoas sentadas, devia haver umas 1200 em total, entre as sentadas, as de pé e todas as que ficaram em volta da tenda: um fuzuê. Favorecido pela magreza, vou entrando, me ajeitando, macaco velho de JazzFest, em 5 minutos estou sentado num camarote: gospel da melhor qualidade, emoção incrível nas palmas e sacolejos do público.

4:00. Antes de zarpar para ver o jazz experimental de Terence Blanchard, decido comer outro ranguinho: bolinhos fritos de lagostim.

4:15. Terence Blanchard, trumpetista de New Orleans que primeiro ganhou fama numa banda do grande Art Blakey, tocou nesta sexta na Itália, no sábado em Nova York, acordou domingo de madruga e pegou o avião para chegar ao JazzFest na sua terrinha. Belo show, mais para o lado introspectivão, que eu só acompanho até a metade.

5:00. Ainda emocionado com os picos do contralto de Aaron há uma hora atrás, volto para a tenda de gospel. Quarto petardo: Dr. Charles Hayes and Cosmopolitan Church of Prayer Choir é um super grupo de Gospel, pelo menos 20 vocalistas, pelo menos 6 pandeiros, Yamahão e sintetizador, baixo, guitarra e bateria.

De novo explorando a magreza, eu chego até a zona frontal, onde o público é predominantemente neworleaniano, ou seja negro, ou seja entendido de gospel. Sinto-me mais à vontade em meio a meus co-cidadãos que à turistada branca barriguda. O show vai num super crescendo.

Reconheço, nas palmas e no saculejo, meus ex-vizinhos do Tremé – o mais antigo bairro negro da América do Norte e o som do gospel já é contagiante ao ponto de deixar o blogueiro ateu cantando "Jesus, Jesus"! Pedro, não é que o espírito baixa mesmo?

Pauleira incontrolável da pandeirada, um baixo e uma bateria impecáveis, e as 12 vozes femininas, com as 8 vozes masculinas, fazendo um coral de arrepiar. Saio da tenda de gospel literalmente falando em voz alta, eu, ateu, meu deus, muito obrigado porque existe New Orleans.

Zarpo dali para o fechamento do Jazzfest, que é o de todos os anos. O último show do mega-palco Acura no último domingo é sempre dos legendários Neville Brothers. Eu sou veterano de mais de vinte shows dos Neville, mas o deste domingo foi o mais emocionante que eu já vi.

Ser dos Neville Brothers e fechar um JazzFest é como ser Milton Nascimento recebido por uma Praça do Papa lotada, ser uma Rita Lee reencontrando-se com uma multidão na Praça da Sé, ser um Kleiton e Kledir voltando à Cidade Baixa.

O público lhes dá as boas-vindas.

O apresentador diz que de toda a riqueza musical de New Orleans, aquela banda ali reunida era somente a quarta a mudar a música do planeta, depois de Louis Armstrong, Mahalia Jackson e Fats Domino.

Já discordo, achando que pelo menos mais dez artistas de New Orleans mudaram a música do planeta, para começar Jelly Roll Morton e Professor Longhair. Mas não é hora para discussão.

Entram Charles, no sopro, Art, o mais velho, nos teclados, Aaron de novo, Cyril. Depois de passar pela prisão, drogas, violência policial, conflitos políticos, transformações musicais, essa família parece tocar e cantar com a serenidade dos grandes. Charles dá um show nos metais. Nós, os "locais", somos maioria e cantamos os sucessos. Além dos irmãos, chega a participação especial de Ivan, filho de Aaron, nos teclados e Ian, filho de Aaron, na guitarra elétrica. Show vai do uptempo ao mid-tempo ao slow tempo de volta ao super funkão de New Orleans. De 6 às 7, os Neville revisitam 30 anos de funk/soul num show inesquecível: metade do show com ênfase nas canções mais líricas, a outra metade mais quebradona e sincopada.

Na saída ainda comi um pratinho de carne de porco com macarrãozinho vermicelli vietnamita.

Exausto, com sete horas de música na veia. Não preciso mais ver shows de música durante um mês. O próximo será em Belo Horizonte. Depois me avisem se a imprensa aí disse algo sobre o JazzFest 2005.

PS: A foto de Charles e Aaron Neville que ilustra o post foi tirada neste domingo e é cortesia de Christopher Dunn, outro viciado em JazzFest.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (16)



domingo, 01 de maio 2005

Fenomenologia da Fumaça, Semana 9 - Balanço Parcial

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Um dos mais talentosos escritores da nova geração, Luiz Biajoni, visitou esta fenomenologia da fumaça na sua segunda semana (ainda na velha casa, no UOL) e deixou o seguinte relato:

A mãe de um amigo, a dona Nico (não sei o nome, todo mundo chama ela assim) foi internada para cirurgia cardíaca, fumava dois maços por dia. internou dois dias antes para remédios, desintoxicar, etc... na noite anterior à operação ela saiu de fino do hospital, fugiu prum boteco... se empanturrou de coxinha e croquete e fumou uns PAR de cigarro. voltou com o maço para o hospital. lá pelas tantas, deu vontade de fumar. mas ela esqueceu os fósforos! saiu pelo hospital caçando fósforos. foi encontrada sentada num corredor, cigarro na boca, esfregando duas pedrinhas perto do algodão com alcool que tinha sido colocado na veia dela, junto com o soro. não é piada! é real!


Assim como no relato contado por Biajoni, em muitos outros nós vemos essa figura, o fumante reduzido à lama da lama. Guimbas catadas no chão, cigarros filados por qualquer motivo, tosse e mais fumaça na madrugada, pacientes terminais no hospital fumando cigarros pelo orifício do tubo alimentar.

Faz dois meses e meio que deixei de fumar e iniciei aqui uma espécie de relato periódico da experiência. Na semana passada tive recaídas com dois ou três cigarros “de festa”. Nesta semana aconteceu de novo: dois cigarros na quarta-feira (comemoração do final das aulas) e mais dois cigarros na sexta-feira (crawfish boil, festa com lagostins cozidos num panelão, tradição de New Orleans).

O paradigma é claro: tenho segurado bem a onda, contanto que não me aproxime de um bar ou de uma festa. Morando numa cidade que é pura celebração o tempo todo, a tarefa fica duplamente difícil.

Como, a partir de agora, com o fim do semestre letivo, eu estarei em mais festas do que tem sido o caso, há motivo para muita preocupação.

Mas também há algo para se comemorar. No começo do ano eu tinha muito desejo de deixar de fumar, mas o semestre que se avizinhava incluía cinco ou seis viagens para dar sete ou oito palestras sobre temas diferentes, dois cursos bem puxados, uma infinidade de obrigações administrativas na universidade, uma série de compromissos com editoras e revistas, oito ou nove alunos de doutorado fazendo tese comigo, um blog que estava crescendo muito e, para completar, uma casa inteira para transferir para o Brasil, por um ano. Mesmo assim resolvi encarar a tarefa, com a ajuda de vocês e do blog.

A grande notícia é: eu consegui!

A péssima notíca é: eu continuo morrendo de vontade de fumar em todas as festas e reuniões onde se consome cerveja. Não, eu não aceito abrir mão da minha cerveja. Aí já seria demais.

A perpectiva complicada é que, em Belo Horizonte, apesar de que eu possuo minha própria casa (paraíso-zinho reservado para mim, Alexandre e Laura, meus filhos), boa parte das refeições, reuniões de família para futebol e outras coisas são feitas na casa de minha mãe e de meus irmãos, todos eles fumantes inveterados. Na casa de minha mãe até o cachorro fuma. Manter minha resolução significará reduzir drasticamente o tempo passado na casa da família, ou sucumbiria, especialmente estando de sabático (‘férias”) e não tendo obrigações de trabalho imediatas para cumprir.

Então esse é o estado da coisa, caro Artemus, caro Tabac. Resolvi dar um tempo das elocubrações “teóricas” que tem acompanhado esta fenomenologia (voltarei a elas) e fazer um balanço real:

75 dias sem fumaça, excluídos aí aproximadamente sete ou oito cigarros fumados nos últimos quinze dias.

A alimentação continua cada vez melhor e mais variada, e a comida continua recuperando o gosto. Já consigo diferenciar até mesmo a couve do almeirão, coisas que para mim eram indistinguíveis a não ser pela visão. Texturas que antes eram imperceptíveis começam a conversar com meu paladar.

Cabelo, barba e tudo mais continuam recuperando o cheiro que deveriam ter tido desde sempre.

As energias corporais várias continuam na ascendente.

Mas por alguma razão, minha atitude neste momento é de um otimismo bem moderado e bem parcial.

Durante os próximos 28 dias, terei que fazer o que não faço há três anos: desmontar uma casa, enviar ao Brasil o que tem que ser enviado, estocar o resto e preparar tudo para que eu possa trabalhar, blogar e curtir meus filhos em Belo Horizonte pelos próximos 8 meses. Será um período de certa tensão e muita correria. Será importante não ceder à tentação do cigarro antes da viagem, porque durante a estadia em BH ela será muito, muito grande.

Apesar de que New Orleans é uma cidade muito festiva, é bem mais fácil manter a resolução aqui do que no Brasil, onde a tendência é estar rodeado de amigos fumando. Ainda não eliminei a possibilidade de recorrer ao tal do Zyban, que dizem que é poderosíssimo. Veremos.

A citação do dia vem de Arturo Toscanini, e é das mais inspiradoras: Beijei a minha primeira garota e fumei meu primeiro cigarro no mesmo dia. Desde então não tive mais tempo para o cigarro.



  Escrito por Idelber às 02:47 | link para este post | Comentários (33)