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segunda-feira, 02 de maio 2005

Balanço do Jazz Fest 2005

nevilles-2.jpg

Um balanço do JazzFest 2005 daria um livro, mas aqui vai um resumo telegráfico do dia de encerramento.

Dia de sol, 27 graus centígrados, céu azul, sol brilhando. A bela programação dos 12 palcos deste domingo era esta. Demorei um pouco para tomar café e sair. Acabei perdendo o show das 11, dos Revealers, que são uma excelente banda de reggae de New Orleans.

11:45. Já com os Revealers fechando o show deles, chego e trombo com uma turistada barriguda do Texas e tento ser gentil e dar informação (não, eu não tenho preconceito contra texanos, apesar do que eles fizeram com este planeta):

Hipódromo: nos dois extremos há os palcos maiores, Acura e Sprint, onde mega-artistas de todos os gêneros se apresentam. Entre eles, de um lado há Congo Square, palco médio, mas com espaço imenso para a platéia (ali toca-se música afro-atlântica de vários lugares) e atrás dele, Fais-do-do, palco menor, ainda ao ar livre, onde se toca música de acordeão. Entre esses e a outra extremidade, a das barraquinhas de comida, há duas fileiras de tendas fechadas: blues, gospel e WWOZ (jazz experimental) de um lado, e do outro lado uma tenda de jazz dixieland (de velhos dançando de guarda-chuvinha) e um palco menor de músicas folclóricas. Ao fundo, um pavilhão com ar condicionado, dois andares e outro palco médio. Keep your schedules with you, move around, and have fun, turistada.

É a geografia do JazzFest.

Foi a primeira e única informação que dei no dia, a esses barrigudos do Texas.

12:00. Acompanhei um pouco do batuquê e das belas fantasias dos Mardi Gras Indians.

12:20. Primeiro petardo do dia. Jazz Tent: show do Naked on the Floor. Parei lá por acaso. Não conhecia esse novo projeto envolvendo James Singleton, um dois maiores, senão o maior baixista acústico de New Orleans e Tim Green, um dos maiores saxofonistas da cidade (acredite, ser isso é muitíssimo, é como ser o melhor pandeirista do Rio de Janeiro ou o melhor contista de Buenos Aires). Jonathan Freilich na guitarra, poderoso trombone de Rick Trolsen e bateria cacetada de Mark Diflorio. Havia tecladista convidado. Alucinei.

Em que consistia, Pedrão? Brincadeiras dissonânticas de jazz de vanguarda de longa tradição aqui, mas acrescidas de toque especial: cozinha que vai ficando cada vez mais quebradona, afro-atlântica, ao longo do show. Seção rítmica quase de um funk. Singleton sincopa no baixão e faz caretas incríveis. Trombone comendo. Palmas em ritmo de clave (2/3) da platéia. O público da recatada, circunspecta e vanguardista WWOZ tent não chega a levantar para dançar (como um dia fez com Hermeto Paschoal) mas quase isso. Excelente começo de último dia de JazzFest.


Rango rápido a caminho de Congo Square: fantástico sanduba de siri mole. Cervejinha.

1:20. Pego em Congo Square o final do show de Euricka, cantora também neworleaniana que vai do soul ao hip hop. Momento bonito: sua filhinha de 4 /5 anos vem dançar no palco e mostra o remelexo de blackitude que alguns brancos brasileiros até possuem, mas que em branco gringo eu nunca vi. A música não é nada do outro mundo, mas a banda é competente e o show é bem produzido.

Já no final do show do Euricka, jovens branquelos de blusas negras de mangas compridas (pessoal de fora de New Orleans, com certeza, espécie de rockeiro gótico depois da chuva) me oferece o tapinha! Dou-lhes um sorriso, digo que passou minha época, fico de frente para eles e de costas para o palco até que terminem, fazendo a parede-zinha básica e zarpo para Fais-do-do, com vontade de conferir a banda cajun.

1:50. Segundo petardo. A Jambalaya Cajun Band é excelente. Na platéia, os pares de bailarinos dão show de bola.

(Pausa de utilidade pública: se você lê o Biscoito e até hoje confunde Cajun com Creole, música cajun com zydeco, está na hora de acabar a confusão. Cajun vem de Acadians, canadenses francófonos que se fixam na Louisiana no século XVIII; é música de branco, de cigano, com rabeca ou violino (fiddle) e parentesco rítmico com músicas de salão européias como a polca. Pode entrar acordeão, mas a brincadeira é puxada pelas cordas. Zydeco é primo do forró, música necessariamente de acordeão, moderna, de base rítmica afro-atlântica, difusão massiva, já até com um toque de rhythm’n’blues na sua constituição. São tradições que não têm nada a ver, a não ser, claro, o fato de que se encontraram neste bendito estado da Louisiana)


2:15. A idéia era ficar em Fais-do-do e esperar a banda de zydeco, mas volto a Congo Square por pura curiosidade pelo nome do artista: Michael Franti e Spearhead. Terceiro petardo. A música é somente um soul ou baladas rock competentes, boas letras, um Lenny Kravitz melhorado (inclusive fisicamente), mas assombra-me a comunicação do cara com o público. Homem realmente carismático, põe uma enorme multidão (Congo Square estava lotada) para bater palmas e marcar ritmo.

Conta de sua visita a Bagdá, protesta contra a guerra, emociona o público. Dedica uma canção a todas as vítimas da guerra, o que nos EUA – onde só se fala dos gringos mortos – é sempre um gesto bonito. Não chega a me emocionar, mas fico fã do cara. Mulherada, guardem o nome: Michael Franti, vocês vão gostar. Tem presença.

2:45. Distraio-me tanto no show do cara que saio atrasado para a tenda de gospel, onde vai cantar Aaron Neville, superstar e membro da mais ilustre família musical de New Orleans.

Antes de Aaron, pausa para o segundo rango. Sabendo que é minha antepenúltima refeição do JazzFest 2005, hesito bastante entre o sanduba cubano, o bolinho de lagostim e o prato africano com frango no espeto, espinafre e banana assada. Termino não optando por nenhum deles: vence o franguinho ensopado jamaicano. Bem apimentado. Maravilha.

Cervejinha.

Chego à tenda quando Aaron já está cantando. Profundo respeito na platéia. Tenda lotadaça. Se naquela tenda cabem umas 700 pessoas sentadas, devia haver umas 1200 em total, entre as sentadas, as de pé e todas as que ficaram em volta da tenda: um fuzuê. Favorecido pela magreza, vou entrando, me ajeitando, macaco velho de JazzFest, em 5 minutos estou sentado num camarote: gospel da melhor qualidade, emoção incrível nas palmas e sacolejos do público.

4:00. Antes de zarpar para ver o jazz experimental de Terence Blanchard, decido comer outro ranguinho: bolinhos fritos de lagostim.

4:15. Terence Blanchard, trumpetista de New Orleans que primeiro ganhou fama numa banda do grande Art Blakey, tocou nesta sexta na Itália, no sábado em Nova York, acordou domingo de madruga e pegou o avião para chegar ao JazzFest na sua terrinha. Belo show, mais para o lado introspectivão, que eu só acompanho até a metade.

5:00. Ainda emocionado com os picos do contralto de Aaron há uma hora atrás, volto para a tenda de gospel. Quarto petardo: Dr. Charles Hayes and Cosmopolitan Church of Prayer Choir é um super grupo de Gospel, pelo menos 20 vocalistas, pelo menos 6 pandeiros, Yamahão e sintetizador, baixo, guitarra e bateria.

De novo explorando a magreza, eu chego até a zona frontal, onde o público é predominantemente neworleaniano, ou seja negro, ou seja entendido de gospel. Sinto-me mais à vontade em meio a meus co-cidadãos que à turistada branca barriguda. O show vai num super crescendo.

Reconheço, nas palmas e no saculejo, meus ex-vizinhos do Tremé – o mais antigo bairro negro da América do Norte e o som do gospel já é contagiante ao ponto de deixar o blogueiro ateu cantando "Jesus, Jesus"! Pedro, não é que o espírito baixa mesmo?

Pauleira incontrolável da pandeirada, um baixo e uma bateria impecáveis, e as 12 vozes femininas, com as 8 vozes masculinas, fazendo um coral de arrepiar. Saio da tenda de gospel literalmente falando em voz alta, eu, ateu, meu deus, muito obrigado porque existe New Orleans.

Zarpo dali para o fechamento do Jazzfest, que é o de todos os anos. O último show do mega-palco Acura no último domingo é sempre dos legendários Neville Brothers. Eu sou veterano de mais de vinte shows dos Neville, mas o deste domingo foi o mais emocionante que eu já vi.

Ser dos Neville Brothers e fechar um JazzFest é como ser Milton Nascimento recebido por uma Praça do Papa lotada, ser uma Rita Lee reencontrando-se com uma multidão na Praça da Sé, ser um Kleiton e Kledir voltando à Cidade Baixa.

O público lhes dá as boas-vindas.

O apresentador diz que de toda a riqueza musical de New Orleans, aquela banda ali reunida era somente a quarta a mudar a música do planeta, depois de Louis Armstrong, Mahalia Jackson e Fats Domino.

Já discordo, achando que pelo menos mais dez artistas de New Orleans mudaram a música do planeta, para começar Jelly Roll Morton e Professor Longhair. Mas não é hora para discussão.

Entram Charles, no sopro, Art, o mais velho, nos teclados, Aaron de novo, Cyril. Depois de passar pela prisão, drogas, violência policial, conflitos políticos, transformações musicais, essa família parece tocar e cantar com a serenidade dos grandes. Charles dá um show nos metais. Nós, os "locais", somos maioria e cantamos os sucessos. Além dos irmãos, chega a participação especial de Ivan, filho de Aaron, nos teclados e Ian, filho de Aaron, na guitarra elétrica. Show vai do uptempo ao mid-tempo ao slow tempo de volta ao super funkão de New Orleans. De 6 às 7, os Neville revisitam 30 anos de funk/soul num show inesquecível: metade do show com ênfase nas canções mais líricas, a outra metade mais quebradona e sincopada.

Na saída ainda comi um pratinho de carne de porco com macarrãozinho vermicelli vietnamita.

Exausto, com sete horas de música na veia. Não preciso mais ver shows de música durante um mês. O próximo será em Belo Horizonte. Depois me avisem se a imprensa aí disse algo sobre o JazzFest 2005.

PS: A foto de Charles e Aaron Neville que ilustra o post foi tirada neste domingo e é cortesia de Christopher Dunn, outro viciado em JazzFest.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (16)


Comentários

#1

Putz! Agora eh q fiquei com vontade MESMO de ir ao Jazzfest! Jazz experimental! Isso eh lindo!!!

Não acredito que você morou aqui e não visitou, Lu! É bem-vinda a qualquer hora, você sabe!

Lucia Malla em maio 2, 2005 5:35 AM


#2

Posso confessar uma coisa ?

Eu detesto jazz. :)


pois é, jazz mesmo é 20% da brincadeira. Dá prá ir 7 dias e ver só outras coisas. ou o recadinho era irônico? heheh! Premissas! .

smart shade of blue em maio 2, 2005 7:26 AM


#3

Cara, eu VIAJO nos seus posts de jazz!!!
Beijão.


que bom!

Viva em maio 2, 2005 7:58 AM


#4

Idelber, estava com saudades, vim te visitar e me surpreendi com o Balanço do Jazz Fest 2005. Que fôlego, uau!!! Li também Fenomenologia da Fumaça, Semana 9 e queria te dar força mais uma vez. Para mim são 3 meses depois de amanhã e estou ainda com uma vontade feroz, mas juro a você que fumei zero cigarros desde que comecei. Nem em festa, nem com cerveja, nada. Trata-se de uma "auto-sugestão" de que o meu nojo é maior do que a minha vontade. Zyban parece que ajuda muito, mas ainda não me decidi. Outra coisa: sabe porque estamos nesse estado? Porque de um ou dois anos para cá (por causa do custo e do aumento da publicidade contra o fumo) foram adicionadas aos cigarros novas substâncias que causam dependência. Substâncias estas que são quase tão fortes quanto as das drogas pesadas. Isto me foi contado por médicos. Que m..., não? Te deixo um grande beijo, esperando que no Brasil você continue forte! :)

Sheila em maio 2, 2005 8:15 AM


#5

Ah, sim! Me desculpe o off-post, off-jazz :) Bisou


você posta sobre o que quiser em qualquer caixa que queira e será sempre um prazer, Sheila! Que alegria saber que vai bem na luta contra o cigarro. Parece que o blog, sim, exerce uma força incrível, né? Acabei de voltar la do QOC.... um beijo,

Sheila em maio 2, 2005 8:19 AM


#6

Além da inveja pelo Festival, ainda vi meu time perder um jogo ganho, ganho, ganho... Daqueles que é só não fazer bogagem. Mas fizemos.

e isso é porque o Colorado é candidato ao título. Imagina se não fosse!

Milton Ribeiro em maio 2, 2005 9:38 AM


#7

eita idelber. quanta riqueza chafurdando tua carne. é a flor encontrando o rumo dos lábios. é aurora vindo para desmentir. fiquei aqui querendo espiar tanta coisa. tantos pruridos de mar. me contorci


foi muito prurido, poeta. dessa vez foi. ainda esqueci de falar da bandeira verde-amarela que vi .

mario cezar em maio 2, 2005 11:45 AM


#8

Ah, eu ADORO Jazz, blues, soul, gospel, e qualquer coisa que tenha raiz, por mais distante que seja, na África.

As exceções ficam pro rock, axé music e pagode.


não gosta de rock? como pode não gostar de rock?

Daniela em maio 2, 2005 12:01 PM


#9

idelber, sensacional, me pareceu o mais perfeito espírito de "quando/onde tudo se mistura"...

tenho que confessar minha ignorância sobre a imensa maioria dos artistas que você cita... mas comungo (hehehe) com essa sua impressão de ateu (hoje eu andaria mais pro agnóstico, mas sei lá...) que sucumbe diante dos milagres da "alma" e do deus da música... dá-lhe!

(a descrição da parte gastronômica também foi das mais invejáveis... cá na praça, ao som simbólico daquele outro que também adora "jesus cristo", o almoço foi mineirim mesmo, um mexidão à mineira com direito a torresmos, bananas fritas e bolinhos de mandioca com carne seca desfiada... vem que tem!, hehehehe)

pedro, com certeza aí vamos rumo ao mixidão. e vamos botar água no feijão / que eu tô chegando / aquela coisa toda. metade desses nomes aí não tem muita graça em disco não, a brincadeira é ao vivo mesmo. agitemos o lançamento em BH. axé babá .

pedro em maio 2, 2005 12:04 PM


#10

How fun! E gostei da reportagem em ordem cronológica. Tomara que os barrigudos do Texas tenham desmaiado de cansaço e desidratação.


ou de empanturramento, que acaba sendo o que derruba metade aqui no bayou :)

Leila em maio 2, 2005 4:23 PM


#11

Nossa passo uns dias sem poder vir aqui...e encontro este Jazz Fest 2005, fantástico digno de um delicioso texto como este...
Prazer em retornar aqui...
Abraços

Tânia em maio 2, 2005 9:04 PM


#12

"Não preciso mais ver shows de música durante um mês." E pelo visto vai ficar sem comer lagostine por um ano. Beijos, Renata :P

Renata em maio 2, 2005 11:12 PM


#13

uma constatação e uma dúvida:
- daqui a pouco vc se transforma no LAGOSTIMAN! o super herói VERMEIO de NIU ORLINS! cuidado!
- DR JOHN é dessas plagas, né? ele sumiu! não toca nesses festivais?
:>)

Biajonicus, Dr. John é daqui sim, é patrimônio de New Orleans e tem cadeira cativa no JazzFest. Adorei o lagostiman!.

Biajoni em maio 3, 2005 9:00 AM


#14

"Karl Denson's Tiny Universe", had fantastic energy, an incredible funk, afrobeat six piece band, had the whole Acura stage jumping, definitely one of my highlights. "Michael Franti and Spearhead" rap influenced funk was another, politically charged lyrics and inspiring music, anti-establishment messages in this time of conservatism were welcomed! Most at Congo thought so. And it is always refreshing to see New Orleans' own Afro Cuban jazz band "Otra", whose pounding, together performance at the Lagniappe got my dancing feet off to a good if late start on this wonderful last day of the Fest which I also ended with the soulful, inspiring Nevilles who never fail to leave me with such deep gratitude that I live in this city.


Dear Maureen: you're lovely! Thanks for stopping by! I too had a great time with Michael Franti and I too was left mesmerized by the Nevilles this time. My gratitude for living here never fails be renewed at JazzFest. Be welcome, always, on this blog!

Maureen em maio 3, 2005 10:59 AM


#15

A viagem que estou planejando fazer com meus filhos a New York e Flórida, em 2006, está indo para o ralo. Vai ter briga, mas eu quero ir a New Orleans. Sempre quis. Mas, depois deste post, é mandatório.

Idelber, aí tem algum evento de grande porte no segundo semestre? por volta de setembro ou outubro?


Caro Bear: setembro o calor ainda é um pouco bravo. Em outubro já estás em plena temporada de festas, com o calendário de música no auge, "second lines" pelas ruas e tal. Qualquer época de setembro a maio vale a pena, mas o melhor mesmo é o JazzFest. Abraço,

Bear em maio 3, 2005 10:49 PM


#16

Conheci a música de Michael Franti ano passado em minhas pesquisas-buscas na internet. Lenny Kravitz melhorado? ... Achei mei blasê a sua analise o cara é um pouco mais que isso, né não? Infim, mas onde diabos fica esse JazzFest de tantas novidade e presenças marcantes que no ano que vem eu quero ir, tche!
Sergio / Rio

sergio millan em novembro 3, 2005 4:42 PM