« Mais Dois Palestinos Assassinados ::
Pag. Principal
:: Notas de leitura »
segunda-feira, 09 de maio 2005
Por que os gringos não gostam de futebol
(esta crônica é conhecida só dos primeiríssimos leitores do Biscoito, pois ela esteve publicada na última página da velha casa. Aparece aqui recauchutada e com novos links)
Do Japão ao Paraguai, da Tailândia à Espanha, dos territórios ocupados da Palestina à Africa do Sul, o futebol reina inconteste como o favorito da esmagadora maioria. O belo filme A Copa, do cineasta Khyentse Norbu, mostra a deliciosa saga de um grupo de monges budistas tibetanos durante a copa de 1998, proibidos de assistir os jogos pelo monge-mor. No meio da tentativa comovente de alugar uma televisão e ver a final entre Brasil e França, o adolescente aprendiz de monge apostava: Ronaldo vai arrebentar. . .. Acertou, claro, mas com quatro anos de atraso.. O futebol é o mais próximo que o século XX chegou à unanimidade total no esporte.
Mas nos EUA, como esporte de massas, o futebol não emplaca mesmo. Pergunte a qualquer gringo por que ele não consegue se apaixonar pelo futebol. A resposta é a mesma: not enough scoring (não há gols suficientes). O americano acha impossível suportar um jogo de noventa minutos que termine 0 x 0 ou 1 x 0. Preferiria assistir Jorge Kajuru e Eurico Miranda numa pelada de solteiros e casados que terminasse 8 x 7 do que se deliciar com 1 x 0 antológicos como Brasil x Inglaterra da Copa de 70 ou Cruzeiro e Inter na final do Brasileirão de 75.
Continuo achando falsa essa explicação que eles mesmos encontram para o seu desgosto com o esporte. Não é raro encontrar um gringo deliciando-se com um jogo de futebol americano que dura quase quatro horas e termina 10 x 7, o equivalente a uma modorrenta vitória de um e meio gols contra um. O “gol” do futebol americano, o 'touchdown', a entrada de um jogador com a posse de bola na “zona final” do adversário, vale 7 pontos(6 + ponto extra chutado). Quando a equipe não consegue avançar a bola até a zona final, mas é detida num ponto próximo dessa zona (você “detém” uma equipe quando impede que ela ande 10 jardas em 4 tentativas), essa equipe recebe o prêmio de chutar o projétil com o objetivo de enviá-lo acima daquela trave de cabeça para baixo. Quando o bicudão é alto o suficiente, o prêmio são 3 pontos. Ou seja: um 10 x 7 significa que uma equipe marcou um gol, a outra marcou outro e uma delas recebeu, uma vez, o prêmio de consolação do bicudão dos 3 pontos – que nem é comemorado direito, a não ser quando é no último segundo e decide a sorte de um jogo.
Isso depois de quatro horas de peleja, aproximadamente 250 saídas de bola, das quais numas 230 a bola não anda mais que um metro, dezenas de paralisações para comercias ou, se você estiver no estádio, 2 horas de garotas dançando ao som de “We will rock you”, do Queen. Depois eles não entendem porque ficam barrigudos.
O problema do gringo com o futebol não é, portanto, a falta de scoring. Há que se ver, nos esportes mais populares dos EUA (beisebol, futebol americano, basquete), o que eles têm em comum, por oposição ao futebol. Tomemos o basquete. Se uma equipe tiver maior porcentagem de aproveitamento de arremessos, menos perdas de posse de bola, mais rebotes e mais conversões na linha de lance livre, essa equipe ganhou. É impossível que não ganhe. A matemática e a estatística dizem a verdade do jogo. Trata-se, como no futebol americano, de um jogo gerencial, que é radiografável na frieza do quadro estatístico.
A imprevisibilidade do lance que pode decidir uma partida se limita, no basquete, aos jogos que são pau-a-pau até o fim. Impossível que uma equipe seja dominada por 48 minutos em todos os quesitos listados e ganhe o jogo num lance de sorte.
Qualquer criança brasileira sabe que isso não se aplica ao futebol. Digamos que ontem jogaram Flamengo x Palmeiras no Maracanã. O Flamengo teve 65% da posse de bola, ¾ no campo do Palmeiras. O Flamengo teve 15 escanteios, o Palmeiras um. O Flamengo chutou a gol 18 vezes, o Palmeiras duas. O Flamengo foi à linha de fundo 12 vezes, o Palmeiras nenhuma. O Flamengo teve dois pênaltis a seu favor, o Palmeiras nenhum. Diagnóstico: O Urubu massacrou o Verdão no Maraca. Diz algo sobre o resultado do jogo este diagnóstico? De forma nenhuma. O jogo pode muito bem ter terminado 2 x 0 para o Palmeiras. Qualquer torcedor brasileiro se lembrará de um dia em que seu time foi vítima de uma dessas.
Eis aí o fascínio do futebol. O futebol é um esporte fatalista, reácio a qualquer previsibilidade. E não há característica da ideologia dominante nos EUA, nem a arrogância, nem a ingenuidade auto-centrada, nem a crença na própria bondade, que seja mais típicamente americana que o horror à imprevisibilidade, ao estalar incalculável do acontecimento. O americano típico é aquele que, ao descobrir que a mulher está grávida, afoga a alegria da promessa de nova vida no cálculo da poupança para a futura universidade do filho. No ataque às torres em 2001, até mais comum que o lamento pelas mortes ou o xingatório patriótico de brutamontes ferido, foi a pergunta indignada: Como não conseguimos prever isso?
Como no futebol a contabilidade e o cálculo não dizem nada da verdade do jogo, como o futebol é por definição imatematizável, como ele premia o acontecimento singular, único, e não a matemática gerencial do basquete ou do beisebol, o gringo não consegue apreciá-lo. Mesmo que o jogo termine 5 x 4.
PS sobre mais um caso para o folclore deste blog: quando amigos torcedores e parentes seus começam a lhe enviar spams com um texto seu assinado por outro, é porque a coisa está grave. Não me importa muito, mas o texto que está circulando por email entre torcedores do Atlético-MG, essa crônica de amor ao Galo, foi escrita por mim e não por Armando Nogueira. Claro que Mestre Armando na certa não tem nada a ver com a confusão. Algum doido foi ao meu site, não viu meu nome, achou que o texto tinha cara de Armando Nogueira e botou para circular como spam com o nome dele. E está circulando à beça com a informação errada, embora o equívoco não deixe de honrar-me. Ah, essa internets!
Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post
| Comentários (21)
#1
Sabe q eu gostei a beca dessa analise? Nunca havia pensado sob essa perspectiva, a da imprevisibilidade. Valeu a reflexao!
Bjs.
Lucia Malla em maio 9, 2005 6:02 AM
#2
É a típica cultura "by-the-book". Se não está no manual, nada a fazer. E ainda se perguntam como não conseguiram evitar aquilo!
[]'s
Vanderlei em maio 9, 2005 8:09 AM
#3
Interessante sua análise sócio-esportiva. Como a Lúcia, eu também nunca havia associado o comportamento previsível do americano médio ao seu gosto por esportes.
Viva em maio 9, 2005 8:41 AM
#4
Ai, que fora !!! Mas como recebi a crônica de um amigo que não frequenta blogs, jamais imaginei...Juro que não foi sacanagem de cruzeirense!!!
Um abraço
você também recebeu esse spam, Fefê? Quer dizer que já está na torcida do Cruzeiro? É demais, né?
Fefê em maio 9, 2005 8:44 AM
#5
Ops! Corrigindo... Não é Listserves, mas sim, List Server = Lista em um Servidor de Serviço = Lista de Serviço.
nina em maio 9, 2005 9:29 AM
#6
Ah, Idelber, essa do spam foi ótima, voltar justamente pra você... Eu sempre me perguntava, ao receber um desses, o que passa pela cabeça de um ser humano quando pega um texto anônimo ou de outro autor, tasca a assinatura de Veríssimo ou Jabor, e passa para frente. O que essa criatura pensa ganhar com isso?
Sobre o futebol nos EUA, acho que os americanos não entendem a "arte" e as sutilezas do jogo. Para eles, nada mais é que passar a bola de um pro outro até chegar ao gol. Todas as crianças aprendem a jogar "soccer", mas fora da escola elas não têm qualquer cultura futebolística, não há jogos para ver na TV (a não ser nos canais mexicanos), não há times para torcer, não há ídolos para eles copiarem o estilo, não há peladas espontâneas nas ruas e parques. O amor a um esporte é uma coisa que passa de pai para filho(a), e enquanto as crianças brasileiras aprendem a chutar a bola e a dizer "gol" entre suas primeiras palavras, as americanas estão "playing catch" com bola e luva de baseball.
Leila em maio 9, 2005 12:03 PM
#7
E ainda há o árbitro que, com sua fabilidade, pode alterar um resultado e aumentar a "injustiça".
Atenção: o time do Grêmio é tão ruim que já não acho absurda a terceirona. Ontem, disse a um gremista que estava com pena deles. Estava sendo sincero. Ele me respondeu: continue secando, sentir pena é muito humilhante, trate-nos como se fôssemos perigosíssimos. Espezinhe-nos.
Aquela série de posts sobre os palestinos está caindo de madura, Idelber.
Rolarão, Milton, rolarão. Há que se fazê-los com calma e cuidado. Abraços,
Milton Ribeiro em maio 9, 2005 12:47 PM
#8
Eles podem até não gostar, podem até confudir...mas não não emoção ao descrever os gols nas estáticas contrárias em uma partida ou o choro do tipo "caramba dominamos o jogo todo e tomamos dois gols de bobeira ou vacilo da zaga"...
Futebollll...eita coisa boa...
Abraços...
Terminei de ler o seu livro...minhas anotações , te passo uma hora ok?
Tânia, sobreviveu ao calhamaço inteiro? Muito obrigado pela leitura, e mande-me suas impressões sim, quero ver. Abraços,
Tânia em maio 9, 2005 12:49 PM
#9
Como adoro futebol (resquicios de ser única filha mulher no meio de 3 homens)...esqueci de lhe informar que...Estarei presente ao jogo Ceará x Atlético Mineiro (moro em fortaleza atualmente)...quem sabe tranformo o ser somente mulher numa resenha esportiva...
Abraços
Tânia em maio 9, 2005 12:54 PM
#10
Eu já tinha lido esse texto...Aqui mesmo, nos arquivos do Biscoito! Dá uma conferida...
Aliás, que análise, viu? E o que você acha de povos que gostam do hipismo - no qual perde quem faz mais pontos?
hahah, Menina-Prodígio, eu acho que os paises que preferem hipismo e golfe deveriam ser banidos das Nações Unidas!
Brincadeirinha. Sim, o texto esteve no fundo deste site durante um tempo, mas sem formato, sem links, etc. Abraços
Menina-prodígio em maio 9, 2005 12:57 PM
#11
Querido Idelber,
Para comentar da perspetiva americana, eu gostaria dar um passo bem que não esteja o melhor para defender o futebol americana. Falar a verdade, até conhecer o brasil, odeiava todo esporte organizado pow que eu achava idiotice ligado a submissão da individualidade, ao patriotismo/jingoismo, e a violencia. Eu continuo pensando assim, mas o futebol no Brasil vai além deste caraterização, por que os espetadores interagem tanto com o jogo, e além de gritar, cantam, dançam, mostram bandeiras, e vivem a vida do seu time. Para este gringo, o show foi os espetadores.
Grande Aaron! Com certeza você deve ter curtido a torcida. Mas você não conta como gringo, você é um baiano que se criou na Califórnia por acaso! Axé
Aaron em maio 9, 2005 2:34 PM
#12
Reflexões de um amigo meu: "a única coisa em que o Brasil é inquestionavelmente o melhor, é um jogo sujeito a tais injustiças"... e no qual o país não ganha os 2/3 de Copas do Mundo que merecia.
Marcus Pessoa em maio 9, 2005 3:08 PM
#13
Há como definir o futebol de outra forma que no universo do bolero, do tango, das tragédias passionais? Não sei. Rendo-me ao lugar comum e digo: o futebol é um vendaval de paixões, um palco de grandes tragédias, um lance de morte ou de vida, um tiro no escuro. Enfim... É tudo que nós, latinos, conhecemos tão bem porque corre em nossas veias, inebriante, etílico, arrebatador.
Sim, Idelber, o imprevisível, o "Imponderável de Almeida", no dizer de Nelson Rodrigues. Isso deve soar muito estranho aos americanos.
Por outro lado... E se eles sentissem o abalo sísmico que é um gol, um único gol aos 32 do segundo tempo? E se eles se vissem à deriva no mar de emoções que foi a virada em cima do Uruguai em 70? Eu vi, do alto dos meus 11 anos. E nunca mais consegui me livrar dos dedos trêmulos em cada abertura de copa do mundo.
No nosso futebol, o gol é raro. É valioso. É a razão de nossa existência. E quanto ele vem, único, definitivo, irremediável para o adversário, não há outra conversa possível no boteco da esquina:
- É, meu compadre, que catarse! Que catarse...
Grande Artemus! Quer dizer que você chegou a ver ao vivo a copa de 70? O respeito duplicou-se do lado de cá. Eu nunca me cansei de ver aqueles VTs, mesmo com o efeito de lentidão que se produz com o passar do tempo. Eu tinha 1 e meio na época. Valeu a lembrança de Nélson Rodrigues, taí uma idéia para um post .
Artemus em maio 9, 2005 3:52 PM
#14
Belo post, até mesmo para alguém, como eu, que entende XONGAS de futebol. Assim como as regras do beisebol e do futebol americano me parecem mistérios mais insondáveis que as origens do universo.
Mas essa visão do nosso esporte nacional como representação de um comportamento mais passional, em oposição ao calculismo, a fatalidade traindo as estatísticas, me fez ver a coisa de um ângulo novo. Deu até vontade de encarar uma partida. O problema é que eu levo metade do jogo pra entender onde é o gol de quem. Quando finalmente cai a ficha, durante os replays do intervalo, aí eles voltam e troca tudo!
:o)
o futebol americano pode ser chato de assistir mas as regras são simples, Chris. O beisebol, sim, esse é pura metafísica :)
christiana em maio 9, 2005 5:35 PM
#15
Idelber, costumo chamar essa inversão de autores como um "copleft às avessas": não há razão aparente pra algum cururu simplesmente dar nome de outra pessoa ao texto alheio... Enfim. Só falta o seu texto ir parar em algum powerpoint.
e essa foi barra pesada, Marmota, porque há quatro anos está publicado numa página com terminação "avelar.html"; apesar de que no alto da página não havia nome, pelo contexto não dava para "se enganar" não. Foi algum louco mesmo
Marmota em maio 9, 2005 5:53 PM
#16
Ah, então um dia me ensina essas regras porque aquele negócio de tantas jardas eu já não entendi nada...é verdade nunca nem TENTEI entender, mas não posso levar a sério um esporte onde os caras se vestem com capacetes, aquelas ombreiras-de-Itú, e ficam se trombando como zebras em fúria, disputando uma bola que é uma banana estufada.
Leva a mal não mas, a todas essas, salve a pelada da bola redonda, que se pode jogar até descalço e, porque não, pelado? (taí uma modalidade que seria divertido assistir...)
;o)
christiana em maio 9, 2005 9:40 PM
#17
Acho perfeita sua análise. Um povo que não gostasse de "poucos gols" nunca adoraria Futebol Americano. Por outro lado, eu quero passar duas horas num estádio tomando cerveja vendo gatas dançando ao som de "We will rock you". Na verdade eu espero que o céu seja assim!
Já o beisebol eu coloco fora desta lista de esportes pura e simplesmente estatísticos. Sou fascinado pelo esporte. Para você ter uma idéia, meu melhor presente de Natal foi uma bola dos Red Sox. Sim, as regras são muitas e difíceis, mas não acho um esporte "estatístico"... O beisebol é acima de tudo um duelo psicológico entre lançador e rebatedor. Sempre.
Donizetti em maio 9, 2005 9:47 PM
#18
...e o corinthians deve estar querendo garantir platéia americana. Desculpe, não resisti! Boa semana! Beijus, Luma
Luma em maio 9, 2005 10:08 PM
#19
Fui repórter esportiva na década de 70 (faz tempo, hein?). Era apaixonada por futebol, cobri muitos clássicos, entrevistei estrelas da Seleção Brasileira, mas também tive cobrir jogos de segunda divisão, preliminares jogadas sob sol escaldante, entrevistar perna-de-pau e isso acabou com minha paixão. Hoje pouco leio sobre futebol, mas não resisti ao teu texto. Acho até que vou voltar a assistir uns joguinhos de vez em quando, mas futebol americano jamais.
Alcinéa Cavalcante em maio 10, 2005 3:09 AM
#20
Genial a análise...nunca havia pensado nisso!
Mais uma vez, parabéns pelo belo texto!
Luninha em maio 12, 2005 1:41 PM
#21
Outra teoria que pode justificar o desapreço dos americanos pelo futebol é o fato dele eles não serem bons no esporte. Note que os esportes favoritos deles são aqueles em que seu país domina: beisebol, futebol americano, basquete... futebol feminino, por exemplo, é muito mais valorizado por aí que o masculino. Creio que o motivo seja esse: no das mulheres, os EUA estão entre os melhores.
No automobilismo também acontece esse problema. Fórmula 1 não chega a ser popular nos EUA como Nascar, por exemplo, ou fórmula Indy. E por quê? Ota, talvez seja porque na F1 não haja um grande piloto americano vencendo as corridas.
Mas não me aprofundei muito no assunto e posso estar errado, mas creio isso explica alguma coisa.
Gustavo em maio 13, 2005 2:43 AM