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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 30 de junho 2005

Machado de Assis e a Invenção do Pop

Há um conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, que é um tratado sobre a situação do artista brasileiro. É meu conto favorito da fera. Sobre esse relato estou escrevendo um monstrengo de cinqüenta páginas, das quais compartilho aqui alguns parágrafos.

Quem tiver 20 minutos, siga o link e leia o conto, que é um absurdo de brilhante. Para quem não tiver, o resumo é esse: Pestana é um compositor de polcas no Rio de Janeiro lá pelos idos de 1875. Como se sabe, a polca foi introduzida no Rio em 1845 e dominou os salões durante toda a segunda metade do século XIX. Enquanto o 3/4 cadenciado da valsa era considerado o baile “chique”, “elegante” e “nobre”, foi o 2/4 sincopadão da polca que mexeu com corações, cinturas e libidos.

O encontro da polca de salão com o batuque que rolava no quintal – através da mediação dos grupos de chorões que, na cozinha, já davam um toque brasileiro aos gêneros europeus – está na base de toda a música popular brasileira urbana, que nasce precisamente naquele período. O conto de Machado é um testemunho disso.

Pestana não é só um compositor de polcas. É um grande compositor de polcas. Suas polcas são um sucesso atrás do outro. Consagração. Popularidade. Encomendas. Etcetera.

Quanto mais Pestana tem sucesso com as polcas, mas insatisfeito ele fica. Ele não quer ser compositor de polcas. Quer ser um Beethoven, quer compor sonatas. Mora no Rio, mas vive como se estivesse em Roma (alguma semelhança com gente por aí?).

O problema é que cada vez que Pestana tenta compor uma sonata, sai uma porcaria, um eco derivativo de algo já feito por alguém. Aí chega outro pedido de polca, outra encomenda e outro sucesso estrondoso. É o retrato do artista brasileiro, entre a possibilidade e o desejo, entre a ambição e a vocação.

Um belo dia, morre sua esposa. O viúvo quer pelo menos deixar a ela um Réquiem comparável ao de Mozart. Estuda, rala, trabalha, dá duro durante dois anos. Nesse período, não compõe nada e as contas se acumulam. O Réquiem fracassa. O conto termina com a seguinte cena:

Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.
— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.
— Adeus.
— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

Machado aproveita a morte do personagem para mandar a última ironia: façamos logo duas polcas para quando trocarmos o PSDB pelo PT, quer dizer, os conservadores pelos liberais. Dá tudo na mesma de qualquer forma. Pestana sabe que suas polcas correm o perene perigo de virar jingle de qualquer evento, de qualquer ocasião. A única música imune a esse perigo, pensa ele, é a música erudita, a verdadeira música "difícil". Mas essas ele só ama, deseja e repete. Não consegue compor.

Talvez tenha sido o primeiro momento em que a literatura brasileira refletiu sobre o que depois chamaríamos indústria cultural: a arte transformada já em mercadoria da indústria do entretenimento.

Mas o sentido total da coisa só se deixa vislumbrar quanto atentamos para os títulos das polcas de sucesso que compõe Pestana. A mais popular delas se chama Não Bula Comigo, Nhonhô.

Ora, uma composição com esse título, no Rio de Janeiro de 1875, só pode aludir a uma outra coisa, a algo que a literatura ainda não pode chamar pelo nome, porque seu nome está proibido: o maxixe, dança lasciva, urbana, negra/mulata que naquele momento já estava em pleno processo de consolidação no Rio – como primeiro gênero popular urbano brasileiro, perseguidíssimo pela igreja e pela polícia. O maxixe foi durante décadas nome maldito, associado, como estava, à sexualidade e ao corpo negro. Quem atentar para os títulos das composições de Pestana e para o uso que faz Machado de verbos como "saracotear", verá que se está falando aqui de algo muito mais maldito e clandestino.

maxixe.JPG

Foi a forma malandra e requebrada de dançar a polca, sob o impacto do batuque do quintal, que fez nascer esse que foi o primeiro gênero urbano brasileiro. Até a revolução rítmica realizada pelos sambistas do Estácio entre 1928 e 1933, o maxixe permaneceria como a base fundamental da música brasileira popular urbana.

Pestana, sofrendo a atração irresistível da dança maldita, ainda sonha com sonatas. Mas sabe, no fundo, que está condenado ao maxixe. A história de Pestana se repetiria milhares de outras vezes no Brasil, com outros artistas, de Pixinguinha a Odair José.

PS 1: Meu muito obrigado aos anfitriões do congresso sobre Jacques Derrida em Araraquara, Profs. Fábio, Alcides e Maria das Graças. Obrigado à UNESP pelo evento, aos fantásticos alunos que lá estiveram conosco e ao Hotel Fazenda Salto Grande (que rango maravilhoso!). Boas-vindas aos novos amigos de Araraquara que andam visitando este blog. Que pessoal mais hospitaleiro.

PS 2: Que partida fantástica da seleção, hein? Desde o 2 x 1 da Copa de 1974 eu não perco um Brasil x Argentina sequer, mesmo quando estou nos EUA. Não me lembro de ter visto um jogo mais fácil. 6 x 1 não teria sido nenhum absurdo. Quatro observações: 1) Baixou o espírito de Luís Pereira no Lúcio. Que partidaço! 2) Vocês já viram como o Adriano pega de bico na bola com uma precisão incrível? Sempre de bico. Sinceramente, neste momento eu não tiraria Adriano para dar lugar a Ronaldo não; 3) Assisti o jogo no telão do Albano’s, legendária choperia de BH. Como sempre, a massa alvi-negra estava em ampla maioria, e vibrou com a péssima partida de Sorín e com o cartão amarelo, que foi comemorado como se fosse gol do Brasil; 4) A seleção mereceu o placar, mas êta goleirinho ruim esse Lux, hein?

Atualização: Embora sem citá-lo diretamente, este post sobre Machado se nutriu do livro de José Miguel Wisnik, Sem Receita (Publifolha, 2004), especialmente do ensaio "Machado Maxixe: O Caso Pestana".



  Escrito por Idelber às 04:21 | link para este post | Comentários (25)



quarta-feira, 29 de junho 2005

Feliz Aniversário, Laura

junina 019.jpg

29 de junho de 1999, Champaign, Illinois, EUA: o universo parou para admirar.

Hoje, pausa no blog: alegria em estado puro.

Laura: feliz aniversário, meu amor.



  Escrito por Idelber às 06:09 | link para este post | Comentários (41)



terça-feira, 28 de junho 2005

Suruba de Blogs

Hoje tem link prá surfar uns três dias:

Parabéns:

1. A Cora Rónai completou um milhão de visitas. Não é prá qualquer um não. Congrats!

2. A pioneira Meg Guimarães completou mais uma primavera. Happy birthday!

3. O Bereteando, amigo do Biscoito desde a primeira hora, completa o segundo ano de vida. Parabéns, Tiagón!

Recomendo:
1. O excelente blog político de Maurício Santoro, o Conspiradores. Ver também o texto de Maurício no Globo sobre o governo Lula, bem na linha do que eu venho argumentando aqui.

2. O belíssimo blog literário-filósofico argentino Rizomas, influenciado por um dos meus heróis intelectuais, Gilles Deleuze.

3. O melhor fotolog do Brasil, o Escrúpulos Precários. O que eu mais admiro não são nem as fotos fantásticas. É a grande arte do título que tem o Iraldo. Dá para passar horas naquele blog.

Sessão É Imperdível:

achamos que o Ronaldo tem que ser banido da seleção, que o Santos não deve ganhar tudo só porque tem o Robinho, que o Kaká é maloqueiro, que o Denilson é pereba, que o Cafu é arrogante, que o Roberto Carlos é o pior lateral da história, que o Parreira é demagogo, que as torcidas organizadas devem ser liberadas e que o Maracanã deve ser implodido. E vamos com muita tiração de sarro do futebol paranaense, não temos culpa por termos nascido neste lugar!
Gostou? Visite o sensacional de canela!, uma espécie de Jair Beirola do futebol. Putaria com estilo.

4. O blog da minha conterrânea e amiga Cynthia Semíramis, co-autora do clássico Manual de Sobrevivência na Selva de Bits, está de cara nova.

Sessão História da Blogosfera Brasileira:
A palavra linkania circulou por aí, nos primórdios da blogosfera brasileira, para designar os fluxos, encontros, redes que se armam (precisamente o que Gilles Deleuze chamava de rizomas). Ela começou a circular a partir deste belo texto do Marcelo Estraviz, que foi muito discutido na época. Mais coisas do Marcelo aqui. Pouco a pouco eu vou descobrindo a história desta joça. Link, cortesia dela.

Leia blogs e evite vexame:

Se o Zé Dirceu lesse o Catarro Verde, já em 2003 ele teria recebido um recadinho importante.

O Terror:
Queira Deus que o tal Delúbio não tenha ex-mulher! É o assunto no PT. Grande sacada de Tutty Vasques.

Música:
1. Não dá para deixar de recomendar esta matéria sobre a nova safra de cantoras brasileiras. A Mariana Nunes eu já conferi e gostei (via o indispensável BMTH).

2. Mais um belo blog sobre música: Eclectismo Musical.

Vem por aí:
O Burburinho completa quatro anos de existência (parabéns!) e eu fui convidado a contribuir um texto à edição de aniversário. Minha contribuição será, salvo engano, o primeiro texto sobre futebol publicado nessa já clássica revista eletrônica. Obrigado ao Nemo pelo convite.



  Escrito por Idelber às 02:23 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 27 de junho 2005

Conversas com a Militância do PT em São Paulo

(os links abaixo são da Folha e só estão disponíveis para os assinantes do jornal ou do UOL)

No momento, minhas posições políticas podem ser resumidas assim: elas desagradam boa parte dos meus amigos e agradam gente que eu não quero agradar. Paciência. Deixar de pensar o que penso, não posso. E pelo que tudo indica, o descompasso é temporário. Cada vez menos amigos estão dispostos a defender o governo Lula e a situação calamitosa em que a invasão dos Delúbios deixou o Partido dos Trabalhadores.

Na semana que passei em São Paulo pude conversar com alguns militantes históricos do PT. Eu gostaria que todos os que esbravejam é complô da imprensa, é culpa da Folha de São Paulo e da Veja! tivessem a oportunidade de conversar com esses militantes. Falo dos militantes honestos, da base, não dos comissários, burocratas e delúbios.

Foi triste ver o estado de desmoralização, melancolia, falta de alternativas dessas pessoas que dedicaram, em alguns casos, trinta anos de suas vidas à construção do PT (sim, porque em 1975 o núcleo do que seria o PT já se gestava no movimento sindical).

Conversei, por exemplo, com X, metalúrgico de 1973 a 1980, e desde então militante do PT, e também com Y, intelectual e filiado ao partido desde a primeira hora. Protejo seus nomes porque elogios vindos de uma pessoa como eu, que já chutou o pau da barraca com este governo, só pode prejudicar a luta duríssima que essas pessoas ainda livram no interior da máquina sequestrada pelos delúbios.

A Y eu dizia:

- bicho, como vocês vão fazer campanha nos movimentos sociais em 2006? Não há nada a apontar, não há um único índice social que tenha se movido minimamente, não há uma única realização social que diferencie este governo.

-é, Idelber, vai ser foda. O mais provável é que seja uma campanha como foi a da Marta, totalmente "profissionalizada", terceirizada, e que eles só chamem a militância no caso de terem medo de perder. Eu não tenho que encarar os movimentos sociais. Imagine o cara lá do movimento de bairros, vai dizer o quê? A Marta pelo menos tinha realizações de verdade.

X, que voltava do ato em "defesa" do PT ao qual compareceu toda a cúpula e ministros petistas, relatava duas coisas insólitas.

- Havia uns caras de 2 metros de altura do meu lado gritando Delúbiô! Delúbiô!

Agora uma singela pergunta para os leitores do Biscoito: que cidadão da República de Pindorama gritaria Delúbio! Delúbio! em público hoje em dia a não ser que estivesse sendo pago para isso? Não satisfeita em contratar cabos eleitorais pagos e defenestrar a militância (para depois chamá-la no desespero para "defender" o partido quando o bicho pega), não satisfeita em arregimentar sindicalistas [expressão usada originalmente e retirada às 15:30 depois de diálogo abaixo com leitor André: "contratar mercenários"] para gritar palavras de ordem em defesa de José Dirceu no Congresso Nacional, a cúpula contrata capangas para entoar em coro o nome de bandidos. A esse ponto chegamos.

Segundo relato escabroso de X:

- Na hora em que Eduardo Suplicy foi falar uns caras ensaiaram umas vaias.

Ironias de Pindorama: em qualquer lugar deste Brasil em que ele apareça, do Oiapoque ao Chuí, o senador Eduardo Suplicy será aplaudido. Exceto, claro, num ato de "defesa" do Partido dos Trabalhadores convocado pela claque de José Dirceu. Poucas horas antes, no show de Wynton Marsallis no Ibirapuera, Y havia se encontrado com Suplicy, que panfletava.

Y presenciou uma cena bem típica: uma mãe e uma criança passavam pelo lugar. A criança perguntou: “mãe, ele é político do PT?” Resposta da mãe: “sim, filha, mas não é bandido como os outros não”.

Enquanto isso, para os que continuam no interior do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu - que nunca foi representante de movimento social nenhum, que sempre foi "expressão da máquina partidária" como bem disse Paulo de Tarso Venceslau (expulso do PT em 1997 depois de denunciar um esquema de corrupção envolvendo um amigo de Lula) - continua tirando onda de representante de uma suposta "ala progressista" do governo.

Um sujeito que é representante do que de pior existe no ex-Partido dos Trabalhadores.

Um sujeito capaz de dizer que participou e não participou de uma coisa.

Um sujeito que, num momento em que o Brasil passa a limpo a sua história, nega até mesmo a uma pesquisadora um depoimento sobre sua trajetória pessoal. Por que será?

Um sujeito que, depois de arquitetar e tramar durante meses a expulsão de três parlamentares, é capaz de chegar na reunião da Executiva Nacional e, com a cara lavada que só possuem os verdadeiros calhordas, dizer eu não tenho nada com isso.

Um sujeito capaz de se disfarçar e mentir para a própria esposa durante anos.

Um sujeito que, não nos esqueçamos, foi o primeiro chefe da Casa Civil da República Federativa do Brasil a ameaçar com processo judicial um professor universitário por uma opinião (e não foi um reles professor como eu, e sim um fundador do PT e um dos maiores sociólogos da nação, o Dr. Francisco de Oliveira).

Um sujeito que é incapaz de dizer eu não sou corrupto ou eu sou inocente mas, que, ao contrário, só repete não há provas contra mim, com o sorriso nervoso que só ostentam os muito preocupados.

Um sujeito que - por causa de sua ambição de governar São Paulo - foi o responsável direto pela perda da possibilidade de uma aliança histórica entre PT e Mário Covas em 1993, para depois, claro, chafurdar o PT na lama de alianças com Sarney, ACM e cia. em 2002.

Um sujeito que, não satisfeito em ser derrubado por indícios de corrupção e quase levar o resto do governo junto, arregimenta pessoas que agem como capangas para irem ao Congresso e a comícios "defenderem" o seu nome, astutamente confundido com o nome do PT, justo no momento em que ele acaba de liderar o estrangulamento deste último.

Um sujeito que foi o responsável direto pela derrota do candidato da bancada do PT, Virgílio Guimarães, à presidência da Câmara e pela subida de Severino, embora os mal-informados e os mal-intencionados insistam em colocar a culpa na oposição, na imprensa e na torcida da Portuguesa.

Um sujeito que - como vocês sabem - é responsável por muita coisa mais, que não vou dizer aqui porque não posso provar.

Esse é o sujeito que quer se fazer passar por representante das "causas progressistas" no governo Lula. O MST, obediente, repete a fábula oficial.

Enquanto isso, se você ainda se define como simpatizante do PT, evite os atos de "defesa" do partido. Passaram a ser povoados por capangas que gritam nomes de bandidos.

Atualização: Recomendo enfaticamente a entrevista à Folha dada hoje pela mui lúcida socióloga e cientista política (e fundadora do PT) Maria Victoria Benevides.



  Escrito por Idelber às 08:44 | link para este post | Comentários (38)



sábado, 25 de junho 2005

Sobre a última tamancada no deutschefreguês

brasil-alemanha.jpg

Dentro das circunstâncias e apesar dos muitos gols perdidos por displicência, falta de instinto matador ou de tranqüilidade, eu gostei da seleção brasileira contra a Alemanha hoje, especialmente no segundo tempo.

Confesso que nas vitórias contra a Alemanha eu sinto muito mais o gostinho especial que a maioria dos brasileiros sente nas vitórias contra a Argentina. Nada contra o país nem o povo, mas me causa repugnância esse futebol tosco, medíocre, medroso, violento e parasita do acaso que jogam os alemães. Menino, torci pela Holanda contra eles em 1974 e, sim, torci pela Argentina contra eles em 1986 e 1990 nas finais de Copa. Quanto menos títulos e partidas esses caras ganharem, melhor será para o futebol. E contra o Brasil eles tremem mesmo.

Agora, antes que parte da imprensa esportiva sufoque todo mundo no ufanismo, algumas observações críticas sobre a seleção:

1. Roque Jr. e Lúcio simplesmente não têm condições de vestir as camisas que foram de Domingos da Guia, Bellini, Mauro, Piazza, Luís Pereira, Oscar e Luisinho. A zaga do Brasil é uma cacofonia de instrumentos tocando atravessado. Agora é rezar pela recuperação do Cláudio Caçapa, que é muito superior a esses dois e conhecido do Parreira desde os tempos de Atlético-MG.

2. Nem uma eventual conquista dessa Copa das Confederações significará que a seleção está pronta ou mesmo jogando um futebol aceitável, nem uma possível derrota na final contra Argentina ou México implica que essa formação mais "ofensiva" adotada recentemente pelo Parreira seja a culpada. O Brasil leva gols porque tem uma zaga fraquíssima, laterais que avançam, com freqüência, em jogadas onde Brasil não mantém a bola no ataque (levando a famosa "bola nas costas") e para completar uma dupla de volantes muito limitada (especialmente o Emerson): situação que deixa qualquer equipe vulnerável, claro.

3. Antes que comecem a dizer que Adriano ganhou o jogo sozinho: sim, ele foi muito bem nos momentos que pôde jogar na sua posição e na sua característica, mas sempre que - especialmente no primeiro tempo - teve que sair da área para fazer tabela, a coisa não funcionou. Adriano é uma arma poderosa, mas nesse esquema não há lugar para que Adriano e Ronaldo Fenômeno joguem juntos. Com dois centroavantes típicos, um anula o outro, e gente que entende muito mais que eu já explicou o porquê. Se Ronaldo estiver gordo, lento, fora de forma ou deprê na época da Copa, eu jogaria com Adriano, Robinho, Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Senão, Adriano ainda seria uma ótima opção no banco. Adriano e Ronaldo, de jeito nenhum: jogando assim, o Brasil ficaria muito mais estanque e previsível.

4. Como a Copa é na Alemanha, país que tem tradição de chegada, eles são os favoritos naturais da Europa, junto com Brasil e Argentina. Mas acontece que hoje qualquer equipe alemã entra em campo contra o Brasil sem acreditar muito que pode ganhar. Isso acrescenta um plus de favoritismo ao Brasil, por mais que Parreira faça opções equivocadas.

5. Aos amigos que discordaram da idéia de algum dia prescindir da lei do impedimento: tá legal, eu aceito o argumento. Mas não me altere o samba tanto assim: dizer que propor mudança em regras vai contra o espírito do jogo não é verdade. Cartões vermelhos, amarelos, substituições, proibição de que o goleiro agarre com a mão bola atrasada, tudo isso foi inovação relativamente recente. No caso do impedimento, a última mudança feita nas "regras" foi a orientação da FIFA para que as arbitragens só apontem a posição ilegal do atacante quando este tocar na bola: emenda horrível, muito pior do que o soneto.



  Escrito por Idelber às 15:57 | link para este post | Comentários (26)



sexta-feira, 24 de junho 2005

Conspiração

galo-metal.jpg

Meus amigos:

Encontra-se em curso uma conspiração da extrema-direita, em aliança com forças irresponsáveis e divisionistas da extrema-esquerda, com a conivência do complô da mídia burguesa, para desacreditar o nosso Biscoito.

Não, dessa vez não é nenhum aspirante a algo com três leitores e meio nos atacando. Não, não é a liga dos católicos reclamando de que defendemos a reprodução deles próprios, esses tão estranhos seres. Não, não é a assessoria de imprensa da Casa Civil prometendo que vai "refutar" um artigo meu sem jamais fazê-lo. Não, não é algum louco gritando Zé Dirceu é meu amigo / mexeu com ele mexeu comigo nos nossos ouvidos. Não, desta vez os terroristas se insinuaram dentro das nossas próprias fileiras!

Senão vejam o email que acabo de receber:


----- Original Message -----
From: _____@uol.com.br
To: iavelar@tulane.edu
Sent: Thursday, June 23, 2005 11:42 AM
Subject: candidatura

.... nós viemos acompanhando o trabalho que o senhor realiza no seu blog de apoio ao glorioso, o CLUBE ATLÉTICO MINEIRO, e sendo o senhor pessoa tão ilustre, sócio e tão conhecedor da história do nosso GALO, queremos propor que considere a possibilidade de se candidatar a PRESIDENTE DO GLORIOSO nas próximas eleições. Entre nossos amigos aqui na (nome da cidade), temos contatos com conselheiros do clube e poderíamos ajudar . . .


Considerando como as coisas se disseminam pela internet e considerando o que aconteceu na última vez em que se tentou uma candidatura independente à presidência do Galo, venho por meio deste humilde blog reiterar que não sou candidato a presidente do Atlético Mineiro e que acredito que seria um verdadeiro deleite para os adeptos do aspirante a nosso rival, o ex-Ipiranga, se o Galo passasse pela suprema humilhação de ter um presidente blogueiro.

Já pensaram se a moda pega? Nelson Moraes para presidente do Flamengo (ao leme, al-mirante)! Milton Ribeiro para presidente do Internacional! Tiagón e Cardoso para presidente e vice do Grêmio (pior do que está, garanto que não ficaria, com o bônus de que a diretoria do Tricolor Gaúcho ganharia muito em bom gosto musical); Ricardo Antunes para presidente do Coritiba (coxas-brancas: troquem esse O pelo U original da cidade!); Ubiratan Leal para presidente do Corinthians, Marcos Donizetti para presidente do São Paulo e Lucia Malla para presidente do Fluminense. E é claro, Alexandre Inagaki para presidente do Guarani, pois só o Pensar Enlouquece pode tirar o Bugrão da situação em que se encontra!

Blogueiro botafoguense eu não conheço.

Reitero ao generoso leitor: candidato à presidente do Galo, não, pelamordedeus. Eu tenho planos de ver meus filhos blogarem e se multiplicarem.

Mas no caso de que a moda pegue, alguém conhece algum blogueiro plagiador que pudéssemos escalar para técnico da seleção brasileira quando a blogosfera tomar o poder no futebol?

E poderíamos também escalar o Biajoni, o homem que mais odeia futebol neste país, para Ministro dos Esportes. Pelo menos o Bia sabe a diferença entre um escanteio e um arremesso lateral, o que seria já um grande avanço em relação à situação atual.



  Escrito por Idelber às 07:40 | link para este post | Comentários (27)



quinta-feira, 23 de junho 2005

Pérola da Blogosfera Hispânica

Eu sou completamente a favor de que permitamos o casamento entre católicos. Parece-me uma injustiça e um erro tentar impedi-los. O catolicismo não é uma doença. Os católicos, apesar de que muitos não gostem deles ou os achem estranhos, são pessoas normais e devem possuir os mesmos direitos que os outros, como se fossem, por exemplo, programadores ou homossexuais.

Estou consciente de que muitos comportamentos e traços de caráter das pessoas católicas, como sua atitude quase doentia ante o sexo, podem parecer-nos estranhos. Sei que, inclusive, às vezes, poder-se-ia esgrimir argumentos de saúde pública, como sua perigosa e deliberada recusa aos preservativos. Sei também que muitos dos seus costumes, como a exibição pública de imagens de torturados, podem incomodar alguns.

Pronto. Dois parágrafos eu já traduzi. Se quiserem ler o texto completo no original em espanhol, visitem o genial Psicofonías, que me chega via bróde véio Linkillo.

PS: Não consegui ingressos para ver o Tricolor no Morumbi, mas a festa aqui na Vila Romana foi bonita. Parabéns ao São Paulo, pelo primoroso segundo tempo. Agora é só não amarelar em Nuñez.

PS 2: Depois do Santo André ano passado, parabéns ao Paulista de Jundiaí, campeão da Copa do Brasil de 2005. Meu palpite para a Copa do Brasil do ano que vem: Noroeste de Bauru.



  Escrito por Idelber às 03:59 | link para este post | Comentários (23)



quarta-feira, 22 de junho 2005

E a regra do impedimento?

impedimento.jpg

Considerando que:

1. Já tem médico espanhol demonstrando que é impossível para o globo ocular observar sempre com exatidão se um jogador está impedido ou não (link via Marmota);

2. Sucedem-se os erros mais absurdos na marcação dos impedimentos em tudo quanto é jogo que a gente assiste;

3. Os energúmenos dos bandeirinhas insistem em desobedecer a orientação da FIFA, que é a de que no caso de dúvida, deve-se dar preferência ao ataque (desobediência compreensível, pois se um ser humano fica 90 minutos com um bastão na mão e só tem umas poucas oportunidades de levantá-lo, ora, ele o fará sempre que puder);

4. O aumento vertiginoso da velocidade do futebol já pode muito bem ter invalidado o perigo que a regra tenta coibir, que é a "banheira";

Não seria o caso de começar a gritar pelo fim da lei do impedimento, como propõe o Dr. Sócrates?

Eu já expliquei e defendi muito a regra do impedimento, para gringos que não sabiam por que ela existe. Mas confesso que estou mudando de opinião.

O que vocês acham?



  Escrito por Idelber às 03:38 | link para este post | Comentários (24)



terça-feira, 21 de junho 2005

Desconstrução em Araraquara

derrida_logo.jpg

Digamos que sair de um encontro de blogueiros para um encontro acadêmico requer um ligeiro ajuste - a começar pela capacidade etílica da rapaziada, que não chega aos pés dos camaradas blogueiros. Sair de São Paulo para um Hotel Fazenda em Araraquara requer outro ajuste.

Mas a memória de Jacques Derrida vale a pena. Derrida é, para mim, o filósofo mais importante do século XX. Não há área do conhecimento nas ciências humanas que tenha permanecido intocada por essa experiência que chamamos desconstrução.

Desconstruir não é atacar, nem desmontar, nem xingar.

Desconstruir é aprender a amar os textos. É aprender a ler de novo, com cada texto. É ler cada texto como se ele mobilizasse todos os outros textos do universo. A desconstrução foi a filosofia ensaiando o que depois viria a ser a blogosfera.

Desconstruir é aprender que lei e justiça não são sinônimos, que esta tem sempre o caráter de promessa aberta. Não se realizará nunca, mas se você perdê-la de vista enquanto horizonte, perdeu-se tudo, não há lei que resolva. A desconstrução é a tentativa mais radical de pensar essas noções tão complexas: perdão, hospitalidade, justiça.

Sobre a hospitalidade, a desconstrução ensina: só há verdadeira hospitalidade quando o outro é radicalmente outro. Não há nenhum mérito em ser hospitaleiro se o outro é igualzinho a você e chega sem bagunçar sua sala. A hospitalidade é, por definição, incondicional. Ou não é hospitalidade.

Daí as várias fórmulas paradoxais de Derrida: só se perdoa o imperdoável; só se decide o indecidível. Se uma decisão for absolutamente lógica, racional e dedutível de regras pré-estabelecidas, bem, não houve decisão nenhuma, só uma aplicação de princípios já dados, não é mesmo? A decisão verdadeira só ocorre quando você se enfrenta com o inteiramente cabeludo, com o indecidível.

Da experiência da desconstrução sabem os que estão amando: uma caminhada de quilômetros ou anos na obsessão com uma turmalina, até que você tropeça nela e vê a esmeralda. E reconhece que o "erro" com a turmalina era rigorosamente necessário para que você encontrasse a esmeralda. A isso Oswald de Andrade chamou a contribuição milionária de todos os erros.

Se o ser amado diz o que sinto por você me deixa generosa, é a essência mesma da experiência da desconstrução que se está tocando: saber que em toda entrega verdadeira não há garantias, saber que amar é dar o que não se tem.

A desconstrução, junto com a psicanálise, foi quem mais chegou perto de entender o que é o amor.

O encontro internacional de Araraquara começou bem, com palestra magistral de meu amigo Evando Nascimento, o maior dos maiores quando o tema é desconstrução. Depois eu tive uma conversa fascinante com Devi Sarinjeive, da Universidade da Africa do Sul, sobre o tema do apartheid e da reconciliação.

Para este encontro aqui em Araraquara, dizem que um blogueiro maluco aparecerá por aqui. Isso se o seu FIAT não for desconstruído no caminho, claro.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (30)



segunda-feira, 20 de junho 2005

Na Vila Madalena

Há muito tempo eu não tomava tanta cachaça com chopp em tal oblívio da necessidade de ingerir uma agüinha de vez em quando.

Depois da reunião de blogueiros no sábado o tylenol reinou inconteste no domingão. Nada que uma coca-cola, um almoço e uma rebatida na própria Vila Madalena não curassem.

Todo mundo era ainda mais divertido que o esperado. Calculo que umas 25 a 30 pessoas tenham aparecido, quase todos blogueiros.

Com o blogueiro pioneiro e meu ídolo Alexandre Inagaki falei de filmes, de livros, de spam, de comentários, de blogs.

Com e escritor Luiz Biajoni fala-se sempre de Sexo Anal, mas também falamos de imprensa, de rock, de pingas.

Com a genial blogueira e minha ídola Bibi falei de guglagem, de internet, de cinema.

Com o co-organizador do encontro Marcos Donizetti papeei sobre certas péssimas bandas mineiras e o Tricolor na Libertadores.

Com o simpático e sorridente Homem Baile (e esposa) falei de BH e da volta do casal às Alterosas para a próxima visita.

Com o Marmota falei de perder-me em São Paulo e por onde começar; também falei de futebol e de um dia visitar a Rua Javari. Marmota ainda não comeu o tropeiro do Mineirão.

Momento especial da noite: conhecer Alê Felix (e maridón) e falar de propriedade intelectual, da experiência de seu blog, de outros casos juridicamente interessantes na blogosfera brasileira.
ina-alex-idelber-bibi-1.jpg

No meio da noite, esbaforido, chega da rodoviária, vindo do Rio, Alex Castro, a tempo de reclamar da hora em que os bares fecham em São Paulo.

Com a Roberta Febran, papos divertidos e deliciosas fofocas.

Foi também especial conhecer a Patrícia e a Ana, com quem papeei sobre psicanálise e otras cositas más.

E eis que de repente aparece o Iraldo, pronto para fazer as mais alucinantes fotos.

E todos pensávamos que o namorado de Bibi era o André Kenji, até que o verdadeiro Kenji apareceu, contando histórias da imprensa americana que só ele sabe mesmo.

Com o João do Nababu também falei de coisas internéticas já num grau bem alto de caos etílico.

O Gravataí Merengue também apareceu, mas as mesas começaram a formar estranhas letras como S ou Z, e não consegui papear com ele.

E muita gente mais, blogueiros e não blogueiros, pintou por lá.

A brincadeira, no melhor estilo paulistano, amanheceu na padaria.

PS: Meu muito obrigado a Paulo Fontes, historiador do trabalho - um dos mais importantes especialistas no tema no Brasil - pela hospedagem generosa na Vila Romana. A partir desta segunda, começo a participar do congresso sobre Jacques Derrida em Araraquara. Tentarei dar notícias de lá.



  Escrito por Idelber às 03:22 | link para este post | Comentários (20)



sábado, 18 de junho 2005

Sampa

sao-paulo.jpg

A última vez que eu estive em São Paulo, a moeda era o cruzado, ou o cruzeiro, ou o cruzado novo, ou talvez índio quer apito. O presidente, eu acho que era Itamar. O melhor time do Brasil era o Grêmio. É, faz tempo que não vou a São Paulo.

Nesses anos todos de expatriamento aprendi a zanzar tranqüilo pelo Rio, Buenos Aires, Nova York ou Londres, mesmo em áreas que não conheço bem, como a Tijuca, Palermo, Upper West Side ou Chelsea. Mas reconheço que São Paulo me amedronta um pouco.

Não é só o gigantismo: há uma certa intensidade e velocidade no cotidiano paulistano que assustam, especialmente a quem chega de Minas ou de Nova Orleans, lugares onde a vida não é exatamente veloz . Mesmo para quem tem o parâmetro de outras megalópoles como a Cidade do México, São Paulo é singular. Compare o DF mexicano, onde todo mundo é mais ou menos a mesma mistura de ibérico com índio, com os milhões de árabes, japoneses, italianos e mil outras nacionalidades e etnias sem as quais São Paulo seria impensável. É difícil explicar isso aos mexicanos sem ofender - explicar, em outras palavras, que São Paulo é muito melhor que a Cidade do México.

E foi uma imagem de Sampa que me serviu de capa para o meu primeiro livro.

Eu, que como Lucia Malla, sou um viajante anti-turístico (o que não quer tirar fotinhas, catalogar visitinhas, colher pedacinhos de souvenirs, mas experienciar a diferença da outra cidade), eu que adoro perder-me numa cidade sem a orientação de anfitriões, em São Paulo invariavelmente me vejo recorrendo às dicas dos locais: e aí, o que você sugere?

Não que eu não tenha história com a cidade. Estive em um ou outro comício histórico na Praça da Sé, cujas ocasiões nem dá vontade de lembrar nestes dias delúbicos. Presenciei uma das decisões mais importantes - politicamente falando - do futebol brasileiro, a do campeonato paulista de 1982, em que a Democracia Corinthiana derrotou não só o São Paulo (sorry, Marcos), mas também todos os que insistiam que uma equipe de futebol organizada democraticamente não poderia ser campeã.

Ainda me lembro de emocionar-me quando visitei o Bixiga, não porque houvesse encontrado nada especial, mas porque era o lugar que havia inspirado tantas canções especiais. Os anfitriões insistiam o Bixiga já não é o mesmo, e eu pensava, claro que não, você já viu algum lugar mítico que o seja? Claro que o Bixiga cantado nestas pérolas já não existia, mas quem se importa?

Hoje, conversando com ela, ríamos da coincidência de que todas as nossas amizades paulistanas têm algo em comum: jamais vi um paulistano reclamar você não liga mais, não respondeu aquele email, não visita mais o blog, não fala mais de mim ou coisa do estilo. Talvez seja mesmo porque o ritmo da vida não permite esse tipo de frescura. Encontrou, beleza. Não encontrou, fica para a próxima. Há um despojamento que me agrada muito - as pessoas são, como se diz em inglês, no bullshit. Ausência total de nhém-nhém-nhém.

Não sei se já repararam, mas a história da literatura brasileira segue a história das monoculturas: no século XVII praticamente só existe na Bahia, no século XVIII em Minas Gerais, no século XIX no Rio de Janeiro. A Semana de Arte Moderna de 1922 não foi só um grito de independência artística e liberdade criativa. Foi também o que possibilitou que hoje o amazonense Milton Hatoum e o gaúcho João Gilberto Noll escrevam com plena consciência de que são parte da mesma tradição. Na literatura, o deslocamento do eixo dominante para São Paulo - rapidinho e passageiro que foi - é o que faz do país um país.

Chego a São Paulo hoje e desta vez já sei que não terei tempo para usufruir da vasta oferta de museus, exposições, eventos musicais, literários, etc. Mas antes da reunião de blogueiros na Vila Madalena às 21 horas, talvez eu me anime a fazer o que sempre quis: perder-me por um dia em São Paulo.



  Escrito por Idelber às 01:50 | link para este post | Comentários (34)



quinta-feira, 16 de junho 2005

Da lama no ventilador e da lama escondida - Crônica de uma queda anunciada

A verossimilhança não é a verdade. A verossimilhança é essa propriedade que as coisas têm - ou não - de parecerem verdadeiras, de serem críveis. O verdadeiro nem sempre é verossímil, como sabem as vítimas de um tsunami ou de uma arbitragem de José Roberto Wright. Por outro lado, a historinha mais verossímil pode ser a mentira mais deslavada. No episódio do depoimento do Dep. Roberto Jefferson à Comissão de Ética da Câmara há uma divisão clara entre quem está preocupado com a verdade e quem está preocupado com a verossimilhança. Nós nos contamos entre os primeiros. Os últimos ficam, a cada dia, mais nervosos.

A esmagadora maioria da população - este blog incluído - interessa-se pela verdade das acusações de que a alta cúpula do PT estaria envolvida num esquema criminoso de mensalões. Quem até hoje acha que defender a cúpula do PT significa defender o governo, ou pior ainda, o país, parece preocupar-se só com a verossimilhança da acusação, ou seja, com a possibilidade de que seja provada. Ante a ausência de "provas" no discurso de Roberto Jefferson, querem nos convencer que estão respirando aliviados, enquanto aguardam nervosos a próxima acareação.

À uma sociedade que quer saber a verdade sobre algo, a merda no ventilador é sempre preferível à merda escondida. Por isso, discordo radicalmente de Marcelo Coelho que, na Folha, lamentou e disse que se tratava de um dos dias mais "deprimentes" da história republicana. Eu acho que foi um dos dias em que o Congresso Nacional foi mais verdadeiro.

Alguém que tenha assistido o depoimento detalhadíssimo de Roberto Jefferson está disposto a apostar que ele mente e que dizem a verdade os enlouquecidamente nervosos Valdemar Costa Neto e Sandro Mabel? Só quem ainda acha que abafar essa história é do interesse do governo, ou pior ainda, do país.

Desde o começo da crise, a resposta da cúpula do PT tem sido patética. Poucas horas depois das denúncias de Jefferson na Folha, lançaram uma nota inócua, negando algo que nem se havia podido averiguar. A nota teve o lamentável destino de ser implicitamente desmentida pelo próprio presidente Lula, pelo Ministro Ciro Gomes, pelo Deputado Miro Teixeira, pelo Ministro Aldo Rebelo e pelo Ministro Mares Guia, todos eles confirmando que ouviram, sim, menções de Jefferson sobre o mensalão.

Todas as denúncias passam pelo tesoureiro do PT, Sr. Delúbio Soares. Quem lê este blog sabe que há meses - há anos, em outros foros - eu pergunto quem é esse Sr. Delúbio Soares, como chegou a tesoureiro do PT, como acumulou tanto poder e desde quando está lá. Na sua nervosíssima defesa, cheia de contradições (primeiro nega haver recebido presidentes de partidos, depois reconhece), Delúbio colocou seus sigilos fiscal e bancário à disposição da justiça, mas e o telefônico? Ou alguém acha que se paga mensalão com cheque? Se todos os meios de comunicação confirmam que o presidente Lula era favorável ao afastamento do Sr. Delúbio da tesouraria do PT - e se Lula é o grande emblema, o grande símbolo desse partido - como é que a Executiva Nacional pôde ter a cara-de-pau de alardear como uma vitória a manutenção desse senhor no seu cargo?

Tal como no caso Waldomiro Diniz - indivíduo comprovadamente corrupto que operava em nome do governo - o nervosismo é que a coisa respingue no Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Trata-se aqui do grande responsável pelo 'novo PT', o da política entendida como combinação entre truculência, cooptação e conchavo, sob a ética da vitória a qualquer custo. Esse método não é o método histórico do PT. Foi imposto pelos arautos do "realismo". Quando protestávamos, a resposta era sempre: "vocês são ingênuos"; "política é assim"; "estamos aqui para ganhar". Taí o resultado.

Meia palavra para bom entendedor: Formei minha opinião sobre o Ministro Dirceu no interior do PT em meados dos anos 80 e essa opinião nunca mudou. Só se reforça a cada dia. Sobre Dirceu, Fernando Gabeira disse, na Veja: Acho que o temor dele é que as pessoas ocupem o seu espaço, que ameacem aquele trono que ele construiu tão duramente, através de tantas reuniões e tanto café frio. Imagine uma pessoa que coleciona sessenta grupos de trabalho!

O discurso de Roberto Jefferson é o da raposa que foi traída, está enfraquecida, já tem pouco a perder, sabe coisas que comprometem muita gente e quer aproveitar as circunstâncias para limpar sua biografia. Um sujeito assim raríssimas vezes mentirá, porque já não lhe interessa a mentira. Foi colocado, pela própria burrice da estratégia do governo, na posição do que pode dizer toda a verdade. É só olhar a história e encontrar outras raposas que, traídas, jogaram a lama no ventilador. Zinoviev e Kamenev, na Revolução Russa, são dois exemplos. Nenhum deles era santo. Mas quando denunciaram Stalin não mentiam não.

Tentar abafar essa história do mensalão desqualificando Jefferson - matando o mensageiro - é a estratégia mais desastrada que se pode escolher. Há hipócritas do PSDB e do PFL utilizando-se do episódio para arvorar-se em paladinos da ética e da justiça? Sem dúvida. Mas os dirigentes do PT vão jogar fora tão descaradamente o bebê da justiça e da ética junto com a água suja da sua defesa oposicionista hipócrita? Quem mais - além de José Genoíno e a tropa de choque - está disposto a defender essa burríssima estratégia?

Se o presidente Lula está realmente esperando para defenestrar Dirceu quando a saída já não pareça uma resposta a Jefferson (como mantém os colunistas que acompanham o caso), talvez essa queda anunciada já esteja chegando com dois anos de atraso.

Para os que ainda insistem que o mensalão 'não pode ser provado', experimentemos uma acareação entre Jefferson / Delúbio, uma quebra do sigilo telefônico de Delúbio e, como sugeriu Fernando Rodrigues na Folha, a quebra do sigilo bancário de todos os saques acima de R$200.000 realizados nos meses de maio, junho e julho de 2004 no Banco do Brasil e no Banco Rural. Aí a gente vê se se pode provar ou não.

PS: É no dia 16 de junho que transcorre a história do livro dos livros, o maior romance do século XX, o enlouquecimento feito livro. Joycianos no mundo inteiro comemoram hoje o Bloomsday. Em Sampa a festa é sempre no Finnegan's Pub, infelizmente já sem o joyciano maior, Haroldo de Campos. Em Belo Horizonte a festa está a cargo do Oficcina Multimedia. Na blogosfera, o Odisséia Literária pilota as comemorações. Drink one for Ireland, drink one for Joy(ce) tonight.



  Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post | Comentários (18)



terça-feira, 14 de junho 2005

Poemas de Ana Maria Gonçalves - Homenagem ao Udigrudi

Poetisa
Não sou poetisa
Apenas respeito as palavras.
Não escrevo adeus, se quero implorar que fique.
Não escrevo carinho, se quero dizer amor.
E por ser verdadeiro o que escrevo, tenho medo.
Uma poetisa não teria medo das palavras.
É que para mim, elas vêm aos borbotões.
E quem me lê.... lê o que não ouso dizer.
E quando leu, já foi!
Elas me vêm sem pedir licença
Sem preparar o terreno. Vêm sem querer.
Como naquele ínfimo instante em que quero adiar o gozo.
E quando vejo, já fui!


Fantasia
De gueixa
Comida à japonesa
Com dois pauzinhos!!


Bobos Enganos...

1 . Gosto daquela hora em que o dia espreguiça.
Penso que é cuidados com a minha noturna existência.

2 . Gosto quando a noite acende os vaga-lumes.
Penso que quer me admirar também.

3. Gosto do pio do bem-te-vi.
Penso que esteve a me espiar.

4. Gosto de não atender o telefone.
Penso que podia ser você.

5. Gosto de histórias com final feliz.
Penso que podem acontecer comigo.

6. Gosto de ondas e das marés.
Penso que querem brincar com a minha inconstância.

7. Gosto de criança regateira.
Penso que é pirraça para a que eu tenho presa em mim.

8 . Gosto da quentura de colo de mãe.
Penso que me reprime por ter saído dali tão cedo.

9. Gosto do silêncio entre as palavras.
Penso que elas pararam para me ouvir.

10. Gosto quando alguém me lê.
Penso que aprendi a pensar com a ponta dos dedos.


Dualidade
Mesmo se fôssemos duas
Ambas,
Seríamos suas.

(poemas publicados em 2001 no Udigrudi)

Homenagem do Biscoito ao Udigrudi, pioneiro blog mineiro- baiano- paulistano de Ana Maria Gonçalves.



  Escrito por Idelber às 01:52 | link para este post | Comentários (16)



segunda-feira, 13 de junho 2005

Chegou!

O gonzoblogueiro - jornalista - escritor - enfant terrible

que elevou à ARTE a inovação CARDOSIANA de modulação de ênfase via MAIÚSCULAS,

comentarista mais AMADO da blogosfera,

enciclopédia do rock e, last but not least,

autor de Sexo Anal,

Luiz Biajoni

tem BLOG!

PS: Tudo confirmado para Sampa, estarei super hospedado na Vila Romana. Vamos ver se esses paulistanos biritam mesmo como dizem.



  Escrito por Idelber às 12:56 | link para este post | Comentários (15)



quinta-feira, 09 de junho 2005

Pátrias, Perguntas e Links

Da Série Felicidade em Estado Puro:
Blogueiro e filha cantarolam: ouviram do Ipiranga as margens plácidas / de um povo heróico o brado retumbante / e o sol da liberdade em raios fúlgidos / brilhou no céu da pátria neste instante / . . . / se em teu formoso céu risonho e límpido / a imagem do Atlético resplandece

Laura: pai, o que é resplandece?
Blogueiro: resplandece é ‘brilha’, minha filha.
Laura: e o que é pátria?
Blogueiro: pátria é o país em que a gente nasce. Por exemplo, o Brasil é nossa pátria . . . hmmm, eerrr, quer dizer (blogueiro lembra-se que a filha nasceu nos EUA), o Brasil é a sua pátria porque você mora no Brasil e é filha de brasileiros, mas os Estados Unidos também são a sua pátria, porque você nasceu lá. Você tem duas pátrias.
Laura: heheheheh. Eu teeeeenho duas pátrias, eu teeeeenho duas pátrias!!

Da Série Blogueiro-Viajante:
Já está disponível o programa do encontro organizado pela UNESP sobre “Desconstrução e Contextos Nacionais”, que acontece em Araraquara nos próximos dias 20-22 e reúne especialistas brasileiros, norte-americanos e africanos na obra de Jacques Derrida. Meu agradecimento à UNESP pela honra deste convite. Meu trabalho já está quase pronto.

No caminho prá lá, de 18 a 20, final da semana que vem, zanzo por Sampa – depois de não sei quantos anos. Para o dia 18 à noite já está combinada uma birita. Pilotam a coisa Luiz Biajoni e Marcos Donizetti. Gostaria de deixar o convite ao Inagaki, à Bibi, ao Marmota, à Fal, ao Pedro e a todos os amigos blogueiros de São Paulo para acompanhar este mineiro que na certa vai estar meio perdido naquele mundaréu de cidade.

Da Série Falaram de Nóis:
Menções bacanas, gentis, divertidas do Biscoito, aqui no Cardoso, lá nas Megeras, ali no Por um Punhado de Pixels, acolá no Marmota, mais ali no Pedro Alexandre Sanches, na fantástica Bibi , no Horvallis e esse absurdo de generosidade da Fal comigo, em dose dupla, em diálogo com Ester no Porca e Parafuso e lá no Focando. Muito obrigado mesmo. A casa agradece.

Da Série blogroll-esticando-I:
Hoje eu faço 54 anos. Olho para a margem esquerda e vejo 8 meses sem fumar, uma crise de abstinência dos infernos, depressão, terapia, dívidas, muitas dívidas. Seu eu soubesse que parar de fumar era isso, jamais teria parado. E o pior é que não dá pra voltar atrás. O vínculo com o cigarro se quebrou e isso é irreversível. Estou no meio do maremoto sem tábua de salvação. Parei de fumar e acabei dando num lugar totalmente outro. O deslocamento e a insatisfação são absolutos. Não era nada disso que eu queria. Eu gostava tanto da vida que eu tinha antes, da pessoa que eu era antes, por que virei essa outra?

Não, não sou eu e minha luta contra o cigarro. É este post de um dos melhores blogs que já descobri, a Doidivana. Obrigado pela lembrança, Ana.

Da Série blogroll-esticando II:
Um dos meus favoritos entre a nova geração de escritores brasileiros, Santiago Nazarian, autor do extraordinário A Morte sem Nome, já tem blog.

Da Série não-era-para-acontecer:
Meu Firefox fechou na minha cara quatro vezes hoje. Que porra é essa?

Da Série gente-que-não-trepa-e-não-quer-que-os-outros-trepem:
Hoje eu vi na televisão um gramático esbravejando que nossas conversas no MSN ameaçam "a integridade da língua portuguesa". Quando escutarem essa bobajada, mandem prá cá para discutir sociolingüística. Gramáticos bolorentos.

Da Série fico-sem-fala:
Há certos posts do Nelson Moraes que são tão sensacionais que eu nem comento.

Da Série sou-só-um-expatriado-perguntando:
Se 11 entre 10 pessoas que entendem de futebol neste país detestam o Galvão Bueno, como é que o homem continua lá, pelamordedeus? Eu juro que eu não ficaria resmungando se a gente tivesse a alternativa de mudar de canal. Mas na terra da "livre iniciativa" e das privatizações que "fazem bem à economia", a transmissão do futebol é monopólio. Então berremos.



  Escrito por Idelber às 23:39 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 08 de junho 2005

Algumas Notas sobre Xenofobia Anti-Argentina

Em primeiro lugar eu gostaria de convidar a que voltassem aqui todos os leitores que apareceram na época do post sobre Grafite/Desábato para dizer que a Seleção Brasileira seria recebida a pedradas em Buenos Aires, que o Brasil seria massacrado a pancadas e que a polícia argentina estaria pronta para levar qualquer brasileiro para a cadeia por qualquer coisa.

Em segundo lugar, alguns comentários sobre o jogo de ontem, ou melhor, sobre a transmissão brasileira:

1:40: depois de uma dividida normal, Galvão Bueno nos diz: "esse Killy González é desleal, só entra para quebrar".

3:40: gol da Argentina, depois de uma triangulação de toques rápidos típica do futebol argentino. G.B.: "Gol da Argentina numa bobeira da defesa do Brasil". Nenhuma menção à bela jogada argentina.

11:00: Depois de sofrer falta normal, Adriano se levanta e tenta agredir Ayala. Falcão: "se o árbitro tivesse mostrado o amarelo o Adriano não teria feito isso". Penso comigo: "será que o Adriano antevê o futuro?" Porque obviamente ao se levantar para agredir o argentino ele não tinha nem idéia do que faria o árbitro.

17:00: gol da Argentina. G.B.: "outra bobeira da defesa do Brasil".

40:00: terceiro gol da Argentina.

46:00: Roque Jr. faz falta e, caído, chuta Ayala. G.B.: "os jogadores brasileiros estão começando a revidar". Penso comigo: 'revidar o quê?'

No segundo tempo, com a reação do Brasil, G.B. e Casagrande nos dizem, várias vezes, que aquele era o jogo real. Uai, penso comigo, o que eu vi no primeiro tempo era um jogo imaginário? Parece que o jogo só é "real" quando o Brasil é superior.

Mas o grande destaque da noite aconteceu aos 21 do primeiro tempo. G. B. nos avisa que a palavra milonga pode ser traduzida como malandragem. Gardel revira-se no túmulo.

O sociólogo brasileiro Ronaldo Helal que reside em Buenos Aires e, como eu, se dedica ao estudo da cultura argentina, concedeu à Folha uma entrevista (link para os que têm UOL) em que afirma: Aqui, quase não há piadas com brasileiros. No Brasil, não vejo matérias elogiando o futebol argentino . . Assisti ao jogo do Brasil [contra o Paraguai] em Buenos Aires . . . Três momentos me chamaram a atenção no segundo tempo. No início, o locutor disse: "Eles jogam se divertindo. Muita técnica, uma beleza!". Depois, quando o Brasil fez 3 a 0, disse: "Agora para os amantes do bom futebol, vamos assistir ao luxo do Brasil". No final, ele disse: "Toda a magia e fantasia do jogador brasileiro". Não imagino o Galvão Bueno falando assim dos argentinos.

Ronaldo Helal tem toda a razão. Eu sonho com um Brasil onde nós conhecêssemos sobre eles 10% do que eles conhecem sobre nós; onde as transmissões de futebol não fossem essa palhaçada xenófoba; e onde todos os argentinos que aqui chegam fossem recebidos com o carinho de que eu, pelo menos, desfruto sempre que chego lá.

A propósito, um dos maiores romances latino-americanos dos últimos tempos, Duas Vezes Junho, do argentino Martín Kohan, acaba de ser lançado em português, pela editora Amauta. Não percam. O romance transcorre durante a Copa de 1978, desmontando todo o delírio patriótico que cercou aquela Copa. Ainda estou esperando um romance brasileiro que reflita criticamente sobre a nossa relação patrioteira com o futebol.

Pronto. Podem meter o pau.



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terça-feira, 07 de junho 2005

A Esquerda e a Crise do Governo

Com uma caixa de comentários rica como a de ontem, seria um pecado não aproveitá-la para continuar a discussão. Uma coisa que me alegra neste blog é a diversidade: há leitores que eu consideraria direita clássica (liberalismo econômico, discurso anti-estado, etc.). Há outros que reproduzem o ponto de vista de que "os políticos são todos iguais" e que "o PT foi cínico quando estava na oposição" e o que estaríamos presenciando agora seria a "queda da máscara". Eu não me identifico com essa explicação também não.

Mas o que mais me preocupa é a profunda divisão e confusão da esquerda que presenciamos hoje. Durante os últimos 22, 23 anos (desde as eleições de 1982), o PT tem sido a coluna vertebral e o definidor de pautas na esquerda. Pouca gente se lembra, mas no começo dos anos 80 as alianças preferenciais do então PCB e do PC do B eram com o PMDB. O argumento era que o PT dividia "a oposição democrática". O PT corretamente insistiu na sua independência e cresceu até o ponto em que o PC do B, por exemplo, teve que vir à reboque. O PT conquistou politicamente o direito de capitanear a esquerda.

Hoje, estamos presenciando um realinhamento da esquerda cujos rumos ainda não conhecemos. A prova é que vários leitores que se identificariam como de esquerda defendem posições antagônicas com respeito à crise atual.

O leitor Artur afirmou aqui ontem: quando votamos em um candidato subscritor da 'Carta aos Brasileiros', sabíamos (ou deveríamos saber) que a rota adotada era outra, que nos comportaríamos como 'bons moços', que entre o 'respeito aos contratos' estava o 'respeito' às seculares maneiras de conduzir governo por aqui. Com respeito ao Artur, essa é a identificação que acho daninha para a esquerda. Com a "Carta aos Brasileiros" e o "respeito aos contratos" justifica-se a situação desastrosa de um governo refém de Jeffersons e Severinos.

Meu amigo Pedro Alexandre Sanches, na mesma linha, afirma: me cansa profundamente o argumento fácil, sempre guardado no bolso, do "eu não falei?", do "eu já sabia", da decepção com Lula, da decepção com o PT, da decepção com todo e qualquer partido político que passar pela frente e não corresponder a metas idealizadas e nunca concretizadas (...) por essa via caímos no mero moralismo, no nhenhenhém que compõe 505 anos de Brasil.

São esses os meus interlocutores preferenciais, porque é a eles que tenho a esperança de convencer que a nós, de esquerda, não interessa dizer que 'respeito aos contratos', implica 'respeito' às 'seculares maneiras de conduzir governo por aqui'. Ao nos defendermos assim, entregamos a faca e o queijo à direita. Afinal de contas, que argumentos pode ter um governo que se identifica como novo, mas cada vez que é acusado de não sê-lo, insiste em que política é assim mesmo?

A palavra 'golpismo', que foi usada aqui para caracterizar a atividade da oposição, me parece uma cortina de fumaça. Não é que não existam delírios golpistas na oposição pefelê e tucana. Mas atribuir a crise ao "golpismo" da oposição só vai servir para que se mascare as responsabilidades do próprio governo. Ou alguém aqui achava que o PSDB e o PFL seriam doce de côco na oposição? Na verdade, mais do que 'golpe', eu vejo, junto com outros leitores, outra estratégia na oposição: enfraquecer o governo Lula e deixá-lo 'sangrando', em apuros para conquistar uma reeleição que até poucas semanas atrás parecia quase certa.

Com Rafael Galvão, concordo que essa crise é o que poderia ter acontecido de pior ao governo Lula. Que o governo demonstrou incompetência. Que caiu no engano de confundir compromisso com fisiologismo. Com o perdão do 'eu não falei?' que tanto irrita o Pedro, é isso que vários de nós temos falado há dois anos. Sempre que criticamos o fisiologismo, vêm nos dizer que política é compromisso. Ora, ninguém imaginou que seria brincadeirinha lidar com o Congresso não, mas nem em sonhos eu imaginei que o mandato popular recebido por Lula, seu tremendo apoio entre a população seriam simplesmente ignorados na negociação com as raposas petebistas ou pepistas. Lidou-se com essa gente sem colocá-los contra a parede. Ganharam espaço. Cederam-se anéis. Foram os dedos juntos. Ajudados pela confusão da coordenação política, converteram o governo Lula em seu refém. Enquanto isso, os Chico Alencar e os Eduardo Suplicy são tratados como semi-criminosos, destruidores da unidade, cúmplices da oposição de direita, etc.

Não nos interessa ignorar esse processo e ficar eternamente batendo na tecla de que é tudo culpa da oposição e que os críticos de esquerda do governo estamos "fazendo o jogo do PSDB/PFL". Não cola, simplesmente não cola. Quem faz o jogo da oposição é quem insiste que se deve governar igualzinho ao que fez aquele bloco quando lá esteve.

A defesa cega do governo, movida pelo compreensível desejo de que ele dê certo, me lembra às vezes a história do cara que pegou emprestado um bule e o devolveu estragado. Ante a reclamação do dono, ele diz: 1) eu não lhe devolvi o bule estragado; 2) o bule já estava estragado quando o tomei emprestado; 3) eu jamais tomei bule seu nenhum emprestado. Às vezes dizem que não há fisiologismo no governo; às vezes dizem que há, mas que sob FHC era pior; e depois completam que toda política é fisiológica. Ora, resolvam!

Antes de vir redigir este post, vi na televisão uma entrevista com José Genoíno. Um homem patético, que diz uma coisa às 10 e outra às 12; que não transmite nenhum sentido de liderança; que cospe palavras vazias e repete o que lhe impõem: um pau mandado do poder. Esse é o presidente do 'maior partido de esquerda do Ocidente'. Pensei comigo: com um sujeito desses "liderando" o PT, quem é que precisa de oposição golpista?

PS curioso: Não sei se foi a liberação da tensão da viagem recente de volta ao Brasil ou a tristeza com meu Galo ou uma pizza suspeita, mas enquanto vocês debatiam aqui rolou um piripaco geral no meu corpo: 10 horas de vômitos, calafrios, dor de cabeça, um inferno. A última vez que me senti mal assim foi em 5 de março de 1978. Se eu não voltar hoje é porque o chá de boldo não fez efeito. Pilotem o blog à vontade.



  Escrito por Idelber às 20:48 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 06 de junho 2005

Estarrecedora . . .

é a denúncia de Roberto Jefferson, que me chegou cedão via Rafa. Mas eu fiquei estarrecido mesmo foi com a entrevista do cabra. Qualquer que seja o passado de Roberto Jefferson, o que importa aqui é a verdade, e quem conta o caso com aquela precisão ali não está mentindo, não. Às dez da manhã, antes, portanto, de que se pudesse apurar qualquer coisa, o PT lançou nota negando. É mole?

Diante das denúncias e dos fortíssimos indícios de sua veracidade, o Biscoito renova a pergunta e o desafio: um doce para quem me disser qual é a data de filiação do Sr. Delúbio Soares no Partido dos Trabalhadores, quais cargos ele ocupou até chegar a tesoureiro do partido, como e com aval de quem ele chegou lá. Eu confesso que não sei. Mas estou louco para saber.



  Escrito por Idelber às 13:41 | link para este post | Comentários (42)



domingo, 05 de junho 2005

A "Apostila" de Parreira e o Roubo de Textos

A sequência de matérias inaugurada pela Folha na sexta-feira, sobre o plágio cometido por Carlos Alberto Parreira, é muito séria. O jornal, que é cuidadosíssimo ao fazer afirmações , não titubeou ao dar manchete: Único Livro de Parreira, o Teórico do Futebol, é Plágio. Lendo os detalhes, é difícil chegar a outra conclusão.

A investigação da Folha mostra que nada menos que 10 das 50 páginas “escritas” por Parreira para o seu Evolução Tática e Estratégia de Jogo eram traduções literais do livro de Charles Hughes, Soccer, Tactics and Teamwork (1973). Essas 10 páginas são traduzidas do livro de Hughes e reproduzidas em português sem aspas, sem referência à fonte e publicadas num volume com o nome de Parreira. Se isso não é plágio, não sei o que é.

Há uma referência ao livro de Hughes ao final, numa “bibliografia recomendada”. Mas não há nada que indique ao leitor que essas 10 inteiras páginas são uma tradução literal de um texto publicado em 1973 por outra pessoa em outra língua. Sem contar, claro, o fato de que quando citamos, muito raramente citamos dez páginas inteirinhas em seqüência.

O livro de Hughes é, explicitamente, um manual para que “equipes menores” tenham chances de enfrentar equipes superiores.

A única declaração de Parreira sobre o caso até agora – tanto à Folha como ao Globo – foi de que ele “traduziu mesmo” e de que se tratava de uma apostila que não foi “vendida como livro”. Ora, o que configura o plágio não é o ato de lucrar, mas o fato de copiar sem citar a fonte. Não é preciso ser advogado especializado em direitos autorais para saber isso. O fato de eu não cobrar entradas para o Biscoito não me dá o direito de copiar 10 laudas do Pensar Enlouquece ou do Kit Básico da Mulher Moderna e não citar a fonte, como o se o texto fosse meu. É crime do mesmo jeito.

A estratégia de resposta de Parreira parece ser a de que ele “traduziu” e “outros” colocaram aquilo entre duas capas. Parece um pouco de conversa para boi dormir, né? Sinceramente, não acredito que alguém empreste seu nome para um livro – seja lá lançado como “apostila” ou não – sem saber qual é o conteúdo que está entre a capa e a contracapa. Muito menos um sujeito como o Parreira, que não é exatamente analfabeto.

A ironia é que o plágio foi revelado justo no fim de semana em que a seleção de Parreira finalmente jogou com um quarteto ofensivo, fez uma bela exibição no Beira-Rio e goleou o bom time do Paraguai, contrariando os ensinamentos do retranqueiro Hughes, que Parreira “cita” em português.

O plágio é um crime contra a propriedade intelectual, tema que me interessa muito. Roubar bens materiais é crime codificado e reconhecido como tal por todos, mas o plágio freqüentemente é tratado como coisa menor, como se roubar um texto fosse menos grave que roubar um carro. Não é. Texto é produto de trabalho, igualzinho um carro.

Entrevistado pela Folha, Charles Hughes disse que não processará Parreira porque já "não tem idade para essas coisas".

Há muito o que se explicar aqui neste caso, porque Parreira nunca foi profissional de quem se esperasse luxemburguices. Mas eu não vejo muito por onde explicar isso, não, a não ser chegando à conclusão a que chegou a Folha.



  Escrito por Idelber às 23:33 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 04 de junho 2005

As Cem Maiores Capas da História

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A notícia me chegou via este post do Fudido e Meio: a Bizz, revista que embalou as tribos musicais "alternativas" nos anos 80, está de volta. A proposta não é a mesma, os redatores também não, tudo soa muito mais mainstream que antes, mas vale a pena conferir. O número 1 é uma eleição das 100 melhores capas de discos da história, feita por músicos, jornalistas e produtores.

Eleita, com muita justiça, foi essa pérola do pop art feita por Andy Warhol para o disco de estréia do Velvet Underground, com Nico - a famosa banana que, depois de descascada, se revela rosada e roliça.

A capa brasileira mais bem colocada não foi nem a manjada capa dos Secos e Molhados, de legendária preparação na maquiagem, nem a famosa de Todos os Olhos, de Tom Zé, que imita um olho com uma bola de gude colocada num não-identificado ânus. O primeiro lugar nacional (terceiro geral) ficou com esta bela capa de Cartola, para Verde que te quero rosa.

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A eleição da Bizz é mais uma oportunidade para que a gurizada visite a obra-prima chamada Velvet Underground and Nico (1967). Tudo naquele disco é perfeito, não só a capa: não seria exagerado dizer que ele compõe, com Sgt. Peppers, a dupla de LPs mais importantes da história do rock.

Os Velvets são os inventores do conceito de underground na música popular; são os criadores e avôs do projeto de "rock alternativo"; inventores da noção mesma de art rock, depois desenvolvida nos 70 pelo glam; primeira banda a levar os mundos sado-masoquistas para o rock; primeira a fazer usos criativos tanto da dissonância como da distorção, logo depois transformada em arte por Hendrix. E primeiros em muita coisa mais. A brincadeira que corre é que esse disco da banana só foi ouvido por umas cem pessoas, mas todas elas formaram uma banda depois. De David Bowie a R.E.M., tudo o que se seguiu seria impensável sem os Velvets.

Sempre que encontro mais um garoto que acaba de descobrir os Doors e passa a achar que Jim Morrison é a última palavra em transgressão no rock, eu insisto: já ouviu Venus in Furs? Heroin? All tomorrow's parties? Já descascou uma banana?

A verdadeira radicalidade estava em Nova York, não na Califórnia dos flower children. Perto de Lou Reed e dos Velvets, a viagem rimbaudiana de Morrison parece escapismo de adolescente. Que a grande baterista do grupo, Maureen Tucker, tenha depois, nos anos 80, trabalhado como semi-escrava no Wal-Mart é uma dessas ácidas ironias do pop.

Quando me pedem uma indicação de um disco fundamental de rock, eu volto a esse aí. É a fonte - desconhecida de muitos - de boa parte do que veio depois.



  Escrito por Idelber às 12:28 | link para este post | Comentários (13)



quinta-feira, 02 de junho 2005

Carta Aberta ao Senador Eduardo Suplicy

Prezado e Ilustre Senador Suplicy:

Chego um pouco atrasado à conversa, mas não poderia deixar de lhe escrever. Esta é uma carta cheia de admiração. Acompanhei pela imprensa o relato acerca das centenas de mensagens de apoio à assinatura que o Sr. emprestou à CPI encarregada de apurar o escândalo de corrupção nos Correios. Parabéns por honrar o mandato recebido.

Escrevo não só para expressar apoio à decisão do Sr. de assinar o requerimento da CPI, mas também para compartilhar preocupação com a forma como a direção do Partido dos Trabalhadores tem tratado as diferenças que afloraram no partido nos últimos anos. Esse escândalo reuniu ingredientes das piores práticas instaladas no PT.

Em primeiro lugar, a cena de corrupção envolvia o indicado de um dos “neo-aliados” mais manjados do governo federal, o Sr. Roberto Jefferson, ex-chefe da tropa de choque de Collor, contra cuja presença no governo nós, da chamada “esquerda” do PT, insistentemente protestamos. Uma vez provado o ato de corrupção, o governo federal – ao invés de se lançar à apuração e punição dos responsáveis, que não eram do PT – optou pelo caminho mais suspeito e menos inteligente, o de bloquear a apuração da denúncia. Ao fazê-lo, o governo simplesmente entregou a faca e o queijo ao PSDB e o PFL.

A seqüência de trapalhadas incluíram visitas ao Sr. Jefferson – com pedidos que, segundo este, chegaram às raias do “pelo amor de Deus” – telefonemas ao Sr. Garotinho e uma verdadeira sanha de perseguição contra os parlamentares petistas que ousaram desafiar essa suspeita e desastrada estratégia.

Se o corrupto era o Sr. Marinho e o responsável pela indicação o Sr. Jefferson, o que realmente a direção do PT queria esconder? Por que tanto desespero em proteger o ex-aliado número 1 de Collor? Por que o Ministro da Casa Civil, de acordo com todos relatos, parecia tão preocupado?

O Sr. sofreu a primeira punição, ao ter seu nome alijado da chapa que concorre à direção do PT. O Sr. já indicou que ainda assim votará no candidato da situação – desta situação horrenda que aí está – que é o Sr. José Genoíno, o mesmo que, apesar de não ter 5% do seu currículo, referiu-se ao Sr. nos termos mais desrespeitosos possíveis.

Respeito o voto do Sr. na eleição petista, Senador Suplicy, mas permito-me discordar. Hoje, eu não votaria no Sr. Genoíno nem para síndico do meu prédio. Não porque ele não seja um homem ilibado e honesto. Tenho certeza de que o é. Mas já perdeu a credibilidade ao converter-se num repetidor do que lhe mandam dizer, mera correia de transmissão que justifica qualquer absurdo para preservar a “unidade partidária”, definida sempre nos termos que convêm ao poder, é claro. Há outros candidatos à presidência do PT que poderiam – se eleitos, o que é muito difícil, dadas as centenas de milhares de recentes, estranhas filiações – trazer alguma credibilidade e ar fresco de volta à direção do partido.

Tudo indica, Senador, que o Sr. será o próximo nessa fritura. Por que não partir, então, para o ataque e oferecer o seu voto a um candidato que se oponha a essa truculência, a esse esmagamento da democracia partidária? Um exemplo é o Dr. Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre, um homem infinitamente mais preparado, inteligente e comprometido com a democracia que o Sr. Genoíno.

Eu não conheço o suficiente sobre os bastidores para saber se eles pensam roubar-lhe a indicação ao Senado na próxima eleição. Já fizeram coisas piores. Eu imagino que mesmo odiando o Sr. com todas as forças, eles têm muito medo de fazê-lo, porque sabem que o Sr. seria capaz, concorrendo por qualquer outro partido, de esmagar o candidato deles nas urnas. Mas é bom ficar atento.

O que eu não consigo entender ainda é por que cargas d’água uma reunião em que se lhe comunica a “punição” tenha que ser feita com o Sr. Delúbio Soares, tesoureiro do partido. O Sr. tem alguma idéia? Por que será que esse é um assunto para o tesoureiro? Não é o cúmulo da vergonha que o PT chegue ao ponto em que Delúbio Soares comunique uma punição a Eduardo Suplicy? Será que eu sou o único entre os petistas filiados no começo dos anos 80 que jamais ouviu falar da história desse Sr. no partido? De onde ele saiu? Qual foi a trajetória da ascensão dessa emblemática e misteriosa figura?

Apesar de já ter rasgado minha filiação ano passado e portanto não estar habilitado a votar nas eleições do PT que se aproximam, Senador, eu deixo ao Sr. minha admiração, minha solidariedade e meu desejo de que suas próximas decisões sejam sábias e cuidadosas. Sei que éticas e impecáveis elas serão.

PS: Estou enviando-lhe esta missiva por email mas também a publicarei no meu blog. Dentro de uns dois dias lhe encaminharei também os comentários que por ventura meus leitores fizerem. Um abraço do seu admirador.



  Escrito por Idelber às 23:29 | link para este post | Comentários (28)