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domingo, 05 de junho 2005

A "Apostila" de Parreira e o Roubo de Textos

A sequência de matérias inaugurada pela Folha na sexta-feira, sobre o plágio cometido por Carlos Alberto Parreira, é muito séria. O jornal, que é cuidadosíssimo ao fazer afirmações , não titubeou ao dar manchete: Único Livro de Parreira, o Teórico do Futebol, é Plágio. Lendo os detalhes, é difícil chegar a outra conclusão.

A investigação da Folha mostra que nada menos que 10 das 50 páginas “escritas” por Parreira para o seu Evolução Tática e Estratégia de Jogo eram traduções literais do livro de Charles Hughes, Soccer, Tactics and Teamwork (1973). Essas 10 páginas são traduzidas do livro de Hughes e reproduzidas em português sem aspas, sem referência à fonte e publicadas num volume com o nome de Parreira. Se isso não é plágio, não sei o que é.

Há uma referência ao livro de Hughes ao final, numa “bibliografia recomendada”. Mas não há nada que indique ao leitor que essas 10 inteiras páginas são uma tradução literal de um texto publicado em 1973 por outra pessoa em outra língua. Sem contar, claro, o fato de que quando citamos, muito raramente citamos dez páginas inteirinhas em seqüência.

O livro de Hughes é, explicitamente, um manual para que “equipes menores” tenham chances de enfrentar equipes superiores.

A única declaração de Parreira sobre o caso até agora – tanto à Folha como ao Globo – foi de que ele “traduziu mesmo” e de que se tratava de uma apostila que não foi “vendida como livro”. Ora, o que configura o plágio não é o ato de lucrar, mas o fato de copiar sem citar a fonte. Não é preciso ser advogado especializado em direitos autorais para saber isso. O fato de eu não cobrar entradas para o Biscoito não me dá o direito de copiar 10 laudas do Pensar Enlouquece ou do Kit Básico da Mulher Moderna e não citar a fonte, como o se o texto fosse meu. É crime do mesmo jeito.

A estratégia de resposta de Parreira parece ser a de que ele “traduziu” e “outros” colocaram aquilo entre duas capas. Parece um pouco de conversa para boi dormir, né? Sinceramente, não acredito que alguém empreste seu nome para um livro – seja lá lançado como “apostila” ou não – sem saber qual é o conteúdo que está entre a capa e a contracapa. Muito menos um sujeito como o Parreira, que não é exatamente analfabeto.

A ironia é que o plágio foi revelado justo no fim de semana em que a seleção de Parreira finalmente jogou com um quarteto ofensivo, fez uma bela exibição no Beira-Rio e goleou o bom time do Paraguai, contrariando os ensinamentos do retranqueiro Hughes, que Parreira “cita” em português.

O plágio é um crime contra a propriedade intelectual, tema que me interessa muito. Roubar bens materiais é crime codificado e reconhecido como tal por todos, mas o plágio freqüentemente é tratado como coisa menor, como se roubar um texto fosse menos grave que roubar um carro. Não é. Texto é produto de trabalho, igualzinho um carro.

Entrevistado pela Folha, Charles Hughes disse que não processará Parreira porque já "não tem idade para essas coisas".

Há muito o que se explicar aqui neste caso, porque Parreira nunca foi profissional de quem se esperasse luxemburguices. Mas eu não vejo muito por onde explicar isso, não, a não ser chegando à conclusão a que chegou a Folha.



  Escrito por Idelber às 23:33 | link para este post | Comentários (14)


Comentários

#1

Incrivel essa historia do Parreira. Tambem nao esperava luxemburguices dele. Mas no pais dos "mensaloes" do PT de seu Delubio, o que esperar?
Estou perdido, Idelber. Estou perdido.

Jose Amaro em junho 6, 2005 2:52 AM


#2

Lastimável é a única palavra a ser dita. Esse é o Brasil em que vivemos.

Yvonne em junho 6, 2005 6:04 AM


#3

Plágio é crime. O autor lesado tem que processar?
Será que os herdeiros não irão se assanhar?
Será que eu não consigo processá-lo para tirar uma casquinha?

Aluno em junho 6, 2005 6:10 AM


#4

Que papelão fez o senhor Parreira. Ele poderia até escrever um livro para se justificar, mas não conseguiria. O que ele fez foi um crime, e merece sofrer uma punição para aprender e para servir de exemplos para todos. Em um sociedade que vem enfrentando tantos problemas como a nossa, não precisamos de mais uma pessoa "famosa" dando maus exemplos para o povo.

Carlos em junho 6, 2005 7:10 AM


#5

Gente, essa da "apostila que não foi vendida como livro" foi de cair da cadeira de rir e de susto! Meu Deus, então, uma "apostila", um trabalho escrito e encadernado, não é TRABALHO INTELECTUAL? NÃO ESTÁ PROTEGIDO PELAS LEIS DA PROPRIEDADE INTELECTUAL E DIREITOS AUTORAIS? Quer dizer então que nossas monografias suadas, somente pelo fato de não serem "vendidas como livros", podem ser copiadas na cara dura? Com a mais pura "luxemburguice" di mundo? FRANCAMENTE! Sr. Parreira, este foi o maior absurdo que eu já pude ouvir!
Abraços a todos

Ana Letícia em junho 6, 2005 7:35 AM


#6

Idelber, o que me impressiona nos casos de plágio é a desnecessidade do crime, já que as ídéias não têm qualquer proteção legal. Roube a idéia mas não roube o texto. O sujeito que não consegue apreender uma idéia e transmiti-la com seu próprio discurso, é a própria imagem da vergonha do dito popular: "vergonha é roubar e não conseguir carregar".

pecus em junho 6, 2005 8:01 AM


#7

Talvez ele se desculpe por achar que o livro-apostila não seja "plágio" porque faz parte do material didático da Escola Brasileira de Futebol, parceria da CBF com a Fifa. Pensa que esta fazendo um favor para os menos previlegiados. De acordo com a lei brasileira, Parreira, sujeita-se a uma pena de prisão até dois anos por “violação da propriedade intelectual”. Se Huges não apresentar a queixa, cabe ao seu editor inglês assim fazê-lo.
Boa semana para todos! Beijus,

Luma em junho 6, 2005 9:18 AM


#8

Uma vergonha. Justo nesse momento em que estamos tão necessitados de bons exemplos. Independentemente do autor processar Parreira, espero que os meios de comunicação dêem bastante destaque ao caso para que, pelo menos, este Sr. Parreira passe uma grande vergonha.

Falando de propriedade intelectual e blogues: vocês acham lícito publicar um post de outro blog, citando a fonte, é claro, porém SEM PEDIR autorização ao autor?

No meu entendimento não é lícito, não, Viva. Não é plágio, mas é apropriação indébita. É como pegar um artigo já publicado num livro, republicá-lo em outro sem conhecimento do autor, não acha?

Viva em junho 6, 2005 9:37 AM


#9

Está aí uma coisa que deveria ser mais discutida: plágio de blogs. Já vi isso em alguns, mas de pessoas reclamando que alguém havia copiado diversos posts sem nenhum crédito.

Mais uma vez eu fico sem saber: por que diabos alguém não cita a fonte? Não dói nada é rápido e além de divulgar uma informação interessante ainda atrai a atenção de quem escreveu para o seu blog.

Ok, vou voltar a minha leitura de blogs e citações. ;) Beijos e quando foi aparecer por aqui avise.

Bibi em junho 6, 2005 12:21 PM


#10

Tão notável quanto o crime cometido é o fato de Parreira ter copiado um livro de 1973. O futebol mudou muito desde lá. Este livro, vindo de um inglês, deve ser pré-Holanda de 1974, pois é provável que Hughes não conhecesse profundamente a ofensiva Ajax de Rinus Mitchels. Talvez seja uma ode aos "infalíveis" esquemas defensivos de Sir Alf Ramsey. Acho que ele tinha este livro na cabeceira quando treinava o Fluminense na segunda e terceira divisões.

Um crime e uma tolice, portanto.

Grande abraço, Idelber.

Milton Ribeiro em junho 6, 2005 12:29 PM


#11

Pecus: é vero. Na maior parte dos casos de plágio, um pouquinho de massa encefálica e disposição de trabalhar eliminaria todos os traços da apropriação da idéia, com o mesmo resultado. Isso é o que dá mais raiva: a sensação de que a pessoa fez o leitor de bobo.

Bibi: como você sabe, não atribuição de fonte é ultracomum no mundo blog. Sei lá qualé, às vezes penso que é a idéia idiota de que vai parecer mais "original" se omitir que tal link foi encontrado via tal blog. É o "apud", na gíria do academês. Eu cato a citação de Romero em Schwarz e cito Romero, omito Schwarz. Plágio isso não é, mas é considerado entre nós, acadêmicos, uma violação da ética da citação também. Você deve ser uma vítima preferencial mesmo, pela natureza do seu trabalho. Viu, denuncia. 18/19 de junho confirmadíssimo aí em Sampa: depois armamos detalhes segundo a disponibilidade de vocês.

Mílton: o livro é medíocre, seu único mérito é ser um eficiente manual para equipes retranqueiras conseguirem empatar. E a concepção tática não só é pré-Holanda como é ignorante do que em 1973 já fazia Mitchels. Esse é o livro "traduzido" pelo treinador que sempre fala que há que se "atualizar", "estar em dia", que as pessoas no Brasil não se atualizam, etc.

Luma: valeu a completada, é exato, a lei brasileira prevê até dois anos. :)

Abraços a todos,

Idelber em junho 6, 2005 12:51 PM


#12

Luma,
Cuidado com "seus" textos no seu Blog.
Como voce mesma falou pode dar cadeia.
O site CURIOSIDADES que o diga.
Clovis

Clovis em junho 6, 2005 2:10 PM


#13

Idelber, obrigado pelo comentário. Tenho pensado muito nesta questão dos textos que circulam pela net. Já fico com ódio mortal quando recebo por e-mail aqueles textos melosos falsamente atribuídos ao Jabor ou ao Veríssimo. Quando o texto é publicado em blog, o mínimo que se pode fazer é citar a fonte DEPOIS DE VERIFICAR A AUTENTICIDADE. Temos visto as maiores barbaridades neste sentido desde autores trocados até omissão proposital. Desculpe por aproveitar este espaço - acabe saindo um pouco do assunto. Enfim, ~sei que você já sofreu na pele este tipo de coisa e que já fez outros posts sobre o assunto mas fica a sugestão de pauta.

Viva em junho 6, 2005 3:54 PM


#14

Por outro lado, é bem comum eu encontrar em meio a minhas apostilas, cópias de textos de outras pessoas. A única diferença é há no mínimo uma citação de pé de página: "Excerpt from bla-bla-bla"... Porque o Parreira ou o vendedor da apostila não colocou isso é um mistério. Mas em matéria de futebol, o Parreira sempre teve vontade plagiar um europeu...

Ram em junho 13, 2005 8:27 AM