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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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terça-feira, 07 de junho 2005

A Esquerda e a Crise do Governo

Com uma caixa de comentários rica como a de ontem, seria um pecado não aproveitá-la para continuar a discussão. Uma coisa que me alegra neste blog é a diversidade: há leitores que eu consideraria direita clássica (liberalismo econômico, discurso anti-estado, etc.). Há outros que reproduzem o ponto de vista de que "os políticos são todos iguais" e que "o PT foi cínico quando estava na oposição" e o que estaríamos presenciando agora seria a "queda da máscara". Eu não me identifico com essa explicação também não.

Mas o que mais me preocupa é a profunda divisão e confusão da esquerda que presenciamos hoje. Durante os últimos 22, 23 anos (desde as eleições de 1982), o PT tem sido a coluna vertebral e o definidor de pautas na esquerda. Pouca gente se lembra, mas no começo dos anos 80 as alianças preferenciais do então PCB e do PC do B eram com o PMDB. O argumento era que o PT dividia "a oposição democrática". O PT corretamente insistiu na sua independência e cresceu até o ponto em que o PC do B, por exemplo, teve que vir à reboque. O PT conquistou politicamente o direito de capitanear a esquerda.

Hoje, estamos presenciando um realinhamento da esquerda cujos rumos ainda não conhecemos. A prova é que vários leitores que se identificariam como de esquerda defendem posições antagônicas com respeito à crise atual.

O leitor Artur afirmou aqui ontem: quando votamos em um candidato subscritor da 'Carta aos Brasileiros', sabíamos (ou deveríamos saber) que a rota adotada era outra, que nos comportaríamos como 'bons moços', que entre o 'respeito aos contratos' estava o 'respeito' às seculares maneiras de conduzir governo por aqui. Com respeito ao Artur, essa é a identificação que acho daninha para a esquerda. Com a "Carta aos Brasileiros" e o "respeito aos contratos" justifica-se a situação desastrosa de um governo refém de Jeffersons e Severinos.

Meu amigo Pedro Alexandre Sanches, na mesma linha, afirma: me cansa profundamente o argumento fácil, sempre guardado no bolso, do "eu não falei?", do "eu já sabia", da decepção com Lula, da decepção com o PT, da decepção com todo e qualquer partido político que passar pela frente e não corresponder a metas idealizadas e nunca concretizadas (...) por essa via caímos no mero moralismo, no nhenhenhém que compõe 505 anos de Brasil.

São esses os meus interlocutores preferenciais, porque é a eles que tenho a esperança de convencer que a nós, de esquerda, não interessa dizer que 'respeito aos contratos', implica 'respeito' às 'seculares maneiras de conduzir governo por aqui'. Ao nos defendermos assim, entregamos a faca e o queijo à direita. Afinal de contas, que argumentos pode ter um governo que se identifica como novo, mas cada vez que é acusado de não sê-lo, insiste em que política é assim mesmo?

A palavra 'golpismo', que foi usada aqui para caracterizar a atividade da oposição, me parece uma cortina de fumaça. Não é que não existam delírios golpistas na oposição pefelê e tucana. Mas atribuir a crise ao "golpismo" da oposição só vai servir para que se mascare as responsabilidades do próprio governo. Ou alguém aqui achava que o PSDB e o PFL seriam doce de côco na oposição? Na verdade, mais do que 'golpe', eu vejo, junto com outros leitores, outra estratégia na oposição: enfraquecer o governo Lula e deixá-lo 'sangrando', em apuros para conquistar uma reeleição que até poucas semanas atrás parecia quase certa.

Com Rafael Galvão, concordo que essa crise é o que poderia ter acontecido de pior ao governo Lula. Que o governo demonstrou incompetência. Que caiu no engano de confundir compromisso com fisiologismo. Com o perdão do 'eu não falei?' que tanto irrita o Pedro, é isso que vários de nós temos falado há dois anos. Sempre que criticamos o fisiologismo, vêm nos dizer que política é compromisso. Ora, ninguém imaginou que seria brincadeirinha lidar com o Congresso não, mas nem em sonhos eu imaginei que o mandato popular recebido por Lula, seu tremendo apoio entre a população seriam simplesmente ignorados na negociação com as raposas petebistas ou pepistas. Lidou-se com essa gente sem colocá-los contra a parede. Ganharam espaço. Cederam-se anéis. Foram os dedos juntos. Ajudados pela confusão da coordenação política, converteram o governo Lula em seu refém. Enquanto isso, os Chico Alencar e os Eduardo Suplicy são tratados como semi-criminosos, destruidores da unidade, cúmplices da oposição de direita, etc.

Não nos interessa ignorar esse processo e ficar eternamente batendo na tecla de que é tudo culpa da oposição e que os críticos de esquerda do governo estamos "fazendo o jogo do PSDB/PFL". Não cola, simplesmente não cola. Quem faz o jogo da oposição é quem insiste que se deve governar igualzinho ao que fez aquele bloco quando lá esteve.

A defesa cega do governo, movida pelo compreensível desejo de que ele dê certo, me lembra às vezes a história do cara que pegou emprestado um bule e o devolveu estragado. Ante a reclamação do dono, ele diz: 1) eu não lhe devolvi o bule estragado; 2) o bule já estava estragado quando o tomei emprestado; 3) eu jamais tomei bule seu nenhum emprestado. Às vezes dizem que não há fisiologismo no governo; às vezes dizem que há, mas que sob FHC era pior; e depois completam que toda política é fisiológica. Ora, resolvam!

Antes de vir redigir este post, vi na televisão uma entrevista com José Genoíno. Um homem patético, que diz uma coisa às 10 e outra às 12; que não transmite nenhum sentido de liderança; que cospe palavras vazias e repete o que lhe impõem: um pau mandado do poder. Esse é o presidente do 'maior partido de esquerda do Ocidente'. Pensei comigo: com um sujeito desses "liderando" o PT, quem é que precisa de oposição golpista?

PS curioso: Não sei se foi a liberação da tensão da viagem recente de volta ao Brasil ou a tristeza com meu Galo ou uma pizza suspeita, mas enquanto vocês debatiam aqui rolou um piripaco geral no meu corpo: 10 horas de vômitos, calafrios, dor de cabeça, um inferno. A última vez que me senti mal assim foi em 5 de março de 1978. Se eu não voltar hoje é porque o chá de boldo não fez efeito. Pilotem o blog à vontade.



  Escrito por Idelber às 20:48 | link para este post | Comentários (23)


Comentários

#1

Vamos lá, Idelber-pós-piripaco,
'De antemão, não': não defendo incondicionalmente nem o PT nem seu governo. Diria, até, que mesmo condicionalmente é raro. Formo entre os que discordaram abertamente da 'Carta aos Brasileiros' (e, principalmente, de suas seguidas 'releituras' pelo governo), por ver ali o ovo da serpente que agora eclode; entre os que em dezembro de 2002 já escreviam e falavam que, por força de um gigantesco erro de avaliação de correlação de forças e de escolha tática, iríamos produzir um governo pífio e refém da agenda do outro lado. E, também, ao longo dos muitos anos que se passaram de 1989 até agora, estive entre os que seguidamente polemizaram com o dito Campo Majoritário, por seu estabanado e oportunista abandono de paradigmas, valores e conceitos de política de esquerda conseqüente, particularmente na substituição da ótica pela dita 'ética' (mero discurso moralista, bem ao gosto da pequena burguesia que se buscava seduzir a qualquer custo).
Mas, feita a fé de ofício, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que, tomada a opção pelo jogo democrático nos moldes em que ele se processa no Brasil e reforçada tal opção pela escolha de um caminho sem confrontos com o parlamento, NÂO HÀ outra forma de gerir que não submetendo-se ao torneio como ele é. ‘A regra é clara’, Idelber. Executivo brasileiro que não tem maioria partidária própria no legislativo ou a compra, ou parte para medir forças na sociedade ou não governa. O PT é que se colocou na armadilha, a mesma que emparedou Sarney, Jango e Vargas e da qual Juscelino e FHC 'habilmente' fugiram.
Não é uma questão de gosto, Idelber, mas de fatos. Tudo o que defendi, ao longo de 3 décadas de militância comunista, não pode ser mais distante do que faz o governo Lula. Nem por isso penso que embarcar na gritaria dos 'sepulcros caiados' ou na autoflagelação seja a alternativa. Frieza na análise não contenta corações de estudante, mas permite colher ensinamentos.
Abraços.

Artur em junho 7, 2005 11:11 PM


#2

Questões partidárias à parte, penso que ainda dá tempo para nosso Presidente salvar sua biografia: basta demitir seus ministros incompetentes, deixar o PT, livrar-se das más companhias e permitir/exigir que corruptos sejam punidos na forma da lei. Ou, no popular, basta ter um pouco de vergonha na cara, como disse aquele velhinho vendedor de queijo e doce de leite. "E a governabilidade?" perguntarão alguns. Bem, pior do que está acho que não fica.

Iraldo em junho 8, 2005 3:39 AM


#3

Opa, fui indiretamente citado.

Fui eu quem disse que o PT foi cínico.

Desafio alguém a me provar que não foi. O PT foi o partido que por anos bateu no bumbo da CPI, denunciava a compra de votos (inclusive da reeleição, que agora acha ótima), e demonizava o governo do PSDB pelas suas práticas de governança.

E está fazendo tudo isso que denunciava agora.

Mas é claro que nada do que é humano me é estranho. A atitude do PT quando na oposição era lógica e racional, e a atitude do PT quando no Poder também, pois sua alternativa seria o chavismo (coisa que poucos parecem perceber). O problema, porém, que muitos eleitores do PT não quiseram ver é que atrás desse udenismo de ocasião residia uma falta de projeto para o País. Converse com qualquer PT-coroinha e verá que para eles o fato do PT estar no poder é condição necessária e suficiente para fazer chover maná e mel. Neste sentido a experiência do PT no poder é quase que totalmente regressiva pois praticamente sabota a própria idéia de um plano de governo ou de adotar um conjunto de políticas públicas coerentes.

Volto ao ponto: o verdadeiro estelionato eleitoral petista não é a "Carta" _ nisto discordo do Artur, não dava pra ser muuito diferente na política econômica, embora eles tenham demorado muito a perceber que não dá pra ficar só na política de juros _ mas sim a falta da prometida consistência nas demais políticas públicas, cuja face real é uma só: loteamento dos ministérios finalísticos pelas diversas tendências do partido.

smart shade of blue em junho 8, 2005 5:06 AM


#4

"Executivo brasileiro que não tem maioria partidária própria no legislativo ou a compra, ou parte para medir forças na sociedade ou não governa. O PT é que se colocou na armadilha, a mesma que emparedou Sarney, Jango e Vargas e da qual Juscelino e FHC 'habilmente' fugiram." Artur.

Quando teremos um "projeto de país" e não a eterna briga meramente política? Nem uns, nem outros, até agora, fizeram algo que realmente mudasse a condição da sociedade. Esperava ver nascer - apenas nascer já seria o bastante - a crença na possibilidade de uma sociedade mais justa; a esperança de que as pessoas pudessem sair da miséria em que vivem, pois estas, até então, continuam sendo esquecidas em meio à disputa meramente política por sustentação. Nisso, e apenas nisso, o PT era diferente dos demais partidos. E é nisso que ele está falhando. Não há nada pior para um ser humano do que viver sem esperança.

Afonso em junho 8, 2005 6:35 AM


#5

Nao vou falar de esquerda ou de direita, de partidos, desse ou daquele politico. Ha pessoas mais competentes para isso, começando pelo “dono dessa casa”.
Acho que o ser humano é mais ou menos igual em qualquer lugar. Ha’ gente essencialmente boa e gente essencialmente ruim, mas tanto uns quanto os outros podem contrariar a propria essencia.
Ha’ os bem intensionados e os que vivem querendo se dar bem. Ha’ gente flexivel e gente inflexivel. Nao importa o lugar, o ser humano esta’ ali, para o bem e para o mal.
O que equilibra um pouco as coisas é a existencia de regras (justas) iguais para todos e puniçao também para qualquer um que nao as cumprimsse. Ainda que o ideal fosse o senso comum, o simancol basico de cada um, é evidente que contar com isso esta’ fora de questao.
Nao precisariamos de mandamentos religiosos e nem mesmo de amarmos uns aos outros. Bastaria o respeito e tudo andaria melhor. Nossos problemas seriam so’ aqueles existenciais (o que ja’ nao seria pouco).
Seguindo esse meu raciocinio simplezinho, queria citar duas coisas. Uma foi um desses e-mails que a gente recebe todos os dias. Aqueles com “mensagens” que, de tao obvias, nos parecem bobinhas.
Esse e-mail falava de um pai que, cheio de trabalho, despacha o filho pequeno que queria brincar com ele. Para isso, na falta de um brinquedo novo, pica em pedacinhos uma pagina de revista com um mapa mundi, entregando-a ao filho como um quebra-cabeça a ser montado.
Pouco tempo depois o menino volta e, para a surpresa do pai, apresenta-lhe a pagina novamente inteira, com tudo no lugar certo. Perplexo, o sujeito pergunta ao filho: mas como voce conseguiu fazer isso? E o menino responde com a simplicidade das crianças: eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os pedaços e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o Mundo.
Meio babaca? Pode ser, mas, na minha modestissima opiniao, uma verdade.
A segunda coisa é uma experiencia pessoal. Morei num prédio onde ser sindico sempre foi sinonimo de “vou meter a mao e nao vai acontecer nada” (nao sei se ha’ predios onde nao seja assim, mas tenho esperança).
Um belo dia, junto com mais 2 pessoas, reuni provas que mostravam que uma das contas bancarias dos condominio (haviam criado outras por razoes obvias) tinha sido “aliviada” de uma quantia relativamente grande. Conseguimos documentar tudo e, para resumir, conseguimos afastar o sindico e sua turma, que ja’ estavam nesse esquema ha’ 10 anos.
Uma das pessoas que mais acusaçoes fez ao sindico e sua “equipe” foi a mesma que assumiu o cargo depois que eu e meus dois companheiros de luta, conseguimos afastar os outros (tendo para isso que,inclusive, meter a mao nos nossos proprios bolsos). Fomos sondados para o cargo, mas cada qual por uma razao, nao podiamos e nem queriamos aceitar. Conclusao 1: assumiu a pessoa que, embora nao tenha contribuido na pratica, falava aos quatro ventos dos abusos e absurdos cometidos pela “galera” anterior. Uma das minhas propostas foi a de que cada condomino assumisse a administraçao por um ano, mas ninguém topou. Sendo assim, assumiu quem se dizia pronto para mudar a situaçao, com transparencia e trabalho.
Conclusao 2: assumiu e nada mudou ou, mais triste ainda, piorou. Para continuar “no poder” ela “esqueceu-se” de dar sequencia ao processo que puniria os ladroes anteriores. Em troca desse esquecimento, teve os votos dos mesmos e a certeza de que tinha chegado a sua vez de se dar bem. Tudo mudou para ficar igual. Ainda continuei tentando mudar as coisas por um tempo, mas cansei e mudei.
Todo esse bla-bla-bla para dizer que: no Brasil as coisas dificilmente irao mudar. A mesma pessoa que fala de corrupçao, da’ uma cerveja para o guarda, so’ para nao ser multado, pede ao amigo que trabalha no orgao X para dar uma maozinha, passando na frente de quem nao tem amigo no orgao X, empregaria o parente,se pudesse fazer isso como os Severinos. Tem neguinho dando carteirada, perguntando “sabe com quem vc ta’ falando?” na maior cara de pau. Tem gente boa também, claro. Mas essas acabam se sentindo idiotas por respeitarem as regras.
Nao sei se isso ja’ esta’ de tal forma instalado no nosso DNA, que uma mudança passa a ser so’ utopia.A gente vive vendo o mesmo filme, nao importa se mudam os atores.
Quem realmente quer abrir mao dos seus privilegios? Quem realmente esta’ disposto a agir segundo o proprio discurso, com etica e dentro da Lei?
Vejo muita gente boa. Sei que na base nem tudo apodreceu, mas sei também que a corrupçao, a vontade de se dar bem “e-que-se danem-os-outros-porque-se-eu-nao-fizer-alguém-vai-fazer” se espalhou como um cancer e o doente nao sabe onde buscar forças. A soluçao começa no individuo, feliz ou infelizmente.
Sinto tristeza e descrença. E medo também, porque nao vejo soluçao. Resta so’ esse sabor amargo na boca diante da repetiçao da mesma cena tantas vezes vista e a certeza de que, como no prédio em que morei, muda o sindico, mas nao mudam as idéias e nem as praticas. Infelizmente consertar o homem e, por consequencia o mundo, é mais facil na estorinha do e-mail do que na vida real.
Desculpem-me por um comentario tao grande (e pela falta de alguns acentos, culpa do meu teclado). Em geral tenho preferido ouvir/ler, do que falar/escrever, mas às vezes a vontade de me manifestar vem e ocorrem essas avalanches de palavras. Um abraço

Gabriela em junho 8, 2005 8:00 AM


#6

Caro Idelber

É preocupante o estado de espírito que atravessa o presidente Genoíno. Ele foi entrevistado no domingo à noite na TV Bandeirantes (antes da publicação da entrevista do Roberto Jefferson na Folha) e mostrou-se mais arrogante e raivoso que o habitual. Genoíno tem a característica, quando pressionado, de ir perdendo toda a sua argumentação. O que tornou a entrevista TRÁGICA!


UMA PERGUNTA:
Agora que o PT voltou atrás e defende a CPI (mesmo que muito restrita), QUEM IRÁ PEDIR DESCULPA AO Senador Suplicy???

Paulo Zobaran em junho 8, 2005 10:05 AM


#7

Converse com qualquer PT-coroinha e verá que para eles o fato do PT estar no poder é condição necessária e suficiente para fazer chover maná e mel .

Meio caricatural, né Smart? Com quais petistas você anda conversando? Há anos eu só vejo petistas dizendo que não choverá maná e mel nunca, nem com o PT no poder.

"Cinismo" é uma análise fraca, eu acho. Também acho que "lacerdismo" e "udenismo" são rótulos que não ajudam a entender a postura que o PT teve ao longos do anos não. Houve ingenuidade? Sim. Houve também um processo pelo qual se tentou inventar um partido novo de esquerda, sem os vícios dos anteriores, com uma série de erros. Mas também com um considerável aprendizado para a sociedade. Não entendo como você, que já me confidenciou pensar votar em Lula em 2006, pode sequer comparar o PT com o governo Collor.

Artur, estou de acordo com seu primeiro parágrafo. Com o segundo não. Se você critica, como eu, as "sucesssivas releituras" da "Carta aos Brasileiros", qual a lógica de fazer o que você parecia fazer ontem - pelo que entendi, pelo menos - que é usá-la para justificar o vale-tudo do governo? É verdade que Executivo brasileiro que não tem maioria partidária própria no legislativo ou a compra, ou parte para medir forças na sociedade ou não governa . Correto. Mas qual governo na história deste país teve tanto cacife para combinar negociação e cooptação parlamentar com a "medição de forças" na sociedade? Por que essa última alternativa, a de forçar as raposas do congresso a explicarem-se à sociedade na hora de votar os projetos de interesse popular não foi sequer cogitada? Por que recorrer aos truísmos tipo "só há uma alternativa"?

Idelber em junho 8, 2005 10:17 AM


#8

Idelber, eu não justifiquei nada. Só disse – e 'redigo' – que quem se propôs a governar a República, com um hipotético programa 'mudancista', de formação de um novo bloco histórico que viabilizasse o desenvolvimento nacional, nos marcos do capitalismo, centrado na expansão do mercado interno, na inclusão soberana na divisão internacional do trabalho e na quitação da fatura da dívida social brasileira (desculpe-me o uso de formuletas, mas o espaço é restrito e não permite digressões), quem se propôs a trilhar essa rota (que, em minha opinião, é correta) e, SIMULTANEAMENTE, não se propõe a confrontos, a colocar em cheque os hábitos e comportamentos da República, só pode ficar refém e ter que administrar pelos 'usos e costumes', pelo vale-tudo, pelo mesmo método que PFL, PSDB e PRN administraram.
Vc acerta na mosca: nunca um governo 'teve tanto cacife para combinar negociação e cooptação parlamentar com a "medição de forças" na sociedade'. Só que as concepções políticas sintetizadas na 'Carta aos Brasileiros' diziam o contrário. E foi nelas que nos escoramos, as dezenas de milhões de eleitores de Lula.
Saindo do campo 'macro', volto a por em pauta a micropolítica: há alguma diferença entre o que hoje se 'denuncia' e o que o PT denunciava? Houve alguma alteração de substância ou conteúdo? É claro que não. Daí não concordar com o 'moralismo' de plantão, com uma postura acovardada da esquerda, aceitando que o terreno da pretensa ética seja o da discussão. Só isso.
Abraços

Artur em junho 8, 2005 10:49 AM


#9

Idelber, indico o blog http://www.morcego.blogger.com.br/ para ler e se divertir com temas políticos. Vai lá e depois me fala. Beijus,

Luma em junho 8, 2005 11:05 AM


#10

Prezado Paulo Zobaran
Tive a mesma impressão que tu sobre o Genoino, tanto que comentei lá atrás a participação dele na Band. Arrogância plena. Humildade foi rasgada dos dicionários petista.
NePTismo, mensalão, ... a decepção tá grande, porém nunca poderei dizer que não fui avisado.
Em 88, acompanhado de uma garrafa de vodka, escutei de dois petistas (fundadores) um resumo do que seria o PT no poder. Passados quase 20 anos, as projeções se confirmam, e ambos petistas andam decepcionados. Para um deles, dia destes, comentei: tu e fulana me avisaram.
A vodka era polaca e não deixou ressaca, teria preferido uma cana de terceira, uma ressaca colossal na manhã seguinte mas não ser testemunha daquelas projeções, confirmadas hoje.


Aluno em junho 8, 2005 11:18 AM


#11

Idelber, em primeiro lugar, melhoras! Te cuida cara! ;-) Quanto ao teu post, nem sei o que dizer. Disseste tudo! Concordo com tua análise, só fico me perguntando o porque de tudo isso. A crise que o PT está vivendo no momento não surpreende. A nível local, pelo menos em joinville/sc, já estamos assistindo o circo se armar não é de hoje. Uma coordenação autoritária, que se rodeia de todos aqueles que um dia foram opositores (aliás, os piores opsitores) e que não faz mais crítica nenhuma : nem aos "inimigos" (com medo de "perder" terreno e oportunidades), nem a si mesmo. Aliás, a auto-crítica é, cada vez mais, o fraco do partido. E cada um que expõe a crítica é aos poucos escanteado. Resultado: perdemos as eleições municipais que estavam na mão para um sujeito tosco, sem carisma nenhum, porque preferimos não falar mal do PMDB pensando em futuras alianças para o governo do estado. E a auto-critíca? Ah! Não foi culpa nossa não? Sem condições de entender mais tudo isso, rasguei a carteirinha e ainda não sei o que farei com meu voto.

Beijão!

Elisa em junho 8, 2005 11:22 AM


#12

Idelber, obrigado pela preferência, hahaha.

Não se assuste com seu piripaco, acho que o que estamos todos vivendo não é bolinho, não, e justifica panes de várias naturezas...

Aliás, essa é a linha que quero seguir neste momento: a de que estamos todos neste mesmo barco. eu sou eleitor do lula (aliás, foi a primeira e única vez na minha vida até aqui em que elegi um presidente, após três tentativas frustradas) e quero assumir integralmente minha co-responsabilidade, por causa do meu voto, no que está acontecendo agora. não quero me eximir, não quero mais tratar os "corruptos" novos e velhos como leprosos que me envergonham (eu votei em vários deles!!!!!!), não quero pular do barco como se pulando houvesse salvação para mim (para qualquer um de nós).

sobre sua aflição quanto à esquerda, repito a opinião lida num livro do Helio Santos (tenho falado dele lá no meu blog), de que as palavras "direita" e "esquerda" deveriam ser substituídas por "atrasado" e "moderno". talvez ganhássemos mais se desistíssemos dessa convicção partidária que sempre nos move (afinal, estamos todos no mesmo barco) e tentássemos entender esses personagens todos que estão na boca da cena de acordo com seus graus de "atraso" e "modernidade"... eu iria até além do Helio Santos, acho que não dá mais para simplesmente tachar "o José Genoino é atrasado", "o Aécio Neves" é moderno, "o Lula é moderno", "o Jefferson é atrasado"... também acho que não são as pessoas que são "atrasadas" ou "modernas", mas sim as atitudes que elas (nós) tomam (tomamos) - que ora são "atrasadas", ora são "modernas", ora são pura e simplesmente "confusas"...

enfim, haja náusea para agüentar a maresia... mas a maresia é da nossa própria natureza, não é parafuso do barco em que a gente mora, né?...

pedro em junho 8, 2005 11:51 AM


#13

Gostaria de dizer aos amigos do Blog que o comunismo morreu. Nunca deu certo, nunca dá certo e nunca dará certo em lugar algum da galáxia. São conceitos errados, muito bonitos mas que não funcionam. Esse é o primeiro ponto. O segundo é o PT nunca foi democrático. ATENÇÃO!!! DEMOCRACIA E COMUNISMO NÃO EXISTEM JUNTOS!!!! Será que isso é tão difícil de se perceber??
O PT nunca teve plano de governo, apenas plano de poder. No dia que conseguiram esse poder não sabia o que fazer com ele. Não sei que biografia o Lula possa ter para ser salva. Quando sindicalista só queria melhorar o salário dos metalúrgicos em SP. Nunca se preocupou com "seus queridos irmãos pobres" do Nordeste. Nem nunca chorou por eles. Sempre foi taxado como fraco pelos militares que não davam a mínima para ele. Foi preso por baderna, ficou um mês na cadeia e ganha R$56 mil reais por mês de "indenização" a título de "perseguição política". Se juntou a comunistas conhecidos por assaltos, sequestros e justiçamentos. Comunistas esses que só queriam o poder. Querem implantar a sua ditadura, se não conseguiram por meio das armas, o fazem através de expulsão de jornalistas, criação de mais de 20000 cargos de confiança, cobrança de dízimos de pessoas indicadas para esses cargos e finalizando a compra de deputados. Um crime pior do que o de Collor pois mostra claramente a interferência do Executivo no Legislativo, beirando uma "ditadura branca".
Essa sempre foi a cartilha dos comunistas de Bracarense e do PT.
O fato do Duda Mendonça ter criado essa figura de Lulinha Paz e Amor não esconde o real propósito do PT, do Lula e sua corja. Nunca tiveram plano de governo, nunca souberam o que é democracia, o negócio é estatizar, tornar as empresas cabide de emprego de seus "companheiros". Um bando de chupa-sangue que acabam com os recursos desse país cada dia mais miserável e pobre. Falar agora que não sabiam que isso iria acontecer é fácil. Parace que todos se esqueceram das plataformas políticas do PT nos últimos anos...
Mudaram as estratégias mas o objetivo é o mesmo...
Agora não adianta chorar...
Temos que largar de vez essa história de esquerda=comunismo.
Esquerda deve ser sinônimo de livre competição empresarial onde o consumidor é beneficiado, fim das empresas estatais para melhorar sua perfôrmance. Fim dos milhares de cargos comissionados que tiram os técnicos em favor dos polícitos. Regras rígidas porém claras para o capital extrangeiro no país. Uma justiça rápida, códigos penais inteligentes e modernos não essa porcaria de Desarmamento...
Isso é que deve ser "esquerda" que aliás é o que deve ser direita. Que no fim das constas é o certo e o errado. O lógico e o ilógico.
Façamos uma coisa: querem ser de esquerda? Tudo bem. Peguem o modelo de governo dos dez primeiros países no IDH e copiemos.
Principalmente o fim da corrupção. E isso fica difícil num governo PT (comunista de coração) onde a corrupção sempre foi ordem do dia... Waldomiro, Celso Daniel, Roberto Jefferson e muitos outros aí...
Aliás a corrupção sempre foi a burocracia de qualquer país comunista...

Pablo em junho 8, 2005 12:44 PM


#14

o tarso genro diz que o governo se tornou refém das "más companhias" porque não conquistou maioria no parlamento. passou-me a impressão de que o que está acontecendo é culpa do eleitor que não deu um cheque em branco ao pt, obrigando o governo a buscar alianças espúrias.

é óbvio que o eleitor não o faria: como o país nunca havia tido a experiencia de um governo nitidamente de esquerda e com toda a carga de preconceitos despejados ao longo dos anos pela mídia contra o pt, o eleitor agiu sábia e prudentemente.

o pt aprecia comportar-se como dono da verdade (o que não me impede de reconhecer que muitas das coisas que diz é verdade) e a arrogância decorrente desse estado de espírito é que levou lula a agir de modo tão tardio no enfrentamento das denúncias. acho que se ele tivesse falado assim que as denúncias vieram à tona a metade do que disse ontem naquele forum internacional sobre corrupção, com certeza estaria numa situação mto melhor aos olhos de todo mundo.

ele tem uma biografia inatacável. conheço e sou amigo de vários petistas (históricos ou não) de uma integridade pessoal inquestionável. mas o que está em jogo aqui é a força do hábito, não a força da ideologia. o que está em jogo é a humanidade das pessoas compõem o pt, sucestível às seduções do poder.

parodiando a história da gata borralheira, o pt um dia olhou-se no espelho e perguntou se havia algum partido melhor que ele. pra sua surpresa, o espelho respondeu: não, vc é igual ao psdb, pfl, ptb, pl...

joão em junho 8, 2005 1:32 PM


#15

Idelber,

Você pode achar a análise "fraca" o quanto quiser, desde que prove porquê. Desafio-o a me dizer se não é verdade que o PT foi fazer tudo o que condenava no governo anterior, no que diz respeito não só à política econômica, quando à condução da governabilidade via aliciamento dos famosos "políticos tradicionais", eufemismo para pistoleiros do voto.

Também acho meio deselegante você vir falar em uma caixa de comentários o que é que eu lhe confidencio ou não. No caso em tela, porém, não há problema nenhum. Eu pensava _ e ainda penso _ mesmo em votar no PT em 2006, por um motivo simples: a política econômica até aqui é austera. Mas os caras tem que tomar jeito no resto. De preferência, enviando José Dirceu para a embaixada em Cuba.

Finalmente, o único comentário que fiz que pode ter ensejado esta história sobre Collor foi este trecho, no post passado:

"Eu quase vomitava quando via Collor chegando lá, mas hoje, sou obrigado a reconhecer que o governo dele foi historicamente importante. Infelizmente ainda não consigo ver as mesmas lições sendo retiradas de um governo fracassado do PT. Temo que a debacle de Lula, especialmente na forma que está tomando, abra o caminho para aventureirismos muito perigosos. Mas espero estar errado, de novo."

Digo e repito. Não obstante o fato de ser um ladrão safado, Collor iniciou as privatizações, que não só aumentaram a eficiência da economia como acabaram com uma das grandes fontes de corrupção no governo. Não por acaso, aliás, os problemas dessa vez surgiram justamente pelo loteamento de cargos ao PTB em...empresas estatais (Correios e IRB).

Acho que a História olhará para as consequencias do que os homens fizeram, não para o que eles eram. Collor é um ladrão, mas iniciou um processo que foi importante para o País. Lula pode ser bonzinho feito minha avó, mas continuo me perguntando o que é que ele deixará, e como a História o julgará daqui a vinte anos.

abçs

smart shade of blue em junho 8, 2005 1:42 PM


#16

o comunismo morreu, mas os anticomunistas não. engraçado, né? deviam estar enterrados junto com ele.

joão em junho 8, 2005 2:13 PM


#17

No Brasil, pelo menos, o comunismo ainda está bem vivo. Cada vez q vc vê alguém defendendo: (i) o aumento do Estado; ou (ii) assaltos à viúva; é nossa alma comuna se rebelando contra sua condição enrustida, querendo sair e berrar ao mundo que o Estado é a solução, Marx é lindo e a burguesia é a origem de nossos problemas. Os anticomunistas, coitados, estão perdidos neste país...

Alfred E. Neuman em junho 8, 2005 2:35 PM


#18

Escrevo no pós apresentação do funcionário do PT que exerce a função de tesoureiro, mas que extra-oficialmente está se mostrando uma tremenda eminência-parda! Confirmou-se no episódio da apresentação desta importante figura do Neo-PT a arrogância que de uns tempos para cá, o partido vem desfilando!
Ou seja, algumas horas depois de o nosso presidente avisar que ia pegar o touro a unha, no discurso do seminário da ONU, ontem em Brasília, o partido insite em colocá-lo em má situação.
Com a confirmação da importância do tesoureiro na hierarquia do partido, estou temendo que num acesso de arrogância dos poderosos, este burocrata do Neo-PT (em função de comportamento anterior) vá impingir em caráter totalitário a música sertaneja de que eu tanto detesto!

Paulo Zobaran em junho 8, 2005 3:54 PM


#19

O comunismo morreu, mas os comunistas não...

Pablo em junho 9, 2005 8:52 AM


#20

O comunismo morreu, mas os comunistas não sabem disso.

Pablo em junho 9, 2005 8:53 AM


#21

Delúbio = Neo PC Farias...
Farinha do mesmo saco...
Ou seria Farias do mesmo saco...

;)

Pablo em junho 9, 2005 9:00 AM


#22

ei, gente... vejam os artigos do nova-e:
http://www.novae.inf.br/
:>)

Biajoni em junho 9, 2005 1:04 PM


#23

Idelber
A ética foi mandada para o espaço em todos os níveis. Por exemplo, aqui no Rio, a Heloneida, minha deputada estadual (votava sempre nela), votou para aprovar as contas do Garotinho-Bené, o senador Sartunino vendeu (mas não entregou) metade do seu mandato, o dep fed Biscaia, segundo o Noblat, se dispôs a retirar a sua assinatura da CPI, os dirigentes partidários tratam o Chico Alencar como um traidor e para completar,o tesoureiro do PT acha normal usar o Planalto para tratar de seus assuntos. Triste

valeu o comentário. é triste mesmo, lucia. agora, cada vez eu gosto mais do Chico Alencar. acho que vou andar atrás desse cabra prá fazer uma entrevista.

lucia em junho 9, 2005 4:59 PM