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quinta-feira, 16 de junho 2005
Da lama no ventilador e da lama escondida - Crônica de uma queda anunciada
A verossimilhança não é a verdade. A verossimilhança é essa propriedade que as coisas têm - ou não - de parecerem verdadeiras, de serem críveis. O verdadeiro nem sempre é verossímil, como sabem as vítimas de um tsunami ou de uma arbitragem de José Roberto Wright. Por outro lado, a historinha mais verossímil pode ser a mentira mais deslavada. No episódio do depoimento do Dep. Roberto Jefferson à Comissão de Ética da Câmara há uma divisão clara entre quem está preocupado com a verdade e quem está preocupado com a verossimilhança. Nós nos contamos entre os primeiros. Os últimos ficam, a cada dia, mais nervosos.
A esmagadora maioria da população - este blog incluído - interessa-se pela verdade das acusações de que a alta cúpula do PT estaria envolvida num esquema criminoso de mensalões. Quem até hoje acha que defender a cúpula do PT significa defender o governo, ou pior ainda, o país, parece preocupar-se só com a verossimilhança da acusação, ou seja, com a possibilidade de que seja provada. Ante a ausência de "provas" no discurso de Roberto Jefferson, querem nos convencer que estão respirando aliviados, enquanto aguardam nervosos a próxima acareação.
À uma sociedade que quer saber a verdade sobre algo, a merda no ventilador é sempre preferível à merda escondida. Por isso, discordo radicalmente de Marcelo Coelho que, na Folha, lamentou e disse que se tratava de um dos dias mais "deprimentes" da história republicana. Eu acho que foi um dos dias em que o Congresso Nacional foi mais verdadeiro.
Alguém que tenha assistido o depoimento detalhadíssimo de Roberto Jefferson está disposto a apostar que ele mente e que dizem a verdade os enlouquecidamente nervosos Valdemar Costa Neto e Sandro Mabel? Só quem ainda acha que abafar essa história é do interesse do governo, ou pior ainda, do país.
Desde o começo da crise, a resposta da cúpula do PT tem sido patética. Poucas horas depois das denúncias de Jefferson na Folha, lançaram uma nota inócua, negando algo que nem se havia podido averiguar. A nota teve o lamentável destino de ser implicitamente desmentida pelo próprio presidente Lula, pelo Ministro Ciro Gomes, pelo Deputado Miro Teixeira, pelo Ministro Aldo Rebelo e pelo Ministro Mares Guia, todos eles confirmando que ouviram, sim, menções de Jefferson sobre o mensalão.
Todas as denúncias passam pelo tesoureiro do PT, Sr. Delúbio Soares. Quem lê este blog sabe que há meses - há anos, em outros foros - eu pergunto quem é esse Sr. Delúbio Soares, como chegou a tesoureiro do PT, como acumulou tanto poder e desde quando está lá. Na sua nervosíssima defesa, cheia de contradições (primeiro nega haver recebido presidentes de partidos, depois reconhece), Delúbio colocou seus sigilos fiscal e bancário à disposição da justiça, mas e o telefônico? Ou alguém acha que se paga mensalão com cheque? Se todos os meios de comunicação confirmam que o presidente Lula era favorável ao afastamento do Sr. Delúbio da tesouraria do PT - e se Lula é o grande emblema, o grande símbolo desse partido - como é que a Executiva Nacional pôde ter a cara-de-pau de alardear como uma vitória a manutenção desse senhor no seu cargo?
Tal como no caso Waldomiro Diniz - indivíduo comprovadamente corrupto que operava em nome do governo - o nervosismo é que a coisa respingue no Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Trata-se aqui do grande responsável pelo 'novo PT', o da política entendida como combinação entre truculência, cooptação e conchavo, sob a ética da vitória a qualquer custo. Esse método não é o método histórico do PT. Foi imposto pelos arautos do "realismo". Quando protestávamos, a resposta era sempre: "vocês são ingênuos"; "política é assim"; "estamos aqui para ganhar". Taí o resultado.
Meia palavra para bom entendedor: Formei minha opinião sobre o Ministro Dirceu no interior do PT em meados dos anos 80 e essa opinião nunca mudou. Só se reforça a cada dia. Sobre Dirceu, Fernando Gabeira disse, na Veja: Acho que o temor dele é que as pessoas ocupem o seu espaço, que ameacem aquele trono que ele construiu tão duramente, através de tantas reuniões e tanto café frio. Imagine uma pessoa que coleciona sessenta grupos de trabalho!
O discurso de Roberto Jefferson é o da raposa que foi traída, está enfraquecida, já tem pouco a perder, sabe coisas que comprometem muita gente e quer aproveitar as circunstâncias para limpar sua biografia. Um sujeito assim raríssimas vezes mentirá, porque já não lhe interessa a mentira. Foi colocado, pela própria burrice da estratégia do governo, na posição do que pode dizer toda a verdade. É só olhar a história e encontrar outras raposas que, traídas, jogaram a lama no ventilador. Zinoviev e Kamenev, na Revolução Russa, são dois exemplos. Nenhum deles era santo. Mas quando denunciaram Stalin não mentiam não.
Tentar abafar essa história do mensalão desqualificando Jefferson - matando o mensageiro - é a estratégia mais desastrada que se pode escolher. Há hipócritas do PSDB e do PFL utilizando-se do episódio para arvorar-se em paladinos da ética e da justiça? Sem dúvida. Mas os dirigentes do PT vão jogar fora tão descaradamente o bebê da justiça e da ética junto com a água suja da sua defesa oposicionista hipócrita? Quem mais - além de José Genoíno e a tropa de choque - está disposto a defender essa burríssima estratégia?
Se o presidente Lula está realmente esperando para defenestrar Dirceu quando a saída já não pareça uma resposta a Jefferson (como mantém os colunistas que acompanham o caso), talvez essa queda anunciada já esteja chegando com dois anos de atraso.
Para os que ainda insistem que o mensalão 'não pode ser provado', experimentemos uma acareação entre Jefferson / Delúbio, uma quebra do sigilo telefônico de Delúbio e, como sugeriu Fernando Rodrigues na Folha, a quebra do sigilo bancário de todos os saques acima de R$200.000 realizados nos meses de maio, junho e julho de 2004 no Banco do Brasil e no Banco Rural. Aí a gente vê se se pode provar ou não.
PS: É no dia 16 de junho que transcorre a história do livro dos livros, o maior romance do século XX, o enlouquecimento feito livro. Joycianos no mundo inteiro comemoram hoje o Bloomsday. Em Sampa a festa é sempre no Finnegan's Pub, infelizmente já sem o joyciano maior, Haroldo de Campos. Em Belo Horizonte a festa está a cargo do Oficcina Multimedia. Na blogosfera, o Odisséia Literária pilota as comemorações. Drink one for Ireland, drink one for Joy(ce) tonight.
Escrito por Idelber às 01:58 | link para este post
| Comentários (18)
#1
Estou tentando postar sobre o Bloomsday há mais de 3 horas. O browser já fechou mais de 4 vezes, os links não abrem, mas agora foi. :)
Acho mesmo que vou comer um pouco de fumaça e dar uma passada por lá. Quem saber eu posso postar sobre isso. Ou vou assistir aula e aproveitar o dinheiro que depositei lá. Oh dúvida cruel.
Bibi em junho 16, 2005 5:17 AM
#2
Idelber,
alinho-me contigo nessa. É preciso acabar com a blindagem sobre pessoas bêbadas de suspeitas.
No ponto da requisição dos saques, a defesa de RJ é capenga. Deixei um post sobre isso lá no blog.
Roman em junho 16, 2005 9:39 AM
#3
Por mais psicodramático (no mau sentido) que tenha sido o Cafajefferson, realmente é muita lama no ventilador prá ser desconsiderada. Que tem, tem! Como você lembrou, há outros episódios históricos em que traídos se tornam 'grandes' traidores e podem mudar o curso da história. Boa a distinção entre verossimilhança e verdade. Esta é que interessa!
Cláudio Costa em junho 16, 2005 10:30 AM
#4
E com uma nova e melhor tradução. O problema é o preço: R$ 79,90!
Sinto-me meio idiota em alguns meios nos quais circulo. Sou dos poucos que acreditam naquilo que o Jeff está falando, isto é, que o mensalão existiu. Não tornei-me seu admirador, é claro, mas vi seu depoimento por horas e, pensando em suas circunstâncias, acho que ele não mente na essência, talvez apenas em alguns detalhes que excluem a si e pessoas de suas relações e de seu PTB.
Também acho que foi um dia de franqueza x hipocrisia. Quem não sabe como chegam os recursos de muitas campanhas? Quem não sabe que estes recursos não vão inteiramente para as campanhas ou que retornam aos deputados e assessores na forma de benesses quaisquer? Foi um dia em que até o país pode tomar contato com fatos que não eram explícitos. Raramente ouvimos alguém falar com desprezo em R$ 3.000,00 de óbolo... Enfim!
Enquanto isso, Lula nos dá impostos menores... Interessante.
Grande abraço.
Milton Ribeiro em junho 16, 2005 10:35 AM
#5
Quando li o comentário do Gabeira sobre o Dirceu, a primeira imagem que me veio à cabeça foi a do Chanceler Palpatine.
Sobre o Genoíno, vi uma declaração dele (ao celular, em frente às câmeras) em que ele dizia algo como "isso é uma guerra. nas guerras, vence o mais forte!". Pô, como assim?!
E a reeleição do Lula, hein, será que sai? E mais: será que o PT terá cacife pra negar legenda em 2006 aos que têm votado contra o governo?
[]'s
Diogo S Lima em junho 16, 2005 10:38 AM
#6
Bacana o que você falou Idelber, sobre verdade e verossimilhança. Eu tenho a impressão que muitos não pensam nisso, e mesmo os que levam em conta a verossimilhança, por vezes se enrolam - com toda a razão - entre uma coisa e outra. Afinal o objetivo é esse mesmo, parecer verdade!
Eu tenho a impressão que quando uma reunião, como aquela vista na TV, corre para a questão jurídica, o apelo a verossimilhança aumenta. São os advogados querendo usar seus argumentos.
Mas aquela reunião era política!
Se o objetivo for salvar o deputado RJ, o presidente do PL, o PT, o Genoíno, o Delúbio e aí por diante, a verossimilhança entrará em campo com a camisa 10 e irá jogar (no ataque). Mas se a questão é um melhor caminho para o Brasil, creio que melhor seria a VERDADE!
E então concordo inteiramente com você quando critica a visão de que NADA HOUVE de DEPRIMENTE, em ver uma comissão da Câmara dos Deputados fazer o que tem que ser feito: TRABALHAR QUANDO CONVOCADA.
É isso, os outros pontos que você comentou também foram interessantes. A opinião de Gabeira é para ser guardada!!!
Paulo Zobaran em junho 16, 2005 12:25 PM
#7
O aspecto que mais me chama a atenção é que o mensalão foi criado em prol da "governabilidade". Pior do que o roubo puro e simples é contaminar as instituições com a compra metódica e sistemática de fisiológicos, abrindo brechas para o colapso do estado de direito.
pecus em junho 16, 2005 12:59 PM
#8
Idelber, o que você falou sobre "verdade" me fez ficar pensando na prima-irmã da "verdade", a "mentira"... não parece uma das coisas mais impactantes de agora o modo como a "mentira" está sendo posta à mesa? eu fico olhando ao redor, e a minha impressão vai mais ou menos por aqui, ó: o Lula parece estar mentindo (no pouquíssimo que fala); o PT e o governo estão mentindo, evidentemente; os dois josés, Dirceu e Genoino, parecem mentirosos compulsivos a cada tentativa de defesa (o que lhes resta fazer?); Bob Jeff é a própria personificação da mentira (por mais verdades que conte); o PTB mente (uai, ontem eles não declararam apoio, simultaneamente, ao Jefferson e ao governo Lula? como pode????), o PP mente, o PL mente; o PSDB e o PFL parecem praticar uma modalidade esquisita de mentira, a do silêncio mortiço; FHC mente com essa estranha parcimônia de agora (ou então ele foi premonitório, quando, vidente, anteviu há algumas semanas uma "crise institucional" no brasil?); a imprensa está apinhada de omissões e meias verdades (ninguém vai me explicar qual é a relação entre Aécio Neves, Lula e o tal cargo misterioso em Furnas???); petistas "anônimos" mentem nos blogs políticos para achincalhar tucanos; tucanos "anônimos" mentem nos blogs políticos para avacalhar petistas... e assim por diante, ad infinitum...
e aí me pergunto se não é aí que tá a novidade. tanta "mentira" contada ao mesmo tempo por tanta gente significa que de repente todo mundo deu pra "mentir", orquestradamente? ou significa que todo mundo sempre "mentiu" o tempo todo e que agora a "mentira" não tá colando mais? nesse caso, será que este não é, ironicamente, um momento da "verdade"?
não sei se é, mas quero acreditar que sim... e aí estou com você, este não é o momento mais deprimente da história, não. poderia ser, ao contrário (e dependendo de nós), o início do fim da depressão histórica que nos acomete há 505 anos de tanta "mentira"... (ok, isso é mais uma torcida que uma evidência, mas é que acho que estamos precisando de alguma torcida pra não desmoronar...)
pedro em junho 16, 2005 1:13 PM
#9
Idelber
A Ilíada também é detalhadissima. E nem por isso é verdadeira.
Como eu já disse, se essa história for verdadeira, certamente vão encontrar provas ou indicios. Coisas como gastos incompatíveis com a função do Valdemar, recibos, gravações.
Andre kenji em junho 16, 2005 1:40 PM
#10
Idelber
concordo com vc, mas também com o Marcelo Coelho, precisamente porque se trata de verdades deprimentes. Mas que bom que temos acesso a elas, em outros tempos isso era impossível.
Abração
Luciana Christante em junho 16, 2005 8:11 PM
#11
Caro Idelber, o Zé Dirceu saiu bufando!!!
Paulo Zobaran em junho 16, 2005 8:24 PM
#12
Ah, André, concordamos que detalhismo não é prova de verdade (embora no caso Bob Jeff seja um entre muitos indícios), mas que a Ilíada é verdadeiríssima, ela é. Tanto ou mais que Heródoto.
Pedro: é isso, meu velho. Quando penso naquele depoimento, penso no encontro do Congresso e do Brasil com uma verdade sua (como diz Luciana) e portanto com um momento daquilo que você diz, que "nós somos Lula, nós somos Jefferson". Como você, não acredito nas posições de pureza imaculada, seja no governo, seja na oposição. Espero que você possa vir tomar uma birita com a gente lá na Vila Madalena.
Abraços a todo mundo e happy bloomsday.
Idelber em junho 16, 2005 9:41 PM
#13
fiquei com a impressão que o m. coelho é um pouco petista.
lucia carvalho em junho 17, 2005 10:26 AM
#14
fiím... tava mais fácil falar contigo quando estavas em tulane, vai dizer? já tá em sampa? tem msn aí?
Biajoni em junho 17, 2005 12:33 PM
#15
Ahh, você quis dizer José Roberto Wrong!
abraço!
C.
Cauê em junho 17, 2005 1:12 PM
Fernando Henrique em junho 17, 2005 5:40 PM
#17
Será que alguem vai levanta-lo?
Aluno em junho 18, 2005 1:03 AM
#18
Este tsunami todo não me tira da cabeça um episódio que aconteceu bem antes da eleição de Lula, quando o PT confirmou as 'alianças para a vitória'. Uma colega minha do mestrado, petista, me ligou chorando e dizendo que aquilo era o fim do PT.
Eu consolei, pois, mesmo desgostosa, achava que a aliança seria revertida, que era algo como atirar um osso para o cachorro enquanto se passa por ele. Me esqueci que certos cachorros podem largar o osso e, sem mais aquela, morder a bunda da gente...
Está sendo muito difícil avaliar esta crise, pois é preciso considerar que estamos lidando com vários PTs. Nós aqui do sul estamos mal acostumados em termos de PT.
Pelo lado otimista (ou nem tanto) penso que o Lula está diante do que pode ser a sua última oportunidade de tentar dar ao governo o rumo que se esperava (historicamente).
abraço,
Su
Su em junho 18, 2005 1:36 PM