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terça-feira, 21 de junho 2005
Desconstrução em Araraquara

Digamos que sair de um encontro de blogueiros para um encontro acadêmico requer um ligeiro ajuste - a começar pela capacidade etílica da rapaziada, que não chega aos pés dos camaradas blogueiros. Sair de São Paulo para um Hotel Fazenda em Araraquara requer outro ajuste.
Mas a memória de Jacques Derrida vale a pena. Derrida é, para mim, o filósofo mais importante do século XX. Não há área do conhecimento nas ciências humanas que tenha permanecido intocada por essa experiência que chamamos desconstrução.
Desconstruir não é atacar, nem desmontar, nem xingar.
Desconstruir é aprender a amar os textos. É aprender a ler de novo, com cada texto. É ler cada texto como se ele mobilizasse todos os outros textos do universo. A desconstrução foi a filosofia ensaiando o que depois viria a ser a blogosfera.
Desconstruir é aprender que lei e justiça não são sinônimos, que esta tem sempre o caráter de promessa aberta. Não se realizará nunca, mas se você perdê-la de vista enquanto horizonte, perdeu-se tudo, não há lei que resolva. A desconstrução é a tentativa mais radical de pensar essas noções tão complexas: perdão, hospitalidade, justiça.
Sobre a hospitalidade, a desconstrução ensina: só há verdadeira hospitalidade quando o outro é radicalmente outro. Não há nenhum mérito em ser hospitaleiro se o outro é igualzinho a você e chega sem bagunçar sua sala. A hospitalidade é, por definição, incondicional. Ou não é hospitalidade.
Daí as várias fórmulas paradoxais de Derrida: só se perdoa o imperdoável; só se decide o indecidível. Se uma decisão for absolutamente lógica, racional e dedutível de regras pré-estabelecidas, bem, não houve decisão nenhuma, só uma aplicação de princípios já dados, não é mesmo? A decisão verdadeira só ocorre quando você se enfrenta com o inteiramente cabeludo, com o indecidível.
Da experiência da desconstrução sabem os que estão amando: uma caminhada de quilômetros ou anos na obsessão com uma turmalina, até que você tropeça nela e vê a esmeralda. E reconhece que o "erro" com a turmalina era rigorosamente necessário para que você encontrasse a esmeralda. A isso Oswald de Andrade chamou a contribuição milionária de todos os erros.
Se o ser amado diz o que sinto por você me deixa generosa, é a essência mesma da experiência da desconstrução que se está tocando: saber que em toda entrega verdadeira não há garantias, saber que amar é dar o que não se tem.
A desconstrução, junto com a psicanálise, foi quem mais chegou perto de entender o que é o amor.
O encontro internacional de Araraquara começou bem, com palestra magistral de meu amigo Evando Nascimento, o maior dos maiores quando o tema é desconstrução. Depois eu tive uma conversa fascinante com Devi Sarinjeive, da Universidade da Africa do Sul, sobre o tema do apartheid e da reconciliação.
Para este encontro aqui em Araraquara, dizem que um blogueiro maluco aparecerá por aqui. Isso se o seu FIAT não for desconstruído no caminho, claro.
Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post
| Comentários (30)
#1
Idelber. Derrida para mim como arquiteto tem a importancia no lançamento das bases do relativismo cultural que se antepõe a um globalismo homogeneificante. A hospitalidade pressupõe que eu tenha minha identidade e me ponha em discussão com o outro. Introduzir isso no pensamento arquitetonico internacionalista dominante é duro. Mas acredito que o que se propõe deva ser sempre sim o improponivel. Bons debates por aí.
Flávio, você tem toda a razão, a desconstrução foi chave para a renovação da arquitetura, não é mesmo? Inclusive o termo vem da arquitetura, e está ligado à crítica desse funcionalismo homogêneo, né? Que legal, obrigado pelo seu comentário.
Flavio Prada em junho 21, 2005 5:55 AM
#2
Sobre beber com universitários, Jack London em "Memórias Alcoólicas" confessa o prazer fútil de derrubar todos, quando saía para beber depois das palestras. O bicho era grande e resistente. Interessante a desconstrução de Derrida. Mas os filósofos do direito, Dworkin, por exemplo, sustentam que a decisão dos casos difíceis, para os quais a lei não fornece a resposta, se faz por ponderação de princípios, que ao contrário da lei podem contradizer uns aos outros, cabendo ao juiz fazer o temperamento, extraindo do sistema a decisão justa. Que segundo ele é uma só. Derrube toda a garotada!
Outro comentário super bacana, esse é um tema que me interessa muito: há uma escola nos EUA, chamada de "Critical Legal Studies", que parte da desconstrução para enfatizar o papel da interpretação (e do momento do indecidível em toda interpretação) na atividade jurídica. Sim, haveria uma diferença entre Derrida e pensadores como Dworkin, creio que na compreensão do que seria "justiça". Continuemos a conversa sobre isso. Abraços, pecus .
pecus em junho 21, 2005 9:11 AM
#3
e não vou só! alex castro está comigo em americana, desconstruindo minha rotina e meu CÉLEBRO. mas vamos combinar: vc paga o almoço!
;>)
Bia, eu falo amanhã, quarta, às 9. Volto para Sampa lá pelas 3.
Biajoni em junho 21, 2005 9:48 AM
#4
Sejam todos bem-vindos à nossa Morada do Sol. Araraquara os receberá de braços abertos. Tenham certeza disso. Felicidade!!!!
Muito obrigado. Estou adorando!
Milton Santos em junho 21, 2005 12:27 PM
#5
Que este Fiat leve seus ocupantes a grandes aventuras, completamente construtivas....
abraços
Merci. Vamos ver se chegam!
Tânia em junho 21, 2005 2:34 PM
#6
Mestre Idelber
Gostaria de sugerir um blog. Achei-o faz umas semanas e ando acompanhado os artigos e divagações do Hans K.
http://redeconstruccion.blogspot.com/
Ontem fez 02 meses que o blog está no ar.
Fica a sugestão.
Fantástica sugestão, Aluno. Adorei o blog, já linkei. Obrigado!
Aluno em junho 21, 2005 3:14 PM
#7
Derridá-lhe Idelber!
:o*
você e seus trocadilhos... Obrigado!
christiana em junho 21, 2005 3:18 PM
#8
Ha ha ha, adorei o negrito em Fazenda...
Are you back, baby?
Leila em junho 21, 2005 3:45 PM
#9
UM blogueiro maluco? magoei.... nao vou mais... *limpa as lágrimas na manga*
sorry, lindão. Não sabia que você vinha mesmo. Estamos esperando.
alex castro em um lan house de americana em junho 21, 2005 4:30 PM
#10
Puxa Idelber... DOIS blogueiros malucos, DOIS, não erre mais senão o Alex não vai levar Nescau pra você ficar fortinho e blogar melhor, capisci? :0)
Aqui neste blog bebe-se uísque, cerveja, vinho, coca-cola, café e chimarrão. Nescau não :)
Roberta Febran em junho 21, 2005 4:37 PM
#11
Realmente preciso ler Derrida! Por onde começo, Idelber?
Doni, dá para começar por vários lugares. Um bom livro é A Escritura e a Diferença, que reúne artigos do final dos anos 60. Esse site argentino linkado no post tem muitos, muitos textos mesmo. Ou então você pode seguir a ordem de leitura segundo afinidades que eu sugeri neste velho post, que por ser do velho blog meu no UOL, está fora de formato, mas a informação está toda lá. Happy reading.
Donizetti em junho 21, 2005 4:42 PM
#12
Donizetti, que tal pelo começo? :p
Roberta Febran em junho 21, 2005 6:28 PM
#13
PORRA! mas tem que PAGAR?
:>D
Bia, liga prá mim, eu dou um jeito de vocês entrarem de graça. Não posso ligar porque meu celula foi clonado :)
Biajoni em junho 21, 2005 7:33 PM
#14
Sim, Idelber, estou de volta à blogosfera, a Sacramento, à rotina de trabalho... Inveja de você aí a 1000 por hora...
Leila em junho 21, 2005 8:00 PM
#15
Obrigado Idelber... Já estou mergulhando nos links lá... e vou atrás daquele "Derrida e a Literatura".:-)
Donizetti em junho 21, 2005 9:48 PM
#16
Interessante como a gente lê o que quer ler (ato falho?). Estava passando os olhos rapidamente no post de hoje pois já é quase amanhã. Quando me deparei com a frase "Desconstruir é aprender a amar os textos. É aprender a ler de novo" que, na minha leitura dinâmica ficou assim " Desconstruir é aprender a amar de novo"...
Gostei muito de saber um pouco mais sobre Derrida e já vou pegar carona nas dicas que você deu pro Donizetti.
Viva em junho 22, 2005 12:52 AM
#17
Gostei muito da sua análise sobre o pensamento de Derrida. Li um pouco sobre a sua biografia na faculdade, mas não tive a oportunidade de saber mais sobre suas obras. Vou tentar conhecer mais... obrigada pela informação!
Guiomar em junho 22, 2005 11:49 AM
#18
De cá do meu canto, com viés psicanalítico, só posso concordar: a psicanálise também é uma forma de desconstrução...
Cláudio Costa em junho 22, 2005 11:51 AM
#19
Em mais uma tentativa de me tornar um herege feladaputa, eu questiono: no Novo Testamento, há uma passagem em que Cristo, pregando o amor aos inimigos, afirma que quem ama aos amigos não faz nada de extraordinário. Muito tempo depois, Kirkgaard afirma, ainda sobre Cristo, que "tinha fé Nele porque sua história era absurda. Se não o fosse, ele simplesmente acreditaria". Eis que eu me pergunto: em que os paradoxos de Derrida sobre perdão, hospitalidade ou decisão melhoram essas questões óbvias há séculos e milênios?
Ou seria Derrida o índio de Caetano Veloso que desceu de uma estrela brilhante justo em Araraquara?..:-)
Abraços excomungados.
VP.
MarcosVP em junho 22, 2005 12:15 PM
#20
Idelba,
O "grande homem" dos Critical Legal Studies nos EUA é, por incrível que pareça, o Mangabeira Unger. Não sei se ele dialoga com Derrida, a conferir.
smart shade of blue em junho 22, 2005 1:01 PM
#21
MarcosVP,
Quem falou isso aí, ao invés do Kirka, não foi São Irineu não ? Ou outro patrístico ?
abçs
smart shade of blue em junho 22, 2005 1:02 PM
#22
Smart Shade, provas, provas eu não tenho. Só sou testemunha...:-)
MarcosVP em junho 22, 2005 1:19 PM
#23
Idelber, acabo de desembarcar no seu blog e vejo justo este post tao bonito sobre o Derrida. Estou adorando este seu biscoito finissimo (eh uma das minhas frases prediletas do Oswald!). Dai descubro os livros que voce escreveu, que eu nao conhecia, que vergonha a minha!!! Deixe eu ir jah fazer um ILL. Tambem sou uma brasileira navegando a academia norte-americana, mas, diferentemente de voce, estou soh no comeco - bem pedregoso - da carreira. Quem sabe a gente bate uns papos sobre isso?
daniela em junho 22, 2005 4:45 PM
#24
vc ficou incomunicável... a gente não foi...
chegamos a acordar 6h30 da madrugada, consideramos, demos uma olhada no FRIO e voltamos para debaixo dos cobertores - cada um debaixo do seu, claro.
Biajoni em junho 22, 2005 4:54 PM
#25
"A decisão verdadeira só ocorre quando você se enfrenta com o inteiramente cabeludo, com o indecidível."
Genail.
Fernando Henrique em junho 22, 2005 7:16 PM
#26
Smart: é verdade que o Unger é reconhecido como um dos nomes do Critical Legal Studies. Não, no caso dele realmente eu não vejo muito diálogo com Derrida, não (na verdade não vejo quase nenhum diálogo com a filosofia continental, razão pela qual o trabalho dele me interessa menos). Mas da turma do Critical Legal Studies os que eu realmente admiro são J.M. Balkin e a Drucilla Cornell - estes sim, teóricos do direito muito influenciados por Derrida. A Cornell eu recomendo mesmo, a mulher é um colosso. Grande abraço!
Marcos: É verdade que o paradoxo da fé é uma variação dos paradoxos que o Derrida trabalha. A diferença é que os que enunciam esses paradoxos do ponto de vista da fé não costumam refletir muito sobre como eles funcionam, o que os torna possíveis, etc., não é? Digamos o seguinte: a desconstrução explica e explicita paradoxos que sempre estiveram presentes em muitas práticas, incluindo as da fé. Acho que tanto Kirkegaard como Santo Agostinho (de São Irineu eu não falo, não sei) fizeram afirmações semelhantes sobre a fé. Difícil seria encontrar quem disse isso primeiro na tradição cristã... Abraços,
Idelber em junho 22, 2005 9:35 PM
#27
MarcosVP,
Pô, nem um videozinho, meu ?? :)
smart shade of blue em junho 24, 2005 6:53 PM
#28
"Desconstruir é aprender a amar os textos. É aprender a ler de novo, com cada texto. É ler cada texto como se ele mobilizasse todos os outros textos do universo. A desconstrução foi a filosofia ensaiando o que depois viria a ser a blogosfera."
Belíssimo post, Idelber.
Em minha opiniâo um dos maiores contributos de Derrida foi o de reinvindicar e afirmar o carácter revolucionário da Filosofia face ao devir do mundo. Sempre foi essa a sua vocação apesar de se ter enredado bastas vezes ao longo da história em digressões de natureza taxinómica e em ânsias de sistematicidade...
Obrigado por escrever supinamente o que muitos de nós estamos pensando...
Abraços,
Jorge
Jorge em junho 25, 2005 7:51 AM
#29
O teu site é muito interessante. Você trata de assuntos corriqueiros e delicados com maestria. Filosofia é meu assunto favorito desde que me interessei por Platão, Aristófanes, Schopenhauer, Nietzsche (meu favorito), Descartes... de Derrida não conhecia muito, mas me interessei depois de ler teu site.
Voltarei mais vezes, sempre.
Abraço!
Simone em setembro 6, 2005 2:30 AM
#30
olá, mestre! primeira vez que tenho coragem de deixar um comentário e logo nos posts antigos, mas valeu a pena ler o que você escreveu sobre derrida. acho que ele é um filósofo muito interessante, mas ainda não tive tempo de me dedicar muito à leitura de seus textos, até hoje só li comentários. achei bonito demais, poético mesmo o jeito como você lidou com a desconstrução. no seu outro post, o comentário sobre o relativismo é certeiro: minha orientadora vive dizendo que a filosofia de wittgenstein não convida ao ceticismo, tampouco ao vale-tudo como querem fazer crer alguns. espero voltar logo. obrigada pela boa leitura e um abraço, cristiane
cristiane em outubro 24, 2005 2:45 PM