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quinta-feira, 30 de junho 2005

Machado de Assis e a Invenção do Pop

Há um conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, que é um tratado sobre a situação do artista brasileiro. É meu conto favorito da fera. Sobre esse relato estou escrevendo um monstrengo de cinqüenta páginas, das quais compartilho aqui alguns parágrafos.

Quem tiver 20 minutos, siga o link e leia o conto, que é um absurdo de brilhante. Para quem não tiver, o resumo é esse: Pestana é um compositor de polcas no Rio de Janeiro lá pelos idos de 1875. Como se sabe, a polca foi introduzida no Rio em 1845 e dominou os salões durante toda a segunda metade do século XIX. Enquanto o 3/4 cadenciado da valsa era considerado o baile “chique”, “elegante” e “nobre”, foi o 2/4 sincopadão da polca que mexeu com corações, cinturas e libidos.

O encontro da polca de salão com o batuque que rolava no quintal – através da mediação dos grupos de chorões que, na cozinha, já davam um toque brasileiro aos gêneros europeus – está na base de toda a música popular brasileira urbana, que nasce precisamente naquele período. O conto de Machado é um testemunho disso.

Pestana não é só um compositor de polcas. É um grande compositor de polcas. Suas polcas são um sucesso atrás do outro. Consagração. Popularidade. Encomendas. Etcetera.

Quanto mais Pestana tem sucesso com as polcas, mas insatisfeito ele fica. Ele não quer ser compositor de polcas. Quer ser um Beethoven, quer compor sonatas. Mora no Rio, mas vive como se estivesse em Roma (alguma semelhança com gente por aí?).

O problema é que cada vez que Pestana tenta compor uma sonata, sai uma porcaria, um eco derivativo de algo já feito por alguém. Aí chega outro pedido de polca, outra encomenda e outro sucesso estrondoso. É o retrato do artista brasileiro, entre a possibilidade e o desejo, entre a ambição e a vocação.

Um belo dia, morre sua esposa. O viúvo quer pelo menos deixar a ela um Réquiem comparável ao de Mozart. Estuda, rala, trabalha, dá duro durante dois anos. Nesse período, não compõe nada e as contas se acumulam. O Réquiem fracassa. O conto termina com a seguinte cena:

Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu.
— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.
— Adeus.
— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

Machado aproveita a morte do personagem para mandar a última ironia: façamos logo duas polcas para quando trocarmos o PSDB pelo PT, quer dizer, os conservadores pelos liberais. Dá tudo na mesma de qualquer forma. Pestana sabe que suas polcas correm o perene perigo de virar jingle de qualquer evento, de qualquer ocasião. A única música imune a esse perigo, pensa ele, é a música erudita, a verdadeira música "difícil". Mas essas ele só ama, deseja e repete. Não consegue compor.

Talvez tenha sido o primeiro momento em que a literatura brasileira refletiu sobre o que depois chamaríamos indústria cultural: a arte transformada já em mercadoria da indústria do entretenimento.

Mas o sentido total da coisa só se deixa vislumbrar quanto atentamos para os títulos das polcas de sucesso que compõe Pestana. A mais popular delas se chama Não Bula Comigo, Nhonhô.

Ora, uma composição com esse título, no Rio de Janeiro de 1875, só pode aludir a uma outra coisa, a algo que a literatura ainda não pode chamar pelo nome, porque seu nome está proibido: o maxixe, dança lasciva, urbana, negra/mulata que naquele momento já estava em pleno processo de consolidação no Rio – como primeiro gênero popular urbano brasileiro, perseguidíssimo pela igreja e pela polícia. O maxixe foi durante décadas nome maldito, associado, como estava, à sexualidade e ao corpo negro. Quem atentar para os títulos das composições de Pestana e para o uso que faz Machado de verbos como "saracotear", verá que se está falando aqui de algo muito mais maldito e clandestino.

maxixe.JPG

Foi a forma malandra e requebrada de dançar a polca, sob o impacto do batuque do quintal, que fez nascer esse que foi o primeiro gênero urbano brasileiro. Até a revolução rítmica realizada pelos sambistas do Estácio entre 1928 e 1933, o maxixe permaneceria como a base fundamental da música brasileira popular urbana.

Pestana, sofrendo a atração irresistível da dança maldita, ainda sonha com sonatas. Mas sabe, no fundo, que está condenado ao maxixe. A história de Pestana se repetiria milhares de outras vezes no Brasil, com outros artistas, de Pixinguinha a Odair José.

PS 1: Meu muito obrigado aos anfitriões do congresso sobre Jacques Derrida em Araraquara, Profs. Fábio, Alcides e Maria das Graças. Obrigado à UNESP pelo evento, aos fantásticos alunos que lá estiveram conosco e ao Hotel Fazenda Salto Grande (que rango maravilhoso!). Boas-vindas aos novos amigos de Araraquara que andam visitando este blog. Que pessoal mais hospitaleiro.

PS 2: Que partida fantástica da seleção, hein? Desde o 2 x 1 da Copa de 1974 eu não perco um Brasil x Argentina sequer, mesmo quando estou nos EUA. Não me lembro de ter visto um jogo mais fácil. 6 x 1 não teria sido nenhum absurdo. Quatro observações: 1) Baixou o espírito de Luís Pereira no Lúcio. Que partidaço! 2) Vocês já viram como o Adriano pega de bico na bola com uma precisão incrível? Sempre de bico. Sinceramente, neste momento eu não tiraria Adriano para dar lugar a Ronaldo não; 3) Assisti o jogo no telão do Albano’s, legendária choperia de BH. Como sempre, a massa alvi-negra estava em ampla maioria, e vibrou com a péssima partida de Sorín e com o cartão amarelo, que foi comemorado como se fosse gol do Brasil; 4) A seleção mereceu o placar, mas êta goleirinho ruim esse Lux, hein?

Atualização: Embora sem citá-lo diretamente, este post sobre Machado se nutriu do livro de José Miguel Wisnik, Sem Receita (Publifolha, 2004), especialmente do ensaio "Machado Maxixe: O Caso Pestana".



  Escrito por Idelber às 04:21 | link para este post | Comentários (25)


Comentários

#1

oi
eu adorei este site eu espero que venhagente assim comentar quenem eu sóesta faltando bibliografia dos jogadores a Agenrtina e do Brasil e dizer que ontem o Brasil ganhou o treféu da copa das confideraçoes e em setembro vai jogar Brasil e Chile aqui no Brasil e dizer que o Brasil vai ganhar deles tachau um beijo e um abraço.

claudinha em junho 30, 2005 7:12 AM


#2

Maravilhoso o conto. Os títulos das polcas são impagáveis. Tem até um "Diretas já!". Mas eu particularmente tenho dificuldade em distinguir a arte séria da vulgar, seja em música, literatura ou artes plásticas.

pecus em junho 30, 2005 9:14 AM


#3

Lá em maio de 2003, em meu primeiro mês de blog, publiquei o seguinte post (é bem curtinho):

"Machado de Assis, a Polca, o Jazz, Shostakovitch e o Pestana

Em um famoso conto de Machado de Assis, Um Homem Célebre, havia um grande compositor de polcas, o Pestana, que queria fazer algo maior, grandioso, mas - que diabo! - só lhe saíam mais polcas. Ele fazia o maior esforço, passava meses trancado em casa a fim de parir a grande obra, porém não produzia nada além de belas polcas que logo se tornavam popularíssimas e eram assobiadas pelo povo nas ruas, para desespero do Pestana. Estas eram compostas copiosa e rapidamente. Acabou rico, infeliz e doente. Coitado.

Com Shostakovitch o caso é diferente. Compôs copiosamente obras-primas, tem obra profunda e numerosa, mas, um belo dia, resolveu escrever suítes para grupos de jazz. Vocês podem adivinhar o que aconteceu? Saíram apenas... polcas. Polcas e valsas. O timbre é o do jazz - não poderia ser diferente com aquela formação orquestral -, já a música são as polcas do personagem machadiano. Ah, vocês não acreditam? Então ouçam o CD da Naxos (*) com estas obras. É um bom disco, há a espetacular Valsa 2 da Suíte Nro. 2, que foi utilizada por Stanley Kubrick na abertura de De Olhos bem Fechados (com um ritmo e um solo de sax que nos obriga a levantar e ensaiar uns passinhos pela sala), há várias polquinhas bem legais e há uma imitação marcial de Duke Ellington que dá para rolar de rir. É o "Grande Projeto Falhado" do imortal Shosta e, mesmo assim, é muito bom e divertido."

Bom, Idelber, já viu, né? Gosto tanto dos contos de Machado que acho difícil eleger um. Amo Pai contra Mãe, Uns Braços, Missa do Galo e até alguns lá do início como Umas Férias.

Este post será devidamente copiado e colado num arquivinho de campeões que mantenho.

Gigantesco abraço.

Milton Ribeiro em junho 30, 2005 10:08 AM


#4

Completando: o curioso é que o ultra bem-sucedido e respeitado Shostakovitch tinha aspirações a ser um músico mais pop, para usar a tua expressão. Fez várias tentativas, mas retornava cada vez com melhores resultados a sua praia. Com o tempo, desistiu. Era alguém muito intelectual e sério tornar-se um Pestana. Porém, em suas anotações, havia imensos e invejosos elogios a Charlie Mingus e Duke Ellington - que, cá para nós, são gênios absolutos mesmo.

É óbvio, seja num sentido ou noutro, há pessoas brilhantes, reconhecidas e insatisfeitas. Shosta nunca demonstrou insatisfação com sua tremenda obra erudita, mas que Pestana pode ser uma caricatura às avessas do russo, isso pode.

Mais pontos para o "absurdo brilhantismo" do conto de Machado.

Agora, deixa eu trabalhar, Idelber! Escreva sobre assuntos mais desinteressantes, tá?

Milton Ribeiro em junho 30, 2005 10:27 AM


#5

/Machado aproveita a morte do personagem para mandar a última ironia: façamos logo duas polcas para quando trocarmos o PSDB pelo PT, quer dizer, os conservadores pelos liberais. Dá tudo na mesma de qualquer forma. Pestana sabe que suas polcas correm o perene perigo de virar jingle de qualquer evento, de qualquer ocasião. A única música imune a esse perigo, pensa ele, é a música erudita, a verdeira música "difícil". Mas essas ele só ama, deseja e repete. Não consegue compor./

à margem do brilhantismo do post, há uma leitura mto pertinente entre o conto e o momento político brasileiro e, em acréscimo, um viés pessimista na sua própria leitura. na época de machado de assis, já se tinha a noção de que político é tudo farinha do mesmo saco, não importa se conservadores ou liberais (atualizando: se psdb ou pt, pfl ou pps, ptb ou pl). o personagem do compositor encarna, com sua refinada ironia, esta visão pessimista que persiste até hoje na sociedade brasileira de tal forma, que, se fosse dado ao eleitor o direito de comparecer por livre e espontanea vontade às urnas (e não obrigatoriamente), os índices de abstenção (tal como ocorre,por exemplo, nos eua) seriam absurdamente altos.

talvez a incapacidade do personagem em compor algo diferente do feijão-com-arroz que lhe proporcionava tanta celebridade - algo de que se orgulhasse sua alma atormentada - simbolize o destino atroz do brasileiro que, como sísifo, a cada quatro anos leva uma pedra/esperança até o topo da montanha só para ve-la rolar em seguida.

talvez a gente nunca consiga se livrar desse castigo dos deuses, que é ter esperança. pq nao te-la é ficar condenado a algo provavelmente pior - descrença e hipocrisia.

no mais, machado sempre será o gênio da raça.

parabéns pelo excelente post.

joão em junho 30, 2005 11:06 AM


#6

putz,idelber, nao entendi nada. pq duplicou se eu cliquei apenas uma vez? me desculpa. se tiver jeito de eliminar um deles...

problema nenhum, João, não se preocupe, já apaguei a duplicação. E obrigado pelo comentário :)

joão em junho 30, 2005 11:09 AM


#7

Muito bom este post, que me faz lembrar da polêmica de Adorno e Benjamim, em relação à dicotomia música erudita x Jazz.
Fiz un courrier especial citando você e o diário Olé! e para quem começa o dia com sonatas e cafeína, fiz bem em experimentar nova mistura, com polca e maxixe, sem tangos no meu café, biensûr!
Amitiés,
zadig.

Zadig em junho 30, 2005 12:43 PM


#8

Genial! Ótimo conto, excelentes comentários: Machado introduzindo o maxixe na literatura brasileira é sensacional, bem como as ironias de praxe aos conservadores e liberais (havia um personagem dele que desconversava dizendo "Somos todos brasileiros!").

Ah, parabéns (atrasados) a Laura!

Abraços,

Mauricio Santoro em junho 30, 2005 12:47 PM


#9

Idelber, esse post está ofuscando a vista de tão brilhante! Não conhecia este conto e adorei o paralelo que você faz com o noso momento atual.
Excelentes também os comentários do Milton e do João.

Viva em junho 30, 2005 2:13 PM


#10

Tenho que agradecer, Idelber. Li esse conto uns anos atrás, e ele já estava perdido no baú de coisas que eu li e acabei esquecendo. Lembrar dele e entendê-lo melhor foi um presentão.

Já o futebol... grande São Paulo, hein??


O São Paulo foi sensacional, soberbo; jogou como gente grande, né? :)

Kelli em junho 30, 2005 3:30 PM


#11

vim aqui LOUCO pra ler alguma coisa sobre a Seleção, Idelber!

e eu não tô dando muita sorte: ontem peguei um táxi com um chileno pra encontrar com uns amigos, assim não pude [i]boludear[/i] muitos hermanos. na volta pra casa eu já estava casnado demais pra sustentar qualquer conversa.

boa mesmo foi a aposta que eu fiz com um amigo na faculdade: amanhã eu e a sala vamos comer facturas patrocinadas pelo perdedor! eu não pretendo comentar o jogo verbalmente, mas vou levar uma bandeira e ainda farei cartazes com os nomes dos jogadores que fizeram gols.

enfim, um fechamento de ouro pro meu semestre acadêmico!

[]'s

PS: aproveito o comment pra fazer campanha contra "Guerra dos Mundos", eta filme ruim! Recomendo o que o Smart vem escrevendo no blog dele a respeito, o post mais recente é o http://smartshadeofblue.brblog.com/archives/001775.html

Diogo S Lima em junho 30, 2005 4:28 PM


#12

ah, e só pra complementar: o Dida ontem salvou a gente um par de vezes, mas a todo momento ele dava bolas diretamente pros argentinos! eta, foi difícil acompanhar o jogo...

Diogo S Lima em junho 30, 2005 4:29 PM


#13

Muito bom o texto, e sua análise, excelente.
Gostei especialmente da passagem em que Machado descreve o processo criativo, quando ele flui livremente:
(...)Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene. (...)
Num contraste com o esforço vão de criar o que não brota da alma. A clara diferença entre o puro regozijo artístico e a ansiedade egóica, que quer ver atendidas as demandas da vaidade ou da conveniência.
Será que o próprio Machado sentia-se assim com relação à sua obra? Talvez quisesse ser grande na poesia, quando a prosa é que o consagrou (apesar daquele soneto lindinho "À Carolina", que minha avó adorava recitar:Querida, ao pé do leito derradeiro,
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida,
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados
São pensamentos idos e vividos)

Ai ai, estou poética hoje.
Belo post, lindinho, parabéns.
Beijos.

christiana em junho 30, 2005 6:05 PM


#14

Às vezes costumo brincar de dizer que Machado deu uma rasteira no Deus Cronos e continua atualíssimo, sou ardorosa fã.
Menino, como vc é bom!
Minha família, do lado paterno, é toda de Araraquara...gente boa, devo dizer.
Beijão

Mônica em junho 30, 2005 8:04 PM


#15

Por este post e por outros e, principalmente por sua camiseta no encontro de Vila Madalena, fiz o post de hoje. Corra lá, Idelber.

Cláudio Costa em julho 1, 2005 11:45 AM


#16

Caro Idelber:
Sei que este espaço aqui é dedicado a Machado de Assis e literatura. Mas... não resisti em dizer a você que na Folha de S.Paulo, lá na "D4" temos: "Piadas racistas recheiam festa da volta: Em brincadeira, jogadores chamam colegas de macacos no vôo do São Paulo para o Brasil".

Já bastante escaldado com nossos vizinhos de continente, e tendo sido devidamente chamado de "macaquito" lá naquelas paragens quando houve pequena confusão, vejo que o mote "O Mundo gira e a Lusitana roda" continua valendo. Acredite, não se consegue conversar sobre futebol com argentinos. A maior prova disto é a capa de "Olé"!

Continuo com a mesma opinião, achando lamentável que o atacante são-paulino, insuflado ou não, tenha partido para ação tão sem nexo! Espero que ele se limite a jogar futebol, pois a contribuição que ele já deu para a construção do preconceito não precisa de arremate.

Não espero que você concorde comigo, não é isto. Mas peço que reflita. Naquele episódio não terá sido agitada a bandeira do preconceito para, num segundo momento, render uma boa grana? Não duvide do ser humano! Saudações futebolísticas.

Paulo Zobaran em julho 1, 2005 11:52 AM


#17

Caríssimo Zadig, não seria Adorno um Pestana da crítica musical, germânico e pós-Holocausto? Incapaz de ver a beleza e a singularidade das "polcas" (ou do jazz)? Obrigado pela visita e pelo post.

João; seu comentário me encantou, e me fez pensar em mais paralelos entre o conto e os dias atuais, dias de tristes equivalências morais que pensávamos que não existiam.

Pecus: não é verdade que são impagáveis os títulos das polcas? Também eu tenho dificuldade em separar "essencialmente" arte da séria da vulgar, claro. Mas socialmente, sim constrói-se, não mesmo, algo reconhecido como "erudito" e algo visto como "popular", por mais que eles às vezes se confundam (Pixinguinha, Duke Ellington, etc.)

Milton, eu não sabia que você havia tratado o conto neste post. Como você bem notou, Shostakovitch é o reverso de Pestana. Mas há que se notar que o caso do jazz é muito singular: ele começa como arte genuinamente popular (dixieland), passa a ser produto da indústria cultural e depois da chegada do rock'n'roll passa quase a ser parte da música erudita, que é onde ele se encontra hoje: hoje não há muita separação entre o ouvinte de música clássica e o de jazz. Frequentemente eles co-habitam a mesma pessoa.

Chris, seu comentário me fez pensar em como o Machado prosista é tão superior ao poeta. Você não acha? Em verso ele tenta, tenta, mas... Por sorte sacou isso cedo na vida. Acho que ele vê Pestana em si, sim, mas só na medida em que vê Pestana em todo artista brasileiro, não acha?

Mônica: rasteira no Cronos é muito bom :) Obrigado e abraços a Viva, Kelli, Diogo, Cláudio, Maurício.

Paulo: Reflito, querido, reflito. Mas não dá para julgar a Argentina pelo jornal Olé. Seria como julgar o Brasil pelo Diário da Tarde de BH. Você conhece? É daqueles jornais que você espreme e sai sangue. Isso sobre a Argentina, o que não quer dizer que eu não ache o racismo argentino odioso, quando e onde ele se manifesta. Eu li matéria da Folha. É muito fraca, Paulo. Pois se o próprio repórter diz que todo mundo estava brincando no avião, como ele pode dizer que aquilo é a mesma coisa de um insulto como o do Desábato, feito com o intuito de atacar e ferir? Continuo discordando radicalmente de você: Grafite não ajudou a construir preconceito, ele ajudou a expor os preconceitos existentes, e portanto está ajudando a combatê-los. Por isso discordo, mas seja sempre bem-vindo para expor o seu ponto de vista, hehehe. Abraço,

Idelber em julho 1, 2005 1:06 PM


#18

Já tinha lido esse conto maravilhoso quando você fez aquele post-aula pros seus estudantes de Tulane.

O que achei legal agora foi essa ilustração da dança de maxixe, dá para ver que o pessoal já dançava coxa na coxa, agarradinho, super sensual mesmo naquele tempo.

Leila em julho 1, 2005 1:40 PM


#19

Ótimo post, tanto quanto o conto! Vim parar aqui pelo blog do Zadig, gostei muito. Abraço.

Lele Carabina em julho 1, 2005 3:02 PM


#20

Idelber, quando puder, dê uma conferida na minha primeira incursão pelo conto...Eu sou atrevida, né ? Uma proposta dessa, logo no dia que vc posta Machado de Assis, hehehe...
Um abraço

Fefê em julho 1, 2005 5:40 PM


#21

Adorei o post, Idelber. Nem me lembrava mais desse conto, embora sempre tenha curtido o Machado de Assis contista. Pela falta de memória, você pode perceber o quanto estou enferrujada :-(

Só tenho que discordar de uma coisa: não precisa espremer o Diário da Tarde pra sair sangue, não. Basta encostar nele!

Cynthia Semíramis em julho 1, 2005 6:25 PM


#22

O conto me faz lembrar Ernesto Nazareth. Ele detestava que suas músicas fossem dançadas pelo público. Dizia que fazia música séria e não para divertimento.

Christiane em julho 1, 2005 6:31 PM


#23

Avelar, adorei... Sem palavras... Ah, é tão lindo, maravilho ler um homem inteligente... Da até prazer...

Carol Ribeiro em julho 1, 2005 10:54 PM


#24

Oi, Idelber,
Muito bom o texto sobre o Machado e o
Pestana.
Separei, pra dedicar meus primeiros vinte minutos do sábado, amanhã, pra ler o original, todo.
Mas, um reparo: Adriano, de bico? Ou eu vi um chute e você outro, ou de bico é que não foi, não!
Mas, controversias bicais a parte, que golaço e que jogão.
Lavamos a alma!
Abração
fernando cals

fernando cals em julho 2, 2005 12:26 AM


#25

"É o retrato do artista brasileiro, entre a possibilidade e o desejo, entre a ambição e a vocação." Perfeito.

Claudio Simões em julho 2, 2005 5:05 AM