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quarta-feira, 27 de julho 2005
Feliz Aniversário, Telê Santana

Com um dia de atraso, o blog saúda o 74o aniversário de Telê Santana, comemorado neste dia 26 de julho. Seria exagero dizer que foi o maior técnico da história do nosso futebol? Com certeza, foi o maior entre os que eu vi.
Como jogador, no Fluminense, do alto dos seus 57 kg, inventou uma posição: a do ponta que fecha para o meio, recua, ajuda na marcação e arma o contra-ataque.
Mas as maiores glórias foram como técnico. Três anos depois de encerrada a carreira, em 1965, recebe o comando do Fluminense e leva a equipe ao título do Roberto Gomes Pedrosa de 1969, o Brasileirão da época. Em 1970 assume o Atlético-MG e quebra a hegemonia de 5 anos do ex-Ipiranga, que tentava o hexacampeonato.
Ainda sob a euforia do tricampeonato da seleção no México, a antiga CBD decide organizar o primeiro certame realmente nacional do nosso futebol, o Campeonato Brasileiro. Naquele pioneiro Campeonato de 1971, havia vários favoritos: o Santos de Pelé; o São Paulo de Gérson e Pedro Rocha; o Botafogo de Jairzinho e Carlos Alberto; o Palmeiras de Ademir da Guia; o ex-Ipiranga de Tostão e Dirceu Lopes.
Mas quem papou o título foi o Galo de Dadá.
Obra pessoalíssima de Telê Santana, que forjou uma equipe campeã com 11 jogadores limitados, que sabiam suas funções e seguiam fielmente o seu técnico. Só Telê Santana foi capaz de quebrar a hegemonia do rolo compressor do Internacional, conquistando com o Grêmio - de novo, no comando de um limitado elenco - o histórico Campeonato Gaúcho de 1977.
Na Seleção Brasileira, armou a maior máquina de jogar futebol que vimos desde a era Pelé, o escrete de 1982 - que parecia jogar por música, sempre ofensivamente, surpreendendo o espectador e o adversário com jogadas geniais. Perdeu a Copa de 1982 numa fatalidade e começou aí o absurdo mito do "Telê pé frio".
A corja da CBF, a camarilha da Rua da Alfândega, jamais lhe perdoou alguns pecados: um deles, o de ser mineiro. O outro, o de ser avesso à politicagem e ao conchavo. O terceiro, o de jamais aceitar interferências no seu trabalho. E finalmente o de jamais deixar de denunciar a violência e os árbitros e cartolas coniventes com ela.
Uma vez, perguntaram ao grande Zico se havia algum treinador que jamais havia mandado bater num adversário. Zico respondeu: somente Telê.
Por tudo isso, torci muito pela seleção de 1986, que poderia ter sido a redenção de Telê no comando do Brasil. Mas de novo, numa fatalidade povoada de penais perdidos, o Brasil foi eliminado da Copa e o futebol ofensivo de Telê foi substituído por retrancas e brucutus. Ganhou força o mito do "pé frio".
Assumiu o Galo de novo e, às vesperas da decisão do Campeonato Mineiro de 1988, teve que ouvir durante toda a semana que o ex-Ipiranga já festejava o bicampeonato, pois tinha a melhor equipe e enfrentava um "pé frio". Os garotos do Galo, quase todos oriundos dos juvenis, fizeram um pacto pela vitória por Telê, por amor a Telê. A massa tomou 2/3 do Mineirão, como é de costume nos clássicos mineiros, e gritou o nome do seu técnico ao longo do jogo. Os meninos se encheram de brios e venceram por 1 x 0. Galo campeão mineiro de 1988. Uma multidão esperou Telê para carregá-lo nos ombros.
Mas ainda faltava a grande volta por cima.
Em outubro de 1990, o São Paulo era uma equipe em crise, já há quatro anos sem títulos importantes. Telê assume o Tricolor e em menos de um ano monta o maior esquadrão da história do clube. Naquele time, Telê burilou peça por peça. Um certo lateral direito apenas esforçado recebeu horas e horas diárias da atenção do mestre (especialmente nos cruzamentos) e em pouco tempo se transformou no Cafu depois capitão do pentacampeonato.
Com Telê, o São Paulo foi campeão dos dois campeonatos mais importantes do país em 1991, o Paulista e o Brasileiro. Em 1992 levou o São Paulo ao título da Libertadores. Ganhou o campeonato mundial interclubes. Trouxe ao seu time outro mineiro apedrejado depois da tragédia da Copa de 1982, o já veterano Toninho Cerezzo. Sob a batuta de Cerezzo, Raí e Telê, o São Paulo repetiu a dose em 1993: campeão da América e campeão mundial. Durante 5 anos no São Paulo, Telê fartou-se de ganhar títulos, de calar a boca dos críticos e de encantar o mundo com o futebol bonito e ofensivo que a seleção brasileira jamais voltou a jogar desde que ele deixou de ser seu treinador.
Vive agora com a saúde bem debilitada, mas cercado, aqui em Minas Gerais, de um amor absolutamente unânime.
Hoje à noite jogam Atlético-MG e São Paulo no Mineirão. Seria uma linda oportunidade para que as torcidas dos dois clubes prestassem uma homenagem àquele que foi o maior técnico de suas histórias.
Evoé, Telê.
Atualização: e quem faz aniversário hoje, um dia depois de Telê (info via Meg) é o mestre e cumpadi Alexandre Inagaki. Parabéns, e muitos anos de vida e saúde.
Escrito por Idelber às 04:28 | link para este post
| Comentários (20)
#1
Bonito, bonito. É em vida que se devem prestar as homenagens às pessoas realmente importantes. abs
Afonso em julho 27, 2005 8:31 AM
#2
Ele pode não ter recebido a merecida consagração internacional (exceção feita ao Campeonato Mundial), mas foi, também em minha opinião, o maior de nossos técnicos.
Os melhores treinadores imprimem sua assinatura no time resultante. Os times de Telê eram solidários, rápidos, jogavam bonito e não batiam. Só Luxemburgo (apesar de detestá-lo pessoalmente) e Felipão treinam times que são suas caras no Brasil. Outro super-treinador que vi foi Ênio Andrade, mas todos estes são inferiores a Mestre Telê, não são - foram, no caso de Ênio - poetas, não dizem para não bater e nem são tão ofensivos assim.
No exterior, os times de Fabio Capello sempre me impressionaram para eficiência e feiúra de seu futebol. Este tem uma assinatira em campo. O homem foi campeão com o Real Madrid, o Milan, a Roma e a Juventus!
Fora do país e comparável a Telê, só nosso ídolo Rinus Michels, Idelber. Acho um detalhe verdadeiramente arrepiante este de que jogam hoje SP e Atl-MG. Deveria haver uma homenagem, sim.
Grande abraço.
Milton Ribeiro em julho 27, 2005 11:12 AM
#3
Ah, o Grêmio. Éramos octa-campeões gaúchos e pouca gente sabia como dizer o nono campeonado. Nona? Enea? Pois veio Telê e cortou nossa onda. Com um time de jogadores em fim de carreira (Oberdan, Ladinho, Dirceu, André Catimba, Tadeu Ricci, etc.) e com um jovem (Éder) venceu o Inter em 1977.
Mas eu o perdôo.
Milton Ribeiro em julho 27, 2005 11:16 AM
#4
Idelber,
faltou comentar o modesto e maraviloso Palmeiras de 1979 que o Telê comandou. Esse time enfiou 4 no Flamengo de Zico eliminado o rubro negro em pleno Maracanã nas finas do brasileiro daquele ano. Que palmeirense não lembra desse dia? Baroninho, Pires, Mococa, Esquerdinha, Jorginho....e outros....
E por falar em Palmeiras....esqueci das saudações alviverdes de domingo passado!
Inté!
Umberto em julho 27, 2005 12:41 PM
#5
Hoje em dia sou tricolor, tanto do Sao Paulo quanto do Fluminense devido ao que Tele fez como tecnico e tambem como jogador.
Abraco
Gean em julho 27, 2005 1:12 PM
#6
Telê foi responsável pelo jogo que me fez, pela única e - espero - última vez que eu troquei de time nessa vida: São Paulo x Milan, em Tóquio. Acordei corinthiano e fui dormir tricolor naquele dia.
MarcosVP em julho 27, 2005 1:18 PM
#7
O Milton, sempre brilhante, conseguiu se antecipar a absolutamente tudo que eu ia comentar: ia falar do Grêmio de 77, de Enio Andrade e de Rinus Michels, e que se essa homenagem não sair, será uma grande bola fora (ops) das diretorias. Impressionante!
Aliás, belíssimo e relevante post.
Em tempo, ó gran-fanático: Tite cai?
tiagón em julho 27, 2005 2:33 PM
#8
Perfeita homenagem. Eu iria citar tb aquele Palmeiras de 1979 que foi longe nas mãos do mestre... Mesmo antes do meu glorioso São Paulo, um homem com este currículo de vitórias (desde os tempos de jogador) não poderia ser pé-frio nunca. Agora, sobre os 4 anos do São Paulo pré-90, sou obrigado a discordar. Fomos campeões Paulistas de 1987 e 1989 (Paulista que naquele tempo ainda significava muito) e fizemos as finais de Brasileiro de 1989 e 1990. Tivemos sim, em 1990, uma crise que resultou na segunda divisão paulista. Alguém pode dizer se Telê veio depois disso ou era o técnico e foi mantido pela diretoria?
Donizetti em julho 27, 2005 3:13 PM
#9
Belos comentários, obrigado.
É verdade, Marcos. O campeonato paulista daquela época não pode ser descartado como "título sem importância". Telê chegou ao São Paulo em outubro de 1990, depois, portanto, daquela crise; que foi tão braba que houve um jogo entre SP e Ponte Preta no Morumbi assistido por 100 pessoas, onde a torcida da Ponte era maior que a do São Paulo!
Umberto, valeu a lembrança do Palmeiras de 79. Taí outro time burilado por Telê com um elenco limitado, não é? O baile no Flamengo dentro do Maracanã foi inesquecível, lembro daquele jogo como se tivesse acontecido ontem.
É, Marcos, muita gente virou Tricolor no começo dos 90... Obrigado ao Gean pelo testemunho e ao Afonso pelo alô também :)
Tiagón e Milton, obrigado pelos detalhes sobre o Gauchão de 77. Do time do Grêmio de 77, só um jogador (Éder) pode ser considerado craque. E nem era um craque maduro ainda :)
Tiagón, não sei se Tite cai. Ele é respeitado por aqui, e há a consciência de que não se pode esperar milagres. Mas eu não entendo um técnico que deixa Amaral no banco para jogar com Walker; deixa Rodrigo Fabri no banco para jogar com Ataliba. Enfim... saudades de Telê :)
Idelber em julho 27, 2005 3:43 PM
#10
Bela homenagem Idelber.
O Telê me deu grandes alegrias. Um grande técnico de grandes conquistas, em grandes clubes brasileiros.
Paulo Zobaran em julho 27, 2005 4:09 PM
#11
Se - como dizem - toda unanimidade é burra, Telê é a exceção à regra.
Ricardo M em julho 27, 2005 5:23 PM
#12
Eu só posso comentar sobre a seleção de 82, a melhor que o Brasil já teve. O Telê realmente era um técnico excelente, que o torcedor respeitava.
Leila em julho 27, 2005 6:05 PM
#13
OFF TOPIC: oi Idelber, queria apenas avisar Biscoito foi listado, junto com o Smart Shade of Blue, Os Conspiradores e outros, numa relação de blogs políticos publicada em matéria do caderno Link do Estadão.
Marcus Pessoa em julho 27, 2005 8:25 PM
#14
Excelente postagem. Fico tentado a dizer que este é o melhor texto publicado por você. Li-o em voz alta, agora, para uma outra pessoa. Sofri feito um desgraçado de 65, ano da inauguração do Mineirão, a 69, época de predomínio total da bicharada. A redenção veio em 70 e 71, com o grande Telê Santana. Bela homenagem a quem muito a merece. Abraço.
Tristão em julho 27, 2005 9:19 PM
#15
Sem dúvida o melhor de todos...
O mestre sabia das coisas. A propósito, Idelber, acho que a "tragédia do Sarriá" foi "o último suspiro do futebol arte".
O Brasil, com aquele meio de campo (ah! que meio de campo!) ter perdido aquela copa foi muito ruim para o futebol.
A partir dali, isso a meu ver, os times do mundo, e do Brasil particularmente, "europeirizaram" de vez. Renderam-se ao futebol forte, de marcação e "de resultado" jogado na europa desde sempre (exceção: Hungria-1954, Holanda-1974, Holanda-1988, além de Portugal-66).
Aquele time de 82 dava gosto de se ver jogar. O estilo de Telê é o que chamo de "fazedor" (e não criador) de jogadores. Só um técnico genial como o Telê consegue extrair do jogador o melhor que ele pode render. Sabe encontrar a posição correta e o momento certo para ele entrar em campo. (quem não lembra do Juninho no SP?? E do Palhinha??)
Só quem tem espírito de campeão como Telê sempre teve é capaz de arquitetar verdadeiros esquadrões no ataque. Até hoje acho incrível como a Seleção de 82 e o SP Jogavam. Nunca tive dúvidas de que Telê era o melhor.
Infelizmente ele não fez escola. Afinal, é muito fácil jogar fechadinho, dando pancada, tentando evitar tomar gol e partindo para o contra-ataque do que brilhar, encantar, dar show como faziam o Brasil durante a era Pelé e em 82.
Por isso acho que a Tragédia do Sarriá foi tão cruel com o futebol. Quem sabe se o Brasil tivesse ganho aquela copa esse estilo ridículo de se jogar teria se imposto?? O q vc acha??
O futebol-arte só teve novos suspiros com o SP do início dos anos 90. Só com ele. Justíssima homenagem Idelber. Parabéns ao Telê.
Edk.
-----------------
P.S.: Minha única bronca com ele é a mesma do meu pai. Ter insistido tanto no Serginho...
Edk em julho 27, 2005 11:32 PM
#16
Li o comentário anterior. Saindo das amenidades de uma comemoração, creio que o "futebol-arte" reaparece no mundo de tempos em tempos, sempre em virtude de jogadores brasileiros.
Creio que a final da Copa de 2002, bem como este último Brasil x Argentina foram, por exemplo, jogos dentro do futebol-arte.
Talvez precisemos de uma nova conversa em torno da tragédia do Sarriá. Eu tenho a impressão que houve ali um último suspiro de um modo de fazer jornalismo, que glorifica mas não explica. Os jogadores que estavam em campo poderiam assumir uma maior parcela no fracasso daquele jogo. Acho que Zico poderá, em algum dia no futuro, contribuir para entendermos melhor!
O que me parece mais fantástico em Telê é que ele não fazia questão de trabalhar com craques. Mas o jogador tinha que ter amor a bola. E formou grandes times. A frase parece corriqueira mas não é. Telê a partir dos jogadores que possuía formava um time campeão. O fato dele ter transformado Dario e Flávio em artilheiros notáveis, em ter lhes impregnado de confiança, prolongou suas carreiras de jogadores que matavam a bola na canela, mas que tornaram-se um perigo dentro da área.
Sua caracterísitca de não transigir [p.e. sua primeira passagem pelo SPFC] teve poucas exceções. As exceções mais notáveis atenderam pelo nome de Waldir Peres e Serginho!
Paulo Zobaran em julho 28, 2005 3:15 AM
#17
Obrigado ao Marcus pelo link ao Estadão (fomos citados como blog que traz notícias do Planalto???) e obrigado a todos pela mãozinha na homenagem a Telê.
Tristão, fico muito honrado mesmo com a sua leitura.
Bela frase, Paulo, Talvez precisemos de uma nova conversa em torno da tragédia do Sarriá. Com certeza.
Abraços à Leila, ao Edk e ao Homem-Baile também :)
Idelber em julho 28, 2005 2:54 PM
#18
Perdão Idelber. Sei que comentários de comentários são nada bons.
Porém, a final de 2002 futebol-arte? Sei não.
Uma fraquíssima (fraca não, fraquíssima) Alemanha com uma campanha medíocre e jogadores mais medíocres ainda? Ok. Alemanha é a Alemanha, mas, com aquele time...
A atuação da seleção contra a Argentina é outra história. Realmente houve resquícios do grande futebol de outrora. E isso é muito bom. A determinação técnica e tática do Brasil naquele jogo foram exemplares. Claro, não vamos esquecer que as Argentina jogava sem alguns titulares. Mas isso é outra história.
Até.
Edk em julho 28, 2005 2:55 PM
#19
Um minuto de diferença no post Idelber. caramba!!!!
Edk em julho 29, 2005 11:17 PM
#20
tele santana sempre sera o melhor tecnico brasileiro, como foi pele o melhor jogador do mundo, ambos serao sempre lembrados por nos brasileiros.
Eu lembro do Tele em diversas ocasioes, a mais q fica na minha memoria eh a famosa polo vermelha q ele sempre usava em jogos.
TELE SANTANA, os brasileiros; torcedores do fluminense e PRINCIPALMENTE OS SAO PAULINOS, NUNCA IRAM ESQUECER DO SENHOR.
adna dutra em setembro 26, 2005 11:49 AM