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sábado, 02 de julho 2005
Sobre uma mui urgente conversa entre acadêmicos e jornalistas
Mantenhamos na pauta do Biscoito o projeto de uma importante aliança e conversa que se deve construir: falo da conversa e da aliança entre profissionais da universidade e profissionais da imprensa, "acadêmicos" e "jornalistas", essas duas turmas que com freqüência trocam farpas, mas que hoje, no Brasil, têm muitos interesses em comum e estão começando a se enxergar melhor. Os blogs, a blogosfera, são em parte responsáveis pelo fato de que esse diálogo ocorra hoje em termos mais ricos que os de outrora.
Acadêmicos e jornalistas têm em comum o fato de que são tomados como bodes expiatórios sempre que alguma coisa vai mal com o poder.
Acadêmicos e jornalistas têm em comum o fato de que, com freqüência, são desautorizados, desqualificados in toto, como se todo acadêmico fosse um bolorento preso numa torre de marfim, como se todo jornalista fosse um simplificador e banalizador que não sabe do que está falando.
Acadêmicos e jornalistas muitas vezes se acusaram, mutuamente, de serem exatamente isso que descrevo no parágrafo anterior. Com bastante freqüência protagonizaram brigas recheadas de mal-entendidos.
Mas cada vez mais acadêmicos descobrem a riqueza do trabalho dos jornalistas, e cada vez mais jornalistas descobrem a abertura ao diálogo de muitos, muitos dos profissionais da universidade.
É lógico que não é fácil: os acadêmicos que decidimos transgredir os muros da universidade e defender nossos pontos de vista "aqui fora" enfrentamos obstáculos dentro da academia, sim, a começar por um permanente desprezo pela "popularização" do trabalho intelectual.
E os jornalistas que decidem, também aqui "fora", defender seus pontos de vista e sua prática, enfrentam constantes obstáculos dentro dos meios de comunicação no qual trabalham, e também freqüentes incompreensões "aqui fora".
De minha parte, como mero acadêmico, venho protestar contra a verdadeira busca de bode expiatório que tem acompanhado as trapalhadas do governo federal, sempre disposto a pôr a culpa da crise na imprensa, como se a responsabilidade pelo incêndio no circo fosse do profisssional que o está fotografando.
Em todo caso, neste sábado - que sempre é um dia mais paradão no blog - deixo um post dizendo o óbvio:
Nem todo acadêmico é um neurótico especialista em uma minúscula e irrelevante área, incapaz de dialogar com o resto dos mortais. E nem todo jornalista é um banalizador, como tantas vezes nós, acadêmicos, injustamente pensamos.
O diálogo entre essas duas turmas é de muita importância para o Brasil de hoje.
Por agora, que fique o protesto: tropa de choque do governo, chega de culpar a imprensa pelo desastre sobre o qual vocês estão presidindo. Um pouquinho de humildade para reconhecer os próprios erros faz bem.
Escrito por Idelber às 03:42 | link para este post
| Comentários (16)
#1
Idelber, você criou dois times. Acadêmicos Futebol Clube e Clube Atlético Jornalistas. Vai acirrar a rivalidade, se é que não vai criá-la. Como sou novo por aqui ainda não vi nenhum match.
pecus em julho 2, 2005 10:56 AM
#2
Idelber, sou sua leitora recém-chegada, mas já deu pra ver que você tem olhos de águia. Tudo muito bem feito, todo dia uma novidade. Você acaso dorme ?
Tutt em julho 2, 2005 12:10 PM
#3
Desde que isso não implique em passar a mão na cabeça de acadêmicos neuróticos especialistas em uma minúscula e irrelevante área, incapazes de dialogar com o resto dos mortais e de jornalistas banalizadores, concordo! abs
Afonso em julho 2, 2005 1:13 PM
#4
Idelber, valeu o link pro Sergio Leo, esse fera que precisa ser descoberto pelos leitores de blogs brasileiros!
Concordo que a blogosfera é um ambiente ideal para o diálogo entre acadêmicos e jornalistas. Só faltam mais adesões de novos blogueiros das duas categorias. Bjs,
Leila em julho 2, 2005 3:08 PM
#5
Intelectuais e Jornalistas - 19/7/84
Claudio Abramo
"No Brasil, intelectuais nao discutem com jornalistas. Embora isso seja um fenomeno local, restrito, muitos dos meus colegas jornalistas se aborrecem com uma atitude que consideram elitista, daqueles que, erradamente, eles consideram seus colegas. Intelectuais sao intelectuais e jornalistas sao jornalistas. Como no Brasil muitos intelectuais nao se engajaram nos combates travados pela maioria da populacao, ou quando se engajaram, assumiram frequentemente uma atitude assim mesmo distante, e como no Brasil os jornalistas tiveram que tratar do dia-a-dia com tudo o que isso signfica (...), o fosso entre eles foi aumentado, e agora já é tarde. Acho que os intelectuais tem muita razao no seu comportamento, mas acho que nao é bom exagerar.
(...) intelectual jamais se dirige a jornalista diretamente, sempre procura uma maneira elíptica de responder ao que o jornalista escreveu; geralmente, voce escreve uma coisa, um intelectual desses le, concorda ou discorda, ou mais frequentemente, descobre, porque ainda nao havia pensado no assunto, mas só responde se pode escrever um artigo no qual encaixa, disfarcadamente e nao notoriamente, a resposta, que ele faz parecer dirigir a outro intelectual; mas é assim mesmo.
(...) Tenho um amigo que escreveu muito sobre politica e costumes, e que frequentemente me telefona para xingar alguem intelectual: 'Veja', me disse ele outro dia, 'eu escrevi isto aqui na semana passada e há 3 dias o intelectual Fulano escreveu contra o que eu disse, mas nao se refere ao meu artigo, nem ao que eu disse. Encontrou um desvio, o sacana, e está dialogando com outro intelectual, como se eu nao tivesse levantado a questao antes'."
Gabriel em julho 2, 2005 9:20 PM
#6
Bueno, penso que estás com a razão. Acadêmicos e jornalistas devem, mais do que nunca, unir forças para enfrentar a temerosa situação pela qual passamos. Acredito que essa responsabilidade não é só destes, mas de cada um de nós, com suas idéias e disposições em questionar e debater em busca de um novo norte para guiar nossas andanças.
Só para lhe avisar: o Escrever Por Escrever acabou. Podes deletar o linque ali na esquerda.
Rafael Reinehr em julho 2, 2005 10:00 PM
#7
Uma coisita mais: me foi passada uma espécie de "corrente musical", e estou passando a pelota para ti. Se conseguires dominar, chuta!
Rafael Reinehr em julho 3, 2005 12:58 AM
#8
hehehe, Pecus: acho que os dois times já andavam por aí separados há um tempo, como mostra a citação do Cláudio Abramo deixada pelo Gabriel. Citação bem típica, por sinal, de como muitos jornalistas no Brasil viram/ vêem os acadêmicos (por outro lado, de acadêmicos você ouviria que os jornalistas sempre distorcem o que outro falou, procuram sempre o atalho mais fácil, não se informam o suficiente, etc.).
Tutt: durmo sim, sempre oito horas por dia, mas nunca no mesmo horário do dia anterior :)
Leila: de nada, acho que cada vez mais gente vai conhecer o excelente o trabalho do Sergio Léo.
Afonso: kkkkk! você é o chato mais divertido que existe.
Rafael: que morra o velho e nasça o novo! Parabéns pela nova casa (já atualizarei os links); está muito bonita. Tentarei arrematar a corrente. E não me esqueci daquela entrevista, amigo, ela misteriosamente sumiu da minha máquina depois de já quase pronta. Vou refazê-la e lha reenvio, ok?
Abraços a todos,
Idelber em julho 3, 2005 5:27 AM
#9
Caro,
como um dublê de jornalista e acadêmico (ciência política) sou uma espécie de contrabandista entre essas duas fronteiras. Às vezes levo bordoada da polícia dos dois lados, às vezes consigo ser um mensageiro que aproxima um pouco esses dois mundos, que para mim são ambos fascinantes.
Espero que a gente possa seguir adiante colocando jornalistas e acadêmicos para conversar.
Abraços,
Mauricio Santoro em julho 3, 2005 1:16 PM
#10
Maurício, com interlocutores como você dos dois lados a conversa fica muito, muito mais fácil :) Grande abraço,
Idelber em julho 3, 2005 2:38 PM
#11
Isso de o governo não assumir a responsabilidade pelas crises que cria tá enchendo o saco mesmo. É sempre a 'elite', a 'direita', aliadas à imprensa, que querem desestabilizar um projeto 'progressista'. Ora, vá encher o saco de outro! Projeto progressista esse governo não tinha nem antes de ser eleito...
Ismael Grilo em julho 3, 2005 4:27 PM
#12
Idelber, você é o melhor exemplo de que "Nem todo acadêmico é um neurótico especialista em uma minúscula e irrelevante área, incapaz de dialogar com o resto dos mortais." E jogando no time dos jornalistas temos o Noblat, a Cora e o grupo do No Mínimo, só pra citar alguns. Semprew haverá bons e maus profissionais em todas as áreas por isso é tão importante esse seu passo em direção ao entendimento mútuo.
Viva em julho 3, 2005 4:31 PM
#13
Gramsci já disse que todos somos intelectuais e, agora, a internet confirma que todos somos jornalistas. Acredito que as coisas se ajeitarem é uma questão de paciência :)
Su em julho 3, 2005 11:45 PM
#14
Idelber, quero dar meu depoimento sobre este tópico que só estou lendo agora, antes mesmo de ler o do Lenine. Como jornalista, me identifico plenamente com a questão que você está levantando, e dou meu testemunho particular: como jornalista atraído pela (mas não bem-informado sobre a) academia, sempre me senti rejeitado/desprezado pelo "lado de lá". meus dois livros foram (não sei se realmente ou se premeditadamente) 100% ignorados pela academia - dei nas mãos do Zé Miguel Wisnik o primeiro dos dois ("Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba"), mas ele nunca emitiu uma palavra, um sinal sequer que seja. Quanto ao segundo, "Como Dois e Dois São Cinco", diz respeito a Roberto Carlos, e aí o abismo ficou mais brabo ainda.
Claro que dá vontade de resmungar, mas, por outro lado, eu não sei me aproximar da academia se não for com um bloquinho e uma caneta na mão - e, portanto, acho que em parte não devo ficar choramingando por algo que nunca batalhei para ter. fico numa espera meio Godot, sei lá pra quê.
Mas, eis aí razões pr'eu não reclamar: olha você propondo a ponte, lançando a ponte, propondo a aliança. Aceito, orgulhosíssimo, heheeheh!
Quanto aos bodes expiatórios, ok, abaixo todos eles (o que tem sido Roberto Jefferson até agora senão alguém que rejeita com muito talento a fantasia de bode expiatório? isso é algo bacana à beça para aprendermos com ele, quem dera dirceus e genoínos tivessem a ginga de Bob Jeff para recusar o estigma do bode).
Mas, no mais, não compartilho com você a impressão de que se esteja tentando fazer da imprensa o bode (talvez alguns do governo, alguns das "esquerdas" "radicais" - mas esses mais atrapalham do que ajudam na atribuição de responsabilidades à imprensa, né?). Se for isso também vou querer pular fora, tô fora.
Mas tem um outro dado: do alto desse chuveirinho de escândalos que estamos vivendo, tenho aprendido pela primeira vez a tentar entender o naco de responsabilidade da minha profissão e de seus profissionais. tenho aprendido a ter vergonha, por certas razões, de ser jornalista. Tenho me sentido torpe apenas por ser um deles, por ser da mesma classe de certas figuras e certas instituições que agem com a mesma inocência útil de um Bob Jeff (que eu odeio), de uma Heloísa Helena (que eu adoro). a imprensa não pode e não deve aceitar a máscara do bode, mas isso não significa que ela deva ser absolvida como a santa heloiseleninha do pau oco. O moralismo de certos grandes jornais e revistas é idêntica ao moralismo da querida Heloísa Helena - esses veículos, assim como HH e assim como o PT até pouquinho tempo atrás, se supõem perfeitos, infalíveis, imaculados em sua moral supostamente sólida, concreta e intocável. Sorry, mas tenho que dizer: tudo mentira. Como bem diz Bob Jeff, não há anjinhos nem donzelas virgens nessa história toda. E a recusa da imprensa a se assumir não como bode expiatório, mas como co-participante e co-responsável pelas crises e pela ignorância geral da nação em resolver crises, é muito, muito, muito daninha e maléfica para a democracia brasileira como um todo.
(A gente precisava aprender um outro olhar - um outro mundo é possível -, aprender que onde existe um bode expiatório, sempre existe também o anti-bode - a donzela imaculada, que veste esse travesti pelo medo pavoroso que tem de virar bode. a donzela-anti-bode já foi interpretada quase hegemonicamente pelo PT, por exemplo, e hoje está distribuída em vários "atores"-donzelas: Lula, Heloísa Helena, Folha de S.Paulo & seu amante da hora, Bob Jeff...)
pronto, já desandei a falar demais... uma última observação necessária: o que comumente chamamos de "imprensa" também é uma entidade complexa, que unifica "atores" que, a rigor, não deveriam ser confundidos - como, por exemplo, jornalistas braçais e donos de empresas jornalísticas (as posições de uns e de outros são, quase sempre, muito diversas...).
seja como for... viva as alianças, todas elas! que o príncipe e o sapo se reassumam como uma única entidade bipartida!
pedro em julho 5, 2005 12:44 AM
#15
Idelber, quero dar meu depoimento sobre este tópico que só estou lendo agora, antes mesmo de ler o do Lenine. Como jornalista, me identifico plenamente com a questão que você está levantando, e dou meu testemunho particular: como jornalista atraído pela (mas não bem-informado sobre a) academia, sempre me senti rejeitado/desprezado pelo "lado de lá". meus dois livros foram (não sei se realmente ou se premeditadamente) 100% ignorados pela academia - dei nas mãos do Zé Miguel Wisnik o primeiro dos dois ("Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba"), mas ele nunca emitiu uma palavra, um sinal sequer que seja. Quanto ao segundo, "Como Dois e Dois São Cinco", diz respeito a Roberto Carlos, e aí o abismo ficou mais brabo ainda.
Claro que dá vontade de resmungar, mas, por outro lado, eu não sei me aproximar da academia se não for com um bloquinho e uma caneta na mão - e, portanto, acho que em parte não devo ficar choramingando por algo que nunca batalhei para ter. fico numa espera meio Godot, sei lá pra quê.
Mas, eis aí razões pr'eu não reclamar: olha você propondo a ponte, lançando a ponte, propondo a aliança. Aceito, orgulhosíssimo, heheeheh!
Quanto aos bodes expiatórios, ok, abaixo todos eles (o que tem sido Roberto Jefferson até agora senão alguém que rejeita com muito talento a fantasia de bode expiatório? isso é algo bacana à beça para aprendermos com ele, quem dera dirceus e genoínos tivessem a ginga de Bob Jeff para recusar o estigma do bode).
Mas, no mais, não compartilho com você a impressão de que se esteja tentando fazer da imprensa o bode (talvez alguns do governo, alguns das "esquerdas" "radicais" - mas esses mais atrapalham do que ajudam na atribuição de responsabilidades à imprensa, né?). Se for isso também vou querer pular fora, tô fora.
Mas tem um outro dado: do alto desse chuveirinho de escândalos que estamos vivendo, tenho aprendido pela primeira vez a tentar entender o naco de responsabilidade da minha profissão e de seus profissionais. tenho aprendido a ter vergonha, por certas razões, de ser jornalista. Tenho me sentido torpe apenas por ser um deles, por ser da mesma classe de certas figuras e certas instituições que agem com a mesma inocência útil de um Bob Jeff (que eu odeio), de uma Heloísa Helena (que eu adoro). a imprensa não pode e não deve aceitar a máscara do bode, mas isso não significa que ela deva ser absolvida como a santa heloiseleninha do pau oco. O moralismo de certos grandes jornais e revistas é idêntica ao moralismo da querida Heloísa Helena - esses veículos, assim como HH e assim como o PT até pouquinho tempo atrás, se supõem perfeitos, infalíveis, imaculados em sua moral supostamente sólida, concreta e intocável. Sorry, mas tenho que dizer: tudo mentira. Como bem diz Bob Jeff, não há anjinhos nem donzelas virgens nessa história toda. E a recusa da imprensa a se assumir não como bode expiatório, mas como co-participante e co-responsável pelas crises e pela ignorância geral da nação em resolver crises, é muito, muito, muito daninha e maléfica para a democracia brasileira como um todo.
(A gente precisava aprender um outro olhar - um outro mundo é possível -, aprender que onde existe um bode expiatório, sempre existe também o anti-bode - a donzela imaculada, que veste esse travesti pelo medo pavoroso que tem de virar bode. a donzela-anti-bode já foi interpretada quase hegemonicamente pelo PT, por exemplo, e hoje está distribuída em vários "atores"-donzelas: Lula, Heloísa Helena, Folha de S.Paulo & seu amante da hora, Bob Jeff...)
pronto, já desandei a falar demais... uma última observação necessária: o que comumente chamamos de "imprensa" também é uma entidade complexa, que unifica "atores" que, a rigor, não deveriam ser confundidos - como, por exemplo, jornalistas braçais e donos de empresas jornalísticas (as posições de uns e de outros são, quase sempre, muito diversas...).
seja como for... viva as alianças, a dos acadêmicos & jornalistas, e todas as outras! que o príncipe e o sapo se reassumam como uma única entidade bipartida!...
pedro em julho 5, 2005 12:45 AM
#16
Su, muito certo isso de que a internet nos torna a todos um pouquinho jornalistas, né? Vai bem de encontro ao que o Biajoni anda dizendo :)
Abraços, e saudações ao Ismael e à Viva também,
Idelber em julho 5, 2005 4:03 AM