« Portal Novo ::
Pag. Principal
:: Enquete - Eleições para Presidente »
sexta-feira, 05 de agosto 2005
No Rastro de Pelé

Há uma história interessante sobre esta estátua de Pelé, localizada aqui no centro de Três Corações, sua cidade natal (Pelé nasceu aqui e mudou-se criancinha para Bauru, SP). Diz a lenda - e eu vendo o peixe como me passaram - que se programou uma homenagem ao Rei na cidade, mas que ele pôs obstáculos ou exigiu cachê para comparecer. Indignados, fazendeiros da região ameaçaram "laçar" a estátua e arrancá-la da praça. Já com a imprensa reunida na rua, telefonaram ao Rei e lhe comunicaram a decisão. Só aí ele viu a gravidade da coisa e resolveu aparecer. Realizou-se a homenagem e a estátua continua lá, embora a bola que a acompanha seja roubada de tempos em tempos. A casa onde Pelé nasceu localizava-se no número 86 do que é hoje a Rua Edson Arantes do Nascimento. A casa já não está lá. Há um lote vago no lugar.
Não há um museu Pelé em Três Corações, mas a memória do Rei ocupa uma grande sala da Casa de Cultura da cidade, esta:

Eu esperava encontrar só uma coleção de fotos e uns parcos documentos, mas há um vasto arquivo. Quem se interessa pela carreira do Rei deveria passar por aqui em algum momento. São uns 12 livros enormes, com recortes de imprensa que vão desde os primeiros anos de Pelé no Santos até eventos recentes.
Com a grande maioria das pessoas que conversei, senti uma certa má vontade com Pelé, o que não me surpreende. Cedo aprendi que se há alguém, em algum lugar, fazendo-lhe uma homenagem, haverá alguém, em outro lugar, dizendo que você é um ingrato que não agradeceu a homenagem suficientemente. É a lei da vida. Não seria Pelé que escaparia dela.
Mas no Brasil estamos acostumados a pensar que Pelé é sobre-humano. Os erros todos, quem os cometeu, afinal de contas, foi o Édson. Essa separação, inventada pelo próprio, nos redime. Podemos açoitar, criticar, ridicularizar. Ao fim e ao cabo, o objeto do açoite é Édson, não Pelé. Pelé é intocável.

Foi Édson, não Pelé, quem fez campanha para um candidato malufista à prefeitura de Santos. Foi Édson, não Pelé, quem fez as pazes com Ricardo Teixeira e a cartolagem corrupta. Foi Édson, não Pelé, quem se prestou, por motivos políticos, a fazer para a FIFA uma lista dos 120 melhores jogadores vivos onde entrava Nagaka mas não Nilton Santos ou Rivelino.
No papo que houve na caixa de comentários de ontem, meu amigo Afonso dizia algo muito interessante: ao contrário de Maradona, Garrincha, Reinaldo e outros ídolos, Pelé não possui uma faceta trágica, essencial aos heróis.
Eu concordo. Pelé foi o negão que ousou dar certo, administrar bem seu dinheiro, virar empresário, interferir na administração do futebol. O contraste com Garrincha não poderia ser mais agudo. Todos amam e se compadecem de Garrincha. É raro encontrar alguém que, mesmo reconhecendo Pelé como o maior da história do futebol, não tenha algo negativo para dizer sobre ele fora do campo.
Eu também tenho (aquela lista da FIFA foi foda!), mas prefiro sempre louvar Pelé. Não sei, talvez seja orgulho de expatriado. Algum de vocês viu o filme Pelé Eterno? Eu o assisti três vezes, e em todas elas saí com os olhos marejados, não tenho vergonha de dizer. Nestes 15 anos vivendo fora do Brasil, convivi, por exemplo, com muitos africanos. São unânimes: Pelé nos mostrou o caminho. Pelé nos demonstrou o que um negro pode fazer neste mundo. Pelé nos passou um exemplo de auto-estima. Pelé foi à Africa e parou uma guerra.
Na primeira vez que fui ao México, o oficial de imigração que examinava meu passaporte levantou o rosto, deu um sorriso e disse: Usted viene del país de Pelé. Bienvenido.
Essa é a importância política de Pelé, mais além de suas "opiniões" políticas, que interessam muito menos. Ser brasileiro depois de Pelé é outra coisa. Caetano resumiu lindamente: Pelé disse love, love, love.
Como lembrou o Paulo Zobarán aqui ontem, o Brasil dos anos 50 se arrastava no que Nélson Rodrigues chamou complexo de vira-lata, a sensação de que perderíamos sempre, de que qualquer minúsculo país cisplatino (com todo meu respeito ao Uruguai) poderia vir aqui e nos ganhar uma Copa do Mundo.
Alguém já parou para pensar que Pelé também é um motor da bossa nova, que só um Brasil já campeão do mundo teria moral suficiente para arrancar do coração do jazz o batuquê primordial dos tambores, preservado ali no violão sincopado de João Gilberto? Em 1958 enterramos o complexo de vira-lata na Suécia. Em 1958 sai o LP de Elizeth Cardoso que inaugura a bossa nova, Canção do Amor Demais.
Será que não se poderia fazer mais para preservar e transmitir a memória de Pelé? Será que não merecíamos uns especiais na televisão de vez em quando? Há centenas de gols e jogos gravados que as novas gerações ainda não viram. Será que o transformamos em mito para que ele viva no passado sem nos incomodar? Qual é a diferença entre um mito, um ídolo e um herói? Quando teremos o 1958 da nossa política?
Escrito por Idelber às 05:35 | link para este post
| Comentários (33)
#1
Olá Idelber,
Essa história não diz muito, mas eu a acho bonitinha. Meu avô morava em 3 corações. Ele contava que, um dia, viu passar um caminhãozinho com um conhecido da vizinhança, mulher e os filhinhos todos pendurados. -O que tá acontecendo, Dodinho? Pra que isso? - Pois é, Mathias, a vida anda difícil, vamos tentar a sorte em Bauru. Ele contava isso porque a impressa costumava se enganar dizendo que a família do Pelé havia se mudado para Santos, ou São Paulo, o que ele sabia que não era o certo. Meu avô sempre disse que Dodinho que era bom de bola de verdade, sempre falou que gênio mesmo era ele. Achava o Pelé mascarado, tinha uma enorme antipatia. Mas ele, como bom português do sul de minas era vascaíno, e viu seus filhos, desde cedo, escolherem como time preferido o Santos.
Beijos
Juliana em agosto 5, 2005 7:04 AM
#2
Idelba, você arrematou bem o post anterior com uma elegante resposta aos que tentam manchar a imaculada arte de Pelé com os erros do Edson.
Pelé aos 17 anos(!) fez do Brasil uma potencia futebolistica sustentando o fato por 20 anos até o final de sua carreira depois da Copa de 70. Muitos o ajudaram, é verdade, como Garrincha, outra divindade, na Copa de 62, mas o Rei foi o comandante supremo da maquina do Santos bi-mundial e mais tarde do tri-campeonato de 70.
Pelé inspirou toda uma nova geração de jogadores no mundo inteiro com sua imagem de cidadão bem sucedido mesmo após a aposentadoria. Quase nenhum jogador de sucesso pós-80 possui um lado que poderiamos classificar como tragico porque o binomio "futebol-business" é mais uma herança deixada pelo maior de todos os tempos. Pelé inventou o termo "astro do futebol". (Até Maradona, um viciado em drogas, se apoia nessa herança.)
Pelé tirou o futebol da varzea e o colocou nos maiores palcos do mundo. Todos os que hoje bebem dessa agua deveriam reverenciar o Rei por te-los tirado da grama barrenta e os colocado para andar sobre tapetes vermelhos que hoje são estendidos aos astros da bola. Porem "Rei do Futebol" somente um, ele, o incomparavel Pelé de mais de 1200 gols, 3 Copas do Mundo, 2 Mundiais de clubes, artilheiro e armador insuperavel, o unico inigualavel em todos os fundamentos do futebol: o passe, o drible, a cabeçada, a paradinha, a matada no peito, a bicicleta perfeita, cobrança de falta, velocidade assombrosa e o chute certeiro tanto de canhota como de direita.
Aos mais novos que nunca tiveram a oportunidade de se aprofundar na arte de Pelé escrevam em seus cadernos: nunca mais haverá outro jogador como Pelé.
Fábio S. em agosto 5, 2005 9:03 AM
#3
Pelé precisa morrer. Aí iremos dar a importância que ele merece.
Heróis não podem viver.
Darcio em agosto 5, 2005 9:58 AM
#4
O Pelé, em Três Corações, deve ter sido tratado na sua infância como todo garoto preto: lixo. Talvez daí uma certa reserva.
pecus em agosto 5, 2005 10:11 AM
#5
Idelber, não gosto de forma alguma do Pelé como ser humano. Como o jogador que foi, eu o idolatro, mas apenas isso. Mudando de assunto, você virá ao Rio, né? Em qual dia você quer se encontrar com os blogueiros cariocas? Para mim e acho que para a Viva também, o ideal seria na sexta-feira dia 19. Aceitarei de bom grado conhecer esse povo todo pessoalmente. O meu único senão (e eu não tenho vergonha de falar) é que, como casada, eu sou igual a Cinderela, posso sair sem o maridão, mas não posso abusar do horário, rsrsrs. Dê um retorno e não se esqueça de comparecer hoje lá no Nós Por Nós. Tem uma homenagem para você, rsrsrs. Beijocas
Yvonne em agosto 5, 2005 10:17 AM
#6
Pelé Eterno é um filme sensacional. Eu tenho um amigo que costumava dizer que Pelé só tinha jogado tudo que jogou porque na época o futebol era diferente, a marcação não era tão cerrada, etc. Ele saiu do cinema assumindo que estava errado, e que Pelé realmente fora o maior de todos.
E eu também me emocionei muito no filme. Principalmente nas cenas da despedida de Pelé, onde o Maracanã lotado gritou seu nome, e nas cenas da comemoração do povo brasileiro pela conquista da Copa de 58, pois ela significou muito para o povo brasileiro, especialmente após a final de 1950.
Pelé, indiscutívelmente foi o maior de todos. É reverenciado e idoltrado em todo o mundo. Sua contribuição para o futebol brasileiro e mundial é inegável. Mas também é inegável que alguns atos do Sr. Edson Arantes do Nascimento prejudicam a imagem de Pelé, principalmente no Brasil.
Como Garrincha já faleceu, ficou só o mito, sem o homem para manchá-lo. Talvez o mesmo aconteça um dia com Pelé. Desde que Edson não destrua o mito ainda em vida.
Ah, sobre o fato de Pelé querer cobrar cachê para aparecer em Três Corações: Tem um episódio do Simpsons onde Pelé aparece em um evento em Springfield. Tudo que ele faz, no desenho, é aparecer, pegar um saco de dinheiro, e ir embora em seguida.
Ricardo Antunes da Costa em agosto 5, 2005 11:51 AM
#7
Interessante a abordagem ligando Pelé e a Bossa Nova. Por essa ótica, podemos assumir que a fundação do Brasil moderno se deu com a vitória brasileira na Suécia, os gols de Pelé, os acordes de João Gilberto e na política os 50 anos em 5 de JK e a transferência da capital para Brasília. Ainda somos uma jovem nação moderna - menos de 50 anos - que teima em se prender a modelos arcaicos de acordos políticos. Vide caso mensalão.
Roberson em agosto 5, 2005 12:46 PM
#8
E tem aquela estória do cara que foi registrar seu filho com antecedência pra "adiantar o assunto". Ao chegar, disse ao escrivão:
- "Quero registrar meu filho qua vai nascer dentro de uns dias. Vai se chamar Édson."
- "Ora, meu senhor, o registro só pode ser feito depois que ele nascer. Volte daqui a uma semana, então.
Dias passados, retorna o senhor e diz:
- "Vim registrar meu filho. Vai se chamar Pelé."
- "Ué, não era Édson?"
- "Édson erantes do nascimento..."
É horrível, eu sei. Mas com tanto Édson x Pelé, não resisti.
Viva em agosto 5, 2005 12:55 PM
#9
Lembro de um gol que este cidadão fez contra o Inter no Beira-rio. Uma coisa desnecessária, uma demasia, entende? Já estava 2 a 1 para o Santos e ele poderia somente desviar a bola para o canto. Mas não, quis encobrir nosso goleiro um toque bem fraquinho. Para completar, ficou observando a bola até ela entrar, começando a vibrar antes da bola entrar, enquanto nossos zagueiros corriam como loucos. Para quê, pergunto eu?
Milton Ribeiro em agosto 5, 2005 1:01 PM
#10
... começando a vibrar antes que acontecesse o gol...
Melhor, né? É que me deu ódio e errei!
:=)))))
Milton Ribeiro em agosto 5, 2005 1:03 PM
#11
Idelber, assino cada linha mas discordo em relação aos elogios a "Pelé Eterno". Na minha opinião um filme chapabranca, sem nenhum viés crítico, e com cenas armadas mostrando Pelé em família de uma forma totalmente constrangedora. A se aguardar ainda o documentário definitivo sobre o Rei. Abraços.
Nelson Moraes em agosto 5, 2005 1:17 PM
#12
Uau!!! Que post Idelber! Vc se superou.
Ok, vamos lá: A parte trágica da vida do Rei foi seu início. Sua infância pobre em uma cidade do interior e o pior, o terrível preconceito que nós sabemos ele teve que enfrentar por ser negro. E isso é uma verdade e um fato.
Apesar disto o garoto superou com seus dribles e seu talento inigualável todos os desafios e obstáculos, todo o preconceito que nossa sociedade, infelizmente, ainda tem.
Imagine-se como o número um. E ele, apesar dos gênios que o acompanharam, era o número um. Seus gols e sua participação foram definitivas para aquela vitória. Enquanto alguns de seus amigos soltavam pipa na rua ele fazia gols em uma Europa encantada com aquele time. Imagine a pressão. O garoto agarrou o mundo com seu talento. Saiu do interior do interior do mundo e, de repente, estava diante do rei da Suécia recebendo a coroação por sua genialidade.
Depois disso, já homem, comandou a maior máquina futebolística que o mundo já viu. Aquele Santos, sim, foi o maior time da história. Ganhou absolutamente tudo o que disputou. Marcou gols inesquecíveis, foi protagonista de lances e tabelas geniais. Mostrou a um mundo preconceituoso que a genialidade não escolhia raça nem nacionalidade. Ainda conseguiu ser o líder de um escrete que tinha em seu plantel nada menos que Rivelino e Tostão.
Enfim, o homem consagrou-se como um Deus da bola. O maior jogador, o maior gênio do esporte mais conhecido, disputado e admirado do planeta. Qualquer peladeiro no interior da África ou da Groenlândia conhece o homem, reverencia Pelé.
Não sou fã de Pelé. Apenas reconheço o que o homem foi. Também assisti a Pelé Eterno e ele só me fez confirmar o que eu já sabia. O futebol sempre foi um esporte difícil, duro. Quem acha que naquela época o futebol era mais fácil tem que assitir esse filme. Lá Pelé aparece caçado, visado, levando patada. E, mesmo assim, como um bailarino, ele se desvencilhava dos adversários e, rápido como um raio, desferia chutes mortais em jogadas incríveis. O filme em si, não é tão bom. Mas ver Pelé fazendo aquilo com os adversários e ver a copa de 58 cobre qualquer defeito que o filme tenha.
Trágico é o comentário do Darcio de que Pelé precisa morrer para que o valorizemos. Isto é trágico. Mas talvez ele tenha razão. O senso-comum prega que heróis não devem viver muito. Permita-me uma ressalva.
Heróis, para mim, também são os que sobrevivem. A resistência às intempéries da vida, às vicissitudes mundanas e às idiossincrasias do dia-a-dia também constróem os heróis. Os que agüentam o peso da fama. O peso de ser mundialmente conhecido. De não poder tomar uma cerveja no bar da esquina. De não poder caminhar à toa por aí.
Louvemos o Pelé que chegou lá. O negro que contra todo o preconceito deixou as dificuldades para trás. O homem que foi o que foi dentro das quatro linhas. Não há problema algum em ser bem-sucedido. Devemos louvar também os bem-sucedidos. Os que conseguiram ascender sozinhos.
O mito do anti-herói é forte, eu sei. Talvez, na literatura e na arte, melhor são os que morrem. Na vida, talvez, não. Precisamos dos sobreviventes. Precisamos de exemplos de sobreviventes e vencedores. Pelé é um deles.
Gosto do Maradona, do Tim Maia, do Hendrix e do Charlie Parker, não porque eles cheiravam cocaína aos montes. Mas, pelo que fizeram com a bola e com a música, respectivamente. Louvo o Hemingway não porque ele deu um tiro na própria cabeça, mas pelos seus livros.
Louvemos Pelé pelo futebol somente, não pelas (muitas) bobagens que ele fez e falou depois de encerrada a carreira futebolística.
Sabe Idelber, acho engraçado como o mundo moderno (de uns quarenta ou cinquenta anos para cá) sente prazer em desconstruir mitos e ídolos. Vemos isso a toda hora. Não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ao contrário de antes quando se fazia o possível para construir e manter mitos, hoje adora-se construí-los para em seguida "descontruí-los".
Posso ter dito bobagem, mas é o que acho. Acho lindo ler histórias e biografias dos heróis que deram a vida por um ideal ou que se autodestruíram por não suportar determinado traço psicológico. Mas nesta vida real, também não esqueço dos sobreviventes, os que venceram.
"it's not better to burn out!! It's better try to shine."
Louvemos o gênio da Bola Pelé. Louvemos o ídolo Pelé. Ele, mais que qualquer um, brilhou. E muito.
Abraços.
Edk
Edk em agosto 5, 2005 2:30 PM
Edk em agosto 5, 2005 2:53 PM
#14
Idelber, eu não saia que Pelé era mineiro...
Tres corações próximo de São Thomé, não?
Bem, eu não gosto do edison Arantes, apesar de aorar os lnces do Pelé.
Ronzi em agosto 5, 2005 5:51 PM
#15
Acho que devia ter um museu para Pelé (ou para a história do futebol de maneira geral) em São Paulo ou Rio de Janeiro, onde normalmente há maior circulação de turistas. Se Três Corações tem mixed feelings sobre ele, melhor um lugar neutro e onde haverá mais interesse e fluxo de visitantes.
Eu ainda estou rindo da "bola roubada de tempos em tempos".
Leila em agosto 5, 2005 5:56 PM
#16
O DVD de "Pelé Eterno" vem com tarja preta. Só pode ser alugado mediante prescrição médica, devido ao grande potencial sonífero.
Alguns preferem Valium, por ser mais fraco.
Gravatai Merengue em agosto 5, 2005 6:00 PM
#17
Se for em direção ao sul pela Fernão Dias em direção a São Paulo, passará pelas portas da minha cidade natal. Sei de outras histórias do Pelé: que quando ficou famoso negava suas origens e família. Tinha vergonha dela e até a escondia. Passado um tempo da visita dele a cidade, um morador pintou a estátua de branco na calada da noite, que teve que ser restaurada.
Temos uma amiga blogueira na cidade de Três Corações...
Bom fim de semana! Beijus
Luma em agosto 5, 2005 7:11 PM
#18
Idelber, infelizmente a memória sobre o rude esporte bretão é muito pequena. Geralmente é restrita à publicações sobre a história dos clubes. A cinematografia também é muito pobre. Claro que falo isso em relação à importância que o ludopédio tem na vida dos brasileiros. Por falar em memória, quem sabe em qual livro é afirmado que o futebol teria chegado ao Brasil antes de Charles Muller ? Teria surgido em alguns colégios católicos paulistanos. A boa notícia é que ugo Giorgetti já iniciou a produção de Boleiros 2. Outra dica para quem gosta da faceta cultural do futebol é a série Histórias do esporte, da ESPN Brasil, que mostra o futebol em lugares como Tocantins, Amapá e outros rincões do país.
Afonso Andrade em agosto 5, 2005 9:55 PM
#19
Vocês realmente são foda. Sensacionais, esses comentários. Algumas observações:
1. É, parece que meus olhos de expatriado distorceram um pouco a percepção do filme Pelé Eterno. Almirante Nelson, Gravata e muitos outros amigos meus não gostam do filme. Eu o vi pela primeira vez um dia depois de chegar da América de Bush, logo depois da eleição de Bush. Acho que só a cara do Pelé na tela durante uma hora já teria me parecido emocionante. E eu gosto de ver gol. Aquele filme tem gol à beça. Mas vejo os problemas que o Almirante e o Gravata mencionam. Sem dúvida, o documentário definitivo ainda não foi feito.
2. Sobre as bolas que são roubadas lá da estátua: o engraçado, Leila, é que antes eles punham bolas de couro lá. Elas não duravam muito. Agora passaram a colocar bolas de capotão, que levam um pouco mais de tempo para serem roubadas...
3. O primeiro link que o Edk deixou é de um excelente artigo do Prof. Helal, da UERJ, sobre heróis no futebol, comparando Zico e Romário. Vale a pena.
4. Yvonne, sexta-feira dia 19 é o ideal para mim também. Armemos um encontro de blogueiros aí no Rio.
5. Coisas interessantes que aprendi no museu, e que eu não sabia:
a. o famoso 11 x 0 sobre o Botafogo-SP, no qual Pelé marcou 8 gols, foi produto de uma raiva especial do Rei. No jogo anterior, em Ribeirão Preto, o Botafogo havia vencido por 2 x 0 e alguém cuspiu na sua cara. Ele prometeu vingança. No jogo seguinte foi lá e marcou 8 gols.
b. Em 1972, Pelé e a equipe do Santos foram impiedosamente vaiados na Vila Belmiro durante uma vitória magra sobre o XV de Piracicaba. Inconformado, o Rei levantou a bola e disparou um bicudaço na direção das sociais do estádio. Não tinha sangue de barata, como todos sabem.
Vou deixar o blog sem post hoje à noite. Podemos bater bola sobre futebol e Pelé mais um dia, antes de que este post siga a rotina do esquecimento...
Idelber em agosto 5, 2005 10:31 PM
#20
Idelber. Foi a coisa mais bem escrita que já li sobre Pelé. Nossa!!
Aqui no Amapá amanhã realizamos o Encontro de Blogueiros do Meio do Mundo. Acompanhe.
Alcilene em agosto 6, 2005 12:37 AM
#21
Caro Idelber e amigos.
Obrigado por me citar.
Quando o Santos conseguiu o bi-campeonato Interclubes, confirmando que o futebol brasileiro chegava ao primeiro degrau do pódio do FUTEBOL MUNDIAL após a conquista do Chile, foi a imprensa mundial (européia) que mitificou Pelé. E vamos nos lembrar que em Valparaiso e Santiago ele foi quase sempre um espectador (e a imprensa brasileira sempre lembrava isso).
Naquele ano de 1963 ainda eram vivos, salvo engano, todos os MAIORES craques do futebol profissional brasileiro (iniciado em torno de 1932) e mesmo Friedreich (da fase anterior - ele veio ao Rio, creio que em 1962, para inaugurar uma escola com seu nome)creio ainda era vivo. Mas havia história de outros jogadores, não talvez do primeiríssimo time (mas muito queridos da torcida), e que tinham tido fim trágico.
Os casos dramáticos que eu ouvia na infância, do final de vida/carreira, por exemplo, dos goleiros (que coincidência!) Veludo e Jaguaré e se não me engano de Isaías, davam uma face trágica a carreira de jogador de futebol. E faziam a tristeza do torcedor. Afinal como aceitar que os nossos ídolos do futebol tivessem um final de vida desta forma!
AGORA FINALMENTE TEMOS ÍDOLOS MILIONÁRIOS. Talvez alguns deles nem mereçam ter tanto dinheiro assim, mas pelo menos de um tempo para cá, NÓS TORCEDORES passamos a ler obituários de jogadores que tem uma vida (potencialmente) mais digna em seus últimos anos de vida. E não mais aquele tipo de historinha surgimento/feitos magistrais/glória/fim na sargeta!
PZ
P.S. – Quanto a dúvida da importância de PELÉ na era pós-PELÉ: por que Romário escolheu a camisa 11 e Ronaldinho a 9?????????????????
Paulo Zobaran em agosto 6, 2005 12:37 AM
#22
idelber, to chegando atrasado e não resisto em dar minha opinião "abalizada": tá faltando em seu ótimo post uma análise marxista-leninista (peguei pesado, hehe) sobre a contribuição de pelé para o fim do complexo de vira-latas, a emergência do orgulho de ser brasileiro, o sucesso da bossa nova etc. agora, quanto à probablidade ou improbabilidade de termos uma "revolução de 1958" em nossa política,o marximo-leninismo é totalmente dispensável. o pt torna torna uma merda qualquer teoria da transformação da sociedade.
desisti do pelé na noite em que ele dedicou seu milésimo gol às crianças do brasil, infelicitando o andrada e os meus estapafúrdios neurônios. (se ele o dedicasse à carmen miranda, por exemplo, poderia inaugurar uma moda que permitiria ao maradona, anos depois, homenagear o gardel). pelé tem uma mitologia que lhe é tão essencial qto a que envolveu lula nos últimos 25 anos. apesar de ambos falarem besteiras incomensuráveis.
joão em agosto 6, 2005 2:10 AM
#23
A coisa mais execrável que Pelé fez na vida foi cantar, gravar disco. Aí né mole não.
*como diz a galerinha antenada, "ninguém merece"!!!*
Bear em agosto 6, 2005 4:45 AM
#24
Já que falamos de jogadores com dimensões trágicas, deixo mais uma contribuição-zinha com um rápido comentário sobre minhas figuras trágicas favoritas.
1. Barbosa: segundo todas as testemunhas, o maior goleiro de sua época, um goleiraço, peça chave do maior esquadrão da história do Vasco. Crucificado por uma derrota (a de 1950) que não foi só dele, por causa de uma bola na qual ele caiu certo, mas que por decisão do destino pegou "errado" no pé de Ghiggia e o enganou. Ele é o autor da famosa frase: "A pena máxima no Brasil é 30 anos, e eu estou há 50 pagando por um crime que não cometi".
2. Reinaldo: O maior centroavante que eu vi jogar, mais genial e talentoso que Romário. Implacavelmente caçado em campo, em carnificinas que, se ocorressem fora das quatro linhas, levariam os perpetradores à cadeia. Até hoje é o maior artilheiro da história do Galo, detentor de vários títulos estaduais, mas nunca conseguiu o título nacional, nem o sucesso que mereceria ter numa Copa do Mundo. O envolvimento com drogas depois só acrescentou tragicidade à coisa. Há uma diferença abismal entre o que realizou e o que poderia ter realizado. E o que realizou já foi bem considerável.
Barbosa sofreu punição extra por ser negro, e Reinaldo por ser socialista, independente e por ter desafiado a CBF.
Acho que são figuras tão trágicas como Garrincha.
Idelber em agosto 6, 2005 4:50 AM
#25
Ei, Oh..Oh.., Peralá. Meu caro Idelber que coisa é essa de, para argumentar favoravelmente para Reinaldo, precisar dar chapuletada em Romário. Não vai por ai não. Dessa forma você vai acabar levando o troféu Eduardo Azeredo de habilidade política. Ou então o troféu Roberto Brant de explicação mal dada. E para andar no Rio, vai ter que tomar as "pílulas de sumiço" do Dr. Virgílio Guimarães.
Depois que o pensamento NEO-LIBERAL tomou conta do nosso país, a avaliação dos jogadores de futebol é quantitativa! Não fui eu que inventei isso!!! E diga-se, as novíssimas gerações adoram:
- Quantas vezes este tal de Didi foi Campeão do Mundo?
- Um cara chamado Nilton Santos foi campeão brasileiro em que ano?
- Em que Copas (no plural) o Ademir da Guia jogou?
O único craque [pós 58/62] que vejo conseguir contornar o fato de não ter ganho Copa é Zico. Um pouco por causa do título no Japão!
Romário é graaande. E atende aos parâmetros neo-liberais de avaliação! Repare, Dadá foi campeão do Mundo. Para um garoto em Açailândia, Dadá está nos registros, Reinaldo não. Pt final.
Reinaldo parecia (como jogador de futebol) ir de encontro a tragédia. Os zagueiros caçavam ele em campo e, não satisfeitos, médicos e preparadores físicos caçavam o coitado do Reinaldo cá fora. Ele, assim como Romário, era o tipo de jogador que devia treinar quase nada! Foi uma pena.
Sobre ser caçado dentro de campo, ver o filme oficial da Copa de 1966. O time dos nossos "irmãozinhos" portugueses bateu em Pelé sem dó nem piedade. Você acaba de ver o filme e quer "cassar" os títulos internacionais do Benfica, e é capaz de achar que a PIDE e Salazar estavam por trás daquela "caçada" a Pelé.
Cada macaco no seu galho. Tem o galho do Romário. Tem o galho do Reinaldo. Lá em casa, o Reinaldo foi colocado num galho só dele, após um jogo Brasil e Polônia. Não saiu mais.
P.S. - Os três citados lá em cima estão muito gordos prá ficar no galho. Será o peso do mensalão?
Anonymous em agosto 6, 2005 8:27 AM
#26
Idelber, sobre o Barbosa eu recomendo o livro "Barbosa: um Gol Faz Cinquenta Anos", de Roberto Muylaert.
O livro conta várias histórias sobre a fatídica final de 1950, seus desdobramentos, como o episódio onde Barbosa fez um churrasco usando as antigas traves de madeira do Maracanã como lenha,
Tem um capítulo em primeira pessoa, onde Barbosa faz um grande desabafo sobre o episódio. Muito bom.
Ricardo Antunes da Costa em agosto 6, 2005 11:04 AM
#27
hahahah, Anonymous, está muito bom esse comentário! OK, puxão de orelhas devidamente aceito. E sobre os médicos, você tem razão, inclusive há a responsabilidade de um certo médico da seleção brasileira e do Botafogo, sobre a qual é melhor eu me calar....
Agora, uma correção: Reinaldo treinava muito. Muito mesmo. Nunca enrolou nos treinamentos.
E eu amo Romário. Adoro. Justamente por isso uso-o como termo de comparação. Deus me livre de ter que tomar pilula de sumiço para andar no Rio.
E esse certo jogo entre Brasil e Polônia foi sensacional, né? Também há um gol num certo jogo contra a Bolívia, que foi de antologia...
Ricardo, esse livro é muito bom mesmo. Está aqui na minha prateleira. Endosso sua recomendação. Abraços,
Idelber em agosto 6, 2005 2:42 PM
Edk em agosto 6, 2005 8:57 PM
Anonimo em agosto 6, 2005 9:39 PM
#30
Idelber, morreu um pouco da música cubana.
Ibrahim Ferrer.
Estamos de luto.
Abraços, Marcos.
marcos em agosto 7, 2005 12:08 AM
#31
Acabei de ler a notícia do falecimento do Ferrer. Que tristeza!! Melancolia será a nova deixa da excelente música que homem legou a seus pares em um bolero básico.
Luto. Luto pelo Social Club e o Ferrer que se juntou a Compay Segundo e González.
Um minuto de silêncio...
Edk em agosto 7, 2005 3:06 PM
#32
Percebeu que tantas vezes este assunto venha ser publicado tantas vezes despertará todas as paixões?
Assim, alguns amam ou odeiam, confudem personagem com o real...
Dadá foi fantisa, circo, alegria; Reynaldo foi rei, Zico Magistral, Romário sem dúvida nenhuma um redentor, Garrincha o amor a arte, o amor a bola...Maradona um Deus, destes do Olimpo que resolveram brincar de jogar bola...Pelé...Pelé foi o Zeus...depois de todos estes anos, seu gol da Copa de 58, aquele de chapéu ainda é algo que me arranca o folêgo...
Enfim...futebol caro amigo, e este desperta paixões
Tânia em agosto 7, 2005 6:40 PM
#33
Resumindo:
O Brasil não merece o Pelé
Cláudio em agosto 9, 2005 11:58 PM