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segunda-feira, 19 de setembro 2005
O trabalho do luto

(mulheres em luto na Palestina. Foto: AP).
Parece que entre os aztecas, a morte era vista como um pequeno acidente de percurso numa ordem cósmica e, ao contrário das civilizações ocidentais, a forma da morte, não o feito durante a vida, determinava o rumo do morto.
No politeísmo yoruba, base do nosso candomblé, os rituais fúnebres são festivais: danças onde os egunguns se comunicam com os vivos.
Sobre esses outros modos de lidar com a morte, sei pouco. Mas, preparando-me para escrever um livro sobre o luto, andei durante uns anos lendo bastante sobre a história de como a filosofia ocidental tem entendido a morte.
Ao imaginar sua República ideal, Platão insistentemente pede aos poetas que não retratem Aquiles, o filho de uma deusa, "de costas ou de lado . . . ou agarrando com ambas as mãos a negra areia . . . ou chorando ou lamentando-se" (388b). Ao longo da obra, é nítido o receio de Platão ante uma possível explosão de choro das mulheres, que poderia, segundo o filósofo, minar os fundamentos da estabilidade da pólis.
Ao longo da filosofia helênica, o luto é pensado sobretudo como coisa de mulheres, ao qual se associa um potencial subversivo e perigoso.
Por que Platão exila o poeta da República? Há a resposta consagrada pelos manuais escolares, e que não é incorreta: o poeta é exilado porque é copiador de uma cópia. Tal como o pintor, que copia a cadeira de madeira que já é uma réplica da "cadeira ideal" do mundo das formas, o poeta é uma espécie de opaco carbono, duplamente removido da verdade.
Mas isso acontece no Livro X da República. Já no Livro III o poeta havia sido banido, por outro motivo: a poesia torna os jovens mais "sensíveis e brandos do que os queremos" (387b).
O poeta é expulso da República por ser uma espécie de porta-voz do luto barulhento das mulheres que, teme Platão, um dia acabará derrubando a pólis.
Na "longa noite do cristianismo" Friedrich Nietzsche observa uma degradação da morte: privatizada, empurrada para dentro de cubículos, alcovas e hospitais, a morte já não traz nada de heróico, altivo. Humanos, convertidos em vermes sem nenhum orgulho, arrastam-se, humilhados, pelo direito de vegetar na cama mais umas semanas ou meses. Nada mais longe, segundo Nietzsche, do orgulhoso guerreiro pagão que escolhe a hora da morte e vai à montanha abraçá-la.
O texto sobre o luto mais influente do século XX é, sem dúvida, o "Luto e Melancolia", de Freud, escrito durante a primeira guerra mundial. É lá que Freud arma a teoria: o luto é o processo pelo qual o ego retira seu investimento libidinal do objeto perdido (o morto) e paulatinamente transfere-o a um objeto substituto. A conclusão desse processo seria a "resolução saudável" do trabalho do luto.
Quando essa resolução não acontece, e o enlutado permanece fixado no objeto perdido, incapaz de sublimá-lo num substituto, o luto se arrasta, não-resolvido, e o sujeito desemboca na melancolia: desinteresse pelo mundo externo, auto-centramento, paralisia, repetições compulsivas.
Para Freud, então, o luto seria "normal" e a melancolia seria "patológica" - uma patologia que advém, precisamente, da impossibilidade de fazer o luto.
Acontece que, ao longo do século XX, feministas, psicanalistas, pensadores vários mostraram que talvez a separação entre o normal e o patológico não seja tão firme como queria Freud. Talvez em todo processo de luto haja um momento irredutível de melancolia. Talvez todo processo de luto inclua um momento em que o enlutado nem sequer aceita a possibilidade de que o luto seja realizado, de que o objeto perdido seja "esquecido" ou sublimado. Talvez todo trabalho do luto inclua um momento em que o enlutado percebe a possível resolução do luto como uma traição ao morto.
Depois do Holocausto - a morte transformada em política genocida, estatal de aniquilação - o filósofo Theodor Adorno afirmaria que aquilo jamais poderia ser devidamente processado pelo trabalho do luto. A enormidade daquilo demandaria para sempre um luto suspenso, irrealizado.
Segundo o pensador italiano Giorgio Agamben (que chega este mês ao Brasil, mais detalhes aqui em breve), a forma da morte nas nossas sociedades é marcada pela produção incessante do homo sacer, o homem que vive no limite do vivível, aquele cuja vida é permanentemente dispensável, esteja ele em Bagdá, Guantánamo ou no Ninth Ward de New Orleans.
Com a teocracia fundamentalista bélica que hoje governa o país mais poderoso do mundo, o desprezo pela morte alheia teria chegado ao seu ápice.
PS: Por falar em trabalho do luto, amanhã comento os primeiros números da eleição do PT. Prometo.
PS 2: Muito obrigado aos que passaram e insistiram durante este interregno. Thanks indeed.
PS 3: Em breve, mais uma postagem coletiva do Nós na Rede. Aguardem.
PS 4: Obrigado à Márcia Rodrigues, do Jornal A Notícia, de Boston, pela entrevista comigo.
PS 5: Será que na quarta-feira estaremos comemorando a renúncia de Severino? Noblat garante que sim.
Escrito por Idelber às 01:32 | link para este post
| Comentários (23)
#1
Idelber que bom esse post :-) Vou tentar achar o seu livro por aqui. Eu nao conhecia esse site da Nigéria. No Benim, eu só vi dois egunguns de passagem, rápido, eles costumam sair a partir de agora, quando começa a estação seca. Eu me interessei pelas representações do luto na pintura e nas ilustrações dos livros de viagem. Acho que as mais antigas são as Jean De Lery. Os Amerindios colocavam seus mortos em redes e as índias choravam durante vários dias. Enfim adorei. Beijos.
Ana Lucia em setembro 19, 2005 9:58 AM
#2
Interessante vc falar sobre morte hoje, Idelber. Coincidentemente, hoje é dia de celebrar os antepassados na Coréia do Sul. Embora um país muito cristão, a idéia da morte é permeada da filosofia confucionista ainda. Um verdadeiro mix de culturas... Bjs.
Lucia Malla em setembro 19, 2005 12:14 PM
#3
Oi, Ana, obrigado pelo interesse no livro. Aí no Benim talvez seja mais fácil achar a edição em inglês. Beijos,
Lu, eu sempre me interessei por como as sociedades orientais trabalham a morte. É um tema para estudar futuramente.... E parabéns pelo seu Flu que anda muito bem. Beijos,
Idelber em setembro 19, 2005 1:26 PM
#4
Que lugar incrível!
Adorei ler tudo!
Parabéns!
Analice em setembro 19, 2005 1:57 PM
#5
Acho que o Severino renuncia mesmo.
Sobre o post coletivo, que tal sobre o desarmamento. É algo bastante polêmico e que daria muito "pano pra manga".Eu mesmo estou preparando um. Acharia bastante interessante divisar opiniões e entender a quantas anda as opiniões sobre o assunto. O que vc acha?
Estamos de luto pelo atual estado das coisas no mundo. Luto pela "era do terror". Luto prolongado pela condição de quanto mais acesso temos a tecnologias de informação, mais o mundo entra em decadência. Melancolia. I think I'm blue today.
A big hug!
Edk em setembro 19, 2005 6:40 PM
#6
Oi, meu anjo...
Não gosto muito de discutir cranças, doutrinas ou religiões. Seja agnóstico, ateu ou ter fé em algo, respeitando os limites de cada um, tudo é válido desde que não nos seja imposto.
Mas precisando de ajuda, na parte de doutrina espírita, estou aqui para ajudar no que puder.
Beijos grandes.
Ahhh.. antes que me esqueça:
SEJA BEM VINDO!!!
Sandra em setembro 19, 2005 7:09 PM
#7
Edk, a postagem será sobre outra coisa (surpresa!), mas o desarmamento também é um excelente tema. Vou propô-lo lá na lista. Abraço!
Sandra, que simpático de sua parte! Muito obrigado :)
Obrigado, Analice :)
Idelber em setembro 19, 2005 10:03 PM
#8
morte mesmo era entre os tupis
tupis que faziam da morte (alheia) uma festa
festa que era banquete
banquete que era reconhecimento
reconhecimento pelo valor
valor pela vida
vida que tem marcas
marcas de nascimento passagem morte
morte mesmo era entre os tupis
tupis que sabiam chorar seus mortos
@ em setembro 19, 2005 10:53 PM
#9
Que trabalho difícil e doloroso, meu amigo. Enquanto lia, lembrava-me da cena de O Sétimo Selo em que Gunnar Björnstrand pergunta à bruxa que começa a queimar na fogueira: "o que você vê, o vazio, não?" ou algo assim. Angústia.
Imagino o que New Orleans não terá te influenciado na escolha deste tema. Será que esta cidade é tão estranha ao resto dos EUA que acabou vítima do "desprezo pela morte alheia"?
No aguardo de boas notícias de Severino, assim como as que tivemos do Jéferson e do Maluf, me despeço.
Milton Ribeiro em setembro 19, 2005 11:47 PM
#10
Ja procurei o livro e pedi para a biblioteca comprar o Alegoria e o The Letter of violence em inglês (tô em Québec). Você viu o documentario Memoria do Saqueio do Fernando Solanas que ta passando no Brasil ? Que o luto passe logo, mas que os posts continuem vindo de dentro. Beijao.
Ana Lucia em setembro 20, 2005 12:58 AM
#11
I was able to get into New Orleans on Saturday and I found that my home hadn't flooded nor received damage of any kind. I went into Cindy Seley's house and she has suffered a near total loss with only things up high being spared the vile filth that floated in. I took some photos of the Audubon Blvd./Walmsley/Claiborne/Carrollton areas if you're interested:
"> http://www.spanishlanguagehelp.com/mac/katrina
That will pop up with a long list of photos you can click on. The first half are of New Orleans, the second half were taken from my car and show the wind devastation on I-59 in Mississippi.
Mac Williams em setembro 20, 2005 4:34 AM
#12
Amigo anônimo: viva os Tupis e viva a deglutição do bispo Sardinha! Obrigado pelo belo poema :)
Idelber em setembro 20, 2005 5:02 AM
#13
Mílton, o "Sétimo Selo" é dos filmes que mais tenho tido presentes nesses últimos tempos... E sim, o post foi inspirado por New Orleans.
Grande abraço, e parabéns ao Colorado pela liderança!
Idelber em setembro 20, 2005 5:03 AM
#14
Ana, obrigado por encomendar os livros. Pelos meus cálculos, serão mais 4 dólares no meu mensalinho. . . E não, ainda não vi o filme do Solanas, está na lista :) Beijos,
Idelber em setembro 20, 2005 5:04 AM
#15
Glad to know your home was spared, Mac. Chris went over there this week as well (more details on the department's blog) and it seems that his house too was spared.
Little by little we gather a few pieces of good news here and there. . .
Idelber em setembro 20, 2005 5:06 AM
#16
Não sei nada sobre a teoria do luto. Só sobre a prática. E, sim, já me ocorreu encarar a superação do luto como uma traição.
Viva em setembro 20, 2005 1:07 PM
#17
Então você já sabe tudo sobre a teoria do luto, meu bem :) Abração fraterno, Viva.
Idelber em setembro 20, 2005 1:13 PM
#18
Idelber, Li seu post exatamente depois de ler o capítulo do seu livro sobre o trabalho de luto. Fiquei tocada pelo trecho "homo sacer, o homem que vive no limite do vivível, aquele cuja vida é permanentemente dispensável, esteja ele em Bagdá, Guantánamo ou no Ninth Ward de New Orleans." É isto! O limite do visível! Lembrei de um livro "O horror econômico" (não consegui achar, minha biblioteca está uma bagunça!) que dá exatamente a noção do que é estar neste espaço, não pela descrição de barbáries, mas por documentos do FMI e banco mundial. Obrigada pela força!
Maria Andréia em setembro 20, 2005 11:52 PM
#19
Ah, isso aí do luto...
Não vou citar nada nem ninguém, já que sou uma normalmente "desreferenciada". Li um Nietzsche (só um, fora uns trechos em que ele arrepia os nervos de qualquer feminista), um ou outro Freud na minha tentativa de ser psicóloga (achei o curso picareta), e só.
Mas eu vejo e penso. Vejo que, apesar de tudo, somos parecidos com os índios que, sem entender o que é um relâmpago e seu conseqüente trovão, atribuíam aquilo ali a alguma divindade. Era o jeito que eles achavam para "explicar" as coisas, para dar nome aos bois e para, conseqüentemente, conviver mais tranqüilamente com esse fato sempre (ou ainda, pra fingir que sou otimista) assustador.
Afinal, mesmo que falte a cachaça, o cigarro ou o carinho, sem uma historinha que explique essas coisas que não se explicam, ninguém segura o rojão.
E aí surgem as formas de lidar com o "Fulano acabou e não volta mais". Acho que algumas são mais eficientes, e imagino (sim, só imagino, pois não sei nada de coisa nenhuma) que alguns orientais lidem melhor com isso do que nós, os tais "do Ocidente".
Sim, alguns lutos são mais ou menos resolvidos, outros não são e eu acho que o que se pode chamar de patológico é aquela dor que nunca acaba, que afeta a vida que vem depois do acontecimento tétrico.
A coisa vale sobretudo para a morte, mas também para o fim de um casamento, para a perda daquele emprego incrivelmente maravilhoso e mesmo para a perda daquele "deslumbrante anel de diamantes que ele me deu".
Com a morte a coisa é mais complicada, pois tem a ver com isso de vermos o relâmpago e o conseqüente trovão sem entender o que está acontecendo.
E, bom, talvez um dia a Ciência dê conta disso tudo mas, como sou pessimista, acho bem difícil. Então, o que (me) resta é o tal vire-se quem puder e como puder.
Haja historinha pra lidar com isso, né não? De qualquer forma, acho bonitas essas ficções que alguns tomam como certezas para lidar com essas incertezas da vida.
Mônica em setembro 23, 2005 3:56 AM
#20
Pra finalizar, um Bandeira muito lindo, entre outros que têm a ver com o tema:
Momento num Café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Mônica em setembro 23, 2005 4:00 AM
#21
O itálico lá no Manuel Bandeira deu errado, mas deu pra entender, né? ;)
Mônica em setembro 23, 2005 4:01 AM
#22
Não gostei dessas teorias que você coloca não Idelber. Ficou estranho. Sei lá, mas você que é o doutor aqui. :)
Carol Ribeiro em setembro 23, 2005 8:25 PM
#23
Mônica, obrigado pelo comentário e pelo poema tão pertinente ao tema :)
Carol, claro que não gostar é permitido :) Obrigado pela visita!
Idelber em setembro 23, 2005 10:26 PM