« Fotos do Supersunday 2005 em New Orleans / Notícias dos Músicos Refugiados ::
Pag. Principal
:: Os posts que eu ia fazer »
segunda-feira, 12 de setembro 2005
Sobre New Orleans (post do dia 18 de janeiro, republicado)
[Neste domingo o caderno Mais! da Folha de São Paulo publicou texto de Gerald Thomas no qual, entre outras barbaridades, afirma-se que "Nova Orleans fala um inglês que muitos norte-americanos (mesmo os sulistas) têm dificuldade de entender" e, heresia das heresias, que "a cultura 'cajun' (crioula-francesa) é algo obscura para a maioria dos norte-americanos". O fato de que o maior jornal brasileiro publique um texto que comete o erro mais grosseiro que se pode cometer sobre New Orleans, ou seja, confundir cajun com créole, me animou a republicar este post, originalmente publicado no dia 18 de janeiro. Republico-o sem tirar nem pôr]

Rafael Galvão levantou a bola para um primeiro post de volta aqui em New Orleans. Rafael mencionava interesse na questão da religiosidade afro-americana, na qual só vou tocar de raspão. Depois pode se aprofundar mais. New Orleans é completamente incompreensível para o paradigma branco-e-pretista com o qual trabalha o resto dos EUA. Muito multicultural, negra, francesa, caribenha, mulata, hispânica, católica e bruxa para caber dentro dele.
Trata-se de uma cidade negra. Eu diria, a única grande cidade negra dos EUA. Sei que a população de Washington, DC é quase 80% negra, mas lá trata-se de uma cidade dominada pela cultura branca. Aqui não. Os brancos que estamos em New Orleans estamos aqui para seguir a cultura negra e vivê-la. Os que não curtiam já foram embora para os subúrbios nos anos 60, no processo conhecido como white flight. Há dois grupos étnico-raciais que só existem aqui:
1. os cajun, descendentes dos colonos de Acádia, hoje Nova Escócia, Canadá, que chegaram no século XVII. São católicos, brancos e se estabeleceram no interior da Louisiana antes de chegar a New Orleans. Sofreram violenta repressão por serem católicos.
2. os creole, que são os francófonos (brancos e negros) que começaram a chegar no século XVIII. Já no século XIX, a população creole é quase toda de ‘free people of color’, ou seja negros não escravos. Parte dessa população é inclusive dona de escravos durante o XIX.
Estas duas culturas não se confundem: o zydeco, por exemplo, que é primo do forró, é uma dança creole, não cajun (o correspondente cajun é uma música à base de cordas, com rabecas e banjos, e mais parecida ao bluegrass).
A primeira vez que o pau comeu foi franceses e índios Natchez, de 1680 e poucos até 1731. Ali a população era umas sete mil almas mandando açúcar e rum para a França e madeira, tijolos e carne para as Índias. Na cessão de New Orleans para os espanhóis em 1760, pesou na decisão dos franceses o fato de que a cidade parecia destinada a morrer: atacada por índios, três metros abaixo do nível do mar, cercada por um lago imenso e um rio caudaloso, sem saída. Até 1803 New Orleans foi espanhola, pero no mucho. Nos anos 1780 os New Orleanianos (um pouco como uns Tiradentes) botaram o regente espanhol para correr. Para onde? Para Havana, cidade que foi o grande diálogo comercial de New Orleans durante todo o século XIX até os anos 1950. Os gringos adquirem New Orleans à preço de banana, mas em compensação levam um montão de outros territórios que depois ganhariam a eleição para George Bush.
A partir daí começa a história segregacionista.
A história segregacionista começa com dificuldades: New Orleans estava cheia de negros livres e cheia também de negros donos de escravos (parte dos ‘creole’). Por volta de 1880, quando se promulgam as leis de segregação, proíbe-se aos negros viver do lado uptown de Canal Street e acontece algo interessante: os ‘creole’ tornam-se negros. Jamais haviam pensado em si enquanto tais, mas viram-se vitimados e pouco a pouco toda a população negra vai se consolidando como anglófona. Hoje o francês não sobrevive como língua nativa de quase ninguém aqui e poucos são os falantes de ‘cajun’ no interior.
A herança católica é forte, mas trata-se sobretudo de uma cidade que é herética e politeísta, crente e supersticiosa, litúrgica e pagã. Até hoje, não há nenhuma garantia de que ela não será inundada da noite para o dia (e todo ano a gente passa um susto), o que talvez explique a postura de festejo enlouquecido permanente, como se o mundo fosse sempre acabar amanhã.
New Orleans se parece tremendamente com Salvador. O New-orleaniano compartilha com o baiano aquilo que eu chamaria de excepcionalismo sem arrogância. Sistematicamente faz propaganda do caráter único da sua terra sem nunca falar mal de ninguém.
O Rafael tem razão em supor que a experiência religiosa aqui é singular. O vudú, que chega cedo (com os haitianos pós-revolução, lá pros idos de 1810), se combina com mil outras narrativas, inclusive católicas e angolanas. Há aqui uma inclusividade radical que é de difícil compreensão para o estadunidense ‘típico’. As pessoas não são uma coisa ou outra, são uma coisa e outra.
Também na questão racial a experiência aqui tem algo de único: ao contrário de qualquer outra cidade estadunidense, o imigrante branco não experimenta em New Orleans a tensão racial normal, que é de se esperar, vinda do afro-americano, que percebe aquele imigrante como possível competição.
O negro new-orleaniano fala com a tranqüilidade de quem está hospedando. O que não quer dizer que a população negra não seja explorada pela indústria do turismo e da música, ainda majoritamente controlada por brancos.
Mas sim quer dizer que cultural e simbolicamente o povo negro está em inequívoco controle da cidade, expresso em mil festas: além do carnaval, tomadas rituais das ruas e secondlines (desfiles em que a gente sai dançando atrás de uma banda de metais pela cidade).
É a única cidade do mundo onde um policial vai te chamar de babe enquanto conversa com você. Também a única, que eu saiba, onde a morte é motivo para festa urbana: uma outra tradição de desfiles musicais pelas ruas, o jazz funeral.
Por falar nisto, neste dia 20, na posse de Bush, New Orleans se mobilizará para um Jazz Funeral for Democracy.
(publicado originalmente no dia 18 de janeiro de 2005)
Escrito por Idelber às 08:35 | link para este post
| Comentários (23)
#1
Idelber,
com posts como este desde que visitei o Biscoito pela primeira vez fui conhecendo mais sobre essa cultura tão bonita e única e tão diferente do restante dos EUA. Tomara que a reconstrução, dolorida para todos, preserve e recupere também tanta alegria. Abraço.
PatriciaSK em setembro 12, 2005 11:51 AM
#2
O Gerald Thomas está precisando aparecer mais uma vez na mídia...
Gustavo Uriartt em setembro 12, 2005 11:58 AM
#3
O "genial" Gerald Thomas genialmente confundiu mais uma vez o cérebro com a bunda. Quis genialmente mostrar um e exibiu o outro.
Ou será o contrário?
Edk em setembro 12, 2005 12:57 PM
#4
Oi, Idelber
Sempre considerei o Gerald Thomas, um idiota endeusado pela mídia, sobretudo carioca, arrogante e metido a besta.
Gosta de se fazer erudito, as vezes acerta em suas peças teatrais, mas os erros e a prepotência estupifidicada, muito natural nele, conseguem sobrepor-se e coloca-lo no lugar que lhe é devido: É UM VERDADEIRO BOSTA!
Quanto ao seu texto, super esclarecedor, tem, até, tons de premonição. Infelizmente, a inundação veio.
Abração
fernando cals
fernando cals em setembro 12, 2005 1:11 PM
#5
Idelber, muito esclarecedor seu texto. Gostei da analogia que você fez entre Nova Orleans e Salvador.
Quanto ao texto do Gerald Thomas, ainda não li e não posso comentar, mas como você assinala, ele parece ter cometido um grande equívoco.
Elyene em setembro 12, 2005 1:16 PM
#6
Muito triste a morte do Clarence. Assisti a um show inesquecivel dele no Free Jazz (há muitos anos atrás), aqui em São Paulo.
wilson em setembro 12, 2005 4:51 PM
#7
Mestre Idelber, é nisso que dá ler o Gerald Thomas. Bem feito. Mas acho que é uma das raras vezes em que algo escrito pelo sujeito serve para informar e ampliar a cultura de alguém. Alguém que tenha esquecido o que leu na Folha e tenha lido lido o seu belo post aqui, bem entendido.
(-;
S Leo em setembro 12, 2005 5:24 PM
#8
Não tinha lido esse texto antes, bastante esclarededor. Muito boa a comparação com Salvador.
Viva em setembro 12, 2005 6:08 PM
#9
Caro Idelber, falo na condição de 'ainda mais' anônimo dessa vez simplesmente por razões profissionais: o texto de Gerald Thomas é ruim, muito ruim. (O...)
anônimo em dobro em setembro 12, 2005 6:24 PM
#10
Caro Idelber não é necessário conferir o texto do articulista que você se referiu, e que a Folha publicou. Creio na sua opinião no escuro!
Como mostra o seu relato, o povo da cidade de N.Orleans (e arredores) deve ficar atento é com forças contrárias que lhe estão próximas.
É incrível, o poder que esta tragédia fez (em virtude da difusão de imagens e de opiniões) pela desmistificação de uma América gerida por retrógrados belicosos!!!
Paulo Zobaran em setembro 12, 2005 7:08 PM
#11
Idelber, nao querendo ser pentelha mas ja sendo :-) Eu sempre confundo cajun e acadien, até porque aqui a gente ainda chama o pessoal que mora no New Brunswick e na New Scotland de "acadien". Nao sei se estou dando bola fora, mas os cajuns de quem você fala que foram se instalar em NOLA, seriam os acadiens expulsos do atual Canada (N.B e N.S) no século XVIII (1755) e nao XVII. Essa expulsao é um mito fundador para os acadiens. Quanto ao texto do Thomas eu acredito. Eu gosto do trabalho dele como diretor, mas nao das coisas que ele escreve. Beijao.
Ana Lucia em setembro 12, 2005 8:27 PM
#12
Essa blogosfera e' engracada mesmo... Acabei de ler no blog da Denise mais de 90 comentarios criticando um post do tal Rafael e chego aqui p/ ler maravilhas sobre o rapaz... :-)
Interessante sua comparacao de New Orleans com Salvador. Acredito que essa cultura vai se fortalecer com a reconstrucao e ainda vamos ve-la espalhada pelo resto pais atraves de ex- moradores da cidade.
Luciana Triplett em setembro 12, 2005 9:39 PM
#13
Belíssima homenagem à "sua " cidade!!!
Cláudio Costa em setembro 12, 2005 10:42 PM
#14
O problema com o Gerald é que faz belas peças (ao menos as que eu vi) e só por isso achou, até porque tem ou tinha muita gente que também acha, que tem a melhor opinião sobre tudo e qualquer coisa. Culpa mais da mídia do que dele, já que se ele tem alguma, é por ter se aproveitado disso.
Quanto ao teu texto, como sempre, uma aula. Me vem uma pergunta. A reconstrução será também a reconstrução dessa cultura, ou ao menos a preservação do que é possível, ou o furacão vai marcar uma nova etapa na vida cultural da cidade? Não penso que alguém tenha ainda uma resposta pra isso, mas voce ao menos, voce que é "de dentro", indicios pode ter.
Flavio Prada em setembro 13, 2005 4:22 AM
#15
Eu me lembrei tanto deste post, Idelber ... dia desses fui até a casa velha do Biscoito relê-lo ... Mto bom vê-lo republicado. Qto ao q o Mais! publicou, uma Menas!
Bjos,
Cipy em setembro 13, 2005 4:48 AM
#16
Prezado Idelber,
Cheguei ao Biscoito pelas mãos e o mouse de Cipy, essa candura de pessoa.
Primeiramente, a força e as good vibes de Salvador para todos vocês de New Orleans (NO) neste momento difícil.
Soube há pouco por uma amiga mexicana médica que os EUA proibiram o trabalho voluntário de mexicanos da área de saúde para atendimento aos desabrigados do Katrina. Motivo: falta de licença do Texas para exercer estas atividades. No comments...
Você captou bem a similaridade entre Salvador e NO. O "excepcionalismo sem arrogância" é um achado. A razão é simples: somos e sabemos que somos. Não nascemos, estreamos. E basta! Às vezes endereço assim: "Salvador, Bahia, Mundo".
Quanto ao fato de NO ser "a única cidade do mundo onde um policial vai te chamar de babe enquanto conversa com você", é runhe, viu? Pede a Cipy pra te convidar pra dar mais um rolê na Soterópole. Talvez de "babe" os policiais daqui não nos chamem. Por não saberem inglês. Mas "nego", "bahêa", "ô, irmão", "cumpade", acredite. Sem falar na paquera das e com as policiais femininas, a maioria negras/mulatas...
Por falar em futebol, espero que NO seja como o nosso velho e bom Bahia de guerra, recém-rebaixado pra gloriosa 3a. Divisão: a gente verga, mas não quebra, traduzindo o "we shall overcome" de vocês.
Como apoio, deixo o lema da bandeira soteropolitana, evocação da ressureição da vida após o Dilúvio bíblico, simbolizada pela volta da pomba à Arca de Noé com o raminho de oliveira no bico:
Sic illa ad arcam reversa est!
P.S.: Não sei usar HTML tags for style. Deixe algumas dicas como fazê-lo no local dos comentários.
João Augusto Sampaio em setembro 13, 2005 6:20 AM
#17
Vida longa para o G.Thomas escrever o que ele quiser, para a Folha publicar o que ela quiser e para que se possa escolher o que se quiser ler e o que não se quiser ler!
Trata-se de uma escolha. Apenas isso! Nada mais.
Paulo Zobaran em setembro 13, 2005 9:20 AM
#18
Muito esclarecedor. Como amante e amador da música, tenho especial interesse por essa cidade. Ouvi falar que os clãs musicais dominam cada um um território. Confere?
pecus em setembro 13, 2005 11:32 AM
#19
Idelber, há tempos deixei de levar a sério qualquer coisa escrita pelo Gerald Thomas. Pano rápido, pois, e vamos ao que interessa: passei aqui para indicar o valioso relato que a espanhola Lourdes Munoz Santamaría fez dos dias que passou no Centro de Convenções de New Orleans. Forte amplexo!
Inagaki em setembro 13, 2005 12:54 PM
#20
Ina, você, como sempre, com os melhores links. Que texto assustador, revelador, emocionante, esse da catalã Lourdes. Obrigado pelo link:) Recomendo mesmo!
pecus, acho que há certa segmentação, sim, mas também há bastante porosidade. Não é raro ver jovens dançando dixie, old timers curtindo novas bandas experimentais... eu diria que é uma cidade musicalmente pouco segregada.
João Augusto, é vero o que você diz sobre Salvador.. O mais correto seria "New Orleans é a única cidade anglófona onde se escuta 'babe' da boca de um policial. Obrigado por deixar o link ao seu site.
Flavio, a reconstrução ainda é tema difícil. Algo se preservará, claro, muito se transformará, algo vai desaparecer, sem dúvida. Vejamos.
Obrigado à Lu, Cipy, Patricia, Gustavo, Sergio, todos os amigos que passaram por aqui :) Abraços,
Idelber em setembro 13, 2005 4:41 PM
#21
Rapaz, há uma categoria de pessoas que fala bonito, faz referências obscuras e são respeitadíssimas. Creio que Paulo Francis e Gerald Thomas sejam seus maiores representantes na cultura moderna brasileira. É impressionante o número de erros contidos em seus textos. Eu, que sou alguém de cultura média, pegava SEMPRE três ou quatro erros nos caudalosos artigos do insensado PF e costuma acontecer o mesmo com GT. Por que são respeitados? Ah, eu não entendo. E adoram o tal Francis. Imagina quando o Thomas morrer; vai virar referência....
Grande abraço.
Milton Ribeiro em setembro 13, 2005 5:41 PM
#22
Maravilha, Idelber, e excelente idéia de fazer o repost. Por motivos indesejados, estou passando raspidinho, mas sem poder esconder a admiração emocionada:
"Rejubile-se com a morte e chore ao nascer" isso que eu eu pensava ser chinês, aprendi em New Orleans e com New Orleans.
beijo
Meg
Meg (subrosa) em setembro 14, 2005 12:40 AM
#23
Meguita, não suma, viu? :)
Idelber em setembro 14, 2005 6:47 AM