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quarta-feira, 19 de outubro 2005

Blogueira convidada: Ana Maria Gonçalves

(carta dela, que fez um lindo blog sobre o Chile, aos meus filhos)

Santiago do Chile, 12 de outubro de 2005

Queridos Alexandre e Laura,

Hoje é dia das crianças aí no Brasil, e seu pai falou muito em vocês. Ele fala todos os dias, várias vezes ao dia, e tenho a certeza de que isso não significa nem uma mínima parte da quantidade de pensamentos nos quais vocês reinam absolutos. Será que vocês conseguem sentir isso? Acredito que sim, pois, ao contarem para ele como foi o dia de vocês, comentam apenas aquelas coisas das quais ele não participaria mesmo estando presente, como o dia na escola, os passeios com a mãe e os primos, os pensamentos mais secretos. Em tudo o mais, como quando vão dormir, comer, conversar, não comentam, pois estiveram juntos. Ou comentam apenas com aquele tom de observação de quem quer dividir o mesmo pensamento.

Queria contar para vocês das frutas chilenas, talvez por achar que algumas frutas são assim como as crianças. Principalmente as verdes, mas apenas as que são doces desde o início. Mas antes, queria que lessem um trechinho de um livro que compramos ontem, El viejo e el niño, de Efraim Barquero:

“Los dos se detienem casi al mismo tiempo, al descubrir la fruta em los árboles, uno con la dulzura de la edad y el outro con la premura de los años.
Y las frutas maduran.
El viejo toma una, la huele largamente y se la da l niño, quien se la come con gusto y se mira las manos que huelen a fruta acabada.
Hay que verlos en esta ocupación de recolectores.
- Están buenas como em otros años, dice el anciano, poniendo-se algo triste, del color de las frutas recordadas.
El chico mira y no sabe qué decir, porque sus ojos y su boca tienem siempre la edad de todas las frutas.
El anciano le indica que ésta es más dulce, que ésta tiene más sol y ésa otra más luna, pero non las prueba.
Las muestra solamente com el dedo como si tuvieram nombres de personas desconocidas para su pequeno amigo.”

Pronto, é isso. Já pensaram se, como diz o velho, as frutas tivessem mesmo nome de pessoas? Pois, em línguas que não conhecemos, podemos até mesmo brincar disso. Há pessoas que se parecem com frutas, já perceberam? Algumas são doces, outras são azedas; outras já são bonitas desde a casca, outras apenas quando vemos o interior; algumas são mais comuns, mais extrovertidas, outras se escondem para aparecerem apenas em determinadas épocas do ano. Algumas são raras, outras iguais a todo mundo. E por aí vai, crianças, pois tudo na vida é dado a comparações. Há muitas frutas diferentes no Chile, e estou mandando fotos de algumas. Bem, esta foto aí acima é de um limão, quase igual a que temos por aí, mas apenas para mostrar como são mais compridos e bicudos.

Esta outra foto é de mexerica, ou tangerina, como quiserem chamá-la. Está cortada feito uma laranja por que achei que combinava cortá-la como uma laranja, por causa desta casca que tem uma cor laranja magnífica. Está bem, confesso que também fiz isso porque não gosto muito de descascar com as mãos, fica aquele cheiro de sumo que mesmo depois de muitas horas todo mundo sabe que você chupou mexerica.

E já que estamos falando de frutas conhecidas, eis aqui o papaia chileno. Aquele mamão que aí conhecemos apenas como papaia, aqui ganhou um sobrenome e se chama papaia tropical. Apenas papaia é um pequenino, que fiz questão de fotografar junto com a minha mão para que vocês tenham idéia do tamanho. Tudo nele é diferente, a começar pela casca, muito mais fina, mas é muito mais diferente no gosto, é azedinho. A textura do miolo é de uma goiaba bem madura, mas o gosto de aproxima de uma maracujá, ou de um cajá, não sei bem. Vocês conhecem cajá? Também não sei como se comem aqui, mas eu como de colherinha, e aos montes, pois adoro fruta um pouco azeda. Então, misturando os nomes com os gostos, será que poderíamos chamar essa fruta de paracajá? Ou será que vocês têm nome melhor? Vão pensando aí porque depois vou querer saber.

Esta outra foto é de um fruta da qual não me lembro o nome. Por fora lembra um pequeno abacate, que aqui se chama palta e é usado em todos os sanduíches (seu pai não gosta, e sempre pede os sanduíches sem palta). Aliás, sabiam que aqui o abacate não é considerado fruta? Mas voltando às nossa fruta-da-qual-esqueci-o-nome, ela tem uma cor bonita, mas o gosto é um pouco estranho. É uma fruta pesada, não tem jeito de fruta, tem muita “massa” (nada a ver com macarrão, certo?). Até voltarmos, vou tentar descobrir o nome dela para contar para vocês.

Essa aí da foto é minha fruta preferida, por enquanto, pois tenho experimentado todas que vejo pela frente. O nome dela é “tuna”, bem estranho para algo que vive fora d'água, mas gostosa demais! Tem a aparência de um kiwi, mas a casca é fina e lisinha, e a textura novamente se assemelha a uma goiaba, não muito madura, talvez por causa das sementes. O gosto também não sei explicar muito bem, mas é docinho, e me lembra fruta fresca, como a melancia ou novamente aquelas frutas típicas do nordeste, das suculentas.

Por fim, a fruta preferida do seu pai, a chirimoya. Acho que é a versão chilena da nossa “fruta-do-conde”, um pouco mais durinha e um pouco menos doce. E é com ela que me despeço, com o seu pai aqui ao lado mandando um grande beijo que vai se juntar ao meu.

Com muito carinho, da amiga,
Ana

Atualização: esta caixa de comentários esteve com o link quebrado durante algumas horas. Já consertada.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (14)


Comentários

#1

Idelber, linda a carta... adoro cartas! Entrei no blog da Ana e fiquei maravilhada com as coisas lindas que ela escreve. Achei a chirimoya parecida com biribá, você já ouviu falar? Talvez seja a mesma coisa que fruta-do-conde, mas por conta dessa imensidão de Brasil, conheço por outro nome... ;)
Um beijo de uma garota muito sua tiete! :*

Luciana em outubro 19, 2005 4:23 PM


#2

Oi, Luciana, conheço biribá não... De onde é? Parece que chirimoya é fruta-do-conde mesmo, mas não tenho certeza, nessas coisas de frutas a Ana é mais entendida... Beijos,

Idelber em outubro 19, 2005 4:28 PM


#3

Bem, tenho um amigo que morou um tempo aí, e disse que é a mesma coisa sim... as três frutas... mostrei o post pra ele e bateu saudade... ;) Um abraço!

Luciana em outubro 19, 2005 5:41 PM


#4

Eu adoro frutas!!! TODAS (mentira, menos pitanga e cereja) e essas fotos são um deleite aos olhos :)

E da Ana eu já sou fã e não é coisa nova. O jeito que ela escreve deixa um sorriso no rosto da gente.

Beijos Idelber, beijos Ana.

Daniela em outubro 19, 2005 6:13 PM


#5

Ué, teus filhos já sabem ler em espanhol?

Vi que ela postou sobre vinho agora, vou lá ler correndo!!!

Leila em outubro 19, 2005 7:49 PM


#6

Ô Ana, ô Idelber, sou pai separado, também com dois filhos... Para não usar um lugar comum, digamos que uma lágrima furtiva quase brilhou no vidro do monitor.

Abraços e beijos a quem de direito.

Milton Ribeiro em outubro 19, 2005 8:00 PM


#7

O Aluno pergunta:
Afinal o Mestre pede sanduiches com ou sem PALTA?
Num post:
"Mas aí com o tempo fui me acostumando, da mesma forma como até brinco de catchup com meus filhos no McDonalds. Hoje eu como meus sanduíches chilenos con palta." (sábado, 15 de outubro 2005
¿con palta o sin palta? Contribuição do Biscoito à diminuição do choque cultural dos brasileiros que venham comer sanduíches em Santiago do Chile)

Já a Ana, hoje, escreve:
"(seu pai não gosta, e sempre pede os sanduíches sem palta)."
E agora Idelber? É con ou sin PALTA?


E para Ana saber, no Brasil se encontra Tuna. No Rio Grande do Sul merece menção, a flor, numa das melhores canções: Canto Alegretense
CANTO ALEGRETENSE
Autores: Antônio Fagundes/Bagre Fagundes

Não me perguntes onde fica o Alegrete,
segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete e
ouvirás toque de gaita e de violão.
Pra quem chega de Rosário ao fim da tarde
ou quem vem de Uruguaiana de manhã
tem o sol como uma brasa que ainda arde,
mergulhado no rio Ibirapuitã.

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoati de mel campeiro;
^^^^^^^^^^^^
pedra moura das quebradas do Inhanduí.

E na hora derradeira que eu mereça
ver o sol alegretense entardecer
como os potros vou virar minha cabeça
para os pagos no momento de morrer.

E nos olhos vou levar o encantamento
desta terra que eu amei com devoção
cada verso que eu componho é um pagamento
de uma dívida de amor e gratidão.

O Aluno em outubro 19, 2005 11:15 PM


#8

Que linda carta, Idelber! A Ana tem uma sensibilidade ótima. Tenho certeza que seus filhos amaram as palavras da Ana e se deliciaram com as fotos, que estão de encher os olhos.
Beijos pro Quarteto Fantástico! :)

Patrícia em outubro 20, 2005 12:07 AM


#9

Delicadíssimas a Ana e a carta. Bom que ainda se escrevam cartas: tão pessoais, tão espontâneas e, paradoxalmente, tão bem elaboradas. Uma poeta, essa Ana. Seus filhos devem estar babando... ou sou eu?

Cláudio Costa em outubro 20, 2005 8:48 AM


#10

Aluno: você é muito observador! Para os anais: a Ana está certa, eu voltei a pedir sanduíche sin palta. Acostumei, mas ainda não gosto muito não.

Abraços aos amigos :)

Idelber em outubro 20, 2005 9:28 AM


#11

eu tentei comentar ontem e não consegui. O realato dela sobre as frutas é gostoso de ler.

Simy em outubro 20, 2005 1:04 PM


#12

Não consigo ver as fotos com o Firefox...
Mas deu vontade!

Gustavo Uriartt em outubro 22, 2005 3:10 PM


#13

Parece que sumiram as fotos, Gustavo. Estavam aqui! Vou ver com a Ana o que aconteceu. Elas estavam hospedadas no servidor dela no blogger. Vamos tentar consertar :)

Idelber em outubro 22, 2005 7:52 PM


#14

COMPRAMOS SACOS DE FARINHA DE TRIGO E DE AÇURCA.

COMTATO:66722760
FAÇLAR COM AIRTOM MARTINS

AGUARDAMOS UM RETORNO

CRISTINA em novembro 7, 2005 9:37 AM