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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quarta-feira, 30 de novembro 2005

4 coisas que mais me irritavam na internet

Hoje tive uma conversa engraçadíssima com um amigo sobre "as coisas que mais irritam na internet". Percebi, com alegria, elas não me irritam mais. De qualquer forma, meu top 4 seria:

1. spam: calcula-se que de 60% a 80% do tráfego de emails seja spam. Já no final de 2002, a Ferris Research, de San Francisco calculava o prejuízo causado pelo spam a empresas americanas (em perda de produtividade) em 8,9 bilhões de dólares. Neste ano de 2005, o primeiro spammer foi legalmente condenado, mas o estatuto do crime ainda é controverso e os especialistas não parecem acreditar que vejamos diminuição no fluxo de spam tão cedo. Por culpa dos spammers, você não pode mais deixar comentários nas caixas de mais de um mês de idade neste blog. Tive que fechá-las, porque não eu aguentava apagar manualmente uma centena de spams por dia. Na caixa de correio do meu email eu já os vejo como parte da paisagem, nem me incomodam.

2. Pessoas que usam filtro anti-spam: tão ruim como o spammer é o cara que exige que você faça um cadastro para se comunicar com ele por email, como ocorre com os filtros anti-spam do UOL. O pressuposto implícito, claro, é que o tempo dele vale mais que o seu. A maior ironia é que essas pessoas costumam perder justamente as mensagens que mais lhe interessam: outro dia alguém me escreveu pedindo ajuda bibliográfica sobre um tema X. Compilo os dados, escrevo a mensagem e clico "enviar". Sou levado a um site onde aparecem as letras ljgwharhwapwrit, todas distorcidas. Tenho que adivinhá-las e digitá-las corretamente. Tento a primeira. Não funciona. Tento a segunda. Nada. O rapaz fica sem resposta para sua consulta. Dias depois recebo outra missiva, esbravejando que eu sou "estrela que não responde os emails". Ele, claro, nem suspeita do porquê de não ter recebido resposta.

3. Pessoas que mandam emails exigindo retorno de recibo: Confesso que essa ainda consegue me irritar. O que será que as pessoas acham que ganham travando a máquina do outro no momento do download das mensagens para exigir que elas enviem um recibo garantindo que a mensagem lhe chegou? Ora, amigo, se ela não bateu e voltou, é porque chegou. Se não foi respondida ainda, é porque o destinatário não quis. Exigir recibo eletrônico confirmando recebimento de mensagem é, pura e simplesmente, um distúrbio patológico, uma neurose obsessiva (a não ser, claro, em casos onde isso é justificado: situações legais, etc.). Quando recebo dessas, em geral deixo de enviar o recibo, ou envio o recibo e jamais respondo a mensagem.

4. Pessoas que escrevem URGENTE URGENTE URGENTE no título do email: Trata-se de uma adaptação cultural para mim, nestes oito meses de Brasil, porque nos EUA - ou pelo menos no meu círculo - ninguém faz isso. Se há um prazo para as coisas, há um prazo, e você informa seu destinatário no interior da mensagem. Mas em certos círculos aqui há uma verdadeira febre de se escrever urgente em letras maiúsculas. Muitas vezes é um trabalho que, do lado de lá, já se está iniciando atrasado. E o sujeito grita URGENTE no seu ouvido. Eu já cheguei num ponto da vida em que me dou o luxo: qualquer email enviado à minha conta com a palavra urgente em letras maiúsculas no título vai automaticamente para uma pastinha chamada banho-maria, que eu só leio de 15 em 15 dias.

E viva a Bahia.

PS 1: enquanto o site Gardenal.org se recupera do resfriado, o Balípodo atende numa casa provisória.

PS 2: neste mês de dezembro é bem provável que o Biscoito dê uma reduzida na freqüência dos posts. Ando enrolado com um ensaio de 50 páginas, uma encomenda, sobre Machado de Assis.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (30)



segunda-feira, 28 de novembro 2005

We'll be back

galo.jpg

Alguém me ajuda a escolher o melhor consolo?

a. Nos jogos da Série B não há narração de Galvão Bueno.

b. Os jogos da Série B são às terças e sextas, deixando o fim de semana livre.

c. Acompanhando a Série B eu terei oportunidade de ir duas vezes a Recife.

d. Jogando pela Série B não temos que enfrentar o Goiás.

e. No sofrimento e na humilhação extremas nos tranformamos em pessoas melhores, como propõe a Santa Madre Igreja.



  Escrito por Idelber às 02:31 | link para este post | Comentários (37)



sábado, 26 de novembro 2005

Até a pé nós iremos

(Letra e música são de autoria, claro, de Lupicínio Rodrigues, o gremista negro nascido num ano em que o Grêmio ainda não aceitava negros)

Até a pe nós iremos
para o que der e vier
mas o certo é que nós estaremos
com o Grêmio onde o Grêmio estiver

Noventa anos de glórias
tens, imortal tricolor
os feitos da tua história
canta o Rio Grande com amor

(aqui o acordeom de Borghettinho, por favor)

Nós, como bons torcedores
sem hesitarmos sequer
aplaudiremos o Grêmio
aonde o Grêmio estiver

Lara o craque imortal
soube seu nome elevar
hoje com o mesmo ideal
nós saberemos te honrar

****************

Um time de qualquer outro lugar do Brasil teria saído de campo e melado o jogo: pênalti absurdo inventado, quatro jogadores expulsos, um atleta agredido covardemente por um policial criminoso, meia hora de paralisação antes da cobrança do pênalti para o Náutico que, se convertido, jogaria por terra um ano de trabalho do Grêmio. Qualquer outro time teria melado o jogo. Não os gaúchos.

Voltaram a campo, o fantástico Galatto defendeu o pênalti e o grande Anderson, negro como o pioneiro Tesourinha 53 anos antes, fez o gol que foi, de verdade, um ato institucional de Deus - no dia em que outro árbitro debilóide, o sr. Djalma Beltrami, quase provoca uma tragédia com mortos e feridos no estádio dos Aflitos, em Recife.

Salve Grêmio. Essa talvez tenha sido a mais incrível vitória de um time de futebol que eu já vi na vida, em 25 anos de boleiro.

Não dá uma inveja danada do Rio Grande do Sul de vez em quando?



  Escrito por Idelber às 18:49 | link para este post | Comentários (36)



sexta-feira, 25 de novembro 2005

Violência contra a mulher

violencia-mulher.jpg

Hoje é o dia internacional pela eliminação da violência contra a mulher e o Biscoito é parte da conversa.

Estima-se que no Brasil a cada dia uma mulher é assassinada pelo seu companheiro. De cada três mulheres do mundo, uma já sofreu espancamento ou abuso sexual, segundo dados da ONU (link via Leiloca). 70% das mulheres vítimas de assassinato no mundo foram mortas por seus próprios maridos.

Os números não devem chegar a surpreender ninguém, mas é útil recordá-los àqueles que estão sempre prontos a criticar e ridicularizar o dia da consciência negra, o dia da mulher ou o dia do índio. Para eles, o macho adulto branco no comando também deveria ter o seu dia, ou não deveria haver dia para ninguém: trata-se, claro, de uma forma de negar o problema e tentar escondê-lo.

Há uma série de formas de violência que vitimam especificamente, ou prioritariamente, as mulheres. Das mais nefastas, o estupro: estima-se que menos de 10% dos estupros aparecem nas estatísticas, por razões que qualquer vítima entenderia muito bem.

Em anos de trabalho próximo ao núcleo de mulheres do PT-MG, pude constatar o calvário que é fazer um boletim de ocorrência de estupro no Brasil. Há uma perversa lógica machista que torna a vítima de estupro, por antecipação, uma ré num tribunal onde os juízes são invariavelmente homens que jamais pararam para refletir um minuto sobre o que deve ser passar por essa experiência: "O que você estava vestindo?", "Você o provocou?" "Você disse ou deu a entender algo que o possa ter levado a fazer isso?" Se a vítima, por qualquer razão, demora para denunciar, esse próprio intervalo já é outro motivo de suspeita: "Por que só denunciou agora?" E por aí vai. Quando nos damos conta, a vítima já está no banco dos réus. As delegacias de mulheres têm sanado, muito parcialmente, esse problema.

Há um belo livro recente coordenado por Cecília de Mello e Souza e Leila Adesse que oferece um estudo detalhado do porquê do silêncio sobre a violência sexual no Brasil. Naturalmente, aqueles que condenam as mulheres que fazem abortos clandestinos (ao invés de lutar para que o aborto deixe de ser ilegal) refletiram pouco sobre qual é o contexto no qual uma mulher estuprada é obrigada a narrar sua história para conseguir abortar legalmente.

Uma vez, quando eu descrevia a alguém um quase-estupro sofrido por uma conhecida, o primeiro que escutei foi: É.... fulana é muito bonita. Naquele contexto, o elogio da beleza da vítima me pareceu a coisa mais ignóbil. Avalizava o estuprador. Encerrei o assunto antes que aparecesse a pergunta sobre se a vítima estava de mini-saia.

Mil outras formas de violência contra a mulher têm lugar não nos atos, mas na linguagem. São formas diferentes de violência e como tais devem ser tratadas. A essa distinção, e à dificuldade de fazê-la em determinados contextos, a feríssima Judith Butler dedicou um belo livro, sobre palavras que ferem.

Este blog critica, com freqüência, a política externa, os costumes, a estrutura política e a ideologia dominante nos Estados Unidos. Mas na questão da prevenção e punição da violência contra a mulher, nos atos e na linguagem, o Brasil ainda está anos-luz atrás do que já se conseguiu nos Estados Unidos. No Brasil ainda se faz, por exemplo, humor dizendo coisas como hoje as meninas querem dar para o crioulinho que elas acham bacana, coisa da qual, nos EUA, ninguém acharia graça. No Brasil, quando as "meninas" ou o "crioulinho" se ofendem, em geral escutam que são culpados de "patrulha". Seria bom se os que querem sempre imitar os EUA no "livre mercado" e na "cultura capitalista" tentassem imitá-los também no terreno da consciência sobre os efeitos dos discursos racistas ou sexistas.

Apesar de que pessoalmente acho que nenhum discurso deve ser objeto de censura (sou a favor, por exemplo, de que grupos nazistas tenham liberdade de expressão, pois proibi-los só alimenta a mística do martírio da qual eles se nutrem), acho que os que reclamam de "patrulhamento" contra suas bobagens sexistas ou racistas são, pura e simplesmente, uns hipócritas.

Estupro e discurso sexista são coisas bem diferentes, mas assim como na delegacia onde a duras penas uma vítima tenta relatar um crime, também na violência "meramente" discursiva com freqüência opera-se uma inversão. Assim como o estuprador em geral foi "provocado", o agressor lingüístico em geral se adianta para apresentar-se como o "patrulhado".

Neste, como em outros casos, não custa ouvir a vítima real.

Sobre assuntos relacionados às mulheres, sua saúde e a violência contra elas, o Biscoito já escreveu aqui e aqui. Sobre o uso de tortura sexual contra mulheres nos porões de regimes autoritários ou democráticos, pode-se ler o primeiro capítulo desse livrinho meu.

Este post é parte de uma blogagem coletiva. A lista de blogs participantes está lá no Síndrome de Estocolmo.



  Escrito por Idelber às 01:38 | link para este post | Comentários (26)



quinta-feira, 24 de novembro 2005

Reflexões sobre o Conto

conto-joyce.jpgconto-borges.jpgconto-poe.jpg


(este é um post antigo, dos primordios do blog, e foi utilizado para uma aula "virtual" aos alunos de Cipy Lopes em Salvador. Vai aí republicado, com poucas alterações, pois acho que pouca gente o conhece).

Os dicionários dizem: conto é uma curta narrativa de ficção em prosa. Hoje em dia, máximo 25 páginas. Mais que isso já vira novela. Mas qual é a essência do conto como forma?

Tomemos o microconto mais ilustre, o do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá.
* *

O que faz com que o texto de Monterroso seja um conto, apesar das parcas oito palavras, é a presença de duas temporalidades: a do cochilo do cara e a do dinossauro ainda estando lá.
* *

O argentino Ricardo Piglia tem uma tese: um conto sempre conta duas histórias. As diferentes épocas escolhem diversas formas de relacionar as duas histórias.

Para exemplificar, tome-se uma anotação do contista e dramaturgo russo Tchekhov: um sujeito chega numa cidade, instala-se num hotel, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta ao hotel e se suicida. Aí você tem um conto porque normal seria o cara ganhar e fazer outra coisa, ou perder e suicidar-se, mas ganhar e depois suicidar-se é insólito. Por ser insólito, o evento dissocia as duas histórias. Há a história da viagem/jogo e a história do suicídio. Pois bem, o que é um conto do século XIX?

O mestre do conto do século XIX é Edgar Allan Poe, que em 1840 e poucos, tiritando de frio na Filadélfia, pobre que só vendo, tendo que queimar a própria escrivaninha para se aquecer, inventou nada menos que a narrativa policial, a narrativa de horror e a ficção científica.

Um conto do século XIX relata a história da viagem, mudança, instalação no hotel, ida ao cassino, vitória e tudo mais de forma a dissociá-la completamente da outra história, a do suicídio. Há uma história visível (a viagem) e uma história secreta (o suicídio).

O bom contista é o que lhe conta a história 1 sem que você suspeite a história 2 que vai explodir no final. O bom leitor é aquele que aprende as manhas dos escritores para esconder a história 2 na história 1. Esse é o jogo gato-e-rato da literatura do século XIX. Autores e leitores se cansam desse jogo por volta de 1910-20, a porra toda explode e começa-se a contar contos de maneira muito diferente.

O que é um conto do século XX? É um relato em que a história 2 (a secreta) já não está embutida invisível na história 1, já não é um enigma que se revelará no final para arredondar a coisa bonitinho. O que faria o escritor moderno com a anedota de Tchekhov?

James Joyce narraria a história da viagem arrastada, sem esperança, tanto que quando chegasse a história do suicídio você já nem ligaria que o cara está se suicidando. Destruição total do efeito catártico.

Hemingway simplesmente não te contaria que o cara suicidou. Daria alguma pista, mas no mais, contaria o conto da viagem. Em detalhes secos, onde tudo é um puro acontecer sem significar. Você terminaria o relato com cara de “Que porra é essa?” porque você poderia até não ter entendido que o sujeito se suicidou. É como se não tivesse acontecido nada.

Kafka é o mais incrível, ele inverteria a história 1 com a 2. Contaria a história da morte como se fosse o mais banal, como se fosse a descascada de uma laranja. O horror seria totalmente transferido para a história 1 – a partida para o hotel – narrada de forma terrorífica e ameaçadora.

Jorge Luis Borges contaria a história 1 como se ela já tivesse sido contada mil vezes. Tudo seria tirado, parodiado de algum lugar. Até que no final o sujeito encontraria no suicídio uma verdade não revelada pelos livros que tinha lido.

Há outras mil variantes, claro.

No Brasil, o mestre em contar a história 1 enquanto esconde a história 2 é Machado de Assis. Muitos conhecem Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas, seus romances famosos. Mas a arte inigualável de Machado está no conto. Para ver algumas obras-primas, é só conferir Papéis Avulsos ou Histórias sem Data.

A melhor contística do mundo, para mim, é a da Argentina, infelizmente ainda pouco traduzida entre nós.



  Escrito por Idelber às 02:25 | link para este post | Comentários (23)



terça-feira, 22 de novembro 2005

Drops do mundo blog

Rufem os tambores! O blog de Pedro Dória recebeu o prêmio do júri no 2005 Deutsche Welle International Weblog Awards como melhor blog jornalístico em língua portuguesa. Quem conhece o trabalho de Pedro sabe do merecimento desse prêmio: é o mais aguçado faro de internet que há por aí na blogosfera tupinambá, como ele gosta de dizer. Parabéns, Pedro :)

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Na categoria língua inglesa, o prêmio ficou com o indispensável Global Voices Online.

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banner_bdp.gif.

Notícias das festas de lançamento do livro de contos do Blog de Papel esparramadas por aí: outro relato antológico do Biajoni e relato e fotinhas na Olivia. O próximo lançamento é no Rio, dia 27, às 19 horas, na Travessa de Ipanema. De novo vão os parabéns aos autores e a pergunta: a Belzonte vocês não vêm?

************
Mais um capítulo na relação blogs-academia vem do Chile: o maior sociólogo chileno, José Joaquín Brunner, aderiu (via Global Voices Online).

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Para quem não viu ainda: estão imperdíveis as várias desmontagens críticas feitas pelo Smart Shade of Blue dos textos recentes do Reinaldo Azevedo na Primeira Leitura.

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Fã da revista New Yorker? Que tal ter os 4.109 números, meio milhão de páginas em oito DVDs, por 70 dólares? (via Últimas de Babel).

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Depois do email, a busca de informações já é a principal atividade dos internautas. É o que diz uma pesquisa do Pew Internet and American Life Project (via o excelente Ponto Media, d'além mar).

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Pedro Alexandre Sanches, profundo conhecedor da música brasileira, das gravadoras e das estações de rádio, inicia uma série de textos sobre o jabá.

***********

Para os leitores mineiros: nesta quinta-feira, às 10 da noite, a Rede Minas exibe de novo o especial sobre rock e literatura que inclui uma entrevista comigo e com gente muito mais competente que eu, o poeta / jornalista / professor / performer Marcelo Dolabela e o vocalista / letrista / professor Jair Tadeu da Fonseca, agora da UFSC. Ficou bom o programa.



  Escrito por Idelber às 02:33 | link para este post | Comentários (7)



segunda-feira, 21 de novembro 2005

Vestibular Político-Futebolístico

Considerando que tanto o Galo como José Dirceu já há semanas ficam brincando de adiar o que parece inevitável, que tal uma brincadeirinha de escolher a alternativa correta?

a. O Galo escapa da segunda divisão e José Dirceu escapa da cassação.

b. O Galo escapa da degola, mas José Dirceu não.

c. O Galo cai para a segundona e José Dirceu perde o mandato.

d. O Galo cai, mas José Dirceu se salva.

e. nenhuma das alternativas, pois vai se melar tudo.


PS: A enquete é sobre o Galo não só porque o blog é atleticano: depois da vergonhosa roubalheira de ontem contra o Internacional, perpetrada pelo Sr. Márcio Rezende de Freitas - o mesmo que entregou o Campeonato Brasileiro de 1995 ao Botafogo, o mesmo que roubou escandalosamente o Grêmio numa final de Copa do Brasil contra o mesmo Corinthians, o mesmo que roubou o Atlético-MG em pelo menos três clássicos contra o ex-Ipiranga - alguém tem alguma dúvida de que este será o título mais manchado da história do Campeonato Brasileiro?



  Escrito por Idelber às 03:57 | link para este post | Comentários (25)



sexta-feira, 18 de novembro 2005

Memórias de Livros: Candide, de Voltaire

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A lembrança da leitura dos livros está em mim mais ligada à memória afetiva, do seu impacto, do que propriamente a datas, lugares ou circunstâncias de leitura. Candide, de Voltaire, certamente foi lido em edição da Abril, coleção Imortais da Literatura Universal, quando eu tinha talvez 10, 11, 12, não mais que 13 anos.

Candide inaugura o que os franceses chamam de récit philosophique, relato ficcional em forma de parábola, onde os personagens dramatizam o baile das idéias, ou sua luta. Historinha que vai, na França, de Voltaire a Sartre. Eu me lembro de uma rápida ficha que fiz num caderno – que eu talvez ainda exista em New Orleans – onde, no delírio de leitor iniciante, eu proclamava Voltaire “o maior filósofo de todos os tempos”, com o qual eu só queria dizer que ele era o principal ali, para mim, naquele momento. Como formulação de sistema de pensamento inovador ou chave para o que vem depois, Voltaire é um filósofo de segundo escalão, certamente não da estatura de Platão, Spinoza, Kant ou Hegel. Mas o cabra teve um impacto gigantesco sobre a história do mundo, ao ser determinante para a derrota de uma Igreja ainda medieval em mãos do iluminismo modernizante do século XVIII, no debate central da Europa daquele século. Nesse embate tanto Candide como a participação de Voltaire na discussão com a Igreja sobre o terremoto de Lisboa de 1755 foram fundamentais.

Candide fez o que poucos livros fizeram, criar um adjetivo: panglossiano, derivado do Dr. Pangloss, professor de Cândido e caricatura voltariana do otimista conformista pretensamente científico, mas na verdade idiota, que está sempre disposto a justificar o estado atual das coisas dando a historinha do que seria o mundo se aquela coisa não existisse, ou traçando a historinha do que levou o estado de coisas a ser o que é para justificar sua necessidade com base nessa história. Enfim, é um pretensioso que se alia aos poderosos para confundir o que é com o que pode ou deve ser, mas ao mesmo tempo figura muito bem construída como personagem, de forma a espelhar e parodiar os argumentos embolorados, conservadores, religiosos da época. A sífilis de um mendigo é necessária, por exemplo, porque remete, leva de volta à chegada dos europeus na América, e sem a propagação da sífilis não teria havido a propagação de coisas boas como o chocolate. E por aí vai. Pangloss é professor de “metafísico-teólogo-cosmo-nigologia” e inventor da expressão “melhor dos mundos possíveis”, que migrou para incontáveis línguas. Qualquer semelhança dele com fiofólogos de hoje não é mera coicidência. É, na verdade, o personagem principal do livro: a narrativa leva o nome não do personagem que fala, mas do personagem que escuta.

Nunca mais li Voltaire depois dos 13 ou 14 anos. Como havia lido tudo o que se publicou no grosso volume Contos da coleção da Abril (incluindo Candide, Zadig e umas duas dezenas de récits philosophiques) e peregrinado à biblioteca do SESC, na Rua Tupinambás, no centrão de Belo Horizonte, para pegar emprestado e ler quase tudo o que havia lá de Voltaire, inclusive as obras principais (Cartas sobre os ingleses, o maravilhoso Dicionário Filosófico, o Tratado sobre a Tolerância) eu “saldei as contas” com ele e nunca voltei. Depois, aos 16 ou 17, ainda comprei o volume d’ Os Pensadores, que traz 4 obras, se me lembro bem, incluindo uma boa seleção do Dicionário e o texto completo das Cartas. Mas nunca mais voltei a lê-lo e acho que só usei esse volume para catar uma e outra citação, folhear, sapear algumas frases e ler a biografia-introdução.

Mas eu tenho uma dívida infinita com Candide, que apesar de ser meio formulaico é saboroso na sua caricatura. E a caricatura não está longe da lógica de muitos discursos que vemos por aí hoje em dia. Engatinhando nas primeiras leituras de infância / pré-adolescência, eu superestimei o valor literário e a importância filosófica do texto, mas é verdade que a parábola ainda não perdeu sua força.

PS: perdi uns emails enviados à conta aqui do blog. Se você me escreveu àquela conta, reenvie por favor para iavelar arroba tulane ponto edu. É o email que anda funcionando no momento. O daqui do blog está meio gripado.



  Escrito por Idelber às 03:26 | link para este post | Comentários (19)



quinta-feira, 17 de novembro 2005

Post colcha de retalhos

Para desenferrujar o blog:

verbeat.gifA Verbeat, simpatiquíssima comunidade blogueira gaúcha com ramificações em todo o planeta, está promovendo uma pesquisa sobre o leitorado dos blogs. Vá lá e participe. Eu estou indo.

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Por falar em Porto Alegre, parece que sucesso total no lançamento do livro do Blog de Papel. banner_bdp.gif

Relatos sobre o evento no Milton Ribeiro e nos blogs dos outros autores. Li, gostei, escrevi o prefácio magérrimo e recomendo. Encomendas lá na editora.

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Nesta quarta, voltando do sul de Minas para BH, ouvi umas 30 canções do Depeche Mode. Quem gosta do Depeche Mode na blogosfera é a Bibi e a Renata. Eu estou aprendendo a gostar. Mais detalhes aqui (via Bibi).

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Este blog não é fã de Chávez, mas Fox sendo chamado de "cachorrinho do império" é tudo de bom. A coisa ficou muito feia entre México e Venezuela.

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Com o perdão de Roman, Afonso, Tiagón e Ticcia maravilhosa, o Biscoito é Colorado na reta final do Brasileirão, que ficou interessantíssima depois dos resultados desta quarta-feira. inter2.jpg Eu até já gostei do Corinthians (em São Paulo minhas simpatias são ponte-pretanas, sorry Inagaki), mas desde que armaram aquele time de bandidos em 98/99 não dá para torcer pelos caras. Depois da parceria iraniana, então, nem se fala. Dá-lhe Inter.

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Alguém anda sentindo falta de posts sobre as CPIs (digam que não, por favor)?

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Têm filhos que lêem inglês? Não perca a Children's Digital Library.

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O Biscoito informa: o sul de Minas continua lindo, São Tomé das Letras continua cheio de hippies que vêem discos voadores, e a estátua do Rei Pelé continua firme e forte no centro de Três Corações. Próxima viagem: em dezembro, Juiz de Fora, a convite dessa bela universidade.

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Para os leitores mineiros: neste domingo, às 17:30, enquanto o Inter decide com o Corinthians a sorte do campeonato brasileiro, a Rede Minas de TV exibe uma entrevista comigo sobre rock e literatura. Reexibição na quinta-feira às 10 da noite.



  Escrito por Idelber às 04:37 | link para este post | Comentários (30)



quarta-feira, 16 de novembro 2005

Prova definitiva

Está provado: Fábio Sampaio é Deus.



  Escrito por Idelber às 14:06 | link para este post | Comentários (5)




Piripaco no blog

Justamente quando eu me preparava para fazer o primeiro post desde quinta-feira passada, tive a ultra desagradável surpresa de que desapareceram deste blog todos os posts escritos desde o dia 23 de outubro. Misteriosíssimo. Parece um piripaco geral do idelberavelar.com, porque os emails enviados a partir do dia 23 de outubro ao meu endereço do blog também desapareceram do servidor (ah, se eu tivesse aceito o convite do Tiagón e me juntado à Verbeat...).

Eu lamento nem tanto pelos posts, mas pelos comentários. É como ver amigos apagados de um álbum de fotografias. Enfim, queria avisar isso e dizer que estou tentando recuperá-los. Mais notícias na noite desta quarta, junto com um post de verdade. Axé.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (18)



quinta-feira, 10 de novembro 2005

O Fox-Trotezinho de Bush

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Pode-se concordar ou não com a avaliação do New York Times de que a visita de George W. Bush à América Latina foi desastrosa, mas o fato é que a Cúpula das Américas de Mar del Plata teve um grande palhaço: o presidente Vicente Fox, do México, perdeu várias oportunidades de ficar calado.

Ao chegar à Argentina e se deparar com as manifestações nas quais dezenas de milhares de pessoas (entre elas Diego Armando Maradona) protestavam contra Bush e a ALCA, Fox declarou que encontrou em Mar del Plata uma "bagunça" e um "futebolista com a cabeça cheia de fumaça metendo-se em política". Levou uma seqüência de tamancadas da sociedade argentina e no seu próprio país que colocaram as coisas nos eixos. Provavelmente sessenta anos de sistemáticos assassinatos de opositores políticos no México deixaram a presidência sem muita noção de que os protestos são parte da democracia e que os jogadores de futebol também têm o direito de participarem neles. Provavelmente os últimos anos de política externa ultra-subserviente ante os Estados Unidos impedem o ex-executivo da Coca-Cola de reconhecer que, em qualquer país do planeta que George W. Bush ponha os pés, ele será recebido com faixas de protesto e repúdio.

Depois da conclusão do encontro sem que os Estados Unidos conseguissem impor seu plano, o patético presidente mexicano declarou que a ALCA avançaria "com ou sem o Mercosul" e que Néstor Kirchner "estava orientado para a opinião pública" e que por isso os acordos continentais não haviam se realizado. Recebeu de novo a tamancada que merecia. O presidente argentino, que trabalhou com o Brasil, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela para barrar a ALCA e levantar de novo o problema das assimetrias no tratado e dos subsídios agrícolas americanos, respondeu afirmando que diplomacia não é abaixar a cabeça ante os poderosos: "que ele se ocupe do México". O próprio senado mexicano deu razão ao argentino e envergonhou-se do seu presidente.

O mais curioso é que qualquer que seja a opinião que se tenha sobre a ALCA, sabe-se que ela é um tratado nos moldes do NAFTA, celebrado entre EUA, Canadá e México. Em outras palavras: o tratado estenderia ao resto do continente a condição que o México já usufrui. Se o acordo impulsionado pelos EUA é tão bom, por que tanto desespero do mexicano em estender a todos os outros países um "privilégio" que ele, México, já possui?

No México, 11 anos depois da implementação do NAFTA, aumentou a pobreza no campo, cresceu a dependência do país da importação de alimentos, 88% das exportações passaram a ir aos Estados Unidos (dando a estes últimos, obviamente, controle quase completo da economia do vizinho) e um milhão de pequenos proprietários perderam seu sustento. A imigração mexicana atingiu níveis record: dos 9.9 milhões de residentes ilegais dos EUA, 58% são mexicanos e 20% são centro-americanos, cidadãos de países que já têm o "privilégio" de terem tratados de livre comércio com os EUA.

Nota-se nas declarações de Fox, claro, a vontade clara que "ficar bem" com o Império, depois que a rejeição de 90% da população mexicana à Guerra do Iraque tornou absolutamente impossível que o presidente mexicano lambesse as botas de Bush também naquele episódio.

O candidato favorito à sucessão de Fox é o oposicionista de esquerda López Obrador. Cardenal Hinojosa, do PAN, partido de Fox, segue muitos pontos atrás.

Por aqui, o amiguinho de Bush não deixou nenhuma saudade.



  Escrito por Idelber às 00:02 | link para este post | Comentários (23)



sexta-feira, 04 de novembro 2005

Sobre um conto de Jorge Luis Borges

Fred Murdock era daqueles jovens típicos. Estudantes típicos. Gringo. As más línguas poderiam dizer: tipicamente gringo. Em dúvida sobre o que estudar, recebe a dica: por que não estudar índio? Joga-se à empreitada e passa a viver entre os índios; com o tempo, passa a sonhar em sua língua. Revelam-lhe o segredo da tribo. Converte-se no índio perfeito, antes de voltar à sua universidade para escrever a tese, baseada no invejável conhecimento adquirido. Decide não escrever a tese. Casa, se divorcia e vira bibliotecário.

Este é o argumento de um dos mais curtinhos e fascinantes contos de Jorge Luis Borges, "O Etnógrafo", do livro Elogio da Sombra (1969). Para quem tiver paciência, saiu publicada no último número da Germina minha leitura desse conto: "Borges, a Antropologia e a Escrita do Outro."

Parece que resolveram fazer a incrível burrice de me oferecer uma coluna fixa na Germina e eu, honrado, acabei aceitando. É uma coluna bimestral e a próxima sai em dezembro. Obrigado a Lucia Farias e a toda a turma de lá pelo convite.

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Eu já li e recomendo o delicioso Nome da Cousa, de Fal Azevedo. Já encomendável no email aí de cima.

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Está saindo e o lançamento é em Porto Alegre:

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O lançamento do livro de contos do Blog de Papel (São Paulo: Ed. Gênese, 2005) acontece neste dia 12 de Novembro na Feira do Livro de Porto Alegre:

Tarde de Autógrafos, às 15h30, no Memorial do RS com o André Dahmer (Malvados) e com Alê Felix, Milton Ribeiro, Ticcia Antoniete, Ane Aguirre, alguns dos autores representados no livro.

Às 16h30, na sala O Retrato do Centro Cultural Érico Veríssimo, haverá uma mesa de bate-papo sobre Literatura e Internet com a participação do Dahmer, os autores do Blog de Papel e mediação do escritor Armindo Trevisan.

Dia 19 de Novembro rola o lançamento paulistano, na Primavera dos Livros - OCA/Parque do Ibirapuera, se não me engano com a presença de todos os 14 autores.

Foi uma alegria escrever o prefácio desse livro de contos de tantas feras-blogueiras. Obrigado à Alê Felix pelo convite e espero que os autores tenham gostado dos meus dois centavos de tagarelice na primeira página. O livro é muito supimpa, vale a pena.

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Hoje revisitei um poema assombroso: um petardo feminista em pleno século XVII, nas redondilhas barrocas da mexicana Sor Juana Inés de la Cruz.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post | Comentários (25)



terça-feira, 01 de novembro 2005

Times Inesquecíveis que eu vi, III

(esta série já homenageou o Internacional 1975-6 e o Grêmio 1981-3; esta vai com dedicatória para Lucia Malla, Luninha e todos os tricolores)

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A praxe é que vocês escalem a equipe. Bem, a escalação desta máquina é tão fácil que se nós não a tivermos até 2 da tarde na caixa de comentários será uma humilhação pública para este blog.

Desses da foto, 9 vestiram a camisa da seleção brasileira, e mais 1 a da seleção do seu país. Só o último em pé à direita pode dar algum trabalho, por nunca ter sido de seleção. Junto com o Inter de 75-6, foi a primeira máquina que vi jogar.

Como a escalação é muito fácil, deixo outras perguntinhas, em negrito ou em links, sobre esse verdadeiro escrete: ele foi montado por um certo presidente que inventou uma certa prática para sacudir de novo o que um músico-poeta chamou de "a capital do futebol". Sobre esse time um certo jornalista roqueiro recentemente escreveu um livro.

Junto com outra máquina, esse foi um dos dois grandes times brasileiros dos anos 70 que venceu estaduais e encantou, maravilhou a Europa durante seus torneios de verão, mas nunca ganhou um Nacional ou Libertadores. Na sua primeira semifinal de Brasileirão foi eliminado em casa, pois seu treinador, otimista, falou demais e o comandante do adversário usou suas declarações no vestiário, incendiando a sua equipe, que naquela tarde, por sinal, apresentou ao Maracanã dois monstros da bola. Na segunda semifinal, também em casa, foi eliminado numa inesquecível invasão de torcedores adversários, no jogo que inicia o desmanche da máquina, que durou dois anos.

Esse Fluminense marcou época e papou com facilidade os Campeonatos Carioca de 1975 e 1976, dando shows inesquecíveis (houve um 4 x 1 sobre o excelente Vasco da época que ficou na história). Com vocês a palavra sobre quem são os jogadores e os referentes dos negritos e link.



  Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post | Comentários (46)